Arya saltou sobre a cabeça de um dos Wights, dando uma pirueta no ar; com o bastão de represeiro, acertou-lhe o crânio com tudo. O crânio foi esmigalhado, mas sabia que não faria diferença; o morto nem sequer usava o crânio. Mas serviu para derrubá-lo. Eram lentos para levantar-se.

Sor Gendry estava adaptando-se ao novo braço; bracejava-o, conseguindo jogar um inimigo para longe. Sua espada – incendiada quando ele raspava o gume da pele que fora queimada Melisandre – era mais útil. Cortava o ar, ateava fogo na pele dos inimigos. Além da espada valiriana usava um escudo de pau ferro – que achou em meio aos destroços – para bloquear e empurrar quem quer que estivesse à sua frente. O Touro os derrubava um a um. Ele podia não ser nobre, mas era um ferreiro; mais importante, era amante da irmã favorita do Rei do Norte. Ele dispôs de todo o metal que precisava para fazer uma armadura completa – gretas, peitoral, gorjeira, brafoneiras, manoplas, saiote de ferro; todo o tipo de proteção de ferro, Sor Gendry dispunha para si. Homens podiam odiá-lo, amaldiçoá-lo, mas ele ainda era o homem que aquecia a cama da princesa Arya – ninguém se atrevia a negar um pedido, ou iam de enfrentar a fúria do próprio Rei Jon.

O elmo, porém, era um espólio que Gendry pegara do cadáver de seu companheiro, Limo Manto Limão. O capacete tinha o formato de um irritado cão de caça.

Enquanto os dois guerreiros lutavam, Sor Sandor ficava para trás. Ele tentava acompanhar os dois, andando de forma parca na neve. Suas pernas estavam meio formigando. Não sentia os próprios pés. Pressionava o braço ferido com a mão do braço bom, para impedi-lo de mover-se. Tinha de seguir a linha de abertura que Gendry e Arya formavam conforme “matavam” os já mortos.

Ele notava como os dois jovens adultos matavam com fúria. Arya, rápida, fria; Gendry, bruto, jogando alguns dos inimigos para longe conforme os golpeava. Era a morte de Edric que causara esse ódio?

Esse idiota deve ter a mesma idade que eu tinha quando conheci as irmãs Stark, refletiu. Sabia que, por debaixo do elmo acerado, o rosto de Gendry parecia mais envelhecido: cabelos ruços, pele queimada e coriácea, uma horrenda cicatriz na bochecha esquerda. Um rosto envelhecido, amargurado, cheio de fúria. Podia-se perceber isso pelos olhos azuis tempestuosos. Intensos. Tal tempestuosidade explodia nos gestos que o homem fazia ao bracejar a espada de fogo e o escudo. O guerreiro dentro dele parecia vir à tona como um animal selvagem – parecendo se esquecer de que os inimigos eram mortos que não sentiam dor, perdia tempo agredindo alguns até seus corpos caírem, ou até os crânios serem destruídos.

A selvageria de um cachorro com raiva, pensou Sandor.

A imagem das chamas eram aviltantes para ele. Era como se martelassem dentro de seu crânio. Seu coração parecia acelerar mais e mais conforme as flâmulas se intensificaram. Apertou os olhos, sentindo a ardência atrapalhando a visão. Lágrimas começaram a queimá-lo. Seu queixo, a parte destruída dele, começava a doer.

Acabou caindo ao tropeçar na neve, com o pé parecendo ficar entalado na cobertura açucarada. Seu braço ferido pareceu explodir antes do corpo estatelar-se na neve. Tudo ficou preto quando uma onda gelada afetou-lhe por todo o corpo. Ali ficou, sentido o enregelar transido, junto da dor na axila, que aumentou quando, por reflexo, ele moveu demais o braço. O bracejar deve ter feito a região onde os elos da cota estavam presos se romperem, rasgando a carne. Pelo menos o frio diminuiu um pouco a dor.

Sandor não moveu-se. Nem sequer ergueu a cabeça. Não precisava, sabia exatamente o que o rodeava. Enquanto estava com o rosto afundado em uma camada grossa de flocos, rezou mentalmente, esperando para os mortos que terminarem com sua miserável vida e dor.

