Margaret

2 Antes que o mundo mude


Notas iniciais
Oie, pessoal ! Chegamos ao segundo capítulo. Espero que gostem ! Boa leitura 🤍

— Acho que já temos tudo.

Minha mãe observava os papéis sobre a cama. Olhei cada um deles e acrescentei mais um.

— Acho que nunca vi tantas receitas juntas. Vou levar uma farmácia inteira para a Coreia comigo — disse, com um suspiro.

— Eu nem acredito que você está mesmo fazendo isso.

Foi a vez de ela suspirar e se sentar na cama, juntando todos os papéis.

***

Duas semanas antes

— Um emprego?

— Isso.

— Sabe que eu trabalho na Coreia, certo?

— Sei... E sei também que você tem muitos contatos.

— Não precisa de contatos. Se quer um emprego, pode vir e trabalhar comigo.

— Não! Não vou trabalhar com você, pai. Já falamos disso.

Ele respirou fundo do outro lado da linha.

— Você sabe tão bem quanto eu: há linhas que não podem ser ultrapassadas.

— E, mesmo assim, ainda está aqui me pedindo um emprego.

— Estou pedindo um favor, Joseph. Mas, se não pode me ajudar, então...

— Eu não disse que não podia ajudar você — interrompeu. — Acho que tem razão. Trabalhar juntos nunca daria certo...

Ele parecia decepcionado com aquilo.

— Então, vai me ajudar?

— Quer algo na sua área?

Ele foi direto. Tive que pensar por alguns segundos.

— Não é um requisito. Eu só preciso reformular a minha vida, ter um pouco de estabilidade. Se encontrar alguma coisa, ótimo. Se não, tudo bem.

— Certo. Vou ver o que consigo. Até lá, tente não se preocupar tanto, mas fique pronta para viajar a qualquer momento.

— Ah, a qualquer momento... — Suspirei.

Foi quando ouvi minha mãe pigarrear na porta do quarto, visivelmente incomodada e, com certeza, amaldiçoando o próprio inglês fluente por ter entendido tudo o que havíamos conversado.

***

Duas semanas depois

Sentei-me ao lado dela. Seu olhar preocupado e o choro escondido quando soube da minha conversa com meu pai me fizeram pensar se eu estava realmente fazendo a coisa certa, mas não podia voltar atrás. No fundo, sabia que precisava daquela dose brusca de mudança.

Literalmente brusca, com apenas duas semanas de intervalo.

Eu estava realmente preparada para aquilo?

Essa foi a pergunta que mais ocupou minha mente depois do aviso de Joseph.

— Desculpe. A última coisa que eu queria com tudo isso era magoar você.

— Não estou magoada. Eu entendo por que está fazendo isso, e seu pai não faz mais do que a obrigação em conseguir esse emprego para você. Mas eu me preocupo. Meu bebê está indo embora e carregando bagagens demais.

Ela não falava das malas.

— Eu também estou preocupada. E com medo, não vou mentir... Mas, dessa vez, acho que é um medo bom. Uma mudança boa. Quero abandonar essas bagagens, mesmo que, para isso, tenha que envolver meu pai.

— É bom que a passagem seja de primeira classe e que o apartamento seja decente. Senão, eu juro que vou até a Coreia matar aquele cretino.

Finalmente, uma risada, mesmo que nossos olhos estivessem chorosos.

— Perdi minha parceira de séries — comentou, já em tom de saudade.

— Mãe, se o Daniel não assistir com você, vamos dar um jeito de assistir juntas e comentar por horas pelo telefone, está bem?

Então, ouvimos a porta se abrir. Eram seis da tarde, horário em que meu padrasto geralmente chegava do trabalho. Minha mãe saiu do quarto e foi ao encontro dele.

— Que monte de coisas são essas, Daniel? Dani, vem ver!

Atravessei a curta distância até a sala e os encontrei. Minha mãe bisbilhotava uma das várias sacolas que estavam sobre o sofá. A expressão de Daniel era impagável, uma mistura de expectativa e mal-estar.

— São roupas? — perguntei, aproximando-me.

Minha mãe pegou um dos itens, revelando um enorme casaco. Senti calor só de olhá-lo.

