Daenerys estava no fundo do Bosque de Harrenhal, onde Drogon fizera um tipo de ninho de cinzas. Ossos de animais e de humanos (aqueles que a coroa declarara como culpados de algum crime e codenou a pena de morte) estavam esparsados pelo chào cinzento. Drogon estava bem alimentado, tendo comido boa parte de um mamute — Tyrion dissera, em Essos, que a antiga semente do dragão, Nettles, alimentava seu agressivo e feio dragão com ovelhas, pois ele era mais cooperativo quando estava de barriga cheia. (Podia até ser verdade, mas o frio ainda irritava seu filho.)

A carcaça torrada estava a uns poucos metros de Dany, exibindo tripas carcomidas e enegrecidas. Os pelos do mamute estavam quase todos queimados. Moscas roxas voejavam sobre o cadáver — o frio matara quase todas, mas elas se estabeleceram perto de Drogon, pois o calor as mantinha vivas (desde que conseguissem evitar as chamas).

Daenerys usava uma armadura de placas, com algumas escamas nos braços. No peitoral, um dragão de três cabeças cuspindo fogo estava, feito de rubis. Era como a armadura que seu falecido irmão, Rhaegar usara.

A armadura não o salvou da morte, lembrou-se, sombriamente.

Observava o nevoeiro gelado se aproximar. Nem o calor das chamas de seu filho o barravam mais. Isso era enervante para a rainha: o inimigo estava cada vez mais perto.

Olhou para o horizonte, esperando o sinal. Nada. Ainda apenas sombras, poucas luzes.

A espera a deixava nervosa; e se o plano falhasse? Os Filhos da Floresta talvez tivessem morrido, sem conseguir queimar nenhum inimigo sequer.

Será que o fogo de dragão funciona mesmo contra essas coisas? Bran dissera que sim; mas Dany pouco confiava naquele Stark. Ele era esquisito para ela — um velho no corpo de um rapazildo.

Jon, porém, concordava com os conselhos do irmão; ele dissera para não irem ao sul, fosse para derrotar ou unir-se a Aegon antes que a ameaça viesse, e o nortenho assim o fez.

Ele escuta demais os irmãos, ela pensou. Talvez fosse confiança excessiva, talvez não. De todo modo, Dany ainda não gostava disso — todos pareciam estranhos para ela. A falsa e polida Sansa; a distante e cruel Arya; o Estranho e sábio Brandon. Apenas estes dois últimos superaram o irmão mais velho em esquisitice. (Sansa o supera no que tangia aporrinhar Dany. Aquela princesa sabia ser uma megera.)

No fim, só podia rezar para que, quando tudo aquilo acabasse, esses cunhados oblíquos que tinha ficassem longe de sua vista — Sansa iria para o Norte; Arya, Dorne; Bran… ele iria para onde quer que os deuses quisessem. Talvez até desse Harrenhal para ele; ambos eram lúgubres.

Mas temia que a irmã de Jon, a princesa Sansa, tivesse antecedido um nome para colocar como lorde de Harrenhal — possivelmente lorde Royce, pois ela já parecia próxima dele.

Não gostava disso; o tio de Sansa, Lorde Edmure, já detinha o título de Lorde Supremo do Tridente; assim como a amiga dela seria regente do Vale; a própria princesa seria regente do Norte em Winterfell, enquanto o irmão seria o Rei Consorte dos Sete Reinos. Deixar mais um aliado dela no que podia ser o maior castelo dos sete reinos, encontrado bem ao lado da Capital dos Sete Reinos, seria dar mais poder para aquela intrigueira.

Sem contar que, caso tirassem o poder dos Martell de Dorne, caso a casa não viesse a se render, teriam de dar o principado para a única casa dornesa que os apoiara: a Casa Dayne. A casa do maldito marido de Arya.

Suspirando, Dany pensou no nascituro em seu ventre. Se vingasse, mesmo que não fosse filho natural de Jon Stark, seria criado como seu filho. Se o Stark honrasse sua palavra, iria cuidar da criança como se fosse sua — isso possibilitaria que o consorte deixasse as opiniões dos irmãos (certo, da irmã) de lado.

Precisava que aquela criança nascesse. Precisava que ela vivesse. A Casa Targaryen não podia morrer, não agora! Estavam tão perto de voltar a glória que era deles por direito!

Como se sentisse sua inquietação, Drogon rugiu. Daenerys o olhou de esguelha, sentindo a irritação dele. Virando-se para frente, voltou a encarar o horizonte.

Fogo! As chamas surgiam no horizonte! Era o momento!

