Mar De Fogo
11 Alto-Mar
Notas iniciais
O vento forte atingia meus cabelos, jogando-os para trás e deixando-os quase na horizontal. Já a claridade obrigava-me a manter os olhos semicerrados e a testa franzida. Estávamos em alto-mar e eu já sentia saudades da terra-firme. Ainda que ficar na ponta do navio, com os braços apoiados sobre a cabeça de dragão preso ao talhamar do Labareda fosse agradável, a comida era ruim e os tripulantes fediam.
E eu continuamente me perguntava se estava indo para os braços da morte. Qual era a chance de um inglês inexperiente sobreviver a um ataque a um Forte protegido por três mil homens? Só podia ser piada. Eu devo ter enlouquecido quando aceitei ajudar o Santiago. Por que em mil anos eu o ajudaria?
Pela minha liberdade. Era o que sempre me vinha à mente, numa tentativa de consolo.
Eu me sentia sozinho naquele navio, sem a Nena. Ela não estava conosco, Fradique também não, havia escutado meu conselho de ir atrás dela. Eu esperava que algum dia ele me agradecesse por eu ter-lhe ajudado a conseguir a garota, mas duvidava que isso viesse a acontecer.
Ainda havia Terrence, meu único amigo, mas até ele estava indignado comigo, e me olhava torto como os outros piratas. Não nos falamos desde a nomeação, e ele estava mais carrancudo do que nunca. E tudo por culpa do Santiago, o bastardo. Ele dizia que eu deveria agradecer a ele, pois agora eu não precisava mais lavar o convés e ficar na cozinha aguentando aquele cheiro de comida gordurosa. Era nesses momentos únicos que eu sentia aquela vontade peculiar de jogá-lo aos tubarões.
Eu era Imediato do navio agora.
E, por isso, todos queriam minha carne inglesa servida no jantar.
XxX
Dois dias antes...
Apertei os olhos para o sol forte, enquanto meu olhar pairava sobre o Labareda. Era um navio impressionante, o maior entre todos que repousavam na baía esperando voltar para alto-mar. As velas estavam recolhidas, mas quando abertas pareciam tomar os céus para chegar às alturas. Lembrei de quando estava no Víbora do Mar, justamente o navio do inimigo do Santiago, e vi a enorme bandeira de caveira sendo içada no momento da fuga.
Naquele fatídico dia, eu imaginava que deixaria o Caribe e voltaria para Londres em questão de semanas, de volta à vida a que eu estava acostumado. Se eu pudesse adivinhar, na época, o que me aguardava... Eu jamais teria deixado a Inglaterra. Estremeci ao pensar em tudo o que me aguardava. Inúmeras dúvidas ainda pairavam em minha mente, tais como: qual seria o meu papel naquela vingança? E qual era o motivo dessa vingança? O que havia no passado do Santiago e os irmãos, e no passado da Nena? Por que eles queriam reunir os tais quatro anéis? O que o anel que o Santiago roubara era capaz de fazer? E teria o meu anel algum poder além de curar e salvar alguém das garras da morte? E não parava por aí. Mas se eu fosse listar todas, perderia o dia me afogando em ponderações e dúvidas.
Eu também gostaria de saber o que havia acontecido com meu pai. Ele chegou a se importar por eu ter sido raptado? Pensava em me resgatar, ou eu seria um peso a menos em suas costas? Ele sempre havia deixado bem claro que eu era uma pedra em seu sapato, um parasita que criava rombos na herança da família. Talvez ele até estivesse feliz em ver-se livre de mim. Apertei a mandíbula, com uma vontade imensa de provar que eu poderia ser muito mais do que um parasita vagabundo.
Fui acordado dos meus devaneios com uma voz grave próxima ao meu ouvido.
“Com medo do que vem pela frente?”
Pulei para frente, fugindo da presença desconcertante às minhas costas e me virei com a expressão o mais indiferente possível. Santiago pela primeira vez me pareceu vestido com a pompa de um líder: calças de tecido negro e botas de couro que se enrugavam até a metade das panturrilhas grossas; um colete vinho-escuro sobre a camisa branca; um cinto invejável no qual espada e armas se engatavam; e – para completar o conjunto – um longo casaco negro que alcançava os joelhos e ficava com os botões vermelhos displicentemente abertos. Usava também um chapéu em meia-lua com uma caveira infame, idêntica à que ondulava na bandeira do Labareda.
Instintivamente acariciei meu anel. Era impossível não se sentir intimidado frente ao Santiago e todo seu ar de capitão cruel de um navio pirata, mas é claro que eu não demonstrei qualquer perturbação ao encará-lo. Cruzei os braços sobre o peito e abri um sorriso escarninho no canto dos lábios.
“A despeito do que um iletrado como você possa pensar, não considero o medo um sentimento vil, visto que é algo inerente ao homem e uma forma de auto-preservação. Não que alguém como você vá entender a diferença entre medo e covardia.” Torci o lábio. Eu não sabia por que sentia tanta vontade de aborrecer o Santiago. Se eu tivesse o mínimo senso da tal auto-preservação, tentaria ao máximo não irritá-lo, porém as vezes em que ele havia me humilhado consumiam meu orgulho como cupim devorando madeira. “Mas eu não estava pensando em meus medos. E sim em como será desagradável passar tanto tempo no mesmo navio que você.”
A expressão dele continuava debochada, deixando claro que as minhas palavras não o haviam atingido em nada, e isso apenas serviu para que eu experimentasse um princípio de irritação entalar-se em minha garganta. Ele deu um passo para frente, tentando me intimidar com a altura superior. Eu não era baixo, mas precisava erguer o queixo para olhar-lhe o rosto.
“Você se acha muito espertinho falando bonito para um iletrado, mas enquanto seus latidos de cachorro abandonado são apenas teoria, qualquer um no meu navio compreende na pele o que você diz ser a diferença entre medo e covardia. Porque você ainda não provou se é capaz de enfrentar o medo que uma batalha em alto-mar provoca, ou mesmo o medo de uma tempestade jogando ondas de dez metros de altura contra você. Quando você provar que é de algum valor, vou dar mais atenção aos seus latidos.” Santiago segurou meu rosto, encaixando os dedos na minha nuca e o polegar na curva do meu maxilar. Puxou-me até que sua respiração quente atingisse minha boca. “E quanto a passar todo esse tempo comigo no mar, sei que vai adorar, ainda mais dormindo em meus aposentos.” Abriu um sorriso sádico. Arregalei os olhos, meu queixo caindo ligeiramente enquanto eu tentava processar a informação repentina. E absurdamente desagradável.
