Mar De Fogo
10 A Feiticeira
Notas iniciais
Depois que a Nena saiu, eu me levantei e fui até a varanda onde havia o lago represado nas pedras. Consegui encontrar um sabonete e me despi, entrando na água e retirando todo aquele suor impregnado na pele. Era difícil me mover e esfregar, tudo doía, minha visão também parecia ruim, como se a pouca luz do entardecer machucasse meus olhos claros, mas eu sempre gostei de me sentir limpo, muito mais do que a maioria das pessoas.
Quando estava quase terminando, ouvi o barulho de alguém entrando na casa. Me arrastei pela água e apoiei minhas mãos na borda do chão da varanda, espiando. Ao ver de quem se tratava, me virei e pressionei as costas contra a pedra, prendendo a respiração. Não estava preparado para enfrentar o Santiago, principalmente não quando eu mal tinha forças para sair do lago e voltar ao quarto.
Só que, depois de dar uma olhada rápida pela casa, é óbvio que ele me encontrou. Ergui a cabeça ao sentir seu olhar queimar sobre mim e suspirei inconformado.
“Poderia sair daí para nós conversarmos?” Ele perguntou e eu me surpreendi com o pedido. Geralmente ele apenas ordenava ou simplesmente fazia o que queria.
“Eu não consigo. Estou fraco demais.” Murmurei constrangido, abaixando o olhar para água e pensando por que diabos não havia me alimentado e recuperado as forças antes de ir dar um mergulho. Em vez de desistir e me deixar em paz, Santiago se abaixou e me segurou pelas axilas, me puxando para fora da água como se eu não pesasse nada. Eu havia mesmo perdido alguns quilos por ficar tantos dias desacordado, mas ainda assim era humilhante.
“Hei!” Reclamei, cansado. Eu estava sem roupas. Não era nada confortável estar desnudo às vistas dele de novo. “Você ao menos poderia esperar eu terminar!”
“Você parece limpo o suficiente.” Santiago retrucou, virando-me para ele. Eu estava tão fraco, que acabei caindo para frente, contra o peitoral largo dele. Santiago me segurou pela cintura e ergueu uma sobrancelha, enquanto eu sentia vontade de sumir da face da terra. Por que eu sempre precisava parecer patético perto dele? Deplorável.
“Então você está mesmo vivo.” Eu disse debilmente, revirando os olhos para mim mesmo. É claro que ele estava mesmo vivo! O que seria aquilo? Uma alucinação? Tentei me afastar, mas não consegui me mover um milímetro. Todas as minhas energias haviam sido lavadas junto com a sujeira em meu corpo.
“Por desejo seu. Acho que não pode mais reclamar de mim, já que foi você quem me quis vivo.” Santiago sorriu. Eu pensei que ele estaria uma fera e que iria me esbofetear por ter tentado matá-lo, mas ali estava ele, com aquele sorriso enviesado sempre repleto de deboche.
Abri e fechei a boca por alguns instantes, sem saber o que dizer.
“Não fui eu. Foi o anel. Eu tentei te matar e não te salvar da morte. Eu enfiei aquela adaga no teu abdômen.” Instintivamente eu tateei o abdômen dele, como se procurasse o ferimento. Minha mão se infiltrou por baixo da camiseta branca sob o casaco marrom desabotoado e pude experimentar o calor de sua pele morena na ponta dos meus dedos.
Os músculos firmes do abdômen dele se contraíram com o toque, mas não encontrei sequer uma mísera cicatriz no local onde eu o havia furado. Arregalei os olhos, em choque, como se só agora eu realmente acreditasse que o havia salvado da morte com a magia de um anel desgastado, comprado numa feira qualquer em Hispaniola.
“Não é possível...” Murmurei comigo mesmo, atônito.
Santiago fez com que eu o encarasse e seu rosto estava sério de uma forma que eu nunca antes vira. Eu já havia visto seus olhos castanhos repletos de emoções como raiva, deboche, sarcasmo, diversão, malícia... Mas, com essa seriedade, era a primeira vez e acabei hipnotizado pelo poder sutil e natural que emanava de cada traço de sua expressão sóbria.
“Dominic,” Disse. “você tentou me matar e por isso eu deveria matá-lo. É o que eu faria em circunstâncias normais. Você só está vivo porque, mesmo nesse pouco tempo em que te conheço, já percebi como é impulsivo e irritadiço e eu bem que merecia uma adaga no estômago por tentar te forçar a ir para cama comigo... Você também não tinha como saber que aquela adaga estava amaldiçoada.” Santiago suspirou, apertando minha cintura com mais força e pressionando meu corpo contra o dele, não sei se consciente ou inconscientemente. Eu engoli em seco, tentando deixá-lo falar tudo que tinha para dizer antes de me intrometer, mas é claro que não me segurei.
“Você está tentando se desculpar?” Perguntei com meus lábios se repuxando em desdém. Santiago me olhou tão seriamente, que minha diversão murchou. De uma hora para outra ele parecia tão maduro e ajuizado... Era como esfregar na minha cara quem era o menino mimado e inconsequente ali – eu.
