Mar De Fogo
6 Provocação
“Santiago.” Alóis falou o nome tranquilamente e tirou a mão do cabo da arma, enquanto abria um sorrisinho maledicente. Eu estava pálido demais para dizer qualquer coisa, ainda mais com o Santiago olhando para mim como se quisesse me castrar apenas com a ira em seus olhos profundamente castanhos.
“A que devo a honra de sua visita?” Alóis colocou uma mão no queixo e inclinou a cabeça para um lado, parecendo verdadeiramente curioso, apesar do brilho de diversão e falsidade em seus olhos cinza.
“Você sabe muito bem por que eu estou aqui, Alóis.” Santiago atravessou a sala até o sofá, e eu imediatamente me encolhi, percebendo o ridículo da minha situação. Olhei para o chão atrás de minhas roupas e vi que o imbecil do governador havia rasgado a minha camisa e arrebentado os botões da minha calça. Ótimo. Eu não tinha mais nada decente para vestir agora.
“Hei!” Exclamei quando Santiago rudemente me puxou pelo braço e me colocou em pé bem à sua frente. “Me larga, idiota! Estou resolvendo assuntos privados com o governador, vê se dá o fora!”
Às vezes eu não prezo pela minha vida como deveria. Santiago me encarou com o rosto transfigurado de ódio, mas, no lugar de me dar uma surra, como eu poderia esperar, ele me largou, tirou a camiseta larga que usava e a enfiou em mim. Pisquei aturdido, olhando reto para seu tórax vasto e musculoso, queimado de sol. Corei ao sentir o cheiro impregnado na roupa dele encher as minhas narinas.
“Pude ver que tipo de assunto privado você estava resolvendo.” Ele sibilou cáustico para que apenas eu escutasse. Depois se virou para Alóis, que se apoiara na mesinha do cômodo e degustava novamente uma taça de vinho, observando a cena com uma curiosidade serena.
“Não chegue mais perto dos meus prisioneiros, Alóis, caso queira que eu continue a não me meter nos negócios ilícitos que pratica nos meus mares.” Santiago ameaçou secamente. Alóis balançou a taça antes de degustar mais um gole. Fiquei pasmo. Mares dele? Só faltava o bastardo se declarar o deus do Caribe!
“Acalme-se, Santiago. Eu não sabia que esse prisioneiro tinha tanto valor. Como sei que você não é do tipo que pede resgates, pensei que estaria te ajudando a se livrar de uma carga a mais. Para mim não seria esforço algum largar o garoto na Inglaterra.” Alóis comentou ainda tranquilo.
“Você ainda pode fazer isso! Eu-“
“Cale a boca.” Santiago rosnou por cima do ombro e eu acabei engolindo as palavras. Alóis sorria indulgente. “E você vá procurar outros rapazes para lograr com suas falsas promessas.” Se dirigiu ao governador.
Alóis deu de ombros.
“Não quero arranjar briga com você, Santiago. Sei que isso só me traria severas dores de cabeça. Desculpe-me se não resisti à sua presa largada sozinha no Pétalas de Sangue. Você pode levá-lo.” O governador largou a taça e estalou o pescoço. “Mas se cansar dele, pode dá-lo para mim em vez de jogá-lo fora. Farei bom uso.”
“O quê?! Não, não deixe ele me levar!” Exclamei. “Não sou a porra de um objeto para ser dado, trocado ou posto fora e...! Me larga, desgraçado!” Santiago voltou a me agarrar pelo braço e, irritado, me arrastou para fora dali.
“Espere sentado, Lesma dos Mares.” O capitão ainda resmungou irônico para Alóis antes de sairmos da casa. O governador abriu uma careta terrível, mas não falou mais nada. Porém me olhava com curiosidade enquanto saíamos da casa, como se eu detivesse um valor misterioso que ele gostaria de desvendar.
Santiago me largou bruscamente no meio do pátio, sob o olhar temeroso de alguns guardas – eu nem queria imaginar o que ele havia já havia feito para que todos parecessem sentir medo dele. Eu cambaleei, soltando um palavrão ao pisar com os pés descalços em uma pedra pontiaguda e, antes que eu conseguisse me firmar sobre os dois pés, Santiago já montava em um cavalo e me puxava do chão como se eu fosse um saco de penas.
