A cauda flamejante de Viserion era como que um foco baço de luz na escuridão. Dany e Drogon seguiam a pequena faísca de luz no pretume. Ela fazia o possível para enxergar, lutando contra as rajadas frias e os flocos que afligiam seus olhos, junto de alguns acúmulos de água que aspergia em sua vista, causados pelo aquecimento de Drogon.


O dragão revivido, Dany sabia, tentava apagar o fogo em seu corpo; caso a labareda se alastrasse, o corpo decrépito de Viserion viraria cinzas.


Conforme subiam, a intempérie agravava-se, com o ululante sopro gelado flagelando o corpo ferido de Daenerys e o coriáceo corpanzil de seu filho, cada vez mais furioso e enrijecido com o clima, soltando uma ou outra lufada flamejante, como que para se aquecer ou iluminar o local.


Daenerys, ainda lutando para ter uma boa visão, acabou por perder qualquer foco de luz à sua frente. Olhou para os lados, sem realmente ver algo. Apenas o preto. Teria o seu filho ressuscitado apagado a chama? Infelizmente, imaginou que essa era a mais óbvia resposta.


Como se sentisse sua fúria, Drogon rugiu, mais alto que o ribombar de um trovão, cuspiu fogo a esmo, iluminando uma parte daquele céu negro com sua chama rubra e preta. Dany sentia a fúria dentro dele. Uma fúria mais quente que as chamas expelidas.


O que faria agora? Causara um estrago na batalha que ocorria no solo, talvez até matando seus aliados – estava disposta a fazer tal coisa, caso isso pusesse um fim nessa guerra –, e deixara tudo de lado para derrubar Viserion. (Tentava não pensar naquele ser como seu filho, mas estava com dificuldade para manter o foco.)


Dany ficou onde estava, com apenas o estalar das asas de membranas translúcidas de Drogon fazendo algum som que não o vento enregelante. Olhou para baixo. Uma névoa escura cobria sua visão, com poucos focos de luz, talvez causados por alguns incêndios, provavelmente dos corpos de mortos ressuscitados ardendo.


Deveria descer e tentar impedir os invasores? Queimar o exército de mortos? Continuar a caçar o Viserion? Sentia que estava perdendo tempo nesse jogo de gato e rato dragoniano; além do quê, havia pessoas inocentes morrendo lá embaixo…


Antes que ela tomasse qualquer decisão, um estrondo ribombou no solo, acompanhado de uma luminescência tão intensa que Dany poderia ter achado que um dragão estava explodindo em chamas no lá, no solo. Na verdade, ela se corrigiu, primeiro pareceu vir à luz, depois, o estromdo.


Donde estava, praticamente nas nuvens, com imagem do campo de batalha – que além de distante, estava encoberto por uma cortina densa e negrume, parecendo uma costura de estratos-cúmulos, como um e cerração densa –, viu o que parecia um tumor benigno feito de luz expandir-se, destruindo a escuridão. Provavelmente muitos morreram; com sorte, muitos dos inimigos também morreram.


Isso foi coisa dos sacerdotes vermelhos?, indagou-se. Só poderia ser algo relacionado a eles, mas será que Benerro…


Antes que pudesse terminar seu raciocínio, Drogon soltou um rugido – mais para um estrépito, um guincho sibilante –, com o corpanzil coriáceo pareceu arquear, tremelicando as belas asas. A asa ferida pareceu quase entortar-se quando Viserion ficou os dentes na ferida, torcendo o membro alongado conforme mexia a cabeça. De tão afligido pela dor, Drogon reagiu apenas com um abrir da boca, soltando sons intensos de agonia.


Desesperada, Dany fitou a direção onde seu primogênito era atacado pelo ultimogênito. Viu o intenso rebrilhar de uma estrela de gelo onde devia ser o olho de ouro derretido de Viserion. Era como um cachorro comendo um grande e carne crua: balançando a cabeça furiosamente, dentes bem fincados, na ânsia de arrancar um naco para si.


