Notas iniciais
Bem, os caps estão "pequenos" porque eu ando tentando evitar caps gigantes — de modo que alguns caps passam apenas por um núcleo ou mais, mas deixando o cap seguinte ser uma continuação quase que imediata do anterior. (Espero que tenham conseguido me entender kkkk) Esse cap, por exemplo, era para ser maior, mas resolvi deixar a outra parte para o(s) próximo(s) cap(s). Acho que isso não irá incomodar muito as pessoas, mas é ler para saber kkkkk

Sansa não queria fazer nada. Estava deitada em sua imensa cama, cercada por seu dossel.

Harrold estava morto. Seu marido morreu. Seu belo, tolo, insuportável e fracassado marido estava morto.

Em teoria, isso seria sua liberdade; estaria livre de um matrimônio infrutífero.

Mas não estava. Agora que estava viúva, os lordes — que antes mesmo de Harrold morrer já estavam a cortejá-la —, não tardariam a tentar conquistar a sua mão.

Hipócritas e mesquinhos, todos eles.

Sentia um vazio também. Não apenas por Harrold (que ela nem sabia porque sentia, visto que passara a desprezá-lo), mas porque toda a sua vida virou um caos: fora obrigada a largar Winterfell e o Norte, indo para esse fim de mundo que as Terras do Tridente haviam se tornado; os lordes a aporrinhando para ter uma resposta sobre quem herdaria o Vale; sua maldita cunhada, que estava sempre em desacordo com Sansa, puxando Jon para suas ambições próprias; Arya, que havia a abandonado, proclamando que Sansa era apenas uma assassina mesquinha; a culpa por deixar Petyr escapar por entre seus dedos, quando devia tê-lo matado há tempos; Bran estava vivendo em sua própria corte e delírio, ficando com desconhecidos que o buscavam por esperança; Jon também estava distante, perdido em seus afazeres de governos (Sansa entendia mais seus motivos, porém, pois ele realmente tinha um motivo para não estar sempre com ela).

Se sentia sozinha, cansada, sem rumo. Nem mesmo as suas damas estavam lhe fazendo tanta companhia; mandou-as ficarem livres durante a maior parte do dia. Elas foram boas ao tentar animá-la, mas Sansa estava muito presa em sua solidão para dar-lhes atenção.

O que mais lhe doeu foi não poder cuidar de Jeyne. A pobrezinha precisava de toda a atenção — Harrenhal parecia ter piorado seus anseios, pois ela parecia ter medo de lugares muito abertos, dizendo-se estar “muito exposta”, e, como tudo nesse gigantesco castelo era imenso, ela ficava tendo crises chorosas com facilidade.

Por fim, Jeyne estava na antecâmara, visto que não tinha vontade de ir ver Mya e Randa — mesmo que as duas estivessem na mesma torre em que ela estava.

Sandor estava lhe fazendo guarda, fora dos aposentos — a princesa deixou Alys Mormont ficar com os familiares. Ele, assim como Jeyne, eram o único porto seguro de Sansa atualmente.

Nem mesmo seus planos de casamento andavam indo bem: Brynden Blackwood agora era Lorde Blackwood, e recusava-se a casar com a Lady Barbara Bracken, mesmo esta sendo a herdeira das Terras Bracken — claro, ele teria de fazê-lo caso fosse uma ordem real, mas não seria uma boa ideia irritar um de seus principais lordes num momento tão crítico.

Hoster e Wylla seriam um bom casal; entretanto, Brynden insistia que o irmão se casasse com a irmã mais velha de Wylla, Wynafryd, pois ela era a Lady de Porto Branco.

Wynafryd seria um bom partido para Hoster… Caso ela não parecesse detestar o rapaz desde que eles brigaram em Winterfell. (Ela também detestava a ideia de que ele se casasse com sua irmã, para piorar a situação.)

Talvez, se Sansa casasse Lady Wynafryd com Lorde Brynden, fosse mais fácil que eles aceitassem a união entre Hos e Wylla, mas não criava esperanças sobre isso…

Apesar de pensar no casamento de terceiros, Sansa sabia a próxima a se casar: ela mesma.

