Elinor sentia que seu peito estava prestes a explodir. Sentia seu coração acelerado batendo com um vigor furioso dentro de seu peito, fazendo seu corpo vibrar. Tentava acalmar-se, respirando de forma calma, mas o ar parecia entrar com dificuldade quando ela aspirava, pesado como chumbo. Sentia sufocar-se em seu vestido.

— Tenho mesmo que ir, mãe? — indagou ela, enquanto uma serva terminava de amarrar sua veste verde com renda de ouro simples.

Estava sendo boba. Sabia que teria de ir. Não podia atrasar mais o que tinha de acontecer, ou seria pior para ela.

— Você sabe que sim, filha — Lia respondeu, num tom de lamento. — Infelizmente, deveremos comparecer.

— Será rápido, Elinor — disse sua prima, Alla, que havia entrado nos aposentos há pouco. — Depois disso, poderemos voltar para a casa.

Ao ouvir aquilo, Elinor sentiu um arrepio enregelante percorrer seu corpo, indo das pontas dos pés até o topo da cabeça.

— Tomara… — Foi tudo o que conseguiu responder, numa voz baixa e frágil.

Elinor sabia que dificilmente iriam para Jardim de Cima depois disso; o plano de Aegon de livrar-se de Willas e de uma parte da corte campinesa não ia acontecer. Na verdade, o reinado do dragão estava prestes a cair novamente.

Elinor lembrava-se de que o pai de Margaery apoiara os Targaryens Na Rebelião de Robert, e o pai de Elinor o seguira, como muitos outros.

Quando Aegon e Daenerys vieram, entretanto, os tempos haviam mudado: Mace apoiou os Baratheon, e, mais uma vez, esteve do lado errado.

Não existiu uma terceira chance para ele, porém.

Agora Mace estava morto, assim como a maioria de seus filhos. Apenas Willas e Margaery haviam restado para dar continuidade a sua linhagem.

Willas podia ter desistido, mas Margaery estava pronta para terminar o que seu pai começou: matar o usurpador Targaryen.

E Elinor estava disposta a ajudá-la nisso.

Após isso, ela não sabia o que iria ocorrer com Willas e os outros campineses — mas, dado que a corte tinha diversos dorneses, não era difícil imaginar um banho de sangue prestes a acontecer.

Quanto a Daenerys, ela estaria com o caminho livre para conquistar o Sul. Se a prima de Elinor ia conseguir matá-la, isso apenas os deuses sabiam.

Elinor gostaria de falar com a prima, mandar-lhe alguma carta. Infelizmente, não o podia fazer. Nem sequer teve cartas dela para ler — apenas duas cartas simples. Uma, a primeira das duas, falando para ir ao bosque. A segunda continha as instruções para a morte de Aegon, Arianne e suas primas, e os traidores lorde Tarly e Lorde Rowan.

Era isso. Logo uma fase obscura de sua vida iria acabar, e outra iria começar.

— Vai ser bom voltar para casa — Lia Serry comentou, enquanto ajustava um colar de ouro com jades e esmeraldas. — Sei que estão cheias de neve, mas pelo menos os Homens de Ferro se foram.

Mas a praga não, pensou Elinor. Ficara chocada ao descobrir que a antiga mão do Rei trouxe uma crise de escamagris para a Campina. E, ainda mais surpreendente, era o fato dos lordes darem tão pouca atenção à praga do fluxo sangrento, que ainda atingia as ruas de Porto Real.

É porque atinge apenas a plebe, pensou, apenas a escamagris atingiu um nobre.

De todo o modo, ambas as doenças seriam uma crise para resolver.

Não importava, quer Willas fosse ou não para Jardim de Cima, ele teria de queimar toda a tapeçaria e móveis, além das vestes que havia no castelo. Escamagris era perigosa, altamente contagiante.

— Logo as coisas vão melhorar — Alla comentou. — Logo, quem sabe, teremos um pouco de paz para desfrutar de alguma opulência?

Elinor forçou um sorriso e anuiu.

— É… quem sabe?

Virou-se e encarou as janelas de cristal. Nevava pesarosamente lá fora, com flocos de neve açucarados caindo pesarosamente. O frio era tanto que a geada embaçava o cristal, deixando-o esbranquiçado e turvo.

