Drogon ainda estava com problemas para voar alto. Seus membros dianteiros estavam se movendo com dificuldade. As juntas dobravam-se de forma lenta. Daenerys podia sentir o peso dele o puxando para baixo. Não havia a leveza de voos anteriores.

Até mesmo o calor fulgurante que o corpo do dragão produzia estava amainado. O som expelido pelas narinas do Wyvern mostravam que ele estava ciente – e irritado – com a situação.

Apesar de toda a irritação e dor, tanto mãe quanto filho estavam atentos sobre Viserion.

Dany sabia que a ameaça estava entre eles. A coluna imensa de fogo, o aro luzidio que Benerro e seus sacerdotes fizeram, estava apagada. As chamas fulgurantes de Drogon foram apagadas em apenas uma lufada.

Os Caminhantes estavam ganhando terreno.

Onde quer que estivessem, estavam a esmo. Daenerys não achara nenhum; se queimou algum, nem sequer percebera, pois o apinhado de mortos os escondia. Era difícil discernir até quem era vivo e quem era morto. Mãe e Filho queimavam todos que estivessem abaixo.

No entanto, a principal preocupação da Mãe dos Dragões ainda era Viserion; ele estava escondido no ermo. Talvez atacando o exército do lado oposto de onde Dany estava. Podia estar escondido acima das nuvens?

E se ele estiver atacando mais a Sul? Pelo que Dany podia imaginar, O Inimigo podia estar usando o filho dela para atacar o exército desavisado de Aegon, enquanto ela e os outros perdiam tempo protegendo Bran e o castelo.

Ou apenas estava aguardando para dar um golpe surpresa em Drogon.

Moveu o corpo para a esquerda, inclinando o corpo. Moveu o toco de seu dolorido membro perdido; um gesto automático, um reflexo que acontecia em momentos aleatórios. A dor amainara, mas isso não era totalmente positivo no momento – a dor a mantinha em alerta. Sem ela, Dany sentia-se perdendo mais forças.

Fraca ou não, era do sangue milenar do dragão. Uma Rainha. A Mãe dos Dragões. Ela não cairia sem lutar.

Estava muito baixa no céu agora. Uma treva formada por uma miríade de corpos – tanto vivos quanto de mortos. Mesmo a metros de distância, no ermo, cortinados pelo nevoeiro, porém, ainda era possível observar os olhos dos mortos-vivos. Luziam como estrelas frias. Tão frias que abrasavam a alma.

Tendo certeza de estar bem a norte, onde mais haviam mortos do que vivos, Daenerys deu a permissão para que seu filho jorrasse chamas fulgurantes neles. Um rio de brasas sanguíneas percorreu o campo, afogando os corpinhos amontoados. Como das outras vezes, as chamas alargaram-se, avançando pelos corpos podres. O tecido e a carne envelhecidos e podres eram um combustível e tanto para o fogo.

Mas ainda não é o bastante para acabar com esse exército. Não importava o quanto queimasse, ainda sobrariam milhões de corpos, senão mais.

Tinham de acabar com esse mal pela raiz – mas como? Os Caminhantes poderiam estar em qualquer lugar, e, mesmo que Dany conseguisse os destruir, ainda teriam diversos outros.

A chama de Drogon cresceu, imiscuindo no solo de plantação de trevas. Um luzir substituiu o negrume. As labaredas brotavam, apontando para o céu, dançando. O brilho se estendeu, mais e mais, indo além.

Sumiu. Uma ventania rápida, potente, surgiu. Desapareceu no mesmo instante, levando a luz e o crepitar consigo.

A Rainha olhou para o resultado com desgosto. O fogo em nada adiantava se fosse simplesmente apagado como uma vela. Não, tinha de ir atrás dos vagantes.

Mas os vagantes não são a escuridão que eu vi, refletiu. A força de milhares de vozes, as mentes enregelantes, eram o ponto fulcral de todo aquele exército, o problema era que a força superior talvez não estivesse ali no momento, junto dos cadáveres e Vagantes. Não, Dany sentira o poder obscuro e assustador que tentavam combater agora, sabia que não estava ali agora. Tudo o que havia ao sul da muralha eram fantoches. Abelhas operárias.

