Mar De Fogo
14 Tempestade
O dia amanheceu nublado.
Porém isso não impediu ninguém de continuar com seus afazeres. Pela manhã, os piratas comeram bem mais do que suas panças gordas permitiriam, pela falta do jantar do dia anterior. Eu levei um susto quando Jaima e Estevan sentaram ao meu lado, o nanico à direita, e o grandalhão à esquerda.
“Então, chefe, pode comer meu pão se quiser. Eu estou mesmo precisando perder uns quilinhos, o rum gosta de se acumular na minha barriga. Eu já fui um tipo sarado na juventude, sabia?” Jaima soltou uma risada que se transformou em um breve ronco e me empurrou parte de sua comida, um pão tão duro como o de qualquer outro. Eu o encarei com os olhos arregalados, pasmo, pois ele havia tentado arrancar minha língua no dia anterior. “Não me olhe assim, chefe. Você salvou a minha vida e a de meu irmão, nós devemos.”
“Eu não quero a gratidão de vocês.” Falei e me levantei, saindo dali porque a comida não descia bem em meu estômago. Ah, a saudades dos banquetes deliciosos nos quais eu me fartava quase todos os dias, em Londres. Era impossível não lembrar do sabor agradável de um pão macio e cheiroso, frutas frescas e queijos requintados pela manhã.
Eu cheguei ao convés, praticamente vazio já que praticamente todos estavam no salão de jantar (se é que aquilo poderia ser chamado de tal maneira), e me espreguicei, deixando a brisa fraca e salgada do mar bagunçar meus cabelos e refrescar minha pele. Estava me acostumando com aquele cheiro de maresia, mas naquele dia senti falta do sol. Era o primeiro dia nublado em alto-mar para mim e, admito, o efeito era desagradável, pois uma sensação de sufoco e iminente perigo parecia sondar os céus por trás das nuvens, ou galgar das profundezas do oceano até o quebrar das ondas.
“Vai perder as forças e adoecer se continuar comendo tão pouco.” Ouvi a voz e me virei, deparando-me com Reno. Ele estava apoiado na borda do navio, observando o mar enegrecido. “Talvez tenhamos uma tempestade ao cair do dia.”
Eu me aproximei dele. Reno era alguém com quem eu simpatizava, mesmo que se mantivesse silencioso e recluso a maior parte do tempo. Um ar melancólico o sondava, e a velhice se pronunciava em seus traços como gavinhas crescendo e tomando um carvalho.
“Uma tempestade? Isso não é... perigoso?” Perguntei, olhando também para o mar, sentindo minha certeza de que havia algo sombrio observando-nos aumentar.
“Sim, bastante. Mas o Labareda é um bom navio.” Ele acariciou distraidamente a madeira na qual se apoiava. “Já sobreviveu há coisas piores do que uma mera tempestade.”
Eu não queria saber se o navio sobrevivera, isso era óbvio, mas se todos os tripulantes nele costumavam sair vivos de uma situação como aquela. Porém guardei meu medo, acariciei meu anel de caveira e o acompanhei em sua observação serena.
“Santiago foi dormir em meu quarto essa noite. Pelo que entendi, você o trancou do lado de fora.” Reno então comentou, com um sorriso no canto dos lábios.
Eu ri baixo, pelo nariz. Santiago queria minha cabeça, disso eu não duvidava. Seu olhar recaíra ameaçador sobre mim desde que saí de sua cabine, e eu sabia que teria de lidar com as consequências. Ele não deixaria o episódio passar em branco, não o Santiago.
“Achei que uma noite apreciando o brilho das estrelas faria bem a ele.” Comentei, displicente. Reno gargalhou de leve e, quando parou, continuou sorrindo.
“É bom tê-lo nesse navio, Dominic. Santiago precisa de alguém que o distraia, ao menos um pouco, da vingança que ele busca desde tão novo.” Reno falou, assentindo para si mesmo. “Viver em função de uma obsessão não é algo saudável.”