“A questão é que eu preciso de você. Eu não sei bem como ou por que, mas eu acho que depois de você praticamente se sacrificar por mim, eu posso começar a confiar em você.” Ele me encarou e percebi que aquilo era uma afirmação em tom de pergunta. Gaguejei tentando organizar as ideias, estremecendo com o roçar das mãos ásperas dele em meu quadril.
“O que você exatamente quer de mim?” Repliquei, desconfiado.
“Eu quero que você não tente mais me matar e que cumpra com a sua palavra.” Os olhos dele reluziram rápido, com um toque de malícia que logo se desvaneceu. O encarei sem compreender, desconfortável por ter de me agarrar a ele para conseguir me sustentar.
Era uma situação no mínimo vergonhosa.
“Que... Que palavra?”
“Aquilo que você me garantiu quando eu estava morrendo.” Ele continuou sério, mas pude jurar que ele estava se segurando para não rir. Meu rosto perdeu a cor e eu o encarei em pânico. Sabia bem do que ele estava falando. “Eu quero que você me ajude com a minha vingança e, depois disso, eu vou te ajudar a voltar para a Inglaterra.”
Meu queixo literalmente caiu. Ele havia mesmo perdido a chance de jogar da minha cara que eu havia gritado que transaria com ele caso ele acordasse? Onde estava o Santiago que eu conhecia, pelo amor de Cristo? Eu deveria estar delirando. Talvez ainda não houvesse acordado e toda aquela história de anéis, feiticeiras e vingança fosse fruto da minha imaginação fértil.
“Isso é uma promessa?” Perguntei. “Você vai mesmo me ajudar a voltar?”
“Sim.” Ele disse veemente e, de alguma forma, eu consegui ler a sinceridade em seus olhos. “É uma promessa. E eu nunca quebro uma promessa. Mas você vai ter de se esforçar para me ajudar. Não vou te libertar de graça.”
“Eu não vou mais tentar te matar...” Murmurei, desviando o olhar. “E, se você não me agarrar à força novamente, vou fazer de tudo para ajudar você, seus irmãos e a Nena. Até porque eu não tenho outra escolha e esse anel no meu dedo não quer sair de jeito nenhum. Pode ficar feliz, parece que finalmente alcancei a fase da aceitação.” Falei irônico, sorrindo sem alegria enquanto encarava o chão.
Então era isso. Havia uma chance de eu voltar para casa, para longe daquela loucura sem-sentido se conseguisse ajudar os piratas. Minha vida estava virando um livro ou era impressão minha?
Suspirei.
A verdade é que essa confusão sobrenatural em que eu estava metido mexia com a minha curiosidade. Eu queria perguntar sobre tudo, entender que mistérios assolavam aquela parte do mundo pela qual eu nunca havia me interessado, ao mesmo tempo em que queria simplesmente ir embora de volta à minha vida fácil e nunca mais pensar sobre nada disso.
Era um conflito de interesses tremendo, que no momento me desgastava ainda mais.
Santiago aproximou os lábios da minha orelha e sussurrou num tom rouco que me trouxe de volta à realidade – e eu me perguntei como pude esquecer que ele estava tão perto.
“E se eu tentar te agarrar, e não for à força?” Ele perguntou; a diversão de volta ao seu tom. “Eu prometo não te forçar mais a nada, vou recuar no instante em que perceber que você realmente repudia meu toque, mas não vou estar quebrando nenhuma promessa caso você queira tanto quanto eu.”
Um arrepio atravessou meu corpo, eriçando-me inteiro quando o encarei exasperado, meus olhos azuis queimando de raiva junto às maçãs quentes do meu rosto.
E o pior era que eu nem conseguia me mover para longe dele.
“Será que você não desiste? Mesmo depois de eu quase te matar?! Você faz isso apenas para me aborrecer, não é? Te diverte me ver irritado, tentando resistir. Você é impossível, e a merda de um sádico.” Exclamei ofegante e acabei deixando minha cabeça cair contra o peito dele, exausto pelo rápido arroubo de fúria. O cheiro almiscarado do Santiago encheu as minhas narinas, entorpecendo-me.
Eu não quis acreditar que me sentia bem por ele estar vivo, quando seu calor e perfume invadiram meus sentidos.
Acabei gemendo fraco quando as mãos dele saíram de minha cintura e percorreram as minhas costas, até uma delas afundar em meus cabelos e puxá-los para trás, apenas o suficiente para que ele pudesse deixar sua boca bem próxima ao meu ouvido.
“Sim, eu adoro. E vou adorar te corromper.” Murmurou rouco. Eu mal consegui reclamar quando ele me içou do chão e me pegou no colo, minhas pernas envolvendo frouxamente a cintura musculosa. Soltei um resmungo e deixei minha testa cair contra o ombro dele, meu corpo latejando de dor outra vez, clamando por repouso. “Mas antes você precisar descansar.” Ele completou, enquanto me carregava para o quarto.