Daenerys (aquela maldita!) não tardaria em casá-la com algum outro nobre, Sansa sabia. Seria uma ótima forma de conseguir uma aliança firme e de se livrar da cunhada.

E ainda não tinha achado Petyr Baelish.

Tentou pedir apoio a Arya, mas ela a renegou. Chamou-a de tola, assassina, e a abandonou em seu maior momento de desespero. Apenas Sandor se prontificou em procurar Petyr e matá-lo antes que alguém o achasse, para que ele não contasse nada sobre Lysa. Infelizmente, Sandor era um cão fiel, mas pouco sagaz para assuntos que envolvessem calma e sigilo.

Talvez a princesa estivesse errada; Petyr poderia ter voltado para suas terras nos Dedos. Ou para alguma outra fortaleza abandonada.

Não importava. Logo Petyr voltaria para assombrá-la, tinha certeza. Até que isso acontecesse, ficaria ali, nessa cama imensa em Harrenhal, cobrindo-se com peles quentes, em volta nas sombras, aquecida contra o frio.

Queria ficar ali, sozinha, esquecida, longe dos dramas de sua vida.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Alleras estava subindo os degraus da torre onde a princesa estava. Evitava sair de seus cômodos — tanto por causa da praga, quanto por causa do imenso caminho que tinha de percorrer até chegar ao seu destino —, de modo que usava enviados para falar suas mensagens.

Como esse era um assunto sobre a dívida da Coroa, cargo que fora confiado a ele e a Marwyn pelos monarcas, ele resolveu falar com a princesa pessoalmente.

E falar de outros assuntos importantes.

Marwyn ficaria a cargo de falar com os Reis e a Rainha; entretanto, estava ocupado esvaziando suas fezes na latrina, afastado de todos, para não espalhar a praga.

O idiota não tinha nada da praga, entretanto. Apenas havia consumido uma mistura de ervas que Alleras andou colocando em seus livros e em seu báculo — seria arriscado e complicado colocar algo em sua comida, então Alleras optou a envenenar objetos que o arquimeistre tocasse, assim o veneno acabaria por ser ingerido por ele, de qualquer forma.

Marwyn devia ter mais um ou dois dias de vida. Alleras achava que assim estaria garantido que todos acreditariam que ele morreu pela praga, não veneno.

Quando chegou à porta dos aposentos da princesa, viu Sandor fazendo-lhe guarda, aprumado. O lado feio de seu rosto era iluminado pelo lume dos archotes.

Era um homem alto, rude, feio e assustador. Com um simples golpe, ele poderia cortar Alleras em dois, caso fosse necessário.

Apesar da imagem de Sandor enchê-lo de medo, o rapagão engoliu seco e manteve seu caminho. Parou em frente ao soldado, olhando para seu olhar desigual e furioso.

— Vim ver a prin…

— A princesa não quer ver ninguém. — A voz era um raspar de aço e pedra. — Volta pro teu canto.

Alleras fez um muxoxo, irritado com a resposta brusca e rude. Ergueu o pergaminho que segurava, onde continha os números obtidos para para pagar a dívida, para que esse homem bruto pudesse ver.

— É sobre o rein…

— É surdo, Esfinge? — indagou Sandor, ficando furioso de forma brusca. — Volta para tua caverna, ou enfio esse papel no seu rabo.

Alleras arregalou, surpreso com a resposta bruta. Tentou se recompor. Limpou a garganta, aprumou-se, ergueu a cabeça, fitando Sandor no olhar.

— Vou falar com a princesa!

Sor Sandor riu. Um riso gutural assustador.

— Ah, é? Quero ver tentar!

Será que teria de matá-lo? Podia tentar, mas seria morto antes, mesmo que conseguisse infectá-lo com veneno. E, mesmo que vivesse, Sansa podia querer a cabeça de Alleras por isso (a princesa tinha algum apego bizarro por aquele feio homem).