Estava tão escuro que Elinor podia jurar que era a Hora do Lobo. Os archotes e velas iluminavam o local, banhando o cômodo com uma luz dourada que lutava para espantar as sombras.

Será que já existiu um inverno tão cruel assim?, ela perguntou-se. Os livros dos meistres talvez tivessem alguma resposta sobre isso. Elinor, entretanto, só podia pensar nas lendas da Longa Noite, mas não achava que fosse isso; o mundo ainda não estava tão insano a ponto de mortos feitos gelo invadirem. Se Os Outros fossem reais, de certo já teriam sido vistos neste inverno sombrio.

Balançou a cabeça. Estava divagando. Isso havia se tornado comum no seu dia a dia. Talvez ficar com as outras ladies a ajudasse a não divagar tanto, mas ela não queria chegar perto daquele bando de falsas. Passava o menor tempo possível com as mulheres que lhe deram as costas quando era refém de Aegon e Daenerys — não que as coisas tivessem mudado muito. E não suportava estar perto daquela falsa dornesa que se dizia rainha. Aquela falsa e manipuladora!

Não importava. Arianne logo ia pagar pelos seus pecados. Que ela apreciasse sua coroa e seu precioso banquete, pois era o último que ela teria. Ela e sua corja.

— Vai ser limpo, mas cruel — Daemon dissera na noite anterior, quando estavam no bosque. — Lembra-se da morte de Joffrey?

— Tem como esquecer? — ela retrucou. A cena de Joffrey sufocando e lutando por um pouco de ar nunca saiu da mente de Elinor. Continuava lá, de novo e de novo. — Acha mesmo que isso vai dar certo?

Daemon assentiu. Ele voltou a olhar para o alforje que segurava na mão. Havia minúsculas pedras nele. Eram de um tom roxo tão escuro que era quase negro.

À primeira vista, Elinor achou que eram ônix e ametistas, e imaginou que deveriam usá-las para subornar alguém. Mas, depois, soube o que eram aquelas pedrinhas: veneno. O estrangulador.

— Sua prima parece ter obtido gosto por isso — Daemon falou, enquanto fitava os cristais de veneno. Ergueu os olhos azuis até Elinor, como que para ver qual seria sua reação.

Ela bufou.

— Como se dorneses fossem estranhos ao veneno! — redarguiu ela.

Ele deu um risinho abafado, parecendo divertido com a reação dela. Amarrou o alforje e o escondeu no bolso.

— Vou avisar ao cozinheiro. Ele saberá o que fazer a seguir, pois já foi informado.

Ao ouvir aquilo, ela ficara em alerta. Na verdade, só de lembrar daquilo, Elinor voltava a sentir frio na barriga.

— Tem certeza de que ele é confiável? Ele nem…

— A família dele nos garante alguma confiança — Daemon respondera, embora ela ainda não soubesse bem o que ele queria dizer. Então, esticou o saco com veneno para ela. — Tome.

A memória do momento ainda apunhalava Elinor. A visão do simples alforge pareceu enchê-la de medo e dúvidas. Era como se um sino começasse a badalar em seus ouvidos, ribombando em seu cérebro.

Ao ver o congelar de Elinor, o bastardo dornês suspirou, criando uma névoa pálida, pegou a mão pequena dela, de forma brusca e rude, puxou-a para frente, virou a palma para cima, colocou o saco pequeno na mão dela, de forma firme. Ele formou uma concha com as mãos, envolvendo a mão dela e o saco de veneno.

— Não falhe — ele disse, ainda pressionando o objeto contra a mão dela. Então, soltou as mãos, livrando-a do aperto, girou os calcanhares, subiu o capuz, bateu os pés dali, sumindo na noite.

Elinor sabia o que devia fazer.

O cozinheiro não envenenaria a comida dos pratos ou a jarra de vinho. Não, assim ele poderia matar as pessoas erradas e logo poderiam descobrir o veneno antes que os verdadeiros alvos o ingerissem — e, além do mais, os dois monarcas usavam provadores reais, o que tornava praticamente impossível que alguém os envenenassem com a comida.