Santiago me colocou na cama e eu puxei rapidamente o lençol para tapar minha nudez, bastante ciente, apesar do meu estafo mental, do olhar dele sobre o meu corpo. Ele me encarou diretamente nos olhos e eu não pude acreditar que ele não iria se aproveitar do meu estado debilitado para tentar alguma gracinha. Talvez ele falasse sério sobre não forçar aproximações indesejadas.
E isso era estranho.
Não era o que eu conhecia dele; mas eu o conhecia bem pouco de qualquer maneira.
Antes que ele se afastasse, uma vontade saída dos confins da minha alma me fez erguer a mão e segurar os cabelos castanhos, quase negros dele, entre meus dedos. Santiago pareceu perplexo quando deixei minha cabeça pender para frente e nossos lábios se encontraram. Uma parte de mim gritou que eu havia finalmente enlouquecido, a outra ronronou satisfeita pelo contato.
Após o rápido choque inicial, Santiago segurou meu rosto com cuidado e aprofundou o beijou, penetrando a língua em minha boca de forma firme, ainda que suave, sem a brutalidade das outras vezes. Minha mente nublou, enfraquecendo. Puta. Merda. O que diabos estava acontecendo ali?
Eu gemi outra vez, excitado, ouvindo os sons molhados que o encontro de nossas línguas e dentes fazia; contudo ofeguei perturbado, agarrando-me com mais força a ele quando percebi que uma das suas mãos em meu rosto desceu e se infiltrou por baixo dos lençóis.
“Santiago, não-“ Tentei me afastar com um pedido débil, mas ele me puxou novamente contra sua boca e rapidamente agarrou meu pênis. Eu arfei agoniado, soltando em muxoxo baixo contra a boca dominante dele, meu corpo inteiro se arrepiando e ficando mole enquanto ele deslizava a palma quente e áspera por toda a extensão do meu membro – que havia enrijecido completamente no instante em que ele o tocou.
Santiago se afastou ao perceber que eu não conseguia mais corresponder ao beijo, perdido como eu estava nos arrepios e vibrações que atravessavam meu corpo. Não tive dúvidas de que ele observava as minhas expressões de prazer enquanto me masturbava sem pressa, e que se deliciava com a minha docilidade; exatamente por isso mantive os olhos bem fechados, pois sabia que iria me irritar caso ele estivesse com aquele sorrisinho sacana estampado no rosto.
Eu queria tanto mandar que me largasse, quanto que fosse mais rápido. Ou seja, minha mente não estava colaborando comigo no momento e obviamente acabei não conseguindo dizer nada. Meu rosto caiu contra o ombro dele e deixei alguns gemidos mal-contidos escaparem. Era o fim, eu podia ver com nitidez a minha dignidade acenando em despedida e partindo para nunca mais voltar, porque aquela mão parecia saber exatamente o que fazer para me deixar naquele estado catatônico e frágil. Senti os lábios como brasa em meu pescoço, envolvendo a minha pele e a sugando vigorosamente.
Ele ficou nessa tortura arrastada, tocando-me por baixo do lençol e deslizando a língua molhada na região entre meu ombro e pescoço até que eu estremecesse inteiro, mordendo firmemente o lábio para não gritar, e me derramasse na mão dele. Fiquei esgotado, tremendo contra o corpo do Santiago enquanto segurava o tecido da camisa dele num aperto fraco. Eu poderia ficar assim por décadas, sem me mover; porém, quando ele fez menção de me deitar contra o colchão e se juntar a mim, eu recuei nervoso, caindo de lado na cama e rapidamente puxando o lençol para cobrir meu rosto avermelhado.
“Nem pense nisso.” Murmurei num rosnado, sob minha respiração alterada.
Ouvi o grunhido irritado que ele soltou, mas não me importei. Santiago apoiou as mãos uma de cada lado do meu corpo e sua voz reverberou próxima ao meu ouvido no instante seguinte.
“Você está brincando com fogo.” Ele disse, baixo. Pude sentir o desejo em seu tom entrando por baixo dos lençóis e atingindo a minha pele em carícias lentas. “Eu já disse para você parar de me provocar e depois recuar.”
Tremi, apertando os olhos.
“Eu estou sem forças... Minha cabeça pendeu para frente e você logo assumiu que eu queria te beijar.” Menti, na cara dura. “E ainda me masturbou sem a minha permissão! Você disse que não ia mais me forçar a nada!” Santiago suspirou estafado e eu quase pude vê-lo revirar os olhos para as minhas reclamações.
“Eu não forcei, já que não houve nenhuma resistência. E você fez outra promessa junto à de me ajudar na minha vingança.” Ele enfim esfregou aquilo na minha cara, mas eu tinha consciência de que havia provocado isso. Cristo! O que havia de errado comigo?
“Eu estava desesperado. A gente diz coisas idiotas em momentos como aquele. Já disse que vou te ajudar com a tua vingança, seja ela qual for, agora me deixa descansar. Por favor.” Pedi, odiando a maneira como quase implorei, mas eu estava cansado demais para discutir. Esperei rígido até sentir a pressão sobre o colchão ceder e ouvir os passos dele saindo do quarto, sem nenhuma nova palavra.
