Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
101 Capital Devastada
O Rei Aegon VI estava desaparecido.
A Rainha Arianne olhava do alto do solar do Rei para o horizonte. Para o Norte. Boa parte do que enxergava era apenas um quadro opaco, com o que pareciam aparas picotadas caindo aos montes. Poucos focos de luz baça podiam ser vistos em meio a escuridão e flocos, sendo provavelmente fogueiras ou grupos com tochas – mas mesmo estes logo iam de ser apagados; a ventania estava muito forte.
Arianne se perguntava: teria seu marido chegado até Daenerys e os Stark? Como estava a situação em Harrenhal? Estavam sequer vivos?
O vento fazia seus belos e lustrosos cachos negros dançarem. Seu manto estava caído, revelando seus longos cachos e a simples coroa – tinha trocado a anterior por uma mais fina – de ouro vermelho, engastada de cornalinas e ônix. Usava um grosso vestido acetinado, alaranjado, lavrado a ouro, rubis e ágatas de sangue no peitilho. Um manto de tom laranja mais escuro pesava sobre seu pequeno corpo. Ela alisava o abdômen alargado pela gestação de 21 semanas, de forma protetora. Seus vestidos foram alargados, mas ainda lhe apertavam. Detestava a moda andala da corte; muito sufocante, pesada. Mais gaiolas que vestes.
Ergueu um tanto a cabeça, seus escuros olhos oblíquos fitaram o escuro céu, cujas estrelas e luas estavam perdidas há tempos. Seu marido e primo – era difícil pensar nele como um parente, assim como um companheiro matrimonial –, também estava perdido naquele umbral enorme que retirara toda luz e calor do Mundo Conhecido.
A Rainha ainda podia lembrar-se da última vez que vira Aegon – usava uma armadura de placas completas (caneleiras, gorjeira, grevas), esmaltada de negro, com apenas um dragão de rubis engastado no peitoral, como um mosaico de de gotas de sangue. Um alto, contorcido dragão de ferro rubro acimo do cocuruto do elmo. Seria assim que o pai dele, Rhaegar, parecia-se quando cavalgou para a morte nas águas do Tridente? Parecia galante e poderoso quando seu peito fora martelado por Robert Baratheon, quando seu corpo ficara prostrado mole nas águas, enquanto os rubis soltos eram tragados pelo caudal?
O rei caminhava até sua fera no pátio, onde a deixara após voltar das Terras da Tempestade. A fera alada, Rhaegal, estava prostrado no pátio, enrolada em sua cauda longa e pescoço de serpente, sibilante como que prestes a atacar todos que se aproximasse, provavelmente irritado com o clima gélido. Seu corpo fumegava, as narinas eram como duas pequenas chaminés. Os dentes estavam arreganhados, como punhais de diamantes escuros; de quando em quando, labaredas douradas e verdes saltavam daquela boca sinistra. Os olhos do dragão eram como ouro derretido.
Imaginava que a serpe devia estar irritada e cansada pelas últimas viagens – antes de seu último voo, Aegon já havia usado Rhaegal para voar em volta da Capital, que havia sido atingido por uma catastrófica tempestade de neve. A intempérie fora tão devastadora que quatro dos sete portões de Porto Real haviam sido quebrados, com o recém reconstituído Portão do Rei tendo um de seus imensos portões soltos, enquanto o Portão do Leão quase tivera seus dois portões arrancados. Parte da muralha norte fora quase derrubada, enquanto a parte sul sofrera seríssimos danos nas ameias. Quase todos os vigias nas muralhas e portões foram mortos.
Quanto às muralhas da Fortaleza Vermelha – as coisas foram mais graves ainda; o castelo teve seus portões destruídos (com exceção da entrada, que estava com a porta levadiça aberta, mas a ponte fora seriamente danificada. Além dos soldados em vigia, boa parte dos servos fora morta, soterrada pelo gelo invasor.
Por sorte, a Fortaleza de Maegor parece mais resistente aos impactos, embora o portão da frente quase tenha sido irrompido.
Além da neve, a ventania trouxe seus espólios: diversos objetos de madeira, pedras, árvores, granizos e restos de corpos esmerilhados pela potência do vento. O tremor foi tanto que a torre da mão, terminando de ser construída, foi simplesmente derrubada. Todas as janelas de cristal quebraram-se, como se fossem janelas de osso moído das casas plebeias.
Rhaegal parecia ter apercebido a intempérie, pois estava há dias agitado. Aegon tentara-lhe acalmar, acabando por montar nele no dia do grande impacto (o dragão estava mais agitado nesse dia). Quando isso ocorreu, um zumbido (que logo tornou-se um longo trovão) começou, seguido pelo tremor. O vento aumentou. Logo, neve soterrou a Capital dos Sete Reinos.
Quando a catástrofe ocorreu, Rhaegal já havia destruído seus imensos grilhões, voando para os céus. Aegon agarrara-se a ele, sem estar propriamente preso a sua sela, quase vindo a cair. Ele, depois, relatara para Arianne sobre como vira a tempestade enquanto ainda estava no céu, como seu dragão o levou para cima, para fugir da morte certa, enquanto ele estava lutando para não soltar a sela de couro morno.
— Nunca fiquei tão assustado em toda a minha vida — confidenciara ele quando eles reencontraram-se. Sua pele estava mais pálida, crostas de gelo cobrindo as sobrancelhas e cabelo. Não fosse o calor de Rhaegal, provavelmente teria morrido.
O Rei dos Sete Reinos fez o seu trabalho; ajudou seu povo, queimando o que podia de neve e destroços, liberando o que podia das ruas. Despejara chamas ao redor da capital, desobstruindo as estradas e algumas vilas. Fora uma labuta, mesmo para um dragão. Era preciso despejar apenas um pouco de fogo, para que não se causasse um incêndio e para evitar qualquer morte desnecessária.
Aegon tivera de ser cauteloso ao sair da fortaleza; Harrenhal não ficava longe da Capital.
Por um tempo, temeu-se apenas que Daenerys e seu exército inimigo atacasse – houve quem a culpasse pela tempestade de neve, usando de magia negra –; mas os inimigos ao norte nunca deram as caras. Aegon tentou arriscar-se mais ao norte (sem sequer considerar avisar seu conselho a despeito disso; mesmo quando praticamente todo o pequeno conselho – exceto Tyrion e Aurane, que estavam ausentes – foi contra a ideia de seu dragão deixarem a Capital em tal momento), como se seu dragão fosse um batedor. Apesar de corajosa, porém, a fera alada recusava-se a avançar; parando antes de chegarem até Lagoa da Donzela, onde a Casa Moonton comanda.
De acordo com o marido de Arianne, Rhaegal estava cauteloso durante todo o caminho, com o montador sendo capaz de sentir a tensão nele. Antes de chegarem na lagoa propriamente dita, porém, Rhaegal simplesmente pareceu ficar agitado, quase desesperado, e não atreveu-se a ir além. Quando a situação se estendeu, com o rei ficando preocupado com um possível ataque de Daenerys, eles voltaram para a Capital.
— Senti que havia algo errado — confidenciara Aegon quando eles se reencontraram, em privado. — Pude sentir o medo de Rhaegal.
— Nada pode assustar um dragão — ela tentou rebater, mas estava tão perdida e aturdida quanto ele.
