Mar De Fogo

27 Traição


Notas iniciais
MUITO OBRIGADA a Marcitos, Leticia Camargo e Alice pelas recomendações tão emocionantes e estimulantes! LINDOS! (ainda não respondi todos os reviews, mas os responderei entre hoje e amanhã!) Boa leitura!

“Puta merda, minha cabeça...”

Minha voz soou como um grunhido engrolado assim que recobrei a consciência. Levei minha mão à nuca, onde a dor era pior. Doía como uma ressaca do diabo, mas pelo menos a cama era confortável e não fedia a mijo ou estava infestada de piolhos como aquelas em que eu dormi nos últimos tempos. Isso me fez perceber que havia algo de errado, mais do que a própria dor latejante que se espalhava por todo meu crânio.

“Aquele filho de uma prostituta.” Eu me levantei rápido, olhando para os lados. Minha visão oscilou, escurecendo em alguns pontos, mas me forcei a ficar de pé mesmo assim, tropeçando enquanto caminhava apressado até a porta. O quarto já não estava tão claro, o que significava que o jantar já poderia estar acontecendo.

Eu coloquei minhas mãos sobre a madeira polida da porta, tentando empurrá-la. Falhando, eu testei as maçanetas, duas argolas presas a ornamentos que pareciam bestas de ouro de alguma mitologia antiga ferrada. As portas estavam trancadas, é claro. Eu soltei um grito de frustração e bati minhas mãos contra a madeira, várias vezes, até sentir dor. Fui estúpido o suficiente para socar e chutar a porta. Isso me garantiu dois punhos com a pele esmagada contra os ossos.

“Merda.” Sussurrei quando já estava ofegante e extenuado, e deixei minha testa repousar contra a porta. “Agora não posso nem mais socar a cara do idiota do Santiago.” Eu ri com sarcasmo, mas logo depois tapei meu rosto e percebi que estava prestes a derramar algumas lágrimas frustradas.

James poderia morrer aquela noite. E Nena, Fradique, Terrence... E todos que estavam no Labareda. Minha irmã, Helena... Tudo por minha culpa, porque eu fui estúpido o suficiente para continuar usando meu maldito anel, e ainda ter esquecido de que Caph era um anel capaz de dar a seu portador o poder de ler a alma das pessoas. Não que eu soubesse que Edmond estava em posse de Caph.

“Maldição. Eu não posso deixar isso acontecer.” Engoli meu choro e me virei para o quarto. Deus que me perdoasse, mas se não houvesse ao menos alguma mísera porcaria que eu pudesse usar em meu favor naquele quarto enorme, eu mijaria no altar da primeira Igreja que eu botasse meus pés, caso eu viesse a sobreviver a esta noite.

Minhas mãos tremiam conforme eu vasculhava gavetas, armários e estantes. Encontrei uma adaga de cabo de ouro numa das gavetas e corri até a porta, tentando usá-la para destrancar a fechadura. Foi inútil, perdi tempo demais naquilo e só consegui um corte em um dos meus dedos. Eu lembrei então que tinha um anel de cura e, sentindo-me mais estúpido do que antes, curei todos os machucados em minhas mãos.

Quando eu já havia revirado todo o quarto, xingando todas as gerações passadas de Edmond, amaldiçoando-o e imaginando várias maneiras de esfregar o cu dele contra um arame farpado, eu caí exausto no chão, apoiando minhas costas contra a cama. Parte da minha fadiga advinha de minhas tentativas de abrir as janelas, também em vão. De qualquer forma, o quarto era nas alturas e de forma alguma eu conseguiria pular ali de cima e sair vivo para contar a história.

Deixei minha cabeça pender para trás, olhando para o teto. O que diabos eu poderia fazer? Aquela sensação de impotência era mais assustadora do que o medo que experimentei ao enfrentar a tempestade para salvar Terrence. Abracei-me sentindo frio, um frio corrosivo, que alcançava meus ossos e me paralisava como um boneco de gelo. Meus amigos poderiam estar morrendo naquele exato instante, e eu não podia fazer nada.

Nada.

“Maldito seja você, Dominic, seu inútil.” Meu rosto se contorceu e eu fechei meus olhos, evitando as novamente as lágrimas, teimosas, insistentes.

Respirei fundo.

