“Chega!” Exclamei dramático, caindo exausto em uma cadeira enquanto sentia cada músculo do meu corpo gritar em revolta e me chamar de carrasco pelo tempo em que os fiz trabalhar sem trégua. O resto do meu corpo gritava por uma cama e longas e preciosas horas de sono.

Sorri debilmente ao me imaginar dormindo em uma cama grande, confortável e repleta de travesseiros, quando alguém estalou os dedos na minha testa, acordando-me de meu doce devaneio. Senti ímpetos de bater a cabeça do desgraçado intrometido na parede, mas me acalmei ao ver que era a Nena.

“Chegamos, boneca.” Ela sorriu exibindo todos os dentes. Incrivelmente, eles estavam todos ali, apesar de não serem tão brancos quanto das moças ricas de Londres. O que não é nada surpreendente.

“Eu ainda não terminei de limpar, e você disse que eu só poderia sair se...” Falei, me interrompi e imediatamente achei-me um imbecil. Por que eu estava lembrando-a disso? Ou deixando-a ciente do fato que eu só havia limpado metade do castelo de popa?

Os sacolejos desse navio e os enjoos que eles me causam devem estar acabando com a minha ilustre inteligência, era a única explicação plausível! Ou talvez a culpa fosse de certo capitão e a história sobre um amante francês que se tornou um traidor. Isso sem contar a parte sobre eu ter sido raptado para... argh! Melhor nem relembrar essa parte. Eu deveria cortar a língua de Terrence fora por ficar enchendo minha cabeça com essas bobagens.

Nena me analisou analiticamente, com um desdém velado.

“Do jeito que você parece acabado, demoraria meio ano para terminar a limpeza, e não temos tempo para isso. Vem, que eu sei que vai gostar de Tortuga!” Não esperou resposta antes de segurar minha mão e puxar-me com ela, num jorro súbito de empolgação.

Às vezes eu não entendia por que ela agia assim comigo. Eu ainda não havia superado a fase da negação, mas estava ciente de que era um reles prisioneiro. Ela poderia me tratar como lixo, mas cá estava ela me carregando como se eu fosse uma criança que iria visitar o circo pela primeira vez.

“Por que faz isso?”

Cale-se Dominic! Minha mente gritou. Mas não me segurei. Eu sei que deveria ficar quieto. Não queria soar como um mal-agradecido, mas sempre tive no corpo o mal da curiosidade exacerbada. Além disso, quando se entende melhor uma pessoa e compreendem-se suas atitudes, manipulá-la torna-se muito mais fácil.

Eu queria que Nena me ajudasse a voltar para casa. Ela era minha maior chance.

“O que quer dizer?” Nena perguntou em retorno, sem deixar de andar.

“Você sabe.” Revirei os olhos. “Tirando a parte de me colocar para trabalhar feito uma mula de carga, você não é tão ruim. Para uma bucaneira.” Acrescentei, lembrando que ela havia se autodenominado dessa forma quando entrou chutando a porta no gabinete do capitão para me tirar dali na manhã seguinte ao meu rapto.

“Eu sou uma alma piedosa.” Piscou arteira e parou quando chegamos ao convés. Vi que quase toda a tripulação já havia descido para terra firme do porto, mas alguns ainda descarregavam a carga, e Santiago ainda estava ali, junto com o tal Fradique.

Terrence apareceu logo atrás de nós, limpando o suor da testa oleosa com um pano esfarrapado.

“Finalmente!” Ele exclamou milagrosamente livre do tom mal-humorado.

Em algum momento enquanto limpávamos o talvez vigésimo compartimento do castelo de popa, ele havia grunhido que iria mijar. Como não voltou, eu supus que resolvera escapulir e descansar o resto do caminho até Tortuga. Um belo de um filho da puta preguiçoso, é o que ele é! Não que eu fosse dizer isso a ele. Ainda que mais baixo que eu, ele possuía músculos muito mais evidentes em seu porte atarracado.

“Estou precisando urgentemente me afundar entre as pernas de alguma rameira.” Ele desabafou.

“Ao menos se lave antes, e poupe a pobre garota do seu pau sujo.” Torci o nariz. Acho que todos naquele navio estavam precisando urgentemente esfregar o couro até tirar sangue. Eu não estava tão mal quanto eles, apesar de me sentir um trapo. Daria a alma por uma água quente, roupas limpas e um perfume de qualidade.

