Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
94 Mentes Trincadas
Arya fitava a palma aberta a poucos metros de si, estendida para ela. O mundo parecia ter parado. Nem mesmo a estranha brisa gelada fazia-se sentida naquele momento. Sentia-se tanto compelida a avançar até a estranha figura feminina quanto de fugir. Engoliu seco, ainda estacada.
A voz interior dentro dela tem de convencê-la, pensou A Rainha, não dando um passo sequer. Caso não desse certo, a pessoa-receptáculo apenas iria quebrar como tantas outras antes dela.
Sandor fitava a cena, confuso. Ninguém se movia. O único som, além do vento, era o bizarro linguajar dos Caminhantes. O jargão era agonizante para os ouvidos.
Ficou parado, jogado no chão de neve, apenas olhando para Arya e a Rainha. Os cotovelos fincados na neve. Nada aconteceria?
Seus olhos rastejaram até a figura da espada caída ao seu lado, ainda agarrada pela mão decepada de Yohn. Tomando coragem, moveu-se, grunhindo pela dificuldade. O gelado deixara seus músculos rígidos. Sem perder tempo, levou o punho até a boca, começou a morder os dedos do morto, tentando arrancá-los a todo custo, enquanto usava seus próprios dedos para soltá-los.
Os caminhantes Brancos, a inumana plateia que observava o estranho espetáculo, começaram a rir de escarninho com a cena.
— O sangue quente quer matar nossa divindade esculpida em gelo, mentes e horror — comentou Jeor.
— Ele que tente — falou Jonnel. Deslizou de seu cavalo morto, deu leves passos para frente. As formas disformes em sua armadura dançavam conforme ele locomovia-se de forma graciosa. Fincou os calcanhares entre a Rainha e o idiota de cara fudida, o tal Cão de Caça. Não parecia nem mais voraz do que os cãezinhos e bebês que Jorah e seus irmãos costumam matar.
Quando percebeu a imponente figura de pé a poucos metros dele, Sandor parou de tentar lutar contra os dedos da mão morta, fitou o estranho ser pálido. Havia um sorriso cruel e debochado em seus lábios. Os fios de cabelo, longos e alvos, balançavam, dançando com os flocos que caíam em espirais. Percebeu que, na mão do estranho ser, estava uma fina lâmina. Quase não a teria visto, pois a lâmina era tão delgada que sumia quando virada de forma reta. Mas podia ver o fio. Este luzidia em um tom fino de azul.
Sandor ergueu-se, fraco, ainda sentindo a dor em seu braço ferido na região da axila e do ombro. A outra mão segurava o punho da espada. As juntas de seu corpo deram estalos conforme ele ficava de pé. Seu corpo tiritava. Sandor sentia a parte deformada de seu queixo, onde o músculo estava exposto, parecia ter um punhal fincado nela. Mesmo assim, fez o que pôde para manter-se erguido.
O braço que tinha forças para erguer a espada era o esquerdo. Sandor sabia que não tinha condições de dar um bom golpe. Mesmo seu mais potente bracejo sairia de forma desleixada.
Como se aguardando o embate, o estranho ser etéreo moveu o braço, meio lânguido, apontou a espada para a figura de Sandor. A espada sumiu, mas o cavaleiro sabia que ainda estava lá. Uma espada translúcida, que mais parecia ser uma faixa pontuda d’água.
Mãe, dê-me forças.
De chofre, a criatura avançou, sem fazer qualquer barulho. Era como um borrão azul e branco para o olho funcional de Sandor. Este teve apenas tempo para balançar a espada para frente, fazendo um corte no ar. Um gesto torto, defasado.
Antes que Sandor pudesse sequer entender o que aconteceu, um som angustiante de gelo se partindo perfurou seu ouvido bom. Fez uma careta, agonizando, confuso.
