Alleras andava contra a corrente de soldados que marchavam contra sua direção, surgindo como sombras andantes ao sair da bruma densa. Eles iam para frente, ele para trás. Usava um bom par de botas, cano alto, forradas de pele, para proteger os pés do frio. Os flocos de neve que atingiam sua escura face ardiam, derretiam. Ardiam, derretiam, de novo, de novo, de novo. Ignorava o enregelar, assim como ignorava os que marchavam. Seus grossos cabelos escuros estavam amarrados para trás, para não atrapalharem a visão quando o vento lhes abatesse.

Apesar do manto que o cobria ser pesado, seus movimentos ainda eram leves, furtivos. Seu belo arco de Coração de Ouro, uma madeira dourada advinda das Ilhas do Verão, terra materna, tinha um brilho fulgente como ouro batido, estava preso em suas costas; apenas os arcos de Osso de Dragão eram capazes de superar a capacidade de tal arma. O alforje estava logo ao lado.

Ainda, porém, não era o momento para usá-los. Tinha de fazer algo antes.

A pele que usava para encobrir sua identidade era a de Sarella, usar a face de Alleras seria como vestir um alvo no corpo todo.

Enquanto caminhava, as luzes de tochas iam e vinham. As únicas imóveis eram as das chamas das fogueiras dos sacerdotes vermelhos. Estes rezavam em palavras antigas, variando de línguas (Valiriano, valiriano bastardo, Asshai dentre outros jargões), movendo suas mãos como se tecessem o ar e a fumaça. As labaredas balançavam conforme os gestos; as formas modulavam-se, como que vivas, assim como as cores. Algumas palavras e formas brotavam das fumaças. Alleras não perdia tempo para decifrá-las.

Como as suas vestes eram escuras, cobertas de neve, não perceberiam Alleras como mais que um mero plebeu — estava tão coberto que nem seu corpo feminino era visível. Isso lhe permitia passar despercebido pelos soldados, que ou lhe ignoravam ou rogavam-lhe pragas, mandando sair do caminho deles. Perfeito.

A terra que cobria o chão do castelo era um amontoado de sulcos marrons um tanto ruços, parecidos com pequenos montinhos parcos e deformados, formados por úngulas e pés; uma união feiosa de terra e neve.

Para um desconhecido, era fácil perdesse em Harrenhal: era um reino dentro doutro. Alleras, porém, sabia o caminho de cor e salteado: andara por todo aquele ambiente, principalmente após se disfarçar e virar um foragido da coroa. Foi como quando virara um acólito na Cidadela: o tempo livre era usado para adquirir conhecimento; fosse lendo ou mapeando mentalmente a arquitetura das ruas de Vilavelha. Algum acólito desconhecedor da fome de informações que tinha podia se perguntar, ao ver que ele sempre a ler e ler, “o que O Esfinge faz no tempo livre?”, no que outro acólito familiarizado a Alleras diria “simples! Estuda mais!”.

Era assim para Alleras. Sempre foi. Não suportava ficar parado. Talvez por isso fosse o favorito de muitos dos arquimeistres da Cidadela, mesmo o irritante e pedante Marwyn admitia que O Esfinge era um rapagão promissor — principalmente quando estava sendo adepto a magia.

Alleras sempre atraiu a atenção de todos, principalmente das mulheres. Dos homens, no geral, ou era inveja ou admiração (geralmente os dois). Nunca ficou com uma mulher; preferia gastar mais de seu tempo lendo, interlocutando, treinando sua pontaria.

Quando os rugidos da fera alada, que há pouco voara para a batalha, começaram a se intensificar, muitos que se preparavam para lutar tremeram. Alguns até fugiram, deixando seu percurso de marcha.

Alleras sabia o resultado daquilo: morte. Os Reis foram bem claros quanto a isso: quem deixar seu posto será executado.