— Bem, o que está vindo até aqui, pode sim.
Mas a Rainha e o Reino souberam qual era a ameaça antes de seu Rei.
Quando Aegon não mais conseguia avançar, ele então voltou-se para as Terras da Tempestade, para ajudar o povo de lá.
Pelo que ele relatara ao retornar, às terras Baratheon estavam ainda mais destruídas do que as Terras da Coroa: o local sempre fora alvo de tempestades (Arianne e seu pequeno bem aperceberam isso quando entraram sorrateiramente no reino dos antigos Durrandon), e as intempéries pioraram nesse último inverno. O Reino da tempestade não tinha vilas, apenas algumas cidades, pois as tempestades pelas quais o reino era conhecido por ter não suportavam o clima por muito tempo; tornando quase todo o reino numa floresta densa.
Com o inverno se alastrando, toda a densa mata (já muito afetada após o outono) padeceu; as folhas foram extintas durante os anos outonais, sincelos cresceram no lugar delas conforme a época invernal fincava-se.
A Mata Real, conectada nas terras da Coroa e nas Terras da Tempestade, que ainda mantinha-se viva durante um bom tempo, mas tornara-se perigosa quando muitos dos estrangeiros expulsos pelo Trono de Ferro tomaram o lugar para viver. Eles foram mais ao sul, criando alvoroço na Estrada Real e na Passagem do Príncipe; além de esconderem do ambiente, aproveitando-se da mata que ainda persistia no frio e das cavernas.
O Rei teve de deixar a cargo do regente de Lorde Edric Storm, Sor Andrew Estermont (filho do irmão mais novo de Lorde Estermont), para cuidar da situação. O regente, porém, pouco pareceu fazer para resolver a situação a longo prazo. Pelo que os informantes de Lysono Maar puderam informar (embora o próprio castelão-regente não fizesse questão alguma de esconder os motivos e suas decisões), Sor Andrew apenas esperava que o frio e a fome matasse os “miseráveis invasores” e que, como não haviam vilas para serem atacadas, “decerto não há razões para dar atenção aos estrangeiros”. Basicamente as cidades e os lordes apenas deviam fechar seus portões e deixar que os inimigos fossem morrendo.
Bem, o castelão não tinha como prever o clima. Por sorte, a resiliência de Ponta Tempestade provou seu valor mais uma vez; as muralhas resistiram a intensa rajada de vento, neve e destroços sem esforço.
O mesmo não poderia ser dito a respeito dos outros castelos porém.
Portabrônzea, uma imensa cidadela-fortaleza, sede da Casa Buckler, com um amontoado de pequenas vilas protegidas sobre suas imensas muralhas, simplesmente teve seus muros de proteção derrubados; todas as pequenas vilas caíram como contrações de palitos são derrubadas com um sopro. Praticamente todos morreram, até mesmo Lorde Ralph Buckler veio a ser morto, junto de toda a sua família – quando suas proteções foram abruptamente destruídas, incluindo os portões de seu imenso castelo, nada pode salvá-lo de invasores famintos, desesperados, raivosos, que saquearam tudo o que restava de suas vilas pequenas; invadiram o castelo, matando todos em seu caminho.
Provavelmente não apenas estrangeiros fizeram tais atrocidades; nesses tempos cruéis, a própria plebe westerosi, muito ignorada pelos seus suseranos, era capaz de coisas horrendas para alimentar seus filhos. (Ou para vingar-se daqueles que fizeram ouvidos moucos para seus apelos.)
Perdas parecidas atingiram Nocticantiga da Casa Foote, Pedrelmo da Casa Swann, Poleiro do Grifo e Portonegro dos Durrandon. Por sorte, diferente dos Buckler, as famílias estavam boa parte seguras.
Quanta a Ponta Tempestade – suas muralhas impenetráveis podem ter resistido ao pior da tempestade, mas as pessoas que habitavam o castelo não tiveram a mesma sorte. Grande parte dos servos e do grupo de protetores-regentes do infante Lorde Edric (o mesmo grupo montado por Lorde Davos, quando este os unira para proteger Edric e afastá-lo da crueldade de Stannis), morreu com entrada de neve e objetos levados pelo vento. O próprio regente de Edric acabou por ser esmagado por uma árvore que atravessara uma janela, esmagando-o. Todo o celeiro fora soterrado, de modo que todas as montarias do castelo foram mortas. Por sorte, o próprio Edric estava a salvo.
Aegon conseguira usar seu dragão para derreter a neve e queimar os outros materiais que estavam obstruindo a estrada para o castelo. Todavia, o castelo ainda estava internamente destruído, até mesmo a comida estava em falta e boa parte das pessoas em Ponta Tempestade estava esfaimado por conta do período em que estavam presos, antes da chegada do rei. Boa parte morrera de inanição ou frio.
Enquanto o Rei estava em sua empreitada para salvar as Terras das Tempestade, Arianne e a população em Porto Real tiveram de enfrentar a ameaça maior.
O Rei confiara em sua para ser sua regente, e assim Arianne fez o que devia enquanto o monarca estava fora. Quando boa parte dos obstáculos foram despachados, Arianne ordenou que os portões da Fortaleza Vermelha fossem abertos, assim como o Alto Septão fizera com o Grande Septo de Baelor (Como ambas as construções ficavam em colinas, era complicada que os plebeus conseguissem caminhar até os locais, por conta do terreno destruído). Também enviara algumas cartas para o Alto Septão, sugerindo que alguns dos Pobres Companheiros fossem para o topo da Colina de Rhaenys, levando alguma comida, enquanto alguns soldados da fortaleza fariam o mesmo, de modo que os plebeus tivessem outro local para se acomodar, mesmo que precário.
Alguns dias após o Rei ter partido, as coisas pareciam se acalmar. Pelo menos era o que parecia.
Arianne chegou a ver os restos dos mortos-vivos quando fora apresentada a algum deles, na sala do Pequeno Conselho. Uma cabeça pálida, com olhos azuis rebrilhantes e assustadores; uma mão enegrecida com apenas três dedos, que usava para rastejar como uma aranha desengonçada.
Isso foi apenas após os primeiros ataques. Havia mortos trazidos pela tempestade, boa parte tendo sido queimada por Aegon, ou estando simplesmente destroçada pelo vento potente, capaz de quebrar muralhas. Ouvira relatos de olhos brilhantes, mas ela ainda não havia visto nada – apenas deixara Haldon examinar os restos humanos que tinha; pois estava muito preocupada em tentar acalmar o povo faminto e sem moradia, enquanto conversava com os construtores sobrevivente para que os problemas dos portões fosse resolvido.
O ataque foi pior nas ruas, ela ouviu dizer, e nisso acreditava; provavelmente centenas de pessoas foram atacadas e mortas por pessoas reanimadas. Na fortaleza, antes de sequer serem informados sobre os ataques na cidade (que muitos acharam ser uma revolta do povo faminto que estava brincando entre si no começo), alguns mortos conseguiram avançar e matar pelo menos 60 soldados antes que os guardas conseguissem destroçar os corpos e queimar alguns deles. Harry Strickland fora um dos mortos, não que fizesse falta.
