Bran sabia que logo tudo teria um fim; bastava viver o bastante para saber qual fim seria – existiam boas chances de não ser o encerramento que ele e as almas queriam.
A poderosa ventania que fora trazida pelo inimigo jogara as pessoas do local longe, como boneco. Até algumas árvores foram retiradas de seus locais de descanso à força; algumas calharam esmagar as pessoas e outros seres com seus poderosos troncos. Muitos foram soterrados pela neve, que cobriu o terreno, como as areias de Dorne, só que brancas. Bran tivera seu corpo quase inteiro coberto de neve; o represeiro onde estava assentado inclinara-se para trás, tamanha potência do golpe. Além da neve e das árvores, pedras, carroças, diversos materiais, atingiram o Bosque Sagrado – inclusive corpos, tanto os dos vivos quanto dos mortos ressurgidos.
Boa parte das pobres e indefesas pessoas que estavam soterradas tentavam, Bran sabia, avultarem-se para fora do túmulo de toneladas de neve, usando suas mãos como pás para cavar.
Nem todos os inimigos estavam embaixo de toneladas de flocos, porém; a ventania trouxe muitos corpos do exército inimigo — alguns acabaram por ser “admitidos” no exército da noite após a viagem aérea os matar. Não é necessário dizer a algazarra que se seguiu pós-choque; pessoas feridas, pessoas mortas, pessoas lutando contra os mortos. Para sorte deles, assim como muitos dos vivos, os mortos tiveram grande parte de seus ossos quebrados ao serem jogados pelo vento contra alguma superfície sólida (ou pelo próprio vento, que parecia quase da força massiva e destrutiva de uma montanha sendo lançada). Como grande parte dos Wights também já se encontravam bem frágeis, com a ossatura e pele bem destruídos.
Não deve se acreditar que isso tornou a batalha de vivos contra mortos fácil; os humanos eram, em grande parte, fracos e famintos, com poucos realmente sendo guerreiros. Graças ao vento, não haviam mais fogueiras; as chamas criadas para combater os mortos de olhos-estrelas foram feitas pelos mágicos cranogmanos e homens chifrudos, adeptos na magia dos elementos.
(Meu clero, pensava Bran. Havia outros assim, ele ordenara que levassem suas palavras para o restante do mapa. Oeste, Leste, Sul — todos tinham alguém para falar sobre a Longa Noite, sobre o Príncipe Bran — “O Quebrado”, “O Corvo de Três Olhos”, “O Príncipe do Inverno”, a alcunha que preferissem —, assim como de seus dons; falariam sobre como ele salvaria o Reino, trazendo um longo verão. Não importava se quem ouvisse fosse um fidalgo, plebeu, de algum clã do Vale, ou estrangeiro; todos saberiam quem era ele.)
Mesmo ante o perigo, aqueles que podiam lutar, lutaram. Eram liderados por Meera (doce Meera, preciosa Meera), que, apesar de ferida, conseguiu salvar as vidas que podia, proteger Brandon, queimar quantos cadáveres podiam. Foi uma batalha árdua, custando a maior parte dos lutadores; todavia, considerando que grande parte deles sequer eram lutadores reais — eram apenas cranogmanos, alguns clãs do norte e do povo livre; estavam em bom número, mas o inimigo era praticamente o triplo, enquanto a maior parte dos vivos eram pessoas comuns, a dita plebe, as quais nunca nem sequer tocaram numa arma. Maioria fraca, faminta, assustada, rezando por um milagre.
(Não que Bran tenha se deixado ficar de lado durante a batalha; seus corvos, apesar de boa parte ter ido ao campo de batalha fora das muralhas de Harrenhal, muitos ainda permaneceram no Bosque Sagrado, prontos para lutar. Aqueles que sobreviveram a ventania, bem poucos, infelizmente, conseguiram comer a carne morta dos invasores. Bran gostava de comer os olhos; assim os líderes deles não teriam olhos para, tornando mais fácil atacar.)
Os lordes e cavaleiros, muito mais preparados para a guerra e capazes de proteger o povo comum, em boa parte, pareciam evitar Bran. Não importava — todos iriam até ele no fim. Primeiro, os fracos e desiludidos. Depois, os lordes e cavaleiros que foram tolos em dar as costas ao povo, deixando a crença deles no príncipe Stark crescer.
No fim, ele era o caminho — não precisava que concordassem; só precisava deixá-los se desesperar; deixá-los o ver usando seus poderes. A vida dos homens em nada mudara durante os milênios: ganha quem se faz acreditar ser a pessoa onde o poder reside.
— Tem certeza de que é seguro permanecermos aqui? — questionou Meera ao aproximar-se, claudicando, do príncipe, usando seu belo tridente de bronze como uma bengala. Sua perna esquerda estava ferida, uma faixa de tecido grosso, verde-lagarto-leão, retirada de sua capa de lã grosseira, cobrindo uma parte exposta e machucada, ficando com uma pequena mancha escura no ferimento aberto. Além desse ferimento, havia uma fina camada de sangue coagulado no canto esquerdo de sua testa, causado por algum corte aberto. Por sorte, apesar do potente golpe da ventania, a boa, corajosa, cranogmana ainda encontrava-se em bom estado (o mesmo não poderia ser dito do restante das pessoas no local, porém). Bran sabia que estava segura, pois as mentes de curandeiro bem sabiam que o único risco que a mulher corria era o de demorar para sarar a ferida caso não descansasse (e Bran sabia que sua amada não o faria).
A Lady de Atalaia-da-Água-Cinzenta envergava uma armadura de escamas de bronze, semelhante à pele de um lagarto-leão marrom-avermelhado, cujas algumas “escamas” encontravam-se faltando, fosse por causa do vento ou das lutas contra os grosseiros servos d’Os Outros. Seu cabelo castanho, apesar de um tanto despenteado, com fios saltando aqui e ali, ainda permanecia, grande parte, preso numa grossa trança que caía pouco além do meio das costas. A pele amorenada de Lady Meera brilhava por conta da perspiração de seu corpo. Os flocos grossos de neve acumulavam-se no topo da cabeça dela, fazendo parecer que um véu formava-se aos poucos, como que por mágica.
— Aqui é o lugar certo, Sor — Assegurou-lhe, chamando-a pelo título que sua irmã, a princesa Sansa, lhe concedera. Meera, como boa parte das pessoas, parecia estranhar sempre que era chamada por tal alcunha. “Sor” era um título comum para os sulistas, não para os nortenhos do Gargalo. Além de que nunca antes fora um título usado para mulheres.
(Devia lembrar-se de falar com a sua irmã e o seu irmão a despeito do título no feminino – era muito feio em mulheres. Mas isso teria de esperar; ainda precisavam saber se viveriam para sequer voltarem a se falar – mesmo que por pouco tempo antes de se separarem de vez.)
Meera acenou com a cabeça, mas em clara falta de confiança com o príncipe na árvore.
— Meu príncipe…
— Chama-me de Bran, cara Meera.
— Bran, tem certeza de que não quer unir-se à sua irmã no Grande Salão? Lá terá fogo e…
— Minha irmã há de vir até mim — bateu o pé. — Todavia, como mesmo eu disse antes, quem quiser ir que vá. Não prendo ninguém. — De certa forma. Brynden deu o que poderia ser descrito como um tipo de risinho com o pensamento dissimulado do rapazola. A mente tinha um humor seco, cruel até; mas tanto ele quanto Brandon faziam o que era certo para o bem do mundo.
Meera comprimiu os lábios, apertando um contra o outro, formando pequenas gretas neles; mas assentiu.
— Vou ver como estão os feridos — falou a cavaleira cranogmana, girou os calcanhares, afastou-se de Bran, claudicando. Apesar de um tanto irritada, a ferida na perna, mais cansaço, impediam-na de dar grandes passos.
Enquanto a filha do falecido Lorde Howland Reed ainda parecia ter alguma galhardia em seu espírito e corpo, o pobre Roose Ryswell encontrava-se num estado mais abatido — O braço estava sendo segurado por um conjunto de pano e gravetos que mimetificavam uma tala. Seu elmo adornado com uma bela crina de cavalo, perdera-se na neve. Seu rosto bonito e de aspectos de uma pessoa burra estava inchado em vários locais, principalmente na bochecha esquerda, onde um hematoma roxo crescia. O olho direito também estava bem inchado, quase fechando. Boa parte dos dentes foram perdidos quando o nortenho batera o rosto contra a madeira do trono de Brandon, fazendo lascas e sangues voarem. O rapaz já havia cuspido o último dente solto há pouco, quando a luta contra os Wights que estavam no Bosque Sagrado estava ganha.
Apesar dos ferimentos, o nortenho ainda mantinha-se ao lado de Brandon, sem vacilar. Seu grande, gorduroso, claramente retirado do cadáver de alguém muito maior e corpulento, manto de pele de cavalo o protegia da neve do melhor jeito possível; mas era visível que Sor Roose estava tremelicando pelo frio. Até batia os dentes enquanto tremia o queixo — dá para imaginar a imagem desgostosa, para não dizer agonizante, de tal cena; o sangue espirrando, a expressão de dor do cavaleiro, a imagem dos dentes quebrados furando a carne. Um horror.
Apesar de tantos percalços, Roose recusou-se a sair do lado de quem acreditava que devia proteger, abdicando da boa dose de papoula oferecida.
No ponto oposto donde estava Roose, havia outro guarda leal: o lobo de Bran, o fiel Verão, seu amado lobo, que por tanto permaneceu ao seu lado, encontrava-se sentado no zero, prostrado na neve em suas patas traseiras. O vento não lhe ferira, mas, ao proteger Brandon dos imorredouros, acabou por ter seu pelo escalpelado, quase quebrou as pernas. Agora, pós-luta, manchas vermelhas marcavam os castanho-pardos de se fiél guarda lupino; um dos olhos estava quase totalmente fechado após algo jogado pelo poderoso lufar enregelante quase perfurá-lo; a pata da frente quase não tocava o chão — não estava quebrada, mas dolorida. Tal qual os corvos e humanos, o valente animal lutara valorosamente contra os inimigos apodrecidos, protegendo seu dono até o fim.
Verão à esquerda, Roose à direita. Bran no centro. Era como seria, não importava que ambos os guardas do Corvo de três Olhos mudassem: O Corvo tinha de estar sempre no centro. O ponto fulcral de toda a trama. O local onde todas as teias se conectam; não a peça principal do tabuleiro de Cyvase, mas o grande jogador; e tantas outras frases eloquentes que podiam ser usadas para dizer a mesma coisa de forma — exageradamente — dramática.
O Príncipe no trono virou um pouco o rosto, fitando o rosto destruído e inchado de Roose. Achava cômico – ou era Brynden quem o achava e Bran apenas sentia as emoções de seu antecessor? – que o cavaleiro Ryswell tivesse o mesmo nome do falecido, infame e infiel lorde do Pavor, Roose Bolton.
— Sor?
Prontamente, o homem virou o rosto, fitando Bran. Fez força para abrir o olho inchado, ergueu o olhar, para ter uma boa visão do rapaz que dirigia-lhe a voz. Mesmo abatido, o olhar anuviado de Roose parecia brilhar de ansiedade ao olhar Brandon.
— Sim, meu príncipe? – Sua voz era quase um som gutural. Um grunhido de dor, causado pela perda dos dentes.
— Está ferido?
Mesmo briguento e ignorante, o Ryswell não se atreveu a desdenhar; assentiu com a cabeça.
— Gostaria de partir?
Ele respondeu sacudindo a cabeça de forma agitada. Estava querendo permanecer com o seu príncipe até o final.
— E se eu lhe mandasse embora? Me obedeceria, pois?
Roose lhe deu um olhar de surpresa ao ouvir aquilo. Fez uma expressão de dor, mas Bran teve a impressão de ser mais pela decepção de partir dali do que pela dor bocal. Para piorar a imagem, o cavaleiro abriu a boca, começando a lamber os lábios nervosamente. A língua era como um verminho em agonia, passando pelos lábios, dentes (amarelados, quebrados, pontudos), enquanto sangue escorria pelo queixo.
Bran não se abalou; vira coisas piores. (A mente de Brynden pareceu se irritar com o pensamento, pois sabia que era a seu feio rosto podre ao qual Bran se referia.)
— Ora, fique calmo, Roose — falou, por fim, acalmando o cavaleiro. — Apenas queria saber se estava disposto a ir até um meistre. Até porque todos os meistres que aqui estavam, bem, morreram.
O cavaleiro novamente rejeitou a possibilidade com um meneio agitado da cabeça. Devia estar evitando falar por conta da dor que a ação causava.
Com um sorriso gentil, voz melifluo, Bran perguntou:
— Me diga, Sor, mataria seu irmão por mim?
Sor Roose pareceu quase cair ao ouvir a indagação; abriu os olhos, deixou o queixo cair, expondo a ruína que os lábios escondiam. Palavra qualquer saiu de seus lábios, apenas fumaça causada pela respiração.
— Deixe, Sor — falou o príncipe na árvore. — O tempo há de relevar vossa resposta.
Roose fechou, abriu, fechou novamente. Os olhos cravados em Bran, mas nem um gesto de repulsa ou de ódio era visível. Era mais como uma mistura de choque, medo e dúvida. O homem apenas virou-se para frente, observando as pessoas amontoadas, lutando para não morrerem de frio, perto das fogueiras de corpos. Um cheiro pungente enchia o ambiente de inverno, queimando as narinas, fazendo ranho escorrer por elas, assim como fazia lágrimas escorrerem pelos olhos. As pessoas murmuravam preces, choravam, esperavam. Todas temerosas do que viria a seguir.
