Arya sentia o vento lutando contra o seu corpo conforme se movia. A neve parecia cortar-lhe a carne. O bastão dançava em seus dedos, como o cabo de couro morno de agulha fazia-o. Sabia que não tinha muitas chances físicas; mais valia derrubar, deixando o oponente lerdo, talvez deixá-lo para ser queimado por Gendry.

Seu amante – agora seu único amante – parecia mesmo um touro, mesmo tendo o elmo de um cão na cabeça. Gestos agressivos, derrubando qualquer um. Arya achava que até uma pessoa viva poderia acabar atingida pelo cavaleiro se este não se controlasse.

Tudo acontecera muito rápido. Edric nem sequer tivera tempo de ter olhos azuis quando Gendry, após conseguir atear fogo na própria lâmina valiriana, enfiara-a bem onde ficava o umbigo de Ned, passando pela cota de malha como se fosse mais frágil que papel. Este deu um espasmo violento ao ser acertado, cuspindo mais sangue, como se tivesse tentado gritar mas garganta estivesse entalada. Fumaça voara onde a lâmina se fincara, fazendo um chiado esquisito conforme a pele e musculos torravam; Edric contorcera-se de dor, sentindo a pele queimar pela larga Lâmina de Gendry, que este recusava-se a retirar. Apesar da neve e do sangue ainda escorrendo quente na ferida onde o primeiro golpe fora desferido, o tecido rico das vestes veio a queimar rápido. A pálida pele, que havia perdido o tom rosado que Arya tanto amara, foi consumida pelas chamas laranjas e vermelhas debruadas em dourado. Os cabelos cinzentos – belos, ela adorava passar os dedos por entre os fios – sumiram num piscar de olhos. A carne contorceu-se, se desfazendo, enegrecendo; bolhas surgiam, estourando em seguida. Tudo era bem vivido, indelével na mente de Arya, que ainda abalada. O doce cheiro de limão e lavanda de Ned sumindo, substituído por um pungente odor de carne queimada.

Edric nunca gritara; provavelmente morrera antes do fogo se alastrar mais. Ou talvez tivesse perdido a consciência após a perda de sangue e da dor extrema.

A vida de seu marido fora ceifada muito cedo; não pela espada de Gendry e as chamas. Mas por ela. Arya o matara. Tirara a vida dele sem nem se dar conta.

Por que?

Antes de tudo acontecer, lembrava-se apenas de ter ouvido o som de distantes trovões ribombando. Os sentidos de Nymeria, aguçado, fizeram Arya perceber o dragão antes de todos. Viu o azul aproximando-se. Inexplicavelmente isso fez sua cabeça explodir. Toda a força de seu corpo pareceu fugir. Ned, preocupado, pagara-a nos braços, para que ela não caísse, e… e…

Naquele momento, ela sabia, pegara Agulha da bainha, acertara o marido no ventre. Não lembrava de ter feito, mas sabia que o fizera. Durante o apagão de poucos instantes, na algazarra causada pelo dragão inimigo, Arya usara a espada de seu amado irmão para matar o amado marido. Morto. Edric estava morto. Morto, sem filhos, sem velórios, sem corpos. Morto no ermo pela esposa rebelde.

Enquanto Arya movia-se, desviando-se das mãos e dos corpos a sua frente, ela sentiu seus olhos arderem. Apesar de todo o seu treinamento, as lágrimas ainda estavam conseguindo lutar, escapando dentre as pestanas. Nem seu alto treinamento na Casa do Preto e do Branco estava conseguindo contê-las. Nem mesmo o aperto no peito ela conseguia ignorar.

Ainda conseguia sentir o cheiro acre da carne de Ned subindo até suas narinas, impregnando-a.

Por que ela matara Ned? Por qual motivo apunhalara-o?

Nymeria, que seguia na dianteira do casal, guiando alguns lobos de sua alcateia que ela achava no caminho, estacou seus gestos assaz, ficando por cima de um corpo que ela derrubara, abrindo-lhe a barriga com dentes que pareciam pequenas serras cegas, retirando alguns órgãos necrosados de dentro do buraco que havia escavado. Soltou o intestino, deixando as tripas caírem, ergueu o focinho, parecendo farejar o ar, alerta. Quando pareceu captar algum cheiro estranho, ficou arisca, rosnando para o céu, dentes arreganhados. Ignorava os débeis gestos do cadáver que erguia os braços tentando agarrá-la.

Sor Gendry, vendo a cena, virou a cabeça, relanceou para o céu, pensando ser o dragão. Um vento mais frio vinha do norte, trazendo mais neve e bruma esbranquiçada, atrapalhando a vista dos vivos. Apertou a vista, lutando para ver entre os flocos densos que caíam, mas apenas conseguia entrever treva densa.