Haldon fora morto por um dos cadáveres que examinava, junto de três meistres que investigavam o estado de decomposição rompida com ele. Os outros meistres sobrevivente da fortaleza explicaram a situação para a Rainha, mas pouco tinham a informar.
— Daenerys? — foi a primeira coisa que disse, observando os restos mortais que mexiam-se.
Ninguém realmente tinha alguma resposta no momento. Arianne apenas fora obrigada a ordenar que os portões do castelo fossem fechados – ninguém mais poderia entrar ou sair –, enquanto mandou cartas para o Alto Septão. Pelo que ela soube mais tarde, diversas irmãs silenciosas foram mortas pelos mortos que cuidavam. Morreram ainda mais pessoas no Grande Septo do que na fortaleza.
Nunca recebeu respostas dos que estavam abrigados no Fosso dos Dragões.
Arianne questionara se realmente havia alguma coincidência na ocasião – os corpos de olhares frios foram observados quando Aegon ainda estava para partir, e permaneceram inanimados por um bom tempo após este ter voado para o sul.
Fora muito oportuno; quando Aegon estava longe, com seu dragão, os mortos começaram a atacar.
De toda forma, antes de sequer ter esse raciocínio, Arianne reunira os poucos membros do conselho.
O idoso Lorde Ardrian Celtigar e Lysono Maar estavam apavorados, mas estavam em seus postos em instantes; Sor Pato, o chefe da Guarda Real; Sor Brendel Byrne, o líder da Companhia Dourada também fez-se presente.
Aurane Waters estava em alto mar, indo até as Terras do Oeste, saqueadas por invasores das Ilhas de Ferro; Haldon fora garroteado pelas suas próprias cobaias; Randyll Tarly e Mathis Rowan estavam na Campina há menos duas ou três voltas da lua.
Tyrion não era visto desde antes da queda da Torre da Mão.
— Sor Brendel — disse a Rainha —, seus homens estão aptos para proteger a cidade? Os portões estão destruídos e temo que a guarda da cidade esteja com muitos poucos números para defender a Capital.
O homem, um comandante de alta patente, não tardou em anuir. Era um soldado envelhecido, calejado, feio.
— Meus soldados estão mais do que prontos e já ordenados a fazer guardas nos portões. Pretendo fazer a limpa de mortos nas ruas, ruelas e becos, caçando esses monstros, se Vossa Graça assim o permitir. Também penso em enviar homens para fora das muralhas, para encarar qualquer ameaça que ouse nos atacar.
Ela aquiesceu.
— E os elefantes? Vão poder andar na neve? — Ela não gostava de como esses animais podiam gastar em comida.
— Eu e meus soldados estávamos planejando usar a madeira disponível para montar, hhmm, digamos que trenós, para prender-mos nas magníficas criaturas. Não apenas para locomoção, para retirar boa parte da neve.
Ela analisou o que ele lhe dizia. Poderia ser uma perda de tempo, mas também poderia ser de grande ajuda no momento.
— Já tem alguma parte pronta? — indagou.
— Fizemos alguns esboços, mas já tenho alguns homens trabalhando nisso.
— Vá comigo até a Sala do Trono depois, Sor. Decerto podemos ter algum carpinteiro para ajudar-nos, ou usar de algum dos meistres para pensar em como montar esses aparatos. — Continuou: — Mas e depois? Alguma ideia?
Ele não a decepcionou:
— De fato, os elefantes não são criaturas para neve, mas são úteis mesmo assim. Penso em levá-los para fora da Capital, como uma linha de frente, ou quase isso. Assim, caso o caminho esteja menos apinhado de flocos, eles ainda podem tentar andar no terreno.
A Rainha assentiu.
— Quantos desses animais nós ainda temos? — Sabia que tais criaturas demandam bastante alimento.
— Vinte e três. Porém dois deles estão fracos, mais seis morreram no ataque da neve e um morreu hoje, não sabemos o porquê, mas não creio que fosse de doença. Devia apenas estar fraco pelo clima.
— Os mortos estão conservados?
Apesar de parecer estranhar a indagação, Sor Brendel fez que sim com a cabeça.
— Ótimo. Pergunte aos meistres da fortaleza se eles são capazes de descobrir se algum deles morreu por doenças. Os plebeus precisam de comida; mas pode pegar um para seus soldados.
O homem anuiu novamente, um pouco surpreso com a ideia.
— E quanto aos mortos? — a Rainha Arianne perguntou, um tanto incisiva. A ideia de uma nova leva de mortos a deixava nervosa, apavorada. Foram quase três dias de pessoas sendo atacadas e, enquanto a conversa acontecia, era certo que mais pessoas estavam morrendo. A ideia de que o ataque de mortos também poderia ser coordenado era ainda mais enervante.
— Estamos queimando todos os corpos — o chefe da Companhia Dourada respondeu —, mesmo os que não foram ressuscitados.
A Rainha assentiu. Desejou que o esquisito arquimeistre Marwyn estivesse ali – ele talvez soubesse o que fazer pa4a explicar aquela nova e misteriosa ameaça, talvez até como resolve-lá. (Isto é, caso ele mesmo não fosse um usuário de necromancia e tivesse mandado um exército de corpos mortos para atacar Aegon.)
Arianne alisou a barriga, sentindo o tecido morno que cobria sua pele marrom. A vida dentro de seu ventre crescia, mas ainda era frágil, o rei ainda não retornara. Algo precisava ser feito e ela era quem comandava até que o próprio monarca retornasse.
— Se algum corpo ainda restar — demandou ela, com cadência até calma —, quero que seja esquartejado e trazido para os nossos meistres. Creio que uma viagem para Cidadela seja impossível no momento, então usaremos nossos próprios sábios para analisar a questão.
Os membros do Pequeno Conselho olharam-na, espantados.
— Ma-majestade — balbuciou Lorde Celtigar, com seu queixo rugoso tremendo de terror —, isso… isso é absurdo… nefasto…
— Bem, a situação toda é sinistra e nefasta — cortou-o. Estava farta de tudo, mas ainda era uma princesa dornesa; seu trabalho era reinar. — Temos de saber o que pudermos. Não gosta disso, Lorde Ardrian? Azar. Seu posto é como Mestre das Moedas, não de Mão do Rei. Espere até o retorno do Rei caso tenha problemas com como eu comando o reino; mas eu sou a escolhida de Aegon para reinar e, até que ele volte e diga que não, minha palavra é a final.
O velho pareceu ficar ofendido, emputecido, mas calou-se, com o queixo tremendo de indignação. Dane-se. Ela não tinha tempo para as reclamações de um velho bobo e opulento. Voltou-se para Brendel Byrne.
— Faça o que mandei. Reúna seus homens o quanto antes, junto de seus elefantes, façam a limpeza das ruas da Capital e depois leve quantos achar necessários para acampar fora das muralhas da Capital e defender-nos de ameaças vindas de Daenerys ou de seja lá o quê esteja vindo com esta magia negra contra nós.
Quando o Rei retornara, exaurido, depois de uma “turnê” nas Terras da Tempestade, com um dragão tão fatigado quanto, não era de se espantar que a notícia dos mortos o espantara. Por sorte, Arianne manteve os exemplares que pediu para os meistres, usou-os como prova para seu monarca.