“Como se você estivesse muito limpo, bonequinha.” Terrence fungou roufenho antes de praticamente correr para fora do navio com um saco de couro curtido a tiracolo. Palhaço, pensei. Um palhaço indo para o circo. Todos! Todos esses piratas eram uns palhaços medíocres.

Olhei para Nena, que sorria debochada.

“O que foi, oh, boa alma dos mares?” Perguntei irônico.

“Que meigo. Parece que você fez amizade!” Ela sorriu e estava para dizer mais alguma besteira, antes que sua expressão se transfigurasse em uma de horror e ela cambaleasse para trás, levando as mãos às têmporas e soltando um grito abafado.

Olhei-a embasbacado e tentei segurá-la.

“Nena!”

“Deixe-a.” Fui afastado bruscamente e outra pessoa amparou Nena em meu lugar.

Santiago.

Não me importei. Meus olhos estavam fixos em Nena e fiquei paralisado ao ver seus olhos tornarem-se embaçados, como se uma névoa branca e leitosa os cobrisse por completo. Nena se segurou fortemente ao Santiago e começou a murmurar uma sucessão rápida de palavras.

Não consegui distinguir nenhuma delas e, antes que tivesse tempo de fazer aquela cena adquirir algum sentido em minha mente, fui arrastado firmemente para fora do navio por Fradique. Ele era um pouco mais alto do que eu, tinha braços fortes e um rosto fino, moldado por cabelos escuros, agora sem tranças, e marcado pelas espinhas da juventude. Os olhos verdes tinham um brilho afiado e sisudo quando me parou no porto, segurando-me pelos ombros.

“O que você ouviu?” Perguntou com os olhos cravados em meu rosto, farejando qualquer mentira. Pisquei mais confuso do que nunca, quase me sentindo em um tribunal da Santa Inquisição.

“O que foi aquilo?” Retornei com outra pergunta. “Ela vai ficar bem?”

Me admirei ao perceber que estava verdadeiramente preocupado. Não me lembrava de haver experimentado esse estranho senso de amizade assim tão facilmente por alguém. Fradique assentiu calmamente, virando-me e me guiando com ele para longe do navio.

“Ela vai ficar bem.”

Olhei, então, para Tortuga.

A ilha era montanhosa, com praias de pedra. Havia árvores grossas e frondosas, inclusive em cima das rochas, com as raízes expostas. O porto era grande, com águas tranquilas e várias entradas e canais de acesso, capaz de abrigar um grande número de navios ao mesmo tempo. A primeira parte da ilha junto ao porto era uma terra mais baixa. Precisei me desviar de crianças mal-vestidas com a pele suja de areia correndo e brincando com espadas de pau. Mais adiante, dois homens carrancudos discutiam, até que um deles se irritou e atingiu um soco em cheio no outro. Era difícil caminhar ali sem esbarrar em alguém, ainda mais com a movimentação das barracas de vendas e barris apinhados próximos ao porto.

O cheiro era uma mistura de maresia, couro, bosta de cavalo e tabaco. As casas eram feitas de pedra e madeira, empilhando-se até uma parte da ilha que parecia mais rica e elevada, onde, acredito, os chefes e ricos donos de terra moravam. Provavelmente a casa do Santiago ficava naquela área mais ‘nobre’. Havia também um forte no alto de um rochedo, de onde era possível ver toda a baía.

“É a fortaleza de Le Passeur.” Disse Fradique, ao notar meu olhar em direção ao rochedo. “Passa uma sensação de segurança pela imponência, não é? Isso é bom para os que moram por aqui. Tortuga já viveu muitos períodos conturbados de invasões e disputas entre espanhóis e franceses.”

“Pensei que esse lugar fosse só um ninho de piratas.” Torci os lábios, olhando ao redor e reparando que Tortuga se parecia com um amontoado de vilas e povoados.

“Não. Em Tortuga você encontra tudo quanto é tipo de gente: piratas, caçadores, plantadores de tabaco, artesões, pescadores e barqueiros. Nós, e outros piratas, sempre viemos aqui pela liberdade, pelo rum e pelas prostitutas. Piratas não são perseguidos pela lei em Tortuga, e o próprio governador da cidade já foi, e em algumas ocasiões ainda age como um flibusteiro de renome.” Fradique me olhou de esguelha, com um sorriso velhaco e um canino de ouro. “Mas eu não sei por que estou falando isso a um prisioneiro.”