“Você bebeu todo o rum dessa ilha?” Perguntei, afastando rudemente a mão dele do meu rosto. “É a única explicação para achar que eu vou dormir com você! Isso, ou andou cheirando o que não devia.” Olhei ao redor, para o porto onde os piratas carregavam o navio, preparando-o para a partida, em busca de alguém que concordasse com o absurdo daquela ideia. Obviamente ninguém estava prestando atenção e, mesmo se estivessem, não se importariam. Na verdade, pude jurar ver alguns rindo da minha cara.
“A Nena não vai no Labareda. É melhor você ficar nos meus aposentos, do que em algum cubículo com outro pirata.” Santiago cruzou os braços sobre o peitoral largo.
“Como assim a Nena não vai no Labareda?” Voltei o olhar para ele.
“Ela vai em outro navio, de um homem chamado Fajardo. É o capitão do Rosa Negra.” Informou Santiago, com enfado. “Ele vai ajudar na tomada de Chagres.”
“O quê?!” Exclamei, exasperado. “Você desconfia que eu possa ser o traidor, quando algum capitão dono de um navio com nome de flor vai ir junto? E se tentar algo contra a Nena? Como é que vai ser? Ele pode transformar ela em uma prisioneira!”
Como eles podiam ser tão burros?
“E quem disse que eu desconfio apenas de você?” Santiago deu uma de suas respostas ásperas. Eu teria retrucado, mas justamente o motivo da discussão resolveu aparecer, chegando ao porto com a fivela na cintura carregada com duas armas e uma espada de lâmina fina e uma pose de quem não tem nada a temer no mundo. Nena era o tipo de mulher que parecia sempre pronta para quebrar a cara de algum engraçadinho.
Junto com ela, vinha um homem alto, vestido de maneira similar ao Santiago, porém com roupas em tons marrom e livre de chapéu. Tinha um aspecto um tanto assustador, para falar a verdade. A estrutura corporal era como a de Noel, mas seu rosto denotava muito mais agressividade do que a do irmão mais velho do Santiago. Havia um furo no queixo de maxilar largo. As sobrancelhas eram negras e tão finas, que parecia não tê-las, o que apenas acentuava a testa proeminente. O cabelo preto e curto surgia cortado em tiras que deixavam partes de seu couro cabeludo aparecendo.
“Fajardo não vai fazer nada contra mim, Dominic.” Nena já chegou avisando sem nem ao menos cumprimentar. “Eu já trabalhei com ele, por dois anos.”
Santiago pareceu-me irritado frente a tais palavras. Fajardo analisava-me com certa curiosidade, mas logo me ignorou e se voltou para o capitão do Labareda.
“Desde que você cumpra sua parte do acordo, Terror dos Mares,” Ele usou o apelido com certo ar de troça. “Não tem por que desconfiar de minha lealdade. Eu, pessoalmente, desconfiaria da do desgraçado do Emanuel. Como pôde pedir ajuda àquele filho da puta?”
“Se sua ajuda valer de alguma coisa, você terá sua parte do trato. Meu interesse em Chagres não é ouro, nem prata.” Santiago replicou, mantendo um olhar cheio de ameaças veladas para cima de Fajardo. “E eu não lhe devo explicações. Você aceitou minhas condições, então aja como o cão obediente que é e não me torre mais a paciência.”
Nena suspirou em meio àquela batalha de egos e jogou os cabelos volumosos para trás.
“Hombres.” Disse Nena estafada, e sorriu-me, pegando-me pelo braço e me afastando um tanto daqueles dois. “E então? Como você está? Vou sentir a sua falta; sempre achei engraçados os teus ataques de indignação e auto-piedade.”
“Eu não tinha nenhum ataque!” Reclamei, mas ciente de que ela falava aquilo brincando. “Será que não tinha como eu ir com você, no Rosa Negra?” Tentei.
Nena ergueu uma sobrancelha.
“Estás loco? Eu não vou arranjar briga com o Santiago tentando convencê-lo a deixar você vir comigo. E você estará mais seguro no Labareda. Os piratas sabem que você é do capitão e não vão se engraçar mais contigo. Muitos também lembram do que você fez com o bosta do Paco.”
“Eu não sou do capitão.” Falei por entre os dentes cerrados, o que arrancou uma risada dela.
“Que seja. Você entendeu o que eu quis dizer. Está melhor no Labareda.” Deu palminhas supostamente consoladoras em meu ombro. “E agora deixa eu ir lá tirar aqueles dois trogloditas de perto um do outro antes que eles acabem se matando. Emanuel já partiu mais cedo, acredite, é um homem desagradável que você teve sorte em não conhecer. Fajardo e eu vamos partir na frente, e nós nos veremos apenas em alguns dias, na primeira ilha que pararemos para uma reunião e para planejar melhor o ataque a Chagres.” Informou ela.
Nena fez menção de se afastar, mas eu a segurei.
“Nena, espera.” Ela me olhou. “Por que você trabalhou dois anos com o Fajardo? Pensei que você e o Santiago fossem como unha e carne.”
Ela imediatamente adquiriu uma expressão sombria, deixando claro que aquele era um assunto delicado. Com os lábios torcidos, apenas disse:
“Pergunte para o Santiago. Se ele ao menos tiver a coragem de admitir a você o que fez, vai te responder. Até é bom que saiba dessa história, Dominic, para ter melhor noção de com que tipo de pessoa que você está se envolvendo.” Havia certa amargura no tom dela, e eu a olhei com uma grande confusão preenchendo meu peito. “Santiago não tem a fama de cruel por nenhum motivo.”
Nena foi até Fajardo e Santiago, que pareciam imersos em alguma discussão acalorada. Pareciam ser aquele tipo de parceiros que se odeiam até o último fio de cabelo, mas que no fundo têm um respeito mútuo e uma espécie estranha de amizade. Percebi isso quando os dois trocaram um abraço firme, deram tapinhas um nas costas do outro, e se despediram.