— Acha que isso é coisa de Daenerys? — ele indagou, pertubado, voltando-se para ela. Estavam numa antiga câmera nas celas negras da Fortaleza. Os corpos rastejantes estavam esquartejados, mas Arianne os queria o mais longe possível dos níveis mais populosos do castelo. E cada cela tinha um corpo diferente.
Como resposta, a Rainha apenas deu de ombros, voltando a fitar os seres rastejantes que eram as mãos decepadas no tampo de uma mesa de montar velha. Tentava manter-se imperturbável.
— Não faço ideia, majestade. Creio que é a única que sei que tem um exército capaz de magia negra, mas não sei porquê ela apenas não nos atacou ainda.
— Apesar de não parecerem apodrecer mais, os corpos ainda queimam com facilidade — explicou um dos meistres, tremendo de frio, mesmo com sua manta de lã cinzenta. — Mandamos alguns relatos para a Cidadela, mas eles não nos responderam.
Aquilo perturbou ainda mais o Rei.
— Acha que… que essas coisas atacaram Vilavelha? Mataram todos?
Os homens com correntes trocaram um rápido olhar. Um deles respondeu:
— Acreditamos que não, Majestade. Apenas…
— Apenas acham que estamos loucos e nem sequer nos responderam — atalhou Arianne, vendo a hesitação do velho. Ela sabia que parecia loucura. Deuses, até para ela parecia irreal.
Arianne enviara diversas cartas para Dorne durante e após os ataques dos mortos reanimados. Dado as respostas condescendentes de Ellaria, que agia como uma regente para o enfermo e insano Príncipe Doran, levado à loucura pela dor da gota, sabia que os outros reinos pareciam intocados pela destruição.
— Aquelas vilas vazias… — murmurou Aegon, olhando para o chão, mas parecendo estar em outro lugar. — Talvez por isso estivessem tão vazias. Aquelas coisas mataram todos.
E se esconderam do dragão, a Rainha deduziu. Se isso fosse verdade, esses seres eram realmente uma mente mais sagaz do que aparentavam ser, indo além de pedaços gelados de carne. Provavelmente, agora que Aegon havia retornado para a Fortaleza Vermelha, decerto estavam saindo da neve, matando todos que viviam.
Mas não falou sobre suas suspeitas. Sabia que seu companheiro estava abalado o suficiente com a situação, e como o fato de ter deixado a Capital sendo atacada por uma ameaça de necromancia era castigo o bastante.
Tocou o ombro dele. As vestes negras estavam desgastadas pelas intempéries que enfrentara.
Sem perder tempo, porém, ela voltou-se para os meistres.
— E os corpos das pessoas mortas na Capital? — Arianne perguntou. — Ainda nada? Nenhum sinal de magia?
Os três meistres no local abanaram as cabeças.
— Nenhum olho mudado, Majestade.
— Você escondeu corpos? — Aegon a olhou com nojo, medo, como se ela fosse uma bruxa insana.
Arianne não vacilou.
— São medidas extremas para tempos extremos, Majestade — falou, sem realmente parecer se desculpar. — Caso estas… — gesticulou para os membros desmembrados —... coisas ressuscitem também os mortos da Capital, estaremos perdidos. E temos de descobrir se é possível descobrir novas fraquezas. Ou mesmo se é possível tentar comunicar-se com eles. Ou através deles.
Ele franziu o cenho.
— Você quer comunicar-se com eles?
Arianne sentiu-se corar um pouco, sabendo o quão perturbadora ela devia estar soando.
— Se Daenerys os usa como espiões…
— Ela estar por trás disso só ressalta como não é alguém digno de diálogo! — a retrucância do Rei reverberou na saleta escura, quase sem luz.
Arianne suspirou, estressada. De repente lembrou-se que estava grávida e que essa discussão não seria boa. Já estava escutando diversos comentários sobre como uma mulher grávida não devia se meter em assuntos do governo.
Vendo que o seu marido estava tão pertubado, e não querendo ser humilhada na frente dos meistres e guardas, Arianne fez uma vénia, pedindo licença.
Mais tarde, ela lembrava-se, Aegon foi ter com ela em melhores termos – e mais bem vestido. Estava mais próximo do Rei que ela conhecera.
— Lamento pelo que ocorreu mais cedo — ele dissera. — Foi indecoroso de minha parte, minha Rainha. Sei que apenas está fazendo o que pode e o quanto tudo isso deve ser estressante para vós.
Arianne estava sentada em um divã de almofadas vermelhas, usando apenas seu roupão para cobrir a camisa de linho. Apenas o seu estranho guarda, o imenso Sor Robert, observava. (Areo e Pato foram dispensados; apesar dela confiar em Hotah, mas ela e Aegon sabiam que Sor Gregor era mais quieto que qualquer um e ela não queria irritar o marido.)
— Lamento se minhas ideias o perturbaram, meu Rei — suas palavras enrouquecidas eram sinceras, mas não arrependia-se de fazer o que achava certo.
Ele sentou-se ao lado das pernas arqueadas dela, na ponta do divã. Parecia um tanto assustado enquanto fitava o ventre alargado de sua companheira, que estava apenas começando a crescer.
— Eu… posso tocar?
Ela anuiu.
— É seu herdeiro. — isto é, caso seja um menino. Ainda era perturbador para ela pensar que uma menina seria vista como uma decepção para o reino; a primogenitura deveria ser independente do gênero.
Um tanto hesitante, Aegon assentiu, esticou o braço, alisou a barriga de Arianne com a palma, alisando o tecido fino e transparente. Ela notou um fogo acender nos olhos índigo dele, e pensou em como seu corpo devia estar bem exposto: o roupão aberto, os seios expostos e cheios; pernas abertas. Quem sabe, talvez até a barriga excitasse o Rei. Muitos homens poderiam se excitar em pensar em como sua virilidade era capaz de criar uma vida.
Ele ergueu os olhos, fitando o olhar escuro, oblíquo, de Arianne.
— Vós deveria ter deixado a regência…
— Vós escolheu-me e cá estou. Acho que fui em meus deveres.
Ele deu um sorriso cansado, assentiu.
— Fostes ótima, esposa. — O sorriso morreu. — Crê que isso seja tudo obra de Daenerys.
Arianne suspirou, demorando para falar. Mas nem precisava; pensara muito sobre tudo isso. Não, não achava ser algo relacionado a Daenerys – na verdade, dúvida que ela fosse capaz de algo tão cruel se tivesse três dragões com ela.
— Não — respondeu, cansada.
Seu Rei acenou com a cabeça.
— Nem eu. — Olhou para o chão, cabisbaixo. Fechou a mão num punho frouxo. — Não. Isso vai além de Daenerys e sua luta pelo trono.
Arianne ergueu-se um pouco nos cotovelos.
— A Longa Noite?
Ele olhou de soslaio. Não disse nada, apenas anuiu.
— Se isso for verdade — continuou ela —, então talvez ela e os Stark estejam pior do que nós.
— E precisando de toda a ajuda que possamos dar para deter essa… essa magia negra sobre nós.
A Rainha assentiu, sabendo até onde queria ir, mas não falou nada.
— Rhaegal…
— Agitado, ainda — ele explicou. — Mas, quando retornei… parecia temeroso para avançar, ainda mais assustado. Porém, não sei como explicar, eu podia sentir seu desejo de avançar. Superar o medo. Ele berrava para o horizonte quando pousei, parecendo mais ansioso do que nunca.
