Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
76 Hostes de Guerra
Duas hostes imensas se estendiam além das muralhas de Harrenhal. Elas eram separadas por um fosso repleto de armadilhas: obsidianas encontravam-se enterradas nele, bem afiadas. Para impedir que o grande acúmulo de neve enchesse a depressão escavada no solo, tábuas finas de madeira e pranchas foram colocadas por cima. Não aguentariam muito peso, volta e meia um grupo de pessoas era obrigado a retirar a camada de neve branca.
Foram necessários meses para escavar toda aquela extensão, ainda mais no escuro e na neve, mas obtiveram sucesso — ândalos, povo livre, ghoscaris, volantenos, Lysenos, clãs, sulistas, nortenhos, nobres e a plebe. Todos unidos em mil mãos, agarrando pás e enxadas, escavando, furando o solo, retirando a neve.
A união faz força, bem disse o irmão de Arya certa vez. Embora o desespero também tenha sido um bom auxílio nesse caso.
Margeando as beiradas interiores do fosso, perto das muralhas, haviam estacas grossas de madeiras, quase maiores que um homem, com espinhos de metal e obsidiana; os pregos retorcidos iam atrapalhar os mortos letárgicos de tentar escalar ou derrubar as construções, rasgando a pele. Enquanto o vidro de dragão afastaria seus líderes gelados.
Arya estava na linha de trás ao fosso. A primeira, mais cheia que a dela, serviria apenas para obstruir o caminho do inimigo; todos eram praticamente carne para abate.
Tentou olhar além da camada de estacas, tentando analisar o exército além. A bruma e neve densa e a fumaça atrapalhavam; contudo, era possível ver o longínquo brilho baço e alaranjado crescendo, como um hematoma pungente. A fumaça acre se unia a bruma fria, criando uma camada acinzentada mais densa. Logo, junto dos flocos de neve, cinzas caíram do céu; em seguida, alguns pingos d’água, causados pelos flocos derretidos pelo calor.
A figura escura e brilhante da serpente alada no céu-treva se contorcia e cuspia labaredas de sangue. Seu rugido indicava fúria, talvez até agonia. O berrante não soava mais, indicando que algo havia acontecido.
Apesar da falta desse som aviltante, os rugidos da fera alada ainda faziam os soldados tremerem. Arya permaneceu impassível, sufocando qualquer esboço de reação. Era como comandar o próprio corpo: “não se mexam, dedos!”, “Pé, pare de tremelicar!”. Em Winterfell, treinara alguns com essas habilidades, a pedido de seu irmão mais velho. Claro, nunca tiveram o tempo e os meios para adquirir o mesmo nível dela; todavia, principalmente entre o povo livre, seus gestos estavam mais ágeis.
Estava feliz em notar que alguns estavam bem controlados. Até os temerosos pareciam se acalmar. Isso era bom, indicava serem bons soldados.
— Consegue ver os nossos aliados d’outro lado? — indagou Gendry, com o capuz cobrindo parte do rosto. Suas palavras adquiriram o formato de névoas conforme eram recitadas.
Ela anuiu.
— Ainda estão parados, mas agitados.
Os aliados na fileira da frente eram quase apagados para ela, indicando como mesmo com seu alto treinamento a magia inimiga estava acima de seus sentidos.
Porém, o que mais parecia aviltar a princesa não era a falta de visão: era a falta de sonoridade.
Tanto a fileira inferior quanto a exterior emitiam seus sons: cascos das montarias, rugidos e relinchos de diferentes animais assustados, o bater de armas contra escudos; sons assustados das pessoas, alguns gritos e discursos sendo feitos. Existia vida naquelas hastes.
O inimigo não emitia som algum. Era impossível dizer se era porque ainda estava tão longe ou não. Não havia o som de passos, gritos de medo ou um bradar de fúria e coragem. Apenas o vento surgia do lado inimigo, quase tão silencioso quanto.
O inimigo era apenas silêncio.