Nena também abraçou Santiago, e então ela e Fajardo seguiram para um navio próximo ao Labareda. Tinha o casco negro e a bandeira de uma rosa ensanguentada e cheia de espinhos. Parecia-me impossível, mas o desenho conseguira transformar um rosa em algo sanguinário e sombrio.
“Eu não acredito que ela vai mesmo no navio daquele homem.” Ouvi a reclamação vinda das minhas costas e, virando-me, deparei-me com Fradique apoiado no Labareda, uma perna dobrada com o pé apoiado no casco e os braços cruzados. Seu semblante mostrava-se aborrecido e miserável, uma mistura estranha de sentimentos.
“Não confia em Fajardo?”
Ele fez um som de escárnio.
“Fajardo já nos ajudou antes e sempre cumpriu com a palavra dada.” Fradique torceu a boca.“Mas o fez porque é um fantoche da Madalena. Ele a adora, deve até amá-la, seria leal a ela como um cachorrinho abanando o rabo para o dono. E não duvido que ela se aproveite disso para conseguir o que quer.” Ele disse cheio de ressentimento, os olhos verdes brilhando.
“O que vocês querem.” Corrigi. “O objetivo da Nena é o mesmo que o de vocês.”
“É, mas para chegar a esse objetivo ela não precisava abrir as pernas para aquele monstrengo imbecil.” Fradique fungou.
“Está com ciúmes?” Perguntei com zombaria. Me pareceu óbvio. Aquela careta de ofendido dele deixava transparecer o quanto ele estava se corroendo por dentro. Ele me encarou atônito; então gritou furioso.
“Não comece a falar merda! Eu não acho divertido como o meu irmão!” Soava como uma criança ofendida por ter seu grande segredo revelado. Desencostando-se do navio, Fradique pegou a mala de couro marrom ao seu lado no chão e foi em direção à prancha de embarque. “Por mim você teria sido esquecido desacordado nessa ilha!”
Bufei. Eu constatava o óbvio e levava patadas.
“Se quer continuar na negação, o problema é teu! Deveria ir também no Rosa Negra e tentar conquistá-la em vez de ficar aí se lamuriando pelos cantos feito um covarde com medo de mulher!” Briguei em retorno.
“Vá se fuder!” Ele gritou; no entanto parou, olhando para a prancha do Labareda por alguns segundos antes de seguir reto em direção ao Rosa Negra. Eu sorri comigo mesmo, divertido, perguntando-me se seria possível que a Nena retribuísse os sentimentos dele. Não que eu me importasse muito.
“Obrigado. Eu acabo de perder meu segundo Imediato para o Fajardo por sua culpa.” Santiago estava de novo próximo a mim e mais do que nunca sua voz era repleta de ironia.
Dei de ombros sem olhá-lo.
“Eu só dei uma sugestão. Ele a acatou por vontade própria.” Falei, calmo. “E eu vou continuar no mesmo quarto de antes, com o Reno.”
“Não vai não.”
“Vou sim!” Perdi a paciência. “É mais seguro do que ficar com você, que só quer aproveitar essa proximidade para abusar do meu corpo à noite.” Soltei e de imediato senti minhas bochechas queimarem pelo deslize em gritar aquilo para quem quisesse ouvir. Santiago abriu aquele sorriso sacana e se aproximou, aprisionando-me rapidamente entre seus braços musculosos assim que minhas costas bateram contra o torso musculoso.
“E quem disse que eu preciso esperar até a noite para abusar do teu corpo?” Perguntou em um sussurro rouco, os lábios roçando em minha orelha. Um arrepio desceu pela minha espinha e o sangue retumbou em meus ouvidos pela frequência cardíaca alterada.
Eu estava para responder algum desaforo, quando um estridente e arrastado “Dominic!” me interrompeu e Santiago me largou, por puro reflexo. Descendo as escadarias que levavam ao caótico cais, vinham duas mulheres e Noel. A mulher que corria à frente era Elisa e, num instante, ela já se jogava em meus braços. Sem alternativas, do contrário cairíamos ambos no chão de terra batida, eu a segurei em um abraço protetor.
“Ah, Dominic! Eu vou sentir tanto a sua falta!” Ela exclamou manhosa, seus cabelos loiros abundantes emoldurando o rosto cheio de devoção. “Eu cheguei a ir te visitar ontem, mas você havia saído a cavalo com a Nena! Ah, Dom-Dom, queria tanto que pudéssemos nos despedir em um lugar mais reservado... Você é tão incrível na cama...” Ela deslizou um dedo pelo meu peito, praticamente me devorando com o olhar libidinoso. Apesar do apelido absolutamente indigno que ela me deu, eu já estava sorrindo todo galante e de ego-inflado.
Mas é claro que o Santiago teve de estragar o momento. Ele segurou a Elisa pela parte de trás do vestido, afastando-a de mim e a deixando praticamente sem tocar os pés no chão.
“Hei, solte-a, Santiago!” Exigi depois do grito de susto que ela soltou.
“Santiago, me solta! Ficou maluco! Deixa eu me despedir do meu Dom-Dom!” Elisa se debateu, irritada. Ignorando-nos, mas sem soltar a Elisa, Santiago se dirigiu ao irmão.
“O que você está fazendo aqui, Noel?” Seu tom era duro.
Noel tinha um bornal a tiracolo e, depositando um beijo na mulher ao seu lado, que estava com os olhos cheios de lágrimas, ele deu um passo para mais perto do irmão.
“Eu vou com você. Esmeralda me convenceu de que é o certo a se fazer. Por mais que eu não queira deixar o meu filho para trás, também não posso deixar meus irmãozinhos sozinhos nessa empreitada, ainda mais agora, quando estamos mais perto do que nunca estivemos de vingar nossos pais e nossa irmã.” Noel colocou uma mão sobre o ombro do Santiago. “Me desculpe por ter abandonado vocês nesses últimos dias, Santi. Isso não vai se repetir. E, assim que tivermos derrotado o filho da puta do Aguirre, voltarei para a minha mulher e filho e comemoraremos todos juntos a nossa vitória!”
