Seguiam a marcha, rumo a impetuosa construção de treva, cada vez maior. Era como um reino dentro de um reino. Os abrigados na imensa construção reacenderam suas luzes quentes, fazendo-a rebrilhar, como que em brasas.

Em contrapartida, o imenso exército de Wights e seus mestres eram a pura escuridão; apenas o olhar azul iluminava o ambiente de corpos decreptos, cobertos pela densa bruma que escondia todas as figuras invernais.

A rainha alisou a superfície gélida de sua montaria com seus olhos brilhantes. Os pelos eram como os de uma aranha real, porém eram brancos e azulados, não pretos. A criatura reagiu bem ao toque, como se fosse aconchegante, terno. A rainha sorriu. Voltou a olhar para frente, erguendo a cabeça, fazendo os cristais de sua coroa tinirem. Ali, alguns quilômetros à sua frente, estava seu emulador. O último Corvo de três Olhos, o último dos videntes Verdes. Tinha de destruir a mente coletiva para assim acabar com o único que podia resguardar as almas dos conquistadores que queimaram os represeiros.

Se dependesse dela, na verdade, não moveria todo o exército para um único ponto; mas a mente coletiva a impedia de mudar de rumo, machucando-a, machucando seus filhos, de modo que estava à mercê dos deuses antigos. Para compensar, pelo menos lhe deixaram atacar as outras partes: através dos olhos de seus filhos e escravos, podia ver que vilas em reinos mais distantes também eram atacados. Castelos também. Por algum motivo, esses outros reinos estavam despreparados (não haviam sequer tentativas de vidro de dragão), de modo que a Rainha imaginou que a humanidade estava dividida. Isso é perfeito para ela — uma sociedade dividida era uma sociedade condenada. Apenas a união dos povos a derrotara antes; agora, essa era uma possibilidade pequena.

— Sinto muita vida no castelo — falou Jonnel, assentado na cela de sua defunta montaria. Ele era um dos sete guardas que cercava a figura de sua monarca. Os outros eram Jeor, Garlen, Edmyn, Tarlan, Gwayne e Roger. Os outros irmãos estavam esparsos, cada um em sua área. Alguns estavam bem mais longínquos, comandando o ataque de outros reinos. Todos usavam armaduras furta-cor, que refletiam as imagens do ambiente, distorcidas como que em uma poça d'água solidificada e cristalizada. Além das armaduras, as fisionomia também eram a mesma: o rebrilhar fulgente dos olhos azuis, a pele pálida, a altura, os cabelos esvoacantes, o nariz, queixo... Todos iguais, como irmãos. Unidos por uma mente compartilhada.

Todos eram criados desde o nascimento, para serem treinados pelos deuses antigos, sem que causassem algum rebuliço. A preferência dos deuses eram almas inocentes; por isso preferiam bebês — não tinham uma mentalidade formada para lutar contra o ódio e repúldio dos deuses. A líder deles sabia o quanto a alma de Daenys, apesar de jovem, provou-se contentora de alguma têmpera em seu espírito juvenil — sonhadora, amorosa, esperançosa, empática... Patética demais para os deuses; mas, ainda assim, fora a escolhida pelos cantores, que ainda não entendido bem o que estavam criando.

Esse foi um dos problemas (talvez o príncipal, caso não fossem as serpentes de fogo aladas) que resultou na derrota dos antigos deuses; a alma tenra que ainda era resiliente o bastante para tentar salvar seu antigo povo.

Mas a Rainha não ia deixar que a fraca alma dela voltasse a se interpor no caminho dos deuses — dessa vez, ela quebria o reinado pagão dos de sangue quente.

— Hemos de matar a todos — Jeor declarou, sorrindo com a expectativa. — Logo, nosso trabalho estará concluído, os deuses hão de nos agraciar com o sacrifício de tantos pagãos de sangue quente. — Olhou para sua criadora por cima do ombro. — E nossa amada mãe estará com seu dever comprido. Poderemos ter a liberdade que tanto queremos.

Ela não lhe deu resposta alguma. Sabia que todos ansiavam pela liberdade que seus deuses antigos juravam que lhes iam dar quando tudo terminasse; mas parecia tão distante…

Uma dor cruel lhe atingiu na nuca, fazendo-a segurar um grito. Eram seus donos, em fúria. Não gostavam de discordância vindo seus subalternos. Se calou, parando tais pensamentos impuros, mas a dor permaneceu. Apertou os lábios, para não uivar de dor. Sentia que lágrimas iam surgir.

