Margaery estava sentada no chão, de costas contra a parede; pernas, arqueadas, braços em volta delas, pressionando contra o peito. Seus olhos eram dois fontículos que jorravam água ardente que escorriam pelas suas bochechas, queimando-as. Sua respiração estava arrítmica, ela lutava para normalizá-la; porém era incapaz de deixar que alguns soluços escapassem vez ou outra pela sua garganta fina. Seus lábios tremiam, tal qual os dedos. O ar viciado e empoeirado que ela inalava irritava suas narinas, entrando com dificuldade em seus pulmões. Era quase como sufocar.

Estava num aposento secreto, esquecido dentre os tantos aposentos de Harrenhal — não por falta de necessidade de cômodos, visto a quantidade de lordes e cavaleiros que tinham instalado-se na fortaleza; era mais por conta do estado quebrado do local: vigas velha e mal cuidadas, algumas já tendo cedido e caído, sendo tomadas por líquens; buracos e goteiras em todos os cantos; teias de aranhas encontravam-se em elaboradas e cinzentas estruturas; ossos de ratos, lagartos, dentre outros animais, encontravam-se esparsos no chão — Alleras tinha até lhe dito que imensos morcegos imensos e sinistros viviam no topo do teto, pendendo nas vigas ainda não caídas, atacando qualquer um que atrevesse a entrar no local, e que ele fora obrigado a matar todos. (Ela sabia ser verdade, pois ainda havia corpos deles no local, decompondo-se nos recantos. Eram bizarramente enormes.)

Havia cantigas antigas de que a louca Lady Danelle Lothson usava morcegos gigantes para sequestrar donzelas inocentes, que eram levadas para seu castelo sombrio, onde a malvada Senhora de Harrenhal banhava-se em seu sangue para que assim pudesse permanecer jovem.

Dado tudo o que andava vivenciando, Margaery não tinha muitas dúvidas de que as cantigas estivessem certas.

Além de todo o ambiente decadente que o cômodo era, o caminho para ele era penoso: degraus rachados, teias que conectam as paredes que acabavam por esbarrar nos viandantes que por entre elas ousavam viandar; buracos escondidos pelas sombras; um chão tão úmido que facilmente poderia fazer qualquer um cair e estatelar-se nele; escadas em espirais infinitas, cujos degraus eram rachados e molhados; vigas de madeira podre caídas em diversos lugares, obrigando aqueles que ali passavam a se espremer de diversas formas para se deslocar.

Tudo isso em meio a uma imensa escuridão que estendia-se por todo o caminho. Tão densa, que parecia tocar em você; apertá-lo. Sufocá-lo.

(Obviamente o grupo não seguiria um caminho totalmente a esmo: Alleras entalhara alguns riscos nas paredes [assim como entalhar runas místicas dos primeiros homens e dos valirianos nas paredes do esconderijo], indicando até que andar ir, até onde caminhar no corredor; elas sumiam após passar pela porta de carvalho maciço que havia na entrada do cômodo [esta tinha uma runa antiga entalhada nela].)

Sentia seu corpo transpirar; o coração não acalmava-se em seu peito, parecendo prestes a explodir. Lambeu os lábios; estavam secos. Um nó cruel prendia sua garganta, impossibilitando-a de engolir seco.

Não sabia quanto tempo estivera ali, mas, após o que pareceu uma eternidade eufórica de agonia, um click foi-se ouvido, fazendo-a virar o rosto num chofre assustado. A porta do local abriu-se com sofrimento, gritando num toado assustador ao rilhar-se no chão de pedra. O ribombar era como um monstro rugindo em temível agonia. Uma espessa fumaça de poeira levantou-se com o movimento da madeira. (O lugar inteiro era coberto por uma grossa patina cinzenta que fazia os olhos chorarem, narizes espirrarem). Um rato, assustado pelo som, saiu de seu esconderijo das sombras — Margaery nem o tinha visto ali —, correndo até um buraco, onde sumiu de vez.

— Está muito escuro — ralhou uma voz suave que Margaery reconheceu como sendo a de Ysilla Royce.

Uma luz fraca rebrilhou conforme a porta terminava de abrir-se — parou meio aberta, pois a madeira de carvalho maciço recusou-se a mover-se mais, fazendo todos se espremerem para passar. Quando a luz de uma pequena bola flutuante passou pelo umbral, Margaery, sentindo sua visão ser ferida pela estranha figura, reconheceu a figura alta e feminina, pintada de dourado, que adentrava no cômodo como sendo a de Alleras. Este apertou os olhos, tentando reconhecer a figura sentada contra a parede.

— Ah, é você — disse num contralto melífluado. Belo para os ouvidos. — Pensei ser outro invasor.

Ysilla terminou de atravessar, e a luz fez com que Margaery perceber-se que a moça usava uma roupa marrom de serva. A Royce espirrou quando a poeira acre do lugar atingiu-lhe as narinas. Ela alisou as saias sujas e amarrotadas. Ao olhar para frente, notou a presença de sua companheira, soltou pigarreio, foi até ela, ajoelhando-se ao lado de Margaery.

— Quanto tempo está aqui, Milady? — indagou Ysilla, pousando levemente uma mão no ombro de Margaery, que ainda trajava o mesmo manto escuro dantes.

Respondeu a pergunta com um meneio da cabeça. Sansa apenas dispensara ela e Wylla de sua companhia de forma abrupta. Ambas seguiram caminhos separadas após algum tempo — a irmã de Lady Manderly fora rezar no acabado septo do castelo; Margaery a acompanhou, mas sumiu após a reza de uma turba de plebeus de juntar a elas na reza. Após um tempo andando, ela disparou contra o local que Alleras lhe informara.

Após ver que Margaery não mais ia falar, a Royce explicou porque estava lá:

— Eu só consegui deixar Randa quando ela ordenou que queria ficar a sós com o marido. Por sorte, eles costumam demorar; e ela parece não gostar de ter-me por perto.

Margaery anuiu, entendendo os motivos de Myranda.

O esfinge foi até perto delas, parando pouco passos das duas. Margaery fitou o que havia na mão dele (ou melhor, flutuando nela): uma pequena orbe que rebrilhava como ouro incandescente. Um mini-sol. Apesar de ferir seus olhos, ainda desacostumados com luz, ela fitava a esfera com fascínio mudo, porém palpável.

Respondendo a pergunta não dita, Alleras falou:

— A magia está forte aqui, em Harrenhal. Antes, na Cidadela, eu demorei muito para poder fazer tal façanha. — Ele levantou mão, fazendo a esfera brilhante flutuar mais. Mesmo após para o gesto, o objeto flutuou até alcançar o teto, onde aumentou a potência de sua fulgência, fazendo todo o local ser tocado por sua luz, afastando as trevas, junto de suas pequenas criaturinhas.

