Acordei na manhã seguinte com Nena me sacudindo.

“Acorda, boneca! Você tem que começar a trabalhar!” Ela me sacudia tanto que achei que meu cérebro sairia do lugar. Tirei suas mãos de cima de mim e tapei minha cabeça com o cobertor fedido e puído.

“Vá à merda!” Exclamei com mau-humor matinal, sentindo meus olhos pesados e meu corpo todo dolorido pelo esforço do dia anterior.

“Eu deveria mandar o Santiago te executar no convés por ser tão intragável!” Ela me cutucou com a ponta de uma adaga, fazendo com que eu me contorcesse para fugir da lâmina. A menção do nome do capitão fez meu estômago revirar de ódio ao me lembrar do beijo asqueroso que trocamos.

Ou melhor! Que ele me roubou! À força! Pois eu jamais teria correspondido àquilo. Jamais!

“DOMINIC! Saia dessa cama AGORA!” A voz de Nena foi tão estridente, que eu achei que minha cabeça iria explodir e meus tímpanos romperem. Com um resmungo inconformado, afastei os cobertores, jogando-os para meus pés e sentei na cama. Ao menos ela havia me chamado pelo nome.

Meus cabelos estavam um nojo, sebosos e embaraçados, e mais do que nunca desejei um banho. Esperava que em Tortuga eu tivesse a chance de fazer as pazes com um sabonete que não fedesse à banha de porco.

“Quando chegaremos em terra firme?” Perguntei erguendo-me com dificuldade. Eu deveria ter sido menos sedentário em Londres, talvez agora eu não me sentisse tão destruído. Mas em que universo eu poderia prever que acabaria num navio pirata há centenas de quilômetros de minha doce e libertina vida na corte?

“Em breve. Talvez hoje à noite, se os ventos forem favoráveis. Agora mexa-se! Eu não tenho mais tempo a perder com você.” Ela demandou ríspida, jogando um pedaço de biscoito roído para mim. “Você perdeu o desjejum.”

Ela saiu do cubículo que eles chamam de quarto e eu torci o nariz em suspeita para o biscoito duro, de aspecto mofado. Eu jamais colocaria aquilo na boca em circunstâncias normais, mas como eu já havia dispensado o jantar na noite anterior e meu estômago rugia de fome, fechei os olhos e engoli meu desjejum rapidamente, para não acabar vomitando.

Passei a manhã limpando os canhões e carregando armas. A princípio não sabia como fazê-lo, mas um rapaz de pólvora chamado Terrence me ensinou com uma careta de impaciência. Era mais baixo do que eu, cabeludo, meio atarracado e dotado de um nariz pontudo e torto, que provavelmente já fora quebrado. Tinha um olhar furtivo que me deu nos nervos.

“Então você é a boneca do navio.” Foi a primeira coisa que me disse assim que colocou os olhos em mim. Meu rosto queimou de raiva e despeito e tudo que eu queria era carregar uma arma e atirar no meio de suas fuças.

“Se você continuar a fazer essa cara de quem odeia ser chamado assim, aí sim que ninguém cansará de usar o apelido.” Ele resmungou, empurrando uma arma para mim e começando a me explicar como tudo funcionava no salão dos canhões.

Quando finalmente saí dali, foi para ir ajudar Pantoja a preparar o almoço. O outro serviçal na cozinha auxiliou também dessa vez, seu nome era Renoir, era francês e falava pouco, mas tinha mãos ágeis. O almoço foi uma gororoba regada à grogue, uma bebida composta basicamente por rum e juntada a várias especiarias e temperos. Acho que ajudava a carne estragada a descer melhor.

Depois de meus braços reclamarem ainda mais por eu ter de lavar todos os pratos, Nena apareceu e disse que eu poderia descansar um pouco depois de ajudar com os cordames do convés. Me arrastei até lá, querendo me jogar no mar e morrer.

Subi para o convés e de imediato o sol forte queimou minhas retinas claras, deixando-me cego por alguns minutos. Isso foi tempo suficiente para alguém me puxar e me segurar por trás, sem que eu tivesse tempo de me esquivar. Me ericei inteiro de asco quando o cheiro podre de alguém sem banho há dias encheu minhas narinas.

“Eu já ajeitei todos os cordames, boneca, justamente para que sobrasse um tempo só para nós dois.” Era a voz do ser insuportável que vinha fazendo piadinhas e insinuações para cima de mim desde que pisei pela primeira vez naquele convés.

