Seu irmão mais novo, Bran, estava assentado num enorme trono de ébano, com as nádegas por cima de uma almofada purpurea com borlas douradas. A visão fazia com que Sansa viesse a lembrar-se do falecido primo deles, Robin Arryn, que sempre estava sentado num imenso cadeirão com almofadas (era preciso, pois ele era muito pequeno — um lorde nunca pode parecer pequeno).

A memória de seu falecido pisco-doce era uma pontada de desconforto em seu estômago. Mas estava apta a ignorar certas dores e culpas; a vida era cheia delas, bastava acostumar-se.

Entretanto, havia momentos em que nunca poderia escapar de seus desconfortos. Esse era um desses momentos: a figura de seu irmão mais novo, Bran Stark. Alto, magro como uma vara; cabelos acobreados, semelhantes ao da mãe deles; as maçãs do rosto ainda eram cheias e altas, mas os tempos além-muralha deixara as bochechas um tanto encovadas; sem dúvida, porém, o que mais causava estranheza em Sansa eram seus olhos: os olhos de Bran não eram mais do profundo e intenso azul Tully; eram verdes, verde-musgo para ser mais preciso; embora as duas orbes ainda mantivessem as um tom de profundeza e intensidade, carregavam, também, um ar de sabedoria intensa. Olhar para o rosto de Bran, era como ver um jovem sábio — um rosto cansado, solene, taciturno. Nem parecia que seu irmão ainda estava para fazer dezoito dias de seu nome.

(Ou ele logo faria dezenove dias de seu nome? Sansa estava simplesmente perdida na quantidade de tempo que se passava; sempre parecia madrugada, a Hora do Lobo eterna.)

Sansa fitou Bran, segurando a estranheza de que aquele seu irmãozinho parecia mais um estranho sábio. Ele usava uma manta verde escura, com folhas oblanceoladas e bolotas cerzidas no tecido; um manto de linho cru, branco como a neve, brilhando como o de um guarda real, com lobos e peixinhos prateados como renda; pele de urso cinzento forrava o tecido; o capuz do manto estava jogado para trás, revelando os brilhantes cabelos de Bran, que brilhavam como que em brasas ao serem tocados pelo gume das bruxuleantes fogueiras do imenso salão de Harrenhal. Por cima da fronte, exibia-se um diadema de represeiro (que, dado o tamanho, assemelhava-se mais a uma coroa do que a tiara de um príncipe), com diversas faces entalhadas nas bordas — feliz, triste, furioso, solene.

Estavam sozinhos no Grande Salão das Cem lareiras de Harrenhal. Os guardas estavam do lado de fora, vigiando-os. Dado o tamanho do local e a espessura das paredes e portas, ninguém ia de ouví-los, mesmo com o eco do local. Além dos dois irmãos, estavam seus lobos; A loba de Sansa, ao lado de sua dona, fitando o rapaz assentado à sua frente com seus intensos olhos que se assemelhavam com ouro derretido. O lobo de Bran, Verão, repetia o gesto, olhando para a irmã de seu dono com seus olhos também dourados.

— Meera lhe pediu para conversar comigo — disse Bran, antes que ela falasse qualquer coisa.

Não havia motivos para Sansa negar:

— Tem ficado muito tempo na neve — ralhou (embora este nem de longe fosse o maior problema que tinha a ser dito sobre Brandon). Seu irmão estava há dias no imenso bosque de Harrenhal, aceitando ficar dentre as árvores, apenas com roupas grossas e um capuz por cima de sua cabeça.

— Bem, eu sai a pedido seu e de Meera, não? — brincou ele, num sorriso fraco. O rosto era muito sério para parecer jovial e divertido.

Sansa não viu graça alguma.

— Bran — disse ela, usando uma cadência e tom de voz que mostrasse que ela estava falando sério —, eu não sei que tipo de joguinhos está jogando, mas sei que está a aprontar algo.

Como uma criança culpada, pega numa tramoia pela mãe e levando uma bronca por isso, Bran olhou para os próprios pés por um tempo, antes de voltar a erguer o olhar de fogo fátuo novamente.

— Eu sei que procura respostas, Sansa — falou ele. — Mas, dado tudo que ocorreu e está ocorrendo em nossas vidas, pergunto-me: vós realmente estás preparada para a verdade?

Sansa engoliu seco. A verdade é que nem ela sabia se queria mesmo saber tudo.

— Bran, o que está acontecendo com nossa família? O que está a acontecer conosco? — Sabia que ele teria respostas sobre o que tinha acontecido com Arya (pelo menos assim esperava). Esperava que ele também soubesse responder algo sobre Jon. Sabia que o irmão mais velho estava a esconder algo; Jon disse-lhe coisas no bosque sagrado de Correrrio, mas Sansa tinha a certeza de que havia mais. Arya também parecia compartilhar de suas opiniões.

E, é claro, havia o próprio Bran — que havia acontecido com ele?

Seu irmão apenas ergueu o braço, estendendo a mão de palma aberta, coberta por uma luva de couro preto, enchida por pele de esquilo. Era apenas uma mão qualquer, oferecendo um toque fraternal, mas Sansa a fitou, sem ousar tocá-la. (Do que ela tinha medo, afinal?)

Quando teve forças para erguer a própria mão, indo tocar a do irmão, hesitou, afastando novamente, como se realmente temesse a proximidade. Virou-se, dando meia volta…

— Sou a verdade, irmã! — exclamou Bran enquanto ela lhe dava as costas, o som reverberou no salão, ribombando, ribombando e ribombando. — Não pode evitar a natureza que a cerca, pois ela é quem dita vossa vida! Negar-me é negar a realidade!

Virou-se, pasma com a reação e as palavras dele; nada daquilo fazia sentido, parecendo um vômito de palavras sem sentido.

— Que quer dizer? — indagou ela, cenho franzido.

Bran não respondeu; a mão permaneceu estendida para ela. Irmão e irmã fitaram-se, emudados. Verde contra azul; ambos duma intensidade ardente.

Sansa, usando a coragem de uma loba, tocou na mão do irmão, e ele deu um aperto leve. Tinha os dedos longos dos Tullys.

Nada aconteceu. Ela relanceou para as mãos entrelaçadas. Depois, Bran. Este sorriu.

— Meu poder é grande, irmã, assim como o seu.

Sansa franziu o cenho.

— O meu?

Bran relanceou para a loba ao lado da irmã, fitando-lhe nos olhos âmbar.

— Você se contém, pois nega o seu lado.

— Eu não nego meu lado Stark! — redarguiu.

Ele voltou a olhá-la, num chofre.

— Mas renega a extensão do real significado da história da sua família!

Tensa, Sansa retirou a mão da de seu irmão, olhando-o com leve irritação e dúvida. Sua loba andou para frente, rosnando, mostrando os dentes. O lobo de Bran repetiu o gesto. Ambos defendiam seus donos.

A visão dos dois animais prestes a se atracar fez com que Sansa ficasse temerosa. Chamou a loba, esta veio, voltando a ficar ao lado dela, sentando-se nas patas traseiras. Era uma loba obediente. Verão recuou, ainda tenso, fitando as fêmeas que agora via como uma possível ameaça ao seu dono.

Bran limpou a garganta, continuou:

— Não começamos bem, pois? Não, penso que não. — Suspirou. — Acredite, irmã, apenas quero ajudá-la. Por isso pergunto novamente: deseja saber a verdade?

