Margaery estava nos aposentos de Lorde Waynwood. Aposentos enormes, dignos para qualquer lorde, mas, nos padrões de um castelo como Harrenhal, eram bem… modestos. Eram bem maiores do que os de Ysilla, com o teto sendo tão espaçado do chão, que chegava a deixar os hóspedes desconfortáveis. O mesmo poderia ser dito sobre o espaçamento entre as paredes do cômodo, tão distantes umas das outras, que faziam com que o recinto tivesse a opulência de um salão.
Lorde Roland Waynwood não vestia qualquer peça preta para simbolizar o luto, com exceção da roda quebrada na parte esquerda do peitilho de seu gibão verde.
O lorde estava com o irmão de Ysilla, Andar, e estava sentado atrás de uma mesa carvalho.
Andar lançou um olhar irritado para a irmã, apertando os olhos e fitando-a de esguelha.
Apesar da censura velada dele, Rolland sorriu e levantou-se da cadeira:
— É um prazer vê-las, miladies — saudou-as, indo até elas. — Não é todo dia que se vê duas beldades tão cinzeladas! — Beijou a mão de Margaery e deu um beijo em cada bochecha rosada de Ysilla. — Não deviam sair neste frio, devo dizer.
— Daenerys me dispensou após saber… — Margaery se calou, pigarreou, corrigiu-se: — Vim dar-lhe meus pêsames, Milorde.
Roland levantou uma sobrancelha, parecendo não entender de imediato o que havia acabado de ouvir. Em seguida, arqueou ambas as sobrancelhas.
— Aaaah! — Meneou a cabeça, num gesto de compreensão. — Sim, sim, sim… Harrold. — Gesticulou com a mão, abanando o ar. — Não gastem suas salivas, senhoras. Não vale a pena. — Gesticulou para duas poltronas de espaldar, perto da lareira. — Sentem-se, aqueçam-se, eu insisto.
Andar Royce foi para mais perto de Roland, fazendo ambas hesitarem.
— Não queremos tomar-lhe o seu tempo — Margaery comentou, dando um sorriso forçado.
Roland franziu o cenho, até que olhou para Andar e pareceu compreender o nervosismo das duas.
— Pode deixar-me, Andar — disse Waynwood. — Quero falar a sós com essas belas jovens.
Andar bateu o pé, franzindo o cenho.
— Tem certeza?
Roland anuiu.
— Absoluta. Vamos, saia.
Andar assentiu. Girou os calcanhares para fora dali. Enquanto passava, seus olhos cinzas fitaram Margaery.
— Tenho mesmo que ir — comentou ele. — Preciso falar com meu pai.
Margaery entendeu bem aquela mensagem. Que ele falasse, depois ela lidaria com ele.
Ela e Ysilla sentaram-se perto da lareira, deixando o calor derreter a neve em seus corpos.
Era ruim que Andar as tivesse visto. Margaery esperava que outros lordes estivessem com Roland quando elas foram anunciadas, porém não foi o que aconteceu. Justamente o irmão (logo ele!) desconfiado de Ysilla era quem estava lá.
Não importava. Lorde Waynwood estava perto delas. Era o seu momento.
Quando Roland colocou uma mesa ao lado das duas, Margaery disse:
— Sabe como seu primo morreu?
Roland deu de ambos, ergueu uma taça de cerveja nortenha e bebeu. Afastou-a dos lábios e limpou a boca com a manga das vestes.
— Não exatamente. Ainda não vi o corpo, passei parte do dia falando com os lordes do Vale. — Suas narinas se dilataram e ele fez uma expressão irritada. — Tentei falar com os monarcas, mas eles estão ocupados.
— E a princesa? — arriscou-se Margaery a indagar.
Ele deu de ombros.
— Não fala com ninguém. Eu mesmo, junto de outros lordes, tentamos falar com ela, mas ela se trancou nos próprios aposentos e insiste em não ver ninguém. — Ele moveu-se um pouco para frente,de forma brusca. — Acreditam que ela deixa aquele maldito Cão de Caça dela como guarda? Cheguei a achar que ele mataria a todos nós!
— Ele os atacou? — indagou Margaery.
Roland fez que não.
— Não, mas algum dos soldados foi idiota e quase arrumou um briga com ele! Sorte nossa que Yohn Royce colocou algum bom senso na cabeça do idiota. — Sorveu um pouco mais da cerveja. — Sandor poderia ter matado uma boa parte de nossos homens até finalmente cair… se é que cairia.
— E ele é mesmo assim, tão temível? — indagou Ysilla.
Roland fez que sim.
— Uma abominação, quase tão cruel quanto o irmão — declarou Lorde Waynwood. — Relatos dizem que ele devastou as terras do Tridente! É uma infâmia que fique livre!
Margaery assentiu.
— E o que a princesa diz sobre isso?
