Vagava até seu irmão. Sentia o frio atingir-lhe os ossos, as pernas a sofrer a cada trotar que davam, a mente ainda embotada. Seu calcanhar afundava nos montinhos de terra e lama por onde pisava, mesmo usando botas para o terreno.

Galinhas ciscavam, bodes baliam, cavalos e mulas relinchavam. Os animais misturavam-se com os transeuntes, que transeuntavam de lá e cá, salpicados pela neve — alguns paneiros e cestas —, com rostos tristes, sujos e cansados, fazendo-a lembrar-se de quando era bem novinha, viandando pelo Tridente, em busca de Correrrio, procurando pelo irmão e a mãe.

Nunca achou seu destino, porém.

Havia algumas tendas espaçadas no local, fazendo parecer que tudo aquilo era uma grande feira de uma vila, não um espaço dentro das muralhas de um castelo. Vendedores vendiam tecidos, bulbos, animais. Nesses tempos, um tecido grosso e sem riqueza era de grande valor, de modo que um simples vendedor, sem sequer ter uma tenda, apenas gritando e mostrando um manto puído e grosso qualquer nas mãos, poderia ter uma boa quantidade de moedas de bronze e/ou prata no fim do dia. (Ou algo de valor que se aproximasse a tal, visto que a plebe estava praticamente sem moeda alguma, parecendo preferir escambo no lugar.)

Havia alguns que conseguiam dinheiro doutras formas: havia cuspidores de fogo, jogos de dados, ou, em maioria, roubos.

Uma pequena garotinha vendia flores azuis, provavelmente para conseguir algumas moedas para ter dinheiro para ter roupas ou comida. Teria ela pais?, Arya indagou-se.

Havia outras crianças também, sendo levadas pelo pai ou mãe, ou qualquer adulto ou jovem mais velho, que os guiasse. Alguns, os mais raros neste caso, jogavam bolas de neve uns nos outros, rindo, talvez alheios ao logro que estava a vida deles — ou, quem sabe, evitando pensar nisso, buscando alguma diversão.

Os olhos bem treinados de Arya percebiam outros tipos de passatempo entre os mais jovenzinhos: roubo, usando da escuridão e agilidade para pegar objetos de valor. Fosse rasgando bolsas e sacolas com lâminas, ou apenas usando as mãos e as enfiando nos bolsos das vítimas, correndo e empurrando a todos para fugir.

Alguns usavam velas e lampiões para iluminar o local, visto que as nuvens no céu cobriam as estrelas e seu rebrilhar, tal como a Lua estava cortinada. A luz que mais se sobressaia, porém, eram as labaredas dos sacerdotes vermelhos, que chamejavam na escuridão, expulsando as trevas. Pessoas uniam-se em volta das línguas tremeluzentes, aproveitando-se do calor de sua fulgência, enquanto os sacerdotais balbuciavam coisas que Arya não entendia (com exceção de uma ou outra, em valiriana).

Os sacerdócios não eram buscados apenas nas chamas: as prostitutas de R'llhor vagavam em seda fina e escarlate, cujo tecido era bem transparente, intocadas pelo frio cruel do inverno. Homens.

A imagem mnemônica das chamas, prostitutas e transeuntes suscitou memórias na princesa, fazendo sua mente espiralhar até seus dias na Casa do Preto e Branco, onde vendia ostras, conquilhas e mexilhões, vendo os habitantes da cidade vagando pelas ruas e vielas, e onde puxava conversa fiada com as cortesãs. Ainda podia sentir o cheiro salgado e insosso dos esgotos, além dos miados dos gatos que a seguiam.

Também lembrava um pouco seu período em Porto Real — não a infância, mas o do resgate de Margaery. Lembrava-se de Sor Gendry ter achado uma atraente prostituta de Deus em Porto Real. Fazia tanto tempo...

Mas não estava na Capital. Nem Braavos. Estava em harrenhal, novamente. Por que estava ali?

Precisava achar seu irmão. Tinha de achar Jon e sua esposa.

Deslizou uma mão para dentro do manto, pousou a palma no cabo da Agulha, sentindo a superfície sob o couro da luva. Era um presente de Jon.

Ela deu um sorriso, pensando na comicidade da situação: aquilo poderia ter um fim irônico e sangrento. O pensamento a fez regozijar-se, pensando no horror que isso traria para a pobre Sansa. Ah, sim, ela teria muita coisa para resolver após Arya fazer sua última pirelhia.

O que aconteceria a seguir? Bem, Arya talvez não vivesse para ver, visto que rapidamente seria morta pelos apoiadores de Jon e Daenerys. Mas, com sorte, poderia matar estes dois, antes do fim de tudo.