Eu não posso desistir.

Olhei ao redor de novo, não procurando por nada em especial; porém, algo me chamou atenção. Uma das placas de pedra que revestiam o chão era diferente das outras. Levemente mais clara, um pouco mais elevada que as demais. Eu jamais perceberia aquilo caso o quarto estivesse completamente iluminado e eu não estivesse sentado no chão. Com o coração acelerando, encorajado por alguma tola esperança, eu engatinhei até a placa. Minhas unhas estavam mais cumpridas que o normal – e sujas – graças à minha miserável condição social atual, e por isso foi fácil desencaixar a pedra, puxando-a para cima.

Sob ela, havia uma pequena caixa de madeira de tom escuro, nada chamativa. Eu a peguei, colocando-a sobre o piso e a admirando por um momento. “É melhor que você tenha algo de útil dentro de você.” Eu falei antes de abri-la. Minha esperança triplicou quando vi, no interior estofado, uma chave. Eu a peguei sem sequer pensar e corri até a porta.

Tentei usá-la, mas a tranca não cedeu. A chave não era para aquela fechadura.

“Inferno!” Gritei, chutando e socando novamente aquela porta ridícula. Quase toquei a chave longe quando me virei novamente para o quarto, mas, ao pensar melhor, percebi que se Edmond tinha o cuidado de guardá-la tão bem, ela deveria ser importante e, por ela ter somente uma caveira a adornando, imaginei que tinha relação com magia. Como, exatamente, eu não sabia, mas a guardei em um bolso seguro mesmo assim.

Escondi a caixinha em seu esconderijo e recoloquei a pedra no lugar, como se nunca houvesse encontrado nada. Eu pensaria no que fazer com aquela chave mais tarde. Por hora, eu precisava descobrir como sair daquele quarto e avisar James e os outros que estávamos em uma enrascada, e das boas. Nós seres humanos relutamos em acreditar e aceitar a derrota até que ela estoure em frente a nossos olhos, cegando-nos com dor e amargura. Eu ainda relutava.

Não posso desistir.

Eu fui novamente até uma das janelas, tentando enxergar alguma coisa. A noite começava a tomar o céu, levando para longe o anil do pôr-do-sol. Eu não tinha mais muito tempo. Por favor, James, Nena, todos vocês malditos... estejam vivos. Ali do alto, eu pude ver a passarela que conectava o castelo ao portão leste, onde ficavam os rochedos escondidos por árvores e mato. Nosso ponto de entrada. Tão perto, e tão distante. Nunca tal frase se encaixara tão bem ao momento, muito mais devastadora do que quando a usei para me referir a bocetas londrinas.

Eu precisava sair daquele quarto, não importava o custo. Se eu não usasse todas as minhas forças para isso, eu nunca mais conseguiria olhar para mim mesmo em um espelho. E evitar espelhos era mais do que eu poderia suportar por uma vida, o oposto de tudo que minha vaidade exigia. Eu não tive escolha. Afastando-me da janela, eu respirei fundo. Peguei um elástico em meu bolso e prendi os cabelos, usando este tempo para tomar coragem. Eu sabia que aquilo iria doer, e apenas uma vez não bastaria. Mais do que isso, eu sabia que arriscaria minha vida ao tentar aquilo.

Talvez houvesse tempo de me curar no segundo entre o baque com o chão e a morte.

Quem eu estava querendo enganar? A própria queda me mataria de pavor antes mesmo que de eu me borrar nas calças, sete infernos! Eu ergui as mangas de minhas roupas, dobrando-as, e firmei meu pulso. Quando bati com todas as minhas forças contra o vidro, eu gritei, dobrando meu corpo e apertando minha mão contra minha barriga.

“Caralho, isso dói.” Resmunguei com a voz de um homem chutado nas bolas. Mas eu não tinha tempo para lamentos. Soquei de novo.

E de novo.

E de novo.

E de novo.

Até que minha mão era uma mancha completa de sangue vivo e coagulado, e o vidro, duro como eu nunca tinha visto, estava finalmente rachado. Usei meu cotovelo para a o golpe final, finalmente quebrando aquela merda transparente. Minha respiração ardia meus pulmões, eu não sabia se pelo cansaço, ou se pela dor lancinante em minha mão que se confundia pelo resto do corpo, tornando até respirar uma tarefa árdua.