Eu fiquei um tempo em silêncio, porque não concordava com aquilo. Santiago continuava tão ou mais obsessivo com sua vingança, ainda mais agora que se achava tão perto de concretizá-la. Eu podia ver, na cintilação escura de seus olhos, que isso era o que mais importava para ele.
“Você que o conhece há bastante tempo, como disse... Como ele era antes?”
“Quando ele e os irmãos apareceram em minha casa, pedindo por ajuda porque Fradique estava perto da morte, Santiago já carregava o peso das perdas nas costas. Eu sei que não deveria contar, mas ele perdeu muito por causa da colonização espanhola nos vilarejos do continente. Perdeu os pais e a irmã, amigos, tios... Viu seu mundo ser destruído e jamais conseguiu esquecer. Vingar-se se tornou uma obsessão. Desde que o conheci já pensava nisso, maquinava à noite como faria. Sempre foi um garoto sério, forte e disciplinado. Acho que era igual a agora... Com a diferença que hoje sabe esconder ainda melhor do que antes seus sentimentos.” Suspirou, novamente perdendo-se em lembranças distantes. “Catriel ensinou isso a Santiago. Era um filho da puta insensível que raramente deixava alguém saber o que se passava por sua mente.” Reno sorriu ternamente, mesmo que houvesse xingado o tal Catriel.
“Quem é esse?”
“O antigo capitão. Como contei antes, foi quem ensinou tudo aos garotos. Eu nunca fui, realmente, um homem do mar. Mas segui Catriel, pois ele era minha vida, e permaneço aqui, pois Noel, Santiago e Fradique são como meus filhos, mesmo que eu nunca tenha sido um grande exemplo paterno.” Reno fungou. “Estou falando demais novamente?”
“Não! Eu passaria o dia te escutando, se não tivesse tantas coisas para fazer...” Comentei e não mentia. Sentia um desejo devastador de escutar tudo, saber os detalhes, entender melhor um passado que não me pertencia. “Você... amou um homem? Amava Catriel?”
“Sim, amei-o até a hora de sua morte, e continuo amando-o, em minhas memórias, enquanto espero o dia em que irei encontrá-lo em algum outro lugar, em outra vida, talvez.” Reno falava tranquilo, resignado, e vê-lo assim, de certo modo, apertou meu coração, ao passo que comecei a gostar ainda mais dele.
“E como era?”
Reno me olhou.
“Era maravilhoso.” Disse, complacente. “Teme se apaixonar por Santiago?”
Eu engasguei com a pergunta e meu rosto queimou, contrariado. A pergunta por si só era absurda, porque eu jamais amaria o Santiago. Era apenas atração física, e jamais passaríamos disso. Eu abaixei o olhar, vendo a água tentar corromper os bordos do navio.
“Eu não temo o impossível.” Resmunguei. “De qualquer forma, Santiago não faz o tipo que se apaixona. Eu não passo de uma distração para ele, como o tal Giulio.” Eu repudiei o tom amargo por trás das minhas palavras. Não era como se eu me importasse.
Reno riu, sem explicitar o porquê, e eu fiz uma careta, perguntando-me se ria da minha cara.
“Aí está você.” Volvi o corpo e me deparei com Garuda. “Vamos, há muito que fazer. Precisamos preparar o navio para enfrentar a tempestade.” Ele disse, segurando meu braço. “Ah, bom dia, Reno.”
“Bom dia, Garuda.” Reno cumprimentou, simpático. “Você sabia, Dominic, que Garuda é primo de Santiago, Noel e Fradique? Nós o encontramos há alguns anos, em Tortuga. Foi uma surpresa e tanto para os irmãos.”
Eu arregalei os olhos para Garuda, analisando-o de cima abaixo. De fato, o porte físico dele era parecido com o do Santiago, e havia algumas semelhanças quando se analisava com atenção, como o formato do nariz, ou a grossura dos lábios. Os olhos me lembraram os de Fradique, mas era só. Eu acabei por encará-lo com desagrado quando a surpresa se esvaneceu.
“Cristo... Essa família me persegue.”
E então fui preparar o navio.
