Notas iniciais
MUITO obrigada às lindas RayUzu e Hamano Chiaki pelas recomendações! Amo muito! ♥

Também vejo três meninas,
Debaixo de um laranjal
uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas,
Está no meio a chorar — .
– Todas três são minhas filhas,
Oh! Quem mas dera abraçar
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar -.

Acordei com o canto das sereias.

Achava que o som, melodioso e suave, fosse parte de um sonho distante, ou um chamado para o paraíso – se eu ao menos merecesse o paraíso quando morresse. Mas então aos poucos fiquei consciente do gosto salgado em minha boca, do sol que chegava em luzes avermelhadas e borradas através de minhas pálpebras e da água gelada cujo som era uma serena canção de ninar conforme avançava e regredia, molhando minhas botas e parte de minhas calças.

Foi quando notei que a cantoria não estava em meus sonhos, mas flutuando através da brisa do mar para chegar aos meus ouvidos adormecidos e alcançar meu inconsciente. Lentamente abri os olhos, cegando-me por um momento com a claridade intensa que banhava a praia. Uma praia? Meus pensamentos voltaram a mim como o vendaval em meio àquela tempestade infernal. Mas o que diabos...! Eu havia caído junto com Terrence e sido engolido pelas ondas traiçoeiras daquele mar amaldiçoado. Como em nome de Cristo eu continuava vivo?

Comecei a tossir assim que encontrei forças para me erguer um pouco, espalmando as mãos na areia. A cantoria feminina parou, e eu vomitei um pouco de água, bile e sal sobre a areia. O mundo rodou, e era como se eu estivesse com a pior das ressacas. Eu poderia ter bebido todo o rum que havia a bordo do Labareda, e minha cabeça não estaria querendo me matar daquela maneira.

“... Pela primeira vez eu me sinto um inglês cagado.” Sussurrei para ninguém, tossindo mais um pouco antes de olhar ao redor. Não encontrei nenhuma viva alma por perto, o que me aturdiu. Eu podia jurar que aquela cantoria não era algum tipo maluco de alucinação. Ou ao menos eu esperava que não fosse; do contrário, eu estaria pior do que me sentia.

“E cagado pelo cu de um cavalo.” Complementei, com um esgar torto nos lábios.

Mas, pelos sete infernos! Eu estava vivo.

Havia uma ilha ali, ou eu achava que era uma, e eu estava na baía dela, pois a costa tinha formato de meia-lua. Havia rochedos negros, com o cume coberto por vegetação rasteira, próximos da beira-mar, erguendo-se das águas como icebergs de pedras; alguns deles, inclusive, se chocavam com os da própria ilha. As areias da praia eram brancas e avançavam até a vegetação densa a alguns metros da água, cuja coloração era uma mistura de azul-claro e tons esverdeados. O lugar enchia os olhos e seria mesmo paradisíaco; se eu não estivesse sozinho, molhado e prestes a vomitar novamente.

“Ou vivo por enquanto...” Voltei a resmungar ao me colocar sobre as duas pernas, sentindo-as um pouco instáveis. O que eu faria numa ilha deserta? Eu mal sabia como sobreviver num navio pirata, o que dirá em um lugar selvagem com... Criaturas selvagens! “Ugh...” Soltei quando um arrepio me percorreu ao imaginar todas aquelas criaturinhas nojentas da selva – serpentes, sapos, aranhas, escorpiões, baratas d’água, grilos, mosquitos. Ah, a lista não acabava nunca!

Isso se não existisse ali algum animal grande o bastante para me devorar inteiro, ainda vivo.

Mas não havia escolha. Me pus a caminhar à contragosto, e pensava que talvez houvesse sido melhor ter morrido afogado heroicamente do que definhar feito um náufrago naquela ilha estranha no meio do nada. Pensei em muitas coisas enquanto caminhava sentindo o sol tostar minha pele salgada, principalmente sob os olhos – minhas bochechas pareciam em carne viva e o sol sequer estava muito alto.