“O que é isso?” Perguntei exasperado ao me perceber sentado de lado no cavalo, em frente a ele. “Garotas andam a cavalo assim! Eu sei montar! Posso voltar com meu próprio cavalo!”
“Você não tem cavalo nenhum, moleque, e está nu da cintura para baixo. Agora fique quieto. Você já me irritou demais para um único dia.” Santiago bateu os calcanhares nas ancas do cavalo e saiu trotando para fora da fortaleza. O pior era que ele tinha razão, e eu precisei morder a língua enquanto tentava não me incomodar com seus braços enormes ao redor do meu corpo, ou com seu abdômen duro roçando em meu braço, ou ainda com o cheiro masculino, amadeirado de suor desprendendo-se de sua pele bronzeada.
Vi uma grande tatuagem preta de escorpião no braço esquerdo, que não era nada simpática.
Não que eu estivesse reparando muito.
Cruzei os braços sobre o peito e fiz minha pior careta de mau-humor enquanto descíamos a escarpa em um silêncio pesado e agourento, até chegarmos a uma casa no sopé do rochedo, próxima à praia, que era pedregosa, com alguns pedaços de areia clara e caranguejos enormes, tão feios, que cheguei a me ofender com sua aparência.
Santiago parou o cavalo e desceu, e eu tratei de pular ali de cima antes que ele inventasse de me segurar pela cintura e tirar dali como se eu fosse uma dama delicada. Cheguei a olhar ao redor, mas mal tive tempo de analisar muito o lugar mais afastado da bagunça da vila e um tanto paradisíaco, antes de ser puxado para dentro da habitação. As paredes eram brancas, os cômodos amplos e arejados por janelas grandes e a mobília, extremamente simples.
Eu fugiria dali ao ver a expressão carrancuda do Santiago ao parar no meio da sala e me soltar, mas havia ‘guardas’ cuidando o perímetro. Como se houvesse algo de decente para se roubar ali... Torci os lábios e o encarei deixando claro minha insatisfação por ter sido arrastado até ali.
“O que você quer comigo, afinal?” Perguntei apertando os punhos. “Meu pai não te seguiu, você tem o seu saque. Eu não sirvo mais para nada! Nem mesmo um bom criado de bordo eu sou, me ter no seu navio não lhe trás nenhum benefício! Então por que diabos você não me deixa ir embora?!” Estava quase aos berros, com os olhos úmidos pela raiva que me engasgava.
“Não tenho que explicar meus motivos para você.” Santiago abriu um sorriso que não possuía nenhum traço de humor.
“Não vou ser seu amante!” Soltei. Depois arregalei os olhos e tapei minha boca. Está comprovado: não é o sacolejo do navio que me deixa burro nesse maldito Caribe. É o Santiago e seu jeito impossível!
Ele ergueu lentamente uma sobrancelha, enquanto eu sentia meu rosto ficando quente de vergonha.
“Ser meu amante?” Agora o sorriso dele adquiria aquele traço de deboche, e uma diversão que só ele sentia. “Da onde você tirou essa ideia?” Ele se aproximou um passo, e eu cambaleei para trás.
“Não interessa.” Murmurei virando o rosto, querendo fugir de seu olhar penetrante. “E você me beijou. Não pense que vou deixar isso acontecer de novo.”
Por que eu estou lembrando ele disso? Quis arrancar meus cabelos, mas antes que eu pudesse fazer isso, ele acabou com a distância entre nós dois até que minhas costas estivessem pressionadas contra uma parede. Meu coração disparou feito um cavalo de corrida e eu jurei que ele iria me prensar ali mesmo, mas parou com as mãos espalmadas na parede, uma de cada lado do meu rosto. Como era bem mais alto, estava inclinado sobre mim, subjugando-me com sua altura.
“E como você impediria que acontecesse de novo?” Santiago perguntou num sussurro implicante. Estremeci inteiro e escapei pela tangente, por baixo do braço dele.
“Pare com isso.” Resmunguei enquanto ele soltava uma risada de escárnio.
Foi quando vi a abertura larga ao final da sala ampla, com uma varanda pequena que terminava em uma espécie de banheira natural, cuja água descia pela escarpa e ficava represada nas pedras, escorrendo lentamente para a praia por um vau pequeno. A água era doce, limpa e cristalina, igual à que eu havia bebido na fortaleza.