XxX
“Como você se sente?” Nena perguntou, sentada na cama com Reno em pé ao seu lado enquanto eu devorava um prato de carne de caranguejo, batatas com linguiça e ovo cozido picado. Virei o copo de bebida que acompanhava a refeição reforçada e só então parei para responder.
“Estou bem melhor. Meu corpo não dói como antes.” Falei. Ainda me sentia um pouco dolorido e cansado, mas não queria ficar parecendo um fraco. Nunca gostei de me vissem dessa forma, apesar de ser essa a maneira como todos os piratas me viam desde que eu havia sido carregado para o navio do Santiago sobre o ombro dele.
“Ótimo.” Nena se levantou com um sorriso. “Eu consegui algumas roupas para você. Vai dar para a viagem até Chagres.” Ela pegou uma bolsa graúda de tecido marrom e a jogou sobre o colchão, deixando que parte das roupas rolasse sobre a cama. Olhei para ela agradecido.
“Obrigado, Nena.”
Ela assentiu, dando de ombros.
“Termine de comer e depois se vista. Nós teremos de dar uma boa cavalgada até alcançar as pedras. É lá que encontraremos a feiticeira... O Santiago queria zarpar hoje mesmo, mas eu o convenci a esperar até amanhã, como havíamos combinado.” Nena ajeitou o cinto em sua cintura esguia e mordeu os lábios. “Obrigada por aceitar nos ajudar. Isso pelo que estamos lutando... Significa muito para mim.”
“Nena...” Murmurei, admirado. Talvez eu devesse tentar matar o Santiago mais vezes, pois tinha a estranha impressão de que estava sendo melhor tratado depois da situação de vida ou morte entre o capitão e eu. “Não é nada...”
“É sim. Você sabe que está arriscando a sua vida, não sabe? Todos nós estamos. Chagres é só o início, Dominic.” Ela disse, e eu não pude deixar de reparar que ela não havia usado meu adorável apelido, mas meu nome, como se eu fosse um igual.
Ela saiu apressada do quarto, como que com medo que suas palavras me fizessem mudar subitamente de ideia, mas eu estava longe disso. Falava sério quando disse ao Santiago que havia me resignado. Havia entendido que não podia escapar; meu destino estava selado desde o momento em que Nena me viu em uma de suas visões. Era apavorante, sim, mas eu estava cansado de me revoltar como um garoto birrento.
Está na hora de encarar a situação como um homem. Pensei e imediatamente ri, com melancolia, pois aquilo soara como algo que meu pai me diria quando eu agia sem pensar e ele precisava me livrar das encrencas em que eu sempre me metia. A encrenca em que eu havia me metido dessa vez transformava as anteriores em brincadeiras de criança.
“É bom ver que você decidiu ajudar.” Reno falou suavemente, atraindo meu olhar. Eu quase havia esquecido de que ele ainda estava no quarto. Havia testado a minha febre, olhado a minha garganta e analisado minhas pupilas, até se convencer de que eu estava bem de verdade.
Sacudi ligeiramente os ombros, voltando a comer.
“Vou poder ir para casa depois de ajudá-los. Só espero sobreviver a isso tudo.” Falei com a boca cheia de batatas e empurrando mais uma garfada de carne para dentro.
“Eu os conheço há muito tempo, sabe.” Reno se sentou em uma cadeira que havia no quarto. Parecia cansado, mesmo depois daqueles dias tranquilos em Tortuga, longe dos castigos de alto-mar. “Santiago, Fradique e Noel subiram a primeira vez no Labareda quando eram apenas crianças. Noel é o mais velho dos três, três anos mais velho que o Santiago, e naquela época era ele quem cuidava dos irmãos, mesmo que o Santiago já demonstrasse uma força rara de se ver em crianças de seis anos. Fradique era apenas um menininho de três anos, e não me pergunte como sobreviveu à vida difícil em alto-mar.”
Eu não sabia por que ele estava me contando aquilo de repente, mas não o interrompi, continuando a comer meu almoço com os olhos pregados nele.
“Naquela época, eu me transformei no médico do navio e um grande... amigo meu, o capitão do Labareda, ensinou aos garotos tudo que havia para se saber sobre pirataria. Quando ele morreu, Santiago assumiu o comando. Ele tinha apenas dezessete anos, mas ninguém se opôs, até porque ele era o melhor entre todos e muito estimado pelo falecido capitão.” Reno torceu as mãos sobre o colo, parecendo momentaneamente perdido nas lembranças, seus olhos claros distantes. “Foi nessa época que encontramos a Madalena em Port Royal, após um confronto naval que aconteceu lá em um assalto pirata do qual fazíamos parte. Infelizmente perdemos e fomos obrigados a recuar.” Reno sorriu fraco. “Quando Fradique voltou ao navio, vindo da cidade, trazia com ele uma menina de onze anos. Estava assustada e chorava pela irmã, enquanto implorava por ajuda, dizendo que precisávamos voltar. Eu cuidei dos ferimentos dela, então a levei ao Santiago e ele a acolheu depois de uma longa conversa. Acho que desde o primeiro momento, ele a viu como uma irmã mais nova, e até hoje esses dois conspiram juntos a ponto de arranjar briga com Fradique por ser deixado de fora de suas conversas secretas. Noel já não se importa muito, ele acompanha os irmãos como um anjo da guarda silencioso e obediente, sempre de olho nos dois. Chega a ser estranho ele não querer deixar Tortuga dessa vez, mas posso entendê-lo...”