O Caminhante estava caído no chão, contorcendo-se. A espada que ele empunhava estava perdida, fora destruída quando a espada valiriana se chocou contra ela. A armadura furta-cor estava liquefazendo-se, escorrendo pelo corpo pálido dele. No peito, uma imensa greta aberta. Ao redor, a pele trincava. A face também estava deformado; tendo sido atingida quase que de raspão pela espada, foi o bastante para destruir a bochecha direita, que fora substituída por uma cratera fumegante. O ser ferido tinha a boca escancarada, gritando para o céu negrum. O barulho ribombante eram pingentes de gelo perfurando a carne. Dos olhos luzentes, água escorrendo. Lágrimas.
Não fosse um monstro que quase o matou, Sandor bem podia ter tido pena; a criatura se contorcia de maneira que ele nunca viu, enquanto os gestos pareciam fazer a estrutura física quebrar mais.
Os Outros, ao invés de tentar ajudar ou ficarem assustados com o estado do inimigo, apenas riram do irmão, regozijando-se com a cena. O ecoar de suas sinistras gargalhadas era o som mais aterrador que Sandor já ouvira; mais assustador do que o crepitar do fogo. Era como se adagas enregelantes perfurassem a sua alma.
Sandor apenas olhou, chocado, sem nem conseguir pensar no que fazer. O seu olhar recaiu na própria arma. Uma fumaça branca era expelida pelo aço esfumado, não como se tivesse saído quente da forja; como se estivesse muito frio.
O cavaleiro achou que a espada de aço apenas teria força para bloquear a espada de gelo; mas que não seria possível fazê-lo, pois não teria força para tal. Fora o que aconteceu quando Yohn Royce enfrentara a estranha “Rainha da Noite”; a espada dele parecera queimar a lâmina da espada enregelante, trincando-a.
Seja lá qual fosse a diferença, as armas e armaduras dos lacaios da Rainha não tinham a mesma resistência que a de sua líder.
Relanceou para o rosto da sinistra e inamistosa plateia. As figuras ainda tinham desconcertantes esgares ridentes, soltando ainda o mesmo barulhinho tormentoso e aviltante. Sandor sentiu-se pequeno. Todo o seu esforço para viver era apenas um divertimento para tais seres pervertidos. Os olhos engastados luzidiam como estrelas; fitavam-o com mesmo gosto que Gregor, a maldita montanha que cavalga, tinha quando matava inocentes. Tanto ódio e alegria facínora, unidos, esculpidos em carne transformada em gelo.
Irritada, a figura feminina que liderava Os Outros, deixou seu braço cair, virou o rosto, bradou algo por cima do ombro. Sandor nunca entendeu o que ela falou, nem sequer pareceu-lhe um grito humano; mas percebeu que, o que quer que fosse, mexeu com o exército de Vagantes. Os risos pararam, os semblantes ficaram sérios. As espadas em riste. Um fio gelado percorreu a espinha de Sandor, arrepiando toda a sua pele, encrespando seus finos pesos. Levou seu escuro olhar para Arya, enquanto percebia um som se aproximando, paulatino.
A Rainha fulminou o olhar para a figura galgaz diante dela. Seus olhos rebrilhantes queimaram-lhe a alma. O vento assobiava em seus ouvidos.
Arya, que nem mais o rosto sentia, deu um passo para trás. Sentia o seu peito tremendo enquanto o coração batia. Os glóbulos oculares pareciam dois cometas de fogo fátuo, prontos para atingi-la.
Um assobio impertinente começou a irromper em seus ouvidos. Não era o vento; era mais uma dor do que um som indubitável. Levou uma mão enluvada até o ouvido esquerdo, onde um fio de sangue escorria. Dois filetes derretiam das narinas, deixando seu bastão cair. As juntas de Arya esmoreceram. Caiu de joelhos. Apertou os olhos quando manchas pretas começaram a saltar. Sua cabeça doía, como se uma bigorna estivesse esmagando-a, fazendo pressão contra o crânio.