Provavelmente Sansa acabaria por ser morta depois. Talvez por algum apoiador nortenho ou, quem sabe, um desgostoso lorde do Vale? Talvez o dragão escuro e vermelho de Daenerys torrasse todos ali antes de qualquer outro movimento ser dado.

De todo o modo, tudo estaria perdido: seu irmão Bran poderia ver o pior acontecer: a derrocada da humanidade.

Ah, que glorioso aquilo seria!

Cambaleou, quase caindo. Talvez tivesse tropeçado numa maldita pedra; achava mais provável suas pernas apenas estarem fracas. Maldição! Estava há tanto sem comer? Podia perder os sentidos! Devia ter ido participar do discurso de seu irmão; já teria acabado com isso!

Não importava. Seu imenso felino, esguio e escuro, estava a caminhar ao seu lado. O olfato a guiaria.

Algo agitava seu Gato-das-sombras; ao invés de dar atenção para isso, ordenava ao animal para achar os monarcas. O outro cheiro poderia esperar.

As pessoas afastavam-se dela, conforme Arya passava por eles, olhando-a com surpresa, por causa do Gato-das-sombras. Isso acontecia com alguns wargs e Troca-Peles do Povo Livre. Dificilmente a reconheciam; mas logo iriam.

Um grupo de pessoas pareceu se aglomerar num ponto do castelo. Vários começaram a ir na direção, que aumentava a cada instante. Seu felino a guiava para o caminho certo.

Andou em diagonal, percebendo que as falas das pessoas tornaram-se maiores, agitadas. Agora, pessoas passavam por ela, sem se importar com o enorme carnívoro felino ao lado dela.

Aproximou-se rápido da aglomeração, pois esta movia-se para frente, com as pessoas dando trotes agitados para o lado, dando empurrões em si mesmas, para ver os monarcas.

— Afastem-se! — Um soldado com sotaque nortenho berrava. — Dêem espaço ao Rei do Norte e a Rainha Daenerys!

Arya empurrou um homem, irritada. Seu corpo parecia estar ficando enrijecido. Rilhou os dentes, sentindo as pernas lutarem para andar para frente.

Estava quase lá! A luta cessaria quando tudo se perdesse! O corpo desistiria de lutar!

Alleras acompanhava a princesa, a passos calmos e a uma boa distância. Tinha de tomar cuidado — caso ela o percebesse, poderia matá-lo rápido, usando seu belo e esguio felino.

Alleras andava para um lado, depois outro, seguindo caminhos perpendiculares aleatórios; mas nunca deixando a imagem de Arya. Era como um jogo, um tipo de brincadeira mortal.

Precisava matá-la. Tinha de terminar com ela. Não sabia o quê nem porquê, mas sabia que ela era problema — que ela traria problemas.

As pessoas morrem enquanto ela dança. Tinha a visão ainda nítida. Era uma das últimas coisas que vira antes de perder sua vela de vidro.

Sua adaga estava na manga. Se se aproximasse bem, podia jogar nela e acertá-la. Todavia, tinha tanta gente no caminho…

Agora, porém, sabia que não podia hesitar: os monarcas estavam passando. A princesa estava para aprontar algo!

Mas e se morresse depois? Ainda tinha de impedir Margaery e Petyr, antes que fizessem mais do que deviam — todavia, ainda tinham todos de viver a Longa Noite primeiro.

Balançou a cabeça. Encher-se de dúvidas não o ajudaria agora. Tinha que agir agora.

A lâmina deslizou, parando apenas quando ele agarrou o cabo, com a lâmina ainda escondida pela manga. Apesar do frio, a palma estava suada. Respirou fundo, apertou mais o cabo. Não podia fraquejar. Tinha tomado sua volição. Apenas um chofre, tudo estaria terminado.

Arya afastou o capuz, sentindo o toque frio do vento tocar o seu rosto. A grossa trança chicoteava no ar, enquanto a fronte capilar era salpicada de neve. (Jon amaria bagunçar meu cabelo, ela pensou, enquanto o vendo agitava seus fios de cabelo escuro). Respirou fundo, olhando para frente. Com o rosto revelado, as pessoas que viravam-se para ela davam espaço, deixando a princesa passar, indo de encontro até seu irmão.

Seu corpo suava, parecendo não estar cheio de neve. A fome doía dentro dela. Não sentia ter forças para atacar.

(Pare de lutar!)

Expeliu ar, fazendo uma densa fumaça branco-baça, bagunçando os flocos.

— Jon... — Ela conseguiu falar, sentindo a agonia da carne viva que era a sua garganta. Seus olhos ardiam.

