A neve caia, ela estava a correr no pátio, seguindo sua irmã e a colega dela; mas suas pernas eram muito curtas para conseguir alcançá-las, e o estúpido vestido não ajudava.
— Espere por mim, suas estúpidas! — Elas não pararam, porém, continuando a correr dela aos risonhos.
Por fim, tropeçou, caindo de bruços na lama e neve. Mordeu a língua, fazendo o sangue escorrer na boca, junto da lama gelada. A irmã se fora, junto de Jeyne, abandonando-a.
Segurando o choro, irritada e humilhada, forçou-se a levantar, arqueando os braços e empurrando o chão, erguendo o dorso.
Ao erguer os olhos, encontrou a figura da mãe, de pé, frente a ela, com um olhar duro.
— Arya! — ralhou Lady Stark. — Por que você não consegue se comportar? Por que insiste em me envergonhar?
As palavras a machucaram; lágrimas brotaram. O rosto da mãe começou ficar inchado e cinzento; a cair, criando rasgos que revelavam o crânio; os olhos azuis ficaram cinzentos e baços; as vestes viraram trapos. O rosto era mais raivoso agora.
— Por que não consegue ser normal, Arya?
O sonho se desfez. Tudo ficou escuro e silencioso. (Exceto por um riso cruel que parecia ecoar longe.)
Arya fez força para abrir os olhos. Estava fraca e tonta. Quando conseguiu ter um vislumbre por entre as pestanas percebeu o teto negro de pedra escura do quarto onde estava. Passos as palmas na superfície abaixo de si, para saber o que era, enquanto forçava sua visão a focar nos detalhes. Percebeu que estava num Catre simples de palha; sem lençol, sem colunas de madeira, nem um dossel para cobrir a cama. Sua cabeça estava em cima de uma almofada preenchida com palha.
Tentou lembrar-se o que havia acontecido; mas sua mente estava embotada. Lembrava-se da fome, do frio, de diversos rostos desconhecidos. Seu irmão estava lá, embora não o verdadeiro Jon, e sim o morto-Jon: cabelos pálidos, um olho a menos, magro como ela…
Fechou os olhos novamente, sabendo que estava fraca e precisava se recompor. As pálpebras eram como chumbo, e tentar visualizar o ambiente piorava a sua tontura.
Lambeu os lábios. Estavam secos e rachados, a garganta, carne viva. Engoliu seco. Sua pele estava suada, embora não estivesse mais transpirando. Flexionou os dedos dos pés e mãos, sentindo-os fracos e lerdos, fazendo movimentos débeis. Inspirou fundo, pelo nariz, até o peito estar bem cheio de ar, levantado. Esperou um tempo assim, segurando o ar, depois soltou tudo de uma vez.
Seu coração estava normal, apesar do estado frágil. Não estava com fome, mas sabia que o estômago estava oco. Inspirou e expirou. Inspirou e expirou. Inspirou, expirou, inspirou…
Continuou assim por um tempo, até sentir-se mais recomposta. Abriu os olhos novamente, podendo ficar melhor no ambiente. Seus olhos eram treinados: a Casa do Preto e Branco retirara sua visão certa vez; mas, em outros treinos, retiraram seus outros sentidos, para que também pudesse treinar os outros: seu olfato, sua audição, até mesmo seu tato fora tirado por meses; em outros momentos, em testes mais elevados, Arya perdera até mesmo o movimento das pernas, tendo de aprender a usar os braços — depois, o inverso.
Arya fora treinada rigidamente por um tempo que nem ela sabia quanto demorara (não ajudava Braavos contar de forma diferente da de Westeros). Fora ensinada a levar todos os seus sentidos ao máximo, controlar cada parte de seus músculos. A fome não devia afetá-la como afeta os outros.
Havia algo errado nela, Arya sabia. Mas estava com seu eu muito anuviado para que ela pudesse entender o problema.
— O que deu em você, Arya?
