Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
62 Fragmentada
No enorme pátio de Harrenhal, todos estavam aglomerados: Clãs das terras altas do Norte, clãs do Povo livre, Gigantes peludos, Filhos das Florestas, Lordes nortenhos, Lordes do Tridente, do Vale e das Terras da Tempestade, estrangeiros de diversas partes de Essos além de além do Mar Estreito, até mesmo a plebe estava lá. Todos se amontoavam em Harrenhal, em seu imenso pátio — que, na verdade, não era assim tão grande para aguentar tantas pessoas, de modo que muitos ficavam além de onde a vista podia alcançar, indo além do dito pátio —, esperando seus monarcas (ou salvadores, estava tudo dando na mesma nesses último tempos) falarem com eles.
A neve caia e cobria as pessoas no chão, salpicando-as até cobri-las com uma camada açucarada. Mesmo os gigantes peludos pareciam tiritar, tendo seus corpos hirsutos esbranquiçados pela neve que os cobria.
A voz murmural de cada uma das pessoas se unia em um denso, reverberando pelo ar denso e frio.
Margaery estava ao lado da princesa Sansa, que permanecia altiva, com Wylla entre elas, perto de seu meio-irmão Jon. Do outro lado deste, estava a sua esposa, a rainha Daenerys, usando uma armadura de escamas de aço negro com rubis no peito, aglomerados, formeando um dragão de três cabeças. Stannis estava ao lado da Targaryen armadurada, com sua face severa, cuja fronte era encimada por uma bela coroa de chamas.
Atrás dos monarcas, os seus respectivos protetores: Sor Jorah estava bem ao lado de sua rainha, protetivo e carrancudo; a princesa selvagem, Val, estava atrás do Rei do Norte, trajando seu lindo traje de servo branco, com os cabelos loiros caídos, uma mão pousada no cabo da adaga; Stannis tinha apenas Melisandre, agindo como uma sombra escarlate; Sansa tinha Sandor e Alys, poucos centímetros atrás dela, prontos para cortar a mão que se levantasse contra a princesa.
(A princesa Arya não estava com seus irmãos, parecendo preferir ficar entre os de baixo. Embora Margaery não entendesse o porquê de tal atitude, era agradecida: assim não teria de ver a reação da princesa e de Sor Gendry a respeito do que fora feito com as ervas.)
Margaery olhou para cima, para o céu. Este não passava de uma imensa massa irregular, estendendo-se sem fim, dum tom tão cinzento e escuro, que parecia preto. A única cor diferenciada que se via eram os flocos de neve caindo, caindo, caindo, caindo…
As torres tortas de Harrenhal erigiam-se contra o céu, parecendo ser montes de feitos de trevas. As muralhas também eram de um negro-breu.
Cinza, preto e branco. As cores dos Starks. Cores agourentas, pensou Margaery.
Um golpe de vento enregelante atingiu seu corpo, fazendo seu manto chicotear no ar. Ela abraçou-se, enrodilhando-se com o manto verde-musgo (parecia preto, de tão escuro que o mundo estava), sentindo o frio acachapante a pressionar contra todas as direções de seu corpo. Seu capuz foi jogado para trás, tremendo violentamente, como um verme em agonia. Seu cabelo teria voado também, não fosse ela tê-lo trançado até o topo de sua cabeça.
Jon Stark, usando sua coroa de espadas, trajando vestes negras com rendado prateado em formato de lobos a correr e uivar, com seu cabelo branco-cinzento solto, parando de cair pouco antes de tocar-lhe os ombros, deu um passo para frente, limpou a garganta, falou, com a maior potência que podia fazer com a sua voz:
— Todos vocês estão fartos de esperar pela guerra, isso eu sei — disse o Rei. — Mas hoje, devem saber, a espera está para acabar. Meu irmão, o príncipe Bran, que previu a queda de Euron, que disse ter visto a queda da muralha, informou-me de que os Caminhantes Brancos estarão aqui em menos de uma quinzena.