Exalando fortemente, Sansa disse:

— Sim.

Bran assentiu, virou um pouco a cabeça, deixando o queixo por cima do ombro. Ergueu um braço, gesticulou com ele, fazendo quase círculos no ar. Estava indicando que alguém se aproximasse.

Das sombras da parede atrás do assento do príncipe, saiu uma Filha da Floresta, carregando uma tigela entre as mãos, junto de uma colher grande de madeira.

Sansa seguiu a pequena criatura da floresta até esta ficar a menos de um passo dela, estacando-se. Ergueu a tigela.

Esquadrinhou a criatura: magra, como um palito; pele marrom castanho-claro, sarapintada de branco, semelhante a um cervo; cabelos eram as cores do outono: marrom, dourado e vermelho, trançados por vinhas, galhos e folhas; as orelhas, grandes e pontudas; os olhos eram cortados como os de um gato, brilhando em dourado e verde.

Pousou os olhos na tigela entre as mãos de quatro dedos da criaturinha; simples, pequena, madeira marrom. Era o conteúdo que a perturbou: uma pasta grossa, semelhante a mingau, que parecia simples à primeira vista — não fosse as vinhas vermelho-escuras nelas. Era semelhante a sangue.

— São sementes de represeiro, princesa — Bran explicou ao ver a expressão no rosto dela.

Sansa ergueu um olhar de dúvida para o irmão, depois voltou a fitar o conteúdo. Lembrou-se da visão dos filhos da Floresta no Bosque Sagrado de Harrenhal — corpinhos pequenos, tomados pelas árvores, crescendo neles, consumindo-os como se fossem pálidos vermes a consumí-los. Sua pele arrepiou. Os pelos de sua loba também.

(Se existem mesmo sementes de represeiro, por qual motivo nunca as viu? E por que ninguém mais plantara tais árvores se era possível? Era uma indagação que veio num chofre, mas Sansa forçou-se a fingir que não a ouvia.)

Hesitante, Sansa pegou a colher da mão da criaturinha. (Não gostava desses bichinhos cantantes; era excruciante demais para sua mente — mas Bran parecia gostar da companhia desses seres.)

— Irá aprimorar vossas habilidades — disse a Filha da Floresta. (Seria essa a tal Folha, com quem Bran por vezes falava?) Suas palavras eram pronunciadas na língua comum, mas sua voz era como uma canção trágica; fazia o coração de Sansa apertasse e lágrimas pareciam quase lutar para sair.

— Que habilidades? — quis saber.

— As que você contém — respondeu Bran, apesar dela não ter lhe dirigido a palavra. — Elas estavam adormecidas após a morte da Lady.

Lady…

Sansa olhou para a loba ao seu lado. Não era Lady, ela sabia, mas ainda assemelhava-se a sua falecida loba. Sua outra metade, tirada dela há muito.

Dirigiu um olhar para a colher sem graça em uma de suas mãos. Olhou para a tigela. A colher desceu na pasta; emergiu cheia de papa branco-osso com veios de sangue.

Devo ser brava como um lobo.

Inalou ar chamuscado, fechou os olhos, abriu a boca, levando a colher cheia até ela.

O gosto foi amargo, mais forte que limão. Era como pimenta ardente, mas principalmente canela. O sabor pareceu sambar em seu língua: o beijo de despedida que nunca teve de seu pai; uma noite de amor aconchegante que ela e Harrold nunca compartilharam em todo o casamento deles; sal das lágrimas que derramara aos pés do Grande Septo de Baelor; o sabor do primeiro do primeiro floco de neve que tocou sua pele; até mesmo a primeira carícia nunca existente entre ela e Willas Tyrell.

Após deglutir a pasta, abriu os olhos. Olhou para a colher em sua mão. Vazia. Quase nenhum sinal da papa, não fosse um ponto branco ou outro na madeira. Sansa olhou para a tigela. Recusando-se a comer mais, pousou a colher na pasta, soltou-lhe o cabo de madeira velha.

Bran apertou um pouco os lábios, parecendo desaprovar o gesto; mas sorriu no fim.

Ela está tão perto…, pensou Bran. Isso o deixou triste: se a profecia de suas visões prosseguisse, sabia que Sansa o odiaria. Mas assim tinha de ser — para salvar a humanidade, devia desistir de sua própria. Seus irmãos fizeram isso (principalmente Jon), mas essa não era Sansa: ela era o lado mais humano que restara na casa Stark; ela era a última Stark em Winterfell.

Para Westeros perdurar, a Casa Stark deve mudar; para que o Norte perdure, a Casa Stark deve perdurar como era. O coração mais humano dentre os nossos deve sentar-se no trono de pedra polida e talhada que reside nos salões de Winterfell.

Tome cuidado com os riscos que toma, Brandon, disse Lorde Brynden.

Sei o que estou a fazer! Minha irmã deve ser levada ao limite para saber qual caminho realmente deve seguir!

Não teria ela já sofrido muito?, indagou Jojen. Não teriam todos vocês sofrido muito? Esquece-te de quem és, Brandon?

Você apenas está triste porque eu o devorei e saboreei!, retrucou Brandon, sabendo que isso sempre magoava Jojen, fazendo-o voltar para a obscuridade. (Claro, não sabia que era Jojen quando devorou a pasta, mas era o único modo de silenciá-lo — embora realmente tivesse se deliciado com o gosto de seu antigo amigo.)

Bran por vezes odiava a miríade de vozes que tinha consigo; todas gostavam de palpitar. Logo, mais de trilhões de vida estavam a aconselhá-lo sobre o que fazer ou não.

Silêncio!, ordenou Bran, irritado. Este assunto é entre mim e minha irmã!

Esse assunto é nosso!, as vozes urraram. O que é seu é nosso! Nós te guiamos! Nós somos um! Um são vários!

Bran, suspirou, realmente exausto de tudo aquilo. Como que um represeiro, era o receptáculo de todas aquelas vidas não extintas — não conseguia se livrar delas.

Voltou-se para sua irmã. Notou que ela o olhava de maneira apreensiva. Provavelmente Bran estava quieto há um tempo, fazendo caras e bocas. Ele voltou a olhar para Folha.

— Obrigado, Folha — disse ele, dispensando-a com um gesto da mão. Ela girou os calcanhares, levando a tigela e a colher consigo, ficando novamente ao lado da cadeira-trono de Bran.

Quando ela ficou estacada ao seu lado, Bran, que começou a tirar a luva de uma das mãos, falou:

— Vamos tentar de novo?

Sansa tentou engolir seco, mas percebeu que não conseguia fazê-lo. Sua garganta ainda ardia, enquanto sua língua sentia o encadeamento de sabores e dissabores continuar e continuar e continuar. Abanou a cabeça, dizendo a si mesma que estava sendo tola. Tocou a mão do irmão. Sua palma estava tão fria…

Bran guiou-a.

Sua mente viajou para fora do corpo, entrando nas raízes de um represeiro, cavando fundo na terra. Enquanto imiscuia-se nas raízes e galhos, sentia mentes e mais mentes ismuindo-se com a dela. Logo, estavam intrínsecos na natureza.

Meu corpo não é mais meu, pensou ela ao sentir estar a trocar de pele. Minha mente não é só minha.

— O que é isso? — Sansa perguntou, mas não sabia se o fez mesmo… não tinha boca. (Estava além disso, também?)