— Fala que são boatos maldosos. — Roland balançou a cabeça. — Está delirando se acha que Sandor está livre de pecados.
Inocente ou não, Sansa estava fazendo um favor aos seus inimigos ser tão próxima de Sandor. Ah, sim, isso era de uma ajuda imensa.
— Se bem que dizem que Sandor ajudou a irmandade — pontificou Ysilla. — Lorde Edmure atestou isso? Afinal, ele…
— Um pecado não o redime dos outros. Sandor é um monstro, sempre será. É uma lástima que o Rei do Norte deixe-o perto de sua irmã.
— Falando nela — Margaery tentou mudar de assunto, indo até onde queria —, e o Vale, Milorde? Eles já anunciaram…
— É o que quero saber! — exclamou ele. — Eles vão protocolar a soberania do Vale até o fim desta guerra maldita, pelo que vejo!
— E, pelo que vejo, tal guerra demorará para sequer recomeçar — Margaery o atiçou.
Lorde Roland não a decepcionou.
— Estamos aqui, perdendo tempo nesta fortaleza, que mais parece uma citadela amaldiçoada, enquanto Aegon senta no Trono de Ferro, banqueteando-se, ao mesmo tempo que nossos reinos são deixados para os corvos! — bradou ele, no auge da cólera. O enfuriamento era tanto, que as bochechas de Roland estavam em brasas.
Ysilla ficou visivelmente chocada com a raiva do homem. Margaery também, mas tentou segurar o choque. Ela pousou a mão sobre a dele.
— Deve ser difícil para você, Milorde, ter de ficar aqui — apontou para o cômodo, gesticulando com a mão —, nesse lugar frio e escuro, enquanto suas terras são tomadas por selvagens do clã! Oh, é uma injustiça sem tamanho!
— De fato, é! — concordou ele, ainda irritadiço. Suspirou, botou a outra mão sobre a de Margaery, dando um aperto frágil. — Desculpe, Milady — deu tapinhas nas costas da mão pálida dela —, não quis exceder-me. A situação toda é um caos, estamos futricados em fintas.
De fato, ela pensou. Existiam fintas e mais fintas nos últimos tempos. Foram-se os dias normais em Westeros; restavam apenas ardis.
— É uma pena — ela comentou. — Sinto falta de dias normais. — O cansaço em sua voz era real. Sentia-se esgotada. — Saudades dos campos frondejantes que existem nas terras de meu pai.
Notou um brilho umedecido nos olhos escuros de Roland. Sim, ele mordeu a isca.
— São belas terras, eu imagino.
Um belo dote, você quer dizer.
— Lindas! Rosas douradas até onde a vista alcança. Muito mais belas e cheirosas do que as rosas de inverno que andam crescendo agora.
O Lorde de Ferrobles assentiu, sorrindo.
— Terras lindas, tal qual a Lady delas — ele arriscou-se a dizer a ela.
Margaery continuou a manter o sorriso, se segurando para não reagir a morte decretada para seu irmão mais velho que aquele imbecil feio havia acabado de decretar implicitamente.
— Obrigada — respondeu ela. — Ambos sabemos que estar longe de nossas terras é doloroso.
— Deveras.
O crepitar da lareira tornou-se o único barulho do cômodo, criando tições luminosas.
Margaery pensou no que mais poderia dizer, mas, antes que falasse algo, Ysilla disse:
— Milorde, crê que a regência do Vale continuará com Lady Myranda?
Ah, a pergunta perfeita!, pensou Margaery.
Roland grunhiu.
— Myranda é uma boa moça, tenho certeza, mas não está qualificada a comandar todo um reino!
Margaery aproveitou a chance:
— Tenho certeza de que a princesa Sansa, a quem os monarcas e os lordes depositaram a confiança de que é capaz resolver os problemas do Vale, vai escolher uma pessoa competente e do gosto de todos para governar a região.
Roland assentiu.
— A princesa é esperta, deuses o sabem. Harrold foi um tolo por trocá-la por mulheres levianas.
E você não seria tolo como ele, não é?
— Sansa agora está livre — lembrou Margaery. — Quando o período de luto passar… — Deixou o resto por dizer.
— O período nem sequer deveria ser necessário — ralhou Roland. Deu de ombros. — Que seja. Deixe o tempo passar; logo a princesa poderá casar-se com alguém de boa estirpe.
Margaery assentiu.
— Imagino que ela seria uma boa forma do futuro Protetor do Leste manter-se no cargo. — juntou as mãos no colo e ajeitando-se na cadeira. — Afinal, se o futuro lorde do Ninho da Águia for solteiro…
Mais uma vez, deixou as palavras por dizer, para Roland matutar sobre elas, que assentiu para ela, bem lentamente.
— Sim… Sansa, digo, a princesa Sansa, seria uma esposa ideal para o herdeiro escolhido dos Arryns, de fato.