No fim, Terrence havia morrido de qualquer maneira; eu nunca mais veria minha querida Londres, ou meus amigos de lá – James e Helena –, e meu pai, que eu às vezes odiava, principalmente quando ele me xingava e repreendia, mas agora até disso eu já sentia saudades.

Também pensei em Nena, que eu havia aprendido a considerar como amiga, e todos os outros malditos flibusteiros. Lembrei até mesmo de Jaima e Estevan querendo matar-me e depois agradar-me, ou de Reno com suas conversas afáveis.

Pensei principalmente em Santiago e na forma como gritou meu nome quando eu estava caindo.

“Mas que merda...” Não me aguentei sobre minhas pernas e me amparei em uma das rochas que permeavam a beira da praia. Respirei fundo, mas não adiantou, acabei deixando algumas lágrimas caírem, como um garoto estúpido, sentimental e fraco. “Que o diabo carregue a todos.” Rosnei com uma raiva dirigida a mim mesmo. Não iria ficar chorando feito um palerma quando ainda estava vivo!

Eu podia contornar a praia, ou explorar a ilha. Algum navio poderia passar por ali eventualmente, e quem sabe eu fosse resgatado antes de ser devorado por uma cobra gigante. Tentei fingir que a possibilidade me enchia de determinação, e até enchia um pouco, mas minhas pernas devem ter achado a ideia idiota, pois não quiseram voltar a funcionar, e eu fiquei ali sentado, observando as ondas calmas quebrarem de leve na praia.

“Agora vocês são calmas e pequenas, suas bastardas.” Xinguei-as, ressentido.

No mesmo instante em que soltei um suspiro, pude ouvir o som de um resmungo, ou o ressonar de quem começa a acordar depois de dormir por muito tempo. Meus olhos se arregalaram e eu me virei, deparando-me com a continuação da praia, apenas, mas ao avançar engatinhando sobre as pedras, acabei por encontrar a fonte daquele ruído engasgado.

“Terrence!” Exclamei de queixo caído. O filho da mãe também estava vivo! Apressei-me até ele, descendo as pedras e o virando, já que ele estava batendo o corpo contra o rochedo toda vez que as ondas do mar o atingiam. “Merda de ratazana do mar! Resolveu ser útil e dar algum valor à minha tentativa de salvá-lo? E eu achando que havia me livrado de você.”

Terrence sorriu mostrando os dentes amarelados. Um deles havia sumido da arcada superior, deixando um buraco que não ajudava em nada a melhorar seu sorriso; não duvido que fosse por culpa de alguma pancada que levara em meio à confusão da tempestade.

“Sabe o que dizem...” Ele falou roufenho, a voz fraca. “Vaso ruim não quebra.”

“Eu sei que merda flutua na água, também.” Retruquei.

“Deve ser por isso que você está tão inteiro.” Retorquiu ainda sorrindo, mas acabou por tossir e, dessa vez, uma golfada viscosa de sangue escurecido abandonou seus lábios. Ele virou o rosto, quase se engasgando com aquilo. “Ah, eu preferia ter sido almoço de Oggin¹, a morrer com as tripas cortadas.” Ele resmungou, tentando se levantar, mas caiu novamente e gemeu dolorido. Percebi que ele apertava a lateral da barriga, e borrões vermelho-enegrecidos manchavam sua roupa molhada.

“Você se feriu?” Perguntei abismado, pois não me lembrava daquela ferida quando ele estava dependurado no mastro. Mas eu também não estava prestando muita atenção no bem estar físico dele naquela hora. Estava mais ocupado em me equilibrar e apenas tentar puxá-lo para cima.

“Meu braço está quebrado... E minhas tripas devem estar sangrando enroladas umas nas outras. Parece que posso morrer a qualquer momento.” Terrence cuspiu sangue da boca e fez uma careta, pois parte do sangue grudou-se em sua barba. “Ah, mas a vaca leiteira da minha mãe ficará contente. Sempre me quis morto, a vagabunda.”