Porque uma tempestade se aproximava, e o cheiro de morte rondava o convés.
XxX
Foi, naturalmente, um dia cansativo. Nele, conheci o trabalho árduo de manejar as cordas de um navio e até escalei a escada estreita do mastro principal, onde descobri igualmente a importância da espessura do tecido para os diferentes tipos de velas. Jaima oferecia ajuda de hora em hora, mas eu ordenava que voltasse a limpar o navio com o irmão, como eu havia sido obrigado a limpar em meus primeiros dias no Labareda. A vida realmente dá voltas.
“O chefe pode pedir o que quiser, quando quiser. Estevan faz sem reclamar, ele nunca reclama, é um bom irmão. Alguns acham que eu carrego um fardo, mas eu não vejo assim, chefe. Estevan nunca me deu trabalho, mesmo sendo retardado, e trabalha bem, veja.” Jaima apontou para o irmão que trazia as latrinas cheias de merda do deque inferior como se, em verdade, carregasse vasos com flores perfumadas.
“Poucos são os que carregam merda com tanta alegria.” Concedi, com um aceno. “Agora vá juntar-se a ele.” Tenho mais o que fazer do que te escutar, desgraçado. Completei em pensamentos. Devo admitir que a sensação era bastante satisfatória, e eu lançava as ordens com um prazer cruel em meus olhos azuis. Eu não me arrependia de tê-los poupado, pois já me bastava sentir náuseas quando lembrava que já havia matado um pirata – Paco – a sangue frio. Não queria mais mortes nas minhas costas.
“Eu falei que ele seria teu lambe-botas.” Garuda comentou quando Jaima se afastou rapidamente, segurando a pança gorda. Olhando agora, eu me perguntava como havia sentido medo daquela criatura pequena e barriguda. Com isso, concluí que até mesmo um rato ficaria assustador quando armado, vingativo e com a vantagem.
O dia se tornava cada vez mais escuro, com nuvens pesadas minando os céus, e os ânimos no navio pareciam refletir a seriedade do ar cada vez mais espesso, parado e quente, que fazia as roupas grudarem nas costas enquanto o suor escorria na pele.
“É uma merda de dia. Essa próxima noite, talvez seja nossa última. O medo já deve ter contaminado até a quilha desse navio.” Terrence comentou, olhando furtivamente para o mar, quando subiu ao convés. Os compartimentos de armas haviam sido fechados, para que nenhuma água penetrasse por ali.
“Mas vocês já passaram por uma tempestade antes, não é?” Perguntei, segurando-me num cordame porque as ondas começavam a sacudir o navio mais do que o normal, embora ainda não o suficiente para desestabilizá-lo.
“É claro. Mas dificilmente saímos com os mesmos números do início. O mar gosta de levar alguns prêmios.” Ele coçou a barba. “Diabos, eu odeio falar isso, mas tenho um mau pressentimento. Meus ossos e juntas doem, principalmente meu joelho, e isso nunca é um bom sinal.” Ele reclamou, tirando o chapéu e passando a mão pelos cabelos ensebados, antes de colocá-lo de volta na cabeça. “Vou largar esse chapéu em um lugar seguro. Odiaria perder ele hoje.” Disse, antes de dar-me as costas e partir.
No final da tarde, eu fui me sentar num degrau e comecei a afiar uma adaga que havia encontrado por acaso entre algumas tralhas no recesso do navio, enquanto me lembrava de meu último encontro com Raiska. Ela havia projetado, nas brumas, o Labareda em meio a uma tempestade. Aquilo fora um aviso? Desejei que a maldita houvesse dito qual seria o resultado daquela noite, pois os raios que começavam a clarear, silentes, o céu à distância me deixavam mais e mais apreensivo e inquieto.
“Eu não vou morrer.” Garanti a mim mesmo, em um sussurro baixo. “Sou importante para essa maldita vingança. Nena me viu no momento da vitória.” Assegurei, mesmo que soubesse que o futuro não é algo fixo, ou certo. Uma visão estúpida não garantia minha sobrevivência.
Eu não queria morrer.