— Ele quer reunir-se com sua mãe. — Arianne sabia que eles estavam tendo o mesmo racíocionio.
Aegon levantou-se, parecendo revigorado.
— Devo reunir o conselho.
— Eu vou com você. — Não era uma pergunta. Ela já tentava levantar-se.
— Você não… ah, pelos deuses — desistindo da hesitação, Aegon ajudou sua noiva a levantar-se, enquanto berrava pela dama de companhia dela.
O Rei não pediu permissão para os seus conselheiros – ele apenas avisara-os de que estava partindo e que, a menos que sua rainha quisesse desistir, ela seria a encarregada de cuidar do reino em sua ausência. Ele girou seus calcanhares, ignorando os protestos de todos; incluindo os de sua própria consorte, que tentou acompanhar seus passos, indo até o pátio onde o dragão estava.
Arianne, como uma boa consorte que era – e que tinha de ser –, acompanhava seu marido, à passos rápidos, lutando para não se encolher de frio (ou de medo pela assustadora montaria de Aegon) e voltar correndo para dentro. O vento fazia suas vestes rodopiar com a ventania cruel; sua pele olivácea ficou arrepiada, como a pele de um gato.
O guarda real, Pato, caminhava, firme, ereto, ao lado de seu rei, com seu manto branco esvoaçando com a intempérie. Sua armadura esmaltada, somada ao belo manto de guarda, o fazia parecer um cavaleiro de neve; embora seus cabelos parecessem de fogo.
(Arianne – e boa parte da corte, disso ela tinha certeza – nunca entendera por qual motivo o Rei dos Sete Reinos insistia em manter um plebeu qualquer, que passou a maior parte de sua vida em Essos, como o líder de sua Guarda Real. Era uma vergonha dar um cargo tão alto para um qualquer.)
— Meu rei — disse Sor Pato, cujas sobrancelhas avermelhadas estavam quase totalmente cobertas pela camada alva de flocos, falando bem alto para ser ouvido naquela ventania ensurdecedora —, peço te para que repense, escute o que o Pequeno Conselho disse…
— O Pequeno Conselho esquece-se de que a principal preocupação da monarquia devia ser para com o Reino, não apenas com o monarca no Trono — atalhou o Rei Dragão, por cima do ombro.
— Se você morrer — insistiu o Chefe da Guarda Real —, toda a nossa causa estará perdida!
— Tudo estará perdido se eu ficar aqui e não fizer nada. — Rhaegal estava com o corpo mais aberto agora. Pronto para ser montado, embora não parecesse realmente gostar da ideia de seu montador.
Ele realmente deseja viajar para o Norte.
A Rainha, tomando alguma coragem, viu-se obrigada a aproximar-se de Aegon e seu dragão.
— Meu Rei, por favor, escutai-me, eu imploro para que não deixes seu reino indefeso…
— Indefeso? Rá! Arianne, amor — ele parou, virou-se para encará-la —,vós sois a mais capaz de cuidar de tudo em minha ausência.
— Mas…
Ele a calou botando dois dedos nos lábios dela. Ele parecia ainda maior que ela agora.
— Apenas ouça: não sei se hei de retornar, nem se estamos realmente perto do fim, mas quero que saiba que ter vossa companhia comigo, ainda mais após perder Jon… — Ele vacilou nas parecia atordoado ao lembrar de sua única figura paterna, perdida para a doença. Pegou a pequena mão da consorte, enquanto fitava-lhe os olhos. — Vós fostes a minha única família real. Mais do Daenerys, e por isso sempre lhe serei grato. Quero… quero saiba que a amo e lamento que ser rainha tenha dado-lhe tantos infortúnios. De fato, lamento muitas coisas, como não ter deixado-a voltar para Dorne, ou mesmo ter-lhe despejado minha semente.
A essa altura, Arianne apercebeu-se estar chorando, mas nem sabia o motivo; parecia oca demais para tristeza.
O Rei puxou-a pela cintura, ambos deram um último beijo.
Antes de virar-se para finalmente montar seu dragão, o Rei Aegon virou-se para seu chefe da Guarda Real.
— Protegeis minha Rainha, Sor! E prometa-me que, independente se filho ou filha, minha descendência há de ficar no trono.
Apesar de parecer reprovar toda a situação, o sério Sor Pato anuiu.
— Prometo, Vossa Graça.
E assim o Aegon partira, escalando seu dragão verde outonal, voando para os céus escuros, sumindo como um ponto no horizonte.
A Rainha viu-o partir, pensando se o veria novamente, se o bebê de ambos vingaria…
Se algum dia ela retornaria para Dorne. Para seu lar.
A Rainha agora olhava na mesma direção, como que esperasse que seu Rei voltasse. Que ele estivesse vivo. Que tudo finalmente acabaria.
Suas mãos saíram do conforto cálido do manto grosso, foram espalmadas na balaustrada circular, feita de estuque rosado. Sentia o frio da pedra lisa, cuja tonalidade rubicunda havia erodido ao longo dos anos. Quantos reis, rainhas, príncipes e princesas não haviam tocado aquela mesma pedra tantos séculos antes?
— Minha Rainha, nós precisamos ir — insistiu Valena Toland, sua dama de companhia, mais uma vez. — O conselho insiste que fiquemos no Salão da Rainha até o fim desta… desta… desta situação.
Ela sabia que havia postergado esse momento por tempo demais.
A rainha se virou, voltando a erguer o capuz. Detestava todo esse frio, mas pelo menos sentiu que podia respirar melhor com o vento forte, enquanto seus trajes reais a garroteavam-na; embora o ar tivesse um estranho odor de morte.
— Está bem. — Arianne saiu do parapeito, afastando-se da pintura de treva que formava-se. Afastando-se dos gritos que aconteciam tanto dentro quanto fora do castelo.
Taena Merryweather ajudava uma serva – uma ratinha covarde, descarnada que não parava de tremer – a guardas as últimas roupas da rainha e a guardar a Coroa de ouro amarelo incrustada de rubis e topázios numa boceta de carvalho com cantoneiras de prata dourada com ferrolho de ouro.
— Trata de não perder — avisou a mulher de Myr para a serva, com seu sotaque forte, junto dum olhar sério.
A serva anuiu, girou os calcanhares, saiu dali, apressada, olhando assustada para os dois guardas da rainha: Sor Robert Strong e Areo Hotah, como que com medo de que estes a matassem. (Areo devia de ter ficado nas areias de Dorne, mas parece que os conselheiros e a regente do principado fizeram questão de mandá-lo para proteger Arianne, assustados com o cruel atentado que ceifara as vidas de suas primas. Até a mãe de Arianne, Melara de Norvos, enviara uma carta solicitando que isso fosse feito.
Havia sido quase um milagre o guerreiro treinado pelos sacerdotes barbudos de Norvos tivesse conseguido chegar a Dorne, mas o rei fez questão de usar um dos navios da Frota Real – Doce Cersei –, para buscar o mais novo protetor de sua esposa. Como era de se esperar, Aegon ficara ainda mais preocupado quando Arianne anunciou a gravidez.)