“Quanto amor materno.” Zombei, e não havia nenhuma memória de minha mãe para encher minha mente naquele momento. “Não consegue levantar?”

“Dominic... Mais um pouco e eu vomito meus pulmões, e você quer que eu caminhe?” A voz dele saía a cada segundo pior, e ele mais grunhia do que falava – mas isso era algo normal para Terrence. Ele fazia um esforço desgraçado para articular cada sílaba, mas não parecia preocupado.

“Saia logo da minha frente e me deixe morrer em paz como deveria ter feito antes, sem esses teus horríveis cabelos vermelhos para me assombrar... Só me diga antes... É importante...” Ele fez um gesto fraco para que eu me aproximasse dele, e eu o fiz, deixando meus ouvidos próximos de sua boca. “Todos os ingleses são um fracasso quando tentam bancar o herói?”

Eu me afastei o encarando com os olhos estreitados, vendo-o tentar rir, mas ele acabou por tossir e voltar a se engasgar no próprio sangue. Realmente... Eu tentando bancar o herói? Que piada. Eu não me lembro de ter cometido algum ato heroico antes. Talvez a tempestade houvesse afetado algo no meu cérebro, ou, do jeito que eu estava assustado, a merda houvesse subido para a cabeça em vez de descer. Só que o importante no momento não era isso, mas sim o que eu iria fazer agora? Não podia simplesmente deixá-lo para morrer, ou ficar ali até que ele terminasse de se esvair em sangue! Um nó estrangulou minha garganta, e eu nem ao menos consegui dar a ele uma resposta à altura.

“Maldito seja, Dominic... Não fique aí me olhando com essa cara de puta sem dinheiro. Eu não preciso de piedade. Só preciso morrer em paz...” Ele grunhiu, finalmente soando um pouco desesperado com a ideia de morrer.

Se eu ao menos soubesse como usar o anel... Pensei, ainda olhando-o, E usá-lo sem colocar minha própria vida em risco.

Em certo momento, Terrence se cansou daquilo e fechou os olhos, ou talvez estivesse mesmo deixando a vida se esvair de seu corpo.

“Não!” Exclamei, acordando do meu estado letárgico. “Terrence! Não pode dormir.” Comecei a sacudi-lo, mas ele continuou ali jogado com os olhos fechados. Sua mão havia caído para o lado e agora o ferimento no abdômen estava exposto, revelando três cortes profundos. Pareciam feridas feitas por garras, e isso não fazia o mínimo sentido. No entanto sangue escorria dali, e eu precisava fazer alguma coisa que não apenas encará-lo tal qual um padre esperando a morte para oferecer a extrema-unção.

Tirei meu colete e camisa e prendi-os juntos, e com dificuldade passei o tecido ao redor do abdômen dele, amarrando-o com força para pressionar a ferida. Depois disso me aprumei e, meio agachado mas com um pé firme na areia para me erguer, puxei Terrence pelos braços. Um urro saiu da minha garganta quando o coloquei nas minhas costas e usei praticamente toda a força que me restava para esticar as pernas com aquele peso dobrado. Cristo, como eu queria ser mais forte! Santiago faria aquilo rindo, mesmo se estivesse no mesmo estado deplorável em que eu me encontrava.

“Certo...” Falei, vendo que a praia terminava a alguns metros em um paredão de rocha que se projetava curvo para o mar. “Um passo depois do outro.” Disse a mim mesmo, tremendo. Teria de entrar na mata e contornar aquele paredão. Talvez, com alguma sorte – se a vida finalmente parasse de cagar sobre a minha cabeça –, haveria algo do outro lado.

E não estou falando de predadores e selvagens comedores de gente. Ou de porcos... Terrence pesava mais do que um leitão gordo e rosado.