“Vá queimar no inferno, idiota. E de preferência encontra o capeta para foder esse teu rabo sujo!” Me debati para me soltar, indignado por todos os outros naquele convés estarem simplesmente ignorando o assédio que eu estava recebendo. O problema é que o pirata idiota havia me arrastado para trás de um mastro mantido no lugar por cabos que nos escondiam de olhares distraídos.

“Eu vou te mostrar como se come um rabo até você implorar de quatro para que eu coma o teu todos os dias!” Ele rosnou irritado, tapando a minha boca e pressionando a lâmina de uma adaga contra meu estômago. Achei que ele fosse me furar, mas no lugar disso a posicionou para cortar meu cinto.

Eu tentei me debater, é lógico, já estava quase vomitando de tanto asco, mas o homem era no mínimo duas vezes mais encorpado do que eu e, além disso, ele estava armado. Só que eu não podia acreditar que seria estuprado em pleno convés! Era muita humilhação. Eu já estava para chorar de agonia sentindo a ereção do pirata contra meus glúteos, quando ouvi a voz salvadora.

“Paco! Largue-o agora!”

Nesse momento eu quis beijar a Nena e declarar todo meu amor por sua doce pessoa, mesmo que fosse uma baita mentira, mas eu definitivamente poderia canonizá-la depois disso.

“E se eu não quiser?” O tal Paco perguntou com desdém.

Os olhos de Nena brilharam perigosamente e ela caminhou até nós em passos rápidos, já tirando sua espada de lâmina fina e reluzente da cintura. Ela era baixinha e, quando sorria, parecia-se com uma menina travessa, mas agora impunha um respeito incrível ao apontar a ponta de sua espada para Paco.

“Se não quiser, vou cortar fora esse teu pau pequeno e enrugado e dar de comer aos peixes, ainda que seja provável que nem mesmo eles queiram colocar a boca nisso daí.” Ela cuspiu e ergueu mais a espada. “Agora largue-o, já lhe disse antes que ele é do capitão!”

Essa história de eu ser do capitão era a coisa mais viada que eu poderia escutar e certamente eu reclamaria da escolha de palavras mais tarde, mas no momento apenas assentia freneticamente, querendo que aqueles braços sufocantes me soltassem.

“Agora, paco!” Nena gritou ainda mais estridente do que quando me tirou da cama. Com um resmungo irritado, Paco me segurou pelos cabelos e aproximou meu rosto do seu. Seu hálito azedo nauseou-me quando sussurrou.

“A cadela não vai poder te defender a todo instante, boneca. Da próxima vez, te encontrarei em um lugar mais discreto.” Ameaçou e me empurrou, fazendo-me cair estatelado no chão de madeira. Meu sangue bombeava tão rápido pela raiva, que parecia retumbar em minhas têmporas.

“Isso não ficará impune.” Nena murmurou e olhou com desgosto para Paco, antes de correr até mim.

“Você está bem?” A preocupação dela me irritou ainda mais. Eu não era uma maldita donzela para ser quase estuprada por um brutamontes daquele, e depois ainda ter que aguentar um olhar cheio de comiseração.

Sem pensar – pois se eu pensasse, certamente desistira da ideia – eu agarrei o cabo da espada de Nena, levantando-me e a empurrando no processo. Meus olhos furavam as costas largas do pirata mais nojento de todos os tempos enquanto eu avançava até ele.

“Hei, seu grande covarde filho da puta. Foda essa espada já que não é capaz de encontrar uma boceta que lhe queira!”

Ele se virou, mas, foi tão rápido, que num instante eu estava berrando e, no outro, cravando a espada em seu abdômen cheio de músculos e, com todas as minhas forças, o empurrando para fora do navio.

Minha respiração estava pesada quando ouvi o som do corpo caindo na água. Só então percebi que havia matado um homem – o segundo homem que matava naquele maldito Caribe! – e pisei em falso para trás, chocado com meu acesso de fúria. Era se como eu houvesse descontado todo meu estresse e frustração arrancando a vida daquele homem insuportavelmente nojento.