Arya sentiu a pele arrepiar-se. Os corpos que pegavam fogo por conta dos golpes flamejantes de Sor Gendry apagaram se todos de uma vez; o cheiro de fumaça acre fora arrebatado. No fundo de sua mente, voltou a sentir uma pontada de dor.

As mentes. Ela sabia que deviam ser elas que lutavam para sair. Se não todas, uma que estava de alguma forma cavando um túnel em seu crânio para escapar. Isso não fazia sentido, nenhum rosto que ela vestira na Casa do Preto e Branco era ligada a magia da muralha. Como isso a afetava de algum modo? As magias estavam de algum modo interligadas?

Quando deu por si, já estava correndo até sabiam-os-deuses-onde. Seguia o enregelar. O olfato de Nymeria sentia algo perto de onde estava.

— ARYA! — berrou Gendry, indo atrás dela. Os lobos da alcateia estavam logo atrás.

A princesa escapava das mãos fortes do exército de mortos graças a sua agilidade. Todavia, conforme o caminho que traçava ia ficando mais denso, mais complicado ficava esquivar-se das mão negras e pálidas. Sua roupa de couro começava a ser agarrada, puxada e repuxada; as tiras começavam a rasgar. Alguns agarravam suas pernas, mas ela os fazia soltá-la com seus chutes bruscos. O tecido de lã estava sendo rasgado, assim como o couro, alguns dos elos da cota de malha estavam começando a ceder também. Dedos duros agarravam sua grossa trança, arrancavam seus tufos de cabelo castanho. A pele exposta era arranhada por unhas e dedos sem cutis, cujos ossos saltavam para fora, tornando-se garras. Arya fechava os olhos sempre que algo saltava em seu campo de visão, tentando proteger os olhos. Os ferimentos ardiam, mas ela mantinha-se firme, mesmo pisando em neve funda. Qualquer um que tentava agarrar o seu bastão, ela fazia força para tirar dos dedos pobres e usá-lo para bater no algoz. Um de seus olhos estava cego, coberto pelo sangue que escorria de sua testa, grudando nas pestanas; o outro apenas via um mar de trevas corpóreas. Na verdade, parecia mais um céu cheio de estrelas azuis.

Sem explicação, os ataques cessaram. Arya tentou golpear um morto, que desviou-se dela. Estava fraca, bem exaurida, pois o gesto que deu fora lento, fazendo-a parecer que se jogou na neve. Flocos dançaram quando seu magro corpinho atingiu o solo. Ela resfolegou, tentando se recompor. Seu corpo estava no limite, assim como sua mente; isso fazia-a incapaz de controlar-se e ignorar o desgaste. A batida em seu peito fazia toda a sua compleição física tremer.

Ergueu a cabeça, ainda haurindo ar.

A miríade de corpos a observava com seus imensos olhos azuis-estelares. As mortalhas ainda grudadas nos corpos dos mortos fez Arya lembrar-se de seus tempos como noviça no templo de Braavos; as máscaras de pele humana, arrancadas pelo gume de uma fina navalha. Mas, enquanto os rostos em Braavos, esses tinham; mesmo assim, eram igualmente frios, sem vida. Haviam afastados-se um dos outros, abrindo um caminho cinzento.

A dor no fundo da cabeça de Arya diminuiu, substituída por um desconcertante júbilo. Ergue-se, tremendo. Seu corpo estava doendo, principalmente nas pernas; ardia onde a pele estava cortada ou mesmo grosseiramente raspada. Passou uma manga de couro no olho que estava coberto de sangue seco. Tirou a patina gosmenta dos cílios, conseguindo abrir o olho, agora irritado.

— Aryaaaaaaaaaaaaaa! — ainda podia ouvir seu amante gritando atrás dela, distante. Os lobos rosnavam com ele.

Observando o caminho que os mortos lhe deram, moveu-se. Conforme seguia caminho, lenta, quase claudicando, o sentimento jocoso dentro dela aumentava. Quase não sentia os olhares gélidos cravados em sua pessoa, tão gelados que ardiam. As cabeças – daqueles que ainda tinham alguma – da plateia apodrecida acompanhavam a princesa que caminhava no caminho de neve fofa, de forma lânguida. Era possível ver alguns pescoços, endurecidos e escuros pela falta de circulação sanguínea, parecendo quase rasgar com o gesto. Nalguns dava até para ver os ossos movendo-se, expostos.

Enquanto caminhava, recuperando as forças para reagir ao primeiro sinal de perigo, Arya sentia-se em algum estranho sonho febril.

(Um toque!)