Um dos respingos de sangue escarlate – que jorrava conforme o dragão revivido cavava na carne – aspergiu na armadura de Dany. Se ela não tivesse virado o rosto, mais alguns centímetros, teria seu olho corroído. O metal preto sibilou em agonia, assim como ela quando sua bochecha esquerda pareceu corroer.


Parecendo perder o poder de voo, Drogon perdeu altitude, as nuvens escuras parecendo disparar para cima, como tumores voadores. Ela agarrou as correias de ferro e couro enegrecido, desesperada. O corpo agonizante de Drogon e o de Viserion giravam, deslizando no ar gélido. Drogon começou a soltar algumas chamas, que começaram a espiralar no negrume, como lanços de escada caracol incandescente.


Tão rápido quanto surgiu, a sombra revivida de Viserion sumiu.


Drogon lutou contra o próprio peso e dor, batendo as asas – mesmo a ferida –, enquanto Daenerys sufocava a própria dor, batendo-o com sua corrente. Fosse pela intensidade da batalha, do medo de morrer, ou o frio, a dor do corpo de Dany parecia até ter sumido. O chiado do metal sendo derretido era abafado pelo zunir do vento nos ouvidos.


O dragão estava há poucos metros do chão quando pareceu se estabilizar. O corpo parecia tremer. Ao invés de rugir, o animal parecia ainda guinchar, agonizando. Dany olhou em volta. Nada de Viserion. A parte coriácea de Drogon quase não se movia, parecendo que ele estava inclinado. Olhou para o chão, ainda um imenso pretume, mas polvilhado de pontos azuis. Era como se o céu estivesse lobo abaixo dela. Vendo-a.


Parecia estar sufocando. Olhou, assustada, para todos as direções. Até para o céu acima. Estava realmente apavorada: seu corpo não aguentava mais; seu braço fantasma doía tanto quanto o do que ainda lhe restava. Se pudesse, teria arrancado aquela couraça de couro e aço infernal.


Sentindo seu desespero, Drogon pareceu se agitar, rugindo e sibilando, soltando lufadas de labaredas de forma descompassada. Estava agitado.


O que faria agora? O que deveria? Alguém lá embaixo ainda estava vivo?


《 Daenerys… 》, a voz veio como um farfalhar.


Seus olhos dispararam em todos os cantos novamente. Não parecia Benerro. Nem a sumida e misteriosa Quaithe. Estava louca? Aquela voz era…


《Daenerys》; era o mais jovem Stark? Era Bran?


A imagem do rapaz pareceu ser entrevista na escuridão, intocada pelos frocos brancos que voavam no ar – ar este que parecia incapaz de perturbar os cabelos acobreados do rapaz. O olhar verde era penetrante. Um verde musguento.


《Está vindo》, falava o rapaz, cuja o tênue timbre era um murmúrio longínquo. 《Vá para os céus… aguente firme… o sol…》


Ela franziu o cenho.


— Bran? O que é? Fale! — berrava ela, tentando ser mais alta que o vento.


《Você precisa…》; a imagem se desvaneceu. O sussurro do Stark foi-se junto.


Daenerys olhou para frente, depois para os lados, por vários segundos. O cunhado sumira. Ele estava mesmo lá? Por que o contato – se é que acontecera – fora perdido?


Balançou a cabeça, que estava prestes a explodir de dor. Não era o momento para devaneios e indagações sem importância verdadeira. O que ele lhe dissera? O céu? Ir para o céu? E o que estava vindo? Algo sobre a ameaça? Ela já não estava ali?


Viserion. Viserion estava vindo. Ele estava apenas no aguardo, como uma serpente ou um crocodilo pronto para dar o bote fatal.


Drogon movia seu pescoço, como uma serpente cornuda com cabeça de cavalo. Farejava o ar talvez. Talvez sentisse o irmão morto. Parecia mais curioso do que enraivecido ou assustado. O quê era?