A luz magoou ainda mais o olhar de Margaery, que virou o rosto, apertou os olhos, fazendo mais lágrimas caírem. Ysilla levantou-se, fitando fixamente para o objeto, maravilhada com seu poder rebrilhante.

— É tão belo — disse ela, sem fôlego, olhando-a de olhos bem abertos, como se fosse um segundo sol.

Quando abriu os olhos novamente, forçando-se a fitar o objeto de fulgência, notou que a estranha fonte de luz não emitia qualquer calor no ambiente, apenas o pintava com seu dourado. As runas de Alleras pareceram arder em brasas ao serem tocadas pela luz, rebrilhando por si mesmas, como se a refletissem ou estivessem vivas. Algumas brilhavam em dourado ou vermelho, outras, prata-azulado.

— Bola legal — uma voz desconhecida falou —, pode me fazer uma?

Margaery virou-se, encarou as diferentes figuras presentes, as quais não havia notado. Lorde Brynden estava entre eles, junto do encurvado Mindinho, um homem de pele marrom-escura (Margaery o reconheceu como um chefe-mercenário, e imaginou ser Ben Plumm); ao lado deste, estava um homem alto (que fora quem fizera o pedido da esfera para Alleras), esguio, moreno, cujos olhos eram igualmente escuros, tal qual a espessa barba por fazer e a cota de malha negrume. Havia um sorriso lupino nos lábios dele.

Margaery sentiu o ter visto antes, mas não lembrava-se donde… Ela permaneceu sentada no chão, observando a todos. Alleras virou-se para o grupelho atrás dele, sem parecer achar graça da pilhéria do mercenário.

— Não viemos aqui para perder tempo, sor Bronn — redarguiu Alleras, irritado com a presença do mercenário.

Ao ouvir o nome, Margaery ficou em alerta; moveu-se, tentando levantar-se, Ysilla ajudou-a a empertigar-se. Sentiu suas costas rasparem na parede através do vestido e do manto. A palma da mão que tocara na parede ficou suja de poeira.

— Sor Bronn? — ela finalmente falou. — Aquele mercenário de Tyrion?

Alleras virou-se e acenou para ela.

— Este mesmo.

O homem deu um sorriso mordaz na direção de Margaery.

— Foi ele quem matou Sor Vardis… — murmurou Ysilla, fitando o amigo do duende com um tanto de temor.

— Aquele idiota do Vale?

— Sor Vardis era um cavaleiro de grande honra! — retrucou ela, entredentes.

Sor Bronn deu um risinho.

— É, e veja quem está aqui hoje.

— Só ganhou porque trapaceou! — vociferou a moça. Margaery nunca a tinha visto tão irritada.

Dessa vez, Sor Bronn riu mesmo.

— Eu não roubei — treplicou o mercenário. — Apenas usei o cérebro.

A filha de Lorde Royce fez um som irritadiço, mas ficou calada. Margaery viu isso como um oportunidade:

— Que faz aqui? — quis saber. — É o lorde de Stokeworth agora, e amigo daquele irmãozinho atrofiado de Cersei…

— Bem, o Rei não tem mais como dar falta minha — explicou o Lorde mercenário. — O anão não está em boas graças com ele, de modo que minha saída da corte foi bem vista pelos monarcas. E, além do mais, a Aranha não mais está no poder para me bisbilhotar. Para o Rei Aegon e sua esposa dornesa, eu estou fodendo minha esposa retardada até ela dar outro filho. — Ele retirou um punhal da bainha, mas não para ameaçar; apenas começou a retirar sujeira das unhas.

Margaery viu-se arrebatada por tudo aquilo — Varys, deposto? E o que havia feito Tyrion?

Ysilla deu um passo à frente:

— Se acha que os espiões…

— Todos no meu castelo são de minha gente — atalhou Bronn. — Eles me fizeram lorde, ajudaram-me a expulsar a idiota da irmã de minha esposa quando ela tentou me prender. — Continuou: — Além do mais, escolhi um bom mercenário para passar-se por mim: ele é bem parecido, embora não bem instruído na arte de matar, e deve estar aproveitando a vida de lorde: as bebidas, as roupas caras… Fora que pode deitar na cama do lorde e trepar com Lollys o quanto quiser. — Deu de ombros. — Ela tende a não resistir, e é bem molhada desde que metade de Porto Real arrombou o seu portão, e gostava do riso do homem. Além do mais, ela já me deu um filho para herdar. Fora que está acostumada a dar a luz a bastardinhos; este vou deixar usar o nome Stokeworth, porém.

Margaery fez uma careta ao ouvir aquelas palavras crueis daquele homem nojento. O modo como ele falava da esposa…

— Bronn veio nos trazer uma importante mensagem da Capital — informou Alleras, se interpondo entre a conversa dos interlocutores. — De seu amigo Duende.

Margaery estreitou os olhos, fitando Bronn com óbvia desconfiança.

— E o que seria? E, mais importante, por qual motivo o estamos a dar ouvidos?

— Nada de bom pode sair deste homem — declarou Ysilla, ainda a olhar para Bronn com cólera.

Alleras e Petyr olharam para o homem, esperando este começar a falar, enquanto Lorde Brynden passava dentre Mindinho e Plumm para alcançar Margaery. Estocou-se a um passo de distância dela. Ele olhou para ela, esquadrinhando as vestes que sua prometida envergava.

— Senhora… que estás a usar? — Ao ver o rosto dela, colocou uma mão em cada ombro dela, acalentando-a. — Que houve, Margaery? Que lhe fizeram?

Ao pensar na cena do bosque, um chofre atingiu o peito dela, fazendo-a soluçar.

— Oh, eles são horríveis, Milorde! — exclamou, atordoada. Ainda podia ouvir o farfalhar das folhas ao vento; eram como sussurros sinistros, quase inaudíveis.

Brynden fez uma careta de confusão.

— O que? Quem?

— Os Starks! — Lágrimas riscavam suas bochechas, enquanto seus olhos de corça fitavam os pequenos e escuros olhos de Lorde Blackwood. — Oh, deuses, eles são horríveis! Não sabe como foi, não sabe do nível de seus poderes…

— Margaery, acalmai-vos — aconselhou Ysilla, suave. — Quanto tempo está aqui?

Chacoalhou a cabeça para os lados, mostrando que não sabia a resposta.