Reno balançou a cabeça e se levantou.
“Ah, a idade está me transformando em um velho tagarela e nostálgico. Vou deixar você comer e se arrumar em paz.”
Eu deixei que ele saísse do quarto. Eu havia reclamado imensamente da minha vida desde que haviam me raptado, mas me peguei imaginando como teria sido o passado de todos eles para que houvessem chegado vivos até o presente e, de novo, me senti mimado e fútil. A percepção era ruim, então a afastei rapidamente, não querendo me apegar à história deles só porque havia escutado um pouco sobre ela. Se meu ódio por ter sido raptado se esvaísse por completo, eu estaria verdadeiramente perdido.
XxX
Nós já cavalgávamos há horas. A areia da praia queimava pelo sol forte, brilhando dourada, e vez ou outra eu precisava desviar o cavalo daqueles malditos caranguejos que trotavam de um lado para o outro como se dançassem acompanhando as ondas que estouravam na arrebentação. A parte interna das minhas coxas latejava, dolorida, fazendo com que eu me sentisse como um daqueles gordos sedentários, de pescoço papudo e bochechas rosadas, que ficavam suados e ofegantes depois de subir um lance de escadas.
“Falta muito?” Perguntei pela terceira vez desde que havíamos deixado a cidade. Eu ainda não havia visto o Santiago naquele dia e estava feliz por isso. Não queria encará-lo por enquanto, não depois de deliberadamente beijá-lo – ainda que eu fosse negar isso até a morte – e gozar na mão dele.
“Está vendo aqueles rochedos? Vamos encontrá-la lá, se ela quiser nos receber.” Nena disse, avançando sem demonstrar nenhum cansaço, o que apenas piorava meu humor. Eu era menos resistente do que uma garota. Deplorável, Dominic, minha mente recriminou, e fiz uma anotação mental para começar a me exercitar mais.
“Como assim se ela quiser nos receber? Você disse que ela queria me ver!” Exclamei. Era só o que me faltava. Cavalgar até cair, sentindo o sol queimar violentamente meu rosto, em vão! Até o pelo marrom do cavalo estava empapado de suor enquanto trotávamos pela areia.
“Ela quer.” Nena disse. “Mas Raiska é uma mulher complicada.”
“E qual mulher não é complicada?” Perguntei, revirando os olhos e sorrindo sarcástico ao receber um olhar afiado e descontente de Nena.
As roupas que ela havia me dado serviram perfeitamente e agora eu usava botas de couro decente; uma calça listrada de tecido marrom, firme ao corpo, mas não a ponto de ficar apertada e desconfortável; um cinto em minha cintura sob uma faixa vermelha que se enrolava em meu quadril e cuja ponta pendia até meu joelho e, por fim, uma camiseta branca, sob medida, com uma gola em V e mangas compridas dobradas até os cotovelos, que marcava meus músculos delgados. Eu ainda tinha variedades de casacos e coletes para vestir caso quisesse, mas o dia estava quente para usá-los. Meus cabelos, prendi em uma trança que ficava jogada sobre um dos meus ombros. Eles estavam mais compridos do que o habitual e talvez fosse o momento de cortá-los.
Nós chegamos aos rochedos e, descendo dos cavalos, escalamos as pedras. Eu com dificuldade; Nena pulando de pedra em pedra como se molas estivessem encaixadas abaixo de suas botas de couro marrom. Entre os rochedos, havia uma caverna e, olhando de fora, ela parecia ser bastante escura e úmida.
“Vamos.” Disse Nena, avançando confiante em direção à entrada semicircular entre as rochas.
“A sério?” Perguntei, estancado no mesmo lugar. Meus pés pareciam ter criado raízes no chão. “Não dá para ver nada. Como alguém pode viver aí dentro?”
“E quem disse que ela vive aqui?” Nena perguntou parada bem na entrada escurecida, sorrindo zombeteira.
“Se ela não vive aí, o que estamos fazendo aqui?” Eu sei. Eu sou a droga de um covarde, mas uma energia hostil parecia sair daquele lugar e deixar o ar espesso e frio, apesar do sol forte. Eu sempre prezei pela minha vida o suficiente para não ir entrando em um lugar como aquele sem ponderar primeiro as chances de voltar vivo.
“Ela fica aqui para meditar quando vem para Tortuga. Vamos, talvez ela nos dê algumas novas respostas. Ela vai gostar de ver o teu anel.” Nena incentivou, com um gesto de mão.
“É bom que isso valha à pena.” Murmurei amargo, obrigando minhas pernas a se moverem e me levarem para dentro daquele lugar sinistro.