De todo o modo, ele se preparou para um ataque, ficando em posição defensiva, caso Sandor tentasse algo.

Antes que algum dos dois fizessem algo, a porta se abriu. Os olhos escuros de Jeyne surgiram.

— Que houve, Sor? — ela indagou, dirigindo-se a Sandor.

Sandor a olhou de soslaio.

— O esfinge quer entrar na gaiola do passarinho — ele respondeu.

Ao ouvir a resposta, Jeyne olhou para Alleras, assentiu e fechou a porta. Pouco depois, voltou, falando que ele podia entrar.

Sandor, a contragosto, deu espaço para Alleras passar. Este o fez, evitando olhar para o carrancudo Clegane.

— Estarei na antecâmara — Jeyne falou. Abriu a porta de Alleras, que assentiu e passou pela soleira. A amiga de Sansa fechou a porta atrás dele.

Ao entrar, a loba de Sansa foi até o Esfinge. Lambeu a mão dele e ele retribuiu afagando seus pêlos cinzentos, sorrindo.

Parando de sorrir, ele ergueu a cabeça e olhou em volta. Alleras percebeu que Sansa não estava sentada em nenhum local. Após ver o que parecia uma protuberância disforme na cama, ele deduziu que a princesa continuava deitada na cama, e foi até ela.

— Princesa — ele chamou ao ficar próximo da cama, bem na beirada.

— Diga o que quer e saia — ela respondeu. A voz estava abafada, por causa dos cobertores de pele.

Alleras suspirou.

— Princesa, não é de bom tom se esconder assim. A falta de luz…

— Poupe-me de seus saberes, Esfinge. Fala o que quer logo.

Mesmo sem que ela o visse, ele assentiu.

— Vim dizer-lhe que consegui um pouco mais de moedas de ouro para a conta. Muito graças aos perfumes de sua irm…

— Não falemos de Arya — interrompeu ela, seca. Os cobertores fizeram um farfalhar com o movimento corporal brusco dela.

Ele juntou as sobrancelhas. Elas estavam brigadas? Se sim, talvez fosse bom.

— Sim, princesa — Alleras concordou. Respirou fundo, sentindo a garganta apertar. — Temos mais quinhentos dragões de ouro, mil cervos de prata e quase setecentos mil estrelas de cobre. — Falar tudo isso o fez sentir-se sujo.

— Ainda falta muito…

— Menos do que antes. Mais da metade da dívida foi paga. Com essas moedas…

Sansa afastou as cobertas. Revelou o rosto, os cabelos acobreados bagunçados e uma parte dos ombros. Suspirou, parecendo cansada.

— Não adianta — ela falou. — A dívida não termina até termos ganhado essa maldita guerra. Precisamos derrotar Aegon!

Ao ouvir tais palavras, o coração de Alleras apertou. Se a Casa Stark ganhar a guerra, poderia significar perder sua família.

— Os monarcas não se movem para o sul, infelizmente — comentou. — Resta-nos tentar resolver as coisas até lá.

A princesa fez um muxoxo, irritada.

— Deixe que eles mesmos resolvam — ralhou ela. — Os lordes querem sangue. Querem ir à guerra.

— Concordo. Se eles os deixassem ir para algum terreno ao sul…

— Não o farão — interrompeu ela. — Estão muito concentrados nessa tal ameaça do Norte.

— E a princesa, no que pensa?

— Penso que quero ficar sozinha. — Voltou a se cobrir.

— Princesa, os monarcas…

— Que cuidem de seus próprios reinos!

— Mas, e os lordes? Lorde Rolland insiste em vê-la, quer falar com você sobre o Vale.

Um silêncio se instaurou no cômodo por um tempo. Até que a princesa falou:

— Ele falou com você sobre isso?

— Enviou-me um servo — Corrigiu. — Mas sim. Parece estar a par de… Nosso trabalho juntos.

— Bom, ele que vá falar com o meu irmão, o rei!

— Mas ele e os outros lordes insistem em vê-la! O quê falo para eles?