— Foi após o discurso do rei — falou, ainda embargada estava a sua voz. — Sansa levou-nos escondidas para o bosque, onde estava o irmão, e, então, olhos me olhavam, brilhando, as árvores cantavam, e… oh, deuses, os olhos, os temíveis olhos do Represeiro… a música…

— Tudo está bem, amor — disse Brynden, afagando os cachos espessos dela —, fica calma. — Puxou-a para si, tomando-a por entre seus braços, comprimindo-a gentilmente contra seu talho estufado. Ela retribuiu com o mesmo gesto, apertando-o com os seus próprios braços. Queria que o calor daquele homem pudesse acalmar as dores em seu coração. Queria acreditar que tudo ficaria bem e que o amaria, que seriam felizes; mas nada parecia fazer aquilo ser real. Chorou mais, soluçando violentamente, como uma jovem histérica. Sua garganta doeu com os gritos abafados que dava contra o peito de Lorde Brynden; suas pernas vieram a quase esmorecer.

Estava tão cansada daquilo: a sensação de impotência, o medo constante… sentia que as suas ações não eram suas. Eram de outrem. Ela era apenas títere, guiada por cordas finas e invisíveis. Como escapar? Como tomar as rédeas de si mesma de novo? Como voltar a ter paz? Como ser… Como ser feliz novamente? Ainda havia como fazê-lo, ou estava tudo perdido há muito?

Quando afastou o rosto, sentindo que havia expelido quase toda a dor em gritos sufocados, sua respiração estava menos errante e sentiu-se mais controlada, mesmo tomada pela vergonha de deixar-se transparecer fraqueza.Brynden – num momento de ternura que a surpreendeu –, ergueu o queixo dela, lambeu as lágrimas que ainda escorriam em seus olhos, como uma mãe gato a limpar seu frágil filhote.

— Está segura agora — disse ele, enquanto passava a manga de sua roupa pela bochecha dela.

Margaery o agradeceu, mas sentiu-se oca ao recitar as palavras. Tudo parecia tão sem sentido agora…

— Enfim — disse Bronn, voltando as atenções para ele —, se os enamoradinhos já terminaram, será que agora vão poder ouvir o’que tenho a lhes dizer?

Todos lançaram os olhares para ele. Nenhum, porém, parecia ter prazer em fazê-lo.

— Tyrion tem um plano para ajudar a Rainha Dragão.

— Ah, tem? — Alleras disse, num tom duvidoso.

Sor Bronn apenas sorriu. Aquele maldito sorriso lupino!

— Bem, ou contra ela, que seja…

— Fale — demandou Margaery.

Foi o que ele fez:

— Imagino terem ouvido falar d’A Batalha da água Negra.

— A que meu pai derrotou Stannis Baratheon? — Margaery estava bem a par da tal batalha. Seus irmãos salvaram a cidade de ser tomada, e havia canções feitas sobre o fantasma de Renly ter aparecido (na verdade, fora apenas o seu irmão mais velho e falecido, Garlan).

Bronn assentiu.

— Essa mesma! O Duende fez fogo-vivo queimar na água!

Ao entender onde queria chegar, um arrepio subiu pela espinha de Margaery. Não foi a única, pois todos estavam a cruzar olhares. Alleras relanceou para Bronn, falou:

— Que pretende o Lannister? — interpelou. — Que tramoia nefasta tem ele agora?

Bronn apenas deu um dar de ombros, novamente. Era um homem debochado.

— Ora, o que parece: acabar com a cidade. Basta a rainha queimar um dos portões e, bum!, foram-se as defesas da Capital.

— Acha mesmo que somos tão tolos? — indagou Brynden, fazendo um esgar. — A explosão acabaria com toda a cidade!

(Valeria a pena?)

— E além disso — interveio Petyr Baelish —, o Duende estaria condenado tanto quanto qualquer um. O fogo não distingue carne; queima tudo.

— Tyrion tem seus planos, imagino — rebateu Bronn, indiferente. — De todo o modo, não é isso que vocês querem no fim? A queda da Rainha Dragão?

Silêncio. Todos haviam esquecido as palavras.

A simples frase de Bronn agiu como um poderoso chofre arrebatador em Margaery, fazendo sua mente divagar para o passado: as ruas por onde alegremente cavalgada com suas primas; onde diversas pessoas assustadas e famintas a saudaram, vendo-a como símbolo de esperança. Uma miríade de rostos a cercando, louvando seu nome — muitos reuniram-se no septo de Baelor, implorando para que o Alto Septão a libertasse. Fora lá, em Porto Real, que uma doce família decidiu sacrificar a própria filha para salvar a vida de Margaery.

Teria descido tanto na vida a ponto de fazer todas aquelas pobres almas?

(Teria Daenerys deixado outra opção? Ela não teria feito pior para obter poder?)

Ela viu-se tomada pelo horror e o desejo de vingança — este deixava um gosto agridoce em sua boca; uma mistura de bílis com o que parecia puro júbilo.

Sim, ela estava disposta a ir tão longe e tão baixo — que mais tinha a perder? Que os sete condenassem sua alma após tudo ser feito, Margaery arderia nos sete infernos com Daenerys — valeria a pena.

Por muito tempo, o silêncio se prolongou, ninguém teve coragem de contrapor. Ninguém, exceto…

— Não — a cadência de Ysilla era calma, mas dura e penetrante, como um borbotão do inverno mais enregelante. — Não desse modo. Não a custas de vítimas inocentes. — Ao ver que ninguém falava em concordância a suas palavras, ela varreu o rosto de todos com seus olhos únicos, tanto castanhos quanto marrons. — Pelos deuses, não me digam que vocês concordam com tal loucura!

Margaery limpou a garganta, deu um passo a frente, mais recomposta, falou:

— Às vezes, Ysilla, a morte…

— NÃO! — ela a interrompeu. — Não me digas que existe razão para prosseguir com isso pois não há!

Margaery vacilou perante a cólera na voz da moça. Como seus olhos ardiam em fúria!

Lorde Blackwood veio em seu auxílio, puxando-a para si, como que para protegê-la de Ysilla Royce.

— Tome cuidado para não esquecer seu lugar, mulher! — vociferou ele, com o rosto ficando escarlate de fúria.

— Não ouse dizer onde é ou não é meu lugar, Milorde! Eu sei meus deveres muito mais do que você!

Margaery viu Sor Bronn e Ben Plumm trocarem olhares. Sabia no que aquilo iria dar…

Antes que qualquer aço voasse, porém, Alleras interveio, pousando uma mão apaziguadora na espádua de Ysilla. (Está ele tramando algo? Afinal, Arianne era sua prima, Margaery indagou para si mesma, enquanto observava a cena se desenrolar.)

— Ysilla, acalma-te — pediu ele, numa voz branda, baixa, — Vende comigo conversar em…

Ela afastou o toque dele num gesto brusco e bruto do braço, virou-0se para encará-lo:

— Alleras, admito que duvidei de você — falou ela. — Achei que julguei-lhe mal e que você realmente queria o bem do reino; mas agora… — Balançou a cabeça. — Vejo que o regicídio não foi o bastante para você!

Diante de tais palavras, Alleras abalou-se, deu um passo para trás, retraído. Pareceu um pequeno animalzinho cujo dono batera.