X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

A Rainha observava o débil cadáver do homem a quem havia acabado de matar. O sangue dele misturava-se na neve. O saco de carne quente, por algum motivo, usava suas forças remanescentes para segurar o próprio estômago – mesmo este estando esparramado pelo chão. As tripas estavam dispersas, soltando alguma fumaça fina, emitindo algum calor no ambiente gélido. Sua vítima – Sor Yohn Royce, ela reconheceu-o, graças aos corpos que controlava; alguns sofrendo por assistir um antigo líder-amigo morrer de braços cruzados – fitava-a de modo assustado, confuso. A boca escancarada, parecendo gritar algo, mas soltando apenas sangue. Ela sentia a vida esvair-se dele, lenta.

A espada do cavaleiro ainda era segurada por ele. Os nós dos dedos estavam brancos conforme Yohn ainda agarrava-se ao cabo, talvez querendo erguer-se e atacar. A rainha deixou seus deuses saberem que a magia dela estava forte; mesmo com o infortúnio do aço valiriano (nome interessante, pensou, mas aço de dragão parece mais intimidador), ela ainda estava forte e rápida para a luta. Ademais, poucos tinham tal armamento consigo pelo que ela podia ver: grande parte dos guerreiros que não detinham magia usavam apenas armas pueris e archotes. Um ou outro ainda tinha para si um aço de dragão.

Essa nova geração de guerreiros era um tanto decepcionante – fracos, sem armamentos fortes o bastante, divididos por motivações parcas. Não dariam uma boa luta. Não eram uma boa raça para merecer viver. Sequer haviam evoluído: ainda senhores em castelos – mudando apenas de arquitetura –, os mesmos pobres miseráveis jogados à margem da sociedade, vivendo em barracos, colhendo grãos para senhores pomposos que nunca sequer os viram uma vez sequer. Nada mudou em mais de oito mil anos. A vida era parca.

Nem mesmo os truques de magia mequetrefe dos de sangue quente eram eficazes. A Rainha foi rápida em driblar o obstáculo do fosso. Quando ela e os seus se aproximaram, a cortina, já enfraquecida, apagou-se quando eles estavam há um palmo de distância, usando de sua própria magia para apagar as chamas. Os mortos – que aguardavam seus líderes em uma formação de dezenas de milhares – apenas tiveram de se jogar no fosso, cobrindo as lâminas de obsidiana e quaisquer outras armadilhas ali. A Rainha, então, usou de seus artifícios: antes dos magos conseguirem fazer surgir outra chama, ela invocou o gelo, criando uma ponte de cristal que cobriu todos os seus escravos. Nenhum poder dos magos fora capaz de destruir a passagem; não com todos os seres de sangue de gelo tão perto. Após isso, foi apenas um abate: uns correram para longe, outros lutaram. No fim, carne era carne; apenas demorava mais para cortar mas estava fadada a ser fatiada de todo o modo. As lâminas transparentes, de gumes azulados, dos guerreiros dos deuses ficaram rubras pelo sangue. Os gritos que ecoavam logo foram diminuídos; o exército de escravos, aumentando.

Apesar do refestalamento dos deuses diante dos sacrifícios no nome deles, A Rainha não estava totalmente satisfeita – os líderes fizeram bem ao afastarem os sacerdotes do fosso que separava os exércitos; isso enfraqueceu a muralha de chamas, mas salvou boa parte dos magos. As mentes dos comandantes analisavam o terreno, a estratégia, o perfil dos monarcas – alguns os conheceram antes de morrerem e serem assimilados pelos deuses. Nada bom. Estavam na dianteira, mas os vivos ainda tinham seus truques!

Bufou, irritada, levada aos velhos hábitos de quando era livre. Depois meneou a cabeça. Não importava. Tinha para si um campo aberto para o abate; apenas precisava matar O Corvo.

Ergueu os olhos, relanceou para os dois sacos de carne assustados que olhavam para ela. Sorriu, satisfeita com o sentimento que causava neles. Os deuses estavam jocosos.

Os seus filhos não moveram-se, nem os escravos. Sabiam que ela tinha sede por luta. Estava parada havia muitas eras. A lâmina danificada pela espada do já falecido Sor Yohn estava totalmente restaurada.

Os dois soldados se olharam de relance antes de voltar a fitá-la. Ela os conhecia: com a memória do recém-morto lorde Royce, ela sabia a vida de Sor Andar como se ele fosse seu próprio filho; quanto a Sandor, nada que fosse bom – mas isso a fazia questionar porque o dito cão de caça parecia um cachorrinho chorão?

Como era de se esperar, levado pelo ódio e vingança, Andar Royce correu até a assassina de seu progenitor, erguendo a lâmina contra o seu alvo, ignorando os avisos exclamados por Sandor.