Seu filho sibilou, curvou o pescoço quase que num S, depois jogou a cabeça para frente, rugindo longamente.


Distante, cortando o vento ululante, o que pareceu um rugido respondeu-o.


Viserio? Não poderia ser… o dragão morto-vivo era silencioso como uma sombra. Até as asas eram menos barulhentas.


Ela fitou a asa ferida de Drogon. A ferida expelia sangue quente, que emitia alguma luminância. Viserion causara aquilo, mas não pudera manter. Assim como não mantivera o ataque quase fatal que quase matara Drogon quando este caira sobre as ameias de Harrenhal. A ruminação anterior de Daenerys estava certa! O calor de Drogon ainda era uma arma a ser usada! Um proteção!


Silencioso e mortal, sim; não imbatível. Viserion não suportaria fogo por muito tempo. E, ao que parecia, os escravagistas de gelo não ousariam perder sua arma mais potente.


Era isso que Bran quisera dizer? Ele lhe dissera para ir ao céu…


Ergueu a cabeça. Um imenso vazio negro. Se o que Dany tivera pensado adrede estivesse certo, então Bran estava querendo lhe aconselhar a esperar o sol acima das nuvens negras? Mas quanto tempo? Como saberia quando a luz ia surgir? Mais importante, como manter-se firme com Viserion?


Apesar de odiar ficar parada ali, a Rainha Dragão obrigou-se a tomar para si um tempo para ponderar. Não poderia se arriscar a caçar Viserion a esmo, assim como seria tolice permanecer parada, aguardando o próximo – provavelmente último – ataque.


Inalando o ar de cinzas, fumaça acre, carne queimada e enxofre, Dany tomou sua decisão. Com uma palavra, Drogon foi na direção de Harrenhal, descendo em diagonal, de forma gradativa.


Quando estavam mais próximos do chão, ainda longe dos portões do castelo imenso de Harren, Drogon golfou fogo nas figuras subjacentes a ele, sem se importar com possíveis vítimas. Dany sabia, àquela altura, que, dado o avanço das criaturas, praticamente não havia qualquer humano na localidade. Se havia algum, ela considerou uma pena pequena a se perder.


Alerta, Dany olhava para os lados, até para cima, pronta para um ataque. Poderia vir de qualquer direção. Aprumou-se um pouco na cela, apesar da dor, virou um pouco o ferido rosto, olhando para trás, com dificuldade, por cima do ombro. Sua visão era tapada pela estrada de fogo que seu filho alongava. Isso era bom; Viserion não ousaria atacar pelo caminho do fogo.


Fitou sua frente. Parecia haver poucos mortos, o que era estranho no começo. Quando viu como a neve parecia estar em menor quantidade, lembrou-se da estranha explosão que vira mais cedo, quando estava no céu. Pelo visto, o que quer que tenha sido, quem quer que a tenha feito, pareceu conseguir retardar o avanço do inimigo – por algum tempo, pelo menos.


Dany estava apenas no aguardo do monstro alado. Devia estar por perto; parecia se importar mais em concentrar-se em derrubar Drogon do que simplesmente atacar o rapazola Brandon. Estranho, mas o Stark bem que avisara que seria um alvo. 《A mente coletiva e corrompida me quer》, dissera, seja lá o que aquilo quisesse significar. O Stark era esquisito, obliquo. Todos eles eram.


Havia caminhantes por perto, atirando sincelos, mas Drogon os derretia com sua enxurrada de chamas. Seus corpos pálidos logo se derretiam. Não eram tão potentes assim.


Talvez por isso prefiram arriscar a única arma voadora para me derrubar; a análise fazia sentido. Também percebera que, apesar de modus operandi repetitivo, os movimentos eram feitos adrede; a mente que escravizava Viserion sabia quando atacar e como. Por isso ainda permanecia em campo por tanto tempo; talvez por isso ainda não estava sobre Dany. Estava analisando. Esperando.