XxX

A mata era densa naquela ilha, e verde, de um verde tão intenso que, quando atingido pelo sol, lançava um reflexo forte que incomodava os olhos. Havia coqueiros espalhados por entre outras árvores que eu não saberia chamar pelo nome, mas o que me incomodava eram os galhos e troncos escondidos por baixo da vegetação rasteira. Vez ou outra eu enganchava meu pé e quase caía com Terrence por cima de mim. Seria letal, sem dúvidas, aquele peso todo sobre minha cabeça esmagaria meu crânio. Mas por sorte não caí e continuei avançando. Um pé, mais um, mais um passo, outro. Eu já quase chorava de tanta dor das costas e exaustão nos braços e nas pernas. Meu corpo inteiro tremia e a sede me devastava.

Houve um momento em que parei, encostando-me por alguns segundo a uma árvore e pensei em largar Terrence até me recuperar. Mas sabia que se parasse, eu demoraria horas até conseguir me mover de novo, e apenas se conseguisse, e duvido que eu conseguiria erguer Terrence novamente. Eu precisava de água... Tinha certeza de que havia bebido uns goles de água salgada e me desidratado até a alma por causa disso.

Leroy havia me dito há muito tempo, quando eu ainda era uma criança, que beber muita água do mar poderia matar. Estávamos em um dos navios do Rei, e meu pai tentava me explicar um pouco sobre a vida de um capitão corsário, porém meu olhar distraído acompanhava o voo rasante de uma gaivota enquanto eu quase me dependurava sobre a borda do navio ainda atracado no porto para olhar o horizonte. Engraçado como essas memórias voltam nos momentos mais inesperados.

“Ah, graças...” Um suspiro de alívio deixou meus lábios quando cheguei a um suave declive que me levaria até um lago cristalino entre pedras, onde uma cachoeira de pequeno porte desembocava. O cheiro de água doce atravessou minhas narinas, assim como o barulho sagrado da queda d’água e, em passos trôpegos e apressados, eu caminhei até a margem do lago. Era largo e aparentemente profundo, pois as águas eram azul-escuras e não era possível divisar o fundo.

Larguei Terrence na margem e caí de joelhos perto da água. Minhas mãos formaram conchas e bebi até sentir minha barriga inchar e toda a sede desaparecer. A sensação era única, como beber o néctar da vida – e não a água provavelmente suja de um lago. Ouvi um ruído atrás de mim e vi que Terrence havia acordado, abrindo ligeiramente as pálpebras pesadas.

“Guarde um pouco para mim, pirralho egoísta.” Terrence sussurrou, e eu percebi que havia me colocado à frente de um enfermo. Eu sou mesmo um bastardo egoísta, pensei. Mas não iria admitir isso. Coloquei a cabeça de Terrence no meu colo e levei minha mão em concha até os lábios dele repetidas vezes, e ele bebeu com a mesma avidez com que eu havia feito.

“É melhor que não morra agora.” Avisei quando ele ficou cansado demais para beber outro gole. “Não depois de eu te carregar até aqui nas minhas costas. Provavelmente terei problemas de coluna pelo resto de minha vida a partir de agora.”

“Você adora um drama...” Terrence não deu muita importância ao que eu falava. Coloquei uma mão sobre a testa dele e percebi que queimava em febre. “Mas obrigado...”

Me afastei antes que ele morresse em meu colo, pois não iria aguentar ter um morto nos meus braços. Eu não era forte, ou frígido a ponto de me sentir indiferente com um amigo definhando bem à minha frente. Eu gostava de torcer os lábios e fingir que muitas coisas não me afetavam, quando afetavam. Mas a morte não era algo que meus fingimentos alcançassem. Me apoiei contra uma pedra e levei a mão até meu estômago, sentindo-me enjoado, mas felizmente não voltei a vomitar. Havia um pássaro cantando alegremente ali perto, em harmonia com os sons tranquilos da mata, e minha vontade era de atirar no inconveniente com asas.