Todos sabiam que o triunvirato há muito deixara a misericórdia de lado; os reis estavam cada vez mais crueis e afiados. Todos os ladrões (armas, comidas, roupas…) eram rapidamente mortos. A maioria pelo dragão da rainha; alguns pela lâmina do próprio Rei (essa agora era uma penitência difícil de acontecer, pois ele andava muito ocupado); queimado na fogueira dos sacerdotes, ou jogado aos lobos no fosso.

O motivo para aquilo era bem claro: a triarquia das coroas era bem clara quanto às suas regras; quebre-as e servirá de exemplo para que outros não venham a repetir.

Havia uma outra pena, ainda pior, para os que ousavam matar os animais que ajudariam na batalha (não importava se era um motivo banal, como, por exemplo, alguma disputa entre tribos selvagens, ou se por desespero, como para obter comida ou para se aquecer), ou para os que matavam sem motivo. Alleras estava olhando para os locais onde os que foram considerados culpados de tais crimes foram enclausurados: gaiolas de aço negro, erguidas há metros de distância do chão. Algumas gaiolas, as maiores, também eram encontradas no solo. Nas paredes ou no solo, todas eram como imensas gaiolas para corvos.

Alleras imaginava o motivo para tal barbárie: quanto mais vivos tivessem, melhor seria contra a luta dos outros. Matar uma vida era como diminuir um exército já pequeno. Então a pena por tal crime tinha de ser a pior possível. (Claro, muitos poderiam achar mais aterrorizante serem queimados ou devorados, mas quantos iam de preferir ficar em alojamentos minúsculos, durante frio extremo, enquanto passa fome e corvos e ratos comem sua pele por dias?)

Não havia mais pessoas presas nessas coisas horríveis. Quando a Grande Ameaça da Longa Noite estava muito perto, foi-se ordenado a execução de todos os prisioneiros. Todos os que estavam vivos e mortos foram retirados, levados a imensas fogueiras ou para levados até o distante bosque, donde nunca mais voltavam.

Não havia corpos. Todos os mortos eram levados para o fogo, para que não ressurgissem depois.

(Alleras também acreditava que os Reis talvez tivessem deixado os corpos para apodrecer na esperança de que os Caminhantes pudessem ressuscitar, assim poderiam estudar tais criaturas. Infelizmente, quer as suas deduções estivessem certas ou não, nenhum corpo foi revivido.)

Após tantas mortes públicas, viu-se perguntando com que olhos o povo e os lordes viam seus monarcas — heróis? Déspotas? Monstros? Pelas suas empreitadas entre os mercenários, percebeu que eles não tinham grandes sentimentos por qualquer um dos que usasse coroa, apenas queriam estar do lado vencedor. Entre os selvagens a canção era diferente: Jon era um salvador; ressurgiu entre as chamas para guiá-los contra a Longa Noite. (Alleras não sabia dizer de onde tais histórias surgiram, mas mesmo alguns sacerdotes vermelhos entoavam a música.)

Com Daenerys não era muito diferente, pelo menos para o povo de Essos; era a Não Queimada, Quebradora de Correntes, Mãe de Dragões.

Quando finalmente chegou na torre onde Arya e seus amantes tinham aposentos, Alleras acelerou os passos. Tinha de ser rápido. Por sorte ninguém lhe barrou; adentrou, passando pelo grande umbral. A entrada continha neve acumulada, trazida pelo vento. A patina açucarada ficava mais fina conforme adentrava no local, até sumir de vez, com apenas um salpicar de flocos brancos a esmo.

Bateu as mãos enluvadas nos braços e ombros fazendo o acúmulo de neve se soltar das vestes e cair. Retirou o capuz, fazendo mais neve se soltar. Olhou rápido para trás. Ninguém. A parede cor-ruça impedia-o de ver qualquer um ou qualquer coisa lá fora e vice-versa.

Virou-se para a escada. O imenso lance de degraus se subia, subia e subia até sumir na treva do teto.

Alleras hauriu ar frio, caminhou até a escada, começou a subir. Sua respiração formava pequenas névoas baças que sumiam quase que instantaneamente. Sentia a transpiração começando. Sua testa era um acúmulo de bicas minúsculas. O frio quase sumia, o calor, crescia. Conforme subia os andares na imensa escada caracol, sua tensão aumentava.