Sem esperar qualquer palavra do irmão, Noel abraçou o Santiago. Uma lágrima solitária escorria pelo canto dos olhos dele; era estranho ver um grandalhão daqueles chorando, mas a sinceridade nas palavras e no gesto, enquanto Santiago largava a Elisa e retribuía o abraço depois de alguns segundos de hesitação, acabou mexendo um pouco comigo. Como filho único, eu não sabia como seria aquele sentimento compartilhado entre irmãos e, pela primeira vez, desejei entender.
Afastei a ideia tão logo Elisa me abraçou, ainda olhando feio para o Santiago.
“Obrigado, irmão.” Ouvi o Santiago murmurar. “Sei o quanto se importa com a família, e como deve ser difícil escolher entre teus irmãos e teu filho e mulher...”
“Não estou escolhendo entre nenhum de vocês.” Noel se afastou, sorrindo. “Porque nós vamos voltar e assim teremos construído um mundo melhor para o meu filho, a minha mulher e para os teus futuros filhos e os do Fradique com a Nena também.”
Eu ri disso. Ao que parecia, eu não era o único a perceber os sentimentos do Fradique pela Nena. Lembrei que havia sido ele a resgatá-la na tal batalha que houve em Port Royal, isso deveria ter criado um vínculo.
“Cuide dele, ouviu?” Esmeralda, com a barriga já proeminente, demandou ao Santiago. “Não deixe ele morrer, ou senão eu mesma te mato.” Apontou o dedo para ele e então escondeu o rosto entre as mãos para voltar a chorar. Noel foi consolá-la, abraçando-a, enchendo-a de beijos e acariciando a barriga por sob o vestido simples.
“Cuide bem dele você também. Não quero ver minha amiga deprimida.” Elisa me avisou e deu-me um beijo casto na bochecha. “Boa sorte, Dom-Dom.” Se afastou rapidamente antes que o Santiago voltasse a dependurá-la pela gola do vestido.
Foi nesse momento que o Labareda ficou pronto para partir.
E nós embarcamos, deixando Tortuga para trás.
XxX
“Homens! Quero todos no convés, agora!” Santiago demandou, com uma voz retumbante que pareceu ecoar pelos sete mares. Franzi a testa, me mantendo próximo, mas não evidente. Fiquei apoiado ao mastro da vela principal, perto o suficiente para escutar, longe o suficiente para não ser incomodado. Minha sacola de tecido ainda estava comigo, já que eu me recusava a me acomodar nos aposentos do Santiago.
Reno disse sentir muito, mas Santiago o havia proibido de deixar-me ficar no mesmo quarto que ele. Naquele momento, eu fulminava Santiago com o olhar, meus braços cruzados sobre o peito. Ele estava na proa, mais alto do que todos no convés, como se fosse um soberano falando a seus súditos.
“Nena, nossa Imediata, não vai navegar conosco nessa viagem. Foi ficar de olho no bastardo do Fajardo, cuidar para que o filho da mãe não se borre nas calças e desista pelo caminho, talvez.” Santiago sorriu de lado, e a piratada riu e soltou uns palavrões contra o Rosa Negra.
“Fradique também está no Rosa Negra. Ele seria minha escolha na ausência da Madalena, pois meu irmão Noel não quer nem saber de aturá-los e tentar colocar alguma disciplina nessas suas cabeças de vento.” Santiago falava brincando. Recebeu alguns xingamentos amigáveis em retorno, outras risadas. Era incrível como ele conseguia ser carismático quando queria. Dava para ver o quanto os homens gostavam de tê-lo como capitão.
“Até que não seria nada mal ser Imediato. Eu não aguento mais ficar sempre todo sujo de pólvora e limpar a merda dos outros.” Terrence apareceu do meu lado, palitando um dente. Ainda estava limpo, assim como a maioria ali, mas aquilo não duraria. Em breve, todos federíamos.
“Tenho muitos homens de confiança nesse navio, muitos que já estão comigo há muitos anos e mostraram seu valor. Eu sou um capitão de sorte por ter um leque de escolhas tão grande.” Os homens berraram, satisfeitos com o elogio. “Mas tomei uma decisão que possivelmente desagradará a muitos de vocês, mas acreditem quando digo que tenho meus motivos, e que eles são fortes. Peço, como das outras vezes, que confiem em mim. Se o fizerem, voltaremos ricos para casa e vocês poderão se encher de rum e gastar toda a prata com prostitutas de novo.”
De novo eles ovacionaram, ansiosos sobre quem seria o novo Imediato. Até eu estava curioso, apesar de não ter me prestado a conhecer todos os tripulantes do Labareda. Nenhum me despertava grande simpatia e, até então, eu era o prisioneiro que quase matara Santiago e continuava vivo. Eles, na verdade, me odiavam por essas regalias. Não entendiam o que eu continuava fazendo naquele navio.
“O novo imediato desse navio é Dominic, o inglês.” Dito isso, Santiago saiu, sumindo após a declaração, deixando-me para ser devorado pelos leões.
O meu queixo caiu. Ou melhor, despencou, quebrando-se no chão. Os piratas, aqueles gigantes mal-encarados começaram a se virar para onde eu estava, e suas expressões eram uma mistura de crueldade, raiva e desejo de sangue. Até mesmo Terrence me olhava com certo despeito. Engoli em seco, entendendo muito bem o que Santiago estava fazendo.
A ideia dele não era me prestigiar, mas me colocar numa situação péssima dentro daquele navio, pior do que já era. Agora obviamente seria mais seguro dormir nos aposentos dele. Ou melhor, seria mais seguro não sair de perto dele, se eu não quisesse ter uma faca enfiada nas vísceras na calada da noite. Ou em pleno dia mesmo.
Eu jurei que iria morrer naquele instante, enquanto era fulminado por olhares selvagens. Tentei abrir a boca e falar alguma coisa, mas o que saiu foi um som engasgado. Eu ainda estava perplexo com tudo aquilo. Como Santiago poderia ser tão filho da puta em dar uma notícia daquelas e simplesmente sumir?
“Devíamos arrancar a língua dele, quero ver como vai ser Imediato sem ela.” Os sussurros maldosos começaram.
“Eu não vou aceitar ordens de uma boneca de merda. Eu até aceitava a Nena, ela provou ter valor, mas esse frangote, já é pedir demais.”