“Há alguém morrendo aqui, seu idiota!” Gritei e me sentei sobre a pedra. Meu Deus, como eu era patético – brigando com um pássaro. “O que eu faço agora?” Murmurei para mim mesmo, escondendo o rosto entre as mãos. E senti o anel. O maldito anel que deveria me ajudar a curar as pessoas! Tentei tirá-lo, num acesso de raiva. “De que você serve, sua grande porcaria, se não vem com manual?!” O anel continuava preso ao meu dedo, como que fincado em minha carne, e os olhos de rubi da caveira brilharam parecendo zombar de minha tentativa.

Eu voltei para perto de Terrence, ajoelhando-me ao lado dele. Ele havia voltado a dormir e a respiração que saía por sua boca era baixa, arranhava na garganta. Coloquei as mãos sobre o machucado dele e comecei a me concentrar, até mesmo sussurrar idiotices como “Cure-se!” ou “Cure-se, bastardo!” ou até mesmo “Cure-se, seu filho de uma vaca leiteira que pariu um leitão-“ E os xingamentos continuavam incansavelmente.

“Não vai funcionar assim, garoto curandeiro.” Até que essa voz fez com que eu pulasse para trás, caindo de bunda no chão com meu coração transformado uma orquestra de bumbos.

Meu queixo caiu. Havia uma garota no lago. Uma garota!

“O quê...?” Eu estava bestificado demais para falar, até porque ela era incrivelmente bonita e delicada. Os cabelos eram loiros e curtos, e os olhos de um verde envidraçado, hipnótico. Isso sem contar que ela não vestia nada e seus pequenos seios desnudos e molhados estavam à mostra.

“Você não sabe usar o anel?” Ela perguntou, aproximando-se da margem e se apoiando em uma pedra com os braços cruzados sobre a rocha graúda. Piscou docemente para mim, olhando-me com interesse. “Eu e Dione te salvamos lá no mar porque achamos que você poderia curar nossa prima. Esse daí estava junto e o trouxemos também. Você estava desmaiado, mas esse daí tirou uma faca das vestes e tentou matar a Dione, então ela afundou por acidente as garras na barriga dele... Eu deveria ter ficado de olho em vocês, mas me assustei quando você acordou.” Ela corou e abaixou o olhar. “Não conte nada para a Dione, por favor. Ela ficará furiosa.”

“Você... Cantando...” Balbuciei. Não podia... Não, era demais. Sereia? Uma sereia? Meus olhos se pregaram na grande cauda que surgiu atrás da garota, balançando-se enquanto ela falava num tom infantil e angustiado.

“Você ouviu? Você gostou da minha voz?” Ela abriu um sorriso largo e encantado e ergueu o corpo com as mãos espalmadas na pedra, deixando todo seu torso à mostra: os seios comprimidos entre os braços finos e os bicos rosados eriçados, a barriga lisa e delineada e... A junção entre sua forma humana e a grande cauda de peixe feito de escamas brilhantes de vermelho e amarelo. Abri a boca, chocado demais para responder, e deveria estar parecendo ainda mais patético do que quando discutia com o pássaro.

“Eudora, pelos sete mares, pare de se oferecer dessa maneira para o humano!” Uma voz firme invadiu os ares e outras duas mulheres... Digo, sereias, apareceram. Uma carregava a outra, que parecia fraca e branca demais, com os lábios arroxeados e olhos apagados. Ela lembrava dolorosamente minha melhor amiga em Londres – Helena –, devido a seus cabelos feitos de uma cascata de fogo e lábios em botão de rosa.

“Não estava me oferecendo, Dione.” Eudora murmurou encabulada, após encolher-se por trás da pedra. Dione parecia a mais velha das três, mas não deveria ter mais de vinte e cinco anos. Era toda feita de tons escuros: longos cabelos castanhos e lisos, pele ambarina e misteriosos olhos amendoados.

“Você é o portador do Terceiro Anel.” Os orbes herméticos de Dione recaíram sobre mim, ignorando os lamentos baixos de Eudora. Eu assenti, ou acho que assenti. Estava perplexo demais com aquilo para esboçar reações coerentes. Você tem um anel que cura as pessoas com o toque, sereias não são nada perto disso – falou uma voz na minha mente. “Sabe usá-lo?”