Era a voz florida e perfumada de sua irmã, não da mãe; era rígida igualmente, porém. Arya virou o rosto na direção da voz, vislumbrou a irmã sentada numa cadeira perto do catre onde estava deitada, com um trabalho de costura no colo. A luz de um archote, preso em uma arandela na parede para onde sua irmã estava de costas, criava um Halo dourado por cima do cabelo de Sansa. Os olhos profundos estavam cravados na figura prostrada de Arya.
O semblante de sua irmã era cansado e preocupado, ficando mais aflito conforme observava a princesa acamada, que nada dizia. Estava esperando alguma palavra, talvez para ter certeza de que a irmã já estava acordada e lúcida.
— Como está? Do que lembra-se? — indagou Sansa, com a voz calma, porém, ainda aflita.
Arya engoliu seco. Ao vislumbrar uma mesinha do lado de seu colchão, onde jazia uma jarra e caneca, ela acenou em direção a ele, evitando a fadiga de falar.
Sua irmã, entendendo o gesto, encheu a caneca de água e ajudou Arya a beber, levando o copo até os lábios desta, enquanto erguia a cabeça dela com a outra mão.
Sugou assaz a bebida, sentindo a revitalização do líquido, que banha sua garganta, refrescando-a. Sua irmã pousou sua cabeça no travesseiro de forma delicada.
Lambeu os lábios, ainda rachados, mas úmidos. Na Casa do Preto e do Branco Arya servira água a muitas pessoas, que logo se deitavam em colchões simples, adentrando num sono do qual nunca acordavam.
Queria entrar naquele sono eterno também.
Sua irmã voltou a assentar-se na cadeira de madeira polida. Arya limpou a garganta e achou forças para indagar:
— Que aconteceu? O que…
— Você desmaiou enquanto ia ter com nosso irmão. Foi no meio de toda a gente de Harrenhal, enquanto ele passava com a rainha e o séquito.
Tomou um tempo para absorver as informações dadas por sua irmã. Tudo ainda estava anuviado em sua mente. Queria estar na Casa do Preto e Branco agora; lá eles tinham bons pós mnemônicos.
Conseguiu forçar-se a lembrar um pouco da neve caindo; pessoas em todos os cantos, indo para todas as direções; o irmã estava atrás de escudos, mas nem parecia ser seu irmão.
— Lembra-se de estar sendo seguida? — perguntou Sansa.
Arya virou os olhos para o semblante dela. Apenas respondeu com um menear da cabeça.
— Achávamos que você tinha sido envenenada — revelou a mais velha, no que a mais nova apenas olhou, emudecida, aguardando a resposta do motivo. Sansa respondeu: — Seu Gato-das-sombras foi morto por alguém, Arya, tentando te defender. Alguém tentou matar você.
Os Homens Sem Rosto? Improvável; eles a teriam matado muito antes, se assim o quisessem.
— Como ele morreu? — Talvez o método do assassino revelasse algo.
(Estava totalmente indiferente no que tangia a morte de seu animal; nunca significara nada para ela, sendo apenas um mascote que ela forçara a obedecê-la. Teve que fazê-lo; Nymeria já não mais lhe obedecia.)
— Um punhal, cuja lâmina estava envenenada — Sansa lhe respondeu. — Os meistres acreditam ser veneno de manticora. Ele…
— Mata instantaneamente. — Arya sabia bem sobre venenos. Mais até do que alguns meistres. Ajeitou-se no catre, voltando a olhar para cima, descansando melhor a cabeça no travesseiro. Quem teria atentado contra a vida dela, caso não fosse algum enviado da guilda assassina de Braavos?
— Acho que foi Alleras — Sansa revelou, após um tempo de silêncio.
A irmã mais nova virou a cara na almofada, fitando a irmã mais velha, franziu o cenho, aguardando respostas.