Hotah usava uma capa pesada de crina de cavalo – muito comum em Norvos, mas ele teve de trocá-la por seda ao chegar em Dorne –, um meio-elmo, uma armadura de escamas de cobre. Ao seu lado, sua esposa: seu poderoso machado de quase dois metros de altura, com haste de freixo. Geralmente o homenzarrão guarda sua arma em uma tipoia, mas desde que chegara em Porto Real, estava com ainda mais prontidão. Todos eram potenciais inimigos.
Ao lado direito, Sor Robert Strong. Ainda maior que Hotah, ainda mais assustador também. Sua visão deixava até mesmo Arianne enervada. Não se atrevia a subir a viseira de seu elmo: preferia achar que ali apenas havia sombras, pois a visão bem podia ser de algo pior. Melhor não arriscar.
Taena e Valena se prostraram ao lado de sua monarca, posta como regente por Aegon antes deste partir.
— Eu devo de ver meu povo antes — declarou a rainha, virando-se para as suas damas, que esperavam ir logo para dentro de Maegor. (Bem, na verdade, já estavam na fortaleza de Maegor, mas a ideia do conselho era transferir suas posses para outros aposentos, em caso de fuga, enquanto aguardavam o fim da guerra – ou seja lá o que todo esse novo conflito era –, no Salão da Rainha.)
As damas não gostaram disso.
— Majestade — Valena parecia se segurar para não chamá-la de “princesa” ou mesmo pelo nome, dada a amizade íntima que tinham em Dorne, quando Arianne era princesa —, o Conselho…
— O Pequeno Conselho não está acima da Regente. E eu preciso passar a imagem de uma boa governante, pois?
A herdeira Toland pressionou os lábios, fez uma linha fina deles, mostrando sua discordância e insatisfação com a escolha de Arianne – não que isso realmente importasse.
Taena era menos beligerante.
— A Rainha deve fazer o que é preciso para o povo — declarou a Myrinense, como se a Rainha dos sete reinos necessita-se de seu apoio para algo.
Arianne nunca gostou daquela mulher – sabia que Taena era só mais uma informante de Varys. Alla havia lhe contado muito bem sobre a antiga dama de companhia de Margaery Tyrell; Lysono também já tinha lhe informado certas coisas a despeito da estrangeira.
Não importava, Taena não podia mais ajudar Varys a tecer a sua teia – A Aranha da corte estava morta, tal qual seu amigo. Diversas pessoas invadiram a mansão de Illyrio, perto das muralhas da cidade. Amarraram Varys e Illyrio, saquearam o local, incendiaram quando tinham pegado tudo o que podiam. (Talvez ambos tivessem morrido antes do incêndio, mas ninguém tinha certeza.) A guarda da cidade, infelizmente, chegara tarde demais – os servos pareciam ter apoiado a revolta, abrindo todas as entradas possíveis da moradia do último Magister de Pentos.
Não fizera qualquer diferença – a tempestade de neve decerto teria matado A Aranha e o seu velho companheiro.
Porto Real já não era mais um lugar seguro para estrangeiros, então não foi uma surpresa matarem um dos poucos que restaram deles; embora os outros comerciantes tivessem sido poupados. Bem, talvez Lysono tivesse alentado um pouco os sentimentos negativos dos citadinos – um murmúrio aqui, uma acusação ali. Pronto. Chamas para todos os lados.
Arianne preferia não saber se o Rei tomara parte disso, mas suspeitava que o próprio Aegon não sabia bem o que pensar. Talvez ele apenas soubesse que era uma questão de tempo para algo assim ocorrer; talvez pensasse que algo pior poderia ocorrer caso os dois conspiradores respirassem por mais tempo.
Após a morte da Aranha, Taena pareceu um tanto abalada, mas permanecera na corte. Quem sabe não temia que sua saída não levantasse alguma suspeita? Além do mais, Arianne suspeitava que sua querida dama estava sendo um tanto útil para Aegon quando Arianne começara a ficar indisposta por conta de sua gestão. (Se bem que não estava reclamando muito dessa parte – Aegon parecia ainda mais lascivo conforme a barriga da dornesa crescia, de modo que Arianne estava mais dolorida e cansada do que deveria.)
Não era do tipo ciumenta (se Tyene estivesse viva ela poderia confirmar como era uma Rainha generosa em compartilhar seu leito conjugal), mas desgostava de ter uma mulher em quem não confiasse em seus serviços. Quando a gestação passasse, Taena voltaria para Mesalonga.
De toda forma, o marido de Lady Taena, Lorde Merryweather, não parecia sentir falta dela – pelo que a Rainha ouvira, ele preferia mais a companhia de jovem cantor (bem jovem) para fazê-lo esquecer de sua solidão. Tinha um palpite de como os dois deviam cantar.
— Hei apenas de fazer presença na Sala do Trono de Ferro — tentou acalmar as duas mulheres. — Serei rápida, apenas para fazer presença e ver se precisam de algo.
— Praticamente todos os meistres estão lá — contrapôs Valena, começando a deixar Arianne nos nervos (seria efeito da gravidez?).
— Eu não lembro de ter lhe perguntado algo, Valena. — Isso fez a jovem moça ficar tão vermelha quanto seus cabelos, mas a calou de vez. Ótimo.
Areo Hotah não ousou discordar de sua princesinha. Seu trabalho era sempre vigiar e servir. Nunca questionar.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
O Salão do Trono sempre fora um lugar imenso e obscuro, mas agora estava ainda mais sinistro – o ambiente, mesmo cheio de archotes e velas, parecia recusar-se a iluminar-se e aquecer-se. O lamurio de centenas de pessoas acamadas enchiam o ambiente do mesmo modo como o vento ululava do lado de fora. Os meistres lutavam para conseguirem tratar de todos os feridos que estavam apinhados no salão, criando caminhos afunilados em meio aos catres.
Acima de toda a carnificina, estava o Trono de Ferro, com sua forma disforme, espinhenta, esfumaçada. Parecia uma criatura de treva, retorcida. Os crânios de dragões pareciam aves de rapina prontas para abater todos ali a qualquer momento.
A ventania agressiva batia com força nas estreitas janelas de cristal, querendo invadir o abrigo. Patina pálida acumulava-se do lado de fora
Arianne caminhou entre alguns dos feridos, enojada pela visão: pessoas com membros arrancados, partes enegrecidas pelo inverno; muitos chorando e agarrando quem quer que passasse por eles, implorando por misericórdia, ajuda, alimento, para avisar seus familiares, dentre outras tantas coisas. Muitos agarravam o manto da Rainha – maioria nem devia de saber que era ela, tamanha a agonia em que se encontravam –, manchando-o de terra, unguento, sangue.
— A Rainha! — alguém murmurava aqui e ali, com alguns ousando tentar se aproximar, embora a figura de Areo Hotah e Sor Robert – principalmente este –, os mantivesse respeitosamente longe. Havia alguns Pobres Companheiros e Filhos do Guerreiro no local, que também mantinha a turba controlada, um tanto espaçada entre si.
Uma miríade de rostos desconhecidos olhavam para a pequena rainha dornesa.
“A rainha!”, dizia a maioria.
“Oh, louvada seja!”, cantara uma mulher.
“Majestade, onde está o Rei?”, muitos indagaram, temerosos. Estes eram os mais nervosos entre a turba.