Sansa agarrou a barra da pele e afastou-a, revelando o rosto novamente.

— Diga para todos que eu morri — sibilou. — Diga-lhes que morri, que dispensei o funeral hipócrita e vazio deles. Diz que podem procurar outra para bajular e casar, ou, se quiserem, que esperem o fim da guerra, aí podem lutar pelos ossos!

Alleras ficou surpreso pela resposta. Ao pensar que combinaria com algumas de suas irmãs, ele mordeu o lábio inferior, segurando o riso. Quando se recompôs, ele respondeu:

— Nada me agradaria mais, minha princesa, garanto-lhe isso. Entretanto, os reis mandaram-me para…

Sansa fez um estalo com a língua, afastou as cobertas, enquanto se apoiava em um braço para erguer o torso. Sentou-se, levantou-se, afastando-se da cama, por fim virou-se para encarar Alleras.

Este se sentiu ruborescer no começo, achando que a princesa estaria com uma simples camisa de linho feita para dormir. Por sorte, ela estava com um vestido branco de lã fina e simples. Tinha se deitado vestida.

— Os Reis o mandaram? — questionou ela. — E por que meu irmão não veio?

Alleras sabia o motivo, as fofocas voavam, mesmo nesse imenso e isolado castelo, mas não podia falar. Na verdade, mesmo ele ficou tão chocado, que logo teria de perguntar para Margaery se tudo aquilo era uma obra de Petyr.

Tentando esconder o nervosismo, Alleras engoliu seco, contraiu os ombros.

— Não minta para mim! — avisou-o a princesa, juntando as sobrancelhas. Dirigiu o olhar para o papel enrolado em uma das mãos do rapagão. Apontou para o objeto com o queixo e indagou: — É deles?

Alleras fez que não com a cabeça.

— São os números obtidos, princesa. — Estendeu o papel na direção dela, mesmo que o catre os separasse.

Ela meneou a cabeça, indicando que veria o conteúdo depois.

— Que querem os reis? — ela insistiu.

— Não sei.

— Não sabe ou não pode dizer?

— Um pouco dos dois, talvez?

Ela bufou, batendo o pé no chão.

— Que seja. Irei vê-los. Mais alguma coisa?

Alleras limpou a garganta para falar. Estava desconfortável com toda a situação.

— Só que… lamento pelo seu marido, princesa. De verdade. — Sua voz saiu embargada.

Sansa pareceu surpresa e abalada pela menção ao seu marido. Virou-se e deixou-se cair num banco sem espaldar. Abaixou a cabeça, deixou os ombros caírem, curvou um pouco, suspirou pesadamente.

— Harrold era um idiota, a bem da verdade. Mas era meu marido, não? Dizem que uma boa esposa honra seu marido.

— As pessoas dizem muitas coisas sobre mulheres — ele retrucou —; poucos, porém, consideram a imagem dos homens. É dever de uma mulher respeitar um marido ruim?

Sansa voltou a encará-lo, com um sorriso fraco.

— Bem dito, muito bem dito. — Sorriso morreu. — Apesar de tudo, ao mesmo tempo que me sinto livre, me sinto triste pela morte dele.

Alleras arqueou as sobrancelhas e depois as juntou.

— Você o amava?

Ela chacoalhou a cabeça, fazendo uma careta.

— Claro que não! Eu apenas fiz o meu papel como esposa… Para voltar para casa, é claro. Nunca foi tanto por dever e sim, ambição. — Continuou: — O problema é que Harrold morreu sem um julgamento e agonizando.

Alleras nada retrucou; segurando o impulso de dizer que Harrold mereceu o fim que teve. Tinha de tomar cuidado com o que falasse, pois podia ser desmascarado.

— Lembro-me de ver Joffrey agonizar — Sansa continuou. — Foi rápido, pois eu logo sai correndo. Mas lembro-me do medo nos olhos dele, no som que ele fazia para respirar. — Continuou: — Cersei chorava. Sim, foi a única vez que vi um pouco de emoção nela. Joffrey sempre dizia odiar o choro de mulheres… Bem, somente ela tinha lágrimas para dar a ele.