— Ele tinha o mesmo punhal escondidos na mangas, eu mesma vi certa vez — prosseguiu a princesa. — A lâmina era pálida como qualquer outra lâmina aceirada, mas, o brilho… Era escuro, o gume.
Arya acenou com a cabeça, não tendo de ruminar muito para chegar à mesma conclusão que a sua irmã. O veneno de manticora era rápido, praticamente indolor, não fosse a ferroada do inseto peçonhento, matando a vítima quase que instantaneamente. E, além de tudo isso, também era escuro como breu.
— Achei que Alleras já estaria longe nessa altura — Sansa estava a dizer. — Talvez em Braavos, desfrutando do dinheiro… Mas, agora que sei que ele ainda está por perto, e que ninguém o vira…
Algo dentro de Arya pareceu remexer-se, fazendo um lampejo de ódio surgir.
— Sua Esfinge de estimação realmente sabe criar confusões — alfinetou.
Sansa abaixou os olhos, corando, mas logo a fitou novamente, com leve irritação no olhar.
— Cometi meus erros, mereço ser censurada por eles; mas não atreva-se a admoestar-me quando você também em suas estapafúrdias para expiar!
Arya respondeu com um mero som exasperado, que fez sua irmã suspirar. O semblante dela agora era irritado e cansado, com as sobrancelhas juntas, franzindo o cenho.
— Vai me explicar o que está fazendo consigo mesma?
Novamente, Arya não deu respostas. Apenas olhou para Sansa, como que em desafio a uma mãe dando bronca na filha.
— Sabe o que o Meistre me disse? — Sansa indagou, voltando ao seu semblante de Lady, como o pai delas fazia.
Arya fez um muxoxo.
— Sei que você vai me dizer — retrucou, irritada, enrouquecida.
— Disse que você não come há tempos — respondeu Sansa, ignorando as palavras dela. — Eu vi como anda mais magra do que nunca; seus olhos estão cheios de olheiras; pelos deuses, até a raiz de seu cabelo está ficando branca!
Ela franziu o cenho.
— Tenho andado a treinar — defendeu-se ela. — E feito rondas…
— Rondas?
— Contando os soldados — explicou. — O exército nortenho…
— Poupe-me desses circunlóquios, Arya — Atalhou Sansa. — Pensa que não sei que está sempre no quarto, bebendo aquela maldita bebida azul?
— Como se você saísse muito do seu esses tempos…
— Não se atreva a usar esse tom comigo! — exclamou Sansa, irritada, com os seus malares ficando ainda mais acarminados. — Sor Gendry e Ned falaram-me de seus últimos hábitos, Arya.
Ao ouvir aquilo foi como levar um chofre na cara. Mordeu o lábio.
— Eles… falaram?
Sua irmã assentiu.
— Não estou aqui para julgar os vossos gostos; mas seus vícios têm claramente lhe feito mal.
Arya sentiu o sangue correr pelas bochechas sulcadas. Sabia que estava ficando vermelha, e não queria dar esse gostinho para sua irmã. Tentou usar seu treinamento para fazer aquilo parar, mas sem sucesso. Estava realmente fraca.
Sua irmã, erroneamente interpretando o silêncio como rebeldia, deu um suspiro e meneou a cabeça. Ela parecia terrivelmente cansada.
Conseguia bem notar os sinais da fadiga: o cabelo estava bem lavado e penteado, mas haviam fios soltos que revelavam falta de bom cuidado; linhas de expressão se formavam na testa alta e oval de Sansa; pequenas inchaduras formavam-se por debaixo dos olhos azuis; ombros caídos. Até o trabalho de costura revelava os problemas de sua irmã: os pontos estavam muito desalinhados, fora do padrão quase perfeito de Sansa.
— Arya — disse ela —, sei bem que nossa relação nunca foi fácil. Mas não é o momento propício para dar-mo-nos o luxo de brigar. Não agora.
Arya, vendo o estado entorpecido de sua irmã mais velha, sentiu-se compadecida pela solidão.