A Rainha moveu-se, leve, escapando do golpe quando estava prestes a atingi-la, a lâmina da espada passando quase que de raspão de seu rosto. Andar apenas cortara o ar.

O atacante não teve tempo para recompor e tentar entender o que aconteceu. A Rainha apenas se recompôs para a posição que estava, encarando-o. Ele era um tanto mais baixo que ela; Sandor tinha uma altura mais parecida.

Os olhos cinzentos de Andar a fitaram. Confusos. Assustados. Hipnotizado até. Ela ergueu um dedo lânguido, pálido, de unha transparente. Tocou a bochecha do rosto oblongo do filho de Bronze Yohn, deslizou o dedo. O toque fez-o retesar; a área tocada estava queimada, formando uma linha delgada preta.

— Eles temem a nossa Salvadora — comentou Jeor.

— Eles querem trepar com ela — rebateu Jonnel —; mas nossa cruel Rainha das Trevas jamais se sujeitaria a ir para a cama com esses sacos de carne.

— Esse bando de sangues quentes são incapazes de trepar até com as ovelhas que usam para fazer lã. — Orwell declarou, o mais entediado entre todos. — Até aquele tal Cressen, quando oferecia ovelhas, dava para ver que eram mais atrativas que os filhos que ele fizera as filhas parirem.

— Ah, as nossas mães — comentou Jonnel, enquanto a cena de golpe e desvio se desenrolava. — Lembram quando voltamos para roubar mais irmãozinhos e não tinha praticamente mais ninguém? Aqueles malditos patrulheiros mataram o cara-de-cu do Craster antes que eu pudesse colocar minha espada gelada no rabo dele. Mataram até a maior parte das mulheres!

— Eu teria arrancado o pau dele e o feito se engasgar nele — grunhiu Orwell.

— Lembro que furei uma das sobreviventes que achei — revelou Jeor —, enquanto ela mancava, nua, na neve. Os homens que não a mataram a deixaram manca de tanto arrombar o rabo dela. Fiz o certo: furei a barriguinha dela para garantir que não tivesse nenhum bastardinho. Até tirei o ventre e mostrei para ela, para ela poder ter certeza. Dei-lhe um presente de irmão-filho, pois não?

Os companheiros gelados gargalharam. Suas risadas faziam com que os dois soldados que estavam enfrentando A Rainha fizessem uma careta de dor.

O que eles falam?, indagou-se Sandor. O esgar risinho e o barulho agonizante gelavam o brio de qualquer um. Nem os cadáveres davam tanto medo.

De chofre, A Rainha, que já estava bem alimentada pelo desespero de sua jovem presa, agarrou o pescoço de Sor Andar, erguendo-o no ar como se fosse uma boneca, acima de sua própria cabeça. Este grunhiu, enquanto a região espalmada pela Rainha soltava fumaça. O frio sugava todo e qualquer calor. Os músculos e pele macilenta agonizavam conforme o contato com a mão d’A Rainha se prolongava. Sor Andar moveu o braço, a mão ainda agarrada na espada, dedos envoltos no cabo. Gesto inútil. Por divertimento, ela agarrou seu punho. Não torceu, deixou o enregelar fazer seu serviço.

Não tardou para que seu mole refém larga-se a espada, cuja ponta ficou fincada no solo de neve. Os pés acima do chão chutaram-na, mas ela nem sentia. O metal que cobria os pés de Sor Andar congelava conforme acertavam-na, fazendo um som irritante de lento trincar. Lágrimas saltavam, riscando seu rosto, vermelho e inchado. A mancha escura crescia em seu pele, como um fungo que o carcomia.

— Solta ele! — vociferou Sandor, mas ele era ignorado. Todos os mortos e seres de gelo olhavam para a crueldade que ocorria com o último rebento de Bronze Yohn.

Sabendo que o indefeso cavaleiro precisava de ajuda, e que seria o próximo quando eles finalizarem, Sandor avançou. Seu velho machado era inútil, mas ainda tinha como pegar a espada vermelha do falecido Sor Royce. Mesmo ferido, arriscou-se; não tinha nada a perder. Ignorou a dor quase arrebatadora no braço.

Quando estava agachado – após soltar o machado – prestes a tentar tirar a espada do cadáver de Royce, este se moveu, afastando a arma dos dedos de Sandor. Este afastou a mão no mesmo instante, assustado com o gesto. Deu um passo para trás, quase caindo.

A Coisa que um dia foi o Lorde de Pedrarruna moveu-se. Atabalhoado, tentou erguer-se. Nem parecia perceber os guinchos de agonia de seu filho logo ao seu lado; assim como nem sequer se deixava abater pelo fato de que seu estômago caia para fora da barriga, deixando um buraco oco no corpo. O sangue que cobria seu corpo estava endurecido, aspecto de lama. O cinza e o branco dos olhos haviam se desvanecido; um tom intenso, quase que incandescente, de azul brilhava no lugar.