“Salve-nos, por favor!”, esta uma frase tanto dita pelos lábios quanto pelos olhos apelativos.
Tentando ser impassível em seu rosto, a Rainha Arianne caminhou até o trono de ferro, subiu alguns degraus torcidos, auxiliada por Areo. Apesar de ainda não ter seis meses de gestação – estava bem certa disso –, sentia-se atabalhoada, com seus pés parecendo pesados e desengonçados; suas costas e coxas doíam; parecia que seu corpo inteiro pesava cinco toneladas a mais. Pelos deuses, como sua mãe passara por gestações Arianne nunca entenderia.
É fácil para Aegon fazer tanta questão de que eu engravide; ele não tem de passar por isso!
Ela lembrou-se de como Elia Martell, sua falecida tia, tinha passado por dificuldades em suas duas gestações; não lembrava de tê-las vivenciado, mas sabia das histórias. Os próprios meistres avisaram para ela e o príncipe Rhaegar não arriscarem com mais uma gestação – terá sido por isso que o maldito fugira com Lyanna? Homens não sabiam controlar o próprio pênis? Deuses, estava rabugenta – rabugenta como imaginava que as ladies que seguiam as leis de primogenitura eram.
Ela teria de se esforçar muito para não tomar chá da lua após parir. O meistres podem falar o que quiserem – não estavam passando pelo que ela estava passando.
Quando sentiu que subiu o bastante, virou-se para seus súditos assustados. As pontas afiadas e retorcidas de espadas seculares pareciam apontar para a pequena figura de pé nos degraus do trono, como se suspeitasse que ela se atrevesse a sentar-se no topo (algo que nenhuma rainha regente poderia fazer; apenas a princesa Rhaenyra sentou-se no Trono, na Dança dos Dragões, e a Rainha Visenya, pelo menos algumas vezes).
Respirou fundo, ainda vendo a miríade de rostos. Estava maior, como um mar de caras. Voltou a cobrir a barriga prenha, como se temesse pelo bebê crescendo nela.
Aquelas pessoas estavam lá por conta de Arianne. Ela ordenara abrir os portões quando percebeu que as mortes do lado de fora se alastravam. O Conselho não aprovou, mas os guardas obedeceram à sua rainha – eles não se atreviam a sofrer a fúria de Aegon depois. Se é que este ainda estava vivo.
Engoliu seco, empertigou-se – apesar da dor nas costas –, cabeça erguida, falou o mais alto que pôde:
— Meu bom povo — sua voz ecoou no salão, num contrato macio, mas forte —, sei que estão com medo, assustados pelas estranhas forças que enfrentamos, mas, embora nem eu atreva-me a tentar dar-lhes uma resposta à respeito da estranha ameaça que nos cerca, dou-lhes garantia: nosso rei, junto da companhia dourada, foi para o norte para enfrentá-la. Ele dará sua vida ao povo, caso assim necessite.
Uma cacofonia então voltou a tomar conta do imenso local. Várias vozes, dizendo várias coisas.
“É a Longa Noite que chegou para finalizar o que a guerra não conseguiu.”
“O Rei nos abandonou?” “Não creio, pois ele apenas têm nos salvado. Daria a vida por nós.”
“A Rainha Dragão! Isso é coisa da maldita cria do Rei Louco! Por isso os deuses não abençoaram o ventre dela como fizeram com o de nossa querida rainha Arianne!”
“A Falsa Rainha se uniu a pagãos! Dizem que a princesa Arya é uma bruxa, assim como o Rei do Norte e o usurpador Stannis.”
“Talvez o Rei do Norte seja o Rei da Noite!”
— Vamos — sussurrou a rainha, descendo os degraus, com cuidado para não pisar numa parte torta ou esbarrar numa lâmina. Odiava esse maldito trono; como Aegon suportava sentar-se nessa coisa? Não era uma surpresa tantos monarcas insanos por cortes na linhagem Targaryen.
Enquanto apressavam-se, muitas pessoas, embora barradas por soldados, tentavam se aproximar da monarca e de seu séquito, gritando:
“Abençoada seja a rainha!”; “Rainha Arianne!”; “Arianne, a salvadora! A Verdadeira Rainha!”; “Arianne, A Salvadora!”
O som do lao cantado plebe devia ser música para os ouvidos, mas Arianne estava com dor de cabeça. Não via essas pessoas como seu povo; seu povo – o verdadeiro – estava congelando nas outrora quentes areias de Dorne.
Saíram por onde entraram – pelo imenso portão de carvalho e bronze atrás do Trono de Ferro.
X I X I X I X I X I X I X I X I X I X
O Caminho para a fortaleza-dentro-da-fortaleza estava simplesmente tomado por um cobertor entumescido feito de neve alva. Flocos de fractais caíam, avolumando cada vez mais o cobertor. As plantas estavam todas mortas – os carvalhos, as peônias, os sempre-verdes, as estepes, as rosas de inverno –, murchas e enterradas na neve, ou cobertas por uma patina de gelo, como as árvores, cujas folhas oblanceoladas caíram mortas, sendo substituídas por sincelos largos. Estalagmites de cristal cresciam cada vez mais nas muralhas dos castelos, prontas para matar qualquer um que se atrevesse a ficar embaixo delas. Uma ou outra luz era vista passando pelas ameias, provavelmente soldados erguendo tochas.
Não havia nenhum barulho além do vento assobiante que fazia as vestes da rainha e de suas damas esvoaçarem de forma ruidosa, fazendo-as tremer de frio. Provavelmente todos os animais do jardim estavam mortos.
Enquanto atravessa a ponte levadiça que conectava a Fortaleza Vermelha com a Fortaleza de Maegor, observando o fosso de espinhos praticamente estufado de neve, sentindo o frio da escuridão, a rainha lembrou-se das palavras de Moqorro, de como ele lhe desejara boa sorte, que ela era uma boa moça – mas escolhendo um caminho condenado.
Onde estava o sacerdote agora? No norte, em harrenhal? Bem, disseram ter visto uma intensa luz a distância, que surgiu tão rápido quanto sumiu – embora Arianne não a tenha testemunhado. Teriam sido os sacerdotes vermelhos? Bem, teria sido bem útil ter um deles por perto neste momento de penúria.
Moqorro fizera uma última coisa antes de ir – ele destruira uma mulher nas sombras. Sim, lembrava-se dela ainda; usando máscara laqueada, vermelha, manto grosso.
Após o incidente, a rainha – na época ainda princesa –, indagara aos meistres do castelo sobre sobre esse tipo de máscara, além de ler alguns livros que tinham na biblioteca. Tudo que achara era o que já sabia – Asshai da Sombra. Lá era onde as pessoas costumavam usar máscaras como aquela, embora a mulher não tivesse um sotaque parecido com asshai'i. Não, era mais um sotaque dornês.
O sacerdote que a salvara dissera que estava a salvando, mas e se não era o caso? A mulher relatara ser conhecida de Arianne, mas esta não fazia ideia de quem poderia ser. As únicas estrangeiras que conhecera eram sua mãe, Mellario, e a filha de cabelos verdes de um arconte de Tyrosh; duvidava ser qualquer uma dessas. Nenhuma sequer conhecia magia.
E se a mulher não fosse uma ameaça de fato? E se fosse uma aliada? Se sim, por qual motivo não voltava a tentar entrar em contato? Estava morta? Ou apenas bloqueada pela magia do Deus vermelho?