“Você pode tomar um banho aqui se quiser.” Pulei de susto ao sentir o hálito quente do Santiago bater na minha orelha, junto ao seu sussurro rouco. Estreitei os olhos, mirando-o por cima do ombro, e voltei a encarar a água. Era tentador. Tudo que eu mais queria era um banho, fresco, restaurador e demorado.
Já havia decidido me jogar ali dentro, sem medo de encontrar algum bichinho asqueroso escondido entre as pedras, quando reparei em Santiago apoiado na parede, com os braços ainda cruzados sobre o peito nu, observando-me sem demonstrar nenhum indício de que sairia dali tão cedo.
“Será que você poderia me dar licença?” Perguntei por entre os dentes.
“Não.” Foi tudo que ele disse, antes de sorrir debochado. Um arrepio de indignação passou por mim. O que será que havia de tão divertido em implicar comigo dessa maneira? Será que era tão bom assim me ver irritado?
Respirei fundo, contando mentalmente até dez em busca de paciência. Não iria ficar discutindo, já havia entendido que o que ele queria era me importunar. Fui até a borda do solo de concreto, arranquei rapidamente a camiseta larga do meu corpo e entrei na água, sem olhar para ele. Conseguia sentir seu olhar queimando em minha pele, mas apenas afundei na água fresca, passando as mãos pelos cabelos e adorando sentir parte da sujeira deixando-os apenas com isso.
Quando emergi, arrisquei volver o corpo e olhar para o Santiago. Fiquei surpreso em não vê-lo ali, mas minha alegria durou pouco. Logo ele reaparecia e tocava algo em minha direção. Peguei por reflexo e vi que era um daqueles sabões de cheiro ruim, do mesmo tipo que eu havia usado para limpar o convés. Mas era isso ou nada, só que eu obviamente não agradeceria pela ‘gentileza’.
Dei-lhe as costas e comecei a me esfregar com vontade.
Lavei a pele e também os cabelos, mergulhei e só me dei por satisfeito depois de não me sentir mais comparável a um porco selvagem. Respirei relaxado, mas...
“Aqui,” Levei um susto ao ouvir a voz muito próxima. Antes que tivesse tempo de me afastar, Santiago tirou o sabão da minha mão e me segurou firme pela cintura. Quando ele entrara na água?“Eu esfrego as suas costas.” Colou os lábios contra a minha orelha ao falar tal disparate.
“Ficou louco?!” Perguntei estupefato, tentando me afastar, mas ele nem sentiu minha tentativa e, afastando os cabelos das minhas costas, começou a passar o sabão pela minha pele, com a ponta de seus dedos roçando em mim. Tremi de alto abaixo, completamente incrédulo ao ter meu corpo pressionado contra o dele e sentir que também estava nu. “Eu posso lavar minhas próprias costas!”
“Não perguntei se podia ou não.” A boca dele ainda estava junto ao meu ouvido. Sua voz parecia ainda mais grave e vibrante quando próxima. “Você estava mesmo pensando em trepar com aquele merda do Alóis em troca de uma carona de volta? Realmente acreditou na palavra de um pirata? Pensei que já não fosse tão ingênuo...”
“E o que você sabe sobre mim?!” Retruquei azedo. “Melhor acreditar em um desconhecido do que continuar como prisioneiro de um sádico como você!”
“Acha mesmo?” Santiago largou o sabão e me virou de frente para ele. Minha respiração falhou, e me senti miseravelmente pequeno encarando-o tão de perto. “Então sua ideia é dar a bunda até encontrar alguém que ouça teus apelos?”
“É claro que não!” Exclamei afogueado. “Eu não... Isso foi... uma exceção...” Por que estou me justificando?
Santiago segurou meu queixo, poderia quebrar minha mandíbula se quisesse, e me puxou para cima; nossos lábios quase se tocaram e eu congelei, encarando-o vergonhosamente encolhido, com olhos espantados. Meu coração bateu fora de ritmo, e minha respiração começou a seguir o mesmo caminho quando ele puxou minha cintura, colando meu corpo ao dele, e pude sentir sua ereção pressionada contra meu abdômen. Arfei perplexo.