— Fale-me o há com você, irmã — Sansa pediu, mais uma vez.
Suspirando, ela respondeu:
— Eu não sei. De verdade, não sei nem o que há de errado comigo. — Sentindo-se aturdida, com o coração doendo, ela continuou: — Tem algo em mim do qual eu preciso me livrar, mas não sei como. Não é bom algo… é um nada. Sinto-me oca, com um buraco dentro de mim.
— Arya…
— E ele só tem aumentado: começou com a morte de nosso pai; cresceu após a morte de Robb e de nossa mãe. — Fitou a irmã. A borda de sua visão estava embaçada, percebeu que estava chorando. — Eu a vi, sabia? A nossa mãe — revelou.
Sansa arregalou os olhos ao entender as palavras da irmã. Antes que pudesse falar, Arya continuou:
— Ela estava bem ali, na minha frente, após tanto tempo que estivemos separadas. — As lágrimas de azeite queimavam ainda mais. A voz estava enrouquecida. — Todo aquele carinho, amor, resumia-se a isso: um monte flácido de carne podre, jazendo no chão úmido.
«Eu lembro-me de achar que tudo que tinha estava finalmente perdido: minha família estava morta; meus pais morreram, meus irmãos… Você, Sansa, estava muito longe, e eu já nem sabia se você sequer ainda estava viva. Apenas Jon estava vivo, mas ele estava igualmente longe. Eu era a loba solitária, e nosso pai avisou-me, há muito tempo, que o lobo sem alcateia estava fadado a morrer.»
— Mas você não está mais sozinha — sua irmã a lembrou. — A nossa alcateia está unida novamente!
Arya pigarreio:
— Está? Está mesmo? Você diria que estamos mais unidas do que nunca? Ou nossos irmãos? — Deus um risinho amargo. — Nossa alcateia está morta há tempos, Sansa, porque nós, nós do passado, estão mortos e enterrados, junto de nossos pais e Robb e Rickon.
— Arya — a voz de sua irmã era calma, mas incisiva —, precisa parar com esses pensamentos desalentos. Precisa sair dessa linha de percepção tão agourenta. — Sansa esticou o braço, tocou na mão de Arya, dando-lhe um leve aperto. — Nós estamos juntas de novo, assim como nossa Casa. Quando tudo isso acabar, vamos retornar para o Norte, para Winterfell, e…
— Winterfell? Oh, Sansa, não vê? Não iremos ganhar a luta que está por vir.
A princesa mais velha bufou, franziu o cenho.
— Desde quando é tão medrosa? Minha irmã é irritada, cabeça dura, desaforada… Mas nunca uma medrosa!
Arya suspirou. O som saiu como um estertor. Voltou a olhar para o teto. O que a irmã dizia era verdade, mas o que ela não sabia é que talvez tudo aquilo não fosse uma coisa boa.
— Sempre senti que nasci errada — comentou, monocórdica. — Que eu era uma bastarda. Até perguntei para Jon, uma vez, quando bem pequena, se eu não era mesmo uma bastarda como ele. Claro, ele disse que não, e era verdade… Mas eu vi a dor no rosto dele ao dizer-me isso. Eu fiquei aliviada; ele, abalado com o meu medo de ser como ele. Mas eu sempre fui, não? Sempre fui uma estranha na matilha.
Sansa abriu a boca para protestar, mas Arya continuou:
— Eu acho que nasci errada, entende? Ao contrário; diferente do que era certo. Torta. Tudo que eu não devia gostar, era o que eu mais queria em meu coração. Lutar, montar cavalos e liderar exércitos. Eu queria tudo isso, mas tudo isso era proibido para mim.
«Conforme fui crescendo, acho que entortei mais. Tão torta quanto meus trabalhos de costura. No fim, acho que, após tantas perdas, eu me entortei de vez.