O pavor que Sandor sentiu o paralisou com a cena. Ainda podia ouvir os risos dos Vagantes. Ao olhar de relance, vendo a figura de Andar agonizando, ele tentou retomar sua coragem e fúria. Fitou o rosto feio de Bronze Yohn. Grunhiu para ele, fazendo uma carranca. Aproveitando que o oponente à sua frente era lento, forçou-se a agachar-se, tentando manter o braço que estava ferido, rígido. Com o braço normal, agarrou o cabo de madeira que havia largado antes.

Sem nem pensar, fez força para erguer a arma, firmando os dedos em volta da madeira. O machado acertou o rosto de Yohn, na bochecha direita, passando pela carne, quebrando ossos e dentes; a lâmina saiu pelo outro lado. Quase não jorrou sangue do estrago, pois estava praticava todo duro pelo frio. A parte superior da cabeça quase caiu, tombando para trás. A língua fora destruída pelo golpe.

Sandor nem perdeu tempo para ver a ruína que fizera no crânio do falecido Royce; estava pronto para outro golpe.

— Não vai mais precisar disso — falou, acertando o pulso da mão que agarrava a espada afiada. Mesmo após decepada, caída no chão, a mão recusou-se a soltar a arma.

Sor Sandor conseguiu achar em si excelsior o bastante para fazer a perna dormente dar um chute potente no corpo armadurado de Royce, acertando a sola de seu pé na região abaixo do buraco que ficara após o golpe da lâmina daquela estranha criatura de gelo. O golpe funcionou; Yohn caiu de nádegas na neve.

— Devemos intervir? — perguntou Oswell, vendo a cena. Quase nem reparara no Sangue Quente, de nome Sandor, de tão distraído que estava com a sua bela e devastadora Rainha dos Infernos mais Enregelantes.

— Nah — falou Jonnel —, deixe nossa salvadora se divertir. Viu como nossa Mãe agarra o tal Andar? Que tesão!

— Tesão é para os Sangue Quente, imbecil — censurou Torrhen, ao lado dos interlocutores. — Nós temos adoração.

— Vá aporrinhar um Saco de Sangue Quente, Torrhen — rebateu Jonnel.

— Quietos, idiotas! — ralhou Jeor. — Shiu!

Os cavaleiros shiuzaram. Voltaram as atenções para a cena que ocorria enquanto eles falavam.

Sandor – após voltar a largar o machado – lutava para fazer os dedos frios da mão decepada de Lorde Yohn largarem a espada; A Rainha, ainda agarrando a garganta de Andar, aproximou sua vítima, puxando-a para perto de si, abaixando-a um pouco, para que ela tivesse uma boa visão de seus olhos.

O rosto de Sor Andar estava quase tod tomado pelo negro, perdendo quase toda a cor da parte ainda viva. O calor esvaía-se de seu corpo, assim como a vida. Uma névoa escapava da boca, junto de uma espuma espessa de saliva. Os olhavam para o nada, semicerrados. Nem dava atenção para os flocos que caíam nas íris cinzentas. O cabelo também estava salpicado de neve. Nem sequer haviam mais chutes; apenas espasmos leves.

O braço que Andar usava para segurar espadas também encontrava-se necrosado, quase até o cotovelo. A couraça de bronze que o protegia empalideceu ao ser coberta pela patina de gelo; após um assobio estranho, o metal quebrou-se, dardejando fragmentos de si para todos os lados. Alguns perfuraram a carne de Andar, mas ele nem sentiu – o frio deixara-o dormente demais.

Parecendo lutar para voltar a si, Andar rolou olho para figura a sua frente. Não enxergava bem; via apenas um borrão brilhante e azul.

Dando sorriso complacente, a esguia beldade pálida puxou levemente Sor Andar. Deu-lhe um singelo beijo nos lábios. Um simples toque contra a pele quente.

Sor Andar nunca sentiu algo mais gélido. Todo o pouco calor que ainda tinha consigo sumiu. O ar escapou-lhe por completo. Todos os seus músculos se contorciam conforme endureciam conforme eram congelados. O gelo se imiscuía em seu sangue, transformando-o em rios de água gélida.

A Rainha o soltou. O corpo empalidecia, tremelicando na neve. De repente, parecendo recuperar a voz, Sor Andar gritou. O grito, porém, logo virou barulho inumano, como que gelo trincando na água quente.

Sandor, que ainda tentava fazer a mão soltar o cabo da espada, parou ao ver a cena, estupefato.