Agora é ver o que se dará disso tudo.Os Starks não muito unidos pelo que Margaery andou vendo desde que chegara. E Daenerys tampouco estava mais bem consolidada com os lordes de Westeros.
Norte, Vale, Tridente. Três reinos unidos em um mega-reino. Tal união, é claro, dependia de seus monarcas para se manter.
O Norte era firmemente fiel a Jon Stark, porém estava com problemas desde que ele se aliou-se a Daenerys. O Rei estava no fio da navalha, tendo que tomar cuidado para não destruir qualquer relação que tinha com seus lordes — Daenerys, talvez, tivesse ajudado um pouco o próprio lado após matar Euron, mas os nortenhos nunca se esqueceriam das baixas que a própria rainha havia lhes causado na guerra.
O Vale, Margaery havia notado, seguia Jon, mas eram guiados por Sansa. Esta, porém, parecia estar em gelo fino, dada a atual situação da crise de sucessão do Reino das Colinas, assim como pelas escolhas de amizade dela.
O Tridente havia sofrido grandes baixas,e isso desde a guerra dos cinco reis. Apesar disso, pareciam insistir em permanecer na guerra. Margaery imaginava que, além de seguirem o herdeiro de Robb Stark, também tinham um grande apreço por Lorde Edmure Tully — infelizmente, Margaery tinha poucas expectativas de que isso fosse mudar: Edmure os manteve fiéis desde a guerra contra Joffrey; dificilmente o largariam agora.
Para que esses reinos se voltassem contra os monarcas — principalmente o Vale —, não precisaria de muito. Os Starks pareciam desunidos, Daenerys era odiada por muitos, e Stannis tampouco estava em melhor situação.
Para a sorte de Margaery, os Lordes da Tempestade estavam em frangalhos; logo eles viriam a morrer — e, com eles, os últimos Florent, para a alegria de Margaery.
— Sansa seria uma boa lady do Ninho da Águia — Roland disse. — Ela foi boa no passado, não vejo motivos para que ela não o faça novamente. Vale mais do que as ruínas geladas de Winterfell e todas as suas terras.
Mas você não reclamaria se as herdasse, pensou ela. Se nem sua própria família, muito mais rica que os Waynwood, perdeu a chance de tentar herdar o Norte, Roland não seria diferente.
— É bem capaz dela lhe escolher, Milorde — Margaery disse. — Era primo de Harrold, seu parente próximo, além de ter um bom sobrenome. De certo, seria um bom lorde para o Reino e, quem sabe, um bom marido para com Sansa.
Lorde Roland se recostou no espaldar e sorriu ao ouvir aquilo, alisando o queixo largo.
— Ah, sim — disse ele —, eu seria bom lorde e marido. De fato.
Vendo que não havia mais o que fazer ali, Margaery se levantou. Alisou as dobras das saias.
— Milorde, se me der licença, tenho de voltar a minha soberana. — Deu um sorriso meio sem jeito. — Ela é severa se demoramos muito…
Ao ouvir aquilo, Lorde Roland bufou.
— Estou certo que ela é — ralhou ele. Acenou com a cabeça. — Podeis ir, Milady.
Margaery virou-se para Ysilla.
— Pode ficar, minha cara. Tenho certeza de que você e o Lorde de Ferrobles tem muito o que falar.
Entendendo o significado de tais palavras, Ysilla assentiu, fitando-a com seus olhos cinzas e castanhos.
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Margaery só podia rezar para que Ysilla fosse gentil com Lorde Roland. A imagem de uma bela jovem ser deixada de lado por uma bastarda aqueceria o coração de qualquer lorde honrado.
Decidiu ir até Lorde Brynden Blackwood. Ele era um lorde do Tridente agora, ele tinha vassalos e soldados. Sim, e, ela sabia, estava desgosto com a coroa que jurou seguir.
Mas o que poderia fazer para que ele se unisse a ela? Afinal, Margaery nada tinha para ele, exceto…
Casamento.
Infelizmente, casamento era algo que Margaery teria de enfrentar. Casamento pouco significava para ela no passado, pois era mais um simples dever a ser cumprido, mas agora…
Era como se casamento não fosse mais algo que combinasse com a vida dela. Como se tivesse algo do passado, de outra vida, de outra Margaery completamente diferente.
Suspirou, erguendo o capuz. Estava andando a esmo na neve, perdida em suas lamúrias básicas que vinham sempre com amiúdes em sua mente. Eram irritantes e supérfluas, não merecendo atenção.
Apesar de usar botas de cano alto, seus calcanhares afundavam na neve fofa e açucarada. O vento perpassava suas vestes aquecidas, obrigando ela a se abraçar, tremendo de frios. Seus dentes batiam uns nos outros.