Para deter o verdadeiro poder teríamos de ir além do que qualquer um do Norte; mas como o faríamos se nem sabemos onde fica? Fora a possibilidade de um exército ainda maior e um clima mais extremo nas Terras de Sempre Inverno. Talvez nem Drogon fosse capaz de sobreviver à intempérie que existia em tal extremidade do Mundo Conhecido.

Bran. Ele sabia de algo, ela imaginava. Não gostava de como o aleijado ainda tinha as asas muito soltas. Teria alguma finta escondida nisso tudo?

Fosse qual fosse o punhal que o rapazola Stark escondia sob sua túnica, Dany só podia esperar que fosse pelo menos algo último contra o mal maior.

Olhou para os céus. Ainda uma mistura de neve e cinzas caiam em espirais de forma copiosa.

Dany lembrou-se de quando passou pela grossa e gelada camada de nuvens negrumes. Cimo da camada, havia uma poderosa lua opalescente, junto dum céu engastado de estrelas rebrilhantes e pálidas. Luz acima da escuridão gélida.

Viserion não trespassara as nuvens para seguir a mãe e o irmão; ficara nas nevoentas nuvens, escondido no frio.

Talvez a resposta para derrotar o inimigo alado estivesse além da grossa camada.

Desde que Euron caíram, o sol sumira; a pouca luz que surgira eram fragmentos de luz azul e gelada, incapaz de aquecer as pessoas no solo. Mesmo que inútil, era um sinal de que ainda havia um sol lutando para passar pelas nuvens.

A Longa Noite não é uma noite real, assimilou Daenerys, ainda esquadrinhando o céu. É apenas uma ilusão; uma magia de sombras e neve. Uma pantomima para amedrontar.

Se seu palpite estivesse certo, ela precisaria levar Drogon para acima das nuvens; Viserion teria de ir atrás deles, sem tentar bloqueá-los durante a subida; além de tudo isso, ainda seria necessário ter um sol esperando lá em cima.

Seria uma labuta praticamente impossível e suicida; mas teria de fazê-la de todo modo.

Antes, porém, tinha de tentar acabar – dentro do possível – com o caos no solo. Ainda voando baixo, usando das asas e calor de Drogon para desestruturar as hostes de guerra dos mortos, Dany avançou contra o que ela percebeu ser uma manada de mamutes. Os olhos revelavam a natureza mágica que tomara conta de seus corpos. Os imensos animais lanudos pisoteavam os vivos, usavam suas presas de marfim para arrebatá-los.

Drogon imbui-os em chamas – os corpos grandes, pesados, pareceram tornar-se montículos de luz. Usando alguma força ainda restante, Drogon bateu contra um dos mamutes. Este caiu, derrubando os outros quadrúpedes ao lado.

Puxando as correntes, Dany fez o Wyvern virar-se, endireitar-se no ar. As asas ainda batiam, criando ondas de vento quente. Os corpinhos – vivos ou mortos – dos animais e humanos pequenos foram jogados pelo campo de neve. Alguns corpos eram tão frágeis que a rajada de ar quente quebrava seus ossos, derretia a pele.

Apesar da potência de seu golpe, Daenerys sabia que nada daquilo era o bastante. O exército ainda avançava. Olhou para trás, direção de Harrenhal. A pouca luz da imensa fogueira de corpos de mamutes, aumentada pela lufada de vento quente de Drogon, permitiu-lhe ter algum vislumbre do local. Não estava muito longe de onde ela estava. Percebeu que muitos batiam em retirada para o aro de entrada.

Os outros portões estão abertos? Se estivessem, não tardaria para os Mortos estarem invadindo – se é que já não o tinham feito.

Voltando-se para frente, lutando para se endireitar – sem o braço era fácil perder o equilíbrio –, estalou a corrente no pescoço de Drogon. O animal rugiu, parando de gorfar fogo.

— Sōvēs!

Seu filho, apesar de não gostar de deixar a batalha de lado, bateu as asas com mais força, impulsionando-se para o ar. Não tardou para as chamas esmaecerem, como Daenerys previu.

Se os Caminhantes gelados estavam perto, ou mesmo dentro de Harrenhal, Viserion provavelmente estaria pronto para protegê-los. Pelo menos era com isso que Daenerys estava contando.