Quando chegou no andar da princesa, estava quase sem fôlego. Resfolegou antes de caminhar pelo corredor. Suas bochechas ardiam, seus tímpanos pareciam prestes a explodir. Sua cabeça era um caldeirão em fúria. Devia de estar com a pele marrom-escura corada.

Após inalar e soltar um último gole de ar, aprumou-se, caminhou para frente. As tochas do corredor ainda estavam acesas, mas as luzes chamas estavam esmaecidas. Andou com calma, sabia que a princesa deveria ter deixado armadilhas; ela estava ciente de que alguém tentara matá-la.

Parou perto da batente da porta. Não ficou de frente a entrada. Remexeu nos seus bolsos, pegando duas pequenas hastes de metal, levou-as à fechadura. Remexeu-as por um tempo; o som que faziam não era parecido ao de uma chave abrindo uma fechadura, indicando que estava aberta.

Ao perceber que o gesto não era necessário, estocou os movimentos das mãos, depois retirou as duas hastes, escondendo uma delas em seus bolsos escondidos. Não saiu de perto da parede; usou a outra haste para empurrar a porta, sem tocar. Foi um esforço difícil, pois era uma madeira pesada, de pelo menos mais de 12 centímetros de espessura, era difícil abri-la desse modo.

Quando a porta se entreabriu, Alleras se inclinou, tomando coragem para olhar pela soleira. Um breu.

Suspirou, irritado pela própria demora. Não se atrevia a entrar no local de maneira desleixada e abrupta.

Enquanto matutou sobre o que fazer, um som o fez parar, alerta. Virou-se, relanceando para o fim do corredor, mas não conseguiu ver nada além do breu. As luzes estavam muito fracas. Não conseguia ver nada muito além de alguns metros.

Deslizou a adaga valiriana pela manga, retirando-a de seu bolso escondido na longa e grossa manga. Num chofre agarrou o cabo de osso de dragão. Sua mão estava besuntada pela perspiração, ele temeu que isso fizesse a arma escorregar, mas, para sua sorte, não aconteceu.

Respirou fundo, esperou, costas grudadas contra parede. Olhos cravados na parede de treva defronte. A coisa por detrás do véu negro foi ganhando forma. Baixa, com os olhos começando a brilhar. Um dourado baço.

Quando a figura se aproximou, Alleras acalmou-se, exalando o ar que mantinha preso. Guardou a lâmina novamente, enquanto a loba de Sansa se aproximava dele. Quando estava bem perto, ele ajoelhou-se defronte a ela. Sorriu, afagando o cocuruto dela bela criatura. Sabia que ela o reconhecia apesar de ter outro corpo; seu olfato não lhe deixava ser enganada.

A loba latiu, como se um fosse um cão — um enorme e belo cão, próximo do tamanho de um pônei. Seus olhos eram de um âmbar dourado, num quase que ouro derretido. O animal lambeu a face escura de Alleras, passando sua língua áspera na bochecha dele, tirando um pouco do acúmulo do suor.

— Que faz aqui, garota? — indagou Alleras, mais relaxado. — Devia de estar com sua dona, não? — Começou a afagar o queixo. — Ou com o restante de sua alcateia? Hmm?

A loba apenas o fitou, de boca aberta, dentes arreganhados, com a língua indo e vindo conforme respirava, parecendo uma pequena fatia de salame cru se remexendo.

Alleras se levantou. Virou um pouco a cabeça, relanceando os olhos para a porta entreaberta. Tinha que dar um jeito de entrar. Será que…?

A loba passou por ele, ladeando-o, foi até a entrada do aposento, ficando de frente a porta de ferro e madeira.

— Calma, garota…! — exclamou Alleras ao vê-la caminhar até o local, inclinando a sua cabeça: mas, antes que pudesse fazer algo, a loba logo começou a empurrar a porta com a cabeça, fazendo esforço leve, ignorando o ranger do objeto.