Algo nisso a fez ter um tremelique que não conseguiu conter. Fechou os olhos, sentindo tanto as ondas de calor e frio queimarem seu corpo, tentou limpar a mente para recompor-se. Assim que o fez, um novo calafrio surgiu, junta da visão de um olho vermelho divertido e cruel; um risinho sardônico ecoou no fundo de sua mente.
Abriu os olhos num chofre. Sua respiração estava mais acelerada, arrítmica. Nevoazinhas iam surgindo a cada golpe de ar que ela soltava. Tinha que manter o foco. Tinha que manter a mente limpa. Tinha que ser Arya Stark. Perder o controle agora, ante o vento frio e silencioso, poderia ser falta. E não apenas para ela.
Sentiu algo tocar seu ombro, virou o rosto, olhando por cima do local tocado. Era Sor Gendry, olhando-a com seus intensos e tempestuosos olhos azuis-vulcânicos. A força tempestuosa de sua paternidade engastada neles. Eam esses olhos que ainda faziam-na lembrar-se de quem ele era: o rosto curtido e vincado tinha aquela feia cicatriz angulada que descia pela bochecha, tendo uma camada de crosta rachada que soltava fumaça; a barba e os cabelos crespados, estriados com raízes pardacentas. Era como um outro homem – ainda viril, brutamontes, com olhos intensos, capaz de algum carinho; mas envelhecido, envelhecido pelo ar quente da forja, pelas desilusões, pelas perdas, crueldades do tempo. Um diamante bruto, feio, que nasceu retorcido após o carvão ser esmagado e sofrer pela têmpera.
Arya reconhecia o que aquele quente e azul-tempestuoso queria lhe dizer sem que ele lhe dissesse de fato.
— Eu estou bem, Sor.
— Devia estar lá dentro — retrucou ele.
Arya balançou a cabeça em resposta, voltando a olhar para frente. Para a barreira de estacas contra a escuridão.
O medo corta mais profundamente do que as espadas. Era a frase de Syrio Forel, seu antigo treinador de espadas. Estava morto há muito, mas morreu sem medo. Tocou o cabo de couro da Agulha. A lâmina seria ineficaz naquela batalha, ela sabia, mas se fosse morrer que fosse com a sua lâmina amiga na mão.
— Não. Não, eu preciso estar aqui, sor.
— Arya, sobre o Ned…
— Não é o momento para isso, Sor — estava impassível.
Sor Gendry a olhou por uns instante, antes de fazer um muxoxo e olhar para frente.
Tentou não procurar por seu marido entre a multidão de pessoas. Ele não uniu-se a Arya e Gendry, então talvez nem estivesse do lado de fora das muralhas de Harrenhal. Quem sabe não estava dentro do castelo, comandando os exércitos internos.
Não importava. Não pensaria em Ned. Não pensaria no arrependimento de ter batido nele na frente de todos. Sua mente tinha de estar livre.
Arya flexionou os dedos, para garantir que estivessem ágeis para o que viria a se seguir – não sabia quando, mas sabia que teria de lutar. Seu corpo não podia estar enrijecido. Tinha que ter tanto os sentidos quanto os gestos no ápice. Usando as habilidades que aprendera na Casa do Preto e do Branco, começou a acelerar um pouco algumas partes do corpo, aumentando um pouco a voracidade dentro de si. Desse modo estaria em alerta quando a hora chegasse, como quando um animal que acabara de ser atacado por um predador começa a ter um pico de adrenalina e luta ou foge pela com um afinco que nunca antes teve.
O fluxo tinha que se modular de forma lenta, para não gastar energia à toa nem perder os sentidos. Era como deixar um rio começar a fluir aos poucos, abrindo passagem de forma lenta. Logo o bater do coração ficava um pouco mais rápido.
Enquanto deixava os seus sentidos um pouco mais alertas, a princesa olhou para os céus, notando que algo estava acontecendo. Um som estranho começou a pairar, mas ninguém ali ouviria além dela. O dragão de Daenerys pareceu ser coberto por uma treva que lerda, que lutava para cobri-lo. Havi algo esquisito naquela treva; era como um punhado de trevas unindo-se numa só.