Eu não era como você, Sansa, pois você era perfeita em tudo o que fazia; eu, não. Eu nem queria realmente ser boa em costura, mas eu queria o que você tinha: ser amada. Ser aquela em que todos que botavam os olhos e pensavam ‘ela será uma grande pessoa no futuro’, ‘uma inspiração para as outras damas’.
Nunca fui isso. Não era quem eu era. Eu era a loba solitária que não tinha lugar na matilha. Acho que até mesmo Jon se encaixava mais no mundo do que eu.
Depois que papai se foi, eu entortei de vez; cada dia, uma nova perda para ser sentida; mais dor para guardar, mais ódio resguardado. Eu queria fugir de mim, de Arya Stark. O que Arya tinha? Uma família morta; um caráter que todos desaprovavam; um castelo em chamas; sonhos em formas de cinzas… — Mordeu o lábio inferior, apertando bem, a ponto de sangrar, lutando contra a dor no peito e a ardência nos olhos. — Eu queria ser ninguém. Mas não consegui, pois fui tola. Achei que Arya ainda tinha família pela qual valesse a pena.
E, como agora sei, tardiamente, nada mudou; ainda não tenho família. Ainda estou perdida, perdida para sempre.»
Um silêncio atordoante se estendeu no ambiente. Apenas o crepitar da lenha ainda fazia algum barulho. As irmãs Starks se olhavam, afônicas, sérias. Quando a figura da irmã mais velha começou a borrar, a mais nova piscou as pálpebras com força, fazendo as lágrimas de sal serem expulsas, deslizando por sua pele, queimando-a.
Por fim, Sansa falou:
— Você precisa sair desse pesadelo onde está presa, Arya — incutiu. — Ficar nessa autopiedade apenas irá afundá-la mais nesse…
— Você também está presa. — A simples resposta dela arrebatou Sansa, que calou-se, fitando-a.
— Todos nós temos nossos pesadelos e medos — redarguiu Sansa, parecendo recompor-se. — Mas todos temos de lutar contra eles.
— O medo corta tão profundamente quanto uma espada. — As palavras eram de Syrio. Arya lembrava-se dele, mesmo após tanto tempo morto. Syrio fora a Primeira Espada de Braavos; morreu para o covarde Sor Meryn Trant. Merecia um fim melhor do que aquilo.
Reunindo alguma força, Arya forçou-se a ficar aprumada, erguendo-se com os cotovelos no colchão de palha velha, grunhiu de desconforto enquanto o fazia.
— Onde estão Edric e Sor Gendry?
— Estavam com você desde o primeiro dia — revelou Sansa. — Mas pedi-lhes para descansarem enquanto eu estivesse aqui.
A Stark mais jovem franziu o cenho.
— Não vai chamá-los?
Sua irmã respondeu com um dar de ombros. Voltou a dar atenção ao trabalho de costura.
— Logo eles voltarão; nunca ficam muito longe de você. — Ergueu os olhos, deixando, novamente, o trabalho com a costura. — Que tem feito com eles, Arya? — Antes que ela pudesse responder: — Não negue e não me olhe assim! Sabe bem do que falo!
Arya abaixou a cabeça e os olhos, evitando o olhar da irmã. Sentia as bochechas arderem com o sangue que corria nelas.
— Viu o estado em que tem estado seu marido? — Sansa inquiriu. — Ele está magro, com sombra nos olhos, olhar opaco… — Balançou a cabeça. — E nem preciso falar de Sor Gendry!
Num chofre, a irmã mais nova olhou-a, irritada, fazendo um muxoxo.
— Não, não precisa!
Sansa deu-lhe um olhar duro, que fez Arya lembrar-se dos olhares crueis da Septã Mordane.
— Eu vi os lábios dele, Arya — revelou-lhe. — Estão escuros, como o de Euron. E o seu também!
(Ela é atrevida! Mate-a!)
— Tenho tomado a bebida, e daí? Apenas aumenta minhas habilidades, só isso!
A princesa mais velha bufou, irritada.