“Santiago pensa em pedir resgate ao meu pai?” Perguntei de súbito, esperançoso, sem me importar se minha voz parecia-se com a de um garotinho iludido. Pois era o que eu era, e Fradique fez o favor de deixar isso bem claro ao soltar uma gargalhada rápida.

“Já tiramos tudo que queríamos do seu pai. Inclusive você.” Garantiu, levando-me em direção a uma larga escadaria com degraus arranhados e desgastados.

Um gato vadio enroscou-se em minhas pernas, quase me levando a tropeçar, mas Fradique me puxou com mais força e me arrastou degrau acima. Queria pedir que ele me largasse, pois não era um saco de entulhos para ser carregado, mas sabia que seria inútil. Ele provavelmente acharia que eu sairia correndo como os vira-latas disputando um osso pelas ruas de areia batida e paralelepípedos.

Bufei irritado.

“O que eu preciso fazer para ser livre?” Perguntei.

Fradique abriu um sorriso misterioso, de quem conhece um segredo valioso.

“Ser esperto.” Falou e parou em frente do que parecia uma estalagem, uma construção grande de alvenaria já mais elevada em relação ao porto. “Mas jamais tentar fugir.”

Mas como diabos eu seria esperto sem tentar fugir?

Não era a resposta que eu queria ouvir, mas não retruquei, e entramos na estalagem.

XxX

A estalagem era na verdade uma espécie de bordel e pensão. Fradique me levou até o balcão do bar e pediu dois copos de rum. Permaneceu sério enquanto bebia, e eu aproveitei para olhar ao redor. O lugar era um tanto desorganizado, cheio de mesas e homens enchendo a cara, enquanto moças com vestidos decotados andavam de um lado para o outro, servindo e enchendo mais os copos com cerveja forte ou rum.

Tomei um gole da bebida e ela desceu queimando por minha garganta.

“Não vai mesmo me dizer o que foi aquilo com a Nena?” Tentei de novo.

“Não. E é melhor que você não abra o bico para falar sobre o que viu com ninguém, ou pode perder a língua.” Fradique sorriu para amenizar a ameaça. “Você é muito enxerido.”

Grunhi algum desaforo.

“E onde eles estão agora? Eu gostaria de um banho e de uma cama...” Soltei estafado, meu olhar seguindo um belo par de seios pelo salão. Fazia tempo que eu não sentia o calor do corpo de uma mulher. Estava com saudades disso também.

“Eles devem estar resolvendo algum assunto e devem chegar logo. E pode tirar o olho de qualquer uma das mulheres daqui. Nenhuma vai se deitar com você se não lhes pagar e, pelo que eu sei, seus bolsos estão vazios.” Fradique mostrou os dentes. Percebi que ele era do tipo que sorria bastante, com um sorriso fácil para tudo.

Não pude me impedir de lamentar e, apenas para confirmar, apalpei meus bolsos. Franzi a testa quando senti algo no bolso da minha calça e, enfiando a mão nele, encontrei o anel de caveira que havia comprado em Hispaniola. Me surpreendi com isso. Já nem mais me lembrava do estranho anel com olhos de rubis.

“Oh, isso talvez tenha algum valor.” Fradique xeretou inclinando a cabeça em minha direção. “Mas eu não o gastaria com uma rameira.”

De novo me percebi hipnotizado pelos olhos vermelhos da caveira e, dessa vez, coloquei o anel em meu dedo anelar. Senti uma vibração estranha me percorrer ao usá-lo, mas não pensei muito sobre isso. Talvez fossem a fome e o cansaço mexendo comigo.

“Oh, Fradique!” Uma das garotas gritou exultante ao ver o pirata e imediatamente se jogou nos braços dele. “Quando você voltou? Por que não veio falar comigo?” Ela fez beicinho. Era uma loira bonita com um vestido rendado.

“Eu vim até aqui, não vim? Sabia que iria me encontrar.” Ele sorriu novamente, segurando-a pela cintura.

“Estava com saudades de você...” A garota adquiriu um ar malicioso, enquanto roçava a ponta dos dedos no peito de Fradique como uma gatinha no cio. “Onde está o seu irmão?”