Um blush ressoou, seguido de um baque surdo. A loba de Sansa, parecendo não ter ouvido os barulhos belicosos, atravessou o umbral, inabalável e elegante, como uma cachorrinha elegante e bem adestrada.

Alleras piscou com a cena. Logo foi até de frente a soleira. No começo não viu nada, pois estava um verdadeiro breu. A solução foi fácil: gesticulou com uma mão, logo uma luz surgiu na palma, aumentando e ganhando forma — logo o lume veio a saltar da mão, virando uma esfera, flutuando. O brilho fulgente apagou as sombras do local, tudo começou a brilhar. O rebrilhar foi tão intenso que Alleras piscou as pestanas; estava desacostumado com a escuridão. Chegou até a lacrimejar.

Quando sua visão se adaptou um pouco, escrutinou a área.

O cômodo era uma bagunça total: pratos de comida amontoados em alguns cantos, alguns com uma boa quantidade de comida ainda neles, atraindo alguns bichinhos; roupas esparsas no chão deixadas a esmo. Havia uma boa quantidade de garrafas de pedra vazias apinhadas num canto, perto de uma adjacente de duas paredes. O quarto tinha um cheiro de sexo, suor acre e canela pungente.

Alleras fez uma careta diante da imagem. Esperava encontrar runas e sinais de rituais; encontrou um cenário de putaria e porquice. A irmã de Sansa em nada a lembrava.

Alguns falariam que é coisa do dornês, caso o marido de Arya não tivesse cara de ândalo, pensou, sabendo que era típico chamarem dorneses de descorteses — rídiculo, pois o pai e toda sua família eram limpos em modo (certo, talvez o pai e as irmãs fossem um pouco grassos, mas nunca perdiam a pompa). Fora que boa parte de Dorne tomava mais banho que o resto de Westeros. Fez um muxoxo; não era o momento para conjecturas levianas.

A loba de Sansa estava caminhando no meio do quarto, indiferente ao perigo, parecendo até alegre. Alleras olhou para a porta: havia um pequeno arranhão dela. Ao relancear para baixo notou uma seta caída, a ponta afiada e de ferro. Ergueu o olhar; havia uma besta na parede, com um cordão fino no gatilho. Ah, esperto, mas não o bastante.

A loba sabia da armadilha?, perguntou-se. Ao voltar a observar o animal, este estava sentado nas patas traseiras, fitando-o com seus belos olhos, abanando a cauda.

Alleras sabia que a loba de Arya, Nymeria, tinha uma conexão com a sua dona. Tanto a princesa mais nova quanto Bran demonstraram óbvio poder de troca-peles — wargs nesse caso. O mesmo poderia ser dito sobre Jon Stark.

Alleras deu meio sorriso em direção a loba.

— É a bela princesa que está aí? — interpelou, brincando. A loba apenas continuou fitando-o.

Alleras deu um risinho. Sansa dificilmente o deixaria viver se estivesse mesmo controlando a loba.

Mas algo a fez vir até mim. Seria Bran? Ou há mesmo algum nível de magia nesses lobos? Pelo que sabia a loba gigante era da ninhada de Nymeria. Lobos gigantes, pelo que ele folheara na Cidadela, eram seres místicos que viviam além-muralha. (Que vivem em terras era, até então, uma berdade axioma, mas muitos estudiosos eram céticos no que tangia a misticidade.)

Não tinha tempo para pensar nisso no momento; tinha de achar a sombra da tarde. Com sorte sobrara alguma.

— Por um acaso, você não saberia onde está a bebida dos magos, pois? — indagou ele para a loba, no que ela apenas lambeu uma pata, depois coçou a orelha pontuda. Alleras deu um risinho: — Foi o que imaginei.

Pousou o arco e o alforje no chão, rentes a soleira da porta; varreu a área com olhar. Ainda podia haver alguma armadilha por ali. A princesa não seria tola de se garantir com apenas uma arapuca. A safada era esperta. (Curiosamente essa descrição combinava com o pai de Alleras.)