Quando alguém lhe ajudou a erguer-se, chacoalhou a cabeça, expulsando a camada de geada na face destruída. Cuspiu, expulsando o conteúdo que estava na boca. Não sentia o próprio rosto, estava tudo dormente. Apenas sentia a dor dilacerando por todo o ombro, percorrendo até todo o braço, parando perto da mão – também dormente.

Pestanejou, sentindo as pálpebras grudentas, tal qual os cílios. Apenas um olho enxergava; o outro era cego por conta das chamas da lareira onde Sor Gregor empurrara o irmão mais novo.

— Levante! — exclamou o salvador. Não era Arya, nem Gendry. Era um homem mais velho que ambos.

Grunhindo, Sandor fez força para erguer-se, apoiado pelo homem mais velho que o salvara.

Quando conseguiu enxergar melhor, percebeu ser o lorde do Vale que apoiava Sansa: Sor Yohn. Ele usava uma armadura de bronze com runas dos primeiros homens. Tinha uma barba cinzenta salpicada por floquinhos. Atrás dele, seu primogênito, Sor Andar Royce, empunhava uma tocha contra os cadáveres claudicantes. Alguns usavam vestes puídas, carcomidas; isso quando usavam algo. Uma boa parte parecia ter morrido recentemente, tendo menos palidez na tez, quase nenhum sinal de decomposição; usando armaduras, cota de malha e/ou couro fervido. Ainda era possível o sangue recém coagulado neles. Alguns estavam com partes do corpo enegrecidas pelas chamas de Drogon.

Todos tinham um estranho e enervante brilho estelar no olhar; cheiro podre de frio.

— Consegue lutar? — indagou Lorde Yohn.

— Estou ferido. — Seu braço ainda doía, mas menos intensamente. O sangue parecia quase todo coagulado, talvez parando a hemorragia. O clima de extrema friúra devia estar deixando o membro dormente. Não sabia se isso era realmente bom; pois podia estar se esvaindo em sangue e nem saber.

— Lamento, mas preciso que mantenha-se firme. Temos de encontrar os outros.

Apesar de cansado – e irritado pelo absurdo pedido daquele lorde –, Sandor acenou com a cabeça de forma positiva.

— Arya e Sor Gendry estavam comigo agora pouco – revelou. Os dois haviam sumido, deixando-o para os cravos em forma de gente.

— Devem de estar reunindo a matilha de Nymeria — intuiu Sor Andar de costas para a dupla que papeando. — Seguimos a luz da espada daquele maldito ferreiro, mas ela sumiu no nevoeiro.

— De toda a forma – falou Sor Yohn, erguendo uma espada –, temos de continuar.

A espada dele era de gume vermelhento nos dois lados. A lâmina tinha ondulações escuras onde o ferreiro que a dobrara várias vezes. Valiriana.

A espada devia ter sido espólio de guerra, se o que Sandor se lembrava se provasse certo. Não sabia se a casa Royce tinha alguma espada valiriana consigo; mas lembrava-se de que, em suas expedições no encalço de Petyr Baelish, ouvira alguns cavaleiros e soldados falando de como alguns lordes roubaram as espadas valiriana dos cadáveres dos revoltosos homens das ilhas de ferro. Uma delas, ele sabia, era Chuva Rubra. Sabia disso pois já ouvira falar dela antes: a espada da Casa Reyne, roubada há muito numa das invasões dos homens das ilhas de ferro.

O filho de Bronze Yohn também tinha uma espada valiriana pelo que podia ver: longa, escura, com uma pedra da lua no punho.

Sandor, atabalhoado, agachou-se, ignorando a dor no braço. Agarrou o que o parecia um pequeno e delgado bastão no chão, puxou. Os deuses ouviram suas preces; era um machado de guerra, do tipo antigo. Por sorte não era de bronze.

— Sigamos em frente! — falou. Voz embargada, ainda fraca. O sangue voltava a correr pelo seu rosto, fazendo este ter formigamentos.

Apesar de fraco, o braço não ferido de Sandor ainda era capaz de segurar e usar o machado. Infelizmente, como estava fraco e armas de lâminas pouco faziam para aquelas criaturas, apenas podia fazer uso de golpes fortes e chutes desajeitados. Para seu alívio, o corpo parecia estar voltando à vida. Todavia ainda estava transido de dor e de desesperança. Uma miríade de corpo estava sobre ele e os outros dois soldados. O breu e a névoa tapando qualquer boa visão de campo que poderiam ter.

