Mar De Fogo

3 Orgulho Ferido


Notas iniciais
Vocês são demais! Obrigada pelos comentários!

Eu tinha certeza de que Santiago entendia muito bem o que meus frequentes olhares em sua direção significavam. Se olhares cheios de ódio matassem, Santiago já estaria morto há muito tempo, boiando naquele mar azul, servindo de comida de peixe. Mas tudo que eu recebia em resposta às minhas tentativas de assassinato era uma expressão debochada e divertida no rosto do capitão. Claro, não era ele que estava de quatro no chão, esfregando a sujeira da cabine.

“Você não tem nada melhor para fazer, do que ficar aí, com essa cara de idiota, cuidando o que estou fazendo?” Soltei de repente, no meu tom mais ácido, para logo em seguida me arrepender amargamente de minha ousadia. Não estava muito tentado a ter a ponta de uma faca pressionada contra minha garganta outra vez.

Porém, para a minha surpresa, Santiago apenas entortou ainda mais seu sorriso cafajeste e fitou-me cheio de diversão. É, eu era o palhaço daquele navio.

“Na verdade, não. O mar está calmo, os homens estão felizes com a quantidade de ouro e prata que roubamos do seu navio, e seu pai realmente não veio atrás de nós... Quem sabe ele não ficou até feliz em livrar-se de você?” Ele perguntou em tom jocoso, sem diminuir seu sorriso.

Rangi meus dentes, apertando o esfregão em minha mão até que os nódulos dos meus dedos ficassem brancos. Meu Deus, como eu o odiava! Por tudo que ele fizera comigo, com meu pai, por destruir a minha vida e ainda olhar para tudo isso com extrema diversão.

“Eu deixei você escapar...” Murmurei, ajoelhando-me e o encarando friamente. Eu sentia como se ele estivesse em débito comigo. Eu poderia ter avisado os guardas de sua fuga, mas eu fiquei quieto, principalmente por achar que nunca mais o veria na vida. Mas lá estava eu, limpando o chão de seus aposentos.

Ele cravou os olhos castanhos penetrantes em mim, a expressão novamente séria, quase inexpressiva. Não deixei que ele me intimidasse e mantive meus olhos azuis desafiadores sobre ele. Pareceu-me que ficamos nos encarando em uma guerra muda antes que ele desviasse o olhar, com descaso.

“Não sei do que você está falando.”

Desgraçado! Como ele poderia ser tão cara de pau assim? Fazia apenas um dia que ele fugira daquele navio e ele obviamente se lembrava de mim. Assim que consegui recolocar meu queixo caído no lugar, levantei num pulo, meus olhos faiscando de indignação, e aproximei-me alguns passos de onde ele estava sentado, meus ombros rígidos, na minha melhor postura ameaçadora.

“Eu deixei você escapar! Eu poderia ter avisado os guardas, mas deixei você ir. E como você me recompensa? Trazendo-me para o seu navio sujo e fedorento para trabalhar como um maldito criado!” Eu estava fora de mim. Era como se, agora que eu estava frente a frente com o culpado pela ruína da minha vida (sem que ele estivesse armado), tudo que estava se revolvendo dentro de mim explodisse como um vulcão finalmente desperto.

Ele me encarava com aqueles olhos castanhos vívidos que diferiam tanto de sua máscara dura e fria, mas eu não conseguia decifrar aquele brilho obscuro. Ele poderia estar pensando com qual movimento ele me mataria mais rápido, ou poderia estar considerando as minhas palavras, eu nunca saberia. “Você é mesmo um pirata ignorante, bastardo, filho de uma-“

“Você não quer completar essa frase, garoto.” Ele se levantou também, sua altura se sobrepondo à minha; porém, isso não me fez recuar. Foda-se. Minha vida já estava um lixo. Eu não teria mais conforto, regalias, mulheres fáceis, noites desperdiçadas em bordéis e festas, vinhos, teatros, música de boa qualidade, roupas decentes. Tudo que me restava era um balde e um esfregão. Minha mão agiu por vontade própria naquele momento e pegou a adaga sobre a mesa do Capitão; adaga essa que eu nem ao menos havia visto até pôr as minhas mãos nela.

