Mar De Fogo
9 O Terceiro Anel
Notas iniciais
Olhei o corpo estendido sobre a cama e me perguntei se ele ainda demoraria muito para acordar. Isso se viesse a acordar. Seria um desperdício caso aquele ruivo enfezado continuasse derrubado inconsciente naquele colchão. Apesar de me tirar do sério, na maior parte do tempo seus ataques e rosnados só conseguiam me divertir.
Isso sem contar que ele era um animalzinho selvagem com aparência de boneca que eu adoraria domesticar. Algo que vinha se provando bem complicado, já que ele havia tentado me matar por duas vezes até o momento; porém era justamente o desafio que me deixava com tanta vontade de mostrar a ele como iria adorar ficar de quatro na minha cama.
Desviei minha atenção da minha boneca desacordada ao sentir um toque suave no braço. Olhei para Nena, parada ao meu lado com uma expressão compreensiva e pouco animada. Eu sabia que ela gostava do ruivo, mesmo ele sendo uma coisinha rabugenta que reclamava de tudo a todo segundo. Madalena sempre teve esse problema – gostar e se apegar demais às pessoas.
“Já faz quinze dias. Talvez ele não acorde mais e nós só estejamos perdendo tempo. Já poderíamos ter partido para Chagres.” Eu disse, amargo. A espera me irritava, e irritava também os marujos. Havia homens fiéis, claro, especialmente aqueles que estavam comigo há mais tempo; mas, a cada volta à Tortuga, meus números estavam menores e eu precisava recrutar novos marujos, e marujos que não fossem uns completos inúteis que pensavam apenas no dinheiro do saque e pulavam ao mar se o perigo lhes parecesse maior do que a recompensa.
Era difícil achar bons homens naquela ilha infestada de imbecis, mas, principalmente, era difícil manter esses homens se ficávamos parados ali, esperando por nada. Até mesmo os mais fiéis perderiam a paciência. Fradique vinha reclamando que eu estava pensando mais com o pau do que com a cabeça, pois iríamos perder o apoio que havíamos conseguido há muito custo por estar esperando um prisioneiro acordar.
Por mais que Nena brigasse com meu irmãozinho sobre a importância de Dominic em nossos planos, ele não cedia. Fradique nunca havia acreditado que Nena pudesse, realmente, prever o futuro. E eu não o condenava por isso. Às vezes até eu não a levava muito a sério; porém depois de tantos acertos, eu seria estúpido se não começasse a seguir as intuições de minha imediata.
“Mas ele estava na minha visão, Santiago! Ele estava lá, quando eu vi a nossa vitória. E ele tem o anel e ela disse que precisaríamos dos quatro anéis para atingir nossos objetivos.” Nena falou aquilo pela, talvez, centésima vez e eu apenas acendi um cigarro enrolado na palha, tragando enquanto voltava os olhos para aquele garoto que deveria ter uma importância fundamental em meus planos, mas que nem eu, nem Nena, fazíamos ideia de como exatamente ele nos ajudaria.
Ele apenas estava lá, no futuro, onde minha vingança enfim sangraria terra e mar; e onde Madalena teria de novo a irmã em seus braços. Ao menos ela conseguiria resgatar quem havia perdido com vida. E se Nena insistia tanto que precisávamos dele, eu acreditava, pois seus motivos eram tão grandes e fortes quanto os meus.
Mesmo assim não pude me impedir de dizer:
“É mais provável que ele ferre com tudo. A boneca nos odeia.” Torci os lábios em um sorriso debochado, sem desviar os olhos dele. Parecia apenas dormir tranquilamente, com a respiração ritmada. Poderia acordar a qualquer momento, ou poderia nunca mais acordar, era o que Reno havia dito.
“Ele odeia você. E por que será? Por que você o deprecia, humilha e assedia sempre que tem a oportunidade, talvez? Não me admira que ele tenha tentado te matar, ainda mais quando você mesmo admitiu que estava para praticamente estuprá-lo.” Nena repreendeu, como sempre fazia. Era como uma irmãzinha mais nova, mas muitas vezes soava como uma mãe braba, o que sempre me leva a perguntar-me por que conto tudo para ela, inclusive coisas das quais sei que ela irá reclamar e recriminar.