Estalou o chicote de correntes, desajeitada, contra o couro duro, quente e ferido de Drogon. Mesmo que fosse um gesto débil, este a obedeceu. Virou-se, seguiu para as muralhas. Estava voando perigosamente baixo, mas Daenerys o fez manter-se nesse nível. A grossa camada de neve que acobertava o chão derretia e voava conforme o poderoso dragão passava por cima, batendo suas asas.

— Dracarys! — Daenerys falou. Seguindo seu comando, Drogon jorrou chamas.

Torceu para que os Vagantes Brancos a percebessem.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

As árvores do Bosque Sagrado haviam tido suas folhagens substituídas por sincelos. A espessa cobertura alva tinha centímetros de espessura que muitos não achariam ser possível. Alguns eram parecidos com presas de cristais, prontos para cair e fincar no solo. Ou em alguém.

As pessoas lutavam para ter algum luz no local, com fogueiras acesas a esmo. Não importava, porém, o quanto alimentassem as chamas com lenha, pois as labaredas logo minguavam. O vento frio estava forte, muito forte. A noite era uma grande treva densa e opressora. Nem mesmo as estrelas e a lua eram permitidas luzir. Era tudo treva.

Sansa estava em pé, andando em círculos na neve. Trocara o par de sapatos por um par de botas de cano alto. Seu vestido estava rasgado; a longa saia estava um trapo, mostrando as anáguas – estas também sujas e rasgadas. Uma das longas mangas boca de sino pendia no chão, arrastada quando ela movia-se. Seus cabelos castanho-avermelhados estavam encrespados pela ventania, de modo que ela pediu para Jeyne usar uma faixa do vestido rasgado para fazer uma grossa trança, mesmo que malfeita.

O grosso manto de pele que usava ainda era incapaz de aquecer a princesa de seus temores frientos. O frio se imiscuia em seus ossos e entranhas, penetravam-lhe a mente. Um frisson crescia em sua barriga a cada passo que dava, e a fazia dar mais passos. Tudo estava um desastre! Nem sequer sabia se seus irmãos estavam vivos!

Defronte a ela, observando-a, para variar, estava Bran. Estava no trono de represeiro, irredutível, com a calmaria estampada em seu rosto. Seus olhos perscrutavam os passos viciados da irmã que fazia círculos oblíquos na neve.

Ao lado de seu irmãozinho, estava a guerreira do Gargalo, Lady Meera. Sem irmão e pai, ela era a última Reed de linhagem principal. Usava uma armadura de escamas de bronze. Na bainha, a espada irmã sombria – se o que Bran dizia estivesse certo – descansava. Meera era bem magrela, sem uma grande beleza para si, mas o irmão a tinha em alto estima – tal qual a família Stark no geral, claro, visto que ela sempre salvaguardou Bran nos tempos de penúria da Casa (se é que tais tempos realmente haviam terminado). Imaginou que Daenerys depois iria reclamar a lâmina para si. Ela já o fez antes, quando Arya falou que não a usaria na Grande Batalha. Mas Jon a convenceu a deixar com Meera, visto que Daenerys não usaria espadas para lutar. (Sansa ficou calada no assunto; mas era óbvio sua opinião sobre qualquer coisa que envolvesse aquela Targaryen ter uma arma a mais consigo.)

— Tenta acalmar-te, irmã — pediu Bran, do alto de seu trono cinza-pálido. — Andar para lá e cá só vais gastar a tua energia à toa. Fora que é bem irritante de sua parte.

Sansa olhou-o de esguelha. O irmãozinho estava acima dela, olhando-a de cima. Seus olhos verdes desconcertantes viam-na com uma distância estranha. Indiferentes. Eram outros olhos. Não eram os olhos de Bran. Não eram os olhos azuis límpidos do filho de Catelyn Tully e de Eddard Stark.

Sansa estacou-se, olhou-o defronte, erguendo um pouco a cabeça. Havia outras mentes no corpo de Bran nesse momento? Que diziam para ele?

— Como estão nossos irmãos? — perguntou-lhe ela, sentindo que a voz ainda era meio vacilante.