Mudando seus próprios movimentos, Dany usou seu único braço para bater na ferida aberta de Drogon, perto do pescoço. Doía, ela sabia, mas a dor o fazia obedecê-la.


Drogon parou suas investidas, voo o mais rápido que pode, até ficar defronte das muralhas de Harrenhal. Vendo que o exército mistifório aproximava-se, Dany resolveu dificultar o quanto podia: queimou os poucos que estavam cobrindo as muralhas, imbuindo-lhes em fogo. Sabia que a tarefa era exaustiva, mas pretendia formar uma coluna de fogo em volta do castelo, queimando os mortos e os Vagantes; não os impediria, mas já era algo para ajudar.


Apesar de lentas, as asas de Drogon ajudavam a jogar os frágeis corpos para longe, quebrando seus ossos frágeis, enquanto suas chamas se alastravam com facilidade, espraiando na horda de mortos como se fosse de palha seca e escura.


Viserion havia de surgir, ela sabia. Mas quando? Ele ia realmente afastar-se de vez?






Daenerys estava agora na parte Sul de Harrenhal, perto do bosque – provavelmente já estava na área dele, dada a vasta área. Os corpos naquela localidade, ao invés de tentar invadir, vagavam mais para o sul. Sentiu-se tentada a aproveitar disso e descer fogo neles, mas sabia que seria um desperdício de tempo e forças.


Mas o que estava fazendo ali senão perdendo tempo? De nada adiantaria queimar toda a área em torno do castelo; o inimigo era mais do que o quíntuplo do que os guerreiros vivos.


Bufou, como Drogon quando estava irritado. Seu sangue fervia. Ergueu os olhos e o queixo, fitou a escuridão que acortinava a luz do mundo.


Com fúria, bateu o chicote de elos em Drogon.


– Sōvēs!


Parando de expelir fogo, Drogon, enraivecido, mesmo que cansado, ergueu a cabeça e pescoço, rugiu, impulsionando-se para cima. Harrenhal e suas densas muralhas negrumes foram diminuindo conforme eles se afastavam. O vento ululante, enregelante que advinha do norte parecia empurrá-los para o sul.


Dany olhou para trás, sobre o ombro. O fogo criado por Drogon espraiava pelos corpos viandantes, mas provavelmente o frio cruel sufocaria as chamas. Para variar.


Uma mixórdia de flocos e gotículas aspergia contra mãe e filho, dificultando a visão de Dany quando esta olhava para frente.




X O X O X O X O X O X O X O X O X




Jon e Stannis corriam pelos cantos de Harrenhal, junto dos irmãos Redfort – Lorde Creighton Redfort e seu irmão mais novo Sor Mychel; o Lorde de Corvarbor, Brynden Blackwood, que envergava a armadura esmaltada de verde de seu falecido pai, junto de um manto de penas de corvos (agora rasgado pelas intempéries); o Lorde de Barreira de Pedra, com sua armadura, cota de malha e um elmo cinzento marchetado com uma crina de cavalo que chicoteava no ar violento; Sor Jorah Mormont, o líder da Guarda Real da Rainha. Junto deles, pelo menos um pelotão de 500 homens a pé; não haviam cavalos vivos.


Havia menos ressuscitados dentro do castelo do que fora dele; a explosão incinerara a maioria, de modo que provavelmente todo o ambiente invadido fora perdido para eles – embora o mesmo valesse para os filhos, temia Jon.


De algum modo, o Rei do Norte não se sentia fraco – estava em puro estado de grande galhardia, um tanto efusivo até, com uma força que nem imaginava que ainda tinha; poderia jurar que seu atual corpo facilmente teria se esmerilhado quando o vento cruel o jogara para longe, como se Jon fosse um boneco de pano. Havia atingido as muralhas – e outros objetos sólidos, como um mantelete ou mesmo uma carroça –, mas recuperou-se consideravelmente rápido, pronto para a luta. Se algo nele se quebrou, agora parecia restaurado.