(Ela te menospreza! Ela torna-a fraca! Mate-a, agora!)
Sentia a bílis na boca, a irritação entumecia em seu peito, que subia e descia com certa agitação. Fitava a sua irmã mais velha, assentada defronte a ela, indefesa. Os guardas estavam do lado de fora, se ela pudesse…
(MATE-A!)
A porta se abriu num chofre, com Sor Gendry e Lorde Edric adentrando no local, apressados, passando pelo umbral da entrada.
Sor Gendry pigarreou ao ver que Arya estava acordada.
— Ah, está acordada!
— Graças aos deuses — exclamou Ned.
Ambos foram até o colchão onde Arya estava, com Edric sentando-se na beirada do catre, fazendo a madeira retesar-se sob o seu peso. Ele envoltou a esposa em seus braços, rodeando-lhe seus ombros magros, deu um singelo beijo na bochecha dela.
Os lábios estavam roxos.
Gendry ficou de pé, olhando para os dois, mas com um semblante sério.
— Avisei a princesa que devia comer! — ralhou ele. — Olhe como tá magrela!
— Ele tem razão, princesa — disse Edric, ainda com um braço sobre os ombros da esposa. Esta o olhou, vendo como ele parecia cansado; afundados, o lilás da íris estava baço, a pele parecia ter pedido o brilho perolado e tomado tom cinzento.
Ele estava ferido, ela sabia. Talvez não tanto fisicamente; era mais uma ferida na alma.
Arya se via perguntando se Edric estava triste por Daenerys ter um filho dele, enquanto ela não o tinha.
Sansa levantou-se, e os dois homens pareceram só dar-se conta dela naquele momento. Edric levantou-se assaz. Ele e Gendry fizeram uma reverência apressada, constrangidos.
— Lamento, princesa, eu e Sor Gendry estávamos muito preocupados.
Deixando a dura máscara de princesa de lado, Sansa apenas sorriu e acenou com a cabeça, dando pouco caso da falta de decoro.
— Não há problema algum, milorde — retrucou ela. — Sei bem como ambos estavam preocupados. — Olhou de relance para a irmã, depois voltou a relancear o lorde de Starfall. — Deixarei-os sozinhos. — Estendeu a mão. Ambos a pegaram, curvaram-se, beijaram as costas da mão. Após isso, ela deixou o local.
Os dois amantes voltaram a fitar a Stark que encontrava-se na cama.
— Então? — Gendry cruzou os braços.
Arya franziu o cenho.
— Que?
— Arya!
Ela fez um muxoxo.
— Eu estava fraca…
— Disso sabemos — ele retrucou. — A princesa disse-lhe o que houve?
Ela fez que sim com a cabeça.
Os dois homens trocaram um olhar, depois ambos relancearam para ela. O marido dela voltou a sentar-se ao lado dela, tomou a pequena mão dela entre as suas. Os olhos púrpuras de Ned fitavam os olhos cinzentos dela.
— Ainda não achamos o culpado — falou ele. — Mas iremos achá-lo e matá-lo. Prometo-lhe isso.
— Você tem que ficar acamada, pelo menos por ora — disse Gendry. — Está muito fraca.
Arya balançou a cabeça.
— A Longa Noite aproxima-se — ela disse. — Tenho de estar preparada para ela; tenho de treinar.
— Arya — a voz melíflua de Edric estava repleta de preocupação —, não pode desgastar-se muito. Acredite, sua bravura está te consumindo, amor. Tem de descansar, como Sor Gendry disse…
— E como o Rei do Norte ordena.
Todos viraram-se, dardejando os olhares na figura esguia, tanto pálida quanto escura, do irmão de Arya, que estava parado na soleira da Porta. Sua guarda pessoal era apenas a princesa selvagem, Val, que usava belas roupas alvacentas, em contraste às vestes soturnas de Jon. Este andou para frente, passando pelo umbral, indo até ficar rente ao colchão onde Arya estava. (Esta notou que ele não estava não trouxera Fantasma consigo, assim como a irmã deles não trouxe a loba — então, deduziu Arya, eles sabiam que os lobos estavam desgostosos com o cheiro dela.)