— Eu pesquisei e vi que lá faz muito frio, principalmente no final do ano. Achei que você fosse precisar.

Meus olhos se encheram de lágrimas na mesma hora.

Eu sentiria falta. Falta de tudo: das novelas e séries com minha mãe, do cansaço constante e irritante do meu padrasto, do olhar curioso do shih-tzu, que estava atento, tentando descobrir se os presentes eram para ele, e da indiferença do meu coelho um tanto raivoso na gaiola.

Sentiria falta de tudo.

Menos da Danielle que eu precisava deixar para trás.

— O que você vai fazer lá mesmo? — perguntou Daniel.

— Vou trabalhar na área de conteúdo digital e produção audiovisual.

— Fazendo filmes?

— Não exatamente. Filmagem, edição, bastidores, conteúdo para internet... Essas coisas. Vou começar como assistente.

— E é naquela empresa do BTS, não é? — perguntou minha mãe.

— É sim, mas tem outros artistas lá, ainda vou pesquisar mais sobre eles. Eu só li algumas coisas, não sei nada sobre K-pop.

— Eu os vi na internet. São bonitos. Você podia namorar um deles, quem sabe...

— Até parece, dona Flávia. Eu, hein. Estou ansiosa é pelo salário na minha conta.

Peguei mais uma peça de roupa, um lindo suéter marrom com costuras refinadas.

— Não quero nem saber quanto custou essa brincadeira aqui.

***

Alguns dias depois

— Tudo bem, você está pronta — concluiu minha mãe, ajeitando minha roupa, com o choro preso na garganta e escondido por um sorriso.

— Estou pronta.

Olhei para ela. Naquele momento, eu não conseguia fingir nem representar.

Doía.

Doía mais do que tudo.

Olhei para Daniel, que parecia o mais controlado entre nós. Seu sorriso era mínimo, mas calmo, o que me transmitiu alguma tranquilidade.

— Não se esqueça de comer e tomar seus remédios na hora certa... Ah, e sempre ande com um casaco.

— Pode deixar. Mãe?

Ela finalmente encontrou meu olhar e me abraçou, mais forte do que nunca.

O choro não estava mais contido. Nem seria possível.

Ali, naquele aeroporto, eu me despedia da minha alma gêmea. Dolorosamente, nos separávamos para que eu conseguisse continuar vivendo.

— Obrigada, mãe. Por tudo. Eu sei que não tornei sua vida fácil...

— Você a tornou brilhante, e sei que ainda vai brilhar muito mais. Sabe, o mundo vai conhecer essa força da natureza que chamo de filha. Eu só exijo lugares na primeira fila — brincou, com a voz um pouco anasalada.

— Vou dar a fileira inteira para você. Os créditos, tudo o que eu puder... Você vai sentir orgulho de mim.

— Eu já sinto.

Uma voz soou, anunciando a última chamada para o meu voo.

Naquele momento, minha mãe e meu padrasto se despediram com um beijo no rosto e um abraço. Palavras não eram necessárias.

Peguei minha bagagem e parti para um futuro duvidoso, sem conseguir olhar para trás.

Guardei a bagagem de mão e me sentei na poltrona da primeira classe. Era extremamente confortável. Ao redor, havia um ar de requinte silencioso. Os funcionários exibiam sorrisos, os passageiros mantinham expressões indiferentes e eu era a única com o rosto inteiro inchado pelo choro.

Minha mãe ficou.

Ficou com uma parte de mim.

Mas ela não ficaria sozinha, o que me trazia algum alento.

Eu também levava comigo uma parte dela.

Respirei profundamente, controlando outra crise de choro que tentava vir à tona. No meu celular, estavam todas as informações sobre minha nova vida e um contrato milimetricamente redigido. No aeroporto, ficava um difícil adeus a tudo o que eu conhecia e amava.

Mas estava na hora de erguer a cabeça e seguir em frente.

Notas finais
Darcy Again! Obrigada a todos que leram até o final ! Ansiosa para saber o que vocês acharam, me digam tudo, coisa boas, ruins, expectativas. Vou adorar ler ! Até o próximo 🤍