Era a espada. Ele sabia que só podia ser. Sentia a energia nela emanando nele; um prana. Era como se seu corpo estivesse voltando a viver, mesmo que soubesse que seu coração continuava parado. A magia e força de mais de mil guerreiros fluía em seu corpo ao invés de sangue.


Quando ele empunhara a espada ancestral dos Dayne, entendera: não era ele quem aceitava a Alvorada, era ela quem o aceitava, quem o achava digno de tê-la em mãos. Aquela era a verdadeira luz que iluminava a escuridão que cobria os olhos dos homens.


Fantasma estava ao seu lado, lutando para acompanhar Jon. Os outros soldados estavam mais fraquejados pela batalha; as aljavas quase não tinham mais flechas; as lâminas das espadas, além de inúteis contra os mortos, estavam quebrando pelo gelo que assolava o ambiente – provavelmente estava pior por causa da proximidade d'Os Outros.


A espada empunhada de Jon era como um farol para aqueles homem: um brio que desafiava o frio e a treva que flagelava a vida, recusando-se a render. Pode ser piegas dizer, mas era uma literal “Chama da Esperança”.


A intempérie enregelante era ainda pior dentro de Harrenhal: uma grossa e pálida patina de gelo cobria o ambiente, cristalizando as imensas torres, as muralhas, celeiros, carros de boi, ossos carbonizados pela intensa explosão. A neve intumescendo, cobrindo boa parte do solo, dos corpos, das carroças, armas, entre tantas outras coisas.


— Estamos perto, irmãos! — bradou Jon, sentindo o intenso chicotear do vento invernal, como se falasse com seus irmãos da patrulha. Quando ainda era um patrulheiro, quando ainda era “Lorde Snow”, um bastardo qualquer; invés de Rei do Norte.


A luminância de Alvorada recusava-se a render-se, ardendo de forma pálida, como um fogo-fantasma. Jon apertou o cabo prateado da espada, com seus dedos encrespados, compartilhando de seu estranho desassombro, como se ambos, mesmo sem vida, compartilhassem um pensamento. Era como se tivesse outros lá, falando com ele, guiando-o, estimulando-o.


Que tipo de espada é essa, que tanto parecia sair das lendas? Era magia? Jon estava insano? Por que o Lorde Edric Dayne desistira de tal artefato, ou mesmo ele não fazia ideia do poder que havia na lâmina ancestral?


Os corpos dos revividos por necromancia eram mais frágeis do que cerdas de palha seca e velha; Alvorada destruía a todos sem dificuldade, mesmo quando chocava-se com os que eram recém-revividos. Os outros guerreiros tinham mais dificuldade; com exceção a Stannis Baratheon, ninguém mais tinha, tinha uma espada mágica para se equiparar aos reis. As tochas, para dificultar, apagavam-se como uma vela com o sopro do vento. Não ajudava a nebrina que acortinava os olhos. O mundo era um breu alvo.


Estavam perto. Os Outros estavam próximos. O Rei do Norte sabia disso, Espada parecia confirmar sua ponderação.


— Temos de nos manter em alerta — falou Stannis, bem alto, para se fazer ouvir, pois o vento dificultava o som. — O pior dos inimigos está apenas nos esperando por uma emboscada, decerto.


Jon assentiu, olhando para frente. Ele e seus companheiros de guerra lutavam contra a neve grossa, onde seus pés afundavam. A camada branca estava acima dos calcanhares, retardando-os.


Brynden colocou o antebraço em frente aos olhos. Estava muito escuro, mas perdera seu elmo com viseira quando a puta Rainha Dragão o jogara para longe, de modo que não conseguia evitar o choque de flocos que atingiam seu rosto. A figura do Rei do Norte era seu único ponto de luz, parecendo um farol pequeno quando se é visto à distância, tamanho o rebrilhar. Tentava não se deixar para trás, afundando na neve. Seus homens de armas, boa parte arqueiros, que agora tinham de se virar com espadas pequenas, estavam atrás deles.