Sorri, soltando lentamente a fumaça.
“Se você visse como ele fica duro quando o toco, não diria isso, bucaneira.”
Nena apenas bufou, balançando a cabeça, e foi até Dominic. Colocou a mão sobre a testa dele e afastou os cabelos vermelhos da pele suada. Até pouco tempo atrás, ele murmurava incoerências e suava frio, trêmulo, talvez preso em um pesadelo. Reno veio, deu-lhe algo para beber, colocou panos molhados na testa dele e, aos poucos, o garoto melhorou.
“Tenho o pressentimento de que ele acordará em breve.” Nena disse, envolvendo com a mão o camafeu preso à corrente em seu pescoço. Eu não gostava quando ela fazia isso: acariciava aquele negócio esquisito e dizia algo profético; nunca havia gostado muito dessas porcarias sobrenaturais... E agora, ironicamente, estava metido até a alma com elas.
Olhei o anel com a pedra vermelha em meu dedo e resolvi tirá-lo da mão por enquanto. O guardei no bolso e dei mais uma tragada longa em meu cigarro.
“Mais uma visão?” Perguntei. Nena se levantou e negou.
“No, apenas um pressentimento mesmo. Eu vou ir descansar, estou podre. Me chame se precisar de alguma coisa.” Ela avisou enquanto ajeitava a bandana em seus cabelos. Quando fazia isso, eu lembrava que era apenas uma menina – e que ela não me ouça chamá-la assim – de vinte e um anos. E, no entanto, Nena sempre era a mais madura de todos nós.
“Eu aviso, pequena.” Desarrumei seus cabelos da bandana apenas para irritá-la e fugi de um tapa que certamente levaria por isso. Assim que ela saiu, joguei meu cigarro pela janela e fui até a cama, sentando ao lado daquele ruivo genioso. Minha mão agiu por vontade própria e me vi afagando os cabelos embaraçados e úmidos pelo suor.
“Quem sabe você usa toda a tua teimosia para acordar e parar de gastar o meu tempo, o que acha?” Perguntei, inevitavelmente me sentindo estúpido por estar conversando com alguém desacordado. No entanto me surpreendi ao vê-lo começar a murmurar palavras ininteligíveis outra vez, virando o rosto para o lado como se repudiasse meu toque até enquanto dormia.
Olhei para aquele pescoço branco tentadoramente exposto e, sentindo meu pau vibrar de encontro à minha calça, me inclinei, deixando meus lábios próximos à orelha dele.
“Por que você não acorda para cumprir o que prometeu? Não pense que eu não ouvi você dizer que transaria comigo se eu acordasse. Ainda não estava totalmente morto e tampouco me esqueci... Pode apostar que vou cobrar.” Sussurrei e quase o senti estremecer.
Eu deveria apenas e simplesmente carregá-lo para o navio e zarpar mesmo com ele inconsciente, mas de novo Nena e Reno haviam assegurado que ele não sobreviveria se fosse para alto-mar naquele estado. Eu havia me resignado, mas se ele demorasse muito mais para acordar, eu o faria de qualquer maneira e, se morresse, ideia que no entanto não me agradava, os tubarões teriam carne inglesa no almoço. Com ou sem Dominic, eu teria a minha vingança.
Já havia esperado demais para perder mais tempo agora.
XxX
Respirar era como engolir navalhas e todos os ossos do meu corpo pareciam quebrados quando abri os olhos. Gemi sem conseguir me mover, pois o menor dos esforços exigia uma energia gritante. A dor me fez querer voltar imediatamente à abençoada inconsciência.
A primeira pessoa que vi foi Terrence. Seu rosto sobre o pescoço atarracado pairou sobre a minha cabeça e ele me encarou aparentemente surpreso por ver-me acordado.
“Por todos os corais dos mares, Dominic,” Ele falou com uma careta. “O diabo fez uma merda de serviço quando trepou com a tua mãe.”
Grunhi em resposta, sem nem mesmo conseguir mover a língua, que parecia seca e inchada, assim como minha garganta. Meu corpo berrava por alguns goles de água e, como se prevendo isso, ele me alcançou um copo de madeira com água e me ajudou a tomá-lo. Foi como beber néctar. Nunca imaginei que alguns goles de água pudessem ser tão revigorantes. Assim que terminei de beber o terceiro copo, Terrence me encarou com curiosidade.