Ele riu de leve, cafajeste, e sua voz tinha uma provocação sensual quando voltou a falar:
“Não te peguei para meu amante, mas se descobrir que algum outro homem, qualquer um, tocou em você, ou que você andou conspirando para fugir de mim de novo, é nisso mesmo que vou te transformar, queira você ou não. Então,” A mão dele deslizou das minhas costas para meus glúteos, e apertou um em cheio. Fechei os olhos, torcendo o nariz e tentando virar o rosto. Ignorei com todas as minhas forças a maneira como a água fresca pareceu tornar-se um caldeirão de sopa fervente. “É melhor avaliar com cuidado se vai querer tentar escapar outra vez. Porque eu sempre vou te trazer de volta.”
Voltei a abrir os olhos e me deparei com os orbes ardentes dele sobre mim. Por acaso era possível que alguém com olhos tão comuns pudesse ter labaredas no olhar? Eu pisquei aturdido com o rumo insano dos meus pensamentos e meus lábios se partiram em busca de algo que dizer. O ar quente dos meus pulmões misturou-se ao dele, e seu hálito causou-me um efeito pior do que um narcótico teria.
“Meus únicos sentimentos por você são ódio e asco. Então pode apostar que vou continuar procurando maneiras de fugir.” Disse, mas minha voz soou-me débil, nada convincente.
Santiago sorriu de lado, despudoradamente me prensou contra uma pedra e deslizou os dedos por minha coxa. Meus lábios tremeram e ele olhou bem fundo através de minhas íris azuis.
“Não subestime os gestos, Dominic. Suas reações perante isso aqui...” Ele apertou meu rosto com mais força e roçou os dedos em um ponto muito próximo da minha virilha, antes de voltar a sussurrar, com cinismo. “Contradizem qualquer coisa que saia dessa tua boquinha de boneca.”
Boquinha de boneca! O encarei deixando bem claro meu despeito e obriguei-me a não vacilar sob seus toques, porém meu corpo inteiro estremecia suavemente.
Ele passou levemente o polegar pelo meu lábio inferior, que sempre foi projetado para frente por questão de milímetros, segurou minha mandíbula ainda mais firme, como quem segura uma posse, e trocou o polegar por sua língua, percorrendo meu lábio. Bem que tentei me livrar do toque, mas, por mais que resistisse, no instante seguinte ele rompeu a barreira física, invadindo minha boca de forma áspera, quente e brutal, com o gosto amargo de um fumo mais forte do que eu estava acostumado a fumar em minhas noites de libertinagem em Londres.
Bastardo!, foi meu pensamento imediato. Ele estava fazendo de novo! Tentei fazer uso das minhas mãos em seus ombros e empurrá-lo, mas era simplesmente impossível mover um cara que era dois de mim, senão mais. Santiago segurou meus cabelos pela raiz e os puxou apenas o suficiente para que eu soltasse um gemido baixo de dor e ele pudesse introduzir sua língua repleta de aspereza ainda mais fundo em minha boca. Minha cabeça pareceu girar pelo contato pujante enquanto eu me horrorizava interiormente por meu baixo ventre começar a formigar em resposta ao que ele fazia.
Soltei um muxoxo indignado para a vil traição de meu próprio corpo e tentei morder os lábios do capitão, mas isso apenas pareceu incentivá-lo a tornar o beijo mais bruto. O ar começou a me faltar. Eu estava acostumado a beijar garotas, aqueles beijos macios e cheios de patéticos suspiros apaixonados. Isso fugia completamente dos meus padrões. Nem com o governador eu havia me sentido sem-controle da situação. Eu sempre odiei me sentir assim, fraco, domado, então por que meu corpo se entregava quando tudo que minha mente queria era fugir de Tortuga e nunca mais ver nenhum pirata na minha frente?
Liberando-me do beijo, Santiago olhou para baixo, para minha ereção, e abriu um sorriso demoníaco que me envergonhou até a alma, minhas bochechas pinicando como se todo o sangue do meu corpo estivesse concentrado nelas. Quem me dera... O empurrei bruscamente e tentei me afastar, porém ele me segurou e teria afundado sua boca na minha de novo se alguém não aparecesse bem naquele instante, chamando pelo nome do capitão. Amém! Talvez fosse o momento de começar a acreditar em intervenções divinas.