A armadura de bronze de Andar Royce começou a congelar. Conforme o frio apoderava-se dela, um “sssshhhhh” ressoava. Aos poucos, a armadura se esfarelou. O ritmo aumentou de forma abrupta, conforme Andar se debatia em agonia. Seus músculos ficavam mais rígidos conforme o branco-azulado o consumia; as manchas enegrecidas sumiam. O cabelo castanho transformava-se em fios de neve, indo da raiz até as pontas. Seu rosto começou a entortecer, como se sua carne fosse mármore sendo esculpido de forma agressiva para dar forma a mais bela das estátuas.

Mas pior não era a dor física, a qual parecia até um alívio em comparação a dor interna – eram as mentes que penetravam em seu ser. Mentes milenares, senão mais antigas.

Sandor apenas podia observar. Havia esquecido-se de soltar a mão do cabo da espada. A visão do corpo do filho do falecido Lorde Royce era provavelmente a coisa mais aterradora que vira desde que enfrentara a fúria do irmão mais velho, quase trinta anos atrás. O barulho que a pele e os gritos faziam era aviltante.

— Ele não vai suportar — declarou Oswell, vendo o corpo que se contorcia perder a cor e as vestes. Não queria um novo irmão; detestava ter tantos para partilhar a atenção da Rainha. Detestaria ainda mais um irmão que cresceu entre os pagãos que idolatravam o maldito sol! Era repulsivo!

— Acho que nossa mãe vai conseguir — rebateu Jonnel. Sentia o corpo e alma fraquejar; logo os deuses teriam terminado mais um obstáculo.

A Rainha observava a cena, escrutinando a forma como o corpo e mente cediam ao poder enregelante dos deuses. Será que seria possível repetir o gesto que a criara? Os deuses tinham dificuldades para controlar os humanos formados; o espírito resistia muito, tornando difícil manter o controle de imediato. Levava tempo, nem sempre funcionava.

Agora, mesmo agora, após milhares de milhões de almas, ainda pareciam ter dificuldade para possuir o espírito de um jovem saco de carne e sangue quente.

Sor Andar lutava contra o que parecia uma inundação em sua mente e alma. Sentia sua pele, assim como seus membros, músculos, ossos, órgãos contorcendo-se em agonia conforme o veneno gelado os consumia. Cada parte de si lutava contra, mas perdia.

Sua mente lutava contra mais e mais mentes invasoras, que tentavam espoliar Andar. Sua consciência era abafada ante a pressão de seres milenares que ordenavam-lhe submissão.

Quanto ódio, pensou Andar, tentando manter sua ociosidade, quanta sede por poder e deificação. Um desejo de conquista vazio. O horror o consumia conforme ele entendia o que eram aqueles que seriam os seus “irmãos”, os ditos Caminhantes Brancos. Vazios, parcos em empatia, inconstantes, incapazes de serem ociosos de maneira real. Títeres de gelo, incapazes de pensar per se, incapazes de perceberem as cordas puxadas que guiavam seus membros.

Ao ver seu destino, Andar tentou resistir mais; porém seu corpo estava praticamente perdido. Não havia esperança qualquer, percebeu ele, ao ser conectado às dezenas de milhares de milhões de almas escravizadas, privadas da morte. Era muito pior ser como eles, os deuses pareciam querer lho dizer. Unir-se a eles, não seria unir-se aos deuses antigos que ele cultuava? Não era melhor do que fazer parte dos descendentes pagãos que matavam represeiros?

Sentia o poder emanado da miríade de mentes. O poder d’A Rainha. Sua Rainha. Sua criadora. A voz dos deuses abafava seus pensamentos. Os sentimentos haviam dissipado-se.

Sandor observou a pálida, gélida, nua de Sor Andar erguer-se numa velocidade assustadora. Mesmo parecendo fraco, estava mais rápido. O corpo perdera toda e qualquer cobertura, fosse de metal ou tecido, ficando exposto para todos. As ungulas estavam transparentes; os cabelos, alvos; a pele era pálida, com um brilho fosco azulado; o falo de ponta azul, o saco escrotal e as nádegas estavam expostos sem nenhuma vergonha. O peito nu era um campo sem cor, exceção de dois pálidos círculos azuis. Os olhos estavam incandescentes. O rosto agora era uma escultura de gelo perfeitamente simétrica, perdendo qualquer imperfeição humana. Ficou ele e a Rainha defronte um para o outro.

A Rainha analisou a cena, séria, enquanto os deuses estavam a escrutinar qualquer sinal de resistência do novo convertido. Por fim, voltou a sorrir. Tanto ela quanto os deuses estavam satisfeitos com o resultado; a alma de Sor Andar estava perdida para os deuses.