— Não finja que é melhor do que ninguém aqui, garota — ralhou Petyr. — Todos sabem que só está aqui pois seu marido preferiu a bastarda de Robert.

Ysilla o olhou, mas Margaery pode ver que a vergonha a tocara. Aproveitou o momento:

— Deve entender, Ysilla, que temos de fazer o que é necessário para o bem do reino. — Afastou-se de Sor Brynden, delicada. — Nem sempre o que fazemos é algo limpo, mas os valores do Reino…

— Os valores do reino — atalhou a moça —, ou os seus desejos pessoais, Margaery?

Ofendida, pigarreou:

— Como pode falar comigo assim? Eu, quem tanto lhe defendi…

— Quem você usou, você quer dizer! — corrigiu-a. — Eu vejo a verdade em gente da sua laia, Margaery… Não é melhor do que seus inimigos quando passa por cima de tudo e todos. — Escrutinou o local, visualizando cada pessoa ali. — Nenhum de vocês é o melhor para o reino.

Sor Bronn gargalhou, fazendo Ysilla tremer, apesar de ainda mostrar-se resiliente.

— Garota burra — disse ele —, depois de tudo, não percebe que ninguém realmente liga para o bem de nenhum dos malditos Sete Reinos?

A moça apertou os lábios.

— Eu ainda me importo — insistiu ela.

Será que ela não vê que está se condenando? Nenhum desses homens a deixará sair viva daqui!

— Jon e Daenerys tramaram contra o Reino — declarou Lorde Brynden. — O filho de Ned Stark vendeu a própria honra para que pudesse ter para si uma coroa e um trono melhores do que o Norte poderia-lhe aprouver. — Continuou: — e a Puta que se auto intitula rainha é apenas mais filha de seu pai. Um Aerys Segundo com tetas.

Ysilla o olhou com os olhos apertados, quase fechados.

— Pode até ser… — ela falou, num tom de dúvida. Abriu os olhos, mostrou sua seriedade novamente. — Mas não estou disposta a participar do plano de traição de vocês! — A voz dela, junto de seu semblante, mostrava que, diferente doutros momentos, Ysilla estava inabalável em sua escolha. Relanceou para Margaery, depois voltou a fitar a face corvenica de Blackwood. — Vejo que Margaery já o enredou em suas tramoias leviana, como já o fez comigo, mas, diferente de você, Lorde Blackwood, não estou mais disposta a ser um peão qualquer! — Concluiu, olhando-o com escarnecimento: — Ainda mais um peão levado por desejos levianos!

Aquilo enfureceu Brynden, deixando-o com a face ainda mais vermelha pelo sangue fervente que por ela passava. Antes que qualquer um pudesse fazer algo, agarrou a filha de Yohn Royce pelos pulsos, apertando-os com força, fazendo Ysilla vestir uma cara de dor, ganindo pelo aperto. Puxou-a para si, jogou a cabeça para frente, fazendo parecer que queria dar-lhe uma cabeça (o que teria ocorrido, caso Ysilla não tivesse afastado seu próprio rosto a tempo, assustada). Por fim, vociferou, cuspindo na cara dela ao bradar:

— Você fará o que nós mandarmos, me entendeu? — Ele ainda a apertava com fúria, enquanto ela lutava para escapar, com o rosto ainda afastado do dele, de face virada. Brynden aproximou mais o rosto do dela, como um cão nervoso, pronto para morder. — Nunca mais me trate desse modo! Você me entendeu, sua…

Antes que ele pudesse terminar, Ysilla deu um guincho de dor. Um som de tecido rasgando foi ouvido; logo a mão dela voou em direção a face longa de Brynden, com dedos curvados como as garras de uma ave. Logo o jovem Lorde de Corvarbor grunhiu de dor, afastou o rosto. Ela tinha arranhado-lhe uma bochecha após soltar um dos braços. Por fim, Ysilla quase jogou-se para trás, após Brynden a ter soltado, dando um passo largo para trás.

O lorde levou uma mão até a área onde havia sido atingido — haviam três linhas rubras no local. Margaery levou uma mão até seu ombro, para acalmá-lo antes que ele fizesse alguma tolice, mas Brynden afastou seu toque com um gesto brusco e irritado de seu ombro. Ele voltou-se para Ysilla. Todos deram um passo para trás, vendo que a fúria de Blackwood estava prestes a explodir.

— Como se atreve? — Ele interpelou, com a voz ribombando como um trovão no ambiente; o pescoço inchado pela cólera, uma veia a pulsar violentamente, como um verme esverdeado, prestes a explodir. Até os olhos estavam avermelhados. Uma veia também estava a saltar na têmpora.

Vendo ódio no rosto de Brynden, Margaery afastou-se, sabendo que era melhor não intrometer-se.

Ysilla, parecendo um pouco recuperada, pareceu não ouvir o homem. Ela olhou para os pulsos, viu as manchas puníceas que os dedos de Brynden lhe deixaram na pele pálida. Ergueu o olhar para ele, com os olhos únicos que tinha a dardejarem contra os olhos negros de Brynden. O espanto sumiu, a fúria apossou-se do rosto solene e belo da dama Royce.

— Como eu me atrevo? Como você atreve-se a tocar-me! — A voz dela estava agitada; parecia quase não ter fôlego. — Pois saiba que meu pai me dará sua cabeça por isso! E que toda essa pantomima de vocês acabou-se! Nenhuma traição de Jon e Daenerys equipara-se a esta!

Margaery não respondeu. Ela sabia que a moça estava condenada.

Ysilla virou-se, pronta para ir até a porta, mas Bronn interpôs-se no caminho, ficando a um centímetro dela, indiferente. Os olhos cinza-castanho dela o olharam com fúria.

— Saia da minha frente!

Ele meneou a cabeça. Ben Plumm aproximou-se, ficando ao lado de Sor Bronn. Ambos eram uma parede humana.

— Lamento minha cara — começou a falar Petyr —, mas temo que não podemos…

Antes que Baelish pudesse terminar, Brynden avançou, rápido como um gato das sombras, dirigiu um punho revestido de cota de malha contra uma das têmporas de Ysilla, que veio chocar o outro lado da face contra a parede empoeirada e escura do local, tamanho a potência do chofre que lhe atingira. Por fim, ela caiu, sem lamento, no chão, como se apenas tivesse a pegar sono.

Ao ver tal brutalidade, Margaery inalou ar, assustada. Todos, mesmo os mercenários, pareciam chocados com um golpe tão brutal e desleal que acabaram de ver. Brynden, entretanto, nem sequer teve reação ao ver aquela pobre moça cair aos seus pés, ainda a fitando com ódio.

