Mar de flores.
5 Picão-grande.
Notas iniciais
Ok, aparentemente existia um limite de quantas loucuras você pode fazer no mesmo semestre, Alexandre descobriu. E largar o emprego, mudar de estado e se declarar para o amigo provavelmente foi mais que o bastante para estourar seu limite de insanidade do ano todo e talvez mais um pouco.
Depois de se matar com tantos turnos extras quanto possível ao ponto de até o gerente dizer pra ele relaxar e tirar uma folga, Alexandre não conseguiu comprar as passagens.
Não. Conseguiu.
Frustrado, irritado e pronto para dar um soco na cara do universo se este não fosse uma entidade imaterial nem começava a descrever como Alexandre se sentia. Depois de tanto trabalho, nenhuma recompensa! Tudo porque ele não foi rápido o bastante para comprar em baixa temporada e agora os preços subiram tanto que ele precisaria contrabandear rins para pagar.
Então Alexandre decidiu fazer a coisa mais madura que conseguiu pensar: aceitou o dia de folga oferecido pelo gerente e decidiu passar o dia no sofá-cama duro emburrado e vendo programas ruins de TV.
O universo podia não dar a mínima para a birra dele, mas ele a faria assim mesmo!
“Não vai trabalhar hoje?” Nino já estava vestido e pronto para sair enquanto ele continuava de pijama.
“Não, tirei um dia de folga”.
“Hm...” Nino o olhou preocupado “E você está bem? Parece meio pra baixo”.
“Estou, estou sim. Pode ir trabalhar, algum de nós precisa afinal!” Brincou, tentando disfarçar a frustração de não ser capaz de fazer uma surpresa especial.
“…Certo, quando eu voltar podemos passar um tempo juntos, que tal? Quase não tivemos tempo pra gente esses dias.”
“Claro, parece ótimo.”
*
A resolução de Alexandre de passar o dia todo de birra no sofá assistindo qualquer lixo como forma de protesto contra o universo em si durou exatos 47 minutos. Depois disso ele ficou se revirando desconfortável e descobriu que a programação da TV aberta era pior do que ele tinha previsto. Além do mais, ele não contava com pausas para o banheiro nessa ideia...
Uma coisa levou a outra: levantar para ir ao banheiro, pensar em por que voltar ao sofá para não fazer nada de bom se ele podia fazer outra coisa, perceber que a casa estava meio bagunçada, começar a organizar, tirar o pijama pra não ficar todo empoeirado durante a arrumação....
Quando Alexandre percebeu, o dia livre virou um dia de faxina.
O apartamento bem que estava precisando de uma... E o universo não se importaria com a falta do protesto silencioso em prol da arrumação.
Não poder comprar as passagens ainda era frustrante. Alexandre conseguia até imaginar a expressão surpresa de Nino ao ver a paisagem tão bonita e harmoniosa e inesperada. Seria tão adorável.
Bem, não há razão para chorar sobre o leite derramado, o ditado dizia. Mas o que os ditados sabem?
Alexandre estava tão entretido na limpeza passivo-agressiva que até se assustou quando a porta foi aberta, afinal, era cedo demais para Nino voltar do trabalho.
“Oi” Nino, que ainda estava muito adiantado, cumprimentou e fechou a porta, nas mãos uma sacola de compras.
“...Chegou cedo”.
“É, saí duas horas mais cedo. Aproveitei e comprei umas coisinhas.”
“Sabe que vão descontar do seu pagamento, né?”
“Com o tanto de horas extras que você acumulou, acho que duas a menos não vão fazer falta” Beijou-lhe a bochecha antes de jogar as sacolas sobre a mesa “Achei que podia podíamos aproveitar o tempo juntos. E você pode aproveitar e me contar o que te incomodou tanto hoje mais cedo...”
“E você pode aproveitar, tirar essa sacola da mesa que eu acabei de limpar e pôr tudo no lugar certo” Retrucou tanto para fugir do assunto quanto porque, francamente, ele acabou de limpar aquela mesa e Nino já chega jogando coisas nela? Nem vem!
“Claro, claro... Mas, antes, tenho algo pra você” Nino pegou a sacola e tirou algo dela lentamente, criando um suspense exagerado. “Tcharam!” Exibiu uma espécie de sachê grande e verde claro com a foto de uma flor laranja.
Sementes.
“Eu sei que você gosta de flores e a moça da agropecuária disse que essa era bem fácil de cultivar...” Nino já foi se justificando antes mesmo que Alexandre pudesse reagir ao presentinho. “Quer dizer, eu sei que nenhum de nós tem muito tempo pra cuidar de uma planta e tudo o mais, mas achei que você ia gostar e- “
Alexandre pensou em roubar a tática de calar a outra pessoa com um beijo, mas desistiu dela e resolveu simplesmente arrancar o sachê de sementes das mãos alheias e agradecer para cortar o discurso de explicações e prováveis desculpas.
Eles tinham mesmo que aprender a parar de pedir tantas desculpas.
“Obrigado! Eu adorei!” Disse e o abraçou. “Plantar as flores é muito melhor que só ganhar um buquê! E, se são fáceis, devemos dar conta de mantê-las vivas sem problemas. Só arrumar um vaso e regar de vez em quando.”
“Que bom que gostou.” Nino pareceu aliviado. “Agora vai me contar que bicho te mordeu mais cedo?”
Não, ele não deixaria o assunto passar batido.
“Hum, tá…” Alexandre percebeu que não escaparia dessa. “Limpa o balcão e lava a louça e eu te conto” Decidiu e jogou um pano para Nino. “Eu já varri a casa e arrumei a cama. É justo!”
“…Certo, é justo” Nino revirou os olhos. Ele meio que esperava conseguir escapar intacto do ‘dia de faxina’ não planejado.