A treva do céu pareceu ser rasgada quando fogo jorrou de cima dos céus negros, seguindo caminho numa diagonal que meneou uma parte do exército dos mortos. A parte queimada se alastrou, como uma ferida infectada afetando o restante do corpo; rápido como palha seca queimando. Era a leste, longe de onde o grupelho de Sandor estava, mas isso mostrava que o dragão da rainha ainda estava vivo. Sua silhueta escura voava nos céus, mas bem perto do solo. O voo era estranho, de gestos tortos. Estava bem ferido pelo que podia ver.

Sandor tentou não deixar a visão da chama afligi-lo. Pensou em como ela afetava apenas o inimigo. Desvantajoso para eles era, não para ele.

Enquanto acertava o pescoço frágil de um dos mortos fazendo a cabeça voar, uma rajada de vento violenta atacou, fazendo Sandor se encolher, tremendo. Bronze Yohn também tremeu; a chama carregada por seu filho apagou-se em um simples instante.

— Merda… — xingou Sor Andar, fitando a tocha apagada, que soltava fumaça acre escura e fina no ar, com seus arregalados olhos cinzas. Sua expressão era mais de pavor do que de ódio.

— Podemos acendê-la! — exclamou Bronze Yohn, talvez tentando acalmar o filho. — Vem a mim! AGORA, ANDAR!

Foi só então que perceberam: os mortos haviam parado. Sandor notou que o local onde o dragão da Rainha havia incendiado estava amainado. O vento apagara boa parte do fogo. Os focos de luz estavam perdidos!

— Pela misericórdia do Pai e da Mãe… — sussurrou Sandor ao ver Os caminhantes.

Os ressuscitados davam ala a seus mestres, afastando-se para abrir caminho. Eles vinham sem fazer qualquer som. A maioria vinha a pé, sem nem parecer tocar o chão; outros andavam em cavalos mortos, cuja carne praticamente nem existia mais.

Sem dúvida, a figura que mais chamava atenção era a única que aparentava ser uma mulher. Esta cavalgava uma imensa aranha de cristal, como se fosse apenas uma elegante montaria qualquer, sem nada de realmente extravagante. A montadora tinha toda a figura de uma monarca em seu auge de poder e beleza: uma imensa coroa de cristal que cantava e brilhava conforme movia-se; pele de alabastro; cabelos finos, como que tecidos de filandras de seda argentina; o vestido era de fina seda transparente, rebrilhante, azulada, expondo o corpo esguio e perfeito. O rosto, oblongo, nariz adunco, tendo uma simetria assustadoramente perfeita de ver, como se fosse uma estátua de gelo esculpida pelos deuses.

O mais hipnotizador e atemorizante na figura eram seus olhos: estrelas fulgentes e fustigantes; atraindo o olhar de qualquer homem que a visse, queimando a alma com o seu cruel friúme.

A Rainha da Noite, Sor Sandor se lembrou de quando Arya e Melisandre a mencionaram mais cedo. Mas como ela e o seu exército teriam passado pelo círculo de fogo dos sacerdotes?

Se pudesse, Sandor teria feito o sinal da estrela de sete pontas. Observou que o exército de mortos continuava parado no mesmo lugar. Pareciam cães esperando o sinal do dono para avançar. Ou uma plateia para assistir o espetáculo que está por vir.

A Rainha deslizou de sua criatura com uma elegância nunca antes vista. Deu alguns passos para frente, sem nem parecer tocar a neve com seus delicados pés descalços. O vestido esvoaçava com a brisa. Era fino, sem mangas, nem cobria os calcanhares; mas a figura que o envergava nem parecia se importar com o frio, deixando-o agitar seus alvos cabelos. Os cristais cantavam e dançavam. Sandor, tremendo até o queixo e ruborizando, sentiu que a visão era uma tentação do demônio; a mulher mostrava seu pálido corpo para todos, expondo seus mamilos arredondados e com auréolas azuis; mostrando a lisa fenda que encontrava-se entre as suas pernas de perola argentinada.

A figura-mulher sorriu. Os homens de sangue quente ficaram com a pele mais arrepiada. Isso fez todos os Caminhantes Brancos que acompanhavam a sua líder começarem a rir. A risada era agonizante, parecendo gelo trincando de forma copiosa e ruidosa.

