Mar De Fogo
12 Crime
Notas iniciais
O navio mergulhou numa névoa densa e esbranquiçada, como se uma nuvem o houvesse engolido. Foi tão repentino, que me assustei com o sumiço de tudo ao redor, deixando apenas o timão e a silhueta de Santiago ao alcance de meus olhos. Nem mesmo meus pés eu pude enxergar. Por reflexo, estiquei meu braço e segurei o cotovelo do Santiago, em busca de um porto seguro que me impedisse de também sumir entre a névoa, ou perder-me naquele manto etéreo.
“Isso não é algo que você precise saber.” Santiago disse, despertando-me de meu assombro, e eu mal pude ver a expressão em seu rosto, apenas suas mãos, que viravam o timão à boreste. “A Nena não deveria ter falado sobre isso com você.”
“Tem medo de me contar?” Perguntei baixo, apertando os olhos. “Foi algo tão cruel assim que se envergonha?”
Os olhos castanhos voltaram a fixar-se em meu rosto, podia ver os orbes escuros através da brancura que o rodeava, e me perguntei se seriam meus cabelos que me denunciavam entre a neblina. Não me intimidei com o brilho cáustico nos olhos dele e continuei em silêncio, no aguardo de uma resposta. Eu sentia que estava mexendo com algo delicado, mas eu já estava metido nessa história até o último fio rubro de cabelo! Que eu soubesse de tudo, então, e conhecesse mais sobre aquele a quem eu deveria ajudar.
“Houve um desentendimento. Eu fiz algo do qual ela não concordou e por isso ela saiu do navio. Acontece nas melhores famílias.” Santiago disse, meio irônico, e prendeu o timão para que permanecesse na mesma direção. Mas havia algo além de ironia em seu tom que não consegui identificar com exatidão, algo como... Arrependimento.
Ele tirou minha mão de seu braço e a segurou entre a dele, puxando-me um pouco para perto, de modo que eu pudesse ver melhor seu rosto de traços fortes, de uma expressão carregada e fechada para minha indagação.
“É tudo que você precisa saber.” Afirmou.
“Você pode não querer me contar, mas sabe que eventualmente acabarei descobrindo. Estou envolvido nessa história até a alma, e falo sério, porque minha alma parece ter-se ligado a esse anel. Eu estou te dando a chance de me contar com suas palavras, e não de outros.” Falei brandamente, minha voz ainda baixa. Era como se falar alto fosse proibido em meio às brumas gélidas, cuja umidade já começava a atravessar minhas roupas e carne, tentando congelar os ossos.
Santiago abriu um sorriso diferente. Não era exatamente debochado, ainda que carregasse certa zombaria, era apenas diferente. Os dentes dele eram ligeiramente amarelados pelo tabaco, porém isso não deixava o sorriso menos atraente e magnético. Ele me puxou para mais perto, com uma força branda, e me empurrou contra a roda de leme.
“Eu não quero que você se meta nesse assunto. É passado, e o passado deve ficar no passado.” Argumentou, inclinando-se para perto. Minhas costas estavam apoiadas contra madeira e as mãos dele apoiadas nos cabos do timão.
“Não. O passado pode ensinar muito sobre o futuro. Pode parecer idiota, mas tudo isso que estou passando agora me faz olhar para o meu passado de maneira diferente, me faz ver coisas que eu não percebi antes e aprender com elas, pois me dão indícios de como devo ou não prosseguir daqui para frente.” Principalmente como não devo prosseguir, pensei, lembrando de todos os sermões sobre irresponsabilidade que recebi do meu pai. Santiago permaneceu quieto, escutando-me pela primeira vez com verdadeira atenção.
“Se o que te preocupa é que eu te julgue, não precisa, porque te julgar mais do que eu já julgo, seria algo impossível!” Ironizei, abrindo um sorriso torto passageiro. Eu falava sério, não estava perguntando para meter o dedo na cara dele. Não era como se meu passado fosse dos mais limpos, aliás.
Ele ficou vários minutos encarando-me, tentando ler o que se passava em minha mente através dos meus olhos azuis. Demorou até sua expressão endurecida suavizasse. Era como se apenas eu e Santiago existíssemos num raio de centenas de quilômetros, perdidos, flutuando acima do mundo dos homens. As ondas fracas do mar calmo e o som rasante que o casco do navio fazia ao atravessá-las eram, entretanto, o sinal de que continuávamos navegando, presos àquelas águas profundas.