O bater de metal contra metal soava distante; os homens — e até mesmo as mulheres — treinavam espadas e lanças, apesar da praga. Era uma forma de fazerem algo.
Será que Lorde Brynden estaria lá?
Margaery girou os calcanhares, mudando seu curso, indo até o barulho das espadas. O vento batia de forma mais violenta contra seu corpo, empurrando-a para longe, fazendo a capa de seu manto esvoaçar e chicotear o ar.
Margaery se sentia uma citadina andando em uma imensa cidade, tamanho a imensidão do castelo de Harren, o Negro. Perguntou-se se a Muralha teria o mesmo aspecto intimidador que aquela imensa fortaleza.
Alguns lumes começaram a aparecer a esmo conforme ela vagava na neve enregelante e fofa. A escuridão era tão densa, que as fogueiras eram quase totalmente ocultadas pela escuridão, demorando para serem vistas de longe, e sumindo conforme Margaery se afastava dela. Notou que as chamas variavam não apenas de tamanho, mas também de cir.
Junto do crepitar do fogo, era possível ouvir o murmúrio dos sacerdotes vermelhos, balbuciando palavras que variavam entre várias línguas estrangeiras, e às vezes, a língua comum.
Após um calafrio passar pelo seu corpo, não pelo frio, mas pelo medo que sentia ao ver aquelas estranhas pessoas falando coisas as quais ela não entendia. Fez o sinal da estrela das sete pontas e fez uma prece silenciosa para a Mãe no céu, para que ela a protegesse do mal daquela religião obscura que Daenerys e Stannis trouxeram para Westeros.
Apesar da luz de algumas das fogueiras e uma ou outra tocha, o ambiente era escuro demais. Para piorar, a neve que caia em peso dificultava ainda mais a visão. Margaery lamentou-se por não ter uma luz consigo.
Enquanto virava para esquerda em uma imensa torre — ela não sabia qual o nome dela —, quase deu um salto para trás, assustada ao ver uma figura se afastar da parede de tijolos semi-derretidos e se interpor no caminho dela.
— É perigoso para uma donzela andar sozinha.
Apenas de ainda tremer de susto, ela conseguiu reconhecer a voz da figura à sua frente. Estava abafada pelo elmo, mas ela a conhecia muito bem.
— Pelos deuses, Sor Gendry! — ralhou ela. — Quase matou de susto!
O cavaleiro ergueu uma lanterna a óleo, revelando o corpanzil coberto por um manto vermelho. Usava botas de couro azul e tinha duas adagas em forma de mulher em cada lado de seu cinto. O elmo não era mais em formato de touro, e sim de um cão.
— Lamento, Milady — desculpou-se o rapagão. Afastou a viseira, revelando o rosto coriáceo, sorrindo. Os lábios pareciam machucados pelo frio, pois estavam azulados. — Estava atrás de você, mas tinha de ser a sós. Ninguém pode nos ver.
Margaery franziu o cenho, ainda fitando o elmo. Nunca tinha visto Sandor usá-lo, mas sabia das histórias.
— Por que está usando essa coisa? — ela perguntou. — Onde conseguiu?
— Aaah, meu elmo? Era de Limo, depois dele ter matado Cã… Seja lá quem estava usando. Harrold o decapitou, mas Arya achou o elmo entre as coisas de Euron. — Deu de ombros. — Ela achou que ficava bonito em mim, e eu resolvi usá-lo. O meu elmo de touro foi perdido mesmo.
Euron e Arya parecem ter gosto pelo sangue, pensou Margaery. Cada vez mais aquela princesa-bruxa a surpreendia.
— Não devia usar isso, Sor — Margaery lhe avisou. — Ele é maculado pelo ódio e pelo sangue.
Ele apenas deu de ombros.
Suspirando, vendo que ele não ia lhe dar ouvidos, ele mudou para um assunto mais importante:
— O que é tão importante para você querer vir falar comigo de modo tão… Soturno?
— Minha princesa sabe que gosto de você — explicou ele, enquanto levava uma mão ao bolso. — Ela disse-me, também, que o irmão daquele idiota que me cortou não deixa a princesa Sansa casar o irmão magrelo dele com aquela… Aquela loirinha que está sempre com ela.
— Wylla? — perguntou. Ainda estava desconfiada; o que uma coisa tinha haver com a outra? E por que Arya sequer se importava?
— Deve ser essa mesmo. — Ele disse, meio despreocupado, sem parecer se importar. Por fim, retirou algo do bolso. — Aqui. Arya disse que isso deixará a barraca daquele magrelinho bem armada.
Era um pote com ervas. O cheiro era forte e azedo. Gendry estendeu a mão na direção de Margaery, para que ela pegasse o conteúdo. Quando ela não o pegou, ele gesticulou com a mesma mão, para que ela pegasse logo.