“O Santiago perdeu o juízo. Comeu da bunda desse puto, achou muito bom, e resolveu colocá-lo de Imediato. É a maior injustiça que já escutei. Estou nesse navio há mais tempo que o próprio Santiago!” Outro falou mais alto. Os piratas começaram a alteras as vozes, de repente não se entendia mais nada do que falavam, e eu continuava ali, estático contra o mastro de madeira, com meu coração retumbando nervosamente.
Eles pareciam prestes a iniciar um motim. Santiago havia mesmo enlouquecido se não previra algo desse tipo. E onde estava Noel e suas toneladas de músculos quando se precisava dele? Ele podia me ajudar e sair dali vivo!
Eu sentia que, se tentasse falar qualquer coisa, receberia um tiro no meio da testa.
“JÁ CHEGA!” alguém gritou, saindo do meio dos outros piratas e caminhando até estar ao meu lado. “Vocês ouviram o capitão de vocês. Esse é o desejo dele e vocês devem acatar. Iniciar um motim agora só encherá esse navio de sangue, e teremos irmãos mortos à toa! Santiago pediu pela confiança de vocês, e vocês a deram, agora cumpram com as suas palavras, se não quiserem ser vistos como traidores baixos que vão contra o capitão que os tornou ricos e reconhecidos!”
Eu olhei para o pirata. Era alto e de longos cabelos negros entrelaçados grosseiramente. Tinha sobrancelhas negras grossas e barbicha proeminente em um rosto marcado por uma barba por fazer escura. Não era velho, um pouco mais de trinta anos, talvez. Suas mãos eram repletas de tatuagens, uma em cada dedo. Era forte, mas muito menos do que vários ali. Sua voz, entretanto, era confiante e poderosa. Os homens se calaram por alguns segundos, para voltarem a cochichar, menos agressivos do que antes.
Aos poucos eles se dispersaram, sob o olhar firme e sério do pirata que falou em meu favor. Assim que as coisas ficaram mais calmas, ele se virou para mim. Não sorriu, nem demonstrou qualquer espécie de aprovação. Na verdade, parecia me odiar como qualquer outro ali.
“Vá para os aposentos do Santiago e não saia de lá antes que os homens esfriem a cabeça.” Ele demandou, numa ordem que teria me irritado pelo tom. Mas eu estava tão abalado que apenas assenti e me desencostei do mastro, pegando minha sacola. Antes que eu me afastasse, ele segurou meu braço.
“É bom que prove ter algum valor, inglês. Ou eu mesmo darei um jeito de sumir com você e convencer Santiago que se jogou ao mar por ser covarde demais para essa vida.” Ele rosnou, num sibilo. Segurava meu braço de tal maneira que eu já o sentia latejar. “A propósito,” Sorriu. “Meu nome é Garuda, o pássaro.”
Soltou-me com um empurrão e afastou-se pelo convés, descendo para o deque. Eu olhei ao redor, reparando que alguns dos piratas pareciam afiar suas facas, e decidi me apressar para os aposentos do Santiago. Eu esperava que ele não estivesse lá, mas, para minha infelicidade, ele estava.
Olhando tranquilamente para o mar através do vidro da ampla janela, Santiago parecia muito satisfeito consigo mesmo. Caminhei até o centro do cômodo batendo os pés, para atrair sua atenção, o que nem era tão necessário assim, já que no instante seguinte, eu berrava.
“QUAL O SEU PROBLEMA?!?”
Santiago se virou lentamente, fazendo-se de surpreso, mas seus olhos não escondiam o sarcasmo e a diversão. Eu queria chorar de tão indignado que estava.
“Por que fez isso? Quer que teus homens me matem? Eu nunca pedi para ser Imediato!!! Eles querem meu couro e eu vou morrer por sua culpa!” Exclamei, olhando em volta em busca de algo para jogar na cabeça dele. Santiago cruzou os braços sobre o peito, reflexivo.
“Precisava me certificar de que eles são mesmo fiéis e não fariam um motim. Haverá uma traição e isso me preocupa. Noel e Angus estavam a postos caso algum deles se rebelasse, nada iria acontecer com você. Eu também estava de olho.” Santiago disse com uma certeza absurda.
“Nada iria acontecer comigo? Você é burro ou o quê? Eles estavam todos armados, um movimento e eu estaria morto! Noel e esse tal de Angus morreriam junto, se houvesse um motim. Por que arriscar tudo desse jeito?” Perguntei.
Santiago caminhou até uma poltrona se sentou, encarando-me.
“Você vai ter que ganhar o respeito deles, Dominic. Eles não entendem que você é importante para o que enfrentaremos pela frente. Por isso você vai ter de comprovar. Aqueles homens já provaram várias vezes o próprio valor.” Disse Santiago.
“Você deveria ter escolhido algum deles, então!” Disse, nada honrado com o título, e tampouco feliz com a necessidade de fazer algo para merecê-lo. O que eu poderia fazer, afinal? Eu provavelmente seria assassinado antes de conseguir tal feito.
“Por incrível que pareça, não me sentiria confortável em nomear nenhum deles, ainda mais porque isso é temporário, e não quero problemas mais tarde, com disputas entre Imediatos. Assim que essa viagem terminar, Nena voltará para esse navio.” Santiago explicou, ainda calmo, a despeito do meu estado de nervos.
Acabei me acalmando também. Fazia sentido, mas ainda não era o suficiente para justificar aquela atitude. Santiago gostava de me sacanear, essa era a explicação mais plausível.
“Você poderia ter nomeado o Noel.” Resmunguei por entre lábios torcidos.
“Não. Meu irmão não queria o cargo, ele não sabe dar ordens a ninguém e, mesmo com aquele tamanho, é muito frouxo pela bondade. Ele é ótimo e valoroso em muitos aspectos, tem um caráter do tamanho do Atlântico, mas é tolo e ingênuo demais para o resto.” Santiago declarou, com a mesma seriedade. Não tirava sarro do irmão, apenas atestava um fato.
“Que amor de irmão você é.” Impliquei mesmo assim. “Bom saber que você não me acha tolo e ingênuo, capitão.” Ironia escorria pelos meus lábios feito veneno. Santiago sorriu falsamente em retorno. “Qual sua sugestão, então, para conquistar aquele bando de piratas sanguinários?” E acéfalos, complementei em pensamentos.