Para minha surpresa, Santiago acariciou distraidamente meus cabelos, entrelaçando os dedos entre os fios e escorrendo-os por eles de um modo que me surpreendeu pela suavidade. Seu olhar perdeu-se, distante. Aquele toque, que me pareceu muito mais íntimo do que todos os outros toques combinados, mesmo os normalmente compartilhados numa cama, me deixou sem saber o que dizer.
“Sei que vai.” Murmurou. “Qualquer pessoa de bom coração o faria.”
Sem mais palavras, ele se afastou. As solas das botas de couro estalaram no chão de madeira, enquanto ele sumia entre a neblina cerrada, deixando-me ali, desamparado, piscando repetidamente os olhos na tentativa de enxergar através da bruma, e além de meus próprios conceitos.
XxX
Demorou para que a névoa sumisse. Nesse meio tempo, tudo parecia calmo demais, como se navegássemos em um mar de mortos e, ainda encostado ao timão, eu me perguntava quando um fantasma apareceria para assombrar o navio.
Foi quase isso que aconteceu.
Quando eu me virei para tentar ver o que havia à frente, reprimi um berro que teria me transformado na chacota do navio por toda a eternidade em que eu teria de permanecer nele. Já não bastava que me chamassem de boneca. Eu seria então Dominic, garganta profunda. Mas eu tinha um bom motivo, acho.
Raiska estava parada apenas a alguns metros, na ponta do navio, com os braços finos caídos ao lado do corpo e a expressão tão séria quanto era possível para um rosto vendado. E humano. Sinceramente, naquele momento ela se parecia mais com um demônio saído das profundezas do mar.
“Raiska.” Falei em um sussurro impressionado. Eu quase perguntei se ela iria tentar me engolir inteiro novamente, mas meu lado racional felizmente apareceu há tempo e me mandou calar a boca. Raiska sorriu lentamente, mostrando os dentes perfeitos, como se lesse meus pensamentos e achasse graça deles. Eu gostaria de entender por que tanta gente parece me achar digno de risadas nesse maldito Caribe...
“Está para enfrentar grandes desafios, Dominic, antes de chegar a Chagres. Ah sim... Está sim.” Ela disse e, para meu espanto, não havia movido um músculo. Parecia me observar através da venda manchada como alguém cujos olhos estivessem livres jamais seria capaz, e tal análise deixava os pelos de meus braços e nuca arrepiados pelo desconforto. Sua boca continuara estática naquele sorriso astuto, o que me permitia entender que eu a havia escutado apenas em minha mente.
“Grandes desafios...” Repeti, franzindo a testa. “E vai me dizer quais, ou vai continuar com essa mania de dar informação pela metade? Porque você bem que poderia ter dito da última vez quem serão os traidores, quem deve pagar, o que acontecerá em Chagres e também qual será a grande decisão que eu devo tomar que pode estragar tudo!” Eu estava quase sacudindo os braços. Por causa dessa desgraçada eu não conseguia deixar a minha mente descansar, maquinando incansavelmente em busca de respostas. Mas era em vão, eu conhecia muito pouco daquele mundo, e era Nena quem possuía o anel que previa o futuro.
O sorriso de Raiska transformou-se em algo sardônico.
“Eu não tenho essas respostas, Dominic. Não, não tenho não... Eu apenas leio o que vejo através da bruma.” Ela mexeu um braço e foi como se acariciasse a neblina que a rondava. Era estranho, mas parecia que a névoa se curvava a ela, como uma serva obediente. “Você quer descobrir como usar o anel, e vai precisar usá-lo... Sim, ah vai sim! Mas será uma escolha acertada, Dominic?” Ela indagou, movendo delicadamente o braço e transformando a névoa na imagem do Labareda, em meio a uma tempestade em alto-mar. Eu arregalei os olhos, vendo os raios atingirem os arredores do navio, enquanto ele se sacudia e lutava contra as ondas furiosas das águas turbulentas. Era quase como se eu pudesse escutar, reverberando em meus ouvidos, o barulho estrondoso dos trovões.
“Como eu o uso?” Perguntei, acariciando o anel, tentando assim acalmar meu coração que, estranhamente, começara a bater acelerado, a ponto de eu me tornar ciente do sangue pulsando forte em meu pescoço. O sorriso de Raiska se tornou ainda mais sombrio e, com um novo movimento da mão, um raio foi jogado sobre mim.
Eu soltei uma exclamação abafada de susto – algo aparentemente comum quando se faz amizade com Raiska – e caí para trás quando o raio me atravessou, exatamