Sansa observava a multidão no Grande Salão com olhos de falcão. Maior parte sendo mulheres, com seus pequenos e assustados filhos agarrando suas saias ou sendo embalados em seus braços. Havia homens, também, mas eram em grande parte meninos verdes ou idosos que mais atrapalham um exército do que ajudariam. A maior parte dos soldados de defesa eram mulheres do Povo Livre — esposas de lanças. Foi uma ordem do rei que essas selvagens protegessem Sansa.

— Grande parte dos homens estarão loucos para entrar em campo quando a batalha se aproximar — dissera o irmão, com o rosto de um rei. — Não os quero largando você e as damas no pior momento. Fora a falta de confiabilidade dos mercenários.

Sansa não contradisse a visão do irmão a respeito dos mercenários – ainda mais que o único grupo que tinha mais destaque era o de Ben Plumm, um aliado de Daenerys. Porém, ainda tentou argumentar da lealdade dos nortistas e dos lordes do Sul. De praxe, seu irmão fez ouvidos moucos:

— Você sabe que, mesmo leais, isso não apaga o gosto dos nortistas de morrer em batalha. E você sabe que não podemos confiar nos lordes do Vale, Sansa. Não mais.

Ela sabia que ele estava certo – Sansa perdera as confianças dos homens do Vale. Eles a odiavam por deixar um bastardo herdar terras; desprezavam-na por deixar O Esfinge a engambelar, fugindo com a fortuna deles, acabando com a aliança do Vale. Provavelmente a odiavam pelas ações de Petyr e Harrold. Deuses, muitos podiam achar que fora ela quem ordenara a morte de Harrold. Se sequer suspeitarem da morte de Robin e sua mãe será meu fim – Daenerys nunca me protegerá, não tardará em me culpabilizar sem hesitar. Agora que estava em desconfiança com seu irmão... Seu primo... Agora que estava em desconfiança com o consorte de Daenerys, sabia que não podia confiar em qualquer chance de escapar de uma finta contra ela. Só podia rezar para ser Jon quem iria brandir a espada que a decapitasse; era melhor do que as chamas de Daenerys.

De todo o modo, apesar disso, a filha de Ned Stark ainda tinha certos planos, caso sobrevivesse a Longa Noite, ou a qualquer tramoia contra sua vida: tentaria convencer Jon a deixar Yohn Royce – rezava aos velhos e novos deuses que ele sobrevivesse a batalha – como novo lorde do castelo. Talvez como um prêmio por sua valentia, ajuda em batalha, ou qualquer coisa do tipo. Senão ele, seu filho. Talvez até para Sor Mychel, visto que ele ainda tinha irmãos para herdar as terras dos Redforts. Sim, era um bom plano.

Harrenhal era mais importante para ter olhos perto da Capital; o resto do Tridente estaria seguro nas mãos de Edmure – os lordes o seguiam, assim como o povo comum. Bastava ele ter mais lealdade aos laços de sangue do que a coroa (coisa que ele já fizera antes).

Enquanto isso, o Vale estaria nas mãos de Randa – se o marido dela tivesse sucesso em livrar o Reino do Oeste dos Clãs das Montanhas, Randa poderia ser bem quista em sua regência. Só bastaria, também, reconstruir os Portões da Lua; melhorar a sua imagem ante os lordes; convencê-los a aceitar um rei bebê bastardo de um rei tirano; superar qualquer crise econômica e a desavença da plebe faminta que se revoltara contra os lordes. Daria trabalho, mas não era um serviço impossível – apenas quase inalcançável.

Sansa esperava não ter de preocupar com nada disso – queria voltar para o Norte. Para sua casa. Deixaria Daenerys, Jon, Arya, Bran e qualquer outro que lhe parecesse estranho para trás. Tinha que voltar para as suas raízes geladas, reconstruir o reino do Norte.

Na noite em que descobrira a verdade, a noite que vira que Jon não era seu irmão, mas sim um estranho, um invasor na matilha, Sansa correu para o seu quarto, pulara na cama, desatando a chorar, até que o sono veio. Naquela noite, sonhara com Winterfell; não mais quebrado e queimado, mas como era antes: enorme, imponente, único entre todos. A Vila de Inverno estava agora renovada, maior até. A terra estava verde, com bons campos balançando pelo vento, endourados pelo sol fustigante. Crianças brincavam, sem medo do inverno, livres da guerra.

Era um sonho que ela esperava tornar-se real. Tinha de ser real.

A Loba de Sansa saíra, neve afora, para fazer deuses-sabem-o-que. A princesa não se preocupou, pois sabia que sua loba ia voltar. Não sabia como, nem porquê, mas sabia que voltaria para ela. A companhia da princesa em seu estrado, até que sua fiel mascote retornasse.

Além da loba, gostaria que Sandor estivesse com ela. Seu cão fiel. Ela sabia que também preferia estar ali por ela do que estar lá fora, enfrentando o fogo. Sabia o motivo: Sandor sentia que estar livre de seus pecados passados. Se redimir, enfrentar a Longa Noite, morrendo como heroi, fazendo valer seu título de cavaleiro, dado por sua princesa.

Mas ele não precisava morrer em glória para ser o heroi de Sansa.

Apesar disso, a princesa Stark sabia que pouco servira para ela ter Sandor consigo, muito menos tê-lo consagrado cavaleiro – os lordes não acreditaram que ele era inocente dos ataques às vilas, nem se esqueceram de seus tempos com os Lannisters. Não ajudou enviar sandor como um cão de caça atrás de Mindinho; além de infrutífero, a busca acabou por irritar mais as pessoas, fazendo-as temer o famoso “Cão de Caça” – que acreditavam ter saqueado, queimado, estuprado e matado de forma desenfreada –, vendo-o andar por aí, impune de seus crimes, matando aqueles que ousassem-no enfrentar.

Fora um erro de Sansa não ter feito um julgamento justo, permitido que ele pudesse se defender, fosse pela lei ou pela espada. Estava tão ocupada com se proteger de Daenerys que deixou sua desconfiança com uma inimiga, assim como sua felicidade ao rever um amigo, anuviar sua análise dos problemas que teria ao aceitar Sandor de volta sem ressalva qualquer.

Falhei, pensou, assim como falhei ao deixar Alleras escapar com o nosso ouro.

A traição de Alleras ainda deixava um gosto amargo na boca. Sansa não podia dizer que estava realmente surpresa com uma traição por parte de Alleras – mas podia afirmar que o modo como acontecera a pegara de jeito. Acreditava que Alleras trabalhava para Daenerys, que tentaria algo contra a imagem de Sansa. Jamais lhe ocorreu que ele afanaria a própria Rainha Dragão. Destarte, ainda era incapaz de compreender de que modo O Esfinge simplesmente conseguira surrupiar tanto ouro, por tanto tempo, nem como conseguira sumir sem sequer ser visto.

Alguém ajudara Alleras.

Será que Daenerys teria feito isso? Desse modo, a sua “cunhada” teria dinheiro para pagar os mercenários. E, claro, conseguiria acabar com a imagem da irmã do Rei do Norte do mesmo modo. Crápula!

Entretanto, Sansa sabia que Daenerys também teve sua imagem afetada pelo golpe de Alleras. A princesa e a Rainha não eram tolas; sabiam o que as más línguas falavam delas: que eram amantes de Alleras, brigavam por ele; alguns até ousaram dizer que uma ou a outra ajudaram-no a fugir.

Não era tola; as línguas soltas na escuridão eram devassas: estórias cheias de volúpia e calúnia. O Rei, ao ouvir que tais números corriam soltos, ainda ousou tentar aplicar penas pesadas (não multas, ou mesmo línguas cortadas, mas a execução). Foi o único momento em que a Princesa e a Rainha se uniram numa oposição contra – a fúria cega, irracional, do Rei do Norte apenas faria tais assuntos serem mais comentados, torná-los-iam reais para os desagradados pelo atual governo.

A imagem de uma monarquia depende da pureza dos seus monarcas — a maculação da imagem sagrada daqueles que devem governar incitava revolta. A imagem de Daenerys, porém, não estava nada limpa aos olhos de praticamente todas as classes (não apenas a plebe); a de Sansa não andava nas melhores (diferente de outrora, quando era bem quista por todos no Norte e Vale — algo pelo qual ela lutara muito para conquistar em sua empreitada como Stark em Winterfell). Sobrara apenas Jon — o Stark legitimado, o herdeiro de Eddard Stark e Robb Stark; a voz do Norte; o homem que convencera a Rainha a ir contra A Longa Noite.

Jon. Ele era o escolhido. A salvação. O homem que poderia “controlar as mulheres que tanto dividiam o reino com ambição e volúpia”.

Pensar naquilo dava a Sansa náuseas. Toda a sua luta pelo Norte parecia ter sido simplesmente apagada — a comida para os pobres e para o exército nortenho, as reuniões com a plebe; a defesa contra a Rainha Dragão. Tudo perdido. Os anos que passou escondida como Alayne, seu casamento com Harry, os anos de abuso com Petyr e Joff, seu sofrimento afônico – tudo fora à toa? Tudo para ser rebaixada à uma princesa irritante que devia cuidar de nada além de escapar das fofocas!

Perguntava-se se era assim que Daenerys sentia-se: ela construíra o que provavelmente era o maior exército que o Mundo Conhecido já viu; reduziu escravagistas e suas cidades à cinzas, libertando milhares, enquanto se entesourava com suas vitórias; fez os dragões renascerem depois de séculos; fez Dothrakis atravessarem o Mar Estreito para reencontrar seu sobrinho.

Dessarte, apenas era vista como a Rainha Puta — a filha do Rei Louco. A mulher que se banhava de sangue de virgens, que fora jogada fora pelo próprio sobrinho; a mulher que destruiu, por capricho, aqueles que discordavam dela; a estrangeira que trouxe selvagens e pagãos com ela. A única coisa que poderia melhorar a imagem dela seria, caso sobrevivesse, salvar a todos da Longa Noite.

Mas Sansa não acreditava nisso; Jon, mesmo que agora fosse menos bem visto por aliar-se a filha do homem que matou seu pai (que não era seu pai, Sansa tentava se lembrar), ainda era o único que era capaz de ser aceito por todos como o salvador dos povos, o restaurador da Paz no Reino.

Se a verdade sobre sua origem fosse descoberta, Sansa matutava, ele poderia ser mais bem visto ainda: o filho de um príncipe amado com a irmã do amado e falecido Lorde Eddard. Muitos poderiam contestar sua linhagem – um bastardo de Rhaegar, não de Ned Stark, de uma linhagem Stark feminina; todavia, pouco era crível que a maioria não acreditasse que, caso Aegon Targaryen fosse mesmo uma farsa, Jon fosse mais plausível de herdar o Trono — além do mais, ele já estava com a tia para ajudar a fortalecer a imagem dele.

Estaria Jon esperando para revelar a verdade? Ou ele e Daenerys sabiam que não teriam como provar? Ou… teria Daenerys medo de Jon ser mais legítimo que ela? Caso ele convencesse a todos disso, não precisaria de sua tia para herdar – muitos lordes, na verdade, estariam felizes em preterir o direito da filha de Aerys II, preferindo o sobrinho dela para se livrar.

Para os lordes, mais valia um bastardo no trono do que uma mulher instável.

— Anda com a cabeça nas nuvens, princesa — debochou Randa, perto de Sansa, enquanto saboreava uma fumegante sopa de cogumelos.

— Hum? — Virou-se para a colega. Estava desacorçoada; a entoação de sua amiga pareceu tirá-la de um sonho acordado.

Myranda riu, saboreando outra colherada.

— Nada, Sansa. Apenas disse que está avoada.

— Ora, como não estar? — Voltou a olhar para frente, sentindo-se desconfortável. Tomou uma colherada do prato, ainda cheio, pois ela quase não tocara no conteúdo desde que fora deixado a sua fronte (na verdade, nem sequer tinha terminado o prato anterior).

Escrutinando as pessoas no salão, notou que grande parte das pessoas não tocava mais na comida. Talvez estivessem cheios, mas achava que era mais nervosismo mesmo.

As pessoas (na verdade, praticamente apenas as mulheres; pois poucos homens foram afetados, grande parte nem sequer estava ainda estava vivo) que foram afetadas pela praga estavam mais afastadas da maioria, ficando mais à direita do salão, perto da entrada de portas duplas. Eram poucas, pelo menos agora, pois boa parte havia morrido antes da batalha. As pobrezinhas sofriam de dores abdominais, feridas nas mãos, vômitos e diarreias. Muitas escondiam suas carecas (pois também sofriam de perda capilar) com capuzes ou capelos exuberantes, emplumados e/ou engastados com muitas joias.

Muitos culpavam os estrangeiros pela doença, dizendo que foram eles quem trouxeram a praga. Outros diziam que eram as fúrias dos deuses contra as mulheres, pois eles estavam desgostosos com as suas atitudes antinaturais. (Dava para imaginar que eles deviam estar desgostos de Sansa, Myranda, Daenerys, dentre outras tão ímprobas do séquito delas, serem as únicas que não foram afetadas, ironicamente.)

A doença, culpa ou não dos alóctones que Daenerys trouxera consigo do Mar Estreito, era um tanto misteriosa — de começo, veio o fluxo sangrento, afetando desde os tempos em que Sansa ainda estava em Correrrio (Segundo Arya, a doença atacava a população de Porto Real; provavelmente sendo trazida de Essos), vindo com ela e os lordes até Harrenhal.

Todavia, com o passar do tempo, a praga se alastrou ao chegarem no castelo. O que por si só não seria uma surpresa: apesar de imenso, Harrenhal era um castelo, fazendo todos dividirem o mesmo espaço. O estranho era a forma como a doença mudara — as diarreias, febre e vômito passaram a ser acompanhadas por feridas que surgiam nas mãos, perda de cabelo, agitação; em alguns casos extremos, até mesmo estranhas alucinações. De fato, este último (acompanhado de estranhos olhares dilatados que pareciam quase totalmente negros) fez com que muitos tivessem certeza de uma maldição. Ainda mais que apenas mulheres eram alvo de estranhas visões. Muitas das vítimas ficaram tão agitadas que acabaram por morrer de taquicardia.

Os meistres disseram aos monarcas que suspeitavam um pouco de envenenamento no começo; mas, ao mesmo tempo que tal possibilidade passou em suas mentes, eles ainda estavam confusos: os sintomas podiam ser causados pela ingestão de um veneno ou outros – não era possível ser causado apenas por um em especifico. Alguns traços de intoxicação eram condizentes a certos metais, enquanto outros, plantas.

Alguns meistres abriram as entranhas de alguns dos mortos. O homem – que apenas tivera sintomas de diarreia – não apresentou nada além do esperado. As mulheres, porém, mostraram resultados mais interessantes: as entranhas de uma delas apresentava um caso de intoxicação por metais, com alguns fragmentos contidos na pele; porém nada em grande quantidade, também nada que fosse condizente com os outros sintomas. A outra, uma jovem que morreram após seu coração não suportar mais tantas alucinações, não demonstrou qualquer vestígio de envenenamento. Os meistres procuraram por folhas, pétalas ou mesmo sementes, qualquer coisa do tipo, mas sem sucesso. De acordo com eles, era esperado que a jovem tivesse sido envenenada por alguma planta; evidência alguma foi achada, porém. A sanguinária investigação provara-se infrutifera.

Se era mesmo envenenamento, ninguém sabia dizer (embora houvesse poucas dúvidas para tal). Contudo, ainda sobravam questões: quem envenenou as pessoas? Por quê? Como?

Apenas alguém muito habilidoso seria capaz de um gesto desses. Para não dizer a falta de um coração ao condenar pessoas a morrer de forma tão cruel.

Petyr? Talvez. Sansa sabia que ele estava livre, mas não sabia onde. De todo o modo, apesar de Petyr ter capacidade de ser bem cruel para fazer algo assim, não achava que era de seu feitio. Ele usara veneno em Joffrey, mas o que ele tinha a ganhar envenenando outras mulheres? E por que não Sansa? Não, ele teria uma trama muito mais complexa para ser descoberta, temia ela.

Alleras seria a opção mais óbvia – ele roubara todo o tesouro da Coroa, fazendo moedas de cobre passarem por ouro por longo tempo. Ainda conseguiu sumir num passe de mágica.

Mas esse plano, por mais frio e arquitetado que fosse, não mostrava que O Esfinge seria capaz de envenenar inocentes a troco de nada. Não, ele não tinha o que ganhar com isso. (Ou ela ainda estava se deixando enganar por um rostinho bonito? Ela acreditara na dor e no amor na voz e nos olhos de Alleras; teria sido assim tão ingênua novamente?)

Seria uma trama de Aegon? Bom, seria estranho, mas Sansa não sabia nada a seu respeito. Talvez ele fosse capaz de matar inocentes para enfraquecer os inimigos.

Em teoria, Bran, seu verdadeiro irmão, deveria ser capaz de dizer quem envenenara as pessoas – se é que alguém o havia feito –, mas nada falou sobre. Será que ele sabia e nada falou por algum motivo escuso? E Arya? Ela sabia de algo?

Suspirou. Sua mente estava repleta de dúvidas, para não falar paranoias. Sentia-se fatigada, desalentada. Sabia que apenas tentava evitar outras questões – Jon, os segredos de Bran, os arroubos belicosos de Arya; as tramoias de Daenerys…

E a Longa Noite. O terror verdadeiro que estava além do salão onde ela estava, além das muralhas. O inverno do qual os Starks tanto falavam – não, pelo qual avisavam!

Respirou fundo. Já estivera numa situação assim antes, na Batalha da Água Negra. Assim como naquela noite, Sansa apenas esperaria. Esperaria para saber se ia viver ou morrer.

Fechou os olhos por um instante. A imagem cruel da Rainha da Noite ainda saltava em sua mente. Tão cruel, fria, perfeita. Inumana. Era como rever o rosto de Cersei ou Daenerys. A beleza delas; a crueldade.

Seu corpo espasmou. Após deixar as mil almas do represeiro de lado, a princesa, mesmo repleta de gente, sentia-se um tanto solitária. Era como experimentar a sensação suprema de insignificância. Fragilidade.


Por sorte não ocorreram muitos surtos no salão. Apenas uma mulher, uma das afetadas pela doença, levantou-se, abrupta, quase saltando da cadeira, começou a correr gritando. Ela foi rapidamente agarrada por dois guardas estoicos, levada para algum lugar afastado. Sansa já havia ordenado a todos o que fazer em casos assim: a pessoa seria levada para algum outro aposento, onde tomaria algum medicamento para dormir, enquanto um meistre examinaria a situação.

Tirando esse caso, as outras pessoas apenas choraram, algumas gritaram. Pouco além disso.

Quase ao mesmo tempo em que o prato de sua sopa de repolho foi retirado de sua frente – praticamente ainda cheio, lamentava-se ela –, um soldado armadura veio ter com Sansa. O sotaque era do Vale, reconheceu que devia ser um soldado de Yohn Royce.

— Princesa — o homem fez uma vénia profunda, mais precisa para uma rainha do que para uma princesa.

— Sor. — Ela acenou, esperando ele falar algo.

— Vosso irmão e Stannis ainda estão em guarda — revelou ele. — Sua irmã, creio, acabou de se juntar.

Sansa assentiu. Não gostava da irmã se metendo nesse campo de guerra – ela ainda era sua irmã mais nova, passando por dias complicados que deixaram seu corpo num estado de fragilidade. Ela devia se abster, ficar no salão com os outros, nem que fosse como guarda.

Mas Arya era um espírito indomável; quando botava algo em sua mente, ninguém a fazia mudar de ideia – na verdade, quanto mais proibida de fazer, mais vontade teria. (Pensar nisso fez Sansa lembrar-se da infância de ambas, fazendo-a sorrir sem nem perceber.)

Ao soldado, ela falou:

— Certo. Algo mais?

No que ele respondeu:

— Achamos quatro servos tentando escapar. Estavam usando uma carroça, cobriram uns alimentos e alguns candelabros com um cobertor de tecido grosseiro, mas nós logo vimos que não eram para estar lá.

(As primeiras traições da batalha, a voz da falecida Rainha Lannister ecoou, saindo do passado, vindo assombrar Sansa no presente. Um eco fundo, obscuro.)

Pessoas assustadas, pensou ela. Não podia culpá-las; ela mesma estava apavorada. Todavia, aquilo era uma traição – portanto, merecia uma punição a altura do ato.

— Levem-nos para as celas — ordenou. — Que fiquem lá até o Rei retornar da guerra. Ele terminará a sentença.

Um cavaleiro anuiu, levantou-se, girou os calcanhares, saindo do local, passos largos. Sansa o observou se afastar, até decidir voltar seu olhar para Margaery. A Tyrell parecia estar apenas ocupada em bebericar um pouco do vinho dourado em sua taça.

Fique à minha vista, Margaery. Bem onde posso ver-te. A aia podia não ser culpada pelos envenenamentos que andavam ocorrendo em Harrenhal (e até na corte de Porto Real), mas Sansa sabia que ela era uma espiã da Rainha – por medo ou não. Margaery não podia ficar fora de vista, pelo menos não por muito tempo; poderia tramar algo com a Rainha, ou pior, contra ela e a todos os aliados.

De toda forma, teriam que resolver o que fazer com Margaery caso sobrevivessem a tudo aquilo. Pensou em casá-la com Sor Andar, filho de Yohn, caso ele conseguisse Harrenhal para si. Com ou sem o imenso castelo, seria um bom partido para Margaery; herdeiro de boas e ancestrais terras do Vale. Um sobrenome de renome. O único problema (claro que havia algum, quando estavam livres deles?) era o simples fato de que o irmão de Margaery, o falecido Sor Loras, matara o irmão de Sor Andar após a morte de Renly Baratheon.

Bem, talvez isso pudesse ser remediado (quem sabe não existissem rusgas quanto ao assassinato de Sor Robar? Difícil, mas não impossível). Outro problema (mais um!) era que as travessuras de Margaery e Ysilla deixariam uma proposta de casamento um tanto amarga para o filho de Yohn – e provavelmente para o próprio Lorde de Pedrarruna.

Bem, quem mais sobrara para a (nem tão) pequena e espinhenta rosa dourada da corte? Decerto Margaery poderia estar disposta a aceitar alguém que não tivesse uma coroa dessa vez (Aegon e Jon já estavam casados, e Sansa achava que nem um dos dois ousava voltar para as práticas poligâmicas de seus antepassados).

Sor Lyle não. O lorde de Darry era um senhor que caso quisesse deixar a viuvez de lado, teria de fazê-lo por conta própria. Que procurasse entre as mulheres Freys, ainda deviam de existir muitas.

Algum dos irmãos Mychel? Talvez, talvez. Tinha que ser um aliado seu. Não de Daenerys. A Rainha já detém muito poder. Melhor procurar por alguém que Sansa tivesse mais segurança.

Pensou num nortenho, Roose Ryswell passou rapidamente pela sua cabeça, assim como o próprio Bran Stark. Destarte, achou melhor pensar num Lorde do próprio Tridente, caso algum pudesse ter tanto Harrenhal quanto a mão de Margery. Teria um bom poder para si.

Lorde Bracken só tinha filhas, de modo que nenhuma desposaria Margaery. (O próprio lorde era muito velho para tal; e era melhor não irritar mais Backwood.)

Considerando todos problemas que andava tendo com a Casa, talvez os Blackwood pudessem ter Margaery. Sabia que o atual Lorde Corvarbor estava tão desgostoso quanto o pai quanto ao atual governo. Uma boa esposa podia ser um bom presente para ele, uma forma de acalmá-lo.

Claro, não era apenas um bom casamento que Margaery traria para seu marido: quem a desposasse teria para si a chance de herdar não apenas Highgarden, mas toda a Campina. Se Willas morresse nas próximas batalhas, sem herdeiro qualquer, Margaery seria a Lady do castelo.

Sansa não precisava casar a aia como o próximo Lorde de Harrenhal – fosse ele quem fosse –, apenas teria de garantir que ela casasse com alguém de confiança para a princesa.

Nesse caso, era melhor não casá-la com Lorde Brynden. Não tinha confiança alguma nele.

Eu confiava em Hos, mas mesmo ele me traiu.

A traição de Hoster fora um duro golpe para Sansa. Não apenas para sua imagem aos olhos dos outros – alguém em quem ela confiava a enganara novamente. Estava farta de depositar sua confiança e ser traída da pior forma: Cersei, Joff, Sor Dontos, Margaery e suas primas; Alleras, Tyrion, Hos, até mesmo Jon e Arya! Todos devolveram sua confiança com troça e farsas. Odiava a todos.

Ninguém é fiel a ninguém, pensou, abalada. A próxima traição podia estar logo ao lado dela. Podia ser pior do que a anterior.

Em outros momentos teria de lutar contra as lágrimas; mas não agora. Estava seca. Oca. Parecia nunca mais ser capaz de chorar.


O salão estava mais quieto agora, com alguns magos fazendo suas magia de fogo para enfeitiçar uma pessoa ou outra. Margaery lembrava-se de ver algumas dessas formas em Porto Real. Era assim que o deus vermelho agia – encantando os ignorantes.

Apesar de parecer distraída, seus ouvidos tentavam a interlocução entre Sansa e o cavaleiro que voltara para falar com ele.

— Corvos? — indagou a princesa.

Margaery pode ouvir o chacoalhar quando o homem assentiu.

— Sim, princesa. Creio ser seu irmão. Ele inflamou a moral de muitos, devo dizer.

— Claro que o fez — a voz não era feliz. Debochada, talvez. Irritada, com certeza.

— Princesa — o cavaleiro tinha a voz mais embargada. Deixou a cadência baixa, mas podia-se perceber o desespero. — Talvez fosse melhor a senhora e todos daqui partirem para o Bosque…

— Ficamos onde estamos. — Claramente não permitia que houvesse protesto. O cavaleiro aprumou-se, saiu do local.

Quando ele se afastou, Wylla aproximou-se da princesa, cochichou:

— Milady, se me permite…

— Não permito. — Voz mais seca.

Ora, ora, a alcateia Stark não está tão unida pelo visto? Que interessante! Será que tinha algo em relação a Rainha Dragão? Como Bran entrava nisso? Oh, como era irritante não ter todas as cartas nas mesas! Sempre parecia faltar algo para obter a vitória!

Quando o som lá de fora pareceu acalmar-se, algumas pessoas se levantaram, unindo-se, formando algumas rodas pequenas, variando de tamanho, começando a rezar. Muitas acompanharam as palavras das fé dos sete, lidas por septãs. Alguns homens e mulheres murmuravam as preces de sacerdotes vermelhos. Outros apenas rezavam para sabe-se-lá-que-deus.

Margaery observou a situação, perguntando se deveria unir-se às rezas andalas, afinal eram da sua religião. Todavia, via-se distante de tudo aquilo – os fanáticos dos sete prenderam-na, junto de suas primas, na Capital. Depois, traíram-na, fazendo-a ficar presa em uma das torres da Fortaleza Vermelha até quase enlouquecer.

Após tudo isso, pouco tinha tido de milagre dos deuses para manter sua fé forte: seus pais morreram, quase todos os seus irmãos e primas. Nada de bom tinha acontecido em sua vida para que ela acreditasse que os deuses olhavam por ela.

Talvez por isso quase não rezasse mais. Era estranho para ela rezar, pois os deuses pareciam tê-la abandonado. Sentia-se desamparada. Sozinha no caos de pessoas estranhas.

Seus inimigos, porém, pareciam ter mais sorte – Daenerys tinha dragões e um imenso exército pagão; Jon e seus irmãos estranhos tinham todo o tipo de poder a seu dispor. Até mesmo Stannis pareciam ter mais apoio dos deuses do que Margaery.

— Peço vossa permissão para rezar, majestade — era a voz de Wylla, interlocutando com a sua princesa.

Margaery as encarou de soslaio, bebendo um pouco de vinho dourado – bebia de pouco em pouco, para manter a mente limpa.

— Sabe que pode ir Wylla — respondeu Sansa.

— Mas… você não vem?

A princesa fez que não com um meneio da cabeça.

— Não é seguro para mim. E, para ser sincera, nem quero. Estou farta de rezas por agora.

Wylla assentiu, levantou-se da cadeira, afastou-se do local. Margaery a acompanhou com o olhar, movendo também a cadeira. Estranhou Wylla parecer nervosa, mas entendeu o motivo ao ver que ela unira-se à roda de oração onde estava sua irmã, Wynafryd.

Hoster, o marido da Lady de Porto Branco, não estava por lá – encontrava-se no Bosque Sagrado se o palpite de Margaery estivesse certo.

Ela tentava não pensar no casal. Sempre sentia uma pontada dolorosa na barriga ao lembrar da situação deles.

Brynden. A culpa era de Brynden. Ele dera as ervas e, se ela estivesse certa, não dera para Wynafryd – ou deu em menos quantidade do que para Hos.

Não importava, disse a si mesma. O que está feito está feito. Ela e Brynden tinham a própria união.

Algumas outras mulheres que estavam perto da princesa também foram rezar; dentre elas, Jeyne Westerling (a Rainha Viúva) e Cynthea Frey. Myranda Royce, Sor Alys Mormont e Mya continuavam onde estavam, tal qual Jeyne. O coro de vozes entoava no ambiente, abafando os sons do lado de fora.

— Odeio ficar aqui — ralhou Mya, como Alys Mormont fizera quando chegaram. A espera deixava as guerreiras ansiosas; mesmo as esposa de lanças estavam assim, era visível.

Eram mulheres da guerra, imaginou Margaery, pensando no quanto as selvagens Além-Muralha eram sanguinárias. Podiam surtar e matar todos ali a qualquer momento.

— Não vai rezar, milady Margaery? — indagou Myranda, dirigindo a palavra para ela pela primeira vez.

Virou-se para encará-la. A barriga de Randa estava bem maior, a grávida com uma mão pousada perto de onde seria o umbigo. A cintura estava bem alargada, para permitir o crescimento da barriga, sem prejudicar a mulher que carregava o feto. Os olhos pequenos e escuros de Myranda encontraram os olhos de ouro derretido de Margaery. Ambas sorriram uma para a outra.

— Rezei bem antes de vir para cá — respondeu-lhe. A voz saiu calma, escondendo bem a cólera. Sentia vontade de bater a taça de estanho na cara gorda e sem graça da Lady dos Portões da Lua. — Mas e você, Randa? É da fé dos deuses antigos, certo? — Boa parte das casas do Vale, sendo os Arryns os únicos de origem andala, tinha origem traçadas desde a época dos Primeiros Homens. Os Royce, Margaery bem sabia, sempre seguiram a fé dos adoradores de árvores pálidas.

Myranda assentiu.

— Os Royces sempre mantiveram suas raízes, mas vez ou outra já rezei num septo; mas sempre segui a fé antiga. Do meu jeito, claro; nunca fui de rezar muito.

Margaery assentiu.

— Eu rezava mais antes — revelou, tentando manter o clima leve. — Hoje rezo apenas algumas ocasiões.

Randa acenou lentamente a cabeça, claramente pouco importando-se com tudo aquilo; mas claramente querendo falar alguma coisa para arroubar a raiva de Margaery.

— Imagino… tempos difíceis, certo?

— Infelizmente. — Onde a vaca de bronze estava querendo chegar? Sabia que tinha algo vindo.

— Eu também ando tendo problemas, sabe? Ando preocupada com uma querida companheira.

Margaery levantou uma sobrancelha. Estava ela falando de Mya? Ou Sansa? Quem…

— Tem visto Ysilla, Margaery? — interpelou Myranda. — Faz um bom tempo que não a vejo, e, como vocês sempre foram tão amigas, tão próximas, pensei que soubesse para onde ela teria escapulido. — No mesmo instante, Sansa, Mya e outras mais perto voltaram seus rostos para ver o semblante da reação da pessoa a qual Randa se dirigia.

Margaery sentiu sua força esvair-se, ao mesmo tempo que o pelo dela eriçava-se como o de uma gata assustada. Tentou não engolir seco, segurou a taça em sua mão com mais força.

— Não. — Foi tudo o que falou. Falar mais alguma coisa seria evidência de culpa. — Ela não estava no septo quando rezamos antes de vir para cá?

Randa meneou a cabeça, respondendo que não.

— Não, ela não estava. A última vez que a vi, na verdade, se bem me lembro, foi quando eu a dispensei para um momento a sós com meu marido… bem, você sabe como são os homens, cada um reage de um modo; meu Ronnel, por exemplo, parece ficar animado com a minha barriga conforme ela cresce, o que é fofo, mas deixa-me cada vez mais dolorida… e mandei a nossa querida Ysilla esperar na antecâmara, ou seja lá onde ela quisesse ficar, até que eu e meu marido terminássemos nosso assunto. Bem, não fiquei surpreso que ela foi para outro local; o problema é… — apertou os olhos, fitando Margaery. — Ela não voltou. Ela não está aqui. Ela sumiu.

Margaery não se abalou, ignorou os olhares cravados nelas.

— Está acusando-me de algo, Milady? Pois se está, faça-o logo, pois temos problemas maiores para enfrentar por agora. Além do que, não tenho o que esconder ou temer. Não vi Ysilla há tempos.

— E eu não acredito em você — rebateu Randa, mais séria, direta.

Margaery relanceou para Sansa, que a fitava, quieta, atenta, depois voltou a olhar para sua acusadora.

— Isso é problema seu. Nada tenho a ver com sua dama de companhia. Se ela resolveu se esconder de você, devia falar com o pai dela, talvez esteja a escondendo.

Percebendo o arroubo que o papeamento das duas iria causar, Sansa interdizeu:

— Margaery…

Inopinadamente, o mundo tremeu. Todas as vozes que oravam calaram-se no mesmo instante. Apenas os objetos ressonavam, tremelicando. Os olhos de todos olharam para todos os cantos, alarmados, as cabeças virando em todas as direções.

As mulheres guerreiras do local ficaram em riste, prontas para o ataque – se é que haveria um. Jeyne fez um som assustado, Sansa tocou sua mão, também estando nervosa, falhando em escondê-lo. Wylla e sua irmã corriam para o estrado. Por instinto, Myranda abraçava a barriga de forma protetora. Margaery agarrou os braços da cadeira, apavorada, confusa, sentindo o medo apossar-se dela como nunca antes. Então se corrigiu, lembrando-se de já ter tido tal sensação aviltante: quando os Portões da Lua caíram.

— O que é isso? — indagou a assustada Jeyne Poole, pouco antes das portas do salão explodirem, a neve adentrando no local com voracidade. Todos gritaram, exceto os que estavam perto dos portões; estes foram imediatamente engolidos pela massa branca que avultava-se salão adentro. Nem mesmo os sacerdotes vermelhos tiveram tempo de reagir.

As janelas do local explodiram, também jorrando neve. Alguns corpos pareceram ser trazidos pelas ondas brancas, como pequenos pontos escuros. Alguns objetos (carroças, trabucos quebrados, pedras, árvores) irrompiam salão adentro.

Margaery viu o branco avultar-se como uma onda gigantesca até onde ela estava; sem parecer conseguir fechar os olhos, fitava a forma branca aproximar-se cada vez mais. O choque foi tamanho que até seu grito pareceu vacilar. Levantou os braços, sem saber o real porquê, enquanto tentava saltar para trás, ainda sentada. Sentiu o frio aumentar a pressão contra ela, jogando-a contra o chão, conforme tudo ficava escuro.