“Anel, é bom que você faça um bom trabalho nisso aqui, ou eu juro que o atiro no mar para que seja engolido por alguma sereia comilona.” Eu deixei as coisas bem claras entre nós, antes de estender a mão sã para fora do quarto e, sentindo o vento da noite enroscar-se em meus dedos, eu usasse aquela energia para me curar. “Bem,” eu falei ao admirar o resultado, na completa e maravilhosa ausência de dor “eu acho que não é hoje que você vai para o fundo do mar, Zain.”

Agora vinha a parte mais difícil. Eu quebrei os cacos que restavam na borda inferior do vidro e me inclinei para fora, tentando identificar algum caminho que me ajudasse. As paredes não eram lisas, havia vãos e defeitos na parede de pedra, assim como outras janelas e relevos decorativos. Um bom escalador poderia encontrar maneiras de descer até a passarela abaixo, à direita. Mas eu não era um bom escalador. Inferno, eu sequer seria capaz de escalar um muro qualquer sem quebrar os quadris quando desse de bunda no chão.

“Você não tem outra opção, Dominic.” Sussurrei para mim mesmo, fúnebre, e subi no parapeito da janela evitando pensar muito, ou acabaria petrificado pelo medo. Primeiro uma tempestade, agora isso. Meus dias no Novo Mundo provavam-se cada vez mais agradáveis. “Deus, eu juro que chutarei suas bolas se eu morrer hoje.” Avisei, antes de colocar meu corpo para fora da proteção firme sob meus pés.

E começar a descer.

XxxX

Eu acho que esse é um daqueles momentos em que a gente se pergunta ‘o que eu fiz para merecer isso?’, ou coisa parecida. Eu esperava ter uma entrada garantida no céu após sobreviver a toda essa maldita loucura, não importasse quantas vezes eu xingasse Deus e seus gordos anões de genitália ambígua. Digo, anjos.

Eu tentava ao máximo me colar à parede, descendo o mais cuidadosamente possível. Já havia escurecido, e era difícil ver onde eu poderia colocar o pé. Eu deveria ter amarrado lençóis e feito uma corda. Eu teria feito isso se fosse esperto, mas não, eu decidira fingir que, além do poder de cura, eu também podia voar. De qualquer forma, eu teria apenas o lençol da cama de Edmond, pois não havia outros em seu armário.

O vento batia contra meu corpo, esvoaçando minhas roupas, em alguns momentos parecendo querer me derrubar dali. Uma mão após a outra, e eu havia conseguido descer alguns metros, me acalmando parcialmente quando parava no vão de alguma janela, felizmente, de cortinas fechadas. Eu podia tentar forçar minha entrada de volta ao castelo por alguma delas, mas eu sabia que seria visto e encurralado novamente caso tentasse.

Havia muitos guardas no castelo, e meus cabelos definitivamente não me deixavam passar como uma pessoa exatamente discreta. Restava-me descer da maneira mais difícil. Eu tentava ir para a direita, para alcançar a passarela e dali descer para a cozinha, onde faria alguma serviçal ir até a sala de jantar e sussurrar o que estava acontecendo para James, ou Nena. Felizmente a passarela não parecia tão distante e, por mais que em alguns momentos meus pés houvessem escorregado e raspado na parede, levando meu coração à boca, eu acreditava que poderia conseguir.

Não há determinação maior do que o desespero de alguém em manter-se vivo. Eu não sei exatamente o que é, mas há algo que acontece no corpo de um homem quando ele é colocado em frente à morte. Alguns se mijam nas calças, outros ganham força, ou velocidade, ou agilidade fora do comum, que não teriam em situações cotidianas. Era um mistério, e um mistério que eu não tinha tempo para desvendar.

Eu cheguei em outra janela, dessa vez aberta. A descida era mais fácil, pois as janelas ajudavam, sempre dando um apoio confiável ao meu pé e um descanso para meus braços. Apesar de aberta, um perigo caso alguém passasse e me visse, eu parei por um minuto nela, ofegante e nervoso. Não acreditei que havia descido e chegado em minha terceira janela abaixo. Eu já estava na mesma altura da passarela! Apenas precisava andar para a direita, apesar de que isso seria mais complicado do que descer, me parecia.