Por fim, Alleras, ainda com sua forma feminina, foi até a figura desfalecida de Ysilla, agachou-se ao lado dela. Com delicadeza, pegou a cabeça dela com as duas mãos, ergueu, pousou-a em seu colo. Examinou-a por um tempinho, virando-a entre os dedos, afastando o cabelo para poder ver os ferimentos. Após isso, fez um muxoxo, pousou-a no chão, ergueu-se.

— Está morta — declarou. Olhou para Lorde Brynden. — Satisfeito? Quantos mais terão de morrer?

Brynden empalideceu ao ouvir aquilo, fitando Alleras com horror, enquanto exalava ar, arfando. Seus olhos arregalaram-se.

— O quê? Não! — Dardejou os olhos negros para a jovem mulher morta aos seus pés. — Está a mentir! Nunca quis tal coisa!

— Imagine se quisesse… — zombou Bronn.

Sem parecer ouví-lo, Brynden agachou-se, tomou o corpo de sua falecida vítima nos braços. Um dos braços dela caia,débil, para fora do “abraço” do homem, e este ficava a puxá-lo de volta repetidamente, sem parecer entender que era tarde.

— Ysilla! Ysilla responda-me! Responda-me, pelos deuses!

Margaery sabia que ela havia partido. Brynden a matou na flor da idade.

Meu irmão foi o fim do irmão dela, pensou, lembrando-se de como Sor Loras matara o Sor Robbar Royce, conhecido pela alcunha de O Vermelho, após este deixar Renly morrer. Agora, eu fui o fim dela.

Não havia tempo a perder. Foi até Lorde Blackwood, que chorava copiosamente enquanto estava abraçado ao corpo morto de Ysilla, pousou uma mão dócil no ombro dele, disse o que ele queria:

— Ela o irritou, Sor, nós todos vimos. Sabemos que não teve intenção alguma de fazer-lhe mal.

Brynden diminuiu o choro, ergueu a cabeça em sua direção, fitando-a com olhos vermelhos e negros, um rosto abrasivo, riscado pelas lágrimas. Ele engoliu seco.

— Eu… eu não queria… ela…

— Não sairia daqui — atalhou Margaery, referindo-se aos mercenários. — Talvez tenha sido melhor assim.

Ele escrutinou as palavras dela, afônico, por fim assentiu. Com demora pesarosa, deixou o corpo de Ysilla de lado, ergueu-se, abraçou Margaery. Ela sabia que ele confiava nela. Ele a via como sua boa futura esposa. Que assim fosse, desde que tudo desse certo no fim.

(Enquanto Margaery era abraçada pelo seu cúmplice-amante, Alleras olhou para a falecida Ysilla. Se ao menos eu tivesse tido tempo de falar com ela, lamentou-se ele, imaginando que talvez, doutro modo, Ysilla poderia estar viva para vislumbrar o Longo Verão que viria — isto é, caso ela sobrevivesse a Longa Noite.

Não era para ser, disse a si mesmo, mas o caminho dos deuses ainda não estava terminado. Ele não viveria para ver o caminho dourado que se seguiria; mas ainda faria o que pudesse para que este se tornasse possível. Só rezava para que sua prima, Arianne, sobrevivesse para ver o que estava por vir — temia que a resposta para isso não fosse positiva, porém.)

Por fim, quando os dois se separaram, todos olharam para o cadáver estatelado no quarto. Margaery bizarramente pensou em como a moça estatelada a sua frente parecia apenas estar a tirar um suave cochilo no chão — era tão mórbido. Ainda mais com a luz dourada da orbe de Alleras rebrilhando em sua doce face. Parecia uma donzela de belas canções.

— Devemos desovar o corpo na neve — sugeriu a figura de Alleras, com a voz afetada, ainda fitando Ysilla. — Creio que não podemos jogar nas muralhas, e seria arriscado jogar pelas muralhas, mas, se pudéssemos passar pelos portões e largar na neve…

— Não — disse Bronn. — Deixe-a aqui. Ninguém nos verá com ela, assim como ninguém sabe que ela está aqui. — Deu de ombros. — Que os ratos e vermes banqueteiam-se com ela.

Margaery sentiu o estômago apertar ao pensar que deixaram a pobre dama ali, no escuro. (Todavia, que mais podia fazer? A jovem selara seu destino.)

— Vão dar falta dela… — disse ela, sem emoção. Pensou em como isso afetaria o lorde Yohn, que já estava no terceiro filho morto…

(E se vierem atrás de mim? Podem suspeitar… ou, quem sabe, os nobres culpem a Rainha!)

— Não — declarou Alleras. — Não vão… Não com o’que está por vir.

Bronn franziu o cenho, olhando confuso para a figura d’O Esfinge a sua frente. O brilho da esfera fulgente fazia com que um halo surgisse sobre o espesso cabelo preto de Alleras.

— Que quer dizer? — perguntou o enviado de Tyrion. Alleras o olhou com indiferença.

— Não importa para você — respondeu; sem mais.

O mercenário enobrecido fez um estalo com a língua, parecendo irritado; por fim, deu de ombros.

Aproveitando o momento, Petyr falou:

— Como podemos saber que esse mercenário está falando a verdade?

Sor Bronn deu outro de seu sorriso lupino.

— Teria porque eu mentir?

— Teria motivos para ser verdadeiro? — indagou Ben Plumm, chefe dos Segundo Filhos. — Sou líder de mercenários, sei como nós agimos.

Ele respondeu com um aceno da cabeça.

— Bem, então sabe que queremos trabalhar para quem tem mais dinheiro — retrucou Bronn. — Tyrion prometeu-lhe, há muito, parte do ouro de Rochedo Casterly, e ele pretende cumprir com sua palavra.

— Um Lannister sempre paga suas dívidas — disse Alleras, num tom seco. Margaery bem sabia que ambos estavam desgostosos com a casa dos leões.

Bronn olhou para Alleras, esquadrinhando-o. Seu sorriso alargou ao ver o corpo deste que ainda estava na forma feminina — era bela, apesar de um tanto magra e de braços musculosos.

— Pelo visto, esta aqui sabe do que falo.

— Você não faz ideia — disse Margaery. Virou-se para Alleras. — Como Bronn sabia onde achá-lo? Ele foi ver Plumm? Ou… — Franziu o cenho, confusa. — Petyr? Mas…

— Ela foi quem me achou — Bronn respondeu, apontando para Alleras com um dedo caloso. — Eu estava quase atolado na neve quando ela e dois dos mercenários dos Segundos Filhos acharam-me.

— Mantemo-no escondido por um tempo — revelou Ben Plumm —, até termos certeza de que ele falava a verdade. E era perigoso deixá-lo solto por aí; algum dos aliados da Rainha poderiam reconhecê-lo, pois muitos o viram na Capital.

— E o Cão de Sansa ainda anda solto por aí — lembrou-lhes Alleras.