A dor era culpa dela — nasceu pagã; tinha de provar seu valor purificando o mundo dos ímpios. Só assim seus deuses a perdoariam.

Não tinha pressa alguma enquanto seguia seu rumo, mas sabia que seus filhos estavam ansiosos. A maioria era viva desde os quase nove milênios de aprisionamento; mas mesmo eles estavam impacientes. Ansiavam pela morte de seus oponentes, pela proliferação de sua raça; pelo amor de sua mãe e rainha e deusa.

A rainha estocou sua marcha, parando sua montaria. Sentiu algo por perto. Jonnel farejou o ar.

— Sangues quentes por perto — falou.

— Não — ela o corrigiu, sentindo as más vibrações no vento frio. — São nossos criadores.

Do absoluto nada, uma treva cuspiu uma seta, que acabou por atingir Jeor no pescoço. Este apenas teve tempo para retesar-se, enquanto a pele começava a escorrer.

O cavalo reanimado de Edmyn caiu em silêncio na neve. Não fosse a agilidade do dono da montaria, também teria caído junto, mas saltou antes do wight atingir o chão, erguendo a espada no mesmo instante, alerta. Os outros fizeram o mesmo, não dando atenção para o irmão que derretia perto deles, gritando como apenas gelo era capaz de gritar.

Enquanto todos empunharam suas lâminas gélidas, a Rainha aguardou. Sabia que era o alvo principal.

Não tardou para que se provasse certa; uma flecha logo foi regurgitada das sombras, indo até seu rosto. Parou-a no ar, congelando o objeto, tão frio que mesmo a velocidade da seta parou, como que perdendo o impulso. O objeto caiu, mas esfarelou-se antes de atingir o chão.

Odiava quando lutava contra seus criadores; parte de si lutava contra isso, mas era impelida a fazê-lo, por causa dos deuses que a torturavam se assim não o fizesse.

Para tentar impedir tal bloqueio, ela lembrava-se de um bom motivo para odiar os caminhantes da floresta: eles a fizeram ser o que era.

Gesticulando com os braços, leve, formou um arco de cristal, junto de uma fina corda azul-prateada; depois, as flechas. Três de uma vez. Atirou-as nas direções donde sentia a vida. Os grunhidos provaram sua boa mira. O arco se desfez, virando névoa.

Um filho da floresta saltou de uma árvore curvada que havia perto do exército. Deixou-se ser coberto de neve, para esconder-se. Esperto, mas não eficaz: Jonnel virou-se, deixando a espada de lado, erguendo os braços. Agarrou o pescoço do pequeno criadorzinho, assim como pulso de sua mão que agarrava uma adaga obsidiana. Um aperto simples terminou o serviço; a criatura largou a adaga, Jonnel deixou o corpo cair, sem vida, na neve, que dançou com o impacto.

Quanto ao criador que atacou Edmyn, pode até ter corrido para longe, mas a barreira de mortos impediu seu grande avanço: mãos lânguidas e escuras o agarraram por todos os lados. Seu pedaço de vidro negro não surtia efeito nos mortos; apenas matando um Vagante podia-se matar os Wights. Os golpes que o filho da floresta deu apenas serviram para estilhaçar a maldita lâmina.

Por fim, os cadáveres agarraram o pequeno criador por todos os lados, puxando, apertando. O serzinho gritava enquanto jorrava sangue, seus membros eram arrancados, e as tripas esparramando-se no chão.

A Rainha observou a cena, dando uma falsa sensação de baixar a guarda — desse modo, algum tolo podia tentar finalizá-la, apenas para morrer no fim.

Todavia, não foi esse o próximo golpe.

Um dos seus filhos — não um dos que estavam perto dela —, estilhaçou-se. Ela o sentiu. Foi morto por um golpe surpresa, vindo dos criadorezinhos. Estavam atacando na furtiva. Furiosa, a rainha ordenou que os seus outros filhos-soldados deviam reanimar os mortos que acabavam por serem perdidos sempre que um dos irmãos morresse. Todo soldado era importante.

— Devemos continuar — ela ordenou para os soldados. — Perder tempo com este ataquezinho não condiz com nosso dever.

— Sim, mãe — os seus soldados a responderam.

Quando voltaram a marcha, porém, a Rainha sentiu a perda de mais Wights. Ao esquadrinhar todas as áreas do campo, notou focos esparsos de luz. Fogo. Os seus criadores estavam atacando os pontos onde não haviam Vagantes Brancos para atrapalhar, incendiando o exército dos mortos. Os corpos reanimados eram mais inflamáveis do que palha, ainda mais os que usavam vestes, agora puídas e carcomidas.