O plano verdadeiro era muito mais complicado; o homem estaria vestido de servo, Elinor lhe daria os cristais, e ele saberia o momento certo para envenenar os vilões escolhidos — Elinor preferia usar o termo “vilões” para referir-se de seus inimigos, pois permitia que ela se sentisse menos enjoada e embotava da sua mente o fato de que estava prestes matar alguém — e o fato de que estava prestes a cometer regícidio.

Sim, eles eram pessoas ruins e iam morrer. E, além do mais, ela nem veria. Estaria pronta para correr assim que visse algum dos “vilões” engasgar. Desse ela poderia evitar chorar.

Infelizmente, Elinor teria de ficar com o veneno. O verdadeiro envenenador não podia ser pego, ou tudo estaria arruinado, então ele teria de pegá-lo apenas após se encontrar com Elinor.

O estrangulador também não poderia ficar com Daemon Sand; ele e a princesa não estavam bem. Ele temia que já tivesse alguém o espionando, de modo que podiam barrá-lo ou vistá-lo no salão e acharem o veneno.

Elinor era a melhor opção; não estaria próxima o bastante da rainha ou do rei, mas isso a ajudava a ficar de fora de qualquer suspeita.

A jovem Tyrell achava todo aquele plano um tanto estranho, tinha que admitir; embora não o fizesse em voz alta. Não sabia explicar bem o porquê, mas sentia que havia algo faltando. Algo que os ajudasse após tudo aquilo acontecer; como matariam os outros lordes e ladies dorneses? Ou os campineses que não gostassem da morte de Aegon? E o envenenador? O que ele faria depois de matar a todos? Como fariam para todos serem mortos?

Ao pensar nisso, o coração de Elinor voltava a se tornar um tambor, suas tripas se contorciam, seus dedos tinham espasmos, sua garganta secava e apertava-se.

Estava sendo boba. O plano ia funcionar. Tudo ia dar certo e ela logo iria terminar aquele pesadelo.

— Está bem, querida? — Lia Serry perguntou para a sua filha. — Parece pálida!

— Ela deve estar apenas nervosa com a rainha — sugeriu Alla. — Elinor não tem… Se adaptado bem as coisas, temo.

Elinor comprimiu os lábios em uma linha reta e rosada. Os comentários de sua prima não tinham intenção de irritá-la, mas o fizeram mesmo assim.

Ela se perguntava como Alla conseguia se adaptar tão bem a tudo isso! Ela era aia de Arianne, agindo como se nada tivesse acontecido; servindo a mulher que ajudou a destruir a Casa Tyrell.

Apesar de todo o ranço que a situação lhe dava, Elinor sabia que fazia mal juízo da prima: ela apenas estava querendo adaptar-se aos novos rumos que a vida delas havia tomado. Não era culpa dela.

Alla podia até não saber, Elinor estava prestes a tirá-la desse fardo. Sim. Logo as coisas iriam melhorar.

Os cristais estavam cuidadosamente colocados em um bolso falso. A própria Elinor o costurou em sua imensa saia verde com barra dourada. Desse modo, podia esconder a arma à vista de todos.

Para garantir que estava lá, ela alisava a saia, sentindo os cristais minúsculos, menores que suas unhas, dentro do vestido pesado. Eram tão pequenos, que ela mal os sentia ao passar os dedos.

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O salão do trono foi usado como local para o banquete. O Rei Aegon dava vários banquetes nos últimos tempos, desde que casou-se com a ridícula princesa dornesa. Elinor achava toda aquela opulência ridiculamente repetitiva; os inimigos do Norte logo poderiam atacar, e o rei estava simplesmente conversando e comendo com seus lordes!

Graças ao tesouro que fora trazido por Daenerys, a corte de Aegon nunca teria qualquer problema para pagar qualquer festejo que fosse. Na verdade, Elinor achava que a riqueza que havia nos cofres reais facilmente podia superar toda a riqueza dos Lannister e suas imensas minas de ouro. Toda a riqueza de Westeros era ofuscada pelos tecidos, temperos e jóias que haviam sido trazidos pelos reinos mais meridionais do mundo.