Verão, apesar de ferido, cansado, ainda parecia agitado, esperando o próximo confronto. Suas orelhas estavam empinadas; a cauda movia de um lado para o outro; seu pelo estava bem eriçado. Mesmo sem ameaça alguma, o animal começou a rosnar, arreganhando os dentes.
Bran sabia que provavelmente aquela seria a última batalha de seu fiel companheiro de quatro patas; mas, apesar de que qualquer apostaria contra, com todas as indicações dizendo o oposto, O Corvo sabia que ainda não era a batalha final de seu fiel seguidor Roose. Não, tinha certeza de qual seria o fim propriamente dito para este, mas decerto não era na Longa Noite.
A pergunta certa seria: como Roose Ryswell morreria? Bom, a mesma garantia que fazia com Brandon tivesse a certeza de que ele não morreria na Longa Noite era, ironicamente, a mesma coisa que tornava o destino de Roose incerto.
Bran teve duas visões oníricas sobre a morte do nortenho:
A primeira era Roose e seu irmão mais velho, Rickard, matando um ao outro durante a rebelião que ocorrerá após o fim da Longa Noite. (Que dramático! Uma morte semelhante à dos irmãos Arryk e Erryk Cargill na Dança dos Dragões! Ah, o drama cruel de duas pessoas que se amam tanto; porém em lados opostos, os quais odeiam respectivamente! A amarga ironia dos deuses; digna de canções as quais sua irmã mais velha, Sansa, adoraria ouvir e derramar lágrimas.)
A segunda – um sonho muito mais enfadonho, temia Bran –, era menos dramática; Roose, frágil, arrastado na neve, impotente, levado por um cavalo de treva e neve, três olhos vermelhos, enquanto rezava. Sua única companhia era Margaery. Esta estava logo atrás, imbuída em chamas vermelhas, amaldiçoando as amarras feitas de raízes de Represeiro, que a impediam de se soltar e seguir o caminho que queria.
De alguma forma, Bran sabia, o destino de Margaery estava entrelaçado ao de Roose. E ele sabia como fazer aquilo acontecer; Roose só precisava sobreviver.
No fim, ambas as visões podiam estar erradas — Roose podia muito bem vir a morrer na Longa Noite (fosse ela perdida ou ganha contra OS Outros), assim como bem pode morrer depois dela, pelos ferimentos. Algumas visões podem ser diferentes do que as pessoas interpretam (mesmo o interpretador sendo O Corvo de Três Olhos). E, certas vezes, podem nem ocorrer — Rhaegar, por exemplo, poderia ser o dito “Azor Ahai”, mas, infortunadamente, veio a morrer pelo bêbado e brutal Robert Baratheon.
Não, pensou Bran, certas coisas são imutáveis. Sua irmã Sansa lhe mostrou isso ao visitar o passado: Lyanna, como Bran vira tantas vezes antes, deveria ter aceitado a oferta de Rhaegar. De todo o modo, o resultado não mudou: Jon nasceu do sangue de ambos. A união (mesmo que, nesse caso, forçada) devia acontecer para Jon nascer, para todos chegarem onde agora estavam. Era uma verdade indelével na direção que o rio seguia. Lyanna e Rhaegar estavam destinados a unir a linhagem do gelo com a linhagem do fogo.
Se perguntou como sua irmã Sansa reagiria ao saber que logo ela, tão entusiasta de romances trágicos, acabara por transformar um dos maiores romances trágicos da história em uma cruel trama de abuso – justamente quando ela apenas queria impedir o caos da união de sua tia com o irmão de Daenerys. Não importava, concluiu, por fim, indiferente aos horrores que o simples bater de sua irmã causara. Rhaegar e Lyanna morreriam de toda forma; ser mais cruel para um ou outro não mudava o rumo de maneiras significante para que fosse necessário tentar mudar as coisas para como antes estavam.
Um rugido distante, agonizante, assustado, irrompeu, fazendo todos pararem o que estavam a fazer, assim como interrompeu o fluxo de pensamento de Bran e seus companheiros. Após o choque silencioso, veio o medo estridente: gritos, choros ainda mais altos que os anteriores, pragas, dentre tantas outras coisas. Os sons humanos de desesperança, desespero e medo irracional uniram-se ao grito de agonia distante.
— O que é isso? — Perguntou Carvão, um filho da floresta que estava perto de Bran. (Folha não estava pois fora morta ao ser levada para além das muralhas pelo vento trazido do Norte.)
— É o dragão de Daenerys — respondeu Bran.
Verão ergueu a cabeça contra o céu, uivando.
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