Marcia do planeta Tuite

3 Oliver, o entregador de cartas


Notas iniciais
Capítulo extra contando um pouco do dia a dia do gato de patins que entrega as cartas de Marcia

Oliver vivia sozinho em sua casa. Algumas cicatrizes e deformações em sua orelha esquerda faziam com que os outros gatos não quisessem se relacionar com ele. Era melhor assim, pelo menos é o que vivia dizendo para si mesmo: acreditava que não passaria esses genes adiante dessa forma, não haveria mais uma geração sofrendo por algo que não tem culpa. Ele até queria ser popular, igual àquela garota que vivia na região que entregava cartas, uma tal de Marcia. Todo dia ela recebia uma quantidade enorme de mensagens e, não contem isso para ninguém, mas ele espiava algumas das cartas de vez em quando e, recentemente, boa parte era um pedido de namoro.

Na manhã daquela terça feira, ele ficou pensando em sua vida, como o mundo era injusto. Por que ele nunca tinha recebido uma carta como aquelas? Ele também merecia ser amado, ser ouvido. Não é possível que não exista ninguém por aí que se dê bem com ele, que o entenda e que seja entendido de volta. Por vários minutos ele se perguntou se algum dia seria completamente feliz. A vida de seus antepassados deveria ser bem mais tranquila, já que eles dormiam 16 horas por dia e tinham menos tempo sobrando para sofrer com esse tipo de pensamento. Mas a evolução não foi generosa com os gatos desse planeta.

Pelo menos ele tinha um propósito, os gatos de patins eram um dos meios de comunicação do planeta. Sem eles, milhares de pessoas não teriam a coragem de falar o que falavam anonimamente. Algumas dessas cartas eram ofensivas, algo inerente ao anonimato, mas muitas eram perguntas construtivas e as pessoas aprendiam bastante com as respostas. Pelo menos ele sentia orgulho do que fazia. Principalmente entregando as cartas de uma pessoa tão influente naquele planeta.

Ele criou coragem e saiu da cama para começar um novo dia. Já tinha gastado tempo demais refletindo sobre a vida, não queria chegar atrasado ao seu trabalho. Ele comeu rapidamente a sua ração matinal, sem muito tempo de apreciar o sabor da comida, e foi em direção ao ponto de ônibus. Normalmente ele pegava o ônibus que passava alguns minutos mais cedo, que ia mais vazio, mas dessa vez ele não teve opção. Teve que ir no ônibus lotado, com todas as pessoas indo trabalhar ou estudar. Ele odiava isso, todos os outros gatos recebiam carinho e mimos, mas ele só recebia olhares tortos e preconceituosos. Ele só queria se esconder em um canto e chegar o mais rápido possível ao seu trabalho.

Lá no vestiário, ele calçou seus patins, amarrou sua bolsa de cartas e foi para o estoque. O trabalho dos gatos era dividido da seguinte maneira: alguns gatos recolhiam as cartas e as levavam ao estoque; outros organizavam esse estoque, separando as cartas por área; e existiam os gatos que pegavam essas cartas e as levavam ao seu destinatário. Oliver era do terceiro tipo.

Como de costume, a maior parte de suas cartas era para Marcia. Já que naquele dia os outros gatos já tinham saído com suas entregas, ele parou para dar uma espiadinha no que estavam perguntando para ela. E com toda a coragem nova que estava dentro dele, depois de passar sua manhã refletindo na vida, ele copiou uma das cartas e escreveu a sua própria, também para Marcia: "você quer namorar comigo?"

Seguiu tranquilamente em direção ao seu destino, sem imaginar que sua carta seria escolhida e respondida. Ele não conseguiu prever o impacto que aquela carta faria na vida de diversas pessoas. Se Marcia tivesse estudado linguística, ela saberia que aquela caligrafia era de um gato, mas não foi essa sua decisão no passado. Se Oliver tivesse acreditado que poderia receber uma resposta, talvez ele seguisse Marcia com câmeras, mas ele não estava interessado. Ele violou várias regras da corporação com sua curiosidade, mas o que são regras em um planeta onde elas não existem?

Bom, seus dias seguintes foram extremamente normais e pacatos, mas ele se sentiu um pouco mais tranquilo com a vida. Ainda hoje, sem saber que Marcia respondeu à sua carta, ele pode ser visto com frequência em sua casa, deixando diversas cartas anônimas.