“Falando sozinho agora?” Me sobressaltei, erguendo o olhar para ver Santiago parado à minha frente, quatro degraus abaixo. “Parece que fica mais maluco a cada dia, já que se acha agora no direito de até desrespeitar teu capitão.”
“Por Deus, Santiago. Onde está seu senso de humor? Logo você, sempre tão debochado e cheio de piadinhas, vai ficar remoendo uma brincadeira?” Falei o mais sarcástico que pude e revirei os olhos. Segurei-me para não rir, mas levantei e rapidamente terminei de subir os degraus quando ele subiu o primeiro. Talvez houvesse algo mais imediato para me preocupar, do que com a tempestade.
É claro que Santiago me alcançou e jogou contra a balaustrada da proa, e logo eu sentia seu corpo me aprisionando contra o metal que a compunha. Ele apoiou as mãos uma de cada lado do meu corpo, na altura de minha cintura, e encarou-me com o brilho venturoso de quem vê sua vingança prestes a se realizar.
“Se há algo que sei que você não gosta, é de ser chamado de mulher do capitão.” Santiago lambeu meu pescoço, para meu completo espanto. Eu não podia acreditar naquilo. Ouvi assobios vindos dos homens no convés e fervi com a humilhação. Podia perceber que Santiago sorria contra a minha pele, antes de voltar a lambê-la.
“Pare com isso!” Tentei empurrá-lo, enquanto ouvia umas gargalhadas e palavras sacanas. Aqueles abutres sujos que estavam sem sexo há dias poderiam achar excitante até duas formigas copulando. Não me impressionava que ficassem animados, cuspindo palavras bagaceiras, com o que viam agora.
“Eu ainda nem comecei com você, Dominic.” Santiago sussurrou contra meu ouvido. “Não gostaria de sobreviver a essa tempestade se soubesse o que tenho em mente para você. Ou melhor, para nós dois.” O tom malicioso dele causou arrepios por toda minha nuca e, ignorando o estremecimento em meu corpo, eu o encarei com uma sobrancelha erguida em desdém.
“Não tenho medo de você. Pode ladrar o quanto quiser, pois sei que está apenas tentando me assustar. Mas adivinhe? Isso não funciona mais comigo.” Sorri de lado para ele. Santiago me encarou por um instante, sem que eu conseguisse ler seus pensamentos.
Então abruptamente me virou para o convés, abraçando-me por trás. Valgor, um dos homens que trabalhavam com as velas, ria, comentando com Terrence que, de costas, eu bem poderia passar por uma mulher, com meus cabelos compridos e rubros. Filho de uma vaca gorda, foi o que pensei.
“Eu já havia falado antes que ninguém tem a permissão de tocar na minha boneca inglesa. Estão proibidos de admirar a bunda dele quando acham que ele não está olhando. Isso–“ Santiago apertou em cheio uma de minhas nádegas, arrancando-me uma exclamação de susto, enquanto eu corava profusamente perante seu discurso infame. “Também pertence a mim.”
Santiago sorriu, enquanto os homens gargalhavam de seu tom pilhérico.
“Oh, bastardo egoísta!” Gritou um, igualmente xistoso. Percebi que era isso que os piratas precisavam: de uma distração ignóbil para lhes acalmar os ânimos do problema negro que se aproximava por céu e água; mas isso não me impedia de estar furioso.
Eu tentei falar, xingar, me soltar, mas Santiago previu isso e, num movimento ágil e gracioso, me girou e roubou-me um beijo, segurando-me pelas costas e inclinando-se para frente até que eu estivesse próximo do chão; meus cabelos arrastando na madeira suja da proa e minhas mãos se segurando firme nele pelo medo de cair. Os piratas aplaudiram e assobiaram, e talvez me odiassem menos agora que eu fora novamente humilhado, como eles acreditavam que era o mais justo.