“Isso é problema teu. Eu já te livrei de esfregar o convés de quatro. Agora, se vire!” Santiago se ergueu e começou a caminhar em direção à porta, mas eu o segurei pelo braço.
“Isso vai ter volta, Santiago.” Rosnei. Minha mente era um festival de todos os tipos de tortura naquele momento, todas direcionadas ao capitão. Quando eu achava que não poderia detestá-lo mais, ele dava um jeito de inflamar ainda mais meu ódio.
“Mal posso esperar.” Sorriu de lado.
XxX
Passei o dia nos aposentos do Santiago, as horas se arrastavam e eu cheguei a preferir estar limpando os deques em vez de passar tanto tempo sem fazer nada. Havia alguns livros ali, mas nenhum conseguiu prender minha atenção por muito tempo. Acabei deitando na cama e pondo-me a analisar meu anel.
Como você funciona? Perguntei-lhe em pensamentos. Tentei me concentrar, mas nada aconteceu. Também fiquei repassando as palavras de Raiska, em busca de alguma pista. O anel traria dor. O amanhã guardava tristeza e traição. E no final eu deveria deixá-los pagar. Quem vai pagar e pelo quê? Em Chagres, a primeira traição, mas não a última. Haveria outras. Mas que porra de futuro era esse?
Bufei, fechando os olhos, deixando-me levar pela ondulação suave do navio rasgando os mares com sua acentuada e orgulhosa roda da proa. Acabei adormecendo e sonhando com batalhas em alto mar, um ataque a uma fortaleza gigantesca e imponente. Estranhamente, homens com fardas da marinha inglesa nos ajudavam a invadir.
“Desculpe, Dominic. Eu não queria, mas não podia perder a oportunidade.” Alguém me dizia, um pouco triste. Eu era colocado de joelhos, e eles ralavam no chão, tudo era um caos e um calor nascido dos confins do inferno parecia consumir tudo ao redor.
Acordei suando frio, tremendo e gritando. Alguém segurou meu ombro e meu rosto, sussurrando para que me acalmasse, e eu aos poucos foquei a visão, percebendo que já era noite e eu havia apenas cochilado. Puxei o ar, tentando me recompor.
“Você teve um pesadelo.” Santiago disse, ainda me segurando e afagando meus cabelos, enquanto olhava bem dentro de meus olhos. Coloquei uma mão em seu peito, querendo afastá-lo.
“Obrigado por informar, jamais teria deduzido sozinho.” Repliquei, tão amargo quanto o gosto em minha boca. Havia dormido e mesmo assim me sentia exausto. Santiago não se importou, continuou apenas me olhando, verificando se estava tudo bem. “Como você disse, foi apenas um pesadelo, pode me soltar, Santiago.”
“Com o que você sonhou?” Quis saber, o semblante sério.
“O quê? Por que... Isso não te interessa.” Desconversei e tentei levantar. Não era seguro ficar na cama do Santiago junto com ele. Santiago me impediu.
“É claro que é. Você está usando o anel e, além de curar, não sabemos mais o que ele pode fazer. O anel da Nena a permite vislumbrar o futuro. Talvez o teu também te permita esse tipo de sensibilidade.”
“É claro que não. Foi só um sonho. Adormeci pensando sobre as palavras da Raiska e acabei sonhando com elas.” Falei. O cômodo estava escurecido, apenas a luz de três lamparinas tremeluzia contra as paredes de madeira, como se fantasmas bailassem nas estruturas daquele navio. Estremeci, lembrando-me das chamas em Chagres.
“Como foi? Conte.” Santiago pediu, acariciando suavemente minha mão. Fiquei perplexo com o toque gentil, e talvez isso me tenha feito falar. Contei o que lembrava, já sentindo que os detalhes me escapavam. Santiago continuou sério e pensativo ao final.
“Realmente. É um sonho idiota. A marinha inglesa nos ajudando.” Santiago gargalhou. Eu o empurrei, fazendo-o cair de costas no colchão.
“Você me manda contar e depois ri da minha cara! Eu falei que era um sonho besta...” Murmurei, pronto para me levantar.
E uma exclamação de surpresa escapou da minha garganta quando fui puxado e também caí de costas no colchão. Santiago virou de lado, erguendo-se com o cotovelo e apoiando uma mão ao lado do meu corpo. Seu rosto ficou bem acima do meu. Sorria divertido.
“Não estou rindo da tua cara.” Falou, enquanto colocava um dos joelhos entre minhas pernas. “Quem sabe o que o amanhã nos espera? Talvez a marinha inglesa decida-se por ajudar um pirata que já assaltou, roubou e destruiu vários navios ingleses...”
“Sa-Santiago...!” Gaguejei, quando a coxa musculosa dele pressionou-se entre as minhas pernas. Ele sorriu, como o criminoso que era, e apoiou o outro cotovelo ao meu lado, ficando por cima de mim. Moveu mais a coxa, atritando-a contra mim até me deixar com uma ereção.
Minhas mãos foram para a camisa dele, apertando o tecido entre meus dedos e palma, e fechei os olhos, flexionando uma perna enquanto arqueava o quadril. Meu corpo queimava, e eu não conseguia encontrar forças para empurrá-lo. Senti os lábios ainda mais quentes dele em meu pescoço, e gemi baixo, mordendo o lábio.
“Dominic...” Santiago murmurou, antes de morder de leve minha pele. “Eu não sei se é minha sorte, ou minha sina você ser tão bonito e mexer tanto comigo...”
Não consegui falar nada. Ele escorregou aquela mão áspera para dentro das minhas calças e me tocou descaradamente. Abri os olhos, soltando o ar com força, meu abdômen se contraindo pelo prazer que aquilo me dava. A boca de Santiago deixou meu pescoço, descendo até encontrar o primeiro botão da minha camisa, o qual ele arrancou com os dentes. No instante seguinte, sua boca se fechava em meu mamilo e o chupava com força. O gemido mais alto e indecoroso da minha vida escapou de minha garganta, e agarrei seus cabelos na raiz, mas não fiz mais do que isso. Meu quadril já se movia por vontade própria contra a mão dele, e as luzes das lamparinas pareciam bailar no teto enquanto riam da minha fraqueza.