Abriu os olhos, ainda tendo manchas negrumes pulsantes. Havia dois pés pequenos, ungulas de vidro azulado engastadas nas pontinhas dos dedos, em seu campo de visão.
Arya ergueu o olhar. A figura da Rainha da Noite, desgostosa, estava aprumada defronte a ela. A dor amainou quando seus olhos cinzentos encontraram os olhos de estrelas azuis. Arya conseguiu voltar a respirar melhor.
Dando um sorriso leve, a figura voltou a oferecer-lhe a mão.
Arya fitou a palma. Era alva. Um campo fofo de neve. A neve fofa que acumulava em Winterfell.
A visão pareceu encher Arya de relaxamento. Um jubílo calmante escorreu por seu corpo. O rosto gentil de sua mãe pairou, ofuscando a figura régia e endurecida que estava defronte a princesa.
Arya levou a mão até a palma d’A Rainha. Esta parecia ter dedos mais longos agora, mas ainda pálida. Aconchegante, até. Cálida, não fria. Fofa como o toque maternal de sua falecida mãe…
A expressão d’A Rainha mudou, deixando a fisionomia ridente de lado. Ergueu o rosto, séria.
— ARYA! — esta finalmente ouviu quando Sandor berrou.
A princesa virou o rosto, relanceou para Sandor, que estava cercado por um exército de cadaveres. Um urso de pelo alvo estava avançando até onde ele estava, destroçando os corpos. Um rapazote usando pele de foca estava agarrado ao animal, segurando o estranho arnês com uma mão enluvada enquanto usava a outra mão para acertar os mortos com a ponta de cobre em formato de folha. Uma exurrada de lobos vieram logo atrás, ajudando a derrubar boa parte da míriade de cadáveres.
A Rainha cerrou a mão em um punho. Havia demorado demais! Os maldotos sacos de carne chegaram para atrapalhar! Agora devia…
Quando uma dor lancinante e ardente explodiu em seu peito, a rainha e as vozes interromperam a linha de raciocínio. O urrar de mais de um bilhão de mentes irrompeu na mente d’A Rainha, enquanto esta erguia o rosto e uivou de dor. Sentiu seu corpo trincando onde fora atingida.
Afastou-se, dando um passo para trás, enquanto voltava a fitar para baixo. Seu olhar dardejou para a figura conhecida como Arya da maldita Casa Stark. Esta estava agarrando o bastão pálido e delgado com suas duas mãos enluvadas. A ponta de obsidiana quebrou o vestido da rainha, fincando-se no seio, atingindo onde um coração deveria estar batendo. Fumaça subia da rachadura. A princesa continuava a pressionar, empurrando a arma longa para frente.
Recompondo-se, a enviada dos deuses deu mais um passo para trás, enquanto empurrava a haste de madeira com um gesto lépido do braço. A parte afetada começa a se recompor, mas A Rainha estava cheia de ódio por ter sido ludibriada. Tal ato não poderia ficar assim! Os deuses deviam mostrar que atos de insolência deviam ter graves consequências!
Arya, pegando algum impulso, ergueu-se de chofre, impulsionando as juntas nas pernas, saltando para frente. A ponta da lança passou por perto da figura defronte a ela, mas esta desviou mais rápido do que poderia ser imaginado.
Antes que as duas pudessem fazer algo, a alcateia de lobos se interpunha entre elas. Os mortos lutavam contra eles; sempre que um lobo conseguia derrubar um deles, outros agarravam-no, puxando e repuxando seus pelos, pele e membros por todas as direções. Os humanos vinham logo atrás, tentando manter as chamas acesas, mas o vento do local logo as apagavam.
Os servos dos deuses avançaram, tanto a pé quanto a cavalo, contra a horda de vivos. Suas lâminas perpassavam a cota de malha como se fosse ceda. A cada morto, o exército dos mortos aumentava.