Aquele a sua frente não parecia Jon — era um estranho para ela. Era era um inimigo, ela sabia. Precisava se livrar dele. Precisava matá-lo, mas... Por quê?

(Não lute contra isso!)

As pessoas ajoelhavam-se e davam gritos esquisitos para os monarcas. O Rei do Norte andava, com a rainha de um lado. O Rei Stannis não estava lá. Os imaculados ladeavam os dois monarcas, fazendo uma linha de escudos voltados contra as pessoas de fora do séquito, que observavam os monarcas.

A imagem enervou a princesa, mas esta se forçou para frente.

Atrás do monarca, ela conseguiu vislumbrar, andava Edric e Sor Gendry. O lorde dornes viu a amante, sorriu e acenou, pedindo que ela se aproximasse.

O Rei também a viu, olhando-a por cima do ombro, de soslaio, com o olho-sangue. Ele não falou nada, nem parou, apenas diminuiu um pouco o andar, parecendo esperar que ela o acompanhasse. Daenerys, parecendo ter entendido, gritou alguma palavra em outra língua, e os Imaculados começaram a dar um espaço entre a linha cerrada de escudos. Era o suficiente para Arya passar.

Ela segurou o cabo da espada, com uma força ainda restante. Agora! Tinha de ser agora!

O evento empurrava seu corpo, parecendo querer derrubá-la. Afastá-la de seu amado irmão.

Amado irmão… por que ela faria mal ao seu irmão?

Tentou engolir seco, mas não conseguiu. Havia uma corda invisível prendendo seu pescoço.

Jon..., quis falar, mas não conseguiu. Queria grotar por ele, chamar por ajuda, mas não o podia fazer.

O Esfinge apertou os passos até a princesa, reconhecendo a figura encapuzada como sendo ela, graças ao Gato-das-sombras ao lado. Esguiou-se pelas pessoas, como uma serpente a esquivar-se. Tinha de estar mais perto!

Um tum-tum, acelerava seus passos, como um tambor a indicar como devia dançar, conforme a perspiração o banhava. Empurrou uma mulher, que foi ao chão, dando um grito. Agora, estava a quase um metro de seu alvo.

Subiu o braço, jogando a mão para trás. Se jogasse, acertaria a princesa!

A princesa sentiu suas forças esmorecerem, conforme a visão esmaecia. Soltou o cabo da espada. A última coisa que sentiu foi um golpe enregelante voar contra o seu corpo.

Estava tão frio...

Maldição! A princesa estava caída, fazendo Alleras ter de mudar de posição. Não teria sido grave, não fosse as pessoas a ladeando, assustadas e surpresas. O Rei aproximava-se da caída, junto de seu séquito.

— Arya! — ele ouviu o Lorde Dayne gritar. Ele devia estar correndo até a esposa.

— É a princesa! — diversas pessoas falaram, ao perceber quem era a figura caída.

Alleras não abalou-se, batendo os calcanhares até o corpo, empurrando as pessoas. Por sorte, logo estava ao lado do corpo caído. A princesa estava ali, caída, indefesa, com o corpo escondido pelo manto longo.

Seria uma armadilha? Para ele ou, então, para o Rei?

Não importava — tinha de aproveitar o momento. Voltou a preparar-se para jogar o punhal, mas o Gato-das-sombras de Arya surgiu, pulando sobre o corpo de sua dona, de forma defensiva, fazendo diversos plebeus se assustarem e se afastarem. Girou, virando-se em direção ao êmulo que aproximava-se da cuidadora caída.

Alleras vacilou, estacando-se na neve, fitou o animal com surpresa. A imagem do predador foi capaz de fazer seu corpo arrepiolar-se. Retesou as costas. Ficara tão afoito que esquecera-se de considerar o felino! Que tolo havia sido! Era uma armadilha!

Os olhos fendidos e cinza-escuros encontraram os do dornês. A cauda balançava agitada, o animal deu um grito alto e selvagem, mostrando os dentes pontudos para O Esfinge.

Sabe quem sou!

Antes que o felino agisse, porém, O Esfinge foi mais rápido, como uma serpente do deserto, pronto para dar o bote — aproveitando-se do golpe que estava preparado para usar contra Arya, e da adrenalina que explodia em seu corpo, Alleras jogou o punhal, que voou como uma seta escura, cortando o ar e agitando os flocos no ar, terminando o caminho ao atingir o focinho escuro do imenso felino, que deu um grito estridente ao ser perfurado.

Alleras nunca viu tal imagem sangrenta; assim que dera seu bote, girou sobre si, bateu os calcanhares para longe do local, ouvindo o grito agonizante do animal, junto do som de milhares de vozes sobressaltadas pela cena. Deslizou pelas sombras.