Num arrombo de impaciência, Santiago colocou-se de joelhos, tirando a mão de dentro das minhas calças, e segurou as laterais da minha camisa, rasgando-a violentamente. Os botões saltaram para os lados, ao passo que minhas mãos voaram para as barras da minha calça, que ele começou a puxar pelas coxas.
“Pare com isso!” Falei nervosamente, com os olhos arregalados. Os olhos de Santiago queimavam em um tom castanho mais negro que o normal e ele chegou a largar minha calça com o pedido. Aproveitei a chance e me virei, fugindo daquele olhar e tentando engatinhar para longe dele, minhas pernas tremiam e eu tinha certeza de que despencaria do colchão caso tentasse sair da cama.
Santiago soltou uma risada da minha posição indigna, voltou a segurar minhas calças por trás e puxou-as em um tranco, deixando-me completamente nu, de bruços, sobre o colchão. Eu deveria rir para não chorar, mas o que fiz foi xingá-lo de inúmeros nomes e me debater quando ele agarrou minhas coxas e me puxou, enlaçando meu abdômen e me colocando sentado em seu colo. Seu peitoral desenhava-se em minhas costas e sua respiração ardeu em meu pescoço quando ele afastou meus cabelos e beijou-me na nuca.
“Por que pararia? Você não quer, Dominic? Eu só vou até onde você quiser, foi o que eu prometi...” Ele murmurou, voltando a afastar minhas pernas para me tocar, acariciando meus testículos antes de deslizar a palma por toda extensão do pênis. “Quer mesmo que eu pare?” Mordeu minha orelha, para em seguida lambê-la.
Gemi feito um sofredor, de lábios entreabertos e olhos fechados, desfalecendo contra o torso musculoso dele. Eu não queria que ele parasse. O prazer era tão intenso que eu não conseguia pensar. Eu podia sentir o falo dele contra meus glúteos, sob o tecido da calça, ansiando por penetrar-me, e isso lançava arrepios pelo meu corpo, ao mesmo tempo em que me assustava.
“Dominic...?” Chamou, querendo uma resposta. Essa veia sádica do Santiago ainda me levaria a tentar matá-lo. Ah! É verdade. Eu já tentei isso.
“Não... Não pare...” Murmurei a resposta que ele queria ouvir, deixando minha cabeça pender para trás e descansar no ombro dele, movendo de leve o quadril. Santiago soltou uma espécie de gemido rouco que mais pareceu um rosnado por ter-me rebolando sobre seu membro rígido e mordeu-me no pescoço.
Foram minutos de tortura para mim, que gemia e arfava pelos toques de meu raptor odioso. Minha respiração era difícil. Eu experimentava uma ânsia terrível por algo mais, que deixava minhas mãos trêmulas e meus pensamentos desconexos. Tudo que eu queria era chegar ao clímax e voltar a fugir de todo aquele tormento.
Antes que eu gozasse, Santiago me virou abruptamente e me deitou sobre a cama. Seu corpo escorregou para fora do colchão, pondo-se de joelhos, e abriu novamente minhas pernas. Meu corpo se contraiu inteiro em um espasmo quando ele mordeu sedutoramente a parte interna de minha coxa, sugando-a em sequência enquanto suas mãos apertavam minhas nádegas.
“Ahn... Bastardo... Maldito... Odeio-te...” Eu murmurava, mordendo o torso da mão, e minhas palavras se tornaram ainda mais incoerentes após o grito abafado que soltei quando Santiago arrastou os lábios até meu pênis e o colocou inteiro na boca. Minhas pernas se fecharam ao redor do pescoço dele e um desejo cru e violento atingiu meu corpo como uma flecha que se finca e espalha seu veneno.
Eu ergui um pouco a cabeça, encontrando seus olhos enegrecidos enquanto ele me devorava daquela maneira obscena. Soltei um gemido baixo, jamais imaginando que acharia tão erótico um homem entre minhas pernas. Maldição. Maldita falta de controle, maldito Santiago e suas mãos ásperas apertando minha carne, maldita língua que me arrasta para o abismo!
“Ah, meus deuses, eu vou... Santiago...!” Eu senti que não tardaria a me derramar na boca dele, porém Santiago se afastou e me girou como uma marionete, colocando-me de bruços. Meus lábios se partiram e o ar saiu turbilhonando de meus pulmões quando ele apartou meus glúteos e resvalou a língua entre eles. Com os cotovelos apoiados no colchão, deixei minha cabeça pender para baixo, os cabelos caindo ao redor de meu rosto como uma cortina rubra, que, entretanto, não abafava meus gemidos.
“Já tinha experimentado isso, Dominic?” Ele perguntou, sedutor, dando-me um tapa na bunda antes de massageá-la com força calculada. Voltou a me lamber, alternando mordidas na carne ao redor. Eu não me dignei a responder, ele sabia que eu nunca havia me envolvido com homens, o bastardo. Devia estar adorando ser o primeiro.
Santiago prosseguiu até que eu escondesse o rosto no colchão e abafasse um grito ao gozar sobre os lençóis. Fiquei ali, jogado de bruços, respirando com dificuldade e constrangido demais para me virar e olhá-lo nos olhos. Mas me obriguei a me mexer quando senti algo tentando invadir-me, um dedo, parecia.
Puta merda!
Me virei rapidamente e o chutei no peito, empurrando-o para o chão.
“Nem se atreva! Não vou deixar você... Você meter teus dedos e muito menos esse teu pau necessitado em mim.” Falei, tentando catar minhas roupas. Minhas mãos tremiam tanto que o ato tornava-se ridículo e hilário a quem olhasse.
“Ah, posso até não satisfazer-me como gostaria hoje,” Santiago falou e estendeu a mão, agarrando meu pulso e me puxando com força para fora da cama. Soltei um palavrão e caí em cima dele, ainda sem roupas. “Mas você vai ter de me dar algum prazer dessa vez.”
“O quê...?”
Santiago inverteu as posições, aprisionando-me entre o chão de madeira e seu corpo e abriu a braguilha da calça. Engoli em seco quando ele colocou o membro anormalmente grande para fora. O que a mãe dele havia feito? Colocado fermento ali durante a gravidez? Santo Cristo! E ele ainda queria colocar aquele monstro dentro de mim!
“Se você espera que eu te chupe...”