Os homens e mulheres voltaram-se uns aos outros, falando diversas coisas, causando um barulho balburdico, tornando as conversas inaudíveis e irritantes aos ouvidos.
O Rei do Norte apenas esperou, observando a plateia, com seus olhos estranhos e coloridos e inumanos, até que as vozes se calassem e todos o olhassem, esperando-o continuar.
Quando o silêncio reinou, o monarca falou:
— Os filhos da Floresta em Monte Cailin caíram há tempos, como bem sabem — prosseguiu Jon. — Todos lá morreram.
Ninguém falou mais nada.
— Quando meu irmão avisou-me da proximidade do inimigo, mandei batedores para ver a área, mas nenhum voltou. — O rei Jon se calou, talvez aguardando vozes a falar. Quando isso não ocorreu, prosseguiu: — Meu irmão tem os olhos no céu, e falou-me sobre o que tem visto: sombras pálidas em cavalos podres, ou em imensas aranhas geladas; soldados mortos, ursos, gigantes, mamutes, e tudo mais o que puderem imaginar. Todos caminham, sem cessar, em nossa direção.
É isto que todos aqui precisam entender: todas as nossas diferenças (entre povos, classes ou rusgas entre famílias) precisam ser deixadas de lado, ou nunca teremos como vencer o inimigo.>>
Todos lá embaixo se entreolharam, parecendo titubear se deviam realmente seguir as palavras daquele monarca.
Por que Stannis e Daenerys não falam nada?, Margaery se questionava. Olhou para Daenerys, erguendo um pouco o rosto. A rainha tinha um olhar irritado, duro.
Margaery não estava a par das conversas dos monarcas, mas imaginou que Daenerys fora aconselhada a ficar de fora do discurso que seu marido fazia agora — a contragosto, decerto, a julgar pelo semblante da monarca prateada.
Stannis, também quieto, parecia igualmente irritado, mas ele tinha esse rosto desde sempre. Sua figura era mais curvada do que sua costumeira posição ereta. Os ombros pendiam para frente, as sombras nos olhos pioraram consideravelmente.
Ao escrutinar a visão do monarca, Margaery se perguntou se Stannis não afônico pois aceitara um fato óbvio: estava no seu fim. Seu exército eram poucos lordes e cavaleiros das terras das tempestade. Nem mesmo Melisandre falava algo em favor do rei que ela outrora apoiara.
— Precisamos unir-nos contra a única ameaça real — O Rei do Norte continuava a falar. — Nossas terras, nossas crenças, nossas rivalidades… nada disso importará se O Inimigo ganhar.
Ele retirou a espada dos ombros, com o seu braço escuro, coberto por uma crosta vermelho-negro, que mais parecia uma enorme garra. A lâmina da espada bastarda era escura, como fumaça, repleta de ondulações do aço valiriano; o botão da espada tinha o formato da cabeça de um lobo, feita de prata.
O rei ergueu o outro braço — o normal — com a palma da mão desenluvada. O gume da espada tocou na carne pálida, deslizou.
Um brilho rubro, no formato de chamas, que cercaram a longa lâmina, chamejando-a.
Margaery olhou aquilo, maravilhada e assustada. Nunca vira algo assim.
O Rei ergueu a imensa lâmina, apontando-a para o alto, para o céu escuro, como em um desafio contra o Deus-céu.
— Vocês lutaram comigo nessa batalha que está por vir? Lutaram pelo seu rei? Lutaram pelo bem de tudo que acreditam?
Um brado retumbante veio em resposta. Homens e mulheres gritaram, erguendo os braços e armas, enlaçados pelas palavras encorajadoras de seu monarca. (Embora alguns não estivessem realmente entendendo, apenas seguindo a comoção da turba.)
Ele não falou da rainha, Margaery percebeu.
Cada vez mais estava claro que a figura do Rei do Norte era a figura escolhida pelo triunvirato monárquico: ele era quem liderava o povo livre e os lordes do Norte; ele era o consorte que Daenerys mandava todos obedecerem; o escolhido por Stannis como um parceiro.