“Vá pro inferno!” Gritei e tudo aconteceu muito rápido. Eu tentei acertá-lo com a adaga e a lâmina cortou o tórax de Santiago, rasgando sua camisa e criando uma linha diagonal em seu peito de onde o sangue começou a escorrer como chuva numa estátua de mármore. Eu hesitei ao ver aquela cor vermelha manchar a pele e a camisa branca que ele usava, ao mesmo tempo em que o cheiro metálico preenchia o ambiente ao redor. Mas não fora profundo. Santiago pulara para trás quando minha mão descera sobre ele, fugindo da lâmina que se cravaria em seu peito se ele não houvesse sido rápido o suficiente.

Eu me aproveitara da certeza dele de que eu não teria coragem e audácia suficiente para atacá-lo, mas ele subestimou a raiva dos homens. Eu nunca tentei ser corajoso, admito, mas, como eu já disse, eu não estava sendo corajoso, apenas estúpido, deixando-me guiar pela minha cólera, que agiu em mim como um cavalo raivoso; eu larguei o freio, o ardor converteu-se em violência e, em seguida, minha cólera estava esgotada pelo esforço, minha mão tremia e meus olhos estavam arregalados.

Então Santiago se aproveitou de minha perplexidade.

Avançou para cima de mim como se o corte em seu peito não o afetasse em nada (e não duvidei que ele já não houvesse passado por coisa pior) e segurou meu pulso, torcendo-o junto com meu corpo. A adaga caiu de minha mão e meu braço estava preso em minhas costas, e ele poderia quebrá-lo com o mais suave dos movimentos.

“Você está testando a minha paciência, garoto.” Ele alertou e eu soltei um gemido miserável de dor.

“Você arruinou minha vida. Arruinou minha vida.” Choraminguei e fechei os olhos com força, obrigando-os a se manterem secos. Não iria chorar na frente dele, mesmo que já sentisse toda a minha dignidade devastada, e as palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse contê-las. “Então me mate agora! Eu quebrei a sua segunda regra. Acabe logo com isso!”

Eu tentei me soltar, mas ele me virou de frente para ele outra vez e segurou meu queixo com um aperto tão forte que achei que minha mandíbula sairia do lugar. Seus olhos chisparam como ônix derretido, e imaginei que essa fosse a última visão dos homens que ele matava.

“Acabar logo com isso? É isso o que você quer? Quer ser jogado no mar e ser engolfado pouco a pouco pela morte? Sentir seus músculos cedendo e o mar o tragando para seus braços? Seu pulmão se enchendo lentamente de água, enquanto você tenta puxar o ar, asfixiado; sua agitação atraindo tubarões, que rasgarão a sua carne como se ela fosse feita de espuma... É isso que você deseja? Ou será que prefere morrer lentamente, cuspindo sangue, sufocando, gritando de dor e desespero depois que eu cortar a sua garganta com a ponta de minha espada?” Ele inquiriu, com raiva. Eu me perguntei por que diabos ele se importava, por que não colocava em prática suas ameaças de uma vez. Mas ao mesmo tempo meu coração bombeava em meu peito com mais força do que nunca; medo se espalhando pelo meu rosto com as palavras frias e duras de Santiago. Engoli em seco e não falei nada. “É isso o que você quer?” Ele insistiu, enfático, apertando ainda mais o meu rosto.

Soltei um murmúrio de dor e neguei, encolhendo-me, minhas defesas, minha sempre presente petulância se esvaindo, e um sentimento esmagador de impotência me atingindo como um soco, um soco que doeria menos se fosse físico. E droga, eu estava chorando. Eu era um maldito garoto mimado de dezoito anos, Don Juan, boa vida, irresponsável, arrogante. E estava chorando.