Achava que provavelmente nunca descobriria as respostas.
O Salão da Rainha era magnificamente menor que o Grande Salão da Fortaleza Vermelha. Mesas de cavalete foram montadas, tomando mais espaço do que o necessário, dada a quantidade de pessoas no local.
Em contraste com o frio do lado de fora, o salão era um tanto abafado pela fumaça acre das velas, tochas e lareiras. Até adubo estava sendo usado para queimar, pois a lenha fora usada em demasia.
Todos olharam para a monarca, agotados, aguardando respostas, alguma esperança; mas Arianne nada falara, apenas caminhou entre as pessoas que ajoelhavam-se e faziam vênias para sua presença. Por sorte a presença de Areo e Sor Gregor minguavam qualquer um de ter coragem para sequer ousar falar com ela. Alguns faziam o sinal da estrela de sete pontas, murmurando preces ao bebê não nascido.
Ah, mas Arianne sabia que não rezavam apenas pela saúde do feto: rezavam por um herdeiro varão. Queria um homem, não uma mulher. Pelo que Arianne sabia daquelas pessoas, nem podiam matá-la, junto do bebê, caso o nascido fosse do sexo feminino.
A Rainha sentou-se no alto do estrado, em uma cadeirona de ébano com almofadas, com um dossel dourado cobrindo o local. Um belo mantel de seda branco-prateado cobria a longa mesa da monarca, parecendo quase que neve prateada. Apenas dois de seus conselheiros estavam lá: o velho corcunda e mesquinho Ardrian Celtigar, olhando para todos com desconfiança; Lysono Maar, seu mestre dos sussurros, sempre de prontidão. Hotah parecia não gostar do mestre dos sussurros ficar em pé ao lado da rainha, mas Arianne indicou para que deixasse o estrangeiro em paz com um gesto simples da mão.
— Alguma notícia nova? Por favor, diga-me que temos alguma notícia boa em meio a este caos, Lysono.
O homem que mais assemelhava-se a uma mulher dera um sorriso complacente, como quem pede desculpas.
— Lamento, minha Rainha, apenas posso lhe dizer que o chefe da Guarda Real enviou-nos um corvo das muralhas, do Portão do Dragão foi fechado, pois o exército inimigo parece cada vez mais próximo. Sor Brendel Byrne está em posição fora das muralhas, pronto para defender a Capital.
Arianne anuiu. Parte dela queria ter desistido da regência, refugiando-se em Dorne, ficando segura em Lançassolar. Era melhor do que ficar naquele lugar amaldiçoado.
Apesar de ainda pensar em sua pátria com carinho e segurança, Dorne, pelo que Arianne sabia, estava em total escuridão: a neve estava quase toda coberta por neve densa; as plantações estavam todas mortas; as pessoas morriam de frio antes de morrer de fome, pois praticamente não tinha vestes para frio extremo; o rio Sangueverde estava completamente congelado, com as canoas e casas flutuantes dos órfãos verdes ficando presas no gelo.
Suspirou. Parecia não existir local seguro em nenhum dos sete reinos. Voltou-se para seu Mestre dos Sussurros:
— Tivemos algum caso de mortos levantando-se? Pelos deuses, diga-me que não.
— Soube apenas de alguns casos — Lysono revelou, para a infelicidade. — Não creio que teremos muito, porém; todos queimaram praticamente qualquer corpo após o primeiro ataque.
Arianne anuiu, embora menos confiante. Se os mortos estavam mesmo levantando-se, então a grande ameaça que ela tanto temia estava mesmo próxima. Seu primeiro sinal de alerta fora quando alguns dos mortos das celas negras, um tanto conservados pelo frio, mas já inchados e cinzentos, começaram a remexer. Imediatamente, a Rainha enviara batedores para fora de Porto Real, para averiguar se a ameaça estava próxima.
Sua confirmação veio quando eles não retornaram. Apenas um dos corvos que levaram com eles, sem sequer ter uma carta. Sabia que todos estavam mortos, talvez convertidos em novos soldados dos Outros (bem, ela tinha de aceitar que provavelmente eram eles quem vagavam até a Capital, trazendo frio, escuridão e morte).
A Rainha não interpelou mais nada. Apenas podia rezar para que tudo desse certo no fim, mas não sabia quanto tempo a Capital poderia aguentar; mas não acreditava que fosse por muito tempo. Tampouco a Fortaleza resistiria.
Pegando um vinho tinto de Dorne, ela varreu o local com seus olhos curvados, fitando os rostos. Todos tristes, tensos, aguardando o pior, perdidos no que estava para acontecer. Nunca, na vida deles, o mundo pareceu tão caótico. A maioria perdera boa parte de amigos e familiares até chegar aquele momento, então talvez acreditassem que, como o próprio rei talvez estivesse morto, estavam todos condenados.
O vinho era amargo até para ela. Talvez fosse uma safra feita após o inverno, onde, com as poucas bagas sobrando, o vinho produzido era parco, amargo, como se tivesse sido fermentado com uvas podres.
Seus pensamentos sobre vinho a fizeram lembrar-se de sua antiga e bêbada Mão do Rei. Como era de esperar, o Lannister retorcido não estava bebericando vinho com a multidão chorosa, nem se afogando em vinho, como tanto gostava.
Arianne perguntou-se: estaria Tyrion ainda vivo? Ou, assim como era com Aegon, ela morreria sem certezas?
Achava difícil que o anão, irmão de Cersei, ainda estivesse vivo; ele sumira poucos dias antes da tempestade de neve que derrubara a Torre da Mão. Decerto, a menos que ele tivesse conseguido viajar para Lannisporto (dificilmente ele teve tempo para chegar no local a tempo), ele estava soterrado na neve.
Quando falou disso com Aegon, antes de sua última partida, enquanto este vestia sua armadura de placas, ele não pareceu tão convencido quanto ela.
— Tyrion é um diabrete, esguio feito uma enguia. Acredite, ele está vivo em algum lugar, pronto para ir para o próximo lado que acredita ser o vencedor.
— E que lado seria? Daenerys? Ele renegou-a.
— Quando parecia garantido que ela era caso perdido — ele retrucara, botando a Blackfyre na bainha de couro preto. — Acredite, ele bem pode ter um plano para convencê-la de que ele é útil para ela.
A rainha tentou desvencilhar-se de tais pensamentos, mas a memória perturbava-a. Era como se ela estivesse lutando para desacreditar os avisos e agouros de Aegon.
Sem ser convidada, uma nova memória invadiu sua mente, atormentando-a. Lembrou-se do dia em que trouxeram o corpo morto de Tommen, que havia sido empalado num dos espinhos do fosso da Fortaleza de Maegor.
Ainda alembrava–se do olhar de cólera de Tyrion ao ver o cadáver, mesmo tendo concordado com a morte de seu sobrinho. Havia um ódio genuíno em seus olhos desiguais.
— Tommen era meu sobrinho — Ele retrucara, monocórdico, mas com asco palpável na cadência. — Quem fez isso, vai me pagar, caro!
Um arrepio subiu pela espinha de Arianne, como se estivesse ouvindo Tyrion sussurrando isso para ela naquele exato momento, em seus ouvidos.
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