No fim, tudo parecia ir de encontro ao Rei Jon — não apenas no trono do Norte, mas no Trono de Ferro.
Margaery via a figura daquele jovem-homem, vendo-o como alguém que um dia lideraria as tropas inimigas para o Sul, levando seu exército de selvagens para saquear os inimigos — o povo de Margaery.
Precisa tentar impedir aquilo… mas que chance tinha? Ela era apenas uma mulher, sem grandes habilidades.
— A partir de hoje — o Rei falava, com a espada ainda erguida contra a escuridão que açoitava o mundo —, todos devem treinar mais do nunca, preparando-se para O Inimigo que está por vir! Todos devem preparar-se para aquela que, provavelmente, será a última batalha pela vida!
Mais uma vez, um urrar ensurdecedor em resposta às palavras proferidas.
— Eu, minha Rainha e o Rei Stannis estaremos com vocês nos preparos — avisou o Rei Jon. — Estaremos do lado de vocês, pois nós confiamos nossas vidas, e a de todo o reino, à vocês.
Um último bradar uníssono foi dado, e o monarca finalizou tudo ao dizer:
— Que os deuses nos abençoem. — Ele embainhou a espada, virou-se para Daenerys, ambos deram as mãos, desceram da muralha.
— Vamos — a princesa Sansa disse, rígida. Girou os calcanhares, saindo do local com mais rapidez que o seu irmão monarca.
Margaery e Wylla a acompanharam, seguindo a norma de estar alguns passos atrás da princesa. Desceram as escadas, seguindo, com cuidado nos passos, a princesa Stark, que andava assaz rápida e irritada, sem importar-se com a queda.
Sansa não foi supervisionar as pessoas a treinar nos pátios; invés disso, cortou caminho até a torre de seus aposentos, andando pela neve.
— Sor Aly e Sor Sandor — ela disse, enquanto andava pela neve. — Após chegarmos em meus aposentos, podem treinar com os outros. Estão dispensados.
Sor Alysane não pareceu gostar daquilo.
— Princesa, não sei…
— A princesa deu sua ordem! — ribombou Sor Sandor. — Temos de obedecer!
A cavaleira nortenha fez um muxoxo, irritada, mas se calou. Seguiu caminho, carrancuda.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Arya não uniu-se com seus amantes durante o discurso de seu irmão. Disse-lhes que estava indisposta — não era mentira, mas era um eufemismo para a verdade.
Estava nua no colchão de seus aposentos, com as pernas magrelas cruzadas. Seu corpo estava brilhando pela perspiração; sua respiração parecia travada, com dificuldade de aspirar o ar para dentro dos pulmões. Seu coração não estava acelerado, parecia quase parado. Fechou os olhos, tentando enuviar sua mente, espairecer da agonia que tinha agora.
Um risinho de escarninho cruel estava reverberando em seu crânio. Seu gato-das-sombras parecia compartilhar a agonia de sua mente, ficando eriçado adjacente a um dos cantos do quarto. O animal sibilou, mostrando os dentes, parecendo prestes a atacar, curvando a coluna. Era como um gato de treva amuado.
A Stark no catre lambeu os lábios, estavam escuros, quase pretos, por causa da bebida oriental; mas estavam muito rachados. A sede flagelava sua garganta e o céu da boca. Fazia tempo que Arya não comia e bebia — Sor Gendry e Edric até andavam a reclamar disso —, mas fora uma escolha intencional: estava lutando contra o êmulo dentro de si.
Sentia algo de errado em sua cabeça; Acreditava ser por uma reação das mentes que seu corpo adquiriu ao longo dos anos, causada pela troca de faces, deixando-a desacorçoada. Ela aprendera na Casa do Preto e Branco, que sempre que se vestia uma nova face, uma parte das memórias se ismícuia em seu hospedeiro. Uma remanescência que perdurou após a morte da mente original.