*
Quando a faxina acabou, Alexandre teve que cumprir com sua palavra e explicou sua ideia frustrada de presente surpresa e como acabou trabalhando tantos turnos extras por nada. Ele imaginou que Nino ficaria chateado por ele não ter contado os planos antes, por ter se sobrecarregado tanto ou mesmo por fazer mais planos loucos e irresponsáveis, mas Nino o abraçou e disse que sentia muito por sua ideia dar errado.
Depois puxou a orelha dele por se sobrecarregar e fazer planos loucos e irresponsáveis sem nem perguntar a opinião dele primeiro, claro, mas o consolou primeiro.
“Por que você queria tanto ir nesse jardim agora? Não é nenhuma data especial nem nada.” Nino perguntou.
“Ah, sei lá, eu só... Pareceu um lugar tão legal quando eu vi. Era perfeito! Tinha várias flores lindas e uma bela vista para o mar e- “Alexandre parou, sentindo que falou demais.
Nino entendeu onde ele queria chegar.
“O mar?” Sorriu de leve, agora fazia muito sentido. Desde que eram só amigos, Alexandre já tinha feito uma ou outra tentativa de levá-lo a uma praia, era assim desde que ele descobriu o passado de navegador de Nino.
“É...” Alexandre sorriu sem graça, como uma criança pega numa travessura. “Você nunca fala do mar ou de velejar ou de nada dessa época.” Comentou não pela primeira vez.
Nino sabia que ele tinha razão.
Geralmente ele só ignoraria o comentário e eles seguiriam com o dia, mas dessa vez achou que devia alguma explicação para seu namorado curioso, carinhoso e meio louco.
“Não gosto muito de pensar naquele tempo.” Disse e se sentou no sofá-cama barato, Alexandre sentou ao seu lado “Eu gostava de velejar e do mar e tudo o mais... Mas aquele acidente acabou comigo.” As palavras eram ditas devagar e em voz baixa. “Tenho três pinos na mão direita e dois no braço. Tive uma fratura exposta e tive sorte de sair vivo e sem sequelas. Precisei de meses de fisioterapia e fiquei dopado de analgésicos.... Não é algo que eu goste de lembrar.” Ele olhava para a parede sem realmente vê-la, o olhar perdido. “Então, é, eu amei o mar, mas me custou muito. Talvez eu volte pra praia um dia, mas no meu tempo, ok?” Completou e beijou a testa de Alexandre.
“Ok... Desculpa ficar insistindo pra você voltar. É só que você parecia tão feliz nos vídeos e tudo o mais...”
“Tudo bem, eu entendo.” Sorriu. “Enfim, chega desse papo deprimente. Que tal aproveitar o dinheiro extra e nos pagar uma bela pizza? Não estou a fim de cozinhar hoje.”
“Tá, mas só se formos na pizzaria dessa vez. Chega de pedir entrega, quero sair um pouco de casa!”
“Feito.”
Foi só na manhã seguinte que Alexandre realmente parou pra dar uma boa olhada nas sementes que ganhou. Quando o fez, começou a rir do nada.
“O que foi?” Nino saiu do banheiro ainda com a escova na boca, o olhando curioso.
“Nada, é só essas sementes que você escolheu” Riu de novo.
“E o que tem elas?”
“São de cosmo-amarelo.” Disse como se isso explicasse tudo.
“Tá... E daí?”
“Daí que cosmo-amarelo também é conhecido como Áster-do-México ou” Fez uma pausa dramática “como Picão-grande.” Começou a rir de novo.
Nino o olhou sem parecer impressionado.
“Sério? Quantos anos você tem, doze?”
“Picão-grande!” Alexandre repetiu mais para provocar e continuou rindo.
Nino revirou os olhos e voltou a escovar os dentes, escondendo um pequeno sorriso. Era impossível não rir de certas idiotices...
*
Quase um mês depois, Alexandre já tinha comprado um vaso e terra adubada. As sementes foram plantadas e cresceram numa velocidade surpreendente e logo os botões alaranjados se abriram em lindas flores laranja com pontas serrilhadas.
Nino pegou um copo d’água e decidiu ir regar a planta mais como uma desculpa para falar com Alexandre, que estava na varanda a admirando.
“Às vezes eu acho que você gosta mais dessas flores que de mim...” Nino provocou.
“Há há, sem graça.” Alexandre revidou. “O céu está lindo hoje, não acha?”
“Claro...” Uma pausa. “Tem uma coisa que eu queria te falar, na verdade.”
“Hm?”
“Bem... É sobre o mar. Já que você sempre quer saber sobre ele e aquela época...” Coçou a nuca, uma mania quando estava inseguro. Alexandre assentiu para incentivar. “Sei que é bobo, mas você me lembra o mar. Quer dizer, você é tão agitado e imprevisível e intenso e tem as ideias mais loucas e insanas, mas é cativante e, sei lá, acho que tô falando besteira, mas... É isso.”
Alexandre sorriu. Ele não sabia como responder a isso, foi tão... Doce. Inesperado. Como se responde a uma declaração assim? E cada segundo que ele passava em silêncio aumentava a insegurança de Nino.
“Foi lindo.” Disse por fim e lhe deu um beijo casto. “Fico feliz por significar tanto assim pra você.” Sorriu e, um segundo depois, começou a rir.
“Que foi?” Nino o olhou confuso com a reação.
“Nada, é que eu acabei de perceber que você está me ajudando a fazer um picão-grande crescer e ficar forte e saudável!” Apontou para o copo que Nino usou para regar as flores.
Nino riu e lhe deu um tapa leve no braço.
“Você tinha que estragar o momento, né?” Brincou. “Imaturo.”
“Aham, mas você riu!”
“Touché.”
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