“Eu...” Eu queria muito falar que sabia e não me sentir um inútil que não conseguia salvar nem o próprio amigo quando havia a chance, e tampouco capaz de curar a sereia quase desacordada nos braços da outra. “Não, mas...”

Dione suspirou, claramente irritada.

“Então te salvamos à toa. Você tem uma dívida conosco e acredite quando digo que não é bom para um homem do mar ter uma dívida com sereias.” Suas palavras cortaram o ar como navalhas, e ela nadou para deitar a sereia ruiva na margem do lago.

Eu me aproximei um pouco, mas apenas um pouco, pois as sobrancelhas de Dione se apertavam uma contra outra, expondo sua aura carregada e hostil. A cauda da ruiva era alvejada, translúcida, com escamas que brilhavam como pérola e pareciam deixar seus cabelos rubros ainda mais escarlates e berrantes quando caídos sobre o branco. Olhando-a de perto, ela era idêntica à Helena, até mesmo as três pintas sobre o nariz eram iguais. Como poderia ser? Meu coração se contraiu por completo e eu estendi a mão para tocá-la no rosto pálido, mas Dione a afastou com um tapa.

“Ela é...”

“Igual a alguma mulher querida para você.” Dione completou, surpreendendo-me. “Parténope tem uma aparência diferente a cada homem ou mulher que a mirar, e isso é capaz de brincar com a mente de qualquer pessoa. Mas ela não é quem você quer que ela seja, curandeiro.” Dione alertou asperamente. Eu ergui o olhar para ela e vi como estava na defensiva. Era uma mulher feroz, em cada traço, cada expressão e cada brilho dos olhos obscuros.

“Como você sabe sobre o anel?” Perguntei, e ela me encarou em desconfiança.

“As sereias sabem.” Eudora falou, ainda meio escondida por de trás da pedra. “Foram elas que-“

“Quieta, Eudora!” Dione virou-se para a pequena loira que soltou um gritinho e mergulhou na água, sumindo de vista. “Este anel que você carrega é um dos quatro anéis cunhados por entidades antigas. Estiveram mortos por um bom tempo, simples anéis que a nada serviam, além de espalhar sua feiúra pelos mares do Caribe... Até o momento em que a irmã da maldade se ergueu dos mortos em busca de vingança. Neste dia, várias de nós morremos, e várias de nós enfraquecemos... E continuamos a morrer, pouco a pouco, pois os anéis sorveram a energia da terra e do mar para voltar à vida.” Dione encarou-me, e deveria achar que eu era um dos culpados. “Nos primórdios, os anéis foram cunhados com sangue de sereia, e por isso eles sugaram nossa energia novamente. Não haveria como não sabermos sobre eles...”

Esqueci todas as minhas dores, ou meu anjoo ao escutar aquilo. Existia apenas a curiosidade; a necessidade de descobrir mais sobre aqueles anéis místicos. Meu coração acelerou pela impaciência e excitação. Eu finalmente não estaria completamente no escuro, enquanto Santiago e os outros cochichavam conspiratórios pelos cantos.

“Fale-me o que sabe sobre eles. Talvez isso possa me dar uma dica de como usar o anel em meu dedo.” Pedi.

Dione permaneceu em silêncio, olhando-me até as profundezas da minha alma em busca de alguma traição, falsidade ou desonra. Me mantive firme perante à análise, mas em algum momento acabei por me irritar com tanta desconfiança.

“Sou, ao que parece, sua única chance de salvar sua amiga. Eu quero fazer isso. Quero salvá-la, e quero salvar também meu amigo. Então, por favor, me ajude.”

Por alguns segundos, os sons da natureza foram minha única resposta e a expressão endurecida de Dione não mudara em nada, sequer um piscar de olhos, ou um tremer dos lábios. Houve um ‘vuumf’ quando vários passarinhos ergueram voo, em uma revoada ordenada, e Terrence soltou um resmungo, aliviando-me por ainda estar vivo.