Bran fechou os olhos, parecendo querer tirar um cochilo. Abriu-os instantes depois. Disse:

— Nossa irmã está adentrando o castelo, passando pelas muralhas. A matilha vem atrás em grande parte, seguindo a líder, Nymeria.

Então Arya ainda está viva! Mas se ela estivesse mesmo correndo para dentro do castelo, então tudo estaria perdido?

— Ela está bem? — perguntou, pensando que a irmã mais nova poderia estar muito ferida.

— Dentro do possível. — Bran não se preocupava com a irmã Arya. Sabia que ela conseguiria no fim. Tinha visto isso em muitos sonhos. Arya, superando e silenciando as vozes, fazendo guarda para ele. Sim, sua fiel companheira até o fim. Essa era uma imagem indelével em sua mente.

Sansa não sabia de suas visões do futuro, não tendo como compartilhar de sua segurança com o futuro.

A princesa aguardou o irmão dar-lhe mais informações. Quando ele não o fez, falou:

— E Jon? — Havia um aperto em seu coração ao pensar nele. Ainda era como se ele ainda fosse o filho de Ned Stark para ela.

— Está meio distante para mim, mas sinto sua luz… parece-me que tenta reagrupar seus soldados. Eles se perdem com facilidade no ermo, ainda mais em comparação ao tamanho do exército inimigo. Creio que logo ele há de aceitar a perda de território e baterá em retirada para cá, como eu e os meus bem previmos.

« Stannis está separado dele no momento, ainda tentando montar alguma guarda perto de um dos portões. Sua espada é menos brilhante que a de nosso irmão, mas sua força de vontade ainda é mais forte que ferro, acredite no que lhe digo. Essa vontade há de ser muito importante, se bem vi em meus sonhos.

« Daenerys estava queimando os Wights, mas, pelo que vejo, agora vindo até o castelo, embora seu dragão – que mais parece uma galinha de escamas e chifres, devo dizer – avança contra as muralhas. Creio que ela está tentando atrair Os Outros. Ou melhor, o dragão deles. »

A pele de Sansa arrepiou-se. A ideia de invasores gelados, dragões lutando, seus irmãos em perigo – tudo isso afligia seu espírito. Será que todo esse pesadelo que sua vida havia se tornado nunca havia ter um fim? Um fim bom?

De forma um tanto sinistra, Bran se inclinou, sorrindo de forma cálida.

— Ficará feliz em saber que o marido de sua amiga Randa está bem. Está com nosso irmão agora. Mas temo não ver o Redfort, o tal Mychel.

Sansa assentiu, ainda sem saber o que pensar ou sentir com tudo aquilo. Virou-se, encarou para onde estava sua amiga. Uma bruxa da floresta estava perto dela, defronte as pernas abertas. Ambas em cima da carroça.

Sansa afastara os meistres que pediram para abrir a colega. Eles disseram que não havia garantia da vida do bebê, mas que teria mais chance caso abrissem a barriga da Lady dos Portões da Lua.

— Se o bebê o tem poucas chances – retrucara a princesa — então não existem motivos para matar-mos a mãe também.

Os velhos homens tentaram retrucar, mas ela os afastara. Uma parteira e uma bruxa da floresta talvez não pudessem salvar o bebê, mas tinham menos chances de agirem como açougueiras com a pobre Myranda.

Tensa, a irmã pediu licença para Bran, reverenciou de leve, foi até a cena do parto.

Tomara que ela morra, rezou Margaery, sentada no zero, observando uma velha bruxa meio amalucada observando a vagina de Myranda. Se esta viesse a viver, ela temia, podia voltar a questionar sobre Ysilla.

A neve caia de forma copiosa, cada vez mais o vento piorava. Parecia um uivo de lamento nos ouvidos. Na carroça do boi, ao lado de Margaery, estavam as damas de Companhia da Princesa Sansa: Wylla, mantendo uma compostura firme, mas claramente ainda abalada pela morte da irmã; Cynthea Frey, ainda fedendo a fezes, com uma talha mal feite em sua perna quebrada; Barbara Bracken, com seu nariz quebrado coberto de faixas e unguentos – as faixas a impediam de falar direito, pois, na pressa, os meistres passaram a pasta de forma apressada e enrodilharam o rosto quase por completo com gaze. Também no veículo, estava Lady Roslin, ainda um pouco abalada com a batida na cabeça. O seu herdeiro-rebento dormia nos braços, cansado.