— Isso, irmã — disse Bran, agora um com ela. — É a força de nossos deuses. Nossos verdadeiros deuses.

Uma invasão de mil vozes pareceu unir-se a ela. Sansa não era mais apenas Sansa — era uma mente que estendia-se à amiúde. Uma união não-carnal, pois não havia mais carne. As almas eram uma alma uníssona. Todos e todas eram um. Um era todos. Vida adjacente a outra.

Foi como um chofre de emoção; sentiu-se abraçada por tantos, de uma forma que achava que nem seus pais seriam capazes de amá-la tanto…

Meus pais…

O pensamento a arrebatou. A solidão voltou: seus pais não estavam lá. Seus irmãos não estavam lá. Aqueles que se uniram a ela não eram os que ela queria consigo.

O que há de grandioso aqui, se não tenho os que amei de verdade?, indagou para as mentes. Sentiu todas retraírem-se. Não gostaram da falta de aceitação dela. (Sansa logo percebeu que isso nunca lhes aconteceu. Podia sentir irritação e descrença da mente.)

De alguma forma, sem entender como, ela estava em Winterfell. Seu pai e sua mãe estavam sentados na velha pedra com musgo em frente a Árvore Coração. Sansa era a Árvore Coração.

Minha mãe não gosta desse bosque, ela pode sentir. As vozes, ela percebeu, murmurejavam contra a presença de Lady Catelyn, expulsando-a.

Podia ouvir Ned Stark falando:

– Pode chegar o dia em que eu não tenha escolha a não ser reunir os vassalos e marchar para o norte a fim de lidar de uma vez por todas com esse Rei-para-lá-da-Muralha.

– Para lá da Muralha? – O nervosismo na voz da matriarca era palpável.

– Mance Rayder não é nada que devamos temer — disse Ned, tentando acalmá-la.

— Há coisas mais sombrias para lá da Muralha – ela olhou de relance a árvore-coração às suas costas.

Vislumbrar o rosto carinhoso de sua mãe fez Sansa querer chorar, correr para abraçá-la, dizer que sentia falta dela…

Mas, quando tentou fazer tudo isso, sua mãe não pareceu ouvi-la, tal qual lorde Eddard. Estavam bem ali, na sua frente, mas ela não podia estar mais longe deles.

Mãe! Pai! Olhem para mim! Vejam-me! Sou eu, Sansa!

— Você acredita demais nas histórias da Velha Ama… — brincou o pai de Sansa, falando com a esposa, mas logo o sorriso terno dele morreu. Ele e a esposa se voltaram para o represeiro.

Não, Sansa! Deixe-os descansar!

Sansa sentiu-se puxada para longe. Tentou lutar, mas era inútil; viu seus pais sumindo numa bruma densa, enquanto eles se viravam de costas para a suplicante filha, ignorando sua presença.

— Onde estamos agora? — ela quis saber. Ainda era o represeiro de Winterfell?

Estou lhe mostrando a verdade, irmã.

Logo ela percebeu que não era o mesmo represeiro; era muito maior do que o de Winterfell. A terra era mais quente ali, sem a devastadora crueldade enregelante do inverno. Uma moça estava sendo arrastada para esse outro represeiro, levada pelos Filhos da Floresta.

Largaram-na na frente de Sansa — isto é, do tronco —, e ela escrutinou o rosto da mulher; percebeu que não tratava-se de uma Nortenha: alta, pálida, nariz aquilino, cabelos que no começo ela achou serem grisalhos, mas logo viu serem loiro-platinados; todavia foram os olhos que revelaram sua identidade: olhos violetas, parecendo duas ametistas lapidadas e molhadas. Era extremamente parecida com Daenerys, porém mais velha.

Valiriana!, Sansa foi rápida em deduzir.

— Não, irmã — redarguiu Bran. — Ela é mais antiga do que todos eles.

Sansa não entendeu; as mentes ficaram nervosas. Pareciam desgostar de rever aquilo. Teriam, alguns, presenciado esse momento em primeira mão?

A mulher, que não deveria ter mais de 30 dias de seu nome, foi deixada de costas para o tronco pálido da árvore. Seus pulsos e tornozelos, amarrados. A boca, amordaçada. Um Filho da Floresta aproximou-se, segurando uma adaga afiada de Vidro de Dragão. (Havia um poder anormal e intenso naquela lâmina, Sansa podia sentir. A Entidade de mentes a fez perceber estar certa. Fumaça saia dela, como uma névoa de inverno.) A criaturinha olhou para a mulher de cócoras na terra batida, fitando-a com seus intensos olhos de ouro-âmbar, desprezando-a.

O filho da floresta, sem piedade, apunhalou o coração da pobre moça, que tombou de lado, sem emitir som algum.

Por um tempo, nada aconteceu, até que a mulher se remexeu.

Num chofre, estava ela de pé, aprumada. Seus cabelos ficaram ainda mais pálidos, conforme a neve ficava fria e sem cor. Era como se a vida esvaísse dela. Até o sangue parara de correr pelo seu corpo e pingar no chão.

Uma forte ventania veio, trazendo nuvens poderosas e cinzentas consigo. O sol intenso veio a sumir, coberto pela tempestade de gelo que ali veio a surgir. Os flocos caíam, caíam e caíam, cobrindo rapidamente a terra do local, fazendo o marrom e o verde sumirem, dando lugar ao branco. A grama e as outras plantas que não foram cobertas pelo salpicar alvo, se contorceram como vermes em agonia, perdendo a cor. Estavam congeladas, quebrando-se.

A mulher que um dia foi humana, não o era mais. Rompeu as mordaças de cipó com simplicidade, e elas quebraram em pequenos pedaços de gelo. Uma camada fina de gelo tomou forma, como se aranhas minúsculas, invisíveis, estivessem costurando sua teia em instantes. Ao mesmo tempo, cristais cresceram no topo da cabeça, tomando uma forma melidrosa. Logo, o tecido e o diadema estavam completos. A figura misteriosa abriu uma das mãos, um líquido surgiu da palma, alongando-se. Quando parou, formando uma linha tão fina que quase sumia de vista, a mulher virou, fazendo Sansa perceber que era uma espada. Uma espada de gelo, transparente.

Tão temível ela era, que até os criadores deram alguns passos para trás, olhando-a com temor. (Sansa podia ouvir as vozes falarem “o que fizemos?” ao reverem a cena.)

A figura enregelante e esguia virou-se. Toda a legião tremeu com a sua visão. Ela era alta, azul, terrível, e azul. Seus olhos (como eram furiosos!), não mais violetas, eram como duas estrelas azuis rebrilhantes, queimando como o mais frio dos invernos. Co

Ela me vê, Sansa percebeu, ela me odeia!

A mulher ergueu uma mão, estendendo-a até tocar na face talhada do represeiro. Sansa sentiu as milenares vozes fantasmas urrarem de dor num uníssono, corrompidas pela magia do inverno.

A Árvore Coração fora Corrompida.

Sansa foi arrebatada novamente, indo para outro represeiro. Não conseguia visualizar o que acontecia; sabia apenas ser um massacre. Trevas contra luz.

Havia fogo para todo o canto; milhares gritavam e morriam; milhares levantavam-se, tocados pela morte.

Sansa pode ver pessoas de cabelos escuros e claros; olhos de âmbar, esmeralda, opala, rubis, ametistas e ônix. Todos eles lutavam com seres tão belos e inumanos quanto eles; mas estes eram mais crueis e gélidos.