“Santiago ou Noel?”

“Noel, é claro! O que eu poderia querer com o Santiago? Ele não gosta do mesmo que você e o Noel gostam... Esmeralda disse que está esperando um filho da porta do seu irmão.”

Fradique deu de ombros.

“Ela que se entenda com ele então. Eu não tenho nada a ver com as bocetas onde meu irmão andou se enfiando nas últimas vezes em que viemos a Tortuga.”

“Insensível!” A loira deu um tapa em Fradique. “Ela é minha melhor amiga!”

Eu estava engasgado. Fradique era irmão do Santiago? Eu nunca imaginaria, mas isso explicava toda a camaradagem que existia entre eles. Eu desviei o olhar quando ele e a loira começaram a se beijar. Cheguei a pensar em me mandar dali, mas para onde eu iria? Nenhum pirata seria mais gentil comigo do que Santiago e sua trupe, e ao menos estes não queriam me matar. Por enquanto.

“Vem, vem comigo, Dique.” A loira começou a puxá-lo.

“Não, Lurdes, eu tenho de cuidar do prisioneiro, eu...”

“Vem logo, Dique!” Ela berrou num tom agudo, deixando Fradique com os olhos arregalados, sem tem como negar. Ele olhou para mim e apontou para uma das mesas.

“Olhe ali. É o Reno, está vendo? Sentado naquela mesa. Vá lá até ele e espere comportado pelo meu irmão, ouviu? Eu vou... Ter uma conversa mais íntima com a Lurdes.” Fradique advertiu e me empurrou em direção à mesa em que Reno estava sentado. Reno era o cirurgião do navio, com quem eu dividira o ‘quarto’ junto com a Nena. Era um sujeito simpático, já de certa idade.

Eu cheguei a dar uns três passos em direção ao mirrado cirurgião e sua careca reluzente assim que Fradique sumiu com a loira, mas alguém segurou meu braço no meio do caminho. Por um momento, jurei que era o Santiago, e já estava com um xingamento engatilhado na garganta quando virei e ergui o rosto, porém tive de engolir meus desaforos ao ver um completo desconhecido de olhos cinzentos, cabelos negros compridos presos nas costas e rosto de maxilar forte. Não era muito velho. Parecia ter não mais do que trinta anos.

“Você é novo por aqui.” Ele disse com um ar interessado, medindo-me de cima abaixo.

“Obrigado pela informação; agora, poderia me soltar?” Perguntei secamente. Tentei refrear meu jeito irônico, mas era difícil. Odiava quando esses grandalhões me seguravam e puxavam como se eu fosse uma boneca de pano. Porque eu não sou uma maldita boneca, pombas!

“Venha comigo.” Ele me ignorou completamente e me arrastou facilmente para os fundos do bar. Atravessou algumas portas sem dar importância a todos os cumprimentos respeitosos que recebia, até chegar à outra parte do lugar: outro salão menor e mais organizado, com menos barulho.

“Sente-se.” Ordenou, empurrando-me contra um banco alto do bar. “Quem é você?”

“Quem é você?” Retornei irritado, voltando a me levantar e querendo sair dali. O olhar cinza do homem me deixava nervoso. “Da próxima vez tente não sair arrastando as pessoas como se elas fossem cachorros numa coleira!”

O estrupício voltou a me segurar e me sentar novamente no banco.

“Sou o governador da ilha, e é bom que seja um pouco mais simpático.” Sorriu. “Só estou curioso.”

Ótimo! Alguém com poder me atormentando. Quis dizer-lhe para enfiar sua curiosidade no rabo, mas me controlei, respirei fundo e decidi tentar me livrar diplomaticamente do homem. Ainda mais que Fradique havia dito que ele já fora um renomado pirata e, em geral, compreensão e gentileza não faziam parte do dicionário náutico.

“Meu nome é Dominic.”

“Dominic,” O governador pareceu degustar meu nome nos lábios. Era alto, estava limpo e bem arrumado, com o corpo marcado por músculos por trás das roupas escuras de corte razoável. Mas não era tão intimidador quanto Santiago. Mas por que diabos estou fazendo comparações? Bufei internamente.

“Você veio até aqui com quem? Acredito que alguém como você não estaria aqui sozinho, ainda mais desarmado.” Ele se aproximou mais, com sua sombra cobrindo meu corpo, e eu me inclinei contra o balcão.