Ao lado do carro de bois, estava o viúvo de Lady Alys Karstark.

— Que pode fazer? — indagou o Magnar Thenn, com o bebê nos braços. A criança dormia, enrodilhada em peles quentinhas, sem saber que a mãe estava morta. A visão da sulista na carroça, prestes a parir, deixava a dor no peito do líder tribal ainda mais dolorosa. Era como um vazio preenchido com tristeza.

A bruxa olhava para as pernas abertas de Myranda. Ela era uma mulher idosa, cujos dedos enrugados estavam muito calosos. Passara alguns unguentos na vagina da moça, que sempre trouxera alguma sorte nos partos. Casco muído, urina de veado, com uma pasta feita de língua e cérebro de bode moídos até virarem pasta. O cheiro pungente era terrível, mas sempre aliviara a dor de suas parideiras. Além do mais, era tudo o que tinham sem leite de papoula e esperma de cavalo.

— Os sulistas com lã, essas ovelhas aí, que usam correntes como se fossem coleiras, estão certos… o bebê está virado. Muito longe para que meus dedos calejados o alcancem. — ergueu os dedos, as ungulas escuras pareciam pequenas lanças sujas. — Seria como enfiar adagas no ventre, temo.

De repente, a grávida ergueu-se, bateu as pernas por um instante, voltou a cair, sem forças.

— Teremos de usar uma coberta para jogá-la e fazê-la cair — falou a parteira ao lado da bruxa (era uma septã, mas escondeu sua identidade, com medo de ser morta naquele ambiente tão cruel contra a fé dela). — Apenas assim o filho estará mais perto da passagem entre o útero e a vagina.

As damas na carroça a olharam com pavor. Mesmo Margaery ficou chocada com tal sugestão.

— Não pode estar falando sério! — exclamou Wylla, visivelmente horrorizada. — A coitada já não aguenta mais e vocês ainda querem quebrar-lhe a coluna? Isso com certeza matará o rebento!

A rechonchuda mulher de avental de lã deu-lhe um sorriso gentil, meio que quem tem dó, com um quê de quem não queria realmente perder tempo explicando coisas óbvias para jovens ignorantes e cheios de pitaco.

— Milady, de fato tal procedimento não acontece muito, mas já fiz três partos assim. Dói muito, mas uma vez o bebê sobreviveu.

— Uma? — indagou Margaery. A mulher era tão maluca que nem sequer achou por bem mentir para amenizar? Pigarreou. — E quanto às mães?

— Ai de mim, os deuses deixaram duas viverem. As que não puderam ter os bebês vivinhos com elas. Creio que a mais nova morreu por ser muito novinha, o marido bem podia ter esperado, visto que era trinta anos mais velho.

As mulheres fizeram uma careta. Margaery e Wylla repensaram se um dia iam de querer passar pelo “belo” processo de gerar uma vida. Parecia um pesadelo desumano.

— Gosto disso tanto quanto vocês — interveio a velha bruxa. — Porém, mesmo que a criança morra, precisamos retirar-lhe do ventre desta moça. Não podemos deixar-lhe com um rebento morto na barrigona. Fora que, caso não o retiremos o quanto antes, isso sim há de matá-la. Ah, sim, sim, sim, vai sim.

Um silêncio surgiu. As mulheres se entreolharam, pesarosas. Por fim, sabendo que devia ser feito algo logo, a Lady de Riverrun indagou:

— Que temos de fazer?

Uma manta foi colocada por baixo de Myranda. Esta estava fedida de urina, suor e seja lá o que mais fora passado em suas regiões íntimas. O carro de bois teve bastante espaço para que duas mulheres selvagens subissem. Estas, junto de Wylla, Aly Mormont, a parteira e a bruxa, pegaram nas laterais do tecido, o ergueram.

Margaery, juntos das outras damas, estava no canto do veículo, olhando tudo o que acontecia com horror. Margaery tentou não olhar, mas viu ser impossível não olhar para o desenrolar da cena, levada por um misto de horror e curiosidade.

— No três — disse a bruxa. — Um… dois… Três!