Margaery não confiava em Arya; por qual motivo aceitaria aquelas ervas? Era claramente uma finta…
Quando percebeu que ela não faria o que ele queria, Sor Gendry deu um suspiro.
— Vamos, Milady…
— Por que eu deveria confiar na sua amada princesa?
— Confie em mim, então.
— Humpf! Sei bem como você é confiável, Sor. — Passou uma mão pela garganta.
Sor Gendry ficou corado.
— Lamento por isso, Milady. — Pigarreou. — Temo ficar descontrolado quando o assunto é a Arya…
Ela acenou em concordância.
— Com certeza. — Olhou para as ervas na mão calosa dele, depois voltou a olhar Gendry. — Essas ervas…
— Use-as com cuidado — avisou-lhe. — Ned disse-me que o deixaram insano, mas nem podia imaginar o que viria a acontecer ao tomar.
Margaery franziu o cenho.
— E por que vocês tomaram tal coisa?
Gendry pareceu perceber que falara demais e mordeu o lábio azulado.
— Deixe para lá. Apenas dê isto ao tal Hos, e deixe-o sozinho com sua amada. Ah, e garanta que a amada dele também tome um pouco. Creio que isso irá garantir que ela não se machuque. — Ele voltou a esticar o frasco de ervas na direção dela.
Apesar de ainda hesitante, Margaery tomou as ervas.
— Como eu…?
— Coloque em alguma bebida, vinho deve servir, e aqueça para misturar. O resto você já sabe.
Ela assentiu.
— Você ainda não me respondeu, sor — ela insustiu. — Por que Arya…?
— Ela disse-me que a irmã não tem coragem de ir contra o idiota do Brynden e casar Hos e Wylla. — Deu de ombros. — Então — sorriu —, ela e eu decidimos que podemos ajudar Sansa e irritar o desgraçado que me fez isso. — Apontou para a cicatriz de aparência pungente.
— E como eu entro nessa?
Ele respondeu com outro dar de ombros.
— Ela disse-me apenas que você tinha seus planos para os Blackwoods.
Margaery sorriu. Aparentemente, a estúpida princesa não era tão boa observadora assim.
— Ah, sim. Eu tenho mesmo. — Assentiu. — Obrigada, Sor, sabe como ajudar donzelas em apuro.
Gendry sorriu e fez uma leve vénia.
— É sempre um prazer, milady. — Olhou em volta. — Agora, se me der licença, vou achar uma fogueira para rezar, e, depois, tenho de voltar a aquecer eu mesmo minha princesa. Ela anda muito… esfomeada.
Ela fez uma careta e acenou com a cabeça, deixando o ir, sem querer saber qualquer detalhe a mais.
Gendry subiu o capuz e passou por ela, deixando-a sozinha e no escuro.
Quando percebeu que ele havia sumido, ela olhou para o frasco de ervas, perguntando-se se podia mesmo confiar em Arya. Bem podia aquilo tudo ser uma artimanha para levar Margaery para o bloco do carrasco… Ou para a boca do dragão.
Ao pensar na última possibilidade, engoliu seco.
Ao guardar o frasco no bolso escondido de seu manto, ela ouviu um som alto, parecendo um grito distorcido, que quase a fez gritar. Virou, mas não viu nada. Somente após ouvir outro crocitar, ela olhou para cima.
Após um tempo, conseguiu visualizar o formato de um corvo, grande e cheio de neve, observando-a do alto de uma ameia. O pássaro deu mais um crocitar, fitando-a com seus olhos escuros.
Sentindo um arrepio, Margaery fez o sinal da Estrela de Sete Pontas e girou os calcanhares para fora dali.
Nem quando ouviu o adejar das asas ela se virou, mas ainda podia sentir os olhos negros da ave a esquadrinhando.
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Sansa colocou um vestido preto, sem renda. O corte na frente revelava o tecido cinza-escuro por baixo do tecido. Usava um véu de seda preta e transparente por cima dos cabelos. Apesar do luto não ser verdadeiro, achou melhor seguir as normas de luto, como sinal de respeito aos costumes — e ajudar a evitar a impertinência dos lordes.
— Esse castelo tem muitas escadas — ralhou Sandor, enquanto erguia um archote, andando na frente da princesa.
— A arrogância de Harren devia ser quase tão grande quanto — Sansa comentou enquanto subia os degraus. Segurava as saias do vestido, puxando-as um pouco para cima, para levantar a bainha do vestido. Pelo menos o movimento evitava que o frio tomasse o seu corpo.
Quando chegaram ao topo da Torre da Pira do Rei, Sansa estava cansada, com os pés doloridos, com medo de que a sola de seus sapatos estivesse estragada.