Os filhos da floresta conseguiam andar com mais facilidade na neve – talvez graças a alguma mágica antiga, talvez graças a sua compleição física esguia, le –, parecendo quase não afundar, embora provavelmente era por conta de seus gestos assaz que lhes permitia ter tempo o suficiente para locomover-se antes de afundar no solo de flocos.


Pelo menos, pensou o lorde de Corvarbor, provavelmente eles haviam matado a maioria dos mortos (ou o termo certo seria ter matado de novo? Não fazia ideia de qual era o termo correto), pois estes já não mais apareciam para atacar. Provavelmente, estavam além do que as criaturas geladas conseguiram avançar desde a explosão.


Fantasma tentava mover-se da forma que podia, mas, apesar de sua agilidade, estava fraco, ferido, sua massa muscular pesada, fazendo seu corpo afundar na massa de frocos.


De repente, parou. Jon parou logo em seguida, sentindo a perturbação do seu irmão. Os olhos vermelhos de ambos estavam fixados na frente. Jon moveu um pouco a Alvorada, inclinando-a, como uma seta, tentando iluminar o caminho. Sentia algo, a espada também.


Stannis parou perto do monarca. Estava para indagar o que diabos ele estava fazendo, até perceber que devia ter algo acontecendo.


— Estão vindo? — pergunto Stannis, fitando o nada, lutando para manter o olhar defronte a treva e cerração, mesmo com os cristais de neve fazendo de tudo para obrigá-lo fechar os olhos. Não sentia seu rosto, mas uma pequena parte de sua bochecha ardia, provavelmente queimada pelo frio.


— Estamos cercados — falou Jon, com as cãs esvoaçando, com terra gelada se soltando dos fios por conta da ventania.


Então, silêncio. Um arrepio atingiu quase todos.


Luzes rebrilhantes surgiram, uma míriade delas: defronte, pelos flancos, atrás do grupo; todas brilhando tão intensamente que queimavam através da treva e bruma, parecendo ficar maiores, aproximando-se. Os soldados e soldadas olharam em todas direções – leste, oeste, norte, sul, mesmo que em direção do céu –, encontrando cada vez mais luzes.


A constelação os observava, com o brilho ficando cada vez maior, tomando cada vez mais forma, como fantasmas se formando na nebrina.


Lorde Brynden tremia, fazia o possível para agarrar-se à empunhadeira espada, apesar do arrepio que o alentecer. Seus dentes se chocavam.


Os irmãos Redfort deram as costas um para o outro, empunhando suas próprias espadas. Sor Jorah, perto de Stannis e Jon, empunhou a Garralonga – dada pelo Rei do Norte a ele após eles terem se agrupado com os outros, entrando em Harrenhal, mesmo que o próprio monarca parecesse desgostar disso –, ficando de costas aos dois monarcas.


Mesmo o vento parecia silencioso. O ambiente tão denso que parecia que a bruma era um bloco denso de gelo que fazia pressão em cada um dos soldados.


O grupo reduzido ao que parecia menos de trezentos soldados aguardaram, empunhando as armas que tinham, observando os silenciosos seres chegavam cada vez mais perto…


O silêncio foi quebrado por um soldado Bracken, quando este foi agarrado por diversas mãos escuras que brotaram do nada no solo. Um imenso urso negro se seguiu, surgindo do cobertor de gelo, cravando os dentes no ombro de uma mulher do povo livre.


Duas estrelas cadentes irromperam a cerração, revelando o que parecia uma aranha azul-gelo – que até então estava grudada nas altas paredes de uma das imensas torres de Harrenhal, escondida pela bruma densa –, cheia de pinças que caiu sobre um Filho da Floresta, que ergueu o arco o mais rápido que pode, mas não rápido o bastante para soltar a flecha e acertar a aranha montada por um Vagante, que o esmagou e começou a perfurar sua pele fina, semelhante a de um cervo, com as pinças de gelo pequenas de sua mandíbula.