“Você tentou matar o Santiago, huh? Foi isso mesmo que você fez, não é? É o que todos estão falando, mas ninguém entende como o capitão se empapou no próprio sangue sem ter nenhum machucado no corpo, e como você acabou quase morto por dias se também não tem nenhum ferimento.” Terrence torceu o nariz, cheio de suspeitas. “O Santiago proibiu o cara que ‘tava de vigia e viu parte do que aconteceu de dizer qualquer coisa, mas o Rigo deixou escapar algo como magia negra, huh? Você não vai falar nada?”
Voltei a grunhir, exausto apenas por ter me concentrado na tagarelice do Terrence. Foi aí que ouvi passos apresados de outra pessoa entrando no quarto – que era o do Santiago, por sinal. Percebi que era por isso que a cama fedia numa mistura do meu cheiro, com o cheiro dele. Fiquei aliviado. Só me faltava eu começar a alucinar com o cheiro do Santiago.
“Terrence!” Logo reconheci a voz feminina e pude ver pelo canto dos olhos Nena afastando Terrence de perto da cama. “Era para você ficar por aqui vigiando, não para entrar e começar a importunar o Dominic quando ele acordasse¡ Fuera! Ya, ya!” Ela enxotou o rapaz de pólvora como se ele fosse um cachorro pulguento, e Terrence saiu praticamente correndo do quarto. Era óbvio que acreditava que levaria uma maldição na testa se contestasse as palavras da imediata.
Assim que ele saiu, a expressão da Nena se suavizou e ela se aproximou, sentando-se na cama logo ao meu lado e alcançando a minha mão. Gemi fracamente com o contato, pois era como se ela estivesse quebrando meus ossos com o toque suave.
“Finalmente você acordou! Cómo estás? Ah, esqueça, é óbvio que está péssimo. Raiska falou que você chegou à beira da morte. Nem acredito que justamente esse anel te escolheu. Você não tem jeito de curandeiro, sabe.” Nena sorriu de leve, seus olhos brilhando ardilosos. “Não me leve a mal, mas você é meio egoísta, mimado, arrogante, rabug-“
“Ok! Já entendi!” A interrompi antes que ela usasse todas as palavras depreciativas do dicionário – que não deveria ser muito extenso – dela. “Olha, minha cabeça está explodindo, eu sinto como se um cavalo houvesse me cagado, de tão podre que estou, então não preciso ouvir sobre as minhas nobres qualidades nesse momento. A única coisa que eu preciso saber agora é se... Se ele está...”
“Santiago está vivo.” Nena falou e eu relaxei discretamente, fechando os olhos e não querendo dar nenhum sentido àquela loucura por ora; mas minha curiosidade estava, como sempre, inflamada, então acabei procurando forças para me manter acordado.
“O que diabos aconteceu?” Perguntei, estalando a língua para que ela deixasse de pesar tanto.
“Tem muita coisa que você não sabe, Dominic.” Nena suspirou.
“Ah é? Como eu não desconfiei disso?” Revirei os olhos enquanto a ironia escorria espessa pela minha boca. Nena pareceu tentada a me dar um sopapo doloroso, porém se controlou provavelmente por culpa do meu estado acamado.
Ela entrelaçou os dedos sobre o colo e me olhou seriamente.
“É tanta coisa que eu nem sei como começar. E também há muito que eu não posso contar agora.” Completou.
“Você não disse que confiava em mim?” Perguntei abrindo um sorriso cheio de desdém. Nena bufou, encarando-me como se eu fosse uma criança arteira.
“E você honrou muito bem minha confiança quase matando o Santiago. Mais um pouco e ele estaria morto e nem a magia do anel o teria salvado... Ou melhor, teria, mas você morreria no lugar dele.” Nena tagarelou como se não fosse nada, abanando a mão como quem afasta um mosquito.
“O quê?!” Me engasguei, tentando erguer o corpo; porém parei no meio do caminho ao experimentar cada pedaço de mim urrar em protesto. Caí de volta no colchão com um muxoxo agoniado. “Que história é essa de magia...? Qual o significado desse anel?” Perguntei fraco. Podia sentir perfeitamente a prata puída ao redor do meu dedo – parecia pesar uma tonelada.