A Rainha dardejou os olhos até a figura agachada no chão – Sandor. Este parecia não entender o que acontecia, nem como reagir. Estava congelado de medo. Petrificado, pobrezinho!

Era ora do último teste. A Rainha devia ter deixado o pai do antigo Adar vivo, para poder ter certeza do controle; apesar desse detalhe, talvez a perda do pai ajudasse a fazer o espírito de Andar esmorecer. O Cão teria de servir.

— Ataque.

Sem som, sem sequer deslocar um floco sequer no chão, Andar moveu-se, ficando de frente a Sandor. Este tremeu ao ver o azul rebrilhante encará-lo. Por um tempo, ninguém moveu-se. Apenas a brisa forte e os berros distantes dos homens que lutavam e caíam podiam ser ouvidos.

— Mate — ordenou A Rainha, incisiva, irritada com a inanição. Sentia o corpo lutar contra ela, mesmo que quase sem forças.

A pálida coisa que agora era Andar de um passo para frente. Parecia estar adaptando-se a andar.

Parecendo recobrar a consciência, Sandor voltou-se para a espada, tentou fazer a mão morta soltar a empunhadura de couro, desesperado. Rezou ao guerreiro para lhe dar forças enquanto fazia-o. Os dedos estavam duros, enquanto os seus encontravam-se dormentes, atabalhoados.

Andar deu outro passo. Pareceu ser mais difícil que o anterior. Grunhiu, fez uma careta de dor, parecendo lutar para andar, tanto quanto para parar. O corpo começou a tremer.

A Rainha não gostou nada. Nem os deuses.

Faça o que mandamo-lo!, berraram, junto d’A Rainha. A situação estava demorando demais; Sandor já devia estar morto!

A pele gelada do Caminhante recém formado pareceu começar a trincar. Rachaduras surgiam em diversos lugares, aumentando gradativamente. O som de gelo trincando ressou. Andar rilhou os dentes. Levou as mãos até a cabeça, tampando os ouvidos, como se o gesto abafasse as vozes dentro dela. Conforme o rosto trincava, ele parecia esmagar-se. Seu gritar de agonia era como se um rio de gelo inteiro se quebrasse em diversos locais, batendo os pedaços de água congelada uns nos outros.

Ao ver aquilo, Sor Sandor rezou mesmo; era como se estivesse vendo uma alma sendo atormentada no mais fundo e cruel dos sete infernos. O escultural pálido como giz que era o corpo nu, parecia escorrer, desfazendo-se.

O Caminhante caiu de joelhos; Andar lutava para emergir. Seu ímpeto fazia-se ouvir dentre tantos algozes. Conseguindo algum controle, debateu-se, tentando fazer as mentes desistirem ou, caso extremo, destruir o corpo-marionete. Puxou os cabelos, chutou a própria barriga; desesperado, agarrou o próprio pênis, torceu, retorceu, puxando com força, quase arrancando sua virilidade. Isso fazia enquanto mordia língua e lábio, tentando arrancá-los. Sua “pele” nova rachava, mas parecia recuperar-se conforme os deuses conseguiam recuperar algum controle.

A Rainha ficou furiosa; teria quebrado o rebelde, não fossem os deuses que ordenavam-lha apenas para ajudá-los no controle do homem que transmutava.

A resistência de Andar pareceu arrefecer. As gretas começaram a sumir; a água que escorria voltava a congelar. O corpo ficou de quatro no chão, recompondo-se. Até os fios de cabelos estavam recompostos.

Quando tudo pareceu se acalmar dentro do corpo, até o novo servo recém-convertido dos deuses olhar de soslaio para o corpo ao lado, sentindo reconhecer o Wight insignificante que ali estava.

A imagem do rosto sem vida, empapado de neve e sangue coagulado, de Sor Yohn, agora com olhos azulados, fez o corpo do outrora Andar tremer. Sabia que a alma de Yohn Royce ainda estava no corpo morto; aprisionado pela magia necromante dos deuses. Mesmo assim, os olhos azuis do cadáver, de encontro aos olhos azuis de Ansar, reconheceram a fisionomia transformada de seu último rebento.

Ao sentir a alma atormentada de seu outrora pai, uma pontada de dor trespassou a frieza da pálida armadura de gelo e almas tiranas. Um soluço escapou, o corpo tremeu. Com lábios trêmulos, pareceu tentar falar algo:

— Pa… Pai… — Lágrimas começaram a vazar dos glóbulos oculares azul-celestes. A fisionomia voltou a rachar, esmorecendo. Conforme chorava, a face começou a se deformar, afundando onde as lágrimas riscavam, como se elas derretessem-na.