Se os vivos que lutavam não eram valirianos, quem seriam?

Fossem quem quem fossem, todos empunhavam espadas — pálidas, longas, imbuídas em fogo pálido.

Estes eram os dragões deles, ela pensou, conforme a Mente de Mentes lhe explicava: aqueles eram os que dariam origem aos Valirianos.

Mas logo viu que ainda não tinha entendido por completo: havia dragões. O rugido deles ressoou no céu negrume. O fogo deles cortou as trevas, queimando os mortos revividos, derretendo Vagantes Brancos. Eles nada eram comparados ao poder do fogo.

Era isso! Dragões! Eles não podiam ir contra seu fogo!

Lanças de gelo foram atiradas no alto. Muitas derreteram antes de chegar aos Wyverns, porém; derretiam pelas labaredas. Uma, porém, o atingiu, fazendo a fera rugir de dor e fúria. Fosse por medo ou pelo seu montador, bateu as asas em retirada.

Sansa tentou focar em achar a figura feminina da mulher cruel que vira antes, mas não obteve sucesso. A mulher devia estar no centro da batalha; o represeiro estava longe, num dentre vários locais onde os homens e Os Outros digladiavam. Vagou de um em um, pulando sua mente para vários receptores de deuses que haviam no local. (E pensar que todos foram que ali estavam, foram destruídos pelos andalos!)

Por um bom tempo, tudo o que era capaz de ver era a enervante e sangrenta visão de homens e mulheres morrendo, incapazes de lutar contra os seres de gelo e suas armaduras furta-cor; tudo para apenas serem ressucitados, aumentando o número do exército inimigo, sendo escravizados em suas mentes, forçados a matar aqueles que outrora foram seus amigos e famílias, que logo repetiam o ciclo. Tudo isso enquanto o inimigo ria, ria com aquela amedrontadora gargalhada que mais parecia gelo quebrando. Então, ela achou: a mulher caminhava com calma na neve, indiferente aos mortos que tombavam no chão (e levantavam-se em seguida). Havia uma espada em sua mão, novamente.

Um cavaleiro — ela não estava certa se deviam existir cavaleiros naquela época, fosse ela qual fosse, mas a figura lembrava-a de um — veio contra a líder a Vagante. Lorde Edric?, Sansa o achava parecidíssimo com o marido de Arya: cabelos pálidos, olhos azul-escuros, quase violetas. Até tinha uma lâmina parecida: uma espada longa, gume leitado, pálido; aço com linhas por toda parte.

Deslizando a palma pelo gume afiado, chamas pálidas brotaram, assustando as trevas. Mesmo Os Outros hesitaram diante de seu rebrilho.

A inimiga, líder d’Os Outros, apenas sorriu ao vê-lo.

Mais rápido do que os olhos podiam enxergar, a figura feminina deslizou no ambiente, passos rápidos, até o inimigo.

No que parecia uma dança, humano e vagante lutaram um contra o outro; fogo contra gelo; homem versus mulher; vida versus morte. Por fim, a fina espada azulada partiu-se, a lâmina chamuscante teria atingido a terrível mulher, não fosse ela ter saltado para longe, aos risos. Fez uma espada nova num mesmo instante.

Quando uma neblina densa começou a surgir, Sansa percebeu que foi puxada novamente, antes que pudesse ver o fim de tudo.

Por que me impedem de ver tudo? Ela sabia que estavam ouvindo-a.

Mostrar lutas não é o que realmente importa aqui, a voz de Bran lhe disse, fazendo coro a dezenas de milhares. (Com sua voz era distante e fria!)

Sansa observou onde estava agora. Era familiar, mas podia jurar que nunca vira tal lugar: neve para todos os lugares, pedregulhos aqui e ali; árvores para todos os cantos. Provavelmente eram as mentes compartilhadas que a faziam ver aquilo com familiaridade. (Estava aceitando tudo aquilo com muita facilidade — seriam as mentes que a faziam aceitar tudo tão facilmente? Ou a sanidade escapava-lhe cada vez mais?)

Nada disso é real, pensou. Aceitar tudo isso é loucura. Estou insana…

Irmã, censurou Brandon, mostro-te a verdade! Não a negue! A realidade é aquela que vai além do que é ditado por outrem e escrito nos livros de meistres!

Atenta, ela viu um homem alto, corpulento, vestindo gibão de couro fervido e um casaco de pele de urso aproximar-se. Seus olhos eram cinzentos; seu rosto, oblongo, severo, taciturno. Tez amorenada; barba cheia. Por cima de seus cabelos castanhos, uma coroa de bronze com espinhos de ferro repousava.

Era um Stark. Estava em Winterfell — ou no que viria a ser Winterfell.

O homem tirou uma imensa espada escura da bainha, a qual Sansa reconheceu como sendo Gelo, fincou-a no chão. Ajoelhou-se, abaixando a cabeça, ambas as mãos no cabo de couro. Olhou para os Velhos Deuses com olhos que eram uma tempestade de gelo opaca.

Ele parece com meu pai, pensou Sansa. O vazio voltou à sua alma. Todas as outras almas sofriam com ela e por ela. Sua dor era a dor deles.

— Está feito, deuses — murmurou o homem ajoelhado, no que Sansa reconheceu ser a língua antiga dos Primeiros Homens. — Eu e os Filhos da Floresta o fizemos! Os Outros foram banidos!

Brandon. Aquele, ela sabia, era Bran, O Construtor. Ele selara a paz com os Filhos da Floresta, construíra a Muralha; fizera Winterfell existir.

Ele era real, e estava com ela, agora.

Eu consegui fazer com que os filhos da florestas ajudassem-me, o próprio Brandon falava para ela agora. Mas minha paz não era eterna…

Mostrem-me!, Sansa ordenou. A miríade obedeceu.

Estava num campo cheio de represeiros, cujos braços pálidos se estendiam no ar, cheios de mãos vermelhas. A terra úmida e turfosa era viva, cheia de plantas, musgo, e flores, olmos e carvalhos. Pedras aqui e ali. Uma imensidão azul-esverdeado cobria o pedaço de terra, espraiando nas orlas barrosas, criando espuma.

Era a ilha chamada O Olho de Deus. Não havia Harrenhal ainda, de modo que os campos de terra além das águas do Água Negra exibiam uma vasta vastidão de vida verdejantes e um aglomerado de Represeiros.

Perto da miríade de Represeiros que ficava na própria ilhazinha, estavam os Filhos da Floresta, de um lado, liderados por uma criaturinha que assemelhava-se a eles, exceto pela pele pálida, sem manchas, e olhos vermelhos; do outro, Brandon Stark, O Construtor, vestindo couro fervido, ladeado por dois homens. Um era o cavaleiro que Sansa vira mais cedo nas suas visões (ele parecia ainda mais com um Dayne — até tinha o mesmo símbolo da estrela cadente e prateada num fundo de lavanda da casa, esmaltado no peitoral da armadura prateada). O outro, um homem alto, bem bonito, parecendo uma joia humana: seus cabelos caiam em cachos até as espáduas, brilhantes como fios de ouro batido; os olhos eram duas esmeraldas dilapidadas e intensas, com um brilho que mais assemelhava-se a fogovivo.

Um Lannister? Não sabia dizer. O guerreiro tinha os atributos, mas não exibia símbolo algum.