“Dominic!” Nena gritou e eu me virei, vendo que vários outros haviam se aproximado ao perceber o que havia acontecido. Achei que Nena iria me xingar por matar um ‘aliado’, mas me enganei. “MINHA ESPADA! Você deixou minha espada cair junto com o corpo daquele imbecil!” Ela correu até o bordo do navio e se debruçou. “Era minha melhor espada!”

“Desculpe.” Sussurrei ainda em choque.

“O que está acontecendo?”

Merda. Foi a primeira coisa que pensei ao escutar a voz do meu odioso raptor. Fechei os olhos e apenas escutei os passos dele se aproximando do círculo que se formava ao meu redor.

“Ele matou o Paco!” Alguém gritou em acusação.

“O idiota até que merecia, era uma besta insuportável...” Outro sussurrou.

“Um prisioneiro de merda feito esse não tinha o direito de matar um dos nossos. Eu estava querendo matar aquele filho de uma vadia prostituta muito antes desse inglesinho cagado.” Cuspiu mais um.

A partir daí todo mundo começou a falar ao mesmo tempo, até que o capitão mandasse todos calarem a porra de suas bocas com uma voz que mais parecia um trovão. Foi quando eu arrisquei espiar por entre minhas pálpebras e dei de cara com Santiago parado bem à minha frente com a expressão séria.

“A pena por matar um companheiro de navegação é a perda do braço que empunhou a espada, garoto. Estava ciente disto antes de matar um de meus homens?” Santiago perguntou num tom rude que me fez estremecer. Instintivamente segurei meu braço direito sentindo dor só de imaginá-lo sendo decepado.

“Santiago!” Nena exclamou, dando alguns passos e interpondo-se entre nós. “Também é regra da pirataria que se algum homem for encontrado a seduzir ou a fazer sexo com outro homem, ou uma mulher a bordo do navio à força, sofrerá a morte. Paco estava agarrando Dominic à força!”

“Dominic,” Santiago praticamente cuspiu meu nome com desprezo. “é um prisioneiro, não um pirata. Essa regra não se aplica a ele.”

“As regras não fazem nenhuma distinção entre prisioneiros e piratas, falam apenas de homens e mulheres. Paco infringiu as regras.” Nena argumentou estufando o peito magro tentando impor eloquência em suas palavras. “Você não pode machucar Dominic e sabe disso.”

Santigo estreitou os olhos, olhando-me de alto a baixo, enquanto eu piscava tentando compreender por que ele não poderia me machucar. Senti um lampejo de esperança. Quem sabe ele planejasse pedir resgate ao meu pai? Isso me fez ficar mais calmo e pensar com clareza. E minha próxima atitude, apesar de estúpida, me pareceu extremamente lógica.

“Você também infringiu as regras!” Exclamei, apontando para Santiago com o rosto afogueado. “Pelo que fez ontem à noite!”

Santiago me encarou com os olhos ligeiramente arregalados, mas em seguida se recompôs, sua expressão transformando-se naquela de puro deboche cheio de um humor que apenas ele sentia.

“É mesmo? E o que eu fiz ontem à noite?” Perguntou com um sorriso malicioso. Prendi a respiração, olhando de um lado para o outro e reparando nos olhares atentos e curiosos para cima de nós. Meu rosto ardeu de vergonha e ultraje – jamais admitiria em voz alta para todos que ele havia me taxado de concubina beijoqueira na calada da noite.

“Você sabe o que fez.” Sibilei. Ah, como eu queria que olhares matassem! Santiago já estaria no fundo do mar servindo de comida de tubarão há muito tempo se a vida fosse minha amiga, e não uma vadia injusta.

Ele deu um passo em minha direção, de modo a me obrigar a cambalear para trás para manter uma distância segura entre nós. Seu corpo musculoso e sua altura sobressalente – é duro dizer – me intimidavam. Eu sentia que ele poderia esmagar meus ossos com a mão se assim desejasse.

“Por que não pega uma espada e tenta me punir então?” Seu sorriso tornou-se ainda mais odioso. Ele ainda duvidava que eu conseguisse matá-lo como fiz com o idiota do Paco! É claro que eu duvidava também! Mas não deixaria isso tão evidente. Estendi minha mão para Nena.

“Nena, me consegue outra espada.” Pedi firme, sem desviar meus olhos azuis de Santiago.