Como imaginei, o ar lá dentro era úmido, carregado e arrepiante. Logo me arrependi de não ter colocado um casaco e percebi que até mesmo Nena estava com os braços arrepiados. A luz era escassa e eu andava bem próximo a ela, tentando não tropeçar no escuro.
“Por que alguém usaria um lugar desses para meditar?” Perguntei baixo, e Nena levou o indicador aos lábios, mandando eu ficar quieto. Bufei discretamente e continuei avançado. Acabei tropeçando três vezes em pedras soltas e não pude evitar praguejar. Estava cansado. Ainda não estava completamente recuperado após a experiência de quase-morte e, só de pensar que teríamos de refazer todo o caminho de volta à cidade, eu sentia dores de cabeça.
Paramos ao chegar a um espaço circular na caverna, que indicava o fim da linha, apesar de eu desconfiar da existência de alguns caminhos estreitos entre as rochas ao fundo, encobertas pela escuridão maciça. O centro era melhor iluminado, pois havia uma abertura no teto, deixando alguns feixes tímidos de luz adentrarem no recinto macabro.
Macabro porque havia caveiras espalhadas pelas rochas, algumas com velas dentro delas, fazendo seus olhos brilharem sobre os sorrisos largos de dentes podres. Havia um lago de águas negras cobrindo parte do chão ali, represado entre as rochas, e estalactites e estalagmites ou ficavam sobre o lago, ou despontavam dele. Não era um lugar onde eu gostaria de tomar um banho.
“Ela não está aqui.” Eu disse, já me virando para dar o fora. Aquela sensação de que havia algo muito errado e tenebroso por perto era muito mais forte ali. Nena segurou meu braço, impedindo-me de fugir, e me puxou mais para o centro do lugar.
“Raiska, venio pro refero die illa umbris inquietari per dubitationes¹.”
Olhei assombrado para Nena. Como diabos ela falava latim? Esperei com a respiração em suspenso, experimentando um vento sacudir minhas roupas, apesar de não existir, realmente, nenhum vento ali dentro. A sensação estava apenas na minha cabeça. As águas negras estremeceram e ficaram claras no ponto em que algo parecia subir das profundezas para emergir na superfície tremulante.
“Oh, Cristo...” Murmurei arregalando os olhos e ouvindo meu coração galopar no peito. Uma mulher emergiu das águas, vindo caminhando lentamente das profundezas como se meditar embaixo d’água fosse algo muito comum e prático. Seus cabelos eram negros, lisos e volumosos, caindo até a cintura magra, quase esquelética. Suas costelas ficavam à mostra sob o tecido que escondia apenas os seios magros. Uma saia estendia-se até o chão, ocultando as pernas, e uma bandana branca cobria toda a parte superior de sua cabeça, inclusive os olhos.
Manchas negras no tecido branco substituíam os olhos vendados.
Eu queria correr dali, porque a visão parecia saída diretamente do inferno, mas Nena segurava firmemente meu braço e, na verdade, acho que minhas pernas não funcionariam de qualquer forma. Eu estava branco pelo choque. Tão branco quanto a tal Raiska, cuja tez conseguia ser mais clara do que mármore.
Assim que alcançou uma pedra na borda do lago e firmou os pés descalços sobre ela, Raiska sorriu com dentes alvos, perfeitos, que destoavam completamente do resto de sua aparência frágil. Gotas de água ainda escorriam por seu corpo magro quando ela sorriu.
“Madalena.” Ela disse, avançando como se pudesse ver perfeitamente através de sua venda manchada. A voz era de uma mulher doce, gentil, mas carregava por trás uma frieza dissimulada, de modo que cheguei a me perguntar se era real, ou apenas impressão minha. “Eu estava esperando por você, sim... Estava sim.”
“Este é o Dominic. É ele quem carrega o terceiro anel e quase morreu recentemente.” Nena informou, empurrando-me para frente. Dei alguns passos cambaleantes em direção à mulher, que cravou aquelas manchas negras em mim. Estremeci de leve.
“Sim. É sim... O rapaz que lhe ajudará a alcançar os objetivos que você e seus amigos tanto almejam. Sim, é verdade. O anel... Ainda trará tanta dor, tanta dor...” Raiska se aproximou de mim e estendeu uma mão de dedos pálidos e finos, a pele repuxada sobre eles. Me obriguei a não afastar o rosto quando a ponta gelada deles tocou minha bochecha. “Ainda pode desistir, sim... Pode sim. Posso livrá-lo do anel. Livrá-lo do peso, é sua escolha. Sempre sua, só sua, sim... Evitar a dor, a tristeza e a traição. Evitar a morte e a destruição.”
Olhei de esguelha para Nena, mas o rosto dela era impenetrável, sem demonstrar nenhuma emoção. Ela esperava que eu decidisse sozinho, sem interferências. Por um momento eu quis aceitar a proposta. Aquilo sobre evitar morte e sofrimento soava muito bom para mim, mas acabei balançando negativamente a cabeça.
“Não. Eu prometi... Prometi ajudá-los.” Murmurei.