As pessoas que vê antecedem os Valirianos, disseram as mil e uma voz, assim como antecedem os Lannisters. Aqueles que vós vê, são aqueles que darão origem a casas conhecidas.

Atrás do trio de cavaleiros, existiam outros homens e mulheres: alguns tinham os rústicos traços dos Primeiros Homens (narizes achatados, rostos longos, cabelos que iam do preto para o castanho [vezes, acobreado]; olhos duros, variando entre o preto para um cinza pálido), que ficaram marcados em demasia no Norte. Enquantos outros, em menor número, exibiam a elegância e beleza inumana dos valirianos (olhos de joias, peles porcelanadas, rostos simétricos que os faziam parecer estátuas vivas). Muitos tinham espadas valirianas consigo. Pode reconhecer também alguns brasões que os soldados traziam — a maioria eram de casas nortenhas extintas, mas outras ainda permaneciam, como era o caso do urso da Casa Mormont.

— Eu juro, por todos os deuses — disse aquele que era Brandon Stark —, nunca mais mataremos seus represeiros, nem caçaremos mais o seu povo.

Os Filhos da Floresta focaram afônicos por um tempo, observando os soldados com seus olhos de gato. Por fim, o que estava a frente de todos disse:

— Você e seu povo cumpriram nosso primeiro acordo. — Relanceou para os outros soldados. Os que Sansa achava serem valirianos.

O Cavaleiro que outrora lutara contra a líder d’Os Outros deu um passo para frente, ajoelhou-se:

— Juro por meu povo, nunca mais os dragões voaram em Westeros novamente!

O líder dos Filhos da Floresta não pareceu acreditar:

— Sabemos que seu povo fez cinco fortes em Essos…

— Apenas para impedir a ameaça que seu povo criou! — retrucou o homem com aparência Lannister. Era petulante como os senhores do Rochedo.

A criaturinha apontou para ele com o indicador. A ponta da garra preta era como uma seta, apontando. Os olhos de gato eram duas bolsas de sangue, prontas para explodir.

— A Ameaça foi feita para impedir que você e os seus invadissem mais!

O homem pareceu ter mais a dizer, mas Brandon calou-o com um olhar de pedra cinzenta e fria. Este olhou para o Filho da Floresta, suplicante.

— Como parte do acordo, a muralha pode vir a ser destruída, quando assim o quiserem…

O soldado de aparência Lannister grunhiu, mas não falou nada.

— E os castelos feitos ao sul? — quis saber o ser mágico.

— Os fortes — corrigiu o Cavaleiro —, como bem sabem, foram forjados por fogo de dragão, não se pode destruí-los… — Engoliu seco. — Eu e os Hightowers vamos usá-los como moradia, para vigiar as criaturas do gelo, mas apenas isso! Sabe que não temos dragões como nossos parentes a Leste…

O líder pequeno e pálido apertou os olhos, cravando-os na face do Cavaleiro, escrutinando-a.

— Os Filhos da Floresta vão manter a sua palavra, assim como nossa criação. Mas, lembrem-se: a vida de sua espécie deve pagar para que Vagantes Brancos possam perdurar. Se algum dia o acordo que fizermos for esquecido…

— Não o será — garantiu Brandon, erguendo-se. Era extremamente alto, e ficava ainda maior se comparado aos pequenos seres místicos a sua frente. Ele extendeu a mão para o líder destes.

A criatura olhou para a palma aberta desconfiada; mas no fim, retribuiu o gesto.

Todos na visão foram desbotando, sumindo em brumas antigas. Sansa não lutou para que permanecessem.

O que as imagens não lhe contaram, a mente coletiva o fez:

“O Antigo Império da Aurora, da qual os Valirianos descendem, tinha as terras mais a leste de Essos. Por elas, navegando pelas águas, voando pelos ares, chegaram até Westeros, seguindo a direção oposta as dos dias atuais.

Por fim, ao chegarem, romperam a paz que os Primeiros Homens tiveram com os Cantores da Floresta, mas de maneira mas sangrenta. Os filhos da Floresta são pacíficos, então, como sabe, muitas vidas se foram em meio a guerra. Desesperados, eles combateram o fogo inimigo com gelo.

Muitos morreram, de ambos os lados da guerra. Os Vagantes foram convencidos a guiar-se para o extremo Norte, nas chamadas agora de “Terras de Sempre Inverno”. Porém, sempre foi claro que sua líder apenas esperava aumentar o enorme número de seu povo; ela está de volta.

Os Dayne e os Hightowers estaveleceram-se nestas terras, para impedir que a grande ameaça voltasse e dominasse o mundo com sua escuridão — os Hightowers podem ter se desviado após Malora; os Dayne, não.

Quanto ao arrivista do Oeste, um grande trapaceiro metido a espertão, ele conseguiu para si as terras montanhosas do Oeste. Como você bem sabe, até hoje, seus descendentes tem o ouro de seus cabelos, a esmeralde de seus olhos, a mesma ambição; até o nome dele é carregado por eles — Lann.

Outras casas, como os Velaryon e Celtigars, acabaram por esquecer do passado.

Do outro lado do mar, por medo de quebrar o pacto de seus antepassados, os Senhores de Dragão nunca voltaram. Talvez um dia o tivessem feito, não fosse a perdição que os atingiu.

No fim, os dragões partiram; Os Outros ficaram mais forte com seu fim. Por isso precisamos da salvação de Daenerys. Precisamos dos seres alados e cuspidores de fogo para derrotar a Grande Ameaça!”

Sansa ouviu a voz, sem saber como reagir. Estava recedendo uma tempestade de informações de forma mais rapida que o simples bater de asas de uma mariposa.

Os Outros eram reais. Eles eram reais, eles estavam vindo. A Mulher que os governava ainda existia, ela sabia — ainda podia sentir o enregelar cruel de seu olhar; o riso sardônico em seus lábios finos e azuis; os gestos elegantes e aprumados ao mover-se…

Enquanto estava atolada em seus pensamentos, ouviu uma voz distante, uma que não estava na mente coletiva:

— Sansa!

As vozes se irritaram, mas Sansa lutou para até onde vinha o tenor. Desvencilhou-se das raízes; afastou-se do urrar das inúmeras mentes ociosas e antigas.

— Sansa, acorde!

Num chofre, abriu os olhos. Estava de pé, aprumada, no salão das Cem Lareiras. Ainda segurava a mão de seu irmão, Bran. Mas havia outra, pousada em seu ombro.

— Sansa?

Virou a cabeça, olhando para o semblante de Jon acima do Ombro. Ele era quase como o vidente verde que ela acabara de ver na visão do Pacto: olho vermelho, pele pálida, cabelos grisalhos (agora um tento dourados, graças ao brilho das labaredas).

Devagar, Sansa soltou a mão de Bran. Ainda sentia-se estranha. Letárgica. Era como acordar de um sonho longo. Olhou em volta; as chamas das arandelas e das lenhas no chão ainda brilhavam como antes, indicando que o tempo quase não passara.

— Sansa, você está bem? — indagou Jon, com uma clara preocupação. Olhou de soslaio para Brandon, no trono de madeira. — Que fez com ela, Bran? Disse-te para deixá-la!

O rosto do irmão mais novo era uma estátua. Solene, indiferente, como não escutando o que o Rei balbuciava. Virou-se para Folha, ainda de pé ao seu lado, com o pote e a colher na mão.