“Santiago!”
Olhei para o homem gigantesco parado perto do pequeno lago entre as rochas. Não parecia nada impressionado por ter visto Santiago praticamente estuprando um pobre inocente – eu. Ele tinha um corpo tão forte, que algumas veias saltavam, comprimidas entre os músculos e a pele morena. Tinha uma cicatriz feia na bochecha esquerda e cabelos negros caíam desgrenhados até os ombros. Seus olhos eram do mesmo tom de verde dos de Fradique, então tive uma ideia de quem era antes mesmo que Santiago suspirasse com enfado.
“O que foi, Noel?” Perguntou, afastando-se um pouco de mim. Fugi o mais rápido que pude, saindo da água e colocando apressadamente a camisa do Santiago jogada no chão.
“Eu vou ser papai!” Como Noel não tinha nada melhor para abraçar, acabei sendo a vítima, e quase sufoquei em seu abraço de urso. Quando ele me largou, por pouco não caí desmontado no chão. Corri para longe, e acabei no quarto da casa. Havia uma cama de casal de madeira, com um colchão coberto por uma colcha branca e um armário simples junto a uma mesa com um tinteiro e uma pena, e alguns livros. Não reparei muito, me apoiei numa parede e tentei recuperar o fôlego, me acalmar.
Não podia acreditar que ele havia me beijado e eu acabei excitado! Por sorte o flagra sumiu com minha ereção, mas ele viu. Santiago havia visto e eu não tinha como negar o fato! Eu queria morrer. Queria muito morrer, me entregar ao mar e quem sabe chegar a nado até a Inglaterra. Pude escutar partes da conversa dos dois, mas ela não me interessava. Basicamente, Santiago chamava Noel de estúpido por acreditar nas palavras de uma prostituta, o filho poderia ser de qualquer um.
“Esmeralda é fiel! Ela disse que largou a vida de rameira desde a última vez em que estivemos em Tortuga!” Noel resfolegou em garantia. “Eu deixei dinheiro suficiente com ela para que não precisasse mais vender o corpo!”
“Sim. E eu me tornei um homem da lei que pratica comércio lícito no Caribe, vendendo camarões por especiarias.” Santiago caçoou com uma risada desaforada.
Noel foi embora xingando o irmão, convencido de que o filho era mesmo dele. Tremi ao pensar que estaria de novo sozinho naquela casa com o Santiago. Tudo pareceu ficar em silêncio por alguns minutos, apenas o som do vento, das ondas, da praia e das pombas selvagens chegava aos meus ouvidos, até eu escutar a voz de uma mulher.
Nena.
Me aproximei da porta para escutar melhor.
“Está no Forte de Chagres, Santiago. Joseph confirmou minha descrição. Mas não vai ser fácil, dizem que é bem protegido, com uma guarnição de três mil homens, e fica longe, lá pelas alturas de Laguna.” Nena advertiu.
Santiago suspirou.
“Tem certeza de que é mesmo lá? Que foi esse lugar que você viu?”
“Eu nunca tenho certeza, Santiago. Mas não errei nenhuma vez nesses dez anos em que trabalhei com você, não é?” Quase pude imaginá-la sorrindo presunçosa, mas não me arrisquei a espiar e dar chance de eles me verem bisbilhotando. “Onde está o Dominic?”
“Por quê? Por acaso o viu nos seus delírios novamente?” O tom do Santiago foi regado à mais pura ironia.
“Não são delírios. E sim, eu o vislumbrei. Isso se for mesmo ele...” Eu não estava entendo merda nenhuma do que eles estavam falando. “Ele vai ser importante. Agora ou depois.”
“Espero que o quanto antes. Às vezes ele me tira do sério.” Santiago resmungou. “Ele deve ter se enfiado em algum canto dessa casa. Se está querendo falar com ele, procure-o você mesma.”
“Não. Vou ir colher mais informações sobre Chagres. E também gastar um pouco do meu saque. Mas não muito. Vamos precisar contratar mercenários, só a tripulação do Labareda não vai dar conta. Trate de começar a esvaziar seus bolsos.” Ouvi passos e tudo ficou em silêncio novamente.
De surpresa, Santiago entrou no quarto e parou à minha frente.