“Você é bom, Dominic, o anel que cura gosta de pessoas boas, ah... Sim. Vai saber como agir no momento certo. Sim... Talvez. Mas talvez estrague tudo. Talvez.” Ela sorriu demoníaca, enquanto eu recuava um passo. “O mar sangrará nesse dia, e todos os culpados pagarão. Todos, sim...” Ela franziu o cenho, subitamente com raiva. “Você deve deixar que eles paguem.”
“Raiska... Depois de Chagres, ainda faltará um anel. Onde poderemos-” Nena intercedeu, porque eu estava em um estado um tanto catatônico olhando para aquela feiticeira sinistra. Raiska fez um movimento de mão para que Nena se calasse.
“Encontrará as respostas lá. A traição. A primeira traição, mas não a última. E então saberão... Ah, sim... Saberão.” Raiska dizia naquele tom distante, mas sua mão agora segurava a minha e sua cabeça pendia em direção ao anel em meu dedo. Os rubis cintilavam, desafiando a feiticeira. A sensação me deixou com dificuldade para respirar. Meu anel parecia estar realmente lutando contra a feiticeira, como se tentasse derrubá-la, roubar-lhe as forças. Raiska começou a soltar o ar pela boca, em chiados, arreganhando os dentes.
“Nena...” Eu chamei, sentindo o aperto em minha mão aumentar. Eu tentei puxar meu braço, mas era como se Raiska houvesse virado uma estátua de pedra que segurava minha mão a ponto de esmagar meus ossos. Entrei em pânico. “Nena!”
“Oh, Dios, Dominic, cuidado!” Nena exclamou quando a feiticeira arreganhou os dentes e avançou sobre mim, parecendo se transformar em um ser imaterial cinco vezes maior do que realmente era enquanto chiava em um grito gutural. Eu gritei, apavorado, jogando-me para trás. Era isso. Meu fim: ser engolido por uma feiticeira maníaca.
Porém, em vez de virar almoço, acabei apenas caído de bunda sobre a pedra fria. Nena estava ajoelhada ofegante ao meu lado, segurando meu braço, e a caverna estava estranhamente silenciosa. A feiticeira havia desaparecido, como num passe de mágica. Eu olhei assombrado para Nena, tão ofegante quanto ela. Felizmente minhas calças estavam secas, mas eu não me impressionaria se houvesse mijado nelas.
“Ela vai gostar de ver o meu anel, é?” Parafraseei cheio de sarcasmo.
“Eu falei que ela é uma mulher complicada.” Nena sorriu sem-graça. Eu deixei minha cabeça pender para trás, com um suspiro misto de alívio e incredulidade.
XxX
Quando voltamos, Nena me largou na praia, perto da casa do Santiago, e prendeu à sela dela as rédeas do cavalo em que eu havia montado.
“Por que não arranja uma casa também?” Perguntei antes que ela se afastasse muito. Ela, assim como muitos marujos, dormia em pousadas de Tortuga enquanto esperava para voltar para o mar.
“Não gosto. Prefiro ficar pelas pousadas e escutar o que os viajantes e outros piratas dizem. É sempre bom estar a par do que vem acontecendo no mar, e eu sou a única competente o suficiente para arrancar informações de real valor por lá.” Ela piscou.
Eu só podia imaginar como ela arrancava essas informações valiosas. Quase pude vê-la ludibriando algum pirata com aquele jeito dissimulado que só as mulheres têm – um verdadeiro dom – para então dar um soco em cheio das fuças do pobre coitado caso depois ele tentasse se engraçar para cima dela.
“Às vezes eu durmo na casa do Santiago, no quarto do segundo andar, mas com você aqui, eu prefiro evitar. Não quero acordar no meio da noite por causa de sons estranhos...” Nena completou com malícia.
Eu a encarei lívido.
“O que... Você... Não seja idiota! Eu e o Santiago não-“
“Até amanhã, Dominic.” Ela esporeou os calcanhares no lombo do cavalo e me deixou falando sozinho com minha própria indignação. Bufei pensando que todos deveriam achar que eu era a ‘mulher’ do capitão e, no lugar de entrar na casa, sentei numa pedra perto dela, encarando o mar para observar o pôr-do-sol. Não havia nenhum ‘guarda’ à vista; ou porque agora eles acreditavam que eu não iria mais tentar fugir, ou porque estavam escondidos à espreita.
Somente quando já estava completamente escuro e as águas do mar negras como o lago na caverna, que eu escutei alguém se aproximando da casa. Virei o rosto e vi o Santiago. Ele também me viu, ali, sentado sozinho no escuro, e veio sentar-se ao meu lado, apoiando as mãos na rocha e inclinando o corpo para trás, despojado.
“Fiquei sabendo que se mijou nas calças lá com a feiticeira.” Ele disse, espiando-me pelo canto do olho com aquele sorriso debochado. Eu tenho quase certeza de que ele treina esse maldito sorriso na frente do espelho, porque todos são iguais, como uma marca registrada.
Volvi meu olhar para o mar, as ondas arrebentando à distância, e ri forçado.
“Me lembre de agradecer a Nena por isso. Não é como se eu achasse muito agradável quase ser engolido vivo por uma mulher sinistra que medita embaixo de um lago negro.” Resmunguei, mal-humorado.