— Meu poder está aumentando — ele a avisou. — Em breve, como Lorde Brynden avisou, não mais precisarei do Represeiro. Em breve, minha mente estará em todo o lugar, em todo o tempo.

O tom e cadência de Brandon era distante, frio. Sansa arrepiou-se. Aquele ainda era Brandon? Ou era o Corvo de Três, a quem ela ouviu as vozes o chamando.

— Precisa ir a um meistre — disse Jon, ainda esperando Sansa ter alguma reação. Quando ela não respondeu, nem sequer o olhou, exclamou: — Maldição, Sansa, fale! Diga-me que Bran não lhe fez mal!

— Apenas fiz nossa irmã ver a verdade — Bran retrucou. — A verdade que você recusasse a mostrar.

Jon bufou, cravando os olhos desiguais nos olhos-musgo do irmão.

Ao fitar os olhos do irmão, Sansa levou uma mão até o canto do olho, entendendo de onde poderia ter vindo aquela estranha cor.

Bran, entendendo o gesto, disse, tentando acalmá-la:

— Vossos olhos não hão de ficar verdes. Para isso, teria de provar muito mais da pasta; constantemente.

A pasta…

Os olhos dela dardejaram até a tigela nas mãos pequenas de Folha. Numa ataque de cólera, Sansa afastou-se Jon, aproximou-se da filha da Floresta, deu um tabefe na tigela, fazendo o objeto e a colher voarem, atingindo o chão, retinindo no ambiente. A massa branca e vermelha empapou uma pequena parte do local.

— Você e o seu povo fizeram aquelas coisas! — vociferou ela. O sangue fluia em seu rosto, fervendo, assim como as vidas passadas entraram em fluxo com sua mente. — Todos nós corremos risco por causa de vocês!

A pequena criatura se retraiu, dando um olhar ferido.

— Nós estávamos desesperados — defendeu-se Folha. — Estávamos com medo…

— Medo do que!? — exigiu saber.

O olhar de Folha endureceu-se, assim como seu semblante. Todo o seu rosto jovem era, na verdade, o de uma anciã. Uma pequena ancião com olhos de gato e corpo de cervo.

— Medo de vocês — retrucou ela. — Medo de pessoas. — Girou os calcanhares, correu para longe dali.

O crepitar das lareiras era o único som que se estendia com afinco no local escuro. Os três irmãos se entreolharam, quietos, como que sem saber quem deveria ser o próximo a falar. Os lobos estavam ao lado de seus donos, tão silenciosos quanto.

Jon quebrou a quietude:

— Que houve aqui?

Sansa, sem esperar o irmão mais novo falar, respondeu:

— Eu a vi. — Seu soprano era um sussurro perdido. Mesmo com o local cheio de fogo, uma fumaça parecia formar-se enquanto pronunciava suas palavras. — Vi-a caminhar entre os mortos, levantando-os, enquanto trazia um vento frio e cruel consigo.

Logo viu-se incapaz de continuar a falar. O medo das mentes dos represeiro compartilharam consigo estava impregnado nela; atemorizando-a. Não podia livrar-se dele; estava marcado a ferro em sua alma. Começou a soluçar, lágrimas deslizavam pelas suas bochechas. Ainda sentia os crueis olhos nela, azuis como estrelas de gelo, queimando no céu de trevas.

Sua loba foi até ela, fazendo um ganido, tocando o focinho na palma da dona, vendo sua dor, mas sem ter como ajudá-la.

Jon a olhou, pertubado, arregalando os olhos. Fitou Bran, disse:

— Droga, Bran, o que deu em você?

— Ela precisava ver para saber que caminho seguir.

Jon abanou a cabeça, foi até a irmã, ainda a chorar.

— Calma, calma… — Ele pareceu tentar abraçá-la, mas hesitou, mantendo-se menos de um passo distante dela.

Ela ainda podia ver os corpos caindo, mortos a sangue frio pelas criaturas de gelo, que os derrubavam como se nada fossem. Logo, os corpos eram revividos, num feitiço cruel. Agora, Sansa sabia o que era e como era feito: necromancia. As almas eram escravizadas pelos seres de gelo, presos em corpos gelados e débeis.

— Foi horrível… — murmurou. — Foi tão horrível, Jon… Ah, pelos deuses…

— Então você viu — disse Jon. A voz era um pouco abalada, mas ainda era calma. — Viu que precisamos de Daenerys e seus dragões.

A menção ao nome da recém-cunhada e rainha fez Sansa tremer. Engoliu seco, lutando para recompor-se.

— Sim… — admitiu a contragosto. Vira que o fogo, o fogo advindo dos dragões, era o único capaz de destruir aqueles monstros em larga escala. Passou a manga da veste em suas bochechas, secando-as. — Sim, agora eu sei. — Apesar de dizer isso, não conseguia deixar de pensar que fora o povo de Daenerys que trouxeram aquelas criaturas, mesmo que indiretamente. A temível Líder até parecia-se com ela…

O Rei do Norte suspirou, talvez um tanto aliviado.

— Sansa, sei que o que está para vir será difícil, e que os momentos são complicados, mas deve confiar em mim…

— Vós fala de confiança — interrompeu Bran —, mas sois vós quem esconde a verdade de vossa irmã.

O sangue de Sansa gelou; sua mente pareceu estagnar-se; estava tão confusa para assimilar e compreender…

— Bran — avisou Jon, enquanto Fantasma mostrava os dentes para Bran —, fique calado quanto a isto! Você prometeu-me!

— Você guarda os motivos verdadeiros para nossa irmã!

— Motivos verdadeiros? — Jon parecia perdido. — Irmão, do que fala? Sabes que…

— O que, Jon? — Sansa virou-se, recompondo-se, fitando-o. — Que não me disse? — Ele abriu os lábios, mas ela falou antes: — Disse-me da sua morte no motim da muralha; mas existe mais, não é? Algo em relação a Daenerys!

Ele emudou-se, fitando-a. Seu rosto era indiferente, mas o olho vermelho relanceou para Bran, suplicante. “Por favor, não diga a ela.”

Ele não confia em mim, Sansa percebeu. Não, ela sempre soube que ele não confiava nela. Virou-se para Bran, que, entendendo seu raciocínio, tinha a mão sem luva estendida, e caminhou até ele…

— Sansa — falou Jon, mas nem se virou para vê-lo —, se me ama, se acredita em qualquer um dos novos ou velhos deuses, não faça…

Antes que terminasse, ela já estava tocando a mão de Bran, voando para o passado.

Estava, ainda, em Harrenhal, mas o represeiro era menor. Uma moça jovem, parecida com Arya, estava brincando nas raízes imensas e pedras cobertas de musgo. Ao lado dela, um homem alto, loiro, olhos cor-índigo, fitava-a, sorrindo.

— Fico feliz que tenha aceitado meu convite — disse ele. Tocava uma harpa de fios de prata.

A mocinha riu, deixou a brincadeira de lado, virou-se para ele.

— Não se pode negar nada a um príncipe — falou ela.

Rhaegar e Lyanna, Sansa deduziu, não graças às mentes lhe contando. Ela conhecia a história da irmã de seu pai. Morta antes do tempo, na flor de sua juventude.

— Então quer dizer que aceita? — indagou ele, parando de dedilhar as linhas finas de seu tão bem trabalhado instrumento.

Lyanna o olhou. Seus olhos cinzas tinham um faiscar, como os de Arya tinham quando criança. O sorriso travesso era o mesmo, também. Ela pulou da enorme raiz de represeiro, pousando no chão. Usava botas de cavalgar, o cano bem alto.