X I X I X I X I X I X I X I X I X I X I X




Daenerys esperava estar fazendo a escolha certa; não sabia mais o que fazer. Deixara a batalha no solo, mas não sabia que mais fazer senão arriscar-se; caso tentasse intervir em algo que minimamente fosse importante na batalha contra Os Outros, os desgraçados mandariam o dragão escravizado deles para atacar quando ela estivesse concentrada. Ir até o dragão inimigo em sua própria toca era arriscado, mas estava sem opções.


Havia um som de trovões por perto; seriam trovões de uma tempestade amaldiçoada ou Viserion?


Estava subindo até a camada de nuvens, passando por um ou outro estratos-cúmulos, antes de chegar até a imensa treva-nuvem que disparava cristais de gelo no mundo. A toca do dragão.


Acima de toda aquela cortina cinzenta, o céu. Só podia rezar para que estivesse certa em seu palpite – palpite não era bem o melhor termo para se prender, mas estava sem muitas esperanças no momento –, mas precisaria estar preparada. O inimigo provavelmente iria descer contra ela, ou atacar pelos flancos, mirando as feridas abertas de seu dragão. Imaginava que…


Quando sentiu um solavanco que quase a jogou para fora da sela, Drogon fez um estrépito. Era um tipo de repuxão que o fez vacilar.


Dany olhou para baixo, por cima do ombro. Viserion. Conseguia ver pouco deste, mas, a julgar pela localidade dos olhos, devia estar mordendo a cauda do irmão mais velho.


Dany nem precisou guiar Drogon; o filho virou-se com fúria, pronto para revidar o humilhante ataque. Quando o fez, a cauda se moveu, como que uma serpente tentando escapar dos dentes de Viserion.


Como um crocodilo, Viserion girou o corpo no ar, torcendo a cauda de Drogon, como que para despedaçá-la. Isso o irritou mais, fazendo-o jorrar chamas a esmo; mas não acertou seu alvo, pois o esguio dragão ressuscitado continuou fincado na cauda, que afastava-se mais de onde estava conforme o dragão vermelho se virava para encarar o seu êmulo.


Daenerys, vendo como seu enfurecido dragão não percebia a perda de tempo que era esse seu ataque desesperado, começou a chicotear uma ferida perto do pescoço de Drogon, ordenando-o a parar.


De toda forma, quando Drogon pareceu mover-se mais rápido e desajeitado – tanto que dessa vez ela realmente sentiu que seria jogada para fora das sela, quase dando um grito de medo –, logo ela percebeu que Viserion devia ter largado a cauda. Drogon estava livre, mas mais machucado, irritado, soltando chamas para todas as direções a esmo. Dany tremia em seu assentamento, agarrando-se aos grilhões para não cair – usando sua única mão –, realmente assustada, perdida, o vento – tanto enregelante quanto chamuscante – atingindo-a em todas as partes.


— Lykiri! Lykiri, Drogon! — exclamou ela, quase sem conseguir pronunciar as palavras, ainda sem conseguir soltar a mão da correia; estava ainda mais difícil se equilibrar sem um braço, parecendo mais frágil, exposta. — LYKIRI!!!


Drogon tinha os ouvidos moucos; as chamas espiralam por todo o ambiente negro. Dany via faixas rubras borradas, formas sem sentido.


Ela não podia pegar a correia contra Drogon, não atrevia-se a soltar a corrente que a agarrava a sela; mas será que deixar toda a algazarra de Drogon continuar não o tornava um alvo óbvio e brilhante contra Viserion? Ou as chamas o enervavam? Ela não sabia! Tudo apenas girava, girava, girava…


O pouco que Daenerys ainda tinha em seu estômago foi vomitado, jorrando em todos os cantos, atingindo até o seu rosto, o que a fez vomitar mais. Bom, ela já estava urinada e sujada de coisas até piores, mas agora havia bílis em seus olhos. Sem mais forças, apenas curvou-se sobre si, perto do couro de Drogon, meio-cega, exausta, tentando acalmar-se. Não tinha ideia se estavam no mesmo lugar, se mais perto do céu ou mais longe, perto do solo. Nada fazia sentido.