“Eu sei que você andou perguntando sobre mim ao Terrence.” Nena disse abruptamente, no lugar de me dar uma resposta objetiva. A encarei sem demonstrar nenhuma culpa. “Yo no soy uma hechicera... mas não espalhe, é bom que os marujos acreditem nisso; facilita meu trabalho.”
“E o que você é, então?”
“Eu não sou nada... Só que... Há outro anel, um anel que lê o passado, o presente e o futuro, que não está comigo, mas estou conectada a ele.” Nena segurou o camafeu de seu colar, mordendo o lábio e adquirindo uma expressão triste. Franzi a testa. Em vez de esclarecer minhas dúvidas, ela apenas adicionava novas! Bufei.
“Há outros anéis?” Perguntei e já de imediato me lembrei do Santiago falando ao Noel que agora eles tinham dois, de quatro anéis. Francamente, um anel já era mais do que o suficiente!
“Sí. Há alguns meses, eu tive uma visão, elas vêm e eu não posso controlar nem quando, nem onde as tenho – o que é uma merda sanguinolenta, já que às vezes acontece em meio a algum ataque a outros navios.” Nena fez uma careta emburrada antes de continuar. “Eu vi... Nossa vitória. Não sei definir, não foi uma visão clara, mas havia um sentimento grande de que havíamos conseguido, e entre as imagens difusas, estava um rapaz ruivo de cabelos compridos com uma roupa metida a besta, dessas da marinha inglesa ou francesa. E algo me disse que ele nos ajudaria a conquistar essa vitória.”
Olhei para a janela. Uma luz alaranjada entrava pela janela, banhando o quarto; o sol já deveria estar descendo no horizonte.
“Era eu?” Indaguei num sussurro, meio que já sabendo a resposta.
Nena deu de ombros.
“Não sei. Eu contei ao Santiago e mais tarde, quando ele escapou de Hispaniola antes da execução, ele disse que havia visto um ruivo de cabelos longos no navio do Aguirre. Então nós esperamos até que vocês deixassem Hispaniola para capturá-lo.”
Eu quase sufoquei com minha própria saliva.
“Vocês queriam me raptar desde o início?!” Fiquei pasmo, com os olhos o dobro do tamanho.
“És verdad.” Ela assentiu solene. “Claro que o saque foi muito bem-vindo. Provavelmente teríamos saqueado os navios do teu pai de qualquer maneira, mas também estávamos atrás de você. É claro que não deixamos isso óbvio e nem falamos para ninguém fora do nosso círculo sobre isso para não levantar perguntas desnecessárias. A desculpa de que te levaríamos para evitar que teu pai nos perseguisse caía como uma luva. Nem tínhamos certeza se você era mesmo o ruivo da minha visão, então te tratamos como qualquer prisioneiro... Apesar de te dar umas regalias.”
“Regalias.” Cuspi a palavra. Aposto que assédio também deveria fazer parte dessas regalias na visão distorcida do Santiago. “Não acredito, então é tudo culpa sua eu estar aqui e não na minha amada Londres! Você foi inventar de ter uma visão idiota com um ruivo qualquer!”
“Eu encontrei a prova de que precisava quando vi o anel no teu dedo. Eu ainda não tinha certeza se era um dos quatro anéis, mas eu já vi outros dois e pude sentir a mesma energia vindo dele. E, há alguns dias, você provou que está com o terceiro anel. Um dos mais poderosos...”
Minha mente devia estar lenta demais, porque toda aquela história não estava descendo bem. Meu lado cético se negava a acreditar em tanta baboseira, mas então eu me lembrava das garras invisíveis que haviam se fincado no meu corpo e arrancado algo de dentro de mim, para passar ao Santiago, e era difícil não começar a acreditar.
“O que esse anel faz?” Levantei minimamente a mão, mostrando a caveira antipática.
Nena sorriu meio sem-graça.