Enquanto ouvia Sansa descrever a morte de Joffrey, Arellas sentiu como se seu estômago se apertasse. Imaginou Harrold, sufocando, sozinho, implorando por ajuda, implorando por ar, sem sucesso. As unhas rasgando a sua carne, cedendo a insanidade e desespero, numa tentativa agonizante e bizarra de abrir caminho para obter um pouco de ar.

Alleras fez uma expressão de dor ao ouvir aquelas palavras, mas foi rápido em tentar se conter e desfazer a careta. Tinha que se conter, tinha que esconder a culpa, os segredos, a agonia que sentia de ter o coração e o estômago se contraindo dentro de si.

Um silêncio longo e desconfortável tomou conta dos aposentos.

— A bela princesa não deve chorar por gente assim — Alleras tentou confortá-la. — Eles fizeram muito mal, e agora, morreram.

A princesa anuiu.

— De fato. — Deu um suspiro. — o problema é que, com Harry morto, seus malditos lordes vão ficar me perseguindo. Estão loucos para casar-se comigo; devem acreditar que sou um dote que trás junto o Ninho da Águia, já que sou viúva do anterior, acreditando que isso aumenta a chance deles de conseguir as terras do Vale. Ah, e Winterfell, é claro.

O Esfinge franziu o cenho.

— Seus irmãos ainda vivem — Ele pontificou.

— Mas não tem herdeiros — ela o lembrou. — Se Jon tiver filhos, vão ter o Trono de Ferro e talvez Pedra do Dragão. Talvez, se ele tiver muitos filhos, ele deixe que um deles reivindique o Norte.

“Quanto a Bran, ele é o príncipe de Winterfell. Ficará com o Norte, enquanto Jon fica no Sul. — Levou uma mão ao ventre. — Não sei se ele terá filhos, o que significa que, mesmo que eu não herde, meus filhos herdarão Winterfell e o Norte, caso eu tenha algum.”

— E você quer? — Alleras indagou. — Quer casar-se de novo? Ter filhos?

Sansa tremeu com os questionamentos dele.

— Nem sequer sei se posso ter filhos — respondeu ela, mas ele acreditou que ela tentava desviar o assunto.

— Talvez — ele concordou. — Ou apenas não teve a felicidade… ou infelicidade, nesse caso… de ter vingado alguma criança em seu ventre. Ainda é jovem, tem regras em um ciclo normal, boas ancas… — Voltou a questão inicial: — Mas você quer? Quer ter filhos?

— Não — admitiu. — Não tenho qualquer vontade de casar. Nem sequer quis casar-me com Harrold. — Apertou os lábios.

— Na verdade, eu… — enrubesceu, ficando com as bochechas quase da cor dos cabelos. — Não sinto vontade alguma. Não tenho o mesmo desejo que vejo mulheres como Cersei, Daenerys e Arya terem — explicou. — Posso achar um rosto bonito, e posso ter algum nível de amor, sei que sim. Porém, não tenho… — Ela parou de falar, ainda mais avermelhada.

— Desejo? — sugeriu Alleras.

Ela anuiu.

— Sim. Isso. As relações com Harrold… Elas… — Amarrou a cara. — Eram nojentas. Não havia prazer algum nelas. Só da parte dele, mas nenhum meu. — Deu de ombros. — Talvez os deuses apenas não se importem com o prazer e felicidade das mulheres.

— A princesa já atraiu-se por mulheres?

Ela o fitou, surpresa e incrédula ao ouvir tal pergunta, juntando as sobrancelhas e enrugando o cenho.

— Ora, claro que não! Nunca! — Ficou ainda mais vermelha.

Alleras enrubesceu também, envergonhado por tê-la deixado desconfortável. Sorriu, meio sem jeito.

— Perdoai-me, cara princesa. Apenas perguntou porque isso é visto como errado ou incomum em Dorne, nem nas ilhas do Verão. Não há com o que se envergonhar.