O filho de Sor Andar voltou a ressurgir em meio a bilhões de almas, retomando o seu corpo. Ergue a cabeça, soltando a agonia em seu ser em uma estridente e agonizante em uma forma de grito inumano. Conforme se desfazia, liquefazendo-se, o alto berro foi diminuindo, até que apenas uma pequena poça gelada sobrou do herdeiro de Bronze Yohn; rapidamente sumindo enquanto era consumida pelos flocos de neve no chão.

No fim, apenas silêncio restou, enquanto todos pareciam tentar assimilar o que havia acabado de acontecer.

— Rá! Eu disse! — gabou-se Oswell após Andar ter deixado de existir. Ele mal teve tempo de arrepender-se; pois logo começou a liquefazer-se, tal qual Andar. Berrou, vendo os dedos liquefazerem-se; as pernas perderam a forma sólida; o torso caiu na neve, desfazendo-se nela, sentindo a fúria dos deuses irados destruindo sua forma sólida.

— Isso é para aprender a não interromper o trabalho dos deuses — falou um dos irmãos gelados, farto das interrupções e soberba, enquanto Oswell escorria no chão, expelindo água gelada da boca, como quando humanos pigarreavam sangue.

(Ele não morreu; os deuses o castigaram de forma mais cruel: viver liquefeito, sentindo dor eterna, com cada gota de seu ser sofrendo ininterruptamente, sem sequer emitir som.)

Sandor estava de queixo caído, ainda fitando o local onde antes estava Sor Andar. Agora, nada; mas ainda podia ouvir o esquisito som de agonia que o estranho ser que Andar emitira enquanto liquefazia.

A Rainha observou a cena, irritada, mas não abalada. Para o desgosto dos deuses, os homens ainda eram muito resistentes para serem assimilados. Um turbilhão de almas urrou em fúria nos ouvidos dela; precisou de força para manter-se em pé. Tinha que ser inabalável.

A figura assombrosa da enviada dos deuses ergueu o rosto, relanceou para o homem de sangue quente que estava a poucos metros de onde ela estava. Sandor, sem mover-se, arregalou os olhos, vendo seu fim nos olhos da estrela da figura à sua frente. Deu uma golada de ar com a boca quando um borrão azul-pálido surgiu até ele.

A Rainha estava prestes a descontar a sua raiva naquele pobre miserável quando parou. Sandor fez um som assustado ao vê-la: estava a centímetros dele. Mais um pouco e teria-o pego. Ele jogou-se para trás, de costas para o chão, soltando a espada valiriana. Seu coração estava disparado; a perspiração tomara conta dele num piscar de olhos; estava esbaforindo.

A Rainha olhava para uma direção, Sandor virou o rosto deformado para encarar o mesmo lugar. Percebeu que uma figura aproximava-se. Era Arya.

A princesa Stark passava por um caminho margeado de cadáveres variados. Estes nada faziam, apenas olhavam para a moça. Esta usava o bastão de represeiro como se fosse uma bengala. Estava ferida, Sandor percebeu. O estado ferido dela era tão grave, que ele demorou para perceber ser a irritante e crescida garota que ele carregara consigo para cima e para baixo no Tridente.

A Rainha esquadrinhou a figura que estava aproximando-se. Não a magrela mulher que estava à vista de todos; analisava a mente que escondia-se dentro dela, como se fosse uma capa. Podia sentir o poder de Warg no corpo de quem ela sabia ser a princesa Stark. Havia algo além: mentes que deixavam um resquício nela. Mentes mortas, memórias e personalidades; nada realmente vivo.

Exceto a mente do homem com quem os deuses conseguiram fazer contato além muralha: o messias do apocalipse, o falecido Euron Greyjoy, que em vida usara a alcunha de Olho de Corvo. Ele estava ali, acima dos fantasmas mnemônicos que atormentavam aquela pobre alma mal treinada.

Talvez ainda possamos adquirir um novo adepto, ela pensou. Nem tudo está perdido; talvez possamos aprender algo com as habilidades dessa princesa. Quem sabe? Transformada, talvez, as habilidades físicas que aquela guerreira detinha – A Rainha as observou nas mentes e olhos dos wights – poderiam ser aumentada ao ser convertida a uma nova guerreira dos deuses antigos.

Arya estacou-se. Observou a figura esguia, feminina, aprumada, poucos metros à sua frente. Era a figura mais perfeita e assustadora que já vira. Uma onda de jocosidade permeou o seu ser. Os olhos azuis hipnotizavam-na.

Sem nada falar, a figura ergueu um braço em direção a ela. Palma aberta, parecendo oferecer-lhe a mão, como num convite para uma dança.

(Apenas um toque, a voz aveludada ronronou.)