Os imaculados que faziam guarda na porta dos aposentos reais estavam usando roupas de couro fervido e pele grossa — se estavam mais enfraquecidos pelo frio, ao qual não estavam acostumados, faziam um ótimo trabalho para esconder. Eles ainda seguravam lanças e usavam capacetes pontudos como sempre.
Sansa notou que eles estavam mais inchados do que eram. Ao vê-los mais de perto, conforme ele se aproximava, pôde constatar que, sim, estavam a engordar. Principalmente na cintura.
Devia ser resultado da castração, como acontecia com alguns animais. Bem, ela duvidava que isso tornasse os Imaculados menos mortais.
Os Imaculados eram um exército curioso de Daenerys; muitos homens, principalmente aqueles que não conheciam as histórias de lutas de tais soldados, podiam facilmente menosprezar a capacidade deles — aparentemente os homens tinham uma má impressão pelo fato dos guerreiros de Essos não terem um membro viril, como se isso retirasse a masculinidade que os tornaria “verdadeiros guerreiros”.
Sansa, entretanto, sabia que os Imaculados de Daenerys eram máquinas de matar mortíferas. Os mestres de escravos os treinavam de modo tão bruto, que os soldados pareciam esquecer quem eles eram, além de serem privados de seus direitos humanos básicos.
Daenerys conseguiu derrotar grandes cidades de Essos com aquele exército de eunucos; se alguns homens os achavam fracos, dificilmente iria sobreviver muito tempo em um combate contra eles.
Mas eram fracos contra o inverno. Sim, ela fez uma nota mental sobre isso. Poderia ser importante.
Os Imaculados não eram o único exército fora do padrão de guerreiro westerosi: Daenerys também tinha mulheres lutando ao seu lado, as tribos selvagens de Além-Muralha também tinham mulheres guerreiras, e as Mormont sempre foram hábeis guerreiras.
Ao divagar sobre tudo isso, Sansa perguntou-se: existiria um futuro de mulheres guerreiras sendo aceitas? Podia demorar, mas era um fato: os homens estavam tendo de aceitar que não eram mais os únicos a lutarem de espadas.
Outrora, tal pensamento teria enchido-a de repulsa, mas, agora, ele apenas fez Sansa dar um leve sorriso.
Os soldados afastaram as lanças para dar passagem para Sansa, ela atravessou a soleira, adentrando o cômodo. Sandor ficou para trás, a contragosto, mas em silêncio.
Jon, Daenerys e Stannis estavam sentados de frente a uma mesa redonda.
Enquanto caminhava até os três monarcas, Sansa rezou para que a Mãe no Céu para prepará-la para o que seria seu ordálio.
Jon nunca faria algo contra mim, pensou, enquanto caminhava até a mesa. Seu irmão a amava, sabia que ela nada fez contra Harrold.
Agora, os outros dois monarcas…
Apenas Sor Jorah e Tumco Lho faziam guarda atrás dos reis. Melisandre também estava lá, mas estava quase escondida, ficando ao lado da lareira.
Sansa não gostava do fato de ter apenas dois guardas da Daenerys ali. Eles podiam simplesmente cortar a garganta de seu irmão e Stannis.
Por sorte, Fantasma estava ao lado de Jon. O animal era imenso. Sem dúvidas facilmente rasgaria gargantas e esmagaria ossos. Entretanto, ele parecia cabisbaixo, com olhos tristes e as orelhas estavam caídas.
Sansa queria ter trazido sua loba consigo, mas temeu que a loba atacasse Daenerys. Agora, porém, sentia-se facilmente exposta sem sua companhia.
Antes de se sentar, a princesa fez uma vénia aos três monarcas, sentou-se do outro lado da mesa, ficando de frente a Daenerys.
Esta escondia suas cicatrizes de queimadura em um vestido vermelho pesado. A estola era grossa, de pele de cabra negra e espessa. Apenas um rubi engastado no peito, em formato de dragão, servia como adereço ornamental.
— Que bom que a princesa se dignou a aparecer. — As palavras eram algo que Sansa facilmente esperaria ouvir do Rei Stannis. Entretanto, não foi uma surpresa ouvi-las de Daenerys.
— Vim quando meu irmão me convocou — ela contrapôs.
— Humpf! — Daenerys fez um som irritado. — Seu marido morreu há quase dois dias, e você nem…
— Meu período de luto é só meu — cortou a princesa. — Tenho certeza de que a rainha sabe como é isso.
A rainha olhou de soslaio para Jon, esperando que ele fizesse algo, mas o Rei apenas fechou os olhos por um tempo, como se dormisse, e depois abriu as pálpebras. Sansa compartilhava desse sentimento, mas era pelo fato de que seu irmão deixava a rainha falar daquele jeito com ela sem fazer nada!
Enquanto o Rei do Norte permanecia em silêncio, o Rei Stannis falou:
— Deixem essa rivalidade ridícula de lado — ralhou ele. — Temos assuntos mais pertinentes para discutir.