Por um breve momento, eu esqueci da minha situação e retribuí ao beijo faminto do Santiago, sentindo a língua dele instigar a minha com toda uma violência sexual que era parte de seu perfil. Mais um pouco e eu acabaria perdendo o juízo, como sempre acontecia quando sentia o calor de seu corpo invadindo ferozmente o meu, e fiquei aliviado quando ele me puxou de volta e parou o beijo, permitindo-me respirar. Eu o olhei, ofegante, e o silêncio reinou, pois todos esperavam minha reação, inclusive Santiago.
E o capitão ou estava perdendo o tato, ou ficando prepotente demais, pois se curvou, arfando, após receber um soco nas costelas que arrancou o ar de seus pulmões. Ele era forte, mas eu não era uma maldita boneca, ou donzela indefesa. Enquanto descia os degraus que me levariam de volta ao convés, olhei para Santiago e sorri de lado, sob o som das palmas, risadas e assobios dos tripulantes.
Para minha surpresa, Santiago sorriu torto em retorno, seu sorriso debochado; mas eu sabia que, agora, o resto de sua vingança viria em dobro.
XxX
Quando a chuva despencou, foi com uma força assustadora. O vento chegou antes dela, ainda mais intenso, e cavalgava pelos ares tentando rasgar as roupas do corpo, e a vela dos mastros. Cheguei a temer ser carregado, mas meu coração parou de verdade quando o Labareda começou a oscilar, sendo jogado de um lado para o outro pelas ondas agitadas.
Era caótico.
O som da tempestade, dos raios que trouxeram os trovões despencando dos céus até atingir a água, das ondas tentando rachar o casco do navio a cada segundo, jogando esguichos sobre todo o convés, algumas vezes criando um véu sobre nossas cabeças que nos cobria por inteiro antes que a água nos encharcasse com um banho salgado.
Gritávamos ordens, e elas eram confusas, misturando-se aos sons da fúria da natureza, e as nuvens pareciam crescer segundo após segundo como se algum deus vingativo jogasse-lhes fermento, tornando-as negras e esfomeadas.
Homens manejavam as velas, talvez uns trinta deles, para mantê-la na direção correta, pois nossa única esperança era içar as velas principais, apontar o lado direito do navio contra o vento e deixá-lo ir à deriva até passar a tempestade.
“É um tufão de vento!” Gritavam.
“Firme! Firme!” Outros.
Havia os que corriam com baldes, para livrar o convés e o deque da intrusão perigosa da água que poderia nos afundar se não fôssemos rápidos. Eu me segurava, com medo de ser carregado pelas rajadas de vento, ou jogado para fora nos momentos em que o navio quase virava, como que pronto para ser engolido pelo oceano em fúria, que buscava seu prêmio.
Meu corpo inteiro tremia, ensopado e enregelado, sendo castigado pela chuva torrencial que também tapava minha visão. Devo ter feito alguma coisa em meio a toda confusão, pois me lembro de Garuda me arrastando para ajudá-los, porém eu estava tão atordoado pelo caos que nos engolira, que minha mente não registrou muito, além dos sons retumbantes e da confusão de imagens.
Mesmo assim, minha cegueira não me impediu de ver quando uma onda gigante começou a se formar em frente ao Labareda. Meu queixo caiu e meu coração explodiu no peito, exaurindo-se tão forte passou a bater. Iríamos morrer. Aquele destino funesto havia reservado aquilo para nós. E tudo que eu consegui pensar naquele momento foi no Santiago sozinho na proa, conduzindo o navio com seus braços musculosos, que mantinham o timão no lugar.
Eu me soltei de onde estava e corri o mais rápido que pude em direção à pequena escada que me levaria até ele. O navio inclinava para frente, subindo lentamente em direção à destruição. Escorreguei no chão molhado enquanto corria, caindo de frente no chão, batendo o queixo e rasgando a bochecha por dentro, mas mal senti a dor, ou o gosto metálico de meu sangue. Me levantei, aos escorregões, e continuei correndo, oscilando um pouco, mas conseguindo alcançar os degraus, onde pude me segurar às grades na lateral.