A Rainha fez um som irritado, tentando não distrair-se pelas constantes criticas que Os Deuses lhe mandavam, atrapalhando seu raciocinio. Estavam tão furiosos que deixavam as emoções negativas nebularem os julgamento. Ela não poderia ser assim. Tinha que ter concentração.
A espada surgiu em sua mão. A área ferida estava cicatrizando-se. O tecido de gelo estava novamente cobrindo a ferida. O tilintar de suas joias eram, de alguma forma, irritantes para ela agora. Quando viu um ser lupino indo contra ela, deu um gesto lépido. O animal deu um rápido ganido enquanto o estômago se abria, tripas voaram, sangue jorrava. Filetes respigaram no rosto dela, ficando endurecido assim que atingiu a superficie. O frio fez o líquido enrigecer e desfazer-se.
Aquela barulheira dos vivos era irritante para ela.
Ela chamou sua mascote.
Arya saltou para longe d’A Rainha assim que a alcateia avultou-se. Girou no chão de leve, passou pelos pés dos mortos. Era Arya debaixo dos pés novamente, após muitos anos. Só que agora não era mais uma garotinha fujona, era uma mulher lutando pela sua vida.
Deu um salto lépido, ficando ereta, deu outro salto, pisando em cima da cabeça de um morto de crânio exposto. Sua bota afundou no cocoroto. Usando o rápido tempo que tinha, esquadrinhou a área. Os humanos, apesar da interpérie que era o extremo frio, avançavam com tudo o que tinham. Viu um ponto que luzia com força mesmo onde a luz erq fraca. Achou ser Jon ou Stannis – este fazia mais sentido, pois sua espada era menos brilhante.
Deslizou no ar, pousando na neve. Agachou-se, erguendo um braço. Seus dedos assaz dedilhavam a linha delgada pálida que era a lança. Sua arma atingia os mortos nos rosto, mas ela sabia que isso pouco servia. Estava apenas ganhando algum tempo.
Deu certo, logo Nymeria estava com ela. Seu imenso corpo derrubou os corpos que atingia. Seus outros lobos estavam flaqueando-a; trataram de cobri-la, destruindo corpos os mortos que poderiam tentar atacá-la, fazendo o possível para barrar os que tentassem avançar contra ela.
Ágil como um macaco das ilhas de Essos, Arya agarrou os pelos espessos de sua loba, escalou-a. Passou a perna por cima das costas dela, como se ela fosse um cavalo.
Apesar de não gostar da ideia, a princesa não partiu para a batalha; percebendo que a estranha líder dos outros queria algo contra ela, achou melhor achar retirar-se do local. Não sabia se tentaria achar Sor Gendry ou seu irmão mais velho, Jon, mas sabia que tinha de sair dali. Fez Nymeria virar-se, com os lobos abrindo caminho para dar-lhe passagem. A loba avançou, correndo contra o vento.
Sandor ainda estava fraco, um tanto desanparado; mas agora não estava mais sozinho: os deuses ouviram suas preces, os salvadores vieram.
Um homem – vivo, não morto – esbarrou-se nele, fazendo-lhe uivar de dor ao sentir a pressão brusca em seu membro ferido. Tropeçou, ficou de joelhos. Suas pernas afundaram na neve preta. Era como estar em uma imensa treva gélida. Quase largou o punho da espada.
Alguém agarrou-lhe no ombro esquerdo, forçou-o a ficar ereto, de pé. Suas pernas estavam molengas, mas o braço não lhe largou.
— ONDE ESTÁ ARYA? — A voz urgiu com a voragem de um tempestade.
O ribombar fez Sor Sandor acordar. Abriu o olho bom, de chofre, de encontro ao esgar que era o rosto de Sor Gendry. Um rosto feio, com uma greta na bochecha. Os olhos azuis eram de uma intensidade de ódio que fez Sandor lembrar-se de seu irmão. O elmo de cachorro envoltava o resto do rosto. Uma parte da face e do elmo eram iluminadas pelas chamas da espada mágica.