Rápida, Dany subiu em seu dragão, ajudada por Sor Tumco Lho. Amarrou bem as pernas, para que não caísse. Engoliu bastante ar. Colocou as duas mãos, cobertas por cota de malha e uma manopla de aço negro, no bocal. Aproximou-se, curvando um pouco as costas; ao sentir o bocal entre seus lábios, libertou todo o ar que segurava.

O tocar do berrante sempre parecia quase sufocá-la. Mas Dany manteve-se forte. Ela não era qualquer uma; era do sangue do dragão.

Obedecendo o berrante, Drogon rugiu, remexeu o corpo, abriu as asas translúcidas, espalhando uma névoa de cinzas. Todos os servos de Essos afastaram-se correndo, assustados.

O impulso logo fez o corpo negro e incrustado de vermelho do Wyvern afastar-se do solo. Subiu, subiu, subiu e subiu, indo até a imensa mancha negra que era o céu. Era como ir até um buraco sem fundo. A neve nem tocava neles; evaporava antes, por causa do intenso calor corporal de Drogon. Este rugiu, como se dissesse que estava desafiando a fúria dos deuses invernais do céu. Sentindo um misto de medo e júbilo, Dany segurou o cabo de ébano do chicote, fazendo a ponta da corda estalar contra a pele coriácea de seu filho.

Após encher os pulmões, Dany esforçou-se para tocar o berrante novamente. Aaaaawwwwwwoooooowww. Logo, abaixo dela, todos os outros berrantes tocaram juntos.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Estava acima das nuvens, acima da escuridão que gelava o mundo. Além de seu filho, apenas as cintilantes estrelas e a opalescente lua. Também um silêncio mortal estava lhe fazendo companhia, à exceção do trovejar que as asas de Drogon faziam, assim como o fino estalar do chicote ao bater na pele coriácea.

Nem mesmo o intenso calor corporal de Drogon espantava o frio que permeava o ambiente. O máximo que seu corpo-fornalha podia fazer era impedir que ele e Daenerys congelassem.

Dany podia sentir a agitação de seu filho. Sentia seu ódio. Ele odiava o frio, odiava o o que estava abaixo dessas nuvens, odiava estar longe da batalha.

Logo, Dany sabia, o imenso exército estaria sobre as muralhas de Harrenhal. Não sabia se podia impedi-los, mas podia retardá-los.

— Eles tentaram atacar Bran — Jon lhe lembrara, antes de partirem para a batalha. — Ele diz que os Deuses Antigos vão fazer de tudo para destruí-lo.

— Mas por quê?

Ele dera de ombros em resposta.

— Que importa? Ele disse-nos apenas que devemos destruir o máximo que podemos, lembra? Ele resolverá no fim.

— Como? — insistia em saber. O irmão de seu marido nunca lhe explicara.

— Apenas façamos como ele diz… De todo modo; caso fracassemos e eles o matem…

— Não vai acontecer — ela garantira, sem gostar de pensar no plano de contingência que tinha.

Respirou fundo. O ar era meio rarefeito naquela altitude, mas o calor de Drogon parecia suprimir um pouco mais de ar — mesmo que com cheiro de carne queimada e enxofre. Fez uma reza aos deuses — fossem quais fossem, pois não tinha conexão com nenhum —, estalou o chicote contra o pescoço serpentino de Drogo, gritou:

— ILAGON! ILAGON! Naejot ilagon sir!

Drogon rugiu, cuspindo fogo, parecendo resistir às ordens de sua mãe. Teria ele medo? Nunca imaginou que seu primogênito conhecesse tal sentimento.

Vendo sua resistência persistir, a rainha não teve escolha a não ser usar o berrante. Ela o soprou, após se esforçar para sugar o ar. Quando o brilhante objeto rugiu, seus glifos brilharam e rebrilharam. O rugido quebrou a serenidade candida do ar, assim como quebraram a resistência de Drogon.

Dany odiava isso. Odiava ser obrigada a usar tal artifício contra seu próprio filho, mas não tinha escolha alguma. A situação exigia isso.

Drogon deslizou no ar, indo para baixo, sibilando. Mãe e filho traspassaram a cortina de nuvens cinzentas. Dany sentiu o vento frio e quente abatendo seu corpo, mas aguentou rilhando os dentes (odiou pensar como isso a fazia parecer-se com o reclamão Stannis), forçou os olhos a manterem-se abertos. Era do sangue do dragão; o fogo não lhe incomodava e o frio a temia. Não teria medo, pois estava acima disso. Tinha de estar.