Nenhuma dessa riqueza fora Aegon quem conquistou, entretanto. Daenerys deu suor e sangue para ter todos aqueles bens.

O aspecto do Grande Salão era um tanto cavernoso. Com o negrume do céu, o ambiente estava ainda mais escuro, deixando as janelas altas e estreitas de cristal praticamente inúteis, de modo que o triplo de archotes, candeias, lustres de cristais e velas eram utilizados para encher o imenso salão com algum brilho. Sem poupar gastos, o Rei até mesmo pagou a guilda dos alquimistas para que colocassem fogo vivo em alguns locais.

O imenso Trono de Ferro se erguia acima do estrado real, como se vigiasse todo o salão.

Elinor perguntou-se quantas pessoas deram a vida só para poder se sentar naquela imensa cadeira de ferro, retorcida e feia. Nas paredes, os crânios de dragões estavam dependurados. Suas orbes vazias observavam as pessoas que vagueavam pelo local, em meio a mesas e pratos. Tapeçarias de ouro vermelho também estavam presas nas paredes e colunas. As luzes das chamas refletiam de forma distorcida na superfície negrume e brilhante dos ossos, deixando-os ainda mais sinistros. Era como se o fogo neles ainda queimasse.

Voltando a sentir a sua garganta apertar, Elinor passou os dedos pela saia. Quando não sentiu os cristais, o medo aumentou e ela sentiu uma onda enregelante tomar seu corpo.

Alisou as vestes novamente. Quando sentiu a textura do veneno, relaxou um pouco, apesar de tropeçar nos próprios pés.

— Está mesmo bem, prima? — indagou Alla.

Elinor assentiu, sem falar nada.

— Parece muito pálida, filha — Theodore disse. Virou-se para a esposa. — Talvez seja melhor ela voltar para o quarto e chamar um meistre. Pode estar doente, não apenas nervosa.

Lia assentiu, mas quando abriu a boca para falar algo, Elinor a interrompeu:

— Não precisa! Estou bem, sério. Além do mais, não seria bom irritar Lorde Willas. Ele pode levar a mal não me ver.

Os pais se entreolharam, olharam de volta para ela e anuíram.

— Certo — Theodore respondeu. — De todo modo, após o banquete, vamos chamar um meistre para examiná-la.

Elinor assentiu. Com sorte seus pais esqueceriam seu nervosismo após tudo aquilo.

Enquanto vagueava com sua família até seu estrado, um servo passou, segurando uma bandeja. Theodore deu espaço para ele passar, mas ele esbarrou em Elinor, quase derrubando a bandeja de prata polida.

Era o sinal.

— D-desculpe, mi-milady — ele disse, gaguejando. Devia ser o medo. A cara também parecia tensa, pálida, com lábios tremidos e brilhando pela perspiração.

— Sem problema — Elinor respondeu, com um sorriso simples.

Fingindo alisar os dobras do vestido, ela agarrou os pequenos cristais.

— Manchou, milady? — indagou o servo, levando um guardanapo até a região que ela alisava. — Oh, deuses, lamento!

Ela derrubou os cristais no pano branco-marfim. O servo apertou-os, cobrindo-os com o pano, e afastou a mão dela.

Elinor ergueu a cabeça e forçou um sorriso.

— Não foi nada! — disse ela. — Lamento, eu é que sou desastrada.

— Minha filha anda distraída — desculpou-se Theodore. — E quem não anda? Os dias estão sombrios. — Deu tapinhas no ombro do homem, indicando que ele podia ir.

O homem afastou-se, os pais de Elinor voltaram a enroscar os braços um no outro, assim como ela e seu irmão, Luthor, e seguiram em frente.

Nenhum deles se lembraria daquele homem.

Quando chegaram em sua parte do estrado — perto de onde Willas ficaria, um pouco próxima de onde estava o local do rei e da rainha —, Theodore afastou uma cadeira para que sua esposa pudesse se sentar. Luthor repetiu os gestos do pai.

— Vai se sentar conosco, Alla? — Lia perguntou para a prima de Elinor, após todos se sentarem.