“Não gosto daquela maluca também. Eu a ‘conheço’ há uns dois anos. Uma noite eu estava na proa do Labareda e lá ela apareceu com aquela venda sobre os olhos, murmurando insanidades sobre anéis que me ajudariam em meus objetivos. Disse que Nena sabia sobre um dos anéis, mas não sobre os outros. Falou que Aguirre tinha um deles.” Santiago mexeu no bolso e retirou dali um anel de rubi. Não era de caveira, mas feito de uma pedra tão vermelha e hipnotizante quanto os olhos do meu anel.
“Você o roubou naquele dia, não é? Foi por isso que se deixou capturar e depois fugiu. Como conseguiu?” Perguntei, esticando a mão para tocar suavemente no anel do Santiago. Quando toquei na pedra rubra, algo me incomodou, como se houvesse algo de errado com ela; mas... O que não havia de errado naqueles anéis, de qualquer forma?
Santiago sorriu convencido.
“Um profissional jamais revela seus métodos. Mas naquele dia obtive ajuda de alguém em especial.”
“De quem?”
“Um velho amigo.” Deu de ombros e eu estreitei os olhos, me perguntando se ele teria um ‘infiltrado’ entre a armada espanhola, trabalhando para o comandante Aguirre. Não seria de admirar.
“Você já colocou o anel no dedo, não é?” Perguntei, abaixando a mão e tocando no meu próprio, acariciando-o. Estranhamente, ele continuava a me passar uma sensação de conforto, apesar de quase ter me matado há alguns dias. Eu sabia que a resposta seria afirmativa, o havia visto colocar o anel e usá-lo até o momento que desmaiei após salvá-lo.
“Sim. Por quê?” Santiago perguntou, franzindo a testa.
“Depois que eu coloquei o meu no dedo, não consegui mais tirá-lo. É como se houvesse se tornado parte do meu corpo.” Dei de ombros, desviando o olhar daqueles orbes quentes do Santiago, que me fitavam intensamente. Odiava a maneira como ele me olhava, como se eu estivesse nu, deitado de pernas abertas numa cama esperando para recebê-lo.
Certo, talvez eu só estivesse exagerando.
Ele olhou então para o próprio anel, analisando-o, antes de guardá-lo. Ficou em silêncio por um tempo, olhando para o mar. Eu achei que a conversa havia morrido, mas ele quebrou o silêncio de modo abrupto.
“Nena me disse que Raiska comentou sobre uma traição.” Santiago disse, virando-se para mim e voltando a me encarar, dessa vez de modo sério. Eu o encarei de volta, bastante consciente da acusação velada em suas palavras e da maneira como ele tentava ver através de mim.
“E é claro que eu imediatamente virei o traidor.” Revirei os olhos, irritado. “Você não vai acreditar em mim se eu disser que não vou trair ninguém, não é mesmo? Então nem vou perder meu tempo. Acredite no que quiser.”
Santiago soltou uma breve risada nasalada, aproximando um pouco o rosto, o vento fazendo com que o cheiro dele me atingisse em cheio. Prendi a respiração, sem desviar o olhar, mantendo o desafio em meus olhos. Não queria que ele achasse que me intimidava (apesar de me intimidar na maior parte do tempo, sim).
“Você sempre tem uma resposta agressiva na ponta da língua, não é?” Ele segurou meu queixo em um movimento rápido, pegando-me de surpresa com aquela mão pesada. Arregalei os olhos quando ele me puxou para perto. “É claro que você está na lista de possíveis traidores, não importa o que diga. Você pode ter me salvado da morte do fundo da tua alma, mas isso não quer dizer que tenha começado a gostar de mim de uma hora para a outra.”
“Até ontem você estava falando que poderia começar a confiar em mim! Essa sua mania de mudar de atitude e opinião a cada vez que eu te encontro é de enlouquecer! Eu dei a minha palavra-“
“Palavras não valem nada até você provar que valem, mas elas sempre serão inferiores a atitudes. E eu não menti mais cedo, eu posso confiar que você não me quer morto, mas não posso confiar no resto. Até onde me consta, você me odeia, mas talvez até Chagres você me mostre que posso confiar em você como confio na Madalena ou em meus irmãos, boneca.” Santiago me olhou fixamente com um brilho aguçado nas esferas castanhas, e aquele olhar parecia me atingir como lâminas afiadas. Eu queria matá-lo de novo. Ele continuava me chamando de boneca!
Virando bruscamente meu rosto, ele olhou para algum ponto em específico no meu pescoço.
“Parece que ganhou um roxo na noite passada. Se quiser, posso fazer um novo do outro lado, para combinar.” Emendou com o sorriso debochado, antes de lamber sedutoramente o local sensível onde ele havia me marcado.
“Idiota.” Me desvencilhei bruscamente e levantei, praticamente correndo para dentro da casa e para o segundo andar, onde me tranquei para me manter longe dele.
Amanhã deixaríamos Tortuga.
E eu esperava não ser mesmo o traidor.
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