Olhou para uma mesa do quarto: havia uma jarra peltre sobre ela, assim como algumas canecas de estanho. Chegando perto, farejou um odor de canela. Sabia que era um cheiro comum da bebida dos antigos magos de Qarth: deixava os lábios azuis, causava alucinações e, tomada pelas pessoas certas, abria a mente para visões. Margaery era uma dessas “pessoas certas”, as visões recentes mostradas para Alleras mostraram-lhe isso.

Sabia, agora, qual caminho seguir.

Podia até não conseguir salvar Arianne, mas podia fazer o possível para fazer um caminho melhor para os Sete Reinos. A finta de Margaery tinha de prosseguir, embora não como ela acreditava.

Apesar de resoluto em sua escolha, o coração de Alleras ainda magoava-se com os rumos que sua vida – e, mais importante ainda, a vida de sua família – haviam tomado.

Seu pai se foi, assim como seu primo Quentyn, e as irmãs Tyene, Obara e Nymeria. Todos mortos, e os últimos Martell — legítimos ou não — iriam unir-se a eles caso as coisas acontecessem sem a sua intervenção.

Ainda existia uma chance de Arianne sobreviver, mas Alleras não se deixava iludir, não importa o que lhe dissessem; porém ainda podia salvar os outros. Pelo menos tentaria.

Tocou na caneca de estanho, ergueu, perscrutou-a. Havia um líquido azul no fundo. Um cheiro acre e pungente emanava dela e dos outros objetos encimados na mesa. Devia ser proveniente de alguma(s) erva(s) da princesa. Talvez um afrodisíaco, pois Alleras sentira tal cheiro antes, quando estudara ervas na Cidadela.

Pousou a caneca no tampo da mesa. Franziu o cenho.

— O que aconteceu aqui? — indagou para si, num murmúrio. Havia uma energia enervante ali, não apenas causada pelo cheiro; uma sensação que afligia Alleras: mágoa, dor, sexo, trevas, agouro…

O que você e seus amantes fazem aqui, Arya? Magia de sangue?

Olhou para o alto, para o pequeno sol no ambiente, que levitava, imóvel, impassível. Depois balançou a cabeça, fez um muxoxo; estava perdendo tempo.

Caminhou até uma arca perto da cama, parando rente a ela. Devia abrir mesmo? Claramente estava com alguma tramoia…

Que se dane.

Com as hastes que usara antes, remexeu a fechadura, até ouvir um “click”, mostrando-lhe que obteve sucesso em destrancar o objeto. Ao fazê-lo, viu apenas mudas de roupas no local – bagunçadas, claro, para combinar com o resto. Remexeu a trouxa de roupas, usando ainda as hastes.

Não achou nenhuma bebida mística; em contrapartida achou uma fina agulha entre os tecidos. Envenenada, ele sabia. Pegou-a, com a mão coberta de couro e lã, tão grossa que permitia-lhe ter alguma proteção contra objetos pontiagudos (embora não arriscasse), ergueu até a altura dos olhos. Era minúscula, mas sabia que tinha uma alta dose de veneno. Deviam de haver outras entre as vestes do baú. Na verdade, até as vestes deveriam estar tóxicas agora.

Exasperou, deixando a agulha cair entre as vestes. Fechou o baú.

Havia uma banqueta ao lado da cama. A bebida estaria nas gavetas? Improvável. Além do mais, podia ser ainda mais perigoso abrir uma gaveta do que abrir a porta e enfrentar a besta e sua flecha.

Virou-se para a loba no quarto, ainda sentada no zero, olhando-o, curiosa.

— Consegue me entender? — Foi até ela, acocorou-se, pegou a cara felpuda da loba entre as mãos, disse: — Pode entender-me, bela dama adestrada? Teu amigo precisa do poder do vosso focinho! Canela, entende? Sim? Siga a canela!

A loba apenas ganiu, deu-lhe uma rápida lambida no focinho, depois lambeu o nariz de Alleras.