“Não seja burro, boneca, só peça desculpas e esqueça qualquer coisa que ele tenha feito contigo noite passada.” Nena sussurrou tentando, como sempre, ser a voz da razão. Acho que esse deveria ser o papel de um Imediato, quase um advogado do diabo, só por isso não a mandei à merda.

Bufei.

“Alguém pode me conseguir uma espada?!” Gritei. Só me alcançaram uma porque Santiago fez um gesto de permissão. Isso só conseguiu me deixar ainda mais fulo da vida. Ele continuava a tirar incansavelmente com a minha cara – agora mostrava a todos como eu não merecia um pingo de preocupação de sua parte. Sua expressão era a mesma de alguém que estava prestes a entrar numa brincadeira.

Os tripulantes do navio se afastaram, aumentando o círculo ao nosso redor, e eu apontei minha espada para o peito de Santiago. Eu me sentia mais ridículo do que um peixe desafiando um tubarão, mas não demonstrei isso. Minha expressão estava fechada e carregada com cólera. Iria mostrar que não era uma garota indefesa para que ele pudesse sair me agarrando sempre que quisesse tirar uma com a minha cara.

“Então, vai ficar só olhando, ou vai querer que eu arranque a sua espada e repita o que fiz noite passada?” Santiago sorriu torto. Trinquei meus dentes. Tinha como ele ser mais irritante? Não! Ele girou a espada com descaso, enquanto os homens ao redor riam, instigando-o a acabar comigo. “Pela maneira como está me olhando, eu diria que, como é mesmo que te chamam? Ah, sim, que a boneca se apaixonou.”

“Filho da puta.” Exclamei e avancei com raiva em sua direção, tentando cortá-lo.

Santiago rapidamente endireitou a espada e, dando um passo para o lado, desviou-se de meu golpe e bateu a parte chata da espada contra a parte de trás dos meus joelhos, fazendo-me cair sobre eles. Respirando fundo, me levantei e voltei a me virar para ele com a espada erguida, tentando ignorar as risadinhas e palavras de deboches que recebia, enquanto Santiago me encarava com aquele sorriso satírico. Sabia que precisava me acalmar; se continuasse irritado, repetiria o golpe amador e sem destreza alguma e tudo que conseguiria seria fama de boneca desengonçada.

“Vamos lá, garoto, é sua chance de me dar uma lição por atacar seu navio, roubar seu ouro e sua prata, humilhar seu pai e te usar como criado em meu convés. Se é só isso que você tem a me mostrar, acho que vou começar a fazer ainda pior.” Santiago sugestivamente ondulou as sobrancelhas.

Voltei a respirar fundo, tentando com todas as minhas forças ignorar sua voz grave e insuportável. Busquei me concentrar na lembrança das minhas aulas de esgrima e voltei a atacá-lo. Dessa vez ele não me ludibriou tão fácil. Nossas lâminas se chocaram numa sequência rápida de golpes – esquerda, meio, baixo, direita, cruzado.

Até que ele conseguiu jogar um golpe que cortou o cinto da minha calça.

O convés explodiu em gargalhadas estridentes quando minhas calças caíram até o chão. Meu rosto queimou de vergonha ao ver que até mesmo Nena quase caía no chão de tanto rir. Santiago ergueu uma de suas malditas sobrancelhas negras sorrindo largamente. Chorei de raiva enquanto me agachava para puxar as calças. Era o cúmulo da humilhação. Talvez eu devesse me atirar no mar e poupar a humanidade de minha deplorável existência.

“A boneca tem pernas mais bonitas que você, Nena.” Ouvi o homem de olhos verdes e tranças desordenadas, que conversava com Santiago no último jantar de maneira animada e íntima, falar para que todos escutassem.

“Não depilo as pernas que nem aquele ali, Dique.” Nena fungou.

“Eu não depilo as pernas!” Exclamei enfurecido. Eu não tenho culpa se nunca tive muitos pelos! Claro que eu não disse isso em voz alta. Seria suicídio social.

Não que minha popularidade por ali fosse muito alta.

Voltei a atacar Santiago para fugir da vergonha. De algum modo eu conseguira prender as minhas calças e esperava que ele não desse um jeito de arrancá-las novamente. Bastardo de uma figa, minha vontade era de enfiar minha lâmina em seu abdômen musculoso, mas eu sabia que seria morto pelos outros piratas se fizesse isso. Mas ao menos um corte... Um mínimo corte! Será que é pedir demais?