As mulheres seguram as laterais da manta com forca, até os nós dos dedos ficarem brancos, ergueram o tecido com toda a força. Quando terminaram de erguê-lo, o corpo inchado de Myranda, pareceu começar a flutuar; mas durou pouco, pois logo caiu com tudo contra a madeira embaixo do tecido. A mulher, até então desmaiada, berrou, sentindo as costas em brasas. Sua espinha pareceu prestes a explodir.

A visão e o som fez todos ao redor se remexerem de desconforto e horror. O rosto de Myranda inchou e avermelhou ainda mais enquanto ela se remexia, gritando de dor. As veias saltavam contra a pele. A boca estava escancarada, soltando toda a agonia sonora que a prenha tinha para dar.

— Não parem! — ordenou a mulher do povo livre. — Puxem!

Apesar de abaladas, as mulheres fizeram o ordenado. O corpo de Randa, por três vezes, foi jogado no ar. Por três vezes atingiu as tábuas de madeira. Lágrimas riscaram seu rosto. Mesmo seus membros doíam de dor. Ela não parava de gritar, se contorcer, soluçar, chutar.

As pessoas no bosque fitavam na direção da carroça, assustado – e curiosos – com a cena que se desenrolava. Maioria nem enxergava o que aconteecis, mas ouviam os gritos.

— O que significa isso? — indagou a princesa Sansa, horrorizada com a cena. Sigorn foi ter com ela. Seu filho chorava, acordado pelos gritos de dor agonizante de Myranda. Ele afastou um pouco a princesa da cena, explicou a situação.

Myranda foi ajeitada no chão do carro de bois. Estava ofegante agora. A cara, uma beterraba. Chorava menos. Agora se contorcia mais, não só pelas dores nas costas, mas no abdômen. O bebê estava mais perto.

— Ótimo, ótimo… — disse a maga da floresta, analisando o estado da barriga, deslizando os dedos sobre a barriga exposta, delineando círculos. — Ah, sim, a criança vive. Forte, essa criança. Puxou a mãe, pelo que vejo, ah, sim. — A mulher idosa parecia ignorar as dores e contorções, assim como era a única não afetada pelos cheiros de unguentos pungentes que eram emanados da buceta da grávida. A pasta marrom estava agora endurecida contra os pelos pubianos e nos lábios rosados da fenda do corpo.

— Agora hemos de retirar o pequeno rebento, sim, sim, sim. — A mulher pegou um dos vasilhames de seu cinto de couro gasto. Retirou a rolha com a boca, mordendo-a com a gengiva rosada e desdentada. Tentou despejar um pouco do conteúdo na palma da mão, mas apenas um pouco aspergiu. — Ah, maldição. Está muito gelado. — Deu de ombros, jogou a garrafinha de couro para longe, esfregou as palmas. — Bem, lá vamos nós, pois? — A velha agachada, curvou-se sobre si, esticou os braços em direção à vulva.

Randa, que parecia quase desmaiar novamente, deu um gemido de dor, fez careta, enquanto sentia os dedos duros da velha se enfiando na vagina dela. Rangeu os dentes, se contorceu. Teria chutado a velha, não fosse as mulheres agarrando suas pernas. Os dedos duros, de unhas pontudas, eram como lâminas cegas que cavavam um túnel em sua carne macia. Era como ter verminhos mornos perfurando-a.

Wylla enrolou alguns trapos de tecido rasgado, colocou-os na boca de Myrada, para esta não morder a língua. A parteira rechonchuda segurava a mão da parideira, dando tapinhas com a outra.

— Força, filha, força… — a rechonchuda mulher disfarçada gostaria de feito o parto ela mesma, mas a septã achava que seus dedinhos gordos não seriam tão úteis quanto o da velha.

Myranda nem ouvia o que balbuciava para ela. A dor a ensurdecia. Seus olhos estavam fechados, com as pálpebras se apertando uma contra a outra.

— Ainda não está tão aberta — ralhou a velha, usando suas mãos para alargar mais o espaço da carne. Estava acostumada com isso, então o fez com indiferença, sem se importar com a resistência da (possível) futura mãe. Apertava uma parte, empurrava, depois repetia o gesto.