Apesar da situação, O Esfinge acabou por cair na gargalhada, tamanha a decadência e insanidade da situação. Sentou as nádegas no chão, ainda rindo. Estava falando com uma loba, enquanto a guerra que podia ser o fim da vida humana se seguia! Ah, a loucura que sua vida havia tomado! Os rumos absurdos se desdobravam em outros absurdos!

Quase sem fôlego, apoiou-se nos cotovelos, agora meio deitado, com as pernas esticadas e abertas no chão. Fitou a luz a flutuar por um tempo. Ignorou as loucuras que haviam fora do ambiente. (Era mesmo muito calmo no quarto, sem a barulheira do mundo de fora — seria feitiçaria nas paredes?)

A loba – que até então lhe fitava no rosto – ergueu as orelhas, erguendo o focinho.

Alleras virou-se. Era apenas a parede. Não haviam tapeçarias nela, nem qualquer coisa além da besta que Arya prendera na parede. Voltou a fitar a loba.

— Que foi, garota?

Ignorando-o, ela passou por cima de uma das pernas dele, caminhou até a parede. Estacou o andar quando seu focinho quase tocou a área. Farejou por um tempo, parecendo analisar o ambiente. Voltou a ficar sentada nas patas traseiras, fitando, imóvel, o nada.

Alleras franziu o cenho, olhando para a cena. Ergueu-se, ficando ereto, ajeitou o manto. Caminhou até ficar ao lado da loba, rente a parede, tocou-a. Nada. Apenas pedra escura e lisa.

Voltou a olhar de esguelha a luz perto do teto. Ela deveria revelar-lhe algo mágico, escondido. Sua luz era…

Luz! É isso!

A princesa era trevas e morte: seu manto era a ilusão. Era como suas habilidades com a face: esconder-se à vista.

Alleras estalou o dedo; a luz se extinguiu. Nada podia ser visto. A loba ergueu-se nas quatro patas.

Alleras esperou os olhos se adaptarem à escuridão. Contou: um, dois, três… até chegar a mil e além. Conforme a conta acabava, uma forma se criava à sua frente. Quando parou de contar, ergueu a mão, tateando o local. Sim, podia sentir a madeira na ponta dos dedos. Levou a mão ao que parecia um elo de metal, segurou, girou, empurrou.

Quando a porta parou de ranger, ele estalou os dedos novamente, fazendo a luz voltar atrás dele. Sua sombra se fez aparecer, cobrindo os barris que ficavam na saleta. O cheiro de canela preenchia-lhe as narinas.

Sombra da Tarde! Finalmente!

Sorriu, afagou o topo peludo da fronte da lama.

— Boa garota! — elogiou, ainda vendo os barris com cheiro canelado.

Fez um gesto, a orbe iluminada flutuou até ele, passou por cima de seu ombro, adentrou no local, clareando o ambiente. Ao adentrar no local, passando pelo umbral, Alleras esquadrinhou o ambiente. Não havia mais nada além de três barris; um deles caído, aberto, vazio, com poucos riscos azuis escorrendo dele. Cauteloso, caminhou até eles, estacando os movimentos ao ficar próximo de dois. Olhou para eles, afônico.

Virou-se, olhando para a loba em pé, rente ao umbral.

— Você me avisaria caso houvesse uma armadilha em algum, não?

Silêncio. Ela apenas o olhava. Ele acenou.

— Vou acreditar no seu silêncio como um gesto de confirmação. — Voltou-se para o barril.

Ao retirar a tampa redonda dele, viu que estava menos da metade cheio. Ele fez uma careta — a princesa e seus amantes andavam tomando bastante pelo que via. Logo ficariam não só com os lábios e olhos azulados, mas até com os rabos azuis.

Alleras abriu uma aba do manto, pegou um odre vazio amarrado na sua cintura, levou-o até a boca, onde retirou a rolha com os dentes. Num chofre, afundou o objeto no mar de azul-escuro gosmento que era contido no barril. Esperou um tempo, vendo o nível do conteúdo do barril diminuir, entrando no odre.