“São quatro anéis. O Primeiro Anel para o líder – chama-se Hê, e é aquele que não é surpreendido pelo infortúnio, nem atormentado pelos desastres, ou vencido pelos inimigos. Porém Hê só brilha com poder quando reunido com os outros três. O Segundo Anel é Vô, e ele sabe a razão do passado, do presente e do futuro. O Terceiro é Zain, o seu anel, e este possui o segredo da ressurreição dos mortos, a cura de doentes perante o toque e o controle das tempestades.”

“O quê?!” Eu a interrompi com uma exclamação perturbada. “Está dizendo que eu poderia ter controlado aquela maldita tempestade que me jogou ao mar e ainda destruiu parte do navio do Santiago?” Só podia ser brincadeira.

“O Terceiro Anel é poderoso, curandeiro. Não mais do que Hê, pois este controla todos os demais, e por isso é o mais perigoso... Mas grandes feitos podem ser feitos com Zain.” Disse Dione, imperturbável.

Resmunguei alguns palavrões. Eu precisava aprender logo a dominar este anel de caveira deselegante.

“E o Quarto Anel?” Perguntei, após amargar aquela informação.

“Caph é talvez o mais mesquinho dos anéis. Seu poder é mudar em ouro não só os metais, mas a própria terra, e até as imundices da terra. Porém, ele também é capaz de dar a seu portador a habilidade de conhecer à primeira vista o fundo da alma dos homens.”

“Oh, esse é um anel interessante...” Murmurei irônico, mas imediatamente me calei devido à maneira feroz com que Dione me encarou ao bater sua cauda em tons de ônix e vermelho resplandecente contra a água, criando uma onda que varreu todo o lago e alcançou com força a margem oposta. “Eu estava apenas brincando.” Rolei os olhos.

“A ganância dos homens não tem limite.” Disse Dione. “Zain é um anel de trocas. Não pode ressuscitar um, sem entregar outro em seu lugar. E não pode curar ninguém sem oferecer energia para tal ato. Nada é feito sem transformação de energia em ação, ou pensamento. Ela flui em tudo, e é para ela que vamos quando morremos. Somos parte dessa energia, estamos em equilíbrio com ela, e seguimos conforme seu fluxo. Se esse equilíbrio se perde, todo o resto se perderá em uma corrente de desgraças.”

Ela soava agourenta. Esse foi meu primeiro pensamento; porém, depois, comecei a pensar sobre aquilo, fechando os olhos e me concentrando. O anel havia tirado minha energia em troca de salvar o Santiago da morte. Mas a energia estava em tudo, em equilíbrio... E apenas precisava ser movimentada. E um estalo pareceu vibrar toda minha mente. Quando perguntei à Raiska como usar o anel, ela jogou um raio de brumas sobre mim, e me mostrou a tempestade com toda a força e cólera que apenas a natureza poderia ter. A natureza...

“Eu sei o que fazer.” Ergui a cabeça. Minha voz saiu mais confiante do que eu me sentia, mas de alguma forma, eu sabia. O anel vibrava em meu dedo quando me aproximei de Parténope e, dessa vez, Dione não afastou-me com um tapa. Eu coloquei uma mão sobre a cauda da sereia, sentindo-a fria e lisa sob minha palma, como passar as mãos sobre um vidro molhado. A outra, coloquei suavemente sobre a superfície tranquila do lago; enquanto Dione se afastava, dando-me espaço.

Demorei um pouco para acalmar meus pensamentos. ‘Concentre-se’ uma voz sussurrava em meus ouvidos e, de olhos fechados, eu já não sabia se ela estava em minha mente, ou se vinha carregada pelo vento. Não sei dizer quantos minutos se passaram, mas nesse tempo eu me sentia cada vez em mais contato com a vida e a energia que tremulava ao redor. A água, a terra sob a grama e no fundo do lago, o vento que murmurava e agitava as folhas das árvores e meus cabelos, e o calor do sangue correndo por baixo das escamas de Parténope. Estava tudo ali, em perfeita harmonia, em um fluxo que percorria as veias e artérias invisíveis do universo.