Quando a camada cinzenta dissipou-se, a imagem do que havia no solo revelou–se: uma imensa massa negra que cobria o solo, movendo-se de forma lenta, crescendo conforme Drogon se aproximava. (Este estava polvoroso com o exército inimigo.) Na mesma massa preta, porém, havia focos laranjas, que subiam cada vez mais. Eram as chamas que vira antes, sabia. O sinal para atacar.

— DRACARYS! — bradou, quase sem ouvir a si mesma por causa do barulho do vento em seus tímpanos.

Drogon curvou seu pescoço em formato de serpente num “S”, abriu a boca cheia de dentes de diamantes negros, jogou a cabeça para frente, cuspindo chamas vermelhas e negras no exército em uma linha quase reta. Era quase como um sol escuro.

As criaturas lentas lá embaixo queimaram mais fácil do que palha. As chamas escuras logo se espalharam por todo o canto.

De algum modo, sem saber como explicar ou entender, o fato de nenhum daqueles seres queimarem enquanto ardiam perturbava Daenerys. Todos ali eram seres do silêncio; apenas o fogo fazia algum som.

Os seres mais claros ali — os Vagantes, ela deduziu, já os tendo visto antes —, apesar de mais ágeis e mortais, pareciam-lhe insignificantes agora: derretiam fácil com o toque de fogo de Drogon.

Dany procurou pela líder. A Rainha Pálida que vira em suas visões. De início, não tinha certeza se fora apenas Bran que lhe mostrara tal ser; mas então a vira em seus sonhos: os cabelos eram como teias tecidas por aranhas, os olhos eram crueis e brilhantes…

Mas o mais assustador: olhar para a figura era como, de algum modo, olhar para um espelho mais pálido e azul. Seus olhos eram tão crueis…

Algo passou perto dela, cortando o ar, cortando seus devaneios. Dany olhou de reflexo para a figura, mas o que visualizou foi apenas um risco-borrão, sumindo como veio.

Então veio outro e mais outro. Eram lanças de gelo, logo percebeu. Uma passara pela asas membranosa de Drogo, fazendo-o fugir em fúria.

Quando algumas dessas lanças de gelo foram lançadas novamente, todas juntas, cortando o caminho aéreo até a figura de Drogon, este apenas abriu os lábios, soltou chamas que vieram por destruir as armas enregelantes como se fossem palitinhos de gelo.

Dany permitiu-se apaziguar. As palavras do garoto-corvo provaram-se certas: as chamas de um Wyvern eram superiores à magia do gelo d’Os Outros.

Drogon pareceu superar o medo, sendo levado pelo seu instinto básico natural: raiva. Recebeu a ação do inimigo, agora dava aos inimigos a reação: chamas queimavam sem olhar a quem. Dany deixou seu filho seguir sua natureza.

Enquanto as chamas consumiam os mortos e derretiam os vagantes, um raspar ressoou atrás de sua nuca. Algo atacou seu elmo, fazendo Daenerys virar-se no mesmo instante por reflexo. Não conseguiu visualizar nada além da fumaça que subia do solo. Seja o que tenha sido, se foi antes…

Sentiu um golpe desajeitado, dessa vez em seu no cocoruto. Assustada, olhou para cima, mas também havia desaparecido. Balançou a cabeça, voltando a olhar para frente — foi nesse momento em que algo se chocou contra seu rosto. Dany quase gritou de susto, mas apenas soltou um som sufocado quando sentiu as plumas geladas e a carne dura baterem contra ela. No mesmo instante em que fora agredida, deu um chofre com seu punho revestido de placas de aço negro. A manopla derrubou seu algoz num instante.

Tão rápido quanto veio, o inimigo se foi.

Começou a resfolegar. O susto foi pior do que o golpe em si. Tomou ar, sentindo a queimação esfumaçada de Drogon entrar em seus pulmões. Olhou para os lados, tentando ver se algo mais viria.

Nada, apenas neve e fumaça. O mundo lá embaixo estava sendo consumido pelas chamas.

Já vencemos?, Dany indagou para si. Sabia que tudo isso estava fácil demais. Olhou para baixo. Tudo era consumido pelas chamas; mas onde estavam os líderes da manada de mortos? Não podiam ter todos derretido…

Dany ouviu um som entre os trovejares de Drogon. Era difícil saber o que era, pois estava sufocado pelo bater de asas, rugido e crepitar. Dessarte, sabia que havia algo vindo, um som longíquo, aumentando…

Olhou para lá, cá, ali e acolá. Nada. O barulho aumentava, mas o dragão não parecia se importar.

