Mar de flores.
6 Arranjo de flores.
Notas iniciais
O áster-do-México (que Alexandre insistia em chamar de picão-grande unicamente pela cara impagável de Nino sempre que ouvia) já estava grande e cheio de exuberantes flores laranja quando Alexandre decidiu trabalhar com flores.
Aconteceu tão espontaneamente. Primeiro uma vizinha deles viu a nova planta e perguntou se Alexandre não a ajudaria a cuidar das dela também, já que por algum motivo elas nunca cresciam (ela regava demais, era o tipo de flor que prefere solo seco), depois ele conseguiu um bico de fim de semana aparando a grama e as árvores de uma casa no quarteirão e, por fim, acabou sendo convidado por uma senhora para plantar algumas mudas no jardim dela já que ele ‘tinha um olho tão bom pra flores’.
Ele ficou bem orgulhoso desse trabalho, aliás. A distribuição de cores de cada muda, modéstia à parte, ficou incrível. Especialmente os copos de leite e as azaleias. A senhora tinha bom gosto para flores.
Mesmo depois de tudo isso, ainda foi uma surpresa para Alexandre quando Nino comentou numa tarde qualquer:
“Você devia trabalhar com flores, você é bom nisso, sabe?”
“Ah?” Alexandre ouviu, mas quis ter certeza. Trabalhar com flores? Que loucura. “É, obrigado, mas acho que não.”
“E por que não? Você é bom e gosta. Já que estamos procurando empregos novos mesmo, podia muito bem tentar.”
“É, acho que não é pra mim...” Desconversou. A ideia de trabalhar com flores, talvez cuidando de um jardim ou em uma floricultura, até já tinha passado por sua cabeça uma ou duas vezes na adolescência, mas nunca foi levada a sério. Depois ele passou anos sem nem cogitar a ideia. E se ele não gostasse? E se transformar um hobby em trabalho estragasse tudo e ele não suportasse mais nem olhar pra uma flor de novo? Além do mais, trabalhar com flor não dava futuro, seus pais viviam repetindo.
Ele podia amar flores, mas no tempo livre.
“Hm, eu ainda acho que devia tentar” Nino insistiu. “E qualquer coisa deve ser melhor que ser caixa daquele mercadinho, não?”
“Ei, para de desmerecer o mercadinho! Ele que paga nossas contas! Além do mais, devia estar mais preocupado com seu emprego, não? Ou quer ser faxineiro o resto da vida?”
“Eu vou achar outra coisa, só tenho que descobrir o quê...”
“Podia voltar a velejar” Comentou como quem não quer nada. “Ou não.” Completou quando Nino o lançou um olhar de ‘é sério que você está sugerindo isso?”.
“Eu vou achar alguma coisa” Repetiu “Mas ainda acho que devia dar uma chance para as flores. Aposto que você gostaria”.
“Talvez.”
Ele não tinha realmente nenhuma intenção de tentar. Mas a vida tinha outros planos.
*
“O que está fazendo?” Nino perguntou quando viu Alexandre sentado com várias rosas sobre a mesa e um estilete em mãos.
“Tirando espinhos de rosas para uns arranjos. Lembra da Ellen, nossa vizinha? O primo dela trabalha numa floricultura e recebeu uma encomenda muito grande, então ela se ofereceu pra ajudar. Depois eu me ofereci pra ajudar ela e agora estamos aqui.” Explicou. “Vou tirar os espinhos e ela vai montar os arranjos.”
“Hm, posso ajudar?”
“A tirar espinhos de rosas? Adoraria, mas só temos um estilete. Mas pode me trazer um pedaço de bolo e um suco se quiser ajudar.”
“Não tem suco”
“Tem laranja na geladeira e um espremedor no armário”
“Nem sei por que me ofereço, você é abusado...” Revirou os olhos de brincadeira “Tá, eu faço, mas só porque não sei dizer não pra você” Sorriu e bagunçou os cabelos de Alexandre quando passou por ele a caminho da geladeira.
“É, eu meio que percebi quando você aceitou se mudar pra outro estado sem emprego comigo” Riu. “Ai!”
“Que foi?”
“Nada demais, só me furei com um espinho. Acontece” Deu de ombros e levou o dedo à boca até parar de sangrar, depois voltou ao trabalho. “Nem foi tão ruim. Foi pior quando me cortei com o estilete! Quem disse que fazer arranjos é fácil?”
“Pois é” Nino colocou o bolo e um copo de suco na mesa “Por que não faz uma pausa e eu assumo e tiro os espinhos das rosas malvadas pra você?”
“Bobo” Alexandre riu “Rosas não são malvadas ou boazinhas, são só rosas. Eu que não tomei cuidado. Mas claro, fique à vontade pra furar suas mãos enquanto eu faço uma pausa! Tem curativo em cima da pia se precisar.”
“Ah, não pode ser assim tão difícil.” Nino comentou.
Meia hora e doze pequenos cortes causados por espinhos depois, ele mudou de ideia. Alguns só espetaram, mas alguns sangraram! Mexer com rosas não era fácil mesmo. Depois Alexandre voltou e reassumiu seu posto, fazendo o serviço com muito mais destreza (e menos acidentes) que Nino.
O resultado final fez o esforço e as mãos doloridas valerem a pena.
Algo que Alexandre comentou tão despretensiosamente ficou na mente de Nino.
Rosas não são boas ou más, são só rosas. Mesmo que você se fure nos espinhos. Mesmo que se machuque e suas mãos sangrem, são só rosas. Não é culpa delas.
Culpar uma rosa por se furar seria tão ridículo quanto culpar uma bola por quebrar uma vidraça ou culpar um livro pela escrita ruim ou culpar o sol pelas queimaduras.
Ou culpar o mar por um acidente.
Nenhuma dessas coisas era boa ou má; moral, imoral ou amoral; certa ou errada. Essas eram dualidades humanas, que os humanos atribuíam a elas, mas não intrínsecas.
Talvez fosse hora de parar de culpar o mar.
O acidente foi horrível. Doloroso. Atroz. Mas foi só isso, um acidente. O mar não tinha culpa dos pinos em seu braço, dos ossos quebrados ou do trauma. O oceano não podia se importar menos.
Não foi culpa do mar, foi culpa dele. Ele foi imprudente. Ele assumiu o risco. Ao se velejar e desbravar o oceano, por melhor que seja a manutenção do veleiro, sempre há um risco. E o erro foi dele de desconsiderar o risco e clamar injustiça. Foi erro dele esperar justiça em primeiro lugar.
O mar era belo, poderoso, acolhedor, impassível, tudo junto. Mas não era justo. Justiça também é uma coisa humana, um conceito que não se aplica a entidades amorfas como o mar.
Não era justo culpar o mar e renegar todas as boas memórias que este lhe trouxe.
Todas as corridas bem sucedidas, as pescarias, as viagens em família na praia, os encontros noturnos à beira-mar. O oceano também não foi justo ou injusto ou certo ou errado em nenhuma dessas situações, foi só o oceano.
Por isso, quando Alexandre chegou um dia e disse que ia trabalhar na floricultura junto com o primo da Ellen, mesmo que ele precisasse acordar mais cedo e pegar um ônibus pra chegar lá, tudo que Nino pôde fazer foi ficar feliz por ele. Ficar feliz com ele. Alexandre perseguiria algo que o fazia feliz, algo que estava em sua alma.
E Nino se pegou com inveja por não fazer o mesmo.
Então ele sugeriu, no mesmo dia, que deviam juntar dinheiro para ir à praia um dia.
O sorriso incrédulo e o abraço que recebeu foram o bastante para ele saber que fez a escolha certa.
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