O príncipe deslizou da pedra onde estava assentado. Ambos caminharam até ficarem de frente um do outro. Rhaegar estava de frente à irmã de Ned Stark, de costas para o represeiro. Seu corpo barrava a visão de Sansa, impedindo-a de ver sua tia.

Quando ambos estavam frente um ao outro, Lyanna disse:

— Você é casado — lembrou ao princípe. — Se não me agrada Robert ter amantes, como…

Rhaegar fez um gesto com um dos braços, silenciando-a. Quando ele se virou para a Árvore Coração, Sansa percebeu que ele botara um dedo nos lábios de Lyanna.

Os olhos índigos de Rhaegar fitaram o Represeiro. Eles queimavam, como que brasas. Seu sorriso apaixonante fez Sansa ter um mal pressentimento. O príncipe apontou para a árvore com a mão.

— Vossos deuses, minha cara — ele falou. Virou-se para a amada, acariciando-lhe o rosto. — Casar-nos-emos em vossa religião. Meu povo casava-se com mais de uma esposa, mas a Fé dos Sete nos fez parar-se… — Deu um risinho. — Mas nunca antes houve um casamento feito em cada fé, pois? Pense nisso, minha cara Lya, você não será uma reles concubina… será minha esposa. Minha rainha.

A moçoila olhou dele para o represeiro.

Não, falou Sansa, não o faça…

Suas vozes, porém, transformaram-se numa lufada de vento e farfalhar de folhas. A simples ventania tocou Lyanna, fazendo seus cabelos balançarem levemente. Uma folha de cinco pontas tocou-lhe de leve sua bochecha. Seu semblante ficou sério. A Stark voltou-se para o Targaryen.

Ela sorriu; ele viu como um convite. A figura de Rhaegar voltou a cobrir a figura de Lyanna, ele passou um braço pela cintura dela, puxando-a delicadamente para si, beijou-a. Ela passou um braço pelo pescoço dele, como que para fazê-lo abaixar mais a nuca, para ficar na melhor posição em que ela pudesse alcançar seus lábios.

Sansa fitava as figuras já falecidas. Inicialmente, esperava que, nesse momento, fosse levada para longe, pois já teria visto o bastante, mas não foi o que ocorreu.

Por fim, os amantes se separaram. Lyanna deu uma risadinha, afagando a bochecha de Rhaegar, afastando uma mecha loira de seu cabelo.

— Olhe, meu príncipe, vós sois lindo, o sonho de toda a donzela nos Sete Reinos e além, mas…

— Mas? — o tom na voz era desgostoso.

— Mas, você é casado — disse ela, dando um passo para trás, para olhá-lo bem. — E eu não posso arriscar a dor que isso causaria em outra mulher. Além, é claro, da reação de meu pai… e do seu, Rhaegar.

— Meu pai logo há de perder seu trono. Ele…

— Nós dois sabemos quem Aerys é — ela atalhou, séria. Ela deu as costas para ele, suspirando. Virou-se, novamente, para encará-lo. — Meu príncipe, acredite… — Ele não a deixou terminar, dando um chofre em sua têmpora, fazendo-a cair estatelar-se no chão. A figura caída de Lyanna começou a gemer.

Nesse momento, as figuras se aproximaram. Todos usavam reluzentes armaduras e mantos brancos, mas ninguém ali era um heroi, não de verdade.

Sansa reconheceu os símbolos: O Touro Branco, Sor Gerold Hightower; Sor Oswell Whent (a família que dominava a Harrenhal naquela época) usando um elmo de morcego branco com asas abertas; o maior de todos eles, porém, era o Estrela da Manhã: Sor Arthur Dayne, o maior cavaleiro que já existiu, com sua bela e imensa espada embainhada, com os pelos do cabelo e da barba pretos, um tanto grisalhos; os olhos eram de um roxo tão escuro que eram quase negros. Seu semblante era o mais sério de todos.

— E agora? — indagou o dornês.

Rhaegar parecia fitar o corpo caído de Lyanna, que se remexeu e deu um gemido novamente. Estava indefesa, à mercê do príncipe. Este voltou-se para a Árvore Coração, sério, fitando o tronco com seus olhos índigos.

— Agora, nós a levaremos para Dorne. — Apesar de sério, de voz calma, era visível sua perturbação. — A profecia está para acontecer; tenho certeza de que meus filhos hão de ser os salvadores… mas preciso de três para isso. Os três salvadores. As três cabeças do dragão.

Os três soldados foram até a moça caída. Rhaegar ainda fitava o represeiro, como se desafiasse as mentes nele. Sua bela imagem foi-se desbotando, até finalmente sumir.

— Eu não entendo… — começou Sansa a falar.

— Talvez você apenas negue-se a entender — disse Bran. Sansa notou que ele estava atrás dela.

Ela virou-se, viu sua figura, em pé. (Em pé! Ele estava aprumado!)

— Bran? — Perdida, olhou em volta. Não estavam no salão de Harren, O Negro. Estavam num ambiente quente, onde o sol pousava no horizonte. Uma imensa torre erguia-se, como uma imensa treva, solitária, de onde gritos eram ouvidos. Sob o lusco fusco, homens jaziam no chão, mortos, com sangue espraiando na areia, cingida de cristais. Dois dos mortos usavam armaduras de escamas esmaltadas de branco, agora sujos de sangue e poeira. Os outros caídos usavam couro fervido e cota de malha.

Nem todos estavam mortos, porém.

Uma figura pequena (que Sansa acreditou ser Howland Reed, pois usava um manto verde e tinha Lagarto-Leão fervido no peito), estava ajoelhada; duas outras figuras lutavam: um homem jovem, cabelos escuros, usando cota de malha sobre couro fervido; usava uma espada imensa e escura — a qual Sansa reconheceu como sendo Gelo. A lâmina valiriana lutava contra outra, tão grande quanto; mas pálida, de textura leitosa. O soldado que a empunhava usava o manto branco que esvoaçava durante a luta. Uma pequena névoa de poeira subia sobre os pés dos guerreiros, mas estes nem parecia dar-se conta disso.

Era seu pai, lutando contra Sor Arthur Dayne.

Sansa virou-se para Bran.

— Eu disse que meu poder está a crescer. — Ele voltou o semblante para a luta.

Sansa ouvira sobre aquela luta mil vezes: seu pai, Lorde Eddard, matara Sor Arthur Dayne; finalizando, assim, aquele que talvez tenha sido o maior cavaleiro que já existiu.

Seu pai nunca contou que fora Howland Reed, um simples rapazildo do Gargalo, que, aproveitando que ninguém o vira, gravou uma lâmina na garganta de Sor Arthur (antes que esse acertasse um golpe fatal no recém-lorde Stark), que cuspiu sangue, antes de seus joelhos perderem forças, fazendo-o ajoelhar-se no chão, deixando a espada cair.

Sansa olhou a cena em completa descrença. Mas descrente ainda, foi ver seu pai, que estava ajoelhado no chão, sem a Gelo (que voara de suas mãos após um potente golpe do Guarda Real), pegar a Alvorada do chão.

Fazendo força para erguer, grunhindo de dor, pondo-se de pé, Ned olhou para o cavaleiro à beira da morte — mas seu estado fraco não impediu de ser acertado pela pálida espada de sua casa, decapitando-o.