Eu estava novamente criando coragem, incentivando meus braços e pernas aborrecidos pelo esforço máximo que havia colocado neles, e assegurando a mim mesmo que aquilo daria certo. Eu não sei como James e os outros conseguiriam escapar quando descobrissem que Edmond não era tão burro quanto imaginávamos, mas nós daríamos um jeito. Eu apenas tinha de pensar numa forma de sair dali. Talvez pelo portão leste, onde planejávamos deixar os outros entrar.

Foi em meio a esses pensamentos que eu o vi.

Uma sombra na escuridão, atravessando a passarela de maneira furtiva, praticamente invisível a olhos descuidados. Terrence. O que ele estava fazendo? Ainda era cedo, os portões só deveriam ser abertos três horas após o anoitecer. E a luz sequer se extinguira por completo, o céu encontrava-se ainda acinzentado, ainda que de segundo e segundo mais negro, como uma mortalha. Ele escapou? Uma matança estaria ocorrendo no salão de jantar, e Terrence fora o único sobrevivente?

Santo Jesus Cristo, se queria permitir que alguém sobrevivesse, você poderia ter escolhido melhor. Meus lábios se torceram em um sorriso preocupado, e eu entrei em pânico assim que tentei me mover. Algo estava errado e todos os meus sentidos me alertavam para isso. Se foi por instinto, eu não saberia dizer. Mas eu saí daquela janela e voltei para a parede, tentando levar-me o mais rápido possível para a passarela. Precisava chegar até Terrence, entender o que acontecera. O que mudara.

“Porra, Dominic. Concentre-se!” Eu me xinguei perturbado, olhando para minhas mãos cravadas na parede. Elas tremiam como as bandeiras dos navios em alto-mar, em dias de vento. Meus pés tentavam se equilibrar no mínimo espaço abaixo deles, criado por uma faixa curta de pedra de cor distinta, meramente decorativa. No lugar de melhorar, eu errei um pé e escorreguei.

O ar entrou nos meus pulmões com velocidade, e meus olhos esbugalharam-se com a sensação de queda iminente. Era exatamente como nos sonhos, quando imaginamos que estamos caindo de uma grande altura, mas o chão está bem próximo. Nesse caso, no entanto, o chão estava desesperadoramente distante, e eu achei que iria morrer ali. Dei sorte. Um ferro na parede se projetava para ostentar a bandeira da Inglaterra, que se balançava orgulhosa ali no alto, e foi nele que eu consegui me segurar. Eu gargalhei de puro nervosismo, pendurado ali como carne de boi após o abate. Minha pátria havia me salvado, ainda que fosse justamente alguém nascido lá que estivesse fodendo com tudo.

Eu usei a força do desespero para me erguer e voltar à posição de antes. Demorou um pouco, mas eu consegui. Tentei olhar para a passarela, mas não vi mais Terrence. Eu precisava ser rápido se queria alcançá-lo. O resto dos metros até a segurança de um chão firme passou como um borrão. Eu já havia sobrevivido a uma queda, o que mais poderia acontecer? Quando finalmente pus meus pés na passarela, eu corri. Não queria ser visto por vigias noturnos, mas fui eu quem acabei por vê-los. No caminho, encontrei dois vigias mortos.

Surpreendi-me por Terrence ser capaz de lidar com eles, e ainda sem chamar atenção. Pelo visto, eu não tinha muita noção das habilidades de Terrence em um combate mano a mano. Eu segui pela passarela, correndo meio abaixado por todo o caminho, até que encontrei a área mais silenciosa e protegida de olhares vindos das janelas do castelo. Ali, havia outro vigia morto. E Terrence tentava abrir sozinho o portão, resfolegando pelo esforço ao manejar o timão que precisaria ser girado algumas vezes para erguer a poderosa estrutura.

“Terrence!” Eu o chamei, cuidando meu tom. Havia certo alívio em mim, misturado ao nervosismo e expectativa. Pelo menos agora, eu não estava sozinho para lidar com tudo aquilo. Havia alguém para lutar comigo.

Ou eu assim havia pensado.

Terrence virou-se para mim, sua expressão banhada por horror. Eu não compreendi aquilo e, por algum instinto que só pode ser explicado como destino, eu olhei em direção ao mar. Abaixo dos rochedos, escondido pelas brumas que subiam das águas enegrecidas e pelo céu, que agora já era puro breu pintado com estrelas, eu vi um navio.