Súbito, quase um novo solavanco, Drogon pareceu endireitar-se, a corrente de ar lufando contra seu rosto. Ergueu o olhar, cansada. O vômito que Dany gorfara estava endurecido, prendendo as pestanas de um de seus olhos. Tomando algum arrojo, ela soltou a correia, passou os dedos da manopla na região gosmenta meio congelada, retirando a camada nojenta, liberando a vista. Seu coração estremecia dentro dela, o que, apesar de agitar-lhe, dava-lhe alguma vivacidade.


Tudo ainda estava confuso. Ela pestanejou, lutando contra os cristais polvilhados pelo céu. A cabeça cornuda de seu filho mirava contra a treva que encobria o céu, parecendo querer enfrentá-la vis-à-vis.


Drogon rugiu contra a treva, desafiando-a.


Viserion, ela deduziu, ainda um tanto desacorçoada; ele deve ter visto Viserion! O inimigo era esperto; provavelmente, ao perceber que não poderia atingir Drogon enquanto este borrifava fogo para todos os cantos. Claro, o desgraçado o atraira para uma armadilha adrede! Mas atacaria Drogon defronte? Não, ele deve ter camuflado-se nas nuvens.


Dany empertigou-se, encontrando algum arrojo. Puxou a corrente, para que pudesse bater em Drogon – que ainda rugia –, guiá-lo…


Então parou ao ouvir o que pareceu um rugido em resposta.


Dany, atordoada, olhou para frente, depois, os lados – era viserion? Ele produzira esse som? Era alguma armadilha?


Em resposta, Drogon rugiu de volta – ROOOOAAARRR –, mudando de rumo enquanto o fazia, um tanto lento, embora ela não pudesse dizer se era pelos ferimentos, cansaço ou mesmo algum tipo de cautela a qual seu primogênito nunca foi dado. Seria algum tipo de comunicação?


Antes que Dany pudesse conjecturar, algo irrompeu das nuvens opacas do céu – um borrão esquálido, oblíquo em formato corporal, com vísceras soltando-se como apêndices; quando ela conseguiu uma boa visão, por conta da proximidade entre eles, pôde ver sua boca sem lábios, os dentes negros e afiados, amostrados até a raíz por conta da pele carbonizada pelo contato contra o sangue de Drogon. O último ataque a Drogon, mordendo e girando sua cauda, deve ter atingido sua cara – longa como a de um cavalo – com mais sangue, pois o lado direito estava arruinado. Apenas um olho restava, rebrilhante e azul.


Dany jurou ter encarado a morte vis-à-vis ao ver aquela horrenda e deformada boca sem língua e cheia de pingentes de trevas; mas o destino devia ter outros planos, pois a luz do sol pareceu rasgar as nuvens invernais, trazendo o intenso lusco-fusco do amanhecer, espraiando o que ela achou ser luz solar intensa contra o corpo de Viserion, que contorceu-se com a intensidade da rajada de calor e luz.


Daenerys, confusa, pestanejou, tentando entender o que aquilo era, até perceber: o que surgia atrás de Viserion não era o sol nascente; eram chamas vermelhas, amarelas, verdes – verdes! Veios verdes como jade!


O pálido dragão mudou de rota, desviando de Drogon na direção oposta a que este subia. Atrás do rastro de luz e chamas, surgiu Rhaegal – verde-jade e marrom-bronze. O verde do verão, o marrom do outono.


Em cima do Wyvern, Aegon Targaryen, com uma armadura de aço negro, um elmo coroado por um dragão vermelho de três cabeças.