Sansa assentiu, ainda parecendo um tanto desconfortável.

— Certo. Bom, não tenho atração por mulheres, Alleras.

Alleras assentiu, ainda sentindo que ela estava desconfortável.

— Bem, nem todos têm o mesmo tipo de desejo — tentou acalmá-la. — Você apenas tem prazer em amar, não no ato.

A princesa pareceu analisar as palavras dele, em silêncio. Por fim, acenou com a cabeça.

— Certo. Talvez tenha razão. — Abaixou os olhos, parecendo voltar a ficar triste. —De todo o modo, meus desejos não importam para os lordes. Terei de cumprir meu dever, de qualquer modo.

— Ninguém a obriga…

— Ah, claro que obrigar-me-iam! — Vociferou ela, erguendo os olhos e fitando-o com raiva. — Tenho meus deveres! E sei que alguns estarão muito felizes em se prontificar a lembrar meu irmão mais velho sobre isso!

Ele sabia de quem ela falava, mas ignorou. Ao invés disso, tentou acalmá-la:

— Tenho certeza que os lordes…

— Os lordes apenas querem minhas terras! Terras essas que nem são minhas! Se Edmure e seu filho morrerem, de certo tentarão me usar para ter Correrrio!

Sem saber o que responder, Alleras apenas a fitou, agoniado.

— Princesa, eu… eu… — tentou falar algo, mas nada saiu. Ao perceber que sua boca ficou aberta, fechou-a.

Não tinha como ajudá-la. Nem sequer sabia se deveria fazê-lo.

— Ora, sei que não é culpa sua, Alleras! Nem sequer o deveria aporrinhar com minhas lamúrias.

Ele tentou dar um sorriso caloroso em resposta, entretanto sabia que o gesto saiu fraco e torto.

— Nada agrada-me mais do que servi-la, princesa.

Sansa deu um risinho.

— Ah, sei que sim. Garanto que sei.

O sorriso dele diminuiu, pois ele se sentiu sem graça.

— Falo sério, princesa. Não estou a tentar seduzí-la. Até porque sei que não tenho boa estirpe.

— Você pode não ter estirpe, mas tem mais carisma e beleza que a maioria, admito.

— Creio que a competição não é grande nesse requisito, devo dizer. Embora, por uma beleza outonal e doçura de coração como o seu, vale a pena, de qualquer jeito.

— Qualquer dia — ela avisou, com expressão séria, mas com a voz divertida —, alguém vai acabar por matá-lo por sua ousadia!

— Se a princesa quer minha vida, saiba que já a tem.

Ele tentou não falar aquilo seriamente. Porém, pareceu não conseguir, pois o olhar de Sansa ficou sério.

— Que seja. — Ela levantou-se. — Agora saia. Devo me vestir para ver meu irmão e a rainha.

Alleras assentiu, curvou-se, aprumou-se, girou os calcanhares, saindo do cômodo.

Após sair, fechando a porta atrás de si, afastou-se do local, voltando a passar por Sandor sem olhá-lo.

Ao afastar-se mais, descendo alguns dos degraus, Alleras parou, colocou as costas contra a parede fria, deslizou para baixo, ficando agachado. Afundou o rosto nas mãos.

Não sabia o porquê, mas começou a chorar, sentindo as lágrimas escapando de suas pálpebras e os soluços escapando. Talvez fosse porque ele não podia ser sincero com a princesa, nem parar a dor no peito, nem mesmo rever sua família.

Queria falar a verdade para a princesa: seus sentimentos, quem ele era, que matou Harrold, e que havia acabado de condenar a imagem da casa dela para o Banco de Ferro e para o Reino.

Respirou profundamente. Abriu os olhos e ergueu o rosto, tocando a nuca na parede fria.

Tinha que manter-se firme. Faria isso pela sua família e pela sua princesa.

Sim, ele podia fazer isso. Alleras podia deter aqueles que ameaçavam a vida dos que eles amavam. Faria isso, depois estaria nas mãos dos deuses e sua justiça.

Dos deuses e de Sansa.