Ok, talvez ele seja tão intimidante quanto o Santiago.

“Eu estou... Eu vim no navio do Santiago.” Falei olhando para a saída. Não estava gostando nada da maneira como meu corpo estava sendo devorado por aqueles olhos cinza. E alguém como eu? O que ele queria dizer com isso?

“Santiago, huh? E você é o quê? Algum novo tripulante? Seu sotaque... Você é inglês?”

Eu fiquei mudo, encarando-o. Não queria responder a nenhuma de suas perguntas, e francês sempre me enrolava um pouco a língua. Ele percebeu isso, sorriu e colocou uma mão sobre minha coxa – para a minha completa indignação.

“Vamos lá, você pode confiar em mim. Santiago por acaso mandou você manter a boca calada? Você é o quê? O prisioneiro dele?” Algo no modo como os olhos dele brilharam com satisfação me deu a certeza de que minha expressão havia me entregado. “Eu posso ajudá-lo. Eu poderia conseguir que você voltasse para casa. De onde você é?”

“Inglaterra!” A palavra me fugiu antes que eu pudesse segurá-la. Meu coração começou a bater descompassado. Eu não sabia se poderia confiar nele, na verdade, tinha quase certeza de que seria estupidez acreditar em qualquer coisa que ele me dissesse, mas pela primeira vez eu tinha o vislumbre de uma oportunidade de voltar para Londres. “O que você poderia fazer para me ajudar?”

O governador umedeceu os lábios e sorriu pelo canto da boca.

“Tenho navios que trafegam para águas mais distantes e interceptam rotas comerciais dos ingleses, inclusive faço negócios com alguns comerciantes ingleses. Talvez eu possa conseguir uma carona para você...” A mão dele subiu mais pela minha coxa, arrepiando-me inteiro – e não de prazer. Queria afastar-lhe a mão, mas não podia irritá-lo.

Já sabia o que ele queria, mas mesmo assim perguntei.

“E o que preciso te dar em troca?” Mordi meu lábio inferior para evitar torcer os lábios em desgosto quando ele respondesse. Os olhos cinza desceram novamente por meu corpo e ele apertou minha coxa com vontade.

“Venha comigo.”

XxX

Ele me levou a cavalo para a fortaleza, através de uma súbita íngreme pela escarpa. Havia apenas uma pequena passagem cortada na pedra, que não permitia acesso a mais de dois homens ao mesmo tempo. Dentro, o forte possuía um rochedo com uma vertente de água doce, que achei que poderia matar a sede de mil homens. Minha garganta ardeu ao vê-la.

“Você pode descer e beber, se quiser.” O governador, que se revelou com o nome de Alóis, disse, descendo de seu cavalo e o entregando para um rapaz. Fiz o mesmo e segui para beber água e lavar o rosto. A sensação da água gelada em minha pele queimada pelo sol foi um bálsamo. Queria me jogar ali dentro, mas a cena seria um tanto estúpida demais.

E se o homem me queria em sua cama em troca de me levar para casa, teria de me aguentar sujo e fedido.

Assim que me dei por satisfeito, nós entramos na ‘casa’. As paredes eram altas, de pedras cinzentas. O interior era espaçoso e, na medida do possível, limpo. Era visível que o homem era rico, revendendo mercadorias e roubando tudo que podia nas rotas comerciais dos mares. Alguns móveis me lembraram dos que eu via em mansões londrinas.

Alóis me guiou até um sofá e se sentou ao meu lado, bem próximo, com um sorriso mostrando seus dentes de caninos afiados.

Estremeci.

Não vou mentir. Já havia me envolvido com rapazes antes. Nada a sério, nada além de beijos despreocupados em meio a uma noite regada a álcool, poesias e música. Era quase comum esse tipo de coisa acontecer às escondidas entre a nobreza; porém, diferentemente de alguns amigos, eu nunca havia passado dos beijos. Não gostava da maneira como os outros rapazes me agarravam com força tentando me subjugar. Eu gostava de controle e ele era mais fácil de atingir quando ia para cama com mulheres.

Além disso, nunca havia sentido real atração por homens e, nos dias seguintes às noites de bebedeira, sempre ficava envergonhado e perplexo com os toques que havia trocado com qualquer ser desprovido de seios. Eram momentos que eu preferia guardar no fundo da minha mente e fingir que nunca haviam acontecido.