Irmão e irmã fitaram-se, não com amor e divertimento de outros tempos, mas com estranheza e desaprovação silenciosa, como que dois estranhos a se encontrarem. Os cinzentos iguais em contraste contra olhos desiguais de rubra e negro.
— Não me obrigue a por guardas no seu cômodo — Jon avisou, calmo, porém claramente desgostoso.
As narinas de Arya descomprimiram-se:
— Eu faço o que bem entender…
— O que você bem entende é desobedecer — atalhou ele, parecendo mais irritado. A cadência dele mudara, reparou ela, mesmo que levemente. — Não é mais uma garotinha de 9 anos brincando em Winterfell, Arya; é uma princesa!
— Sou uma Stark acima de tudo! — crocitou ela, furiosa. — Mantenho a lealdade para com a minha família!
Jon comprimiu os lábios, claramente irritado com as palavras dela.
— Tudo que faço é pelo bem dessa família — retrucou ele, tentando acalmar-se.
Arya podia ler o irmão, mesmo sabendo que ele era mais difícil do que a maioria; a raiva ainda rebrilhava nos gestos pequenos dele (uma descalmaria no olhos vermelho, uma leve tremida numa das mãos, um rápido espasmo em uma das pálidas sobrancelhas; a cadência da voz assumindo tons mais tensos após certos retrucamentos), mostrando que, mesmo não fazendo mais parte dos vivos (pelo menos por completo), ainda existia compulsões humanas nele.
Ainda existiria o irmão que bagunçava os cabelos dela e a chamaria de “irmãzinha”?
(Não.)
Com a raiva queimando seu coração novamente, Arya disse:
— O que você faz é apenas quebrar os sagrados votos de sangue, como sempre.
Edric e Sor Gendry a olharam como se ela tivesse perdido o juízo.
— Arya! — censurou seu marido. — O Rei, seu irmão, só quer ajudar! — Voltou-se para Jon, ficando empertigado num instante. — Perdoai-a, Majestade, ela não sabe o que diz. Está confusa pela fraqueza.
Jon ficou de frente para Ned, fitando-o, depois relanceou para a irmã, de soslaio.
— Sei bem o gênio que minha amada irmã tem — falou ele, ainda a olhando de esguelha. — O sangue de lobo, como meu pai costumava falar.
Ela podia sentir o sangue fervendo em suas bochechas, enchendo-a de ódio.
— A princesa vai descansar. — Não era uma pergunta que o Jon fazia, nem mesmo uma sugestão; era uma ordem do Rei. Relanceou o olhar preto e vermelho para Ned, depois, Gendry. — Cuidem dela, e vê se deixam de cair nos artifícios dela.
Apesar de Sor Gendry parecer irritado com a última frase, ele e Edric fizeram uma vénia ao rei, enquanto este deixava o cômodo, junto de sua guerreira (e talvez amante? Arya queria saber).
Quando as portas se fecharam, marido e amante olharam para a princesa.
— Ele tem razão no que fala — disse o cavaleiro bastardo. — Você precisa de descanso.
Arya devolveu-lhe um olhar impertinente.
— Sério, agora os dois também vão tentar me controlar?
— Não estamos tentando lhe controlar, princesa — Ned insistiu. — Apenas preocupamo-nos com a tua saúde. — Assentou-se, novamente, na cama, perto de sua companheira. Depois olhou para Sor Gendry, aflito, no que esse respondeu com um aceno da cabeça.
Arya ficou em alerta ao ver aquilo, franzindo o cenho. Havia algo que eles sabiam e ela, não. Dardejou um olhar furioso para seu marido, esperando explicações.
Ned, ao virar para fitá-la defronte, não se abalou pelo olhar colérico dela. Pegou a mão dela, como fizera antes, de modo terno.