Eu desajeitadamente me defendia dos golpes dele. Agora Santiago invertera o jogo e era ele quem avançava contra mim, fazendo-me recuar a cada vez que nossas espadas se chocavam, transmitindo a força de seus ataques através de meu braço. Eu tremia e me esforçava para não cair novamente de joelhos. Outra explosão de risadas seguiu-se após ele girar o corpo e dar com a espada em cheio na minha bunda, arrancando-me um grito abafado. Olhei feio para ele enquanto massageava o local atingido.

Era inútil. Ele estava brincando comigo, nem ao menos lutava a sério e só queria me diminuir ainda mais frente a todos. Eu tentei atacá-lo com mais agilidade e força, mas, quando dei por mim, estava com as costas apoiadas contra o bordo do navio e Santiago lançava outro golpe que atingiu minha mão em cheio e fez minha espada, para minha grande decepção, voar longe.

Engoli em seco quando ele pressionou levemente a ponta de sua espada em meu peito. Virei o rosto e espiei a queda logo atrás de mim e tremi inteiro ao ver as ondas batendo contra o casco do navio. Posso jurar que vi a barbatana de um tubarão aguardando a segunda rodada de seu almoço – Paco tendo sido a primeira.

“Santiago!” Nena exclamou, num tom de ‘pare, já é o suficiente!’, mas o capitão se aproximou ainda mais de mim, mantendo a espada pressionada em meu peito e, a cada passo dele, eu tinha de me inclinar mais para trás a fim de não ser perfurado.

“Isso é o suficiente para você? Ou quer um pouco mais? Admito que achei bem proveitoso. Meus homens estavam precisando rir um pouco depois de tanto tempo no mar, comendo e dormindo mal.” Santiago disse acalorado. Seu corpo estava colado ao meu como uma muralha que poderia me empurrar para fora do navio com facilidade. E, para se divertir um pouco mais, ele comprimiu fortemente a ponta da lâmina em meu peito, me levando a quase cair ali de cima de tão para trás que precisei ir – meus cabelos pendendo em direção ao mar.

E eu teria caído se não acabasse vencido pelo medo – porque eu definitivamente havia visto um tubarão! – e fechasse minha mão em seu colete marrom sobre a camisa branca larga. Santiago ergueu uma sobrancelha, esperando minha resposta.

“É o suficiente, pirata idiota!” Rosnei baixo, porém sem conseguir esconder meu pavor de altura, mar e tubarões.

Ele sorriu indulgente e, abaixando a espada, enlaçou minha cintura e me puxou de volta, virando-nos para a plateia curiosa. Pensei em me debater e me soltar, mas fiquei chocado com suas próximas palavras.

“Ninguém tem a permissão de tocar nele, aqui ou em terra. Ele é meu prisioneiro e não a diversão de seus paus necessitados. Arrumem outro buraco no qual possam se enfiar.” Me apertou mais pela cintura, a ponto de me fazer arfar sem ar. “E voltem ao trabalho! Quero chegar a Tortuga ainda hoje para gastar o saque gentilmente cedido pela minha boneca.” Ele falou a última parte perto do meu ouvido. Fiz uma careta de indignação enquanto os homens vibravam, grunhiam ou cuspiam antes de começar a dispersar, voltando aos seus afazeres.

“Você pode me largar agora, imbecil.” Resmunguei mal-humorado.

“Se você continuar a me chamar de imbecil, idiota ou quais quer que sejam os outros adjetivos carinhosos que tenha na ponta dessa sua língua suja, vou cortá-la fora antes mesmo que você consiga pensar no próximo xingamento.” Ele falou tão perto do meu ouvido, com a voz baixa, rouca e ameaçadora, que eu não pude me impedir de estremecer suavemente. Precisava admitir. Ele sabia como fazer uma ameaça.

“Fradique!” Santiago chamou o de olhos verdes, largando-me. “Venha comigo, precisamos discutir alguns assuntos antes de chegarmos em Tortuga. E Nena, cuide do prisioneiro e, de preferência, pare de dar a ele tantas regalias.”

“Regalias?” Eu perguntei perplexo, e fui solenemente ignorado. “Que regalias você me dá?! Só falta me esfolar vivo de tanto trabalhar!” Olhei irritado para as costas largas de Santiago, que se afastava com o tal Fradique em direção à proa do navio. Nena me agarrou pelos cabelos e começou a me puxar.