Alla pareceu olhar para o estrado real, onde os assentos dos dois monarcas estavam, ainda vazios. Virou-se e pareceu que ia falar algo, mas antes que o fizesse, alguém gritou:

— Alla!

Todos viraram o rosto em direção ao som, inclusive Elinor.

Era Tyrek Lannister, o herdeiro presuntivo do Rochedo Casterly e de todas as terras do Oeste.

O rapaz dava passos rápidos até o local onde estavam. Ele usava um gibão de veludo vermelho debruado em pano de ouro. Ao se aproximar, ele retirou o chapéu vermelho com uma pena azul, presa por um rubi, levou-o ao peito, fez uma vénia e disse:

— Gostaria de sentar-se ao meu lado, milady? — ele indagou.

Elinor reparou que o rapaz estava enrubescido.

Tyrek tinha a famosa beleza Lannister: cabelos loiros e cacheados, alto, olhos verdes, nariz afilado, com olhos esmeraldas bem brilhantes.

Bonito ou não, Tyrek era um Lannister. Elinor o detestava.

Alla sorriu para o rapaz.

— É uma bela proposta, mas devo recusá-la — respondeu. — Mas devo estar com a minha família hoje. Afinal, logo meu primo estará de volta a Highgarden.

O brilho nos olhos verdes de Tyrek sumiram e ele os baixou, olhando para os próprios sapatos vermelhos pontudos. Botou o chapéu no lugar.

— Também devo ir até o Oeste depois de hoje — lamentou-se ele, suspirando.

Apesar disso, Alla não deixou de sorrir.

— Quem sabe nossos caminhos não voltam a se cruzar e você me mostra o Rochedo algum dia? — Esticou a mão para que o rapaz a beijasse.

Tais palavras pareceram aquecer o coração de Tyrek, que pegou a pequena e pálida mão da moça e a beijou. Ele aprumou-se, acenou para Alla, depois para os outros Tyrell e voltou a se sentar para perto de seu tio, Tyrion.

Enquanto observava afastar-se, Elinor indagou-se por qual motivo o anão estava sentado tão longe de seu rei; Tyrion era a Mão do Rei, deveria sentar-se próximo dele. Será que estavam brigados? Bem, não importava. Logo o anão teria um destino parecido com o de seu sobrinho.

E com ele, iria o último dos filhos de Tywin. Aquela linhagem horrível logo terminaria. Seria esquecida.

Elinor nunca soube o que houve com Cersei Lannister. Porém, dado o ódio de seu irmão anão por ela, não era difícil imaginar.

Pensar que, de uma forma distorcida, matar aquele feio anão seria uma vingança para Cersei deixou Elinor enjoada.

Na verdade, seria difícil para ela comer qualquer coisa. Seu estômago e garganta estavam comprimidos dentro dela. Sua garganta estava apertada, como se ela fosse quem tivesse bebido o veneno.

Luthor deixou Alla sentar-se onde ele ficaria e sentou-se do lado de seus pais ao invés disso.

— Vejo que anda bem amiga dos Lannister — comentou Elinor, seca, enquanto a prima se sentava ao seu lado.

— Ora, prima, não pode achar que Tyrek merece ódio, não é? Ele era um refém de Varys até pouco tempo.

— E, mais importante, agora, ele é o herdeiro do Rochedo.

Alla abaixou a cabeça, corada.

— Ele não foi escolhido pelo tio ainda… — retrucou, sem olhar para a prima.

— Mas é seu protegido — pontificou Elinor. — E o único filho dos irmãos do falecido Tywin.

Alla encarou a prima, bufando. Seu rosto estava vermelho, a respiração parecia tensa, os olhos de corça brilhavam por lágrimas não derramadas.

— Fale logo o que pensa! Anda, prima! Seja sincera! — falou Alla, entredentes.

Elinor, apesar de um pouco abalada pela expressão magoada da prima, falou:

— Você sabe o que quero dizer — respondeu. — Todavia — sorriu —, eu não teria tantas esperanças; Tyrion ainda pode ter herdeiros.

Alla fez um “humpf!” e voltou-se a olhar para frente, ignorando as palavras de Elinor.

A reação fez ela se sentir mais solitária. Não devia estar brigando com a prima. Tinha coisas mais importantes para se preocupar.