“Não tenho muita certeza, mas curar pelo toque e ressuscitar os mortos está entre o que o anel pode fazer. Só que para ressuscitar um, é preciso matar outro, ou então... O anel retirará de quem o usa a vida para trazer alguém de volta. Foi o que ele quase fez com você: sugou tua energia, parte da tua vida, para resgatar o Santiago das garras da morte.”
“Jesus...” Murmurei sentindo meu corpo perder as forças enquanto o ar do quarto parecia diminuir vários graus. Eu não podia acreditar que quase havia me crucificado pelo ignóbil do Santiago. “E por que você me deixou com esse anel? Por que, não sei, pegou para você, ou para qualquer um de vocês?”
“Porque não é qualquer um que pode usar o anel, Dominic. Se alguém usa o anel sem a permissão do mesmo, pode acabar morto. Acredite, já vi acontecer.” Ela falou sombriamente, enquanto acariciava o camafeu sinistro.
“Quem é Raiska?”
“La hechicera. Você vai conhecê-la assim que conseguir se levantar e andar sobre os próprios pés, o que deve acontecer amanhã. Ela quer te ver, mas é você que deve ir até ela. Agora... Eu preciso ir, estamos preparando tudo para zarpar, em três dias. Santiago conseguiu a ajuda de que precisamos para invadir Chagres sem muitas baixas.” Nena se levantou, guardando o camafeu por trás das roupas e ajeitando a boina que usava sobre os cabelos castanhos amarrados.
Queria dizer que não estava muito tentado a ir encontrar uma feiticeira, mas o que perguntei foi: “O que há em Chagres?”
Nena sorriu de lado.
“A Chave da Imortalidade.”
E, naquele momento, eu percebi que estava muito mais envolvido em toda aquela história do que jamais poderia imaginar. E o pior. Não havia volta. Porque um anel amaldiçoado, com poderes estranhos, estava no meu dedo e, quando Nena deixou o cômodo e eu tentei tirá-lo, ele parecia ter-se cravado em minha pele para nunca mais sair, a não ser que eu mutilasse minha mão.
Algo que minha vaidade jamais me permitiria fazer.
XxX
“Então, a boneca acordou?” Fradique perguntou antes de entornar a caneca de rum. Massageei as têmporas, irritado com a algazarra incessante que sempre assolava toda e qualquer taverna de Tortuga.
Quando menos esperávamos, alguém estava arrumando briga e matando alguém, ou contando vantagem com mentiras idiotas, ou uma vadia qualquer estava berrando a plenos pulmões que algum pirata sujo não havia lhe pagado para enfiar o pau na boceta dela e toda a sorte de baixarias. Meu irmão parecia acostumado a isso, eu, por outro lado, me segurava para não sacar minha arma e dar um tiro no meio da testa de todos eles. Já havia matados alguns assim quando mais novo e menos tolerante. Bons tempos aqueles.
“Não.” Repliquei seco, sabendo o que viria: mais reclamações por estarmos ali, parados feito porcos inúteis e encachaçados. Fradique terminou a bebida em um único gole e estalou a língua, com raiva.
“Mas que porra! Já não chega o Noel ser um completo idiota, agora você também? Será que eu sou o único inteligente aqui que percebe que um inglesinho metido à besta não nos será de nenhuma utilidade? Deveríamos arrancar aquele anel do dedo dele e deixá-lo para trás.”
Eu o ignorei, bebendo meu rum enquanto observava um bêbado brigar com o dono da taverna, exigindo mais álcool apesar de não ter nenhum dinheiro para pagar sequer as dívidas que já possuía. Esse seria uma mira fácil demais para um tiro ao alvo e não quis gastar uma bala da arma só porque a voz dele estava me dando nos nervos.
“Diga ao menos que já o colocou de quatro e que ele tem uma bunda maravilhosa, para você estar assim tão apaixonado!” Fradique exclamou, exasperado. Soltei uma gargalhada e olhei para os olhos verdes do meu irmãozinho, que lembravam tanto os da nossa mãe.
“Apaixonado? Que asneira é essa agora?” Perguntei.
“Ah, bom Deus, vocês nem ao menos treparam e você já está assim. Que decepção, irmão. Justamente por um inglesinho irritante.” Fradique debochou desapontado, seus dentes reluzindo mais até do que o dente de ouro que tinha no lugar de um canino perdido numa dessas brigas por mulher. Ele havia pedido para que eu não dissesse a Nena que ela era a boceta ‘responsável’ pela briga.