Santiago me soltou e olhou-me por um instante, mas minha cabeça estava baixa e eu observava os pingos caírem dos meus olhos e se chocarem contra o chão de madeira, formando pequenas poças escuras.

“Eu teria conseguido escapar, mesmo se você tivesse aberto a boca.” Falou Santiago, sua voz mais branda do que segundos atrás. Soltei uma risada abafada de escárnio, mas não falei nada. Vi sua forma intimidadora passar por mim, dirigindo-se à porta. “E termine de limpar esse chão.” Ele completou e ouvi o barulho da porta abrindo e fechando.

Suspirei, olhando desolado para o nada, meus ombros caídos. Então me ajoelhei, peguei o esfregão e continuei a limpar, começando pelas manchas de minhas lágrimas na madeira.

Eu era patético.

XxX

“Qual o seu problema?” Foi a primeira coisa que Nena gritou assim que pôs os olhos em mim. Olhei-a com a minha melhor cara de descaso e continuei atravessando o convés. Percebi que ela me seguiu, estalando suas botas no chão de maneira escandalosa. Desci as escadas, mantendo minha expressão fechada e indiferente e ignorando os olhares assassinos que ela me lançava. Sério, eu não tinha um momento de paz dentro daquele navio.

Quando larguei o balde e o esfregão no lugar onde Nena antes os pegara, ela enfim resolveu abrir a boca em vez de ficar tentando me dar uma grande lição de vida com sua óbvia indignação.

“Qual a parte de ‘ele não vai matá-lo a não ser que você lhe dê algum motivo’ você não entendeu?” Ela perguntou, furiosa. “Você cortou o peito dele! Tentou matá-lo! Eu deveria chutar as suas bolas nesse exato momento!”

“Bem, parece que temos uma boneca perigosa a bordo, huh? Cuidado com ela.” Falei, sarcástico, sem me alterar. Ela disfarçou uma risada, mas então voltou a me olhar irritada.

Não tem graça. Você tem miolo mole, só pode. Idiota.” Ela balançou a cabeça e já parecia estar mais calma. “Vem, vou lhe mostrar onde você vai dormir.”

“Por que você acha que ele não me matou?” Perguntei, enquanto andávamos pelo corredor sujo e mal iluminado abaixo do convés. Nena hesitou por um momento em responder, nervosa, mas depois suspirou e comecei a achar que ela era péssima em guardar segredos, ou ao menos não era uma boa mentirosa. Guardei essa informação com cuidado.

“Santiago é uma boa pessoa.” Ela declarou, ao mesmo tempo em que parava em frente à última porta daquele corredor. Deveriam ser todas de pequenos quartos imundos e simplórios.

Assim que ela entrou, vi que não estava errado. Não era tão sujo, mas era simples. Um beliche numa parede, um catre simples em outra, uma janela pequena que mostrava a água se perdendo no horizonte, e o sol riscando o azul do mar com violeta, laranja e amarelo, enquanto se punha. Um vento fresco entrava pela janela.

“Entenda, boneca, é muito mais fácil você matar uma pessoa quando você está em meio à loucura de um ataque e sua vida também está em risco, quando o inimigo não tem um rosto; do que matar essa mesma pessoa quando ela está indefesa numa cabine de navio.” Nena explicou muito seriamente, ainda que houvesse algo de estranho em seu tom, e então estendeu um braço apresentando o pequeno quarto. “Qué tal, diga hola para seu novo quarto! Aqui é onde eu durmo. Reno, nosso cirurgião, também dorme aqui. Você vai ficar aqui, porque, bem, eu e ele somos as pessoas mais amigáveis que você vai encontrar nesse navio por enquanto.” Ela me olhou com uma sobrancelha erguida, como um aviso de que ‘amigável’ não significava o mesmo que ‘amável’. Torci os lábios.