— Pelos deuses… — exclamou a guerreira Mormont com a cena. Mesmo tendo tido diversos filhos, nunca viu um parto como aquele.

A velha pigarreou. Parto era algo normal. As pessoas só não o conheciam a fundo de verdade. Preferiam matar pessoas com machado, esses tolos!

Tendo um bom espaço, empurrou os braços para frente. Soube que estava indo bem quando a mulher ergueu o torço, contorceu-se de dor. Ah, sim, o corpo da mulher estava indo bem; era preparado para partos, como praticamente todas as mulheres. Ah, a região era aconchegante, muito bem vinda nesse frio!

Seus dedos velhos, meio rijos, sentiram algo sólido, morno. Apalpou de leve. Era o bebê. Segurou a massa de carne, delicada. Leve, começou a virá-la. Gordinho, esse bebê. As mãos anciãs sentiam o calor aconchegante do ambiente. Era uma pena retirar o fetinho de lá.

Os gestos, como era de se esperar, fez a mãe do rebentinho se contorcer como nunca. Wylla e a “parteira” seguraram-lhe a nuca, para ela parar de bater a nuca. A boca espumava, parecia um cão com raiva. Um líquido mucoso saia mais agora, banhando as pernas doloridas da bruxa que puxava o bebêzinho para fora. Apesar de incolor, estava um pouco rosado, por conta do sangue. Por sorte, nem uma tripinha saltou, e a velha apreciou o cálido banho nas doloridas e calosas pernas. Para ela, um bom sinal.

— Ah, sim, sim… está quase lá, sim, sim.

Sansa, vendo o líquido escorrer para fora da beirada da carroça, virou-se, vomitou na neve. Até o Magnar de Thenn virou-se. Lady Roslin, mesmo estando na direção oposta à cena dos outros dois, virou a cara, enquanto agarrava o seu choroso filho. Jeyne abaixou e fechou os olhos, tampou os ouvidos. Barbara voltou a desmaiar, enquanto Cynthea voltava a chorar, parecendo enlouquecer.

Margaery conseguiu virar o rosto. Olhou para a multidão perto do grupelho de damas. Olhavam para a cena, meio curiosos, meio assustados.

Mesmo torcendo pela morte da intrometida Randa, nem ela era capaz de apreciar tal cena. Os guinchos de Randa lhe faziam tremer, arrepiar-se.

Após silêncio tenso e repentino, quando apenas o vento assobiante se fez ouvir, um choro surgiu.

— Ah, pronto, sim, sim! — falou a velha, retirando o fetinho sujo da mãe. A parteira foi até ela, com uns panos para limpar. — Ah, que pulmões!

Sansa, ao ser tocada pelo berro do bebezinho, andou até a carroça. Sor Aly a ajudou a subir. Randa estava estatelada no chão, sem forças.

— É um menino? — indagou, aproximando-se, curvando-se perto das duas mulheres.

— Uma bela menininha! Rá, os pulmões e a resistência da mãe, sim, sim!

— Retiremos a placenta agora — demandou a parteira, no que a bruxa da floresta assentiu. O escorreu para fora, fazendo um barulho enjoativo, parecia-se com um imenso saco de carne crua e entumecida de sangue.

A princesa fez uma careta, mas pegou o bebê das mãos enrugadas da velha, após esta cortar o cordão umbilical com uma faquinha de pedra. Ainda estava muito sujo, mas não poderiam limpá-lo agora, mas teriam de protegê-lo contra o frio do melhor jeito possível.

Dando um sorriso cansado, a princesa foi até a amiga cansada. Seu rosto estava agora pálido, suado. Flocos caíam nele, mas Randa nem reparava. As duas velhas agora estavam a cobrir-lhe as pernas contra o frio. A velha bruxa enfiavam uns trapos entre as pernas de Myranda, para parar o sangramento.

— Randa? — sussurrou Sansa. — Randa, olha… é a tua filha.

As pestanas tremeram. Os olhos semi-abriram. A mulher parecia lutar para enxergar. Quando seus olhos escuros pareceram enxergar a figura chorosa, ela ergueu a mão, parecendo querer tocar na pequena vida…

A mão caiu quando as forças lhe deixaram de vez. As pálpebras se selaram.