Assim que subi o último degrau, vi Santiago enfrentando a onda como um rei que não teme as verdades e consequências da vida. Vê-lo assim, tão confiante e firme, de certo modo passou-me confiança também e, pela primeira vez, agradeci silenciosamente por ele ser tão arrogante e prepotente, pois apenas alguém com essas características enfrentaria aquilo com uma expressão feroz e decidida.
“Santiago!” Gritei, mas sabia que a probabilidade de que me escutasse era baixa. Corri até ele em praticamente um pulo e, antes mesmo que o alcançasse de fato, ele me puxou para seus braços, colocando-me entre ele e o timão.
“Abrace-me.” Pediu. “E não olhe para frente.”
Eu o obedeci, sem pestanejar. O abracei com força enquanto sentia o navio cada vez mais na vertical, de modo que Santiago precisou usar toda sua força para nos manter junto ao timão. Eu não queria admitir, mas estar nos braços dele naquele momento me passou uma sensação de segurança inexplicável, como se eu pudesse enfrentar mil ondas hercúleas se estivesse junto a ele, e elas não passariam de marolas insignificantes.
Quando estávamos bem no topo, Santiago me beijou, cheio de um desespero que não se transmitia em seu rosto, mas que eu podia sentir no sabor de sua saliva. Eu o beijei de volta e nem por um segundo quis afastá-lo, talvez morresse beijando-o, e então o gosto da morte não seria tão amargo. Cristo santificado! Eu estava ficando maluco. Estreitei-o ainda mais em meus braços e retribui ao beijo como se tentasse sugar de Santiago sua coragem e força.
E então senti que o navio voltara a ficar na horizontal. Que o Labareda estava inteiro e nós ainda estávamos vivos. Me afastei, vendo-o sorrir para mim, e acabei por sorrir também, com a felicidade daqueles que sobrevivem à certeza de morrer.
Voltei a abraçá-lo, escondendo o rosto em seu pescoço molhado.
“Bastardo.” Resmunguei. “Aposto que adorou ver-me com medo. Pode jogar em minha cara agora aquilo que falou antes de embarcarmos. Eu realmente não sabia o que era o medo de verdade.”
“Pelo contrário. Agora que o conhece e sobreviveu a ele, ganhou mais valor do que antes. De hoje em diante irei escutar teus latidos com um pouco mais de atenção.” Ele brincou, mantendo o olhar em frente. Eu ergui o rosto e o encarei com as sobrancelhas erguidas.
Ainda não havia acabado. Continuávamos em meio à tempestade, mas eu já não sentia o mesmo medo de antes, não quando ele sorria tão perto, rindo daquelas ondas e do castigo do vento e da chuva, que já era ligeiramente mais branda, permitindo-me enxergar melhor os arredores. Voltei a beijá-lo, segurando seu rosto antes de deslizar as mãos para seus cabelos repicados, cuja raiz massageei com a ponta dos dedos. Santiago me pressionou contra o timão quando outra onda bateu na lateral esquerda da proa e jogou água salgada sobre nós dois.
Porém me enganei ao imaginar que logo tudo acabaria. O mastro, com toda a vela, tremia à fúria da tempestade, provando a sabedoria da prática de navegar com mais de um mastro, já que um deles, para meu espanto, quebrou-se perante meus olhos quando cessei o beijo e olhei por cima do ombro do Santiago. Ele se virou também, ao perceber minha expressão de espanto e o som funesto de madeira quebrando e estalando, e gritou ordens para que salvassem o que restava do mastro e da vela, mas tudo era uma grande confusão no convés, pois a madeira do mastro, se caísse por completo, poderia quebrar o casco e deixar a água entrar até nos afundar.
E a distração de Santiago foi suficiente para que as cordas elásticas que o ajudavam a controlar o timão se soltassem e o timão começasse a girar feito um cata-vento em um dia de vendaval. O navio girou, perdendo o equilíbrio e a potência, e eu acabei indo ao chão e deslizando pela madeira encharcada novamente. Temi cair no mar.
Porém meus olhos se perderam no que acontecia no convés.