Quando terminou, ergueu o objeto. Até de sua luva escorriam veias azuis. Tampou o odre com a rolha, amarrou-o novamente na cintura. Tampou o barril também. Ao ver a luva que segurou o odre, percebeu que o melado azul ainda escorria nela. Deu de ombros, botou dois dedos gosmentos dentro da boca, lambeu-os. Tinha gosto de canela, areias do deserto no dia mais quente de verão; laranjas sanguíneas dos Jardins das águas; brisa salgada do mar do Verão; a voz limonada de Sansa, e o gosto do fluído feminino da primeira rapariga de Vilavelha com quem Alleras se deitara. Seu nome era Rosey. O tolo Pate, um acólito indigno de ser lembrado, a queria para si, e a mãe cobrara um dragão de ouro pela virgindade da filha — no fim, ela veio a Alleras sem necessidade de moedas. Foi uma boa noite, com eles se aquecendo numa cama qualquer de taverna, suados, com o fluído quente entre as pernas.

Sorriu. Era um gosto bom, então o tomou como bom presságio.

Após limpar qualquer vestígio do líquido com a manga do manto, girou os calcanhares, caminhou até a saída da saleta – a luz fulgente o seguia –, segurou o elo de ferro da porta, puxando-o enquanto saia, passou pelo umbral, fechou a entrada. Tratou de trancar a porta.

Enquanto deixava a saleta e usava as hastes de metal para selar a entrada, Alleras deixou a nostalgia euforica de lado. Seu sorriso sumiu. Rosey, a garota com quem compartilhara a cama, estava morta; Pate também. Assim como seus antigos colegas acólitos: Armen, Mollander, Roone; alguns dos sábios arquimeistres também se foram, como Arquimeistre Ebrose.

(Leo Tyrell e Marwyn também estavam mortos; mas eram dois merdinhas prepotentes, e Alleras não chorava por merdinhas prepotentes.)

Não consegui salvá-los, lamentou-se. Tentara, mas os homens de ferro eram muitos. A pobre Rosey e sua mãe, Emma, ou foram mortas no incêndio que infligiu no bordel delas, ou foram levadas como esposas de sal pelos Homens de Ferro. Os outros companheiros que ele e Sam tinham também se foram.

Sam, seu gorducho companheiro, ainda estava vivo, mas Alleras não podia falar com ele, nem com Gilly e seu filho. Uma pena, pois gostava do pequeno Aemon.

Suspirou pesadamente. Tinha perdido muitas pessoas.

Suas lembranças pesarosas vieram a ser interrompidas ao sentir a loba de Sansa brincar com seus dedos, mordendo-os levemente, balançando-os. Ele olhou para a cena, sorrindo de forma meio triste. Ajoelhou-se de frente ao belo e perigoso animal, voltando a coçar a orelha deste.

— Volta pra tua dona, companheira — falou ele, pensando que talvez ela o entendesse. — Daqui eu me viro, sim?

A loba de olhos dourados lambeu o rosto escuro e feminino de Alleras, fazendo-o rir com o gesto. Então, ele empertigou-se, e arrumou a cena: pegou a flecha de metal caída, colocou-a de volta na besta, após voltar a armá-la para atirar. (Provavelmente não adiantaria muito, pois imaginou que Arya Stark, quem quer que fosse, teria bons olhos para a minúscula lasca solta na porta.) Por fim, o bastardo dornês e a loba companheira andaram para fora do cômodo.

Alleras fechou a porta, enquanto a loba seguia, passos rápidos, ao fim do corredor, sem medo de descer as escadas íngremes de Harrenhal.

Alleras observou enquanto a figura sumia. Por fim, gesticulou com a mão, fazendo a luz que o seguia se extinguir de vez. Respirou fundo mais uma vez, limpando sua mente. Por fim, pegou o arco de Coração de Ouro, caminhou pelo corredor escuro.

A hora de se esconder acabou; tinha de ir para as muralhas, ajudar com os arqueiros e besteiros.