“Que seja.” Falei e subi no beliche, acomodando-me na cama de cima, visto que era a cama desocupada. Nena sentou-se no catre e ficamos em silêncio por um momento. Eu tinha muitas perguntas para fazer, mas não sabia como iniciá-las, então resolvi ser direto, começando pelas mais básicas. “Para onde estamos indo?”

“Tortuga.” Ela respondeu prontamente, e penso que estivera justamente esperando pelo meu interrogatório. “Descarregar o saque e... Gastá-lo, basicamente.”

“Tortuga?”

“Uma ilha pequena. Ilha de piratas, livre, regida apenas pelas leis da pirataria. É um ótimo lugar para beber um bom rum.” Nena sorriu pelo canto do lábio, jogando-se de costas na cama com as mãos atrás da cabeça. Eu nem queria imaginá-la bêbada. “Nenhum oficial do governo tem culhões para pôr os pés lá. O governador da ilha é um pirata; porém um pirata que tem contatos importantes e vende nossas mercadorias roubadas. Dependemos dele, pois nenhum saque é feito apenas de ouro e prata, então ninguém ousa desafiá-lo. Felizmente não é nosso inimigo. E há outros piratas poderosos que têm moradia em Tortuga. Não fixa, claro. O lar de um pirata é seu navio, mas todos nós precisamos de um descanso do mar vez ou outra.”

“E vamos ficar lá por quanto tempo? E depois, o que vocês fazem? Ficam navegando em busca de outras vítimas para saquear?” Perguntei, torcendo o lábio com desgosto, mas Nena fingiu não ouvir meu tom acusatório. Ela deu de ombros.

“Sí, basicamente. Santiago está juntando uma boa soma dedinheiro para comprar navios e contratar piratas de bom nível para lutar contra...” Nena parou de súbito, provavelmente percebendo que falara demais. Ela arregalou os olhos e pigarreou, olhando-me de esguelha como que analisando se eu dera atenção ao que ela estava falando.

“Contra quem?” Perguntei, não conseguindo impedir minha curiosidade. Pelo que entendi, aquilo era um segredo, e seria interessante ter um segredo de Santiago em mãos. Poderia ser útil para alguma chantagem futura.

“No importa. O que você precisa saber é que vai ter de trabalhar muito para ganhar algum valor dentro de um navio pirata. E seria útil se você fosse bom em luta de espadas. Não ache que vai escapar de participar dos eventuais confrontos com navios inimigos.” Ela avisou, enquanto tratava de tentar arrancar um naco de unha de um dos dedos. Ela definitivamente era um caso perdido.

“Eu sei me defender.” Resmunguei, apesar de saber que não era dos melhores. Santiago me dominara em questão de segundos na proa do navio de meu pai. Eu ainda apertava os punhos de raiva ao lembrar-me do episódio. Nena olhou-me com descrença, mas não insistiu no assunto.

Ela se levantou, dirigindo-se para a porta.

“Descanse um pouco. Logo teremos o jantar e você vai ser o responsável por lavar todos os pratos mais tarde.” Nena avisou, saindo rapidamente do quarto antes que eu pudesse me indignar novamente com minha situação deprimente de criado de mais baixo nível no navio.

Suspirei irritado e fechei os olhos, enfim resignando-me. Talvez em Tortuga eu descobrisse alguma maneira de voltar para Inglaterra.

XxX

‘Era só o que me faltava.’ Pensei com tremendo desgosto. ‘Servir de cozinheiro para esses fedorentos.’

O cozinheiro do navio chamava-se Pantoja, e era um sujeitinho intragável, grande e gordo, espalhafatoso e engordurado. Ficar cinco minutos na presença dele era querer arrancar todos os cabelos da cabeça. Havia outro garoto, loiro e pequeno, que ajudava na cozinha, mas ele sumira após me ver, deixando todo trabalho para mim. Moleque safado.