“Você só me causa problemas, boneca. Tudo que eu peço é que você fique comportado e faça seu trabalho, mas não, você precisa sair seduzindo os homens com suas coxas e depois ainda resolve arrumar briga com o capitão, o melhor homem no uso de uma espada no Caribe!”

“Nena, me solta!” Falei, sendo arrastado com ela até as escadas que levavam à parte inferior do navio.

“Dessa vez você vai limpar todos os quartos do castelo de popa. Ou melhor, vai limpá-lo inteiro e, se a água e o sabão acabarem, vai usar essa sua língua solta para lamber a sujeira! Arrê!”

“Isso é injusto! Primeiro porque eu não seduzo e nem quero seduzir nenhum desses piratas fedorentos!” Exclamei desgostoso e soltei um muxoxo manhoso. O castelo de popa é o nome da superestrutura localizada na ré do navio, com grandes janelas, talhas, lanternas, e onde fica boa parte dos quartos, além da cozinha e do salão onde eram servidas as refeições. Era enorme. Eu morreria de velhice antes de limpá-lo inteiro.

“Injusto é eu ter de te aturar!” Nena resmungou, ainda que seu tom não estivesse completamente desprovido de carinho. Ela tinha um jeito engraçado de demonstrar afeição. Ou talvez eu apenas gostasse de acreditar que ela simpatizava comigo. “Terrence vai te ajudar. Vou procurá-lo.”

Ela, felizmente, largou meus cabelos e foi atrás do outro rapaz de pólvora que também servia de criado de bordo.

“O que está esperando?” Gritou sobre o ombro. “Vá agilizando e comece a limpar já. Quero isso pronto antes de chegarmos a Tortuga. Ou mejor! Só vai poder descer do navio quando tudo estiver brilhando!”

Grunhi, passando as mãos pelo meu rosto sujo de fuligem preta dos canhões e armas, e fui atrás de balde, água, esfregão e sabão. Ao menos em breve eu poderia descer para terra firme e tentar encontrar uma maneira de voltar para casa. Eu precisava parar de me lamentar e tentar pensar com clareza – sempre fui bom com as palavras e com facilidade convencia as pessoas a fazerem o que eu queria. Claro que ter dinheiro de sobra nos bolsos sempre ajudou, mas agora eu precisava me virar sem isso.

“O ouro do Santiago é meu. Ele roubou de mim...” Resmunguei comigo mesmo, já quando passava um rodo com um pano molhado no salão usado para as refeições.

“O roubo é a única coisa que nós piratas temos de estável nesses mares instáveis.”

Quase pulei de susto ao escutar a voz agourenta. Me virei e me deparei com Terrence, mais carrancudo do que nunca com seu pescoço curto e largo enquanto fumava um cigarro de palha. Seus cabelos pretos oleosos e cheios de nós e sua barba longa e desgrenhada me causariam nojo se eu não soubesse que os meus fios rubros deveriam estar ainda mais nojentos.

“Você apronta e aí eu sou obrigado a vir ajudar a limpar sua bagunça.” Ele resfolegou, soltando uma baforada antes de sumir.

Reapareceu pouco depois com um balde e outro rodo e começou a me ajudar.

“Não gosto de fazer esse tipo de trabalho sozinho, mas isso não quer dizer que quero ouvir tua voz.” Terrence grunhiu.

Todos são tão simpáticos nesse navio, não é mesmo? Eu sem dúvidas teria me juntado aos piratas antes se imaginasse que seria assim tão divertido e agradável! (atentem para os níveis abissais de sarcasmo nessa frase, por gentileza).

“Ele me beijou!” Exclamei em justificativa. Não conseguia mais guardar isso apenas para mim, apesar de saber que Terrence provavelmente não se chocaria ou daria muita importância para o que eu estava dizendo. E não errei, ele soltou um bufo e mascou barulhentamente algo que deixava seus dentes amarronzados.

“Beijar Paco deve ter sido mesmo algo muito nojento, duvido que limpasse aquela boca podre. Acho que também o mataria se ele colocasse aquela língua asquerosa em mim.” Terrence cuspiu um cuspe enegrecido apenas para ter de limpá-lo depois. “Você fez bem em matá-lo, ganhou algum respeito, ainda que não muito.”

Resmunguei desolado.