— E por que não dá logo um fim em Sandor? — exigiu saber Baelish. — Ele tem deixado-se livre para matar, e tenho a certeza de que um golpe de sua lâmina resolveria o problema. Pelos deuses, ele é um alvo imenso!

Margaery, ao ouvir tudo aquilo, ficou ainda mais perdida.

— Como sabia de Sor Bronn? — indagou para Alleras, antes que ele pudesse responder Petyr. — Não tem contato com o Duende, imagino?

O Esfinge fez que não com a cabeça.

— Eu… Eu sabia que devia encontrar Bronn.

— Como? — demandou ela. Havia algo que Alleras lhe escondia.

— Minha vela foi-se — falou ele, sem sentido algum para se fazer presente na frase (novamente essa vela, pensou Margaery, lembrando que ele já a mencionara antes) —, mas ainda tenho minha mágica. — Acenou para cima com o queixo, apontando para a esfera que iluminava tudo. — Vi Sor Bronn vindo, então convenci Ben Plumm a ajudar-me com dois de seus homens. — Alleras virou-se para Sor Bronn, parecendo desgosto de vê-lo.

Margaery permaneceu confusa; Sor Bronn estava indo para Harrenhal amando de Tyrion, certo; mas… que chances ele tinha de não ter sido descoberto pelos guardas do portão? Como sabia que acharia Petyr? E se tivesse sido pego por outra pessoa?

Antes que Margaery pudesse falar, O Esfinge tomou a dianteira:

— E como o Anão conseguiu o Fogo-Vivo, posso saber?

Bronn tinha a resposta na língua:

— Muito foi deixado por Aerys, a outra parte, a irmã dele mandou fazer e botar nos portões. Claro, com a queda da Cidade, muitos rebelaram-se contra ela… afinal, quem ficaria do lado de uma insana que queimaria a todos?

Margaery ouviu tudo aquilo com surpresa — sabia que a antiga sogra era insana, mas… matar todos na Capital? Incluindo a si mesma?

— Tem certeza de que os toneis com a substância ainda estão lá? — a cadência na voz de Petyr era fraca, ainda repleta de desconfiança. O cansaço também transpassava na fala.

Bronn acenou.

— Uma parte do Fogo-Vivo permanece, principalmente nalguns dos portões. Basta um mero borbotãozinho de fogo da rainha, pronto! Tudo vai para os ares!

— E o anão? E quanto a Tyrion?

A pergunta de Lorde Mindinho pareceu irritar Lorde Bronn.

— Que tem ele? Ele sabe cuidar-se! — Fez um som exasperado: — Olhe, Tyrion é um anão esperto; ele terá a princesa como sua refém, acredite. Ele irá ter a rainha consigo.

Enquanto os dois interlocutores discutiam, Alleras deu passos leves para o lado de Bronn. Margaery nada disse. Quando Brynden pareceu que ia intrometer-se na conversa, ela o estocou com um leve aperto em sua mão.

— A Rainha Martell? — indagou Petyr. — Ela será feita refém por Tyrion? Ele irá deixá-la viva?

O mercenário acenou bruscamente a cabeça. As perguntas o estavam deixando irritado. Sua testa estava começando a brilhar pela perspiração; orvalho parecia acumular-se em sua tez amorenada.

Esperto para matar; não para tramar.

— Que garantia temos de que Tyrion terá poder para fazer a Rainha Martell como sua refém? — indagou Lorde Baelish. — E por que ele não a matou, junto de Aegon, para acabar com tudo de uma vez? Que raios esse Lannister retorcido tem na cabeça?

Bronn lambeu o beiço peludo, fugaz.

— Ele não me conta tudo de seus planos… — foi tudo o que Bronn falou. Pelo olhar e a voz dele, parecia ser verdade.

— Você não esperava ser pego por nós, não é? — indagou Margaery, enquanto Ben Plumm fez um aceno rápido com a mão para Alleras, que estava atrás de Sor Bronn. — Esperava conseguir falar com Daenerys? Está mesmo a trabalho de Tyrion? É por isso que ele irá ter uma refém tão importante como Arianne?

Seria uma forma de garantir que os Martell não continuassem a se rebelar após a queda deles? Bom, isso explicaria Tyrion perder tempo com uma refém, mas teria poder para prendê-la? E, se tivesse, por qual motivo ele iria querer explodir a cidade? Apenas puro ódio?

Existia algo faltando ali…

Sor Bronn a olhou com fúria, ainda nervoso. Rilhou os dentes. Sim, ele estava agitado. Irritado. Para defendê-la, Sor Brynden botou-se na frente dela, como uma muralha humana.

— Seu plano era falar com a Rainha dragão? — O mercenário-chefe dos Segundos Filhos indagou, confuso. — Por que? Daenerys nunca iria queimar a população…

— Bem — cortou-lhe Bronn —, mas se ela destruir os portões para deixar o exército entrar…

— Para que? — indagou Petyr. — Se essa fosse uma armadilha para ela, você nunca viria nos dizer… — Parou de falar quando Bronn moveu um braço, com a agilidade de um gato arredio, para o cabo da bainha.

— Chega dessa pantomima — exclamou Bronn. — O Duende que vá para o sétimo inferno, junto de todo o seu ouro. — Varreu o olhar, olhando para todos (ou quase). Fitou principalmente Baelish por um tempo. — Querem a verdade? Eu…

Antes que pudesse falar algo mais, Margaery viu um brilho fosco surgir nas costas do homem, dardejando contra ele, sumindo tão rápido quanto veio. Sor Bronn grunhiu, escarrando sangue, enquanto parecia quase dar um salto. Sua cara fez uma expressão de dor. Soltou o cabo da espada. Logo veio a cair, estatelando-se no chão, caindo ao lado de Ysilla; ela de costas para o chão, ele, bruços. O corpo de Lorde Stokeworth ainda tremia um pouco aqui e ali, nas mãos e nos pés, enquanto dava um quase inaudível ganido, como se fosse um cachorro em agonia.

Margaery olhou para Alleras, que estava a limpar a lâmina numa das pernas do calção de lã de Bronn. Ele, assim como o homem que acabara de matar, tinha a velocidade de um felino. Guardou a lâmina na manga, fazendo-a sumir num instante. Suas mãos eram assazes, ela podia perceber.

Margaery reconheceu o punhal da lâmina dessa vez: era escura, como fumaça, ao invés de ostentar o brilho azerado do aço normal; o cabo era mais brilhante, como de diamante.

A adaga valiriana! A mesma que Arya dera para Margaery, mas esta veio a perdê-la após ter sido presa pelos guardas de Myranda.

(Como Alleras tem esse punhal? Esta era a pergunta que agora martelava incessantemente na cabeça de Margaery: Como Alleras tem esse punha? Como, como, como!? Era um eco sem fim! De alguma forma, isso a enervava.