— Talvez se fosse menos amarga — ralhou sua mãe, cochichando em seu ouvido —, não estaria tão sozinha.

Foi difícil não chorar ao ouvir aquilo.

Willas sentou-se próximo ao estrado real, acompanhado de sua avó, que vinha logo atrás, com seus dois soldados. Não ficaram muito longe de onde Elinor estava. Apenas os pais de Alla, e ela própria, separavam eles de Lady Olenna.

Olenna não era mais a velha vivaz de sempre; estava mais murcha do que nunca. Seu andar era coxeado, assim como o de seu neto mais velho. O rosto era cheio de vincos, os olhos estavam baços, e o cabelo parecia não parar de cair.

Uma sombra triste da Rainha dos Espinhos.

Elinor pelo menos daria a pobre idosa uma última alegria antes de morrer: a morte cruel de todos os que fizeram sua família sofrer.

Sim, era bom pensar no resultado de suas ações desse jeito. Aliviava a agonia interna em seu corpo.

O Rei e sua rainha entraram pouco depois de todos.

Aegon usava um belo gibão preto com uma capa vermelho-vinho, e um cinto de corda que era da mesma cor. Seus cabelos prateados caíam até os ombros, e a cabeça era encimada pela coroa valiriana que o primeiro Aegon usara. Os rubis brilhavam com a luz dos archotes.

A princesa Arianne estava usando um belo vestido laranja de renda vermelha, preso por um cinto de ouro trançado. As opalas e rubis em seu diadema de ouro também brilhavam com o fulgor das chamas. Atrás dela, como era de praste, estavam suas primas: a feia e rude Obara Sand, a delicada (mas não menos falsa) Tyene Sand, a Lady Nym (a qual adotava um título que não pertencia, pois não era Lady nenhuma) e a antiga consorte de Oberyn Martell, Ellaria Sand e sua filha, Elia.

Todas eram serpentes falsas. Era um absurdo que se sentassem tão perto da realeza! Um ultraje! Algo que ia contra tudo que Elinor acreditava!

Sufocou a irritação dentro de si. Apesar da ardência em seu peito, o ódio era bom. O ódio bloqueava seu medo e a fazia sentir-se menos impotente.

Tinha que ter ódio. Tinha que ter sede de sangue. Isso permitiria que ela ficasse forte — e a sede logo seria saciada.

Quando o Rei e Arianne saudaram os convidados e se sentaram, Elinor sentiu o ódio se esvair, como se água fria caísse em peso sobre ela. Estava para acontecer. Logo, ela pensou, Westeros estaria livre deles. Ela estaria livre.

Se segurou para não olhar para Daemon. O servo o avisaria e ele logo daria o sinal — Elinor não sabia qual seria o sinal, por segurança, mas o cozinheiro-servo-envenenador sim.

Após isso, o horror e a liberdade iam se encontrar.

O tempo passou como uma lentidão tortuosa. Cada instante para Elinor era uma perda de tempo. Não conseguia prestar atenção nos alquimistas, nos malabaristas, nas dançarinas de Essos, ou nos truques dos malditos pantomineiros.

— A Rainha gosta muito de Tyene — comentou Alla para seus pais enquanto o rei e a rainha trocavam gracejos com a prima loira desta. — O septão as têm afastado muito, mas eu a convenci a fazer a prima vir hoje. — Sorriu. — Afinal, seria bom ver a prima, não acham?

— Que grande honra — zombou Elinor de forma sarcástica, enquanto pegava uma taça de vinho. (Ela não gostava tanto do sabor, mas precisava espairecer a mente. Torná-la embotada.)

Seu pai também bebia muito. Ninguém comentava, mas era óbvio. Theodore não reagiu bem à morte e traição de tantos colegas. Agora, por exemplo, ele fazia outro gesto para que um servo enchesse sua taça com vinho caro e escuro de Asshai.

A mãe de Elinor nada dizia. Havia desistido de tentar fazer o marido parar de beber tanto. Ela apenas abaixou a cabeça e olhava para as mãos unidas no colo, como uma criança.