“Mas perdi todo ao ser humilhado pelo Santiago depois.”

“Nem tanto. Qualquer um seria humilhado pelo Santiago numa luta de espadas. O homem parece que já treinava antes de sair da barriga da mãe. Alguns dizem que ele rasgou o ventre da mulher para sair de lá de dentro.” Cacarejou Terrence depois de uma risadinha.

“Isso é estúpido. E não estava falando do Paco. Estava falando...” Parei antes de completar. Era melhor não sair fofocando sobre isso, Santiago poderia se irritar e eu quem levaria bomba. Me resignei com um suspiro chateado, porém Terrence captou algo nas entrelinhas e parou, observando-me até que eu parasse também e retribuísse em questionamento seu olhar.

Ele mascou olhando-me de cima abaixo.

“Faz sentido.” Falou num resmungo.

“O quê?”

“Se você não estava falando de Paco, e desafiou Santiago por causa daquela regra que quase ninguém segue, então foi o capitão que te beijou. Você é um tipinho bonito, para um homem. Talvez ele tenha te raptado para usá-lo como seu novo amante.” Terrence voltou a esfregar o chão como se houvesse comentado sobre como as ondas do mar estavam mais calmas naquele belo dia.

Me engasguei com minha própria saliva.

“O quê?! De que porra você está falando? Eu não sou a merda de amante de ninguém, muito menos daquela pilha de estrume.” Gritei com a voz aguda e com os quase imperceptíveis pelos do braço eriçados. Tive vontade de tocar o balde com água na cabeça de Terrence quando ele deu de ombros, fungando.

“Santiago tem gostos... suspeitos. E homens estão incluídos nessa listinha. Todos sabem, poucos comentam, quase ninguém se importa, desde que ele continue sendo um capitão que não leva derrotas para casa e mantém o bolso de todos cheios com prata e ouro.” Terrence explicou, apoiando-se no rodo. "Em realidade, isso é algo comum. Digo, raptar garotos para que eles sirvam de putos. Vários piratas fazem isso, já que há essa superstição de que mulheres à bordo de um navio trazem má sorte, e nós ficamos muito tempo em alto-mar, sem uma boceta para aliviar as necessidades." Ele foi contando. Para quem não queria conversar, ele era bastante falante. “Até uns tempos atrás, você teria encontrado o Giulio nesse navio, um tipinho loiro de olhos cinzentos. Era um francesinho que sabia atirar bem e estava cansado de servir ao seu país, então largou tudo e ficou por Tortuga. Conheceu Santiago e ficou por dois anos nesse navio, até mostrar que era mais ambicioso do que sensato e mudar de lado para se juntar ao comandante Aguirre. Todos nós sabíamos que ele e o capitão dividiam a mesma cama, o que é uma merda, pois é na cama que a maior parte dos segredos de um homem é revelada.”

Meu nariz estava torcido e meu coração acelerado. Só consegui me acalmar ao pensar que, apesar do beijo, era óbvio que Santiago não havia me raptado para ser seu amante. Eu era um prisioneiro usado para evitar que meu pai perseguisse o que fora roubado de seus navios e exigisse vingança, apenas isso. E não era como se ele houvesse demonstrado algum interesse ao me humilhar repetidas vezes e quase me jogar ao mar para os tubarões. Pensei na superstição, e me perguntei se Nena havia sofrido muito preconceito no início. Provavelmente sim.

Voltei a limpar.

“Você tagarela demais para alguém que não queria conversar.” Externei meu pensamento para Terrence.

“Talvez suas coxas tenham me seduzido.” Ele zombou em retorno.

“Vá à merda.”

Suspirei, esfregando com mais força. Mais um dia em que eu continuava como serviçal, o que é uma verdadeira bosta. Mas o que posso fazer? Era o preço a pagar pela porcaria de comida que se tem a bordo e para não ser atirado aos tubarões.

Notas finais
Essas regras que foram comentadas nesse capítulo realmente existiam, apesar de eu ter encontrado isso na internet, e vai saber se é mesmo verdade. Mas achei interessante. hehe! . Tortuga também realmente existiu. Eu não sabia disso até começar a escrever essa história e ler sobre pirataria. . Obrigada por todas as reviews, vocês me emocionam! E também à Bia Yuuji e à Amai Hanamishiki HeeKyun pelas recomendações! . Até o próximo capítulo!