O jantar, assim como as outras refeições, acontecia em horários pontuais, em um salão fedorento anexo à cozinha. Todo aquele navio fedia, para falar a verdade, mas o que se pode esperar de um navio de piratas? Eu fiquei encarregado de ajudar Pantoja, servir os piratas, e mais tarde lavar a maldita louça, como Nena fez o favor de me avisar.

Eu continuava repetindo como um mantra que aquilo iria terminar em breve, que em Tortuga eu teria minha chance de escapar e voltar para minha antiga e doce vida. Então fiz tudo que me era ordenado com uma carranca fechada e mal-humorada.

“Hei, boneca, sirva-me um pouco da sua carne. Ouvi dizer que é bastante tenra.” Um dos piratas sacanas, o mesmo que já havia implicado comigo vezes antes, me ordenou com um sorriso malicioso enquanto estendia seu prato. Mas que porra de insinuação era essa? O cara era péssimo. Devia ter problemas para conseguir mulher, mesmo as porcas gordas.

Ofereci a ele um sorrisinho de desprezo enquanto colocava um pedaço de carne em seu prato. Olhei para Nena, sentada bem perto do capitão, no outro extremo da mesa. Ela piscou para mim antes de levar uma garfada de algo gorduroso à boca. Torci os lábios, e meu olhar se desviou para sua esquerda.

O capitão Santiago comia sério, em silêncio. Havia um homem ao lado dele, de cabelos igualmente escuros, amarrados em tranças desordenadas, olhos verdes, que conversava animadamente com ele, mas Santiago apenas concordava com a cabeça, sem dividir o entusiasmo do outro. Em algum momento, após Nena cochichar algo no ouvido do capitão, seus olhos castanhos se ergueram e se cravaram em mim.

Recuei um passo, por instinto, e desviei o olhar. Voltei para cozinha sem vontade de voltar para aquele salão.

“Ainda tem muita coisa para servir.” Pantoja avisou indicando outras panelas.

“Faça isso você mesmo, idiota.” Rosnei, e a besta bateu na minha cabeça com seu pano de cozinha, depois de me olhar de uma forma nada agradável. Bufei inconformado e peguei mais uma das panelas.

Assim que o salão esvaziou, eu fui até lá para retirar os pratos, limpar a mesa. A sujeira que aqueles piratas deixaram revirou meu estômago, e eu agradeci por não ter comido nada. Lavar os pratos foi ainda pior. Era quase impossível tirar a gordura das panelas. Devo ter levado horas esfregando tudo. Pantoja, o filho da mãe, foi dormir mais cedo, contente por ter outro pateta para fazer o serviço.

Caí exausto numa cadeira assim que terminei. Fiquei vários minutos ali, perdido em pensamentos, até resolver sair e ir até o convés, em busca de um pouco de ar fresco, e não o cheiro de gordura e sabão daquela cozinha. A noite estava límpida e bonita, com inúmeras estrelas no céu. Não havia estrelas assim em Londres, ou talvez em nenhum momento eu houvesse me importado em encarar o manto noturno como agora.

Suspirei cansado e me apoiei à borda do navio, olhando então para as águas negras.

“Achei que estaria dormindo a essas alturas.”

A voz fez com que eu me virasse de súbito e olhasse para a sombra alta logo atrás de mim. Era o capitão Santiago, quem mais? Meu dia não estaria completo sem ele para me atormentar mais uma vez. Ele se aproximou alguns passos, até que eu pudesse vislumbrar os contornos de seu rosto bronzeado.

“Estou surpreso. Achei que você não aguentaria sequer um dia. Mas aí está, ainda parecendo relativamente inteiro.” Santiago sorriu debochado ao cruzar os braços sobre o peito. Eu mordi a parte interna das minhas bochechas, esforçando-me para não xingá-lo.