“Escutando atrás da porta?” Perguntou com a sobrancelha erguida e aquele sorriso detestável.
“O significa tudo isso? Ela me viu? Por que eu sou importante? Diga alguma coisa!” Exclamei quando ele me deu as costas, ignorando-me enquanto ia atrás de uma camiseta limpa no armário. Usava apenas as calças marrons de antes, úmidas ao vesti-las molhado. “Alguma coisa que dê sentido a toda essa merda!”
Santiago parou sua busca e me encarou com uma aura misteriosa.
“Acredite, a merda está recém começando, e você tem um papel importante nela, pelo que dizem...” Sorriu frente à minha careta de confusão. “Então aproveite enquanto estivermos na Ilha, pois depois que zarparmos, demoraremos bastante para voltar. Isso se voltarmos.”
Engoli em seco e acho que devo ter ficado ligeiramente branco.
“Não quero ir.” Falei. “Não vou arriscar minha vida por você!”
A boca do Santiago se retorceu de ironia e uma escuridão velada tomou-lhe os olhos.
“Você deve ser burro, lento ou apenas estúpido, demora a entender que não tem escolha.”
“Eu te odeio!” Gritei irritado, trêmulo. Meu mundo se despedaçava pouco a pouco sob meus pés. Não era possível que em tão pouco tempo, tudo parecesse tão fora do lugar. Será que era algum tipo de punição por meus pecados? Puxei o ar. “Abomino qualquer coisa remotamente relacionada a você!”
Um sorriso criminoso distorceu os lábios dele e, com uma lentidão deliberada, caminhou até onde eu me encostava à parede. Permaneci estático, tentando não demonstrar nada além de indiferença, mas me sentia mais e mais intimidado a cada passo dele. Santiago parecia imune aos meus olhares de desprezo.
“Se é assim, essa camisa é minha. Pode devolvê-la.”
“Não!” Respondi rápido, corando ao lembrar que há minutos atrás estava nu nos braços dele, deixando que me beijasse ao seu bel prazer.
“Por quê?” Perguntou debochado. “Por que está nu por baixo? Mas já vi sua nudez, aliás, pude senti-la contra meu corpo.” Deu um passo e invadiu meu espaço pessoal. Comecei a ter dificuldades para respirar naturalmente. Seus lábios foram parar atrás do lóbulo da minha orelha quando se inclinou sobre mim. “Pude ver como ficou duro, gemendo por meus toques...”
A respiração dele roçava meu pescoço quando me puxou lentamente para mais perto do seu corpo musculoso, a voz rouca e macia como veludo. Tentei girar a cabeça para longe, mas ele segurou meus cabelos e a manteve no lugar. Sua outra mão brincava em erguer minha camisa, algo que eu tentava inutilmente impedir.
“Por que não me beija como fez com Alóis? Talvez eu me sinta inclinado a deixá-lo ir para casa.” Zombou.
“Idiota! Odeio você!” Odeio! Odeio! Minha mente continuou a gritar ensandecida. Já não bastava o poder que ele tinha sobre a minha vida, eu ao menos queria um pouco de controle sobre minhas próprias reações! Não era possível que até isso ele fosse tirar de mim!
“Sim, odeia-me e repete bastante isso...” Santiago me impeliu com força contra a parede, seus olhos escuros zombando dos meus esforços para escapar. “Queria ver-me morto boiando no mar, servindo de comida para os tubarões. Talvez por isso seja tão rebelde e ignore minhas ordens, mesmo quando sabe que vou fazer com que as cumpra. Logo vai entender que é melhor ser humilde e submisso, em vez de tão determinado a me desafiar.”
Por pouco não cuspi na cara dele. Não queria levar uma bofetada.
“Vá pro inferno! O que quer que queira de mim, não vou te dar. Não vou te ajudar, quero mais é que Chagres e sua guarnição de três mil homens acabem com você!” Rosnei sob a respiração alterada.
“Vai mudar de ideia.” Santiago falou convicto e, num movimento rápido, arrancou minha camisa. “E isso é meu.” Sorriu, aproveitando para dar uma última olhada descarada em meu corpo antes de deixar o quarto.
Abaixei o olhar para minha nudez, reparando na marca arroxeada em meu quadril, onde ele havia me segurado, e ruborizei.
O que diabos eu iria vestir agora?
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