De chofre, com um gesto simples da mão da pálida mulher, uma longa e fina espada formou-se, toda ela de cristal. A Rainha segurava o punho transparente. O gume tão fino que sumia quando virado.

Engolindo seco, Yohn Royce atacou, surpreendendo seus companheiros, que o relancearam com choque. Ergueu a longa e rubra espada.

— Pai, não! — falou Sor Andar, vendo seu genitor e criador avançar contra a mulher de gelo, sem poder impedí-lo. A angustia desesperadora era vísivel nos olhos, no semblante; audível na voz afetada.

Tudo aconteceu tão rápido que ninguém poderia ter impedido.

Sem parecer temer o atacante, a rainha o deixou avançar. Quando ele estava bem mais perto, com um simples gesto, ela bloqueou-o, apenas erguendo a espada, segurando-a no punho com uma mão lisa, sem parecer fazer qualquer esforço. Como ela era rápida!

A espada da rainha fez um som ensurdecedor ao ser tocada pelo aço tingido, que pareceu ferir os ouvidos dos três homens de sangue quente e arrefecer o humor dos de sangue gelado. Com um semblante de desgosto, a rainha falou algo que nem Sandor e nem os Royces entenderam. Os companheiros dela pareceram papear com ela, mas suas falas apenas magoaram e enervaram os homens.

Tentando recompor-se, Yohn Royce chacoalhou a cabeça. A espada de gelo de sua inimiga estava trincando, derretendo, criando filetes frios e nevoentos. Sabendo que a espada ainda estava travada pela defesa da Rainha, e que esta estava distraída, ele afastou a Chuva Rubra da lâmina que insistia em bloqueá-lo, pronto para dar um golpe que atingisse a figura a sua frente que nem sequer o olhava.

Nunca teve chance, pois antes mesmo que percebesse, a Rainha moveu a própria lâmina, fez-a descer. O ar pareceu escapar dos pulmões de Yohn. Um corte surgiu na sua armadura de bronze, atravessando a cota de malha, couro fervido, e até a barriga. Nem sentiu nada, apenas uma leve pontada gelada no local, demorando até para entender o que eram os riscos vermelhos que escorriam dele. Apenas quando as gordas e quentes tripas saltaram que ele entendeu que seu estômago estava aberto. Gorfou sangue, ainda olhando a região, sem nem entender que suas pernas esmoreceram e que havia tombado, até que sentiu o golpe fofo de neve atingi-lo no lado direito do rosto. Uma de suas mão ainda segurava, fraca, o cabo espada. Tentou respirar, soltando apenas um chiado estranho, cuspindo mais sangue acumulado. Com a outra mão, débil e lânguida, tentou colocar o estômago no lugar, ainda não entendo que havia acontecido.

Pai! — Sor Andar gritou, sentindo as lágrimas escorrerem em seu rosto. Seu pai quase não pôde ouvi-lo. Parecia tão longe… abafado por um estranho e cruel som que dava-lhe arrepios. De qualquer forma, ainda era possível perceber a agonia na cadência.

Meu filho… pensou ao captar a voz desesperada de seu primogênito. Tentou haurir ar com muita dificuldade. A imagem de seu primeiro filho pairou em sua visão embaçada; não o galante adulto e guerreiro que ele se tornara, mas a frágil criança que ele era no passado, ainda treinando espadas com seus irmãos mais novos. Meu último filho...

Tinha que se levantar! Tinha que proteger Andar! Tinha que reencontrar Ysilla, salvá-la daquele caos, dizer que ele ainda a amava e perdoava-a por qualquer erro!

Meu filhos… Os últimos que tenho… sangue de meu sangue...

Escarrando mais sangue, sentindo seus fluídos e dejetos escaparem pelos orifícios de seu frágil corpo, sentindo o líquido rubro que saltava da abertura de sua barriga aquecer o seu braço e mão, Sor Yohn ergueu os olhares, lutando para mantê-los abertos. Viu a estranha e bela figura feminina aprumada a sua frente. Foi então que ele percebeu: estranho som que ele ainda conseguia ouvir, que gelava sua espinha e alma, eram os risos de escarnio dela e de seus companheiros.

Mesmo quando tudo foi tomado pela treva, ainda podia ouvi-los rindo dele.