Mas agora eu iria desviar uma dessas rotas.

Foi completamente diferente do que aconteceu quando salvei Santiago. Não houve agonia e nenhum grito brotou em minha garganta. O anel brilhava, eu sabia que brilhava, intensamente, mesmo de olhos fechados, mas minha energia vital não se alterou e garras não se cravaram em mim para puxar minhas forças para fora de meu corpo. Nada. Apenas uma sensação agradável de calor, subindo por um braço, passando pelo meu coração para fazê-lo dar uma batida mais forte, e voltando a descer pelo outro braço, até Parténope, extinguindo-se de meu corpo pela ponta de meus dedos.

Soltei um suspiro, sentindo-me bem e até mesmo contente, como nos sentimos após alguma atividade agradável e prazerosa. Quando abri os olhos, Parténope estava sentada na margem, olhando para Dione com confusos olhos azul-cobalto, mas seus lábios eram rosados agora e sua pele ganhara a cor de um pêssego maduro. Dione aproximou-se e a abraçou com força, e pude ver que ficava mais bonita com um sorriso no rosto.

“Obrigada...” Ela sussurrou por cima do ombro de Parténope. “Use bem o anel, curandeiro, pois eles carregam o sangue das sereias e, mesmo que eu saiba que você não é o culpado disso, este sangue está em suas mãos agora. Salve quem buscar por sua ajuda, e quem sabe essa dívida será paga. A dívida que você tinha comigo... Esta você quitou.” Assim que ela terminou de falar, pulou com Parténope de volta para água e desapareceu sob a imensidão azul-noturna do lago.

E isto aconteceu no exato momento em que sons de botas esmagando grama, folhas secas e galhos finos chegaram aos meus ouvidos, junto com vozes humanas. Me virei, assustado, mas todo o susto morreu quando eu reconheci os cinco homens que surgiram no alto da cachoeira, iluminados pelo sol forte que escurecia seus rostos. Lá estavam Santiago, Noel, Katana, Jaima e Estevan.

“As sereias não mentiram. Ora, isso é algo raro.” Santiago falou, antes de sorrir.

“Yo-ho-yo-ho!” Estevan saudou, e talvez estas fossem as palavras únicas palavras que sabia articular.

Puxei o ar até encher meus pulmões e o soltei lentamente, permitindo-me apreciar pela primeira vez o ar puro daquela ilha.

Porque eu estava salvo, assim como Terrence.

Notas finais
¹Oggin - Mar Excerto no começo é do poema Nau Catrineta. ;) Capítulo mais tranquilo, depois do último, mas sei lá, gosto dele, porque finalmente descobre-se mais sobre os anéis, e o Dominic aprende a controlar o anel dele (e também gosto de sereias, rs)! Espero que tenham curtido! :D MUITO obrigada por todas as reviews gente! Foram tantas! *olhinhos brilhando* Meus agradecimentos a: Kao, MianaAzevedo, Light List, PaulinhaKawaii, KassiaKarolayne, Helo unleashed, Sally Black, Flying Cupcakes, Denny, Bruna Uzumaki, Srta Laila, Dakota Phantom, Hanajima, Nath, Nishan, RayUzu, Nandacullen OCorcelNegro, carlacascao, dark rose, Cherry Hitsugaya Lollipop, Persephone, Mary Winchester, menina dos olhos, Mariana, Gabhy_hina_chan, lili5247, Dominique, lari_thekiller, Okumura Yui, Dilikilol, TheAnjoRaphael, Nayara Caroline, Álefe, Hamano Chiaki, Rin, Ryouji Shaoran, Diana R Barros, Bia Yuuji, Sakura hime, Poke Face e Maika! Agradecimento especial para a Hamano Chiaki e lili5247 pelos comentários ao longo dos capítulos! *_* E até o próximo que, espero, não demore a sair (estou falando com a minha própria inspiração aqui kkk!) Beijos, gente linda e cheirosa ;****