Não era o Labareda.

Era o navio de Fajardo, o Rosa Negra. O choque me atingiu como uma flecha.

Terrence duvidando de minha amizade e lealdade, por ter falhado com Katana e por ter flagrado meu beijo com James. Terrence e Fajardo conversando em Laguna, antes de partirmos. Terrence escapando mais cedo do que o combinado, para abrir os portões. Terrence olhando-me chocado por tê-lo alcançado ali, onde estávamos. A própria Raiska, afirmando que eu aprenderia a usar o anel por um motivo e que, talvez, esse motivo não valesse à pena. Terrence havia sido a primeira pessoa em que usei o anel, após ajudar Parténope.

“Você é o traid-“ Antes que meu rosto virasse completamente para ele, eu fui atingido por um soco que me derrubou no chão. Minha mandíbula soltou um estalo e doeu a ponto de me fazer ver as estrelas que estavam no céu brincarem de pega-pega frente aos meus olhos. Eu tossi sangue, tocando com a língua um de meus dentes e percebendo que ele estava frouxo. “Por Deus...”

“Você não deveria estar aqui, Dominic.” Terrence falou. “Eu vou abrir esse portão, não importa o que você diga.”

“Terrence... Por quê?” Eu tentei me levantar, mas ele me chutou no abdômen, mantendo-me no chão. Eu tossi novamente. Não estava acostumado a levar surras, e um pontapé na boca do estômago pode deixar um homem desabituado a elas jogado ao chão por um bom tempo.

“Você fica no chão!” Terrence ordenou, mas sua voz parecia falha e hesitante.

Eu tentei olhá-lo, ver sua expressão, mas ele correu novamente para o timão, forçando-se para girá-lo enquanto eu continuava tossindo segurando meu abdômen. A cada tossida, minha mandíbula doía, até que eu cuspi uma boa quantidade de sangue e, horrorizado, forcei-me a pará-las. Ergui-me apenas parcialmente, usando um de meus antebraços.

“Eu sempre desejei mais do que ser um mero marujo!” Terrence falou, parecendo mais convencer a si mesmo, do que qualquer um. Sua voz era estranha. Sofrida, angustiada e cheia de raiva. “Meu sonho era ser um capitão e ter Katana como meu imediato! Agora terei essa chance, Fajardo compartilhará o saque comigo!” Lágrimas escorreram por seus olhos furtivos, antes amigos.

“Terrence... Eu sinto tanto... Sobre Katana, mas-“

“Cale a boca!” Ele gritou, parando para me encarar por um momento. “Cale a boca antes que eu atire em você.” Seus olhos queimaram.

Quando ele continuou girando, com dificuldade, o timão, eu me levantei. Olhei para o outro lado do portão e vi alguns piratas ali, esperando sua chance. Os outros deveriam estar escondidos na mata sobre o penhasco. Eu não podia permitir aquilo. Ou podia? Tê-los invadindo o forte não seria melhor do que Edmond matando a todos? Eu que eu faço?

“O que aconteceu com James?” Eu perguntei. “E os outros?”

“Eu não sei.” Terrence falou baixo, porém soltou um riso sinistro. “Mas Fajardo certamente não vai poupar a vida de nenhum inglês.”

Isso incluía a mim, e nós dois percebemos isso. Todos os ingleses morreriam, não importava o que eu fizesse, essas eram minhas escolhas. Então eu escolhi a que me fazia sentir mesmo impotente. Eu saltei para cima de Terrence, impedindo-o de continuar. Isso o pegou de surpresa, talvez achasse que eu não fosse capaz de me mover depois do soco e do pontapé e, devo admitir, nem mesmo eu sei dizer de onde estava tirando aquelas forças.

Nós caímos ao chão e rolamos um pouco, antes de ele conseguir acertar-me outro soco. Uma exclamação abafada de dor me atingiu ao cair de bruços. Dessa vez, eu talvez tivesse quebrado o nariz, e o sangue não tardou a escorrer das narinas e pingar na pedra. Terrence puxou-me pelos cabelos com brutalidade, parecendo querer arrancá-los.

