Margaret
3 A Cidade do lado de lá
Notas iniciais

Nem mesmo a poltrona da primeira classe era capaz de dar conta do desconforto de 36 horas de voo e conexões. Tudo me incomodava, até mesmo as roupas que eu usava, que já pareciam apertadas demais.
Remexi-me mais uma vez. O homem sentado a algumas poltronas de distância pareceu incomodado com a minha inquietação. Eu, particularmente, não me importei. Só queria sair logo dali.
Apertei o cinto e suspirei, aliviada, ao ouvir a voz do piloto anunciando que pousaríamos. Foi tudo tranquilo, e ainda estava claro quando saí do avião.
Não fazia ideia de que horas eram. Tudo ainda era confuso para mim. Porém, não perdi tempo e fui logo atrás da minha bagagem.
Uma vida inteira em cinco malas.
Perto da saída, estranhei a quantidade de pessoas com máscaras no rosto. Algumas até usavam luvas, enquanto, no Brasil, tal costume já estava sendo abandonado.
Segui as instruções do meu pai e procurei por um homem de óculos, também de máscara, segurando uma placa com o meu nome. Não foi difícil encontrá-lo.
— Olá, senhorita Quinn. Bem-vinda a Seul.
— Oi. Senhor Han, certo?
Finalmente, via utilidade nas aulas de coreano que meu pai havia insistido para que eu fizesse quando mais nova.
— Vou levá-la até o seu apartamento. Vamos?
Assenti com a cabeça e segui o homem alto e esguio até um carro preto estacionado do lado de fora do aeroporto.
O percurso foi tranquilo. Tentei observar ao máximo tudo ao meu redor. Havia outdoors com grupos de K-pop por toda parte, assim como prédios e arranha-céus de arquitetura moderna que decoravam as ruas.
A Coreia exalava limpeza e tecnologia.
O senhor Han foi extremamente gentil. Volta e meia, ajustava os óculos enquanto fazia questão de explicar devagar o nome das ruas e onde elas levavam, os melhores Cybercafés, os pontos de ônibus, como funcionavam os táxis e como era fácil conseguir um motorista por aplicativo, caso eu precisasse.
Ele me deixou em segurança em frente a um prédio robusto, cinza e sem portaria.
— Bom, aqui está, senhorita Quinn — disse, enquanto eu pegava minha última mala. — Aqui estão as senhas do apartamento e do portão.
— Obrigada.
Peguei o papel com as anotações e me curvei levemente em agradecimento.
— Deve ser assustador estar aqui sozinha, mas vai ver que é muito fácil se locomover por aqui. Logo você se acostuma.
— Agradeço por ter me trazido até aqui. Não se esqueça de pedir um bônus para o meu pai por isso. — Sorri.
— Claro. — Ele devolveu o sorriso. — Aqui, este é o meu cartão. Ligue para mim se precisar de alguma coisa.
Com uma piscadela, ele me entregou o cartão com suas informações e entrou novamente no carro.
Respirei profundamente quando o perdi de vista. Estava sozinha e em silêncio. A fadiga me dominava àquela altura.
As informações no meu celular indicavam que o aluguel do apartamento estava pago pelos próximos três meses.
Seria algum tipo de compensação da parte dele?
8º andar, apartamento 803.
Meu estômago revirou em uma crescente ansiedade ao entrar no prédio. Após apertar o número do andar no elevador, fui levada até o meu mais novo “lar”.
Minhas mãos trêmulas digitaram incorretamente a senha da porta duas vezes, mas, enfim, ela se abriu.
— Meu Deus.
Foi tudo o que consegui dizer, boquiaberta diante do que encontrei.
Dei uma olhada rápida em tudo, mas parti para o que mais me interessava: meu quarto.
Por um momento, o cansaço foi substituído por uma dose de prazer. Joguei-me na enorme cama, bagunçando as almofadas. Não me importei. Aquele era o meu quarto. Aquela era a minha cama.
Era tão confortável que quase fechei os olhos e fiquei por ali mesmo, mas sabia que, do outro lado do mundo, havia uma pessoa ansiosa por notícias.
Digitei rapidamente o número da minha mãe.
— Filha! Já chegou? Como você está? Como foi o voo?
— Mãe, acho que meu pai exagerou.
— Ai, meu Deus! Você já está no apartamento? Como é?
— Tem dois quartos. Ainda não vi o outro, mas o meu...
Sentei-me e virei a câmera, mostrando tudo.
— Ele é perfeito. A cama é gigante!
— Então, ele acertou em cheio o seu gosto.
Saí do quarto e comecei a andar, observando tudo ao redor e capturando cada detalhe.
O apartamento era moderno e, ao mesmo tempo, aconchegante, seguindo, em sua maioria, uma paleta de branco, cinza e preto nas paredes e nos móveis. Podia ser apenas mais um apartamento para algumas pessoas, mas, para mim, uma brasileira de classe média baixa, aquilo era monumental.
— A sala se conecta à cozinha. Tudo em conceito aberto e com pé-direito alto.
Ela riu. Com certeza, tinha se lembrado de Drew e Jonathan nas infinitas reformas do programa de que tanto gostava.
Saí da sala e encontrei três portas. Uma delas levava a um banheiro simples e bem equipado. Abri outra e encontrei um quarto também simples, com uma cama, uma cômoda, um cabideiro e uma mesa de cabeceira.
Em seguida, voltei para o meu quarto — ou melhor, para a minha suíte — e me sentei na cama.
— Vou fazer uma chamada de vídeo mais tarde e contar tudo com mais detalhes. Agora, preciso de um banho e colocar a cabeça no lugar — disse, bocejando.
— Você deve estar exausta. Dorme, descansa e depois a gente se fala, está bem? Já estou morrendo de saudade.
— Também estou, mãe. Eu te amo!
— Eu também te amo, querida. Bom descanso!
A chamada foi encerrada, e olhei ao redor com um sentimento agridoce. Aquela nova fase se apresentava com muito deleite, ao mesmo tempo em que aquele silêncio me fazia perceber que eu estava sozinha.
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