Conforme a escuridão aumentava, logo veio a luz. Um novo sol se fez, negra e vermelho, que foi alargando-se mais e mais, queimando a treva e as trevinhas.
— Que porra é essa? — interpelou Sor Gendry, confuso com tudo aquilo.
— O dragão está sendo atacado — disse Arya, ainda visualizando o céu em chamas. Era como se as nuvens fossem palhas pegando fogo. Logo, riscos de fogo começaram a cair do mar flutuante e chamuscante. Aqueles que caiam no exército inimigo alastraram ainda mais o incêndio nos mortos que rastejava até o castelo.
Alguns começaram a cair no lado dos vivos, provavelmente levados pela ventania lupina, assustando a todos. Um caiu perto de Gendry, que pulou menos de um centímetro, assustado, quase tirando a espada da bainha. Os outros perto também assustaram-se. Arya não abalou-se; escrutinou o objeto.
No fim, a criatura não representava ameaça alguma: era uma ave queimada, com o corpo sendo totalmente destruído pelas chamas. O brilho azul intenso fez algo remexer-se dentro de Arya, como um verme agitado, agonizando.
— Um corvo? — indagou Gendry, fitando a ave que virava cinzas. O corpinho escuro, podre, quase depenado se contorcia em várias partes, sumindo, devorado pelo fogo.
Alguém chutou neve por cima do corpo do animal. Tanto a luz da chama quanto a dos olhos estavam extintas.
A atenção de todos foi cortada ao ouvirem o soar de outro berrante. Logo, outro soou. Depois outro, mais outro mais um, seguido de mais um…
Era o inimigo, Arya sabia. Seu palpite se provou certo quando aqueles além da muralha de madeira urraram, botando os pés, patas e cascos para correr. Os cavalos relincharam, mamutes bramiram, lobos uivaram. Enquanto isso acontecia, as figuras do exército começaram a mover-se, diminuindo a até sumir, adentrando ainda mais na bruma. A algazarra começou.
Todos atrás das imensas estacas do fosso se preparam, segurando as próprias armas. Sabiam que agora não tardaria muito para também terem de adentrar no campo de batalha. O inimigo estava chegando.
Arya voltou a tocar o cabo da espada, lembrando-se das palavras que seu irmão dissera no dia em que partira para Winterfell:
— Espete-os com a parte pontuda.
O olhar de Arya foi até Jon. Ele estava aprumado ao lado de seu lobo, quase sumindo na bruma. Os olhos treinados dela o viam, mesmo que de figura um tanto esmaecida. Como era desconcertante essa imagem; era o desenho um estranho para Arya, não seu irmão. Um desconhecido na alcateia.
Todavia, ainda havia algo do pai deles nele. Uma sobriedade e dureza fria do Norte.
Com sua audição em alerta, Arya começou a ouvir um novo som surgindo atrás do exército. Aumentando, aumentando, aumentando…
— Está ouvindo? — ela murmurou para Gendry, que a olhou de gato, franzindo o cenho.
— O’que? É o inimigo?
Arya meneou a cabeça. Sabia que não eram os outros.
Logo, o som foi aumentando até todos ouvirem. Todos começaram a erguer as cabeças, lançando olhares perdidos para o céu, tentando saber de onde tal som provinha.
Era um adejar, Arya logo notou. Vários, na verdade. Junto de grasnados e crocitos irritantes e repetitivos.
Surgindo acima das muralhas, quase tocando o céu, sarapintando-o de preto e branco-acinzentado. O barulho irritante dos corvos aumentou, enfurecendo o ódio em Arya, que os fitou com cólera conforme eles avançavam sobre as cabeças de todos ali, indo direto para o campo inimigo.
— O que é isso? — alguém perguntou. Não era Gendry. Era um qualquer, provavelmente um jovem selvagem além-muralha.
— Bran — resmungou Arya, sentindo uma estranha cólera atacá-la. Agarrou o cabo da pequena espada, como se tentasse esganar o irmão mais novo. Sentia vontade de furá-lo com a parte pontuda, várias e várias vezes e banhar-se no sangue dele.
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