De algum modo, algo em Arya fazia-a acreditar que uma forma de matar o tormento era levar-se pela fome e sede. Pela dor. Tinha de matar a mente que a impregnara — mas como? Nunca aprendera isso na Casa do Preto, também não podia retornar a Braavos para saber.
(Um riso de escárnio voltou, bem no fundo.)
Arya grunhiu. Estava farta daquilo.
Desde que soubera da vinda dos Outros, tudo pareceu piorar para ela. Sua mente pareceu doer como nunca; era como ter que brigar consigo mesma.
Por que? Por que a vinda do inimigo a enervava? Por que o asco e a cólera a consumiam ao pensar que seu irmão falava contra o inimigo?
Não sabia dos motivos. Na verdade, há tempos não sabia mais o que estava a fazer. Sentia-se… fragmentada. Perdida no que era real ou não.
Os perfumes — ela colocara algo neles, não é? Algo além da essência das rosas… Por quê?
(Porque era divertido!)
Curvou-se, atordoada, com a mente embotada. Tinha de treinar para o que estava por vir — ao mesmo tempo, sentia que não devia ir contra o que estava por vir.
(Deixe que morram! Deixe tudo se perder!)
Deu um tapa na própria face, com bastante força. Depois, outro, com a outra mão, atingindo a outra bochecha. Depois mais um, mais outro, mais um…
Por fim, após debater-se, estava estatelada de costas para o colchão. Olhava o teto, cansada, sentindo as bochechas arderem.
Tinha que ir até Nymeria. Sim, talvez a loba a ajudasse.
Entretanto, não se moveu. Sentiu a mente começar ficar estranha, fermentada como uma bebida; sua visão dançava. Devia ser o efeito da Sombra da Tarde — havia bebido um gole? Quando?
— Nymeria… — Ela murmurou, tentando ganhar forças para ir para dentro da loba, onde era seguro e só existiam as duas.
Viu uma maçaneta enferrujada. Girou-a, abrindo a porta. Tinha um rapazinho rezando no quarto, baixinho, forçando-se a não vê-la.
Arya sabia que era seu irmão — não Jon, Bran ou qualquer filho de Ned Stark. Era um outro irmão; irmão de uma outra vida que não era dela.
Arya sabia que faria mal aquele irmãozinho, assim como fizera com o outro irmãozinho. Ela se colocou contra ele, empurrou-se para dentro dele, enquanto ele chorava baixinho. Era uma sensação de poder que ela tinha nesse momento — a mesma que sentira quando dera a bebida a Sor Gendry e Edric. Ah, um poder íntimo, um controle sobre o corpo dos outros. O poder de machucá-los de uma forma que nunca se esqueceriam! Era como ser um deus! Uma tempestade a ser temida!
Horrorizada com o que estava fazendo/não-fazendo, Arya grunhiu e tentou lutar contra aquilo. Quando deu por si, seu gesto débil a fez cair da cama. Estava caída no chão frio e escuro, tonta, enjoada. Seu lábio estava rachado. Lambeu a ferida, faminta.
Fechou os olhos, sentindo o gosto do sangue — sangue este que logo tomou um gosto amargo de metal e folhas. E percebeu que não estava lambendo sangue — estava comendo carne! Carne verde, de homens verdes e com cornos! Ah, sentia o poder daqueles nacos sangrentos e suculentos! Havia tanto poder!
Assustada, voltando a si, ela abriu os olhos, ofegantes. Suas costas doíam pela queda no chão.
Foi então que se viu: estava aprumada, olhando para baixo — para si mesma —, com cólera. Estava segurando a lâmina que Bran lhe dera.
Arya tentou falar algo, confusa, mas nada saiu. Seus movimentos eram débeis, pesados, como se ela estivesse inchada.
Mas a outra Arya falou:
— Valar Morghulis.
A lâmina desceu, atingindo-a no peito. Tudo ficou escuro, enquanto suas forças esmoreciam.
No breu que seu mundo se tornara, o risinho voltara a ser ouvido.
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