Descrente, ela viu o corpo do guarda real tombar para um lado, a cabeça caiu e girou para o oposto.

Não, pensou, não é assim que deveria ser. Meu pai teria me dito a verdade. Ele…

Um grito distante foi ouvido. Vinha da Torre da Alegria.

— Lyanna! — Ned gritou, deixando o colega do Gargalo de lado, junto do corpo morto, correndo até a construção.

— Você ainda quer descobrir a verdade? — indagou Bran, olhando para ela.

Sansa começou a se mover, pronta para correr, seguir seu pai…

Não foi preciso, porém; num instante, estava num quarto, onde uma cama estava cheia de sangue. O sangue de Lyanna. A pobre moça estava chorando. Uma ama de leite jovem, dornesa, acalmava um bebê que não parava de chorar.

Ned abriu a porta do cômodo num golpe. Olhou em volta, ao ver Lyanna, correu, deixou a espada ancestral dos Dayne na beirada da cama, ajoelhou-se no catre.

Ela não sobreviveria, Sansa bem sabia.

— O bebê… — arquejou a jovem, mas a vida estava a sumir de seus inchados e avermelhados olhos. — Ned, proteja-o… Salve-o…

O jovem Ned Stark estava perdido:

— Lya, do que está a falar? O que houve? Quem…?

— Prometa-me, Ned! — Ela usou suas últimas forças para agarrá-lo nos ombros. — Prometa-me!

Sem entender nada, ainda de cenho franzido, ele anuiu.

— Prometo, irmã.

Ao ouvir aquilo, o rosto de Lyanna pareceu aliviado, ficando anuviado. Seus olhos ficaram baços, a cor do corpo foi se perdendo-se, assim como a força nos braços, que caíram sem lamento. Ela soltou seu último suspiro. Estava morta.

— Lyanna? — A voz do pai de Sansa era inconsolável. Ele tentou acordar a irmã, mexendo-lhe os ombros. — Lyanna, acorde! Pelos deuses, acorde!

A ama se aproximou de Ned, que permanecia ajoelhado ao lado da irmã, abraçando seu corpo, sem se importar com o sangue. Seus soluços eram altos e terríveis.

A mulher de pele escura o tocou, fazendo-o se virar, assustado, fitando-a em choque. Ele tinha sangue na bochecha, mas lágrimas limpavam um pouco.

Ao finalmente ver o bebê, ele ficou pálido.

— Este é…

— O filho da vossa irmã. — Ela entregou-lhe o bebê. — Ele não tem nome…

Apesar de hesitante, ele o tomou em seus braços. O recém-nascido não parava de chorar. Ned o olhou em total descrença.

— O filho de Lyanna…

Sansa aproximou-se. Viu como a pequena criatura em nada era como o pai: tinha nariz achatado, pele amorenada…

— Jon… — ela disse, sabendo quem era aquele bebê chorão. O bebê parou de chorar, parecendo ouví-la, abrindo bem os olhos. Tinha os olhos de fumaça dos Starks.

Ned Stark virou o rosto num chofre. Seus olhos dispararam em todos os cantos, procurando alguém.

— Milorde? — a ama de leite o chamou, estranhando sua atitude.

No mesmo instante, Howland Reed entrou no quarto, claudicando, esbaforido, sujo de sangue e terra. Ele varreu a área com os olhos verde-musgo, enojado com o que via.

— Milorde… o quê… o quê é isso?

Ned Stark fungou. Vestiu o rosto de um lorde.

— Este é Jon — disse ele, voz severa, sem aceitar discordâncias. — Ele é meu filho natural, Howland. É tudo o que precisa saber.

E então, a imagem jovem de seu pai Sansa, assim como a de seu irmão, desbotaram nas brumas do passado.

Estava novamente no salão. Soltou a mão de Bran, virou-se, olhou para Jon. Este a olhava com todo o pavor do mundo.

Ela o esquadrinhou: seu cabelo de prata; seu olhar de joias; a pele de porcelana. E havia a armadura valiriana em seu corpo: as espirais de fogo a dançar nas chamas, em contraste com o aço valiriano escuro.

Aquele não era seu irmão; aquele era o filho de Rhaegar — filho do homem que abusou da tia de Sansa; neto do Rei Louco.

Quando a visão embaçou, percebeu que estava chorando. Piscou, fazendo as lágrimas fugirem.

— Sansa… — Jon aproximou-se dela, erguendo um braço para tocá-la.

Ao ter um vislumbre daquele imenso braço enegrecido, por onde saía fumaça, cujos dedos mais pareciam garras, Sansa viu-se tomada pelo horror. Afastou num tapa, dando quase um salto para trás.

— Fique longe de mim! — bradou ela, sem fôlego. Ela o fitou, como se olhasse um estranho. — Pelo deuses… Você é sobrinho daquela monstra! Por isso quis casar-se com ela!

Jon deu um semblante ferido.

— Sou seu irmão…

— É neto do Rei Louco! O homem que queimou meu avô e meu tio! Pai do homem que destruiu a vida de minha tia!

Jon procurou palavras para falar, mas antes que pudesse:

— Era por isso que não confiava em mim! — acusou-a. — Pois sabia o que pensaria dessa monstruosidade!

— Eu confio em você!

— Então por que não me disse nada?

Ele hesitou ao responder; mas o fez mesmo assim:

— Daenerys… ela não quis que eu o fizesse.

Aquilo era demais para ela; era a prova de em quem ele mais confiava. Atordoada, Sansa levantou as saias, correndo para fora, afastando-se dos dois estranhos que ali estavam. Sua loba correu atrás.

— Ela apenas está confusa, irmão — disse Bran, após ela sair. — Acredite, dê-lhe um tempo, logo ela recobrará a razão.

Irritado, Jon virou-se para o irmão.

— Por que? — Sua voz era tanto ódio quanto mágoa. — Pelos deuses, Bran, por quê?

Bran segurou a dor dentro de si. Ele tinha de esquecer Bran e o seu amor pelos irmãos. Ele era o Corvo de Três Olhos.

— Porque Sansa precisava saber a verdade para saber o que é o melhor para se fazer — explicou. — Ela deve seguir o próprio caminho, mas tem de ser o caminho certo.

O Rosto pálido do Rei do Norte fez um esgar, torcendo os pequenos lábios.

— E é você quem decide o melhor caminho, eu imagino?

Assentiu.

— Devo fazer o que é melhor para todos — retrucou. — Não importa o quanto você e os outros me odeiam.

Ao ouvir aquilo, o rosto de Jon abrandou-se, dando-lhe um sorriso triste para o irmão mais novo.

— Eu nunca vou odiá-lo, Bran — Prometeu. O sorriso morreu, dando lugar a um semblante triste. — Este é talvez o maior de meus erros.

Jon girou os calcanhares, deixando o irmão, acompanhado por Fantasma. Deixando Bran sentado, apenas com seu próprio lobo, Verão.

Ele sabia que, no futuro, nem mesmo Verão estaria com ele.

O Corvo de Três Olhos era acompanhado apenas pelas mentes que carregava consigo.

Enquanto refletia consigo mesmo (e, em seu caso único, com todas mentes aue compartilhava), um borbotão tempestuosos surgiu do nada, como uma lâmina fria, arrepiando seu corpo. Verão ficou em alerta, nervoso. Todas as tochas e lareiras apagaram-se.

A Rainha da Noite aproximava-se.