“Você teria feito melhor se tivesse ficado quieto.” Ele falou com raiva, mas antes que fizesse outro estrago em minha aparência eu peguei areia do chão e toquei em seus olhos. Ele me soltou com um palavrão e eu me virei acertando-lhe um soco. Certamente não um soco tão forte quanto o dele, mas eu também não era assim tão fracote.

Achei que teria uma vantagem, mas ele se recuperou rápido e me atingiu de novo, deixando-me desnorteado. Eu o chutei como pude, no estômago, e peguei a adaga que havia roubado do quarto de Edmond. Sua lâmina era muito pequena, provavelmente Edmond a usava para matar baratas do quarto quando entediado, mas mesmo assim eu a cravei na perna de Terrence para dificultar-lhe os movimentos.

Ele urrou no típico sofrimento de uma forte dor aguda.

“Filha de uma égua inglesa.” Ele blasfemou e me deu uma cabeçada, antes de cair sobre mim. Havia vingança motivada pela dor física em seus olhos, e nos rolamos no chão, desferindo mais chutes e socos.

Tentei atingi-lo com a adaga novamente em algum lugar não vital, porque não seria capaz de matá-lo, mas ele segurou minha mão e apertou meu pulso até que eu a soltasse. Quando ela caiu no chão, Terrence me ergueu pelo colarinho e me forçou contra a amurada. Meu corpo inclinou para trás, meus cabelos penderam para o chão. Bastava que ele me soltasse e eu cairia, e a altura seria suficiente para ou me deixar inválido, ou me matar.

“Terrence-“

“Você deveria ter salvado ele.” Terrence vociferou, seus lábios tremendo. “Ele deveria estar vivo!” Gritou e me forçou mais ainda para trás.

“Katana não iria querer isso.” Eu falei, mesmo sem ter ideia. Porém foi o suficiente. Quando Terrence hesitou, eu o cabeceei e me joguei para a segurança. Meu coração bombeava mais do que nunca, todo meu corpo parecia pegar fogo, a dores eram horríveis, mas por um momento eu a esqueci e o soquei de novo.

E outra vez.

Ele cambaleou para trás, e eu lhe acertei outro soco, sentindo-me até um pouco orgulhoso pelo feito, que repeti até que pude sentir seu nariz quebrando contra meus dedos. Meu punho doía tanto quanto, mas eu o soquei de novo. Achei que poderia ganhar aquela disputa, mesmo que não houvesse perspectivas depois disso. Mas eu estava enganado.

Terrence gritou e jogou-se contra mim.

Nós caímos de novo, mas minha cabeça bateu forte contra o chão pedregoso quando aconteceu. Eu fiquei tonto, toda minha visou nublou e nem mesmo o fogo crepitando nas tochas presas às paredes foram capazes de criar luz suficiente para meus olhos atordoados. Tentei me arrastar pelo chão, fugindo dele, mas novamente ele me puxou pelos cabelos. Eu deveria cortar esses malditos fios ruivos, eles eram péssimos numa luta.

Eu tateei minhas mãos pelo chão e, por sorte, reencontrei a frieza da lâmina da adaga. Eu a peguei e cravei contra um dos braços de Terrence, ou eu achava que era um braço, pois não conseguia vê-lo. Ele chorou de dor, mas durou pouco. Com um puxão ainda mais violento em meus cabelos, entendi que ele arrancara a adaga de sua carne e agora a tinha em posse para usar contra mim.

Eu estava fraco demais para conseguir lutar, ou escapar. Havia atingido meu limite.

“Me desculpe, Dominic.” Ele murmurou, apesar de não parecer realmente pesaroso. Eu entendi que ele me mataria, e seu braço se moveu para isso; sua adaga, se atingisse seu objetivo, cravaria em meu pescoço.

Foi com um arrojo brusco e derradeiro de força que tentei impedi-lo. A adaga descia contra mim quando eu bati em seu braço, impedindo que a lâmina da morte se cravasse em minha jugular.

Sucedi em meu intento.

Ela acertou meu olho esquerdo.

Notas finais
Erm... Será que devo começar a me desviar das pedradas? Pelo menos atualizei rápido, né galera? IOJASIAJSIOA Quem diria, quem diria... Temos nosso traidor! Obrigada a quem vem lendo e comentando!!! Beijão!!!