“Hoje vamos começar pelo básico.” Santiago falou, pegando meu pulso e levando minha mão até seu membro. Eu mordi o lábio ao sentir a rigidez quente do órgão, e me excitei com o suspiro de prazer que o Santiago soltou próximo ao meu ouvido. “Mova a mão, Dominic.” Ele demandou, num sussurro.
Fechei os olhos, de testa franzida, acabando por obedecer. A respiração candente dele em meu pescoço me fazia cócegas, e um lado sádico em mim gostou do poder que eu parecia ter sobre ele naquele momento, enquanto movia minha mão e arrancava-lhe sons de aprovação. Com a mão livre o segurei pelos cabelos e virei o rosto para que nossos lábios se encontrassem. Eu estava completamente tomado pelo clima erótico, pelo cheiro ocre de tabaco, sexo e luxúria daquele cômodo. Santiago tomou minha boca com uma urgência que chegou a me assustar, enquanto movia o quadril contra minha mão.
Eu comecei a imaginar como seria quando ele se movesse daquela maneira com o corpo encaixado ao meu, possuindo-me, a cena vinha-me à mente, e meu coração se acelerava tanto quanto os movimentos de minha mão, doendo-me no peito. Meus lábios latejavam pelo beijo, minhas costas reclamavam do contato duro da madeira, e eu sentia que estava ficando excitado de novo... Até o momento em que o Santiago gozou em meu abdômen, liberando-se ao som de um rugido gutural. Ele desabou sobre mim, quebrando o beijo e me abraçando forte.
“Santiago...” Chamei. “Você está me sufocando, idiota.” Protestei depois de alguns segundos esmagado embaixo dele.
Ele riu.
“Ainda vou comprovar o que a Elisa fez questão de espalhar pelos quatro quantos do Pétalas de Fogo.” Ele sussurrou contra meu ouvido e então se afastou, levantando-se e ajeitando as calças. E eu ali, deitado nu feito um capacho. Me ergui rapidamente e peguei minha camiseta com os botões arrancados, colocando-a, e indo atrás de minhas calças.
“O que ela espalhou?” Perguntei desconfiado, mirando-o pelo canto dos olhos com a expressão fechada enquanto me vestia. Meu orgulho estava afogado no mar, descendo irrecuperavelmente para as profundezas geladas. Não havia mais resgate e eu sentia que eu só afundaria mais e mais daquele dia em diante.
Santiago veio até mim e segurou minha mandíbula, fazendo-me encará-lo propriamente.
“Que você é ótimo com essa boquinha avermelhada de boneca.” Ele falou, sorrindo de lado, mas seus olhos brilhavam com certa raiva, que me lembrava algo parecido com ciúmes.
“Boneca é a puta que te pariu. Você não vai experimentar nada!” Fiquei vermelho de cólera. Santiago soltou um ‘tsc’ descrente ao soltar-me.
“Você diz isso agora. Antes de Chagres, você se renderá completamente a mim.”
“Esse seu ego insuportável é tão grande e inflado, que eu não sei como esse navio ainda não afundou pelo peso.” Falei irônico, torcendo os lábios, e então contornando a cama e me deitando no canto dela, de costas para onde o Santiago estava. “E não se atreva a tocar em mim enquanto eu estiver dormindo.”
“Não preciso disso, prefiro que esteja bem acordado, ronronando como um gato e gemendo indecentemente como agora há pouco.” Ele replicou distraidamente, retirando a camisa para deitar-se também. “Boa noite.”
“Santiago, quer me fazer um favor? Vá pro inferno, abrace o capeta, e vê se me esquece.”
Ele apenas riu.
XxX
Eu suspirei olhando o mar calmo e aparentemente inesgotável, enquanto lembrava dos últimos dias. Eu já conseguia sair dos aposentos do Santiago, mas procurava não ficar sozinho em algum lugar escuro daquele navio enorme. Havia sussurros desgostos em minha direção, mas eu tentava evitá-los.
Na última noite, eu dormi na poltrona, o mais longe possível do Santiago. Ele não falou nada quanto a isso, apenas me olhou maliciosamente, com aquele sorrisinho no canto da boca que me enervava. Meu corpo estava bastante dolorido pela noite mal-dormida, e implorava por um colchão confortável. Porém, eu tinha medo do que aconteceria caso eu dormisse na mesma cama que o capitão. Meu corpo me traía como uma esposa adúltera toda vez que Santiago se aproximava, por menor que fosse a aproximação, e eu já não conseguia negar o desejo que me incendiava de dentro para fora.
Depois do que havia acontecido na primeira noite no navio, continuar negando seria ridículo demais até para mim mesmo. Eu não queria sentir nada disso, mas sentia. E experimentava minutos inacabáveis de confusão e transtorno por estar deixando-me levar de tal maneira por um homem. Homem! Por que agora, e por que com ele?
Havia ainda, é claro, o pânico relativo à ideia de transar com o Santiago. Acho que qualquer pessoa de bom-senso também não iria querer aquele tronco que ele tem entre as pernas enfiado na bunda! Santiago provavelmente me quebraria em dois. Eu não estava pronto para isso. Ou melhor, nunca estaria!
Aos poucos, a ideia apavorante de me deitar com o Santiago foi substituída pelas palavras da Nena, sobre ele não ter a fama de cruel por nada. Eu ainda não havia tido a oportunidade de perguntar ao Santiago o que ele havia feito para que ela ficasse dois anos navegando no Rosa Negra.
Me virei e o vi guiando o navio, uma mão no timão e a outra segurando uma bússola, que olhou rapidamente antes de guardar no bolso da calça. Estava apenas com uma camiseta branca com gola em V da cintura para cima, deixando parte do peitoral musculoso e bronzeado à mostra.
Eu não deveria estar reparando nisso. Pensei, amargamente.
Caminhei até ele, determinado a tirar aquela história a limpo.
“Santiago.” Chamei, parando bem em frente ao timão. Ele me encarou, a expressão inflexível. “O que você fez para que Nena saísse do Labareda por dois anos?”
Eu pude ler, em seus olhos castanhos, que a pergunta o pegou de surpresa, a ponto de ele ficar vários segundos em silêncio, tomado por lembranças do passado.
Ele não queria me contar.
Mas eu arrancaria a verdade de Santiago, quisesse ele ou não.
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