Elinor não culpava o pai; também queria estar sóbria e ver o que seu mundo havia se tornado.

O que vou fazer vai ajudá-lo, pensou. Quando tudo aquilo acabar, ele irá parar de beber.

O pensamento fez o nó na garganta voltar, e ela bebeu mais para se acalmar, por mais indelicado que fazer aquilo fosse.

Que horas eram? Havia se passado uma hora? Talvez três? O tempo não se movia; tudo parecia congelado no mesmo momento.

Será que algo deu errado? Será que fracassaram e teriam de esperar mais para tentar fazer aquela sombria fita se concretizar?

E seu grupo não tivesse outra chance? E se foram descobertos e Elinor logo fosse levada para… para…

Morte? Tortura? Para a boca do dragão de Aegon?

Aquele pensamento a fez hiperventilar. Seu estômago pareceu se apertar e ela sentiu que logo iria vomitar o vinho que havia bebido.

Por favor, faça parar, ela implorou para algum deus, mas nem sabia qual. Sua cabeça latejava. Sua garganta parecia se fechar e seus olhos ardiam.

Por favor, por favor, por favor, por favor, por favor…

Ela queria chorar, queria gritar, queria sair dali.

— MAJESTADES! — Ela ouviu alguém gritar, tirando-a de seus tormentos.

Quando ela, assim como todos da corte, se virou, viu que era Daemon Sand. Ele estava em pé, erguendo uma taça, bem, bem alto. Ele estava trajando um gibão belo, com as cores invertidas da casa de seu pai; era rico demais para qualquer bastardos.

— Majestades, eu quero lhes propor um brinde! — gritou, ainda mais alto. Estava sorrindo, balançando um pouco e brilhante pela perspiração. — Um brinde à maior e mais bela das rainhas! — Fez um gesto, levando a taça em direção ao estrado real. — E ao salvador da Casa Targaryen, Aegon VI!

O que ele estava fazendo? Ele ia estragar tudo! Era óbvio que iriam suspeitar dele e…

— Eu aceito vosso brinde! — respondeu o Rei, de pé, erguendo um imenso Cálice. Voltou-se para a sua rainha, sorrindo. — Todos nós devemos saudar a beleza e graça de minha bela princesa Arianne!

Arianne levantou-se, sorrindo, erguendo a própria taça cheia. A princesa, então, bebeu o vinho.

Todos a seguiram no gesto, incluindo Elinor, levantando-se e erguendo suas taças e entornando-as, provando a acidez da bebida fermentada.

Enquanto sorvia, Elinor olhou para seu companheiro. Daemon entornou toda a taça e sentou-se. Seus olhos estavam cravados em Arianne e Aegon.

Elinor e o resto da corte se sentaram, assim como o Rei.

Ela tentou evitar olhar para o estrado real, fitando a própria taça ao invés disso, mas era difícil. Logo, ela não aguentou e olhou para os dois monarcas.

Arianne e Aegon falavam algo que ela não sabia, mas não pareciam divertidos. As irmãs de Arianne os olhavam, caladas, sérias.

Elinor não gostou daquilo. Eles sentiram o gosto do veneno? Ou suspeitaram do bastardo? Mas… se suspeitaram dele, por que beberam então?

Aquelas dúvidas só serviram para sua ansiedade voltar com força. O estômago novamente doendo, assim como a garganta.

Ela aguardou. Não ia demorar muito agora.

Logo eles iam sufocar. Logo tudo aquilo iria acabar. Logo ela poderia chorar.

Não conseguia tirar os olhos dos monarcas. Não conseguia fazer outra coisa; nem sequer piscava, até respirar parecia difícil. O som à sua volta sumiu.

Não existia mais nada no mundo; apenas Elinor e os traidores.

Por que estava demorando tanto? Era para eles…

O som de alguém tossindo violentamente a tirou do transe, principalmente após alguém exclamar por “um maldito meistre!”.

Ela se virou, sem nem hesitar, olhando para Lorde Randyll, depois para Lorde Matthis Rowan. Nenhum dos dois estava a tossir, entretanto.

Então, ela olhou para Daemon e viu que era ele quem sufocava.