“Quer beber mais alguma coisa? Um vinho, quem sabe?” Alóis se inclinou para perto. Seu hálito cheirava a folhas de hortelã. Ao menos não fedia como do pirata nojento que eu havia matado. Estremeci outra vez. Lembrar da sensação da espada perfurando a carne daquele homem me dava náuseas.

Eu definitivamente não havia nascido para tirar vidas.

“Um vinho seria bom.” Talvez bêbado eu suporte melhor o que vem pela frente, pensei, evitando torcer o nariz.

Ele se levantou para servir o vinho sobre uma mesinha.

“Você já deve estar ciente do que eu quero de você.” Ele disse calmamente, com um brilho malicioso nos olhos.

“Sim. Não sou idiota.” Mantive minha voz firme. Não iria demonstrar nervosismo, apesar de que minha vontade fosse sair correndo dali o mais rápido possível. Talvez me jogar daquele rochedo. Eu sentia que estava vendendo a minha honra por uma viagem de volta para a Inglaterra. Mas, se esse era o preço para não continuar como um prisioneiro escravizado, eu iria pagá-lo. “E depois disso você me conseguirá uma viagem segura de volta para a Inglaterra?”

“Sim. Assim que possível.” Ele bebeu tranquilamente um gole do vinho, os olhos presos em mim, e voltou a se aproximar com o meu copo. Bebi em goles rápidos todo o conteúdo. Era forte e exageradamente doce e, como estava desde a alvorada sem comer nada, logo senti os efeitos do álcool em minha mente. Fiquei leve e não tão tenso.

“Espero que o possível não demore. Não vou fazer isso mais do que uma vez.” Disse resoluto. Era bom deixar claro desde já. O governador sorriu e acabou com o espaço entre nós até me sufocar com a proximidade. Ele segurou o cinto novo que eu havia conseguido para prender minhas calças e me puxou num solavanco, meu corpo quase se chocando contra o dele. Era isso que eu odiava. Sentir-me fraco e vulnerável.

“Só uma vez?” Riu. “Então espero que você seja muito bom nisso, para valer uma viagem inteira até o outro lado do Atlântico.” Murmurou e se inclinou para beijar meu pescoço. Fechei os olhos com força e deixei a taça de prata cair no chão quando Alóis começou a me deitar no sofá, com seu corpo sobre o meu.

No instante seguinte, beijávamos. Pense que é uma garota, tentei, mas era difícil imaginar tal coisa quando um prelúdio de barba arranhava meu rosto e eu mal conseguia respirar em meio ao beijo. Alóis se esfregou contra mim e afastou minhas pernas para se acomodar entre elas. Ofeguei baixinho com a fricção de seu quadril, e isso pareceu incentivá-lo a começar a tirar minha roupa.

Aconteceu tão rápido que, quando dei por mim, já estava nu e ele me puxava para seu colo. Odiei a posição, podia sentir o volume através de suas calças roçando na minha bunda e a ideia de desistir começava a se formar em minha mente. Não iria conseguir. Talvez fosse melhor limpar o convés de um navio pirata. É, com o tempo eu acabaria me acostumando! Não era assim tão ruim se nenhum pirata obsceno tentasse me agarrar à força novamente.

Já estava para quebrar o beijo cheio de saliva que o governador impunha, quando me lembrei de como fui humilhado inúmeras vezes por Santiago, de como o odiava. Então passei a beijar Alóis com mais vontade, com raiva reprimida, mais grunhindo do que gemendo conforme as mãos dele marcavam minhas costas por baixo dos meus cabelos longos.

Foi nesse momento que alguém irrompeu no recinto, quase arrebentando a porta no processo. Me afastei assustado do governador, caindo no sofá enquanto Alóis se levantava colocando a mão sobre a arma presa à sua cintura. Minha vontade de me atirar do penhasco atingiu níveis alarmantes quando eu vi que o ser espalhafatoso que arrombara a porta era o pirata Santiago.

Notas finais
Tortuga nessa história é uma mistura da descrição do livro "Bucaneiros da América", um livro não-ficcional sobre a pirataria do século XVII, e minha própria imaginação. ;D . Agradeço novamente por todas as reviews! É por elas que eu continuo postando por aqui. ♥ . Beijos, e até o próximo capítulo!