— Responda! — insistiu o cavaleiro, balançando Sandor com o seu braço queimado.
A língua deste era um peso. Atabalhoado, tentou falar:
— Eu… Eu não…
Sor Gendry deu um grunhido irritado, largou Sandor na neve. Este caiu de costas, tossindo, tentando entender o que estava acontecendo. Havia um calor crescente em suas pernas. Percebeu estar urinado. Ainda segurava a espada, mesmo estando fraco. Era sua única salvação. Tentou erguer-se, lutando contra a dor. A mente era um borrão de confusão.
Onde estava Arya?
Gendry o largara?
O que era o uivo do vento e o que era o uivo dos lobos?
Estava tão frio…
Quando virou o rosto, tentando erguer a face – com dificuldade, pois o pescoço estava rígido – viu um montículo de neve. O objeto parecia dançar.
Conforme sua visão se adaptava, percebeu que era na verdade o urso que tinha visto antes. Estava lutando contra o que parecia a aranha que Sandor e os falecidos Royces tinham visto antes. As patas da criatura eram como pinças imensas de cristal, perfurando a pele grossa do animal, que rugia de agonia em fúria ao ser ferido, sem se importar com as camadas densas de carne e gordura. O sangue jorrava dos buracos e cortes feitos pela criatura de gelo. O troca-peles que estava montado no animal parecia gritar com ele, como se seu corpo também estivesse sendo perfurado.
Por fim, após a aranha usar uma de suas pernas de gelo como uma cimitarra, fazendo um corte vertical na imensa pança do urso branco, fazendo o estômago saltar para fora, o animal tombou para trás, esmagando seu controlador no processo.
As forças do corpo de Sandor voltaram a oscilar. As pessoas caíam ao seu redor; os revividos e Os Caminhantes Brancos matavam-os com facilidade. O vento parecia ficar mais furioso, castigando os corpos vivos, assobiando com violência em seus ouvidos.
A Aranha passou o próprio corpo translúcido por cima do corpo do urso que acabara de matar. Agachou-se. Esperou. As pessoas em volta tentavam derrubar o exército de mortos, mas agora estavam afastados de onde ela estava, sendo obrigados a recuar ante a quantidade de mortos revividos. O terreno era apenas corpos carbonizados, membros decepados que rastejavam como vermes, neve acumulada e cinzas.
Por fim, parecendo surgir das trevas, A Rainha caminhou até a sua Aranha, andando em meio aos mortos e pessoas agonizantes. Antes de subir, porém, estacou-se. Olhou de relance para o solitário Sandor, que encolheu-se sob o seu olhar aviltante, tiritando.
A Rainha deu um meio sorriso. Serzinho patético, esse Sandor. Mas ela não queria. Não ainda.
Virou-se para os seus filhos. Estes haviam ficado para ela, como uma guarda e plateia. Grande maioria continuava matando os sangue quente, mas estavam a par do que ocorria pois suas mentes eram coletivas.
— Jonnel — ela chamou, monocórdia. Os deuses estavam irritados, fazendo o ar ficar mais frio e voragem.
Os seres brilhantes deram risinhos, já sabendo o que a Rainha e os deuses iriam fazer. Não tardou para a figura de Jonnel aparecer, não trajando mais a armadura de gelo nem qualquer coisa. Sua figura não estava mais tão ferida como antes, mas ainda havia um fino corte em seu peito, com algumas vinhas nas beiradas. Seu rosto ainda tinha um buraco na parte esquerda. O brilho nos olhos era menos intenso. Ao invés de ereto, altivo, a figura estava um pouco curvada. Parecia mais envergonhado do que ferido.
Jonnel caiu de joelhos de frente a figura de sua Líder. Cabeça baixa. Ele sabia da crueldade de seus criadores para fracassos e estava disposto a aceitar o castigo.
— Perdão, Minha Rainha. Falhei. Falhei com nossos criadores.
Com um rosto indiferente, a Rainha fitou sua figura frágil.