“Para de falar merda, Fradique. Só não zarpamos ainda porque a Nena diz que ele é importante para nós. Foi por isso que o raptamos para início de conversa.” Lembrei.
“Você o raptou. Eu nunca concordei com essa ideia idiota. Por Deus, tudo bem que ele é mais bonito que a maioria das garotas que eu já vi e que se eu gostasse de algum pau além do meu também estaria louco para entrar nas calças dele, mas Santiago, ficar aqui parado enquanto aquele desgraçado do Aguirre-“
“Considere-se de férias.” Falei com menos paciência, pois sabia que ele em parte tinha razão, e odiava ter de discordar de alguém quando o que estava a fim de fazer era concordar. Tortuga e a vontade de voltar para o mar já começavam a ter efeitos negativos sobre mim. “Se ele não acordar até amanhã, darei fim a essa merda toda, mesmo que ele tenha, sim, uma bunda maravilhosa.”
Fradique pareceu satisfeito ao ouvir aquilo e então, com um sorriso típico de garoto travesso – o que ele sempre havia sido –, inclinou-se um pouco sobre a mesa. Seus cabelos pretos caíram sobre os olhos, escondendo as sobrancelhas erguidas.
“E não vai me contar direito o que diabos aconteceu aquele dia? Pelo que a Nena deixou escapar, primeiro ele quase te matou e depois te salvou. Vai dizer que você deixou que uma boneca daquelas quase te matasse?” Fradique caçoou e, bem naquele momento, um grupo de bêbados retardados explodiu em gargalhadas.
Olhei atravessado para aqueles merdinhas barulhentos, mas não cheguei a me importar com o tom jocoso do meu irmão, apesar da ideia de quase morrer pelas mãos de um garoto realmente me incomodar. Era ridículo, para não dizer absurdo. Mas, quando eu pensava que ele havia arriscado a própria vida para salvar a minha, mesmo depois de eu ter arruinado a dele, uma sensação inquietante, que eu preferia ignorar, apertava minha garganta.
“Foi bem isso.” Falei. “A boneca é mais perigosa do que eu imaginava.” Fiz sinal para que alguém viesse encher nossas canecas com mais rum. Precisava ficar bêbado para esquecer o episódio e seria ótimo se Fradique o esquecesse também. Mas aí seria pedir demais do meu irmãozinho.
“Uma vez a Nena disse que apenas quando uma pessoa quer algo do fundo da alma, consegue fazer o anel funcionar. Ele tentou te matar, mas se arrependeu de verdade.”
“E só por isso ele não está morto.” Repliquei com os lábios torcidos. Eu já sabia disso tudo, Nena havia me contado há muito tempo.
“Isso me faz pensar... A irmã dela, então... Talvez não seja tão boa quanto ela lembra...” Meu irmão disse com cuidado, inclusive olhando para os lados para se certificar de que a Madalena não estivesse por perto. Esperei pensativo até que o rapaz que trabalhava na taverna enchesse nossas canecas e se afastasse.
“É, mas jamais diga isso a ela. Ou pode conhecer uma bonequinha que não vai se arrepender de tentar e conseguir te matar.” Avisei.
“Sim, eu sei.” Fradique estremeceu e tomou um longo gole de rum.
Nós ficamos bebendo e conversando mais algum tempo, decidindo sobre a melhor maneira de invadir Chagres sem que praticamente metade dos nossos homens acabassem mortos, quando Nena chutou a porta da taverna e a atravessou com a expressão séria, ignorando todas as sacanagens que os encachaçados soltavam para provocá-la.
Eu e Fradique a encaramos quando ela parou em frente à nossa mesa.
“Ele acabou de acordar. Conversei com ele e depois vim aqui avisá-los.”
Sem dizer palavra, eu levantei e segui para a rua, empurrando para fora do meu caminho dois idiotas que mal conseguiam se equilibrar sobre os próprios pés e cantavam aos berros, abraçados no meio da taverna. Alcancei a alameda e desci até a praia em direção à minha casa.
Precisava ter uma conversinha com certa boneca.
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