O giro fez o mastro quebrado rodar e atingir parte dos homens, antes de se projetar para fora do navio. Enquanto Santiago lutava para recolocar as cordas no timão, meu coração falhava ao ver Terrence dependurado no mastro, com suas pernas pendendo para o mar revolto, cujas ondas eram como línguas tentando alcançá-lo e devorá-lo. Ele poderia cair e ser tragado a qualquer segundo.
Eu devo a vida ele. Pensei, sentindo meu peito doer tão rápido voltara a bater.
Então levantei e corri, novamente.
“Dominic!” Ouvi Santiago gritar, mas não parei. Corri para o convés, para aquela confusão de homens, água, madeira partida e velas vibrando ao vento e cheguei à borda do Labareda – o mais próximo que pude de Terrence.
“Seu filho da puta idiota, como não se abaixou quando o mastro girou?!” Gritei, perguntando-me o que faria.
“Vá pro inferno, boneca inglesa. Queria ver se você teria se abaixado!” Ele gritou e eu quase não pude ouvi-lo, o vento levando seu latido para longe.
Me virei para os homens.
“Não há como puxar o mastro de volta?” Gritei.
“Não há como! Se mexermos, ele vai despencar. Só nos resta sustentá-lo para que não destrua parte do casco!” Respondeu-me Garuda, que comandava os homens daquela porção.
Eu me voltei para Terrence e percebi que, muito provavelmente, seu braço direito estava quebrado, pois ele não conseguia mais se sustentar e estava escorregando.
“Eu vou subir no mastro e ir até aí. Aguente firme!” Gritei com a garganta arranhando, mais pela minha loucura, do que pelo frio que fazia os ossos congelarem. “Mantenham o mastro firme!” Gritei para Garuda e os outros.
“Dominic! Não! Santiago me matará se eu permitir-“ Garuda tentou falar, mas então eu já subia no mastro e engatinhava para fora da parca segurança do navio. Meu estômago revirou quando vi o mar se insuflando sob mim, negro, cruel e faminto, e me obriguei a não olhar diretamente para baixo uma segunda vez.
“Dominic! Seu louco de merda! Volte para lá!” Terrence exigiu, antes de começar a soltar inúmeros palavrões, em sequência.
“Guarde seu fôlego para voltar para o convés comigo, idiota!” Avisei e prendi o fôlego ao vê-lo descer mais alguns milímetros, quase caindo. Acariciei meu anel, em busca de consolo.
O mastro sacudia e eu usava a estreita escada dele, que por sorte ficara voltada para cima, para me segurar e não cair. Em alguns momentos o vento jogava meus cabelos pesados em meu rosto, e eu precisava tirá-los de meus olhos, o que me assustava com a possibilidade de apenas uma mão não me segurar caso uma onda maior me atingisse.
“Dominic! Dominic, seu estúpido, o que está fazendo?” Olhei para trás e vi Santiago. Como ele havia deixado o timão sozinho, eu não sabia e nem queria entender. Eu estava bem perto de Terrence agora e ignorei o capitão, estendendo o braço para meu amigo. Terrence se segurava numa das ramificações do mastro, de uma madeira mais fina que parecia prestes a quebrar. “Dominic, volte!”
“Não! Ele salvou minha vida antes, Santiago!” Gritei e senti a mão de Terrence envolver meu antebraço, enquanto eu envolvia o dele.
“Louco de cabelos vermelhos, é isso que você é!” Terrence resfolegou, adquirindo uma expressão de dor, porque eu provavelmente segurara seu braço quebrado.
“Dominic!” Ainda ouvi Santiago gritar, em desespero.
Porque fora em vão.
A chuva ainda castigava meu corpo e o vento ajudou nossa queda quando uma onda, não gigante, mas poderosa, atingiu a popa do navio. O choque balançou toda a estrutura e eu fui jogado para frente. A madeira era escorregadia e lisa, de modo que pude sentir cada ponta de meus dedos perdendo-se dela, antes que a gravidade se tornasse uma inimiga e nos puxasse, tanto eu quanto Terrence, para as águas famintas que nos aguardavam alguns metros abaixo.
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