“Eu vou sobreviver e em breve estarei indo para casa.” Avisei convicto, empinando meu nariz. Isso arrancou uma risada divertida do capitão.

“Pessoas sonhadoras não se dão muito bem por aqui... Mas admiro sua determinação, desde que ela não atrapalhe suas obrigações.” Ele caminhou até mim quando terminou de falar, e a aproximação repentina fez com que eu me pressionasse contra a borda do navio, segurando-me à madeira para não cair no mar.

Senti meu coração acelerar pelo nervosismo quando seu cheiro de maresia e suor encheu minhas narinas.

“É melhor você tomar cuidado para não andar pelo navio sozinho, principalmente à noite.” O capitão disse e sorriu cheio de escarnecimento, divertido com algo que apenas ele sabia. Estreitei os olhos.

“Por quê?” Perguntei por entre os dentes. Sabia que boa coisa não sairia da boca do maldito.

“Ah...” Santiago soltou em um meio ao sorriso e umedeceu os lábios antes de responder. “Porque alguns homens não querem esperar até chegarmos a Tortuga para pagar por alguma prostituta. Não com a boneca ruiva rebolando solta pelo navio.” Ele explicou calmamente.

Senti uma onda de raiva e ultraje atingir meu âmago. Apertei os punhos ao lado do corpo e travei o maxilar, soltando o ar pelo nariz de maneira furiosa. Depois respirei fundo, tentando me controlar. Minha vontade era acertar um belo de um soco no nariz afilado de Santiago.

“Sua presença no navio está causando um belo rebuliço entre meus homens.” O capitão se inclinou para perto de mim, apoiando uma mão na borda do navio ao lado de meu corpo. Eu o encarei diretamente nos olhos, desejando poder matá-lo com meu olhar.

“Eu não sou uma maldita mulher, ou boneca, ou o que for! Mande aqueles depravados ignóbeis enfiarem seus paus sujos na própria boca e...!“

E teria continuado por horas soltando um monte de palavrões. Mas isso se Santiago não houvesse se inclinado apenas um pouco mais e me calado com um beijo forte. Meus olhos arregalaram e eu tentei ir para trás, mas isso quase me fez cair para fora do navio. Santiago segurou minhas costas e impediu que isso acontecesse, pressionando-me contra seu peito.

Eu não podia acreditar que ele estava fazendo isso! Era óbvio que estava zombando da minha cara e afirmando que me considerava a mulherzinha do navio! Eu queria tanto matá-lo! Dar uma joelhada no meio de suas pernas e...!

“Ahn...!” Gemi quando o infeliz deslizou uma perna por entre as minhas e causou um formigamento por todo meu baixo ventre. Desesperei-me com isso, principalmente porque isso fez com que meu maxilar destravasse e ele pudesse enfiar sua língua áspera e feroz na minha boca. Eu teria mordido e arrancado a língua dele fora, se não fosse por ele ter segurado minha bunda e a apertado com vontade, o que não me permitiu pensar direito. Não porque eu tivesse achado bom! Não mesmo! Eu apenas estava em choque demais pelo ‘ataque’ repentino dele.

Ele se afastou abruptamente de mim, e eu quase caí no mar feito fruta podre pela falta de apoio. Me amparei na borda, respirando com dificuldade, sentindo que todo o ar da noite havia sumido. Ergui os olhos para Santiago assim que ele voltou a falar.

“Tem razão. É mesmo um homem, está confirmado.” Os olhos dele brilharam cheios de zombaria, enquanto eu o encarava em choque, prestes a ter uma síncope. “Pode deixar que garantirei isso para os outros.”

“Filho da...!” Eu tentei gritar, mas me engasguei em meu próprio ódio, enquanto Santiago me dava as costas e se afastava como se fosse o dono do mundo.

Bastardo!

Notas finais
Aí, só eu acho que o Santiago é bipolar? Poisé, ele é. HAHAHA! E bem abusado também!