Era isso. O inimigo estava a enganando; deixando Drogon seguro de si.

Mas, seria o inimigo tão esperto assim?

De todo modo, Dany tocou o berrante, forte no sopro; porém suave de certo modo. Seu filho obedeceu, desacelerando. Um som de rosnado mostrou que ele desgostava disso, mas o berrante o compelia de todo modo. Veloz ou não, continuou a jogar borrifar fogo no inimigo.

Se ajustando na cela, Dany voltou a olhar para baixo. Tomou coragem para subir a viseira, esticar bem o pescoço e as costas. Era arriscado, mas necessário. Infelizmente, percebeu que estava certa em seu palpite: as chamas bloqueavam sua visão; o brilho das chamas e a escuridão da fumaça acre impediam-na de visualizar o campo. Apertou os olhos, mas foi inútil.

Da mesma forma que o fogo ajudava a destruir os inimigos, os escondia. Isso era preocupante.

Fez um muxoxo, voltou-se a empertigar-se na cela. Teria de continuar como estava, apesar da sensação ruim que estava tendo; principalmente pelo crescente barulho que parecia surgir. Levou uma mão até o rosto, para descer a viseira — foi interrompida por um golpe furioso contra sua cabeça, tão potente que teria lhe arrancado o capacete de ferro não fosse a tira de couro que o prendia.

Dessa vez, não foi um golpe solo.

Quando o estranho barulho que estava ouvindo pareceu aumentar atrás dela, Dany nem pode dar atenção; uma ave se cuspiu da treva, atacando-a, tentando rasgar seu rosto. Jogou-se para trás assim que viu o bicho vindo, colocando um braço com escamas de aço e placas na frente. O animal era lento, desengonçado, de modo que não conseguia aproximar-se do rosto da Targaryen.

Dany sentia o cheiro de morte fria da ave agourenta, fitava seus estranhos olhos azuis, que mais pareciam-se estrelas. Tirando o adejar de asas, assim como o som de raspar do bico e garras, a coruja não produzia som. Apenas atacavam. Deuses, como era perturbador. Esse serzinho mal tinha rosto, nem asas, mas não parava.

Não podia perder mais tempo com aquilo; o barulho distante estava quase sobre ela.

Quando Dany pensou em bater no animal com sua manopla, como fizera antes, o som do inimigo explodiu; diversos golpes atingiram seu corpo armadurado por trás, batendo contra ela, como sacos pesados. Um ou outro raspar ressonava em alguma parte da armadura. Quando tentou vislumbrar algo, era como um mar negro em movimento, com estrelas azuis de inverno vagando por ele.

Então soube o que era: uma miríade de aves ressuscitadas lhe atacando.

A rainha curvou-se sobre si, protegendo-se contra os ataques lânguidos dos passáros, que insistiam em tentar rasgar o aço. Os animais impiedosos não paravam de arranhar e bicar. Qualquer mínima parte exposta de seu corpo logo era ferida, ardia, sangranda. As tiras de couro que prendiam as placas de aço martelado estavam sendo carcomidas pelos bicos, fazendo a armadura começar a se soltar. Logo, ela sabia, boa parte de seu corpo estaria exposto ao bicares e arranhares das malditas aves ressuscitas.

Fechou os olhos, enquanto descia a viseira — com certa dificuldade, pois os ataques retardavam seus movimentos. Conseguiu fazê-lo, mas a um certo custo: acabou por perder o seu chicote.

Começou a se inclinar para frente, tateando até o berrante. (Mas como poderia tocá-lo? Os animais rasgariam-lhe o rosto antes de poder fazê-lo!) Os corpos mortos e frios batiam contra o seu próprio corpo, porsporando seus gestos. O gelo enrijeceu seu corpo; Dany sentiu-se pesada enquanto se movimentava. Nem mesmo seus dedos movimentavam-se direito, parecendo enferrujados.

Em sua cega agonia, Dany era incapaz de ignorar o que acontecera com Malora Hightower: seu rosto sendo comido por um corvo.

Um rugido ressou, sufocando o adejar das milhares de asas. Dany abriu um pouco as pestanas: vermelho, negro, laranja e dourado tomavam os céus, espantando o azul. O calor aumentava, a fumaça e o brilho embaçavam sua visão. Tentou sugar o ar, mas era como se isso a queimasse por dentro. Estava ardendo, sendo cozida em sua própria armadura, enquanto inalava o cheiro acre que sufocava e ulcerava-lhe o corpo.