Ao ver aquilo, ela se encheu de terror, e sentiu que sua garganta ficou ainda mais presa.

Muitos se levantaram, assustados, e o pai do bastardo de Graçadivina batia violentamente em suas costas, enquanto seu filho sufocava.

Entretanto, em meio a todo aquele caos, ela percebeu que Daemon ainda olhava para o estrado real, lutando para manter os olhos neles.

E então entendeu: ele se sacrificou para aquilo. O envenenador deve ter avisado a Daemon e ele usou o discurso para distrair a corte e envenenar os alvos. Claro, ele sabia que iam atrás dele! Ele nunca esperou fazer aquilo e viver!

Enquanto as coisas clareavam na mente de Elinor, ela ouviu as pessoas gritando ao seu lado, o que a fez virar-se.

As primas da rainha estavam tossindo também, mas não a própria rainha e nem o seu rei. Também não fora elas quem Elinor ouviu fazer a confusão ao seu lado: era Olenna.

Enquanto o Grande Meistre corria para as Serpentes de Areia, Willas agarrava a avó, que parecia desfalecer em seus braços. Ela era tão pequena que parecia que ele agarrava uma criança.

As pessoas em volta de Elinor faziam uma algazarra, mas ela nem pareceu os ouvir. Nem ouvia Aegon gritar ordens, nem mesmo o choro de Arianne. Ou mesmo o de sua própria mãe, Lia.

Ela olhava sem enxergar. Olhava para seu primo chorando, enquanto pedia ajuda para a avó.

Nada daquilo fazia sentido. Não era para aquilo acontecer.

O sangue gelado correu pelas suas veias, congelando-a ali. Ela ainda sentia a garganta se apertando, dessa vez, com mais força, como se a impedisse de respirar.

Foi aí que ela percebeu que realmente não podia respirar. Não por medo, mas porque sua garganta realmente estava se selando para sempre.

Ao notar aquilo, ela levou uma mão até a garganta, enquanto sentia seu último suspiro escapar de seu corpo. Era como se um punho de gigante apertasse sua traqueia.

Enquanto todos corriam e gritavam, perdidos e apavorados com a confusão, Elinor tentou gritar.

Nenhum som saiu de sua boca além de um estalo quando ela tentou pegar ar.

Olhou de relance para a mesa, vendo a taça de vinho parada nela. O líquido era escuro, tão escuro que quase parecia preto.

Quando Elinor, lutando para respirar, derrubou a taça de lado, viu o líquido roxo escorrer pelo linho branco da mesa.

Ela lutou por um pouco de ar, enquanto as pessoas balbuciavam coisas aleatórias.

Logo seus joelhos esmoreceram, tal qual sua bexiga, que fez com que sentisse algo quente escorrer pelas suas pernas, enquanto caia sentada em sua cadeira.

Quando ela se deu conta, também estava no chão. Nunca sentiu o golpe do baque surdo que causou após cair; só sentia sua garganta se apertando. Só percebeu que estava caída ao ver o teto abobadado e escuro da fortaleza.

Sentiu o vinho subir pelo seu estômago, mas o caminho estava bloqueado e o fez retroceder. Sentiu a acidez atingir o estômago, fazendo-a sentir-se como num afogamento.

Alguém tropeçou, nunca soube quem, e pisou em sua cabeça, bem na têmpora. Doeu, mas ela nem se importou, pois o aperto na traqueia doía mais. Nem ligou para o sangue escorrendo.

O único som de socorro que podia fazer era um estalo. O mesmo que Joffrey fizera ao morrer.

Havia vultos a olhando, vultos que logo tomaram formas familiares e chorosas.

Toda a família de Elinor pareceu notá-la, mas ela não soube exatamente quando. Seu pai, sua mãe, seu irmão. Todos estavam ajoelhados ao seu lado, chorando e falando coisas que ela não entendia.

O último vislumbre que Elinor teve era o de sua prima, Alla. Ela também a olhava, mas não parecia devastada. Estava de pé, a olhando do alto do mundo, parecendo-se com uma sombra cruel contra a luz dos archotes.

Enquanto tudo se escurecia, Elinor notou algo no olhar de sua prima antes de tudo sumir: culpa.