Daenerys comprimiu os lábios, assentiu, voltou a olhar Sansa e disse:
— Alguém matou seu marido. Entretanto, ele não foi o único alvo de regícidio.
A princesa franziu o cenho.
— O que quer dizer?
Sansa perguntou para Daenerys, mas Jon foi quem respondeu.
— Uma comida que estava na cozinha, prestes a vir para cá, foi envenenada.
Ela abriu mais os olhos.
— O quê?
— Um cachorro acabou por comer um pedaço da carne — continuou Jon. — O animal veio a morrer pouco depois. Ele… sufocou.
Sansa anuiu, tentando parecer calma. A pessoa que matou Harry podia ter tentado matar Daenerys. Ou serem dois casos distintos; ambos eram odiados pelos aliados de Jon.
— A comida era para cá — Jon disse. — Minha Rainha tem um provador real, mas ainda sim… — Abanou a cabeça. Virou o rosto para o imenso lobo branco ao seu lado e apontou para ele com o queixo. — Fantasma também comeu algo que não lhe fez bem. Não morreu, pois vomitou, mas pouco mais podia tê-lo matado.
Sansa levou uma mão para a boca. Imaginava que algum apoiador tivesse matado Harrold, e talvez até tentado a sorte com a Rainha dragão, mas, agora, ao saber daquilo, percebeu que o alvo podia ser bem maior do que a herança do Vale.
E ambos eram servidos por servos de Essos. As forças de Daenerys já não eram mais seguras.
— O veneno era o mesmo que matou Harrold — pontificou Daenerys, voltando a olhar para a cunhada. — O mesmo veneno que matou Joffrey.
Sansa se endireitou e endureceu o rosto.
— Não gosto do que insinua, majestade.
— Não insinuei nada — redarguiu ela. — Mas, se você sentiu-se afetada…
Sansa a ignorou e voltou-se para Jon.
— Já interrogaram Margaery? — Sabia que era muito óbvio, e que a moça não tinha os meios necessários, mas ela já havia usado o veneno antes.
— Lady Margaery está sob minha proteção — falou Daenerys rapidamente. — Sei que ela nada fez. Não é uma ameaça.
Mas eu sou?
— Está deixando suas emoções anuviarem seu julgamento, minha rainha.
— Ah, eu estou? — Deu um sorriso amarelo. — Margaery não escapou sozinha. Na verdade, que eu me lembre, ela nem sequer veio a tentar fugir por si própria!
Sansa sentiu o sangue nas bochechas. Devia estar ficando mais vermelha. Queria que Arya ou Edmure ali. Podiam defendê-la, já que seu irmão não o fazia.
— Por acaso já chamaram minha irmã?
Quando o Rei do Norte abriu os lábios para falar, a Rainha falou primeiro:
— Sua irmã está sempre treinando ou com os amantes. — Daenerys pareceu se encolher um pouco. — E… Creio que ela não usaria suas ervas para… isto.
— De fato — concordou Sansa. Não esperava que Arya fosse culpada (afinal, por qual motivo ela tentaria matar Daenerys após admiti-la como sua rainha?). Porém, esperava que a presença dela a defendesse; Jon sempre foi protetor com sua irmã mais nova. — Mas ela é boa em espiar, como bem sabe.
Daenerys fez um esgar irritado ao ouvir aquilo.
— Princesa…
— Que eu lembre — Sansa a interrompeu, antes de ouví-la —, seus vassalos cuidavam da comida. Afinal, eles são “incorruptíveis para com sua salvadora”, não? Palavras suas.
A contragosto, Daenerys assentiu.
— Confesso que cometi um erro — admitiu a rainha, parecendo realmente abalada ao falar naquilo. — Mas…
— Seu erro quase custou sua própria vida — a princesa disse.
— Pare de me interromper! — Exclamou Daenerys. — Pelos deuses, eu não a acho culpada! Estava apenas querendo dizer que os lordes que você defende podem estar em um complô para nos matar e, não sei, lhe coroar, talvez?
A princesa não era tola para ver um plano como aquele; porém, não confiava que Daenerys não a acusasse como a mandante de tudo.
— Esses envenenadores podem ser seus apoiadores também — acusou Sansa. — O prato não poderia ser para o Rei do Norte? Afinal, foi o lobo dele quem envenenaram; o seu dragão — apontou para a rainha com o queixo —, porém, continua seguro.
A rainha aspirou profundamente, claramente furiosa com a insinuação dela. Sor Jorah e o soldado de Essos também pareceram amarrar a cara ao ouvir as palavras da princesa. Por sorte, não ousaram atacá-la.
— E você me culpa por isso? — indagou Daenerys.