— Sim. Você falhou.
Ela curvou-se sobre ele, ergueu-lhe o rosto botando uma mão embaixo de seu rosto, obrigando Jonnel a fitá-la. Ele a olhava com um misto de medo, admiração, paixão. Um olhar triste e vazio, com a constante fome insaciável que os deuses induziram nas mentes de todos os seus seguidores.
— Por isso espero que não falhe novamente. — A Rainha deu-lhe um beijo na testa. Frio, sem calor, mas com algum carinho talvez nunca antes sentido.
De alguma forma, o gesto a fez ter um vislumbre da mãe de Daenys. Ela sempre lhe dava beijos na testa e nos machucados. Havia séculos que não pensava nela. Na verdade, sequer lembrava-se dela. De algum modo, aquilo pareceu perfurar mais o seu coração do que a lança da maldita Arya; ao mesmo tempo, sentiu um misto de emoções que havia esquecido que existiam há tempos.
A Rainha passou os dedos pelo longo e simétrico rosto de Jonnel. A ferida na bochecha sumiu, assim como o risco no peitoral. O cabelo voltou a crescer; a armadura formava-se novamente, cobrindo-lhe o corpo.
Parecendo abalado pelo gesto de afeto, Jonnel pegou a mão de sua rainha, botando-a entre as suas próprias mãos, beijando-lhe as costas; mas esta deslizou a mão para fora, sentindo-se indiferente. O carinho foi passageiro, o vazio logo voltou. Voltou maior do que antes.
A Rainha virou-se, caminhou até sua aranha, escalou-lhe as costas, sentou-se. A Aranha ergueu-se novamente. Sua dona acariciou sua superfície perfeita.
Jonnel ergueu-se, o olhar novamente rebrilhando.
— Não hei de faltar com Vossa Graciosidade novamente.
— Assim espero, meu filho; pois não serei misericordiosa na próxima vez. — Dispensou-o com um gesto.
A Rainha decidiu por ser gentil dessa vez. Ela mesma tivera seu orgulho atingido, tal qual os deuses; mas os convenceu a não terminar com Jonnel. Ainda estavam em vantagem. O ataque dos vivos fora um fracasso, com os humanos tendo de afastar, batendo em retirada, ficando dispersos.
Sim, não devia deixar-se abalar. Não tardaria para derrotar todos os sacos de carne quente e suas espadinhas quentes.
Olhou para o canto. Sandor estava se afastando, claudicando, indo encontrar os outros vivos. Não importava; mesmo que os encontrasse a tempo, só garantiria uma morte sem solidão.
A Aranha da rainha moveu-se, dando um giro sobre si, começou a andar, afastando-se do corpo morto de um urso. Este logo foi revivido. Mais um para o exército. Mais um entre milhões.
A Rainha não gostou de se afastar da batalha, mas os deuses acharam mais sábio; ela matou gente menos importante, mas não lutou contra o homem de espada de fogo. Interessante, esse homem. Tinha a rigidez de um Rei, mesmo sem a beleza que as canções dos vivos ditavam. De fato, das mentes que ela absorveu, poucas tinham carinho por ele; mas a Rainha ainda achou sua figura interessante.
A Rainha não deixaria este dito rei atrapalhar o caminho dos deuses novamente. Nem ele, nem os outros dois monarcas. Não deixaria-se fraquejar novamente.
Não vou falhar, prometeu a si mesma, aos deuses e aos seus filhos. Vou vencer desta vez. Farei a vontade dos deuses. Desta vez, hei de derrubar o Corvo, absorver suas almas, libertar meu povo.
Sim, quando sua missão estivesse completa, ela acreditava, os deuses iam finalmente ser saciados. Finalmente deixaram os seus filhos guerreiros sentirem a completude que tanto lhe negavam.
Finalmente Ela traria paz para o seu povo, mesmo que ainda nem entendesse o que de fato isso era.
Fale com o autor