Os focos de luz avolumaram-se. O fogo crescia, consumindo o exército dos mortos. A fumaça acre subia conforme os clarões iluminavam a noite.

A Rainha ficou furiosa com a afronta. Ergueu os braços, prontos para criar uma rajada de vento que iria apagar os incêndios.

Antes que pudesse realizar o feito, porém, seu corpo pálido se viu em queda. Rapidamente se recompôs, ficando empertigada antes de cair na neve. Sua montaria estava se liquefazendo, escorrendo no chão, até virar uma poça.

Conforme a água gelada se formava, um caminhante da floresta jogou duas adagas em direção a rainha. Ela apenas virou o corpo de lado, desviando de ambas as lâminas, que cortavam o ar da noite, agitando os flocos de neve.

Sem fazer qualquer som, deslizou no ar, agachando-se, enquanto esticava o braço pálido. Sua mão fechou-se contra a traqueia minúscula do atacante. Este pigarreou antes que pudesse sequer entender o que havia acontecido.

A Rainha da Noite ergueu o Filho da Floresta. Seus olhos dourados brilhavam em agonia, fitando-a com suas íris fendidas. Os bracinhos batiam contra o braço gélido dela, inutilmente. Tão pequeno. Tão frágil.

Olhar aquele ser a enchia de piedade e fúria.

(Será que eu era assim quando atacaram minha família?)

— Nós viemos para terminar o que vocês não tiveram coragem — Ela disse para a sua presa.

A criaturinha ganiu de dor conforme uma névoa saía da palma da mão da rainha. O gelo começou a crescer, consumindo o corpo marrom e vestes turfosas. No fim, tornou-se apenas uma estátua de gelo. Ela a soltou, indiferente, deixando o objeto estilhaçar-se no chão.

— Devemos continuar — ela falou, sem olhar para os seus filhos, não querendo mais atrasos. Para sua sorte, apesar de não ter conseguido invocar o vento frio para apagar os incêndios, seus outros filhos já o estavam fazendo.

Eles acham mesmo que esta pantomima iria nos atrapalhar por muito tempo? Parecia difícil acreditar nisso. Afinal, mesmo que mandassem um bom número de soldados, de que adiantaria contra a coorte de algozes? Era uma miríade de mortos e vagantes, era praticamente impossível que mesmo o fogo…

Interrompendo seus devaneios, o clima mudou bruscamente. A neve havia se tornado chuva, tocando seu corpo frio, assim como os dos outros vagantes, onde congelavam. Olhou para cima, vendo que a camada de nuvens ainda estava densa. O som de trovões distantes começou a surgir.

Aquilo estava errado! Não devia ter chuva alguma enquanto ela enregelava o clima!

— O que é isto? — demandou saber, irritada, voltando-se para os seus filhos, que deixaram a confusão de lado, encolhendo-se de medo perante o tom de fúria na voz gélida de sua líder. Inocentes ou não, ela quebraria todos aqueles soldados, caso não conseguisse uma resposta. Alguém tinha de pagar!

Antes que alguém pudesse responder, um aaaaaaoooooowwww surgiu do céu, fazendo todos os seres de gelo tremerem, sibilando de dor. A Rainha no começo achou ser um ataque da mente coletiva, mas logo viu que estava errada ao olhar para o céu. Uma pequena mancha laranja baça surgiu, tímida, nas nuvens negras.

Em instantes, o laranja avolumou-se, como um tumor que consumia tudo. Por fim, uma explosão de laranja, vermelho e negro surgiu, rasgando o manto de trevas que a Rainha havia cuidadosamente tecido no céu. Era como um meteoro em queda ou o nascimento de um novo e sombrio sol.

Um Wyvern descia em rasante, cortando e queimando o ar, cuspindo mais chamas. O bater de suas asas membranosas era tonitruantes. Seu rugido era como a própria fúria dos deuses! O corpo, em rápida descida, era esguio, como o de uma cobra negra com detalhes em rubis.

Todos os soldados quase petrificaram-se ao depararem-se com a imagem de um Wyvern; mas logo a fúria dos deuses antigos os tocou. O ódio pelos seres que queimaram a madeira sagrada.

A Rainha sorriu. Havia apenas aquele dragão. Seria mais fácil de matar, ela sabia. Quando a besta caísse dos céus, a vitória estaria garantida.

Abriu a palma da mão, gerando um gélido líquido, que foi se espalhando, tomando forma, até, por fim, tornar-se uma longa e fina lâmina. Transparente, com o gume brilhando em azul.