Sansa respondeu com uma voz fria:
— Eu não a acusei de nada. Mas se sentiu afetada…
— Chega vocês duas! — Stannis bradou, olhando para ambas, colérico. — Não acham que estão ambas se perdendo na raiva? É óbvio que nenhum de nós faz parte disso!
Jon limpou a garganta para falar:
— É verdade. O inimigo quer nos ver divididos, para que assim, o caos reine.
Caos, pensou Sansa. Sim, sabia quem gostava de caos.
— Petyr — ela disse, fazendo todos a olharem. — É ele, ele é quem está por trás de tudo isso.
Daenerys franziu o cenho e virou-se para o Rei do Norte.
— Esse homem é assim tão ardiloso? — perguntou.
Você nem sabe o quanto.
— Se ele ainda não foi pego — Jon respondeu —, deve ser. — Voltou-se para sua irmã. — De qualquer modo, é óbvio que estamos perdendo tempo com isso. Chamei-a aqui, irmã, não para acusá-la, mas para avisá-la da situação em que estamos.
O Rei do Norte afagou o pelo branco de seu lobo. Olhou para ele com seus olhos desiguais, parecendo triste ao ver a fraqueza em seu companheiro, depois voltou-se para a irmã, recompondo-se, limpou a garganta e disse:
— Com a morte de Harrold, o Vale precisa de um herdeiro. Com esta guerra, eu pretendia afastar-nos dessa situação até tudo terminar; talvez até dar as terras para o guerreiro que se sobressaísse na guerra. — Fez um muxoxo, desgostoso com a situação. — Agora, porém…
— Os lordes do Vale andam alvoroçados — Daenerys concordou. — E a morte desse homem só veio a piorar tudo. Todavia, não podemos nos dar ao luxo de deixar a situação atual de lado para falar sobre essas terras. Pelo menos não ainda, afinal, nem sabemos quantos vão morrer no fim de tudo isso.
Sansa não achava que seria fácil ignorar aquela questão; os exércitos não se moviam, não lutavam, não guerreavam… que desculpa os reis poderiam dar-lhes para que deixassem a herança do Ninho da Águia de lado?
Não, era melhor resolver essa questão agora. Sansa já tinha a resposta, embora soubesse que os lordes iriam detesta-lá.
Entretanto, quando abriu a boca para falar, um grito estranho foi ouvido, a porta foi aberta de forma abrupta, fazendo todos se virarem em direção ao som, sobressaltados.
O chacoalhar da corrente continuou enquanto o homem que adentrava corria. Seu rosto estava brilhando pela perspiração, ele parou a poucos passos da mesa, curvou-se, resfolegando, fazendo um chiar enquanto lutava para pegar ar.
Dado o tamanho do caminho que eram os degraus, era uma surpresa que o gorducho Sam não tivesse desmaiado antes da metade do caminho.
Os imaculados foram logo atrás dele — aparentemente, ele desviou-se de um golpe deles, por isso os gritos de aviso —, mas Daenerys os parou com um gesto. Sor Jorah e Tumco deram um passo à frente, segurando os cabos das espadas embainhadas, alertas.
— O que foi, Sam? — perguntou Daenerys, levantando-se, seguida pelos dois reis que imitaram o gesto, e foi até o homem. — É Marwyn? Ele morreu?
— É o Banco de Ferro? — indagou Sansa, também se levantando. Ela se perguntou por qual motivo não era Alleras vindo trazer uma mensagem.
— É sobre a Muralha? — Jon indagou, embora soubesse que ninguém poderia mandar cartas do Norte.
O gorducho amigo do Rei do Norte ergueu uma mão, segurando uma carta.
— Mensagens… men… coff, coff… sagens… — Ele se esforçava para ainda falar, ainda com dificuldade. — Da… Capital…
— Da Capital? — Jon indagou, franzindo do Cenho. Ele avançou dois passos, passando por Daenerys, apressado, indo até o colega.
Ele segurou o antigo companheiro pelos ombros, ajudando-o a se erguer, enquanto resfolegava.
— Alle… Alle… — Ele tentava falar, mas ainda sofria para pegar ar. — Mandou-me… O Esfin…
— Sim, sim, entendi — Jon respondeu, para que o colega parasse de se esforçar. Ele pegou o papel e começou a ler.
— O que diz? — questionou Daenerys, aproximando-se, nervosa.
— É sobre Aegon? — Stannis quis saber.
— É o mal… — murmurou Melisandre, ainda vendo as chamas, longe de todos.
Sansa engoliu seco, vendo o irmão reler a carta diversas vezes, ficando nervoso como ela nunca o viu. Parecia tentar desvendar algum enigma na carta. Se suas mãos estivessem normais, os nós dos dedos estaríam brancos, tamanho a força com a qual ele agarrava o papel.
— Jon? — Ela o chamou.
Seu irmão virou-se, sem nada falar, olhando para todos.
— Não somos os únicos com traidores… — Ele disse.
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