— Arya, você… Você sabia que estava grávida?
(Risos de escarninho.)
A revelação a arrebatou. Grávida? Mas como? Ela deixara as ervas de lado? Quando fora a última vez que tomara um chá da lua?
— Você perdeu enquanto dormia. — A voz de Gendry era tão dura quanto pedra, ressentida, também. Ele torceu a boca. — Tinha muito sangue entre as suas pernas… Os meistres… Acharam que era sangue da lua, mas a quantidade logo os fez perceber que era um aborto, já que não tinham ferimentos na região.
Arya nem parecia ouvir.
Um bebê… Bem, ela o teria abortado de qualquer forma; mas, mesmo assim…
— Não íamos lhe contar — confidenciou seu marido de voz frágil e triste. — Mas…
— Mas você tem agido como uma estúpida — a voz de Gendry era procelosa. Ele descruzou os braços, deixando-os cair, enquanto se aproximava do catre onde ela estava deitada. — Então, quem sabe, isso não põem algum juízo na sua cabeça de vento? — Continuou: — Olhe o que tem feito a si mesma! A bebida, a falta de alimento… deuses, até mesmo as ervas que nos deu e das quais você me convenceu a dar para… — Parou de falar, balançou a cabeça, voltou a fitá-la. — Seu irmão está certo, Arya: você tem nos metido em sortilégios, e tem deixado sua mente desvanecer…
— Pois se vocês dois estão tão fartos de mim — vociferou ela, sentindo toda a fúria selvagem tomar conta dela, fazendo-a ferver como uma dragão —, podem ir para os sete infernos!
Ela sentiu Edric a puxar, envolvendo-a em seus braços, apertando-a levemente contra seu corpo. O coração dele batia forte, ela sentia. O rosto estava contra a bochecha dela, enquanto o ombro estava contra outra. Sentiu um beijo morno dele tocando-lhe a clavícula.
Enquanto sentia a dor de seu marido, ela se imaginou estirada naquele lençol, sangrando, enquanto Edric via aquele que poderia ser seu herdeiro ou herdeira escorrendo pelos lençois, como uma mera mancha escura que seria tirada por uma lavadora qualquer.
(Eles enfraquecem você. Finalize-os, ou pelo menos faça-o com Sor Gendry.)
Arya sentiu a fúria em seu âmago aumentar, parecendo realmente queimá-la, assim como as lágrimas queimavam seu rosto.
Se tivesse uma faca perto de si, podia acabar com aquele marido dornês que cheirava a fraqueza, e com o desmiolado do amante.
Podia fazer isso, podia matá-los…
Ela sentiu uma leve pressão nas costas, junto de um cheiro acre de suor. Era Gendry abraçando-a. Sentia o calor e o peso dele sobre ela, com o queixo dele por cima de seu couro cabeludo. O coração dele também batia com força contra as costas dela, retumbando por toda a extensão de seu corpo.
— Vai ficar tudo bem, princesa — sussurrou Ned no ouvido dela, ainda a segurando. Ela sabia que ele tinha medo de perdê-la. Sabia que ele sofria pela perda da criança nunca nascida.
Por favor, deuses, não permitam-me fazer mal a eles… Não permitam-me machucar mais ninguém que amo…
(Os risos de escárnio continuam, ecoando, ecoando, ecoando…)
Arya ficou calada todo o momento, sentindo a dor dos amantes, sem nunca falar nada. Apenas deixou a dor que apertava o seu peito aumentar, as lágrimas escorrerem e arderem; o aperto e os toques de Ned e Gendry.
A maior dor, porém, parecia ser o martelar em sua cabeça, que ecoava…
Era como uma risada cruel, bem no fundo de sua mente, advinda de alguma criatura pesadelar, divertida pela dor dela. Queria fazer aquilo parar; mas estava impotente, sem saber o que fazer, apenas ouvindo o risinho de escárnio.
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