Como Alleras tem esse punhal?

Mesmo sem essa resposta, pelo menos por agora, ela viu, mais uma vez, a agilidade d’O Esfinge; rápido como o pai — todavia, velocidade não fora capaz de salvar Oberyn Martell no fim.)

— Ele ainda respira — comentou Brown Ben Plumm, dando um leve chute no ombro de Bronn, que tossiu um pouco mais de sangue. Estava gemendo de dor, mas bem baixinho.

— Apenas por um tempo — garantiu Alleras. — O veneno de mantícora é rápido.

Margaery relanceou o corpo de Bronn, depois voltou a olhar para Alleras.

— Havia mais para ele falar — disse ela, com a voz dura.

A figura da mulher que se auto intitulava Alleras a olhou com indiferença. Os olhos eram duas lantejoulas escuras.

— Ele falou tudo o que tinha para falar para nós — garantiu Ben Plumm.

Ela não sentiu confiança ao ouvir aquilo.

— De todo o modo — falou Lorde Brynden —, de que nos serve tudo isso? — Apontou para o cadáver de Bronn com as duas mãos, palmas abertas.

— Ele nos disse o que precisávamos saber — Ben Plumm falou. — De toda forma, a mulher… ou homem, que seja… salvo-nos. Bronn podia cair, mas ia levar algum de nós consigo.

Dependendo de quem fosse, seria um alívio, pensou Margaery.

— Nós sabemos o que precisávamos — insistiu Alleras. — Bronn contou-nos sobre o plano de Tyrion, basta usá-lo como queremos. O anão e o dragão hão de fazer o resto por nós.

Margaery notou uma perturbação perpassando o olhar de Alleras. Ele realmente vai arriscar-se a acreditar nas palavras de Bronn? Ele não percebeu que ele estava a mentir?

Petyr pareceu pensar o mesmo que Margaery. Ambos se relancearam, parecendo receosos em seguir em frente com Alleras. Deviam matá-lo?

Não, ela pensou, Alleras é o mais útil de todos nós… por enquanto.

— E como vamos usar essas informações, se é que são verdadeiras? — perguntou Brynden Blackwood.

— Com o nosso Esfinge, é claro. — Margaery para Alleras com o queixo. — Ele é quem tem a chave para o nossos mistérios.

Alleras franziu o cenho.

— Que tem em mente agora?

Ela deu um passo adiante, ficando um pouco à frente de Brynden, mais perto de Alleras, afronte.

— Que tal ficar como na sua verdadeira forma, Esfinge? — Era melhor ele estar confortável.

Ele pareceu titubear, mas no fim fez o que lhe era sugerido. Uma palavra foi dita, sombras dançaram, assustando Sor Brynden, que ainda estava desacostumado com elas (ou os outros assustaram apenas um pouco), a figura esbelta de Alleras surgiu.

Brynden esbugalhou os olhos, enquanto deixava o queixo escancarar-se, fazendo um “O” emudado.

— C-como… Você, você não…

Alleras deu um sorriso suave para o Lorde de Corvarbor:

— Há muito o que vós e os outros lordes não sabem, Milorde. No fim, a superioridade de alguns, como vós, ao acharem que sabem sobre tudo, é só mais um amontoado de ignorância que pessoas como eu usamos para fazer o que queremos bem debaixo de seus narizinhos.

Sor Brynden franziu o cenho, voltando a ter um tom avermelhado no rosto, ao passo que pareceu ainda mais confuso com as palavras de Alleras dirigidas para ele.

Antes que a raiva e ignorância de Blackwood voltassem a estragar tudo, de novo, Margaery resolveu botar panos quentes na conversa:

— A sagacidade de Alleras ajudará-nos a conquistar a vitória, Milorde — disse ela a sor Brynden, acalmando. Voltou-se para O Esfinge: — Você tem o poder para isso, Alleras, eu sei que tem.

Ele a olhou de soslaio. Não confiava nela, era óbvio. (Mas, então, confiava nas palavras de Sor Bronn?)

— Que te faz pensar isso?

Ela ergueu o olhar, fitando a fulgência esférica que estava flutuando sobre suas figuras, besuntando-os de dourado.

Alleras fez um muxoxo, parecendo não gostar da linha de raciocínio dela. Bom. Isso significava que Margaery devia continuar.

— Você falou de uma vela, certas vezes…

— A vela de Marwyn — ele a corrigiu. — Virou minha após ele partir…

— Que seja — atalhou ela, pouco se importando de quem era o que. — Ela tinha… poderes? Poderes místicos? — (Deuses, era estranho falar aquilo sem sentir-se estúpida.)

Alleras anuiu.

— Dá-me como ver pessoas, mesmo a montanhas de distância, do outro lado do mar.

Ela acenou com a cabeça lentamente, analisando bem o que lhe era informado.

— Certo… E você já usou essa vela para falar com as pessoas também?

Ele mordeu o lábio superior por um tempo, até parar para responder:

— Daenerys, Marwyn, e… minha prima, Arianne.

Margaery abriu mais as pestanas.

— E o que houve para que…?

— Os malditos sacerdotes! — vociferou. — Tentei falar com Arianne quando soube o que se passava, tentei falar com ela… tentei… — Suspirou, abaixando a cabeça, dando um aspecto de exausto. — Mas fui tolo. Marwyn avisou-me, por isso não tentei mais comunicar-me com Daenerys enquanto esta estava cercada pela Fé Vermelha.

Ergueu o olhar escuro e amendoado para Margaery, fitando-a nos olhos de corça.

— Eles sentem minha presença, sabem que tento contato com ela. Já é arriscado para mim dar bisbilhotadas com eles por perto, mas, ir além, mostrar-me, tentar falar… — Parou de falar. — Moqorro quase matou-me ao falar com Arianne, achando-me uma ameaça. Claro, ele tentou apenas protegê-las… mas acabou por ferir minha mente. A vela de obsidiana quebrou-se.

— Não tentou fazer outra? — questionou Brynden.

Alleras abanou a cabeça:

— Não o fiz, pois não tivemos tempo — explicou. — Quando recuperei-me, Sam e eu já estávamos atrasados para partir de Vilavelha. Saímos às pressas, visando o Norte, sem ter como poupar tempo para que eu obtivesse obsidiana para fazer uma nova vela. De toda forma, de que adiantaria? Os soldados de R’llhor apenas atacar-me-iam novamente, e talvez nem tivesse como eu sobreviver a próxima vez.

Petyr falou:

— Mas, se já tinha contactado Daenerys, como ela…

— Eu me fiz de outra pessoa — explicou ele. — Por isso Daenerys não me reconheceu: nunca viu Alleras ou Sarella; apenas Quaithe.

Conforme ele falava, mais Margaery sentia-se próxima de conseguir o que queria.

— Então você pode fazê-la ver coisas, não é? Pode fazer Daenerys ver o que queremos que veja.

— Grosso modo, sim.

— Precisa fazer uma nova vela — falou Margaery, de imediato, vendo que era aquilo que precisavam. — Temos obsidiana de sobra Alleras, e agora que temos as informações da Capital e Daenerys está…

— Não, Milady — ele falou, fazendo um gesto com o braço no ar, indicando que a ideia deveria ser descartada. — Os sacerdotes estão aqui, lembra? Eles destruiriam-me. Talvez até pudessem ver-me através de meu próprio artefato.

Margaery bateu o pé, mesmo assim.

— Não custa tentar! — insistiu. Apontou para os dois corpos no chão: — Quantas mortes ainda terão de ocorrer para te convencer?

Alleras olhou para os dois corpos (Bronn já parara com os espasmos), depois relanceou para ela, cabeça bem erguida, olhos fixos nos dela numa linha reta.

— Está certa, Milady — disse ele. — Mas isso terá de esperar.

Margaery não gostou de ouvir aquilo. Franziu o cenho, perguntou:

— E por que devemos nos pôr à espera de algo tão importante assim? — exigiu saber.

— Você sabe bem o porquê! — ele replicou, num grito que ecoou no cômodo brilhante, surpreendendo Margaery e os outros presentes no local pela reação agressiva e abrupta. (Ele está mesmo estressado com tudo isso, ela percebeu. Fazia sentido, afinal, a família dele estava ou morta ou correndo risco de vida.) — A Longa Noite logo está a chegar. Se nós sobrevivermos, então eu a ajudarei em sua sórdida trama. — Apontou para ela: — Mas Daenerys deve viver até lá, para que possamos chegar a ter uma chance de viver.

Apesar de desgostosa com aquilo, Margaery assentiu. (Mas, no fim das contas, realmente duvidava mesmo de Alleras? Nem ela era capaz de negar as estranhas coisas que acometeram o mundo conhecido nos últimos tempos. Assim como não podia negar o vento negro e enegelante que cada vez mais vinha do norte, congelando até os ossos das pessoas. E o cheiro… o cheiro frio de morte.)

Ela olhou para os outros três homens no cômodo, após isso, voltou a fitar Alleras. Anuiu.

— Certo, então — falou ela. — Caso essa pantomima prove-se verdadeira, e venhamos a sobreviver a ela, você fará o que prometeu.

Alleras deu a ela um sorriso lupino, lembrando o de Bronn — embora fosse mais carnudo e galanteador. Seus olhos cintilaram.

— Sou versado na arte da magia, mas meu sangue não é tão poderoso para que eu possa me arriscar aos meios mágicos que me pede.

Margaery estreitou os olhos, cada vez mais irritada com a insolência daquele bastardo dornês. Ele estava a esquecer-se de seu lugar nisso tudo!

— O que em nome dos novos deuses você quer dizer?

— Eu tenho os meios, admito, mas é você — ele apontou para ela com o queixo — quem detém o poder de que precisamos em seu sangue.

Margaery franziu o cenho.

— Que bobagem está a falar agora, criatura imunda? — escarneceu Lorde Brynden.

— O sangue materno nela — O Esfinge explicou. — Ele tem contido consigo uma boa gama de habilidades mágicas.

— Meu sangue? O de minha mãe? Mas como…

— Foi vossa tia quem domou o dragão de Daenerys, Milady Tyrell — disse ele. — Ela era quem tinha o sangue para tocar o berrante e derrubar a muralha; trazendo, assim, a Longa Noite.

Margaery levou uma mão ao peito. Sua tia, Malora? Nunca a tinha visto. Nem sequer achava que era realmente ela no dragão… Ergueu a cabeça, olhando para Alleras, esperando explicações. Quando não as teve, disse:

— Que tem meu sangue? Eu não entendo…

— Vai entender — ele retrucou, resignado. — Por agora, apenas diga-me: está disposta a fazer o que deve para derrubar Daenerys, tal qual sempre me indaga o mesmo?

Apreensiva, Margaery olhou para baixo, para os corpos caídos. Sor Bronn e Ysilla estavam caídos nele, parecendo duas estátuas de ouro incandescente. Tão belos e pacíficos… a única que estragava a imagem era o sangue de Bronn, que havia criado uma poça no chão, causada pelo vazamento do corte profundo nas costas.

Estavam mortos. Ela estava disposta a morrer, também?

Fui longe demais para voltar atrás, refletiu. E, de todo o modo, não é como se eu esperasse viver no fim de tudo isso.

Ela sugou o ar, prendendo-o por um tempo. Soltou, mais calma, olhou para Alleras:

— Eu estou.

Lorde Brynden botou uma grossa mão coberta no ombro dela. A mão grossa e coberta de aço que matara Ysilla.

— Milady, escuta-me — pediu ele —, não deves confiar em coisas de magos e dorneses. Eles mentem, tidos sabem.

Margaery olhou de soslaio para os olhos escuros de Brynden, cuja metade da cabeça estava dourificada pela luz de Alleras. Ela sabia que ele queria apenas o seu bem e dizia a verdade…

Mas ela lembrou-se dos dragões de Daenerys, queimando e rugindo; da mudança de faces e a agilidade de Arya; dos poderes estranhos e ubíquos. Não. Eles tinham o poder — poder demais. Tinham de ir até o fim para ir contra eles; e… se para isso ela precisasse usar da mesma bruxaria que eles, que seja.

— Devemos fazer tudo ao nosso alcance, marido — ela disse, sabendo que a última palavra atingiria o ponto certo no coração e mente de Lorde Brynden. Antes que ele falasse mais, ela virou-se para encarar Alleras novamente: — Eu estou disposta a ir até o sétimo inferno para derrotar meus inimigos.

Alleras não disse ou fez nada para retrucar, apenas olhou-a emudecido. Por fim, ele disse:

— Eu vejo que sim; mas saiba, talvez já estejamos no inferno, Milady.

Ele girou os calcanhares, dando as costas para o grupelho, abriu a porta, saiu do local, deixando que sua luz mágica se apagasse, os deixando no escuro.

— Cretino! — ralhou Sor Brynden, irritado por ter sido deixado na escuridão. Voltou-se para encarar Margaery, que apenas olhava para frente, indiferente. — Quando tudo isso acabar, eu mando meus homens o espancarem até a morte, maldito seja!

Ela não lhe respondeu.

Margaery, agora tomada pelas sombras, sentiu um cheiro podre unir-se ao cheiro acre do cômodo. Deu uma fungada, torcendo o nariz. Eram os cadáveres de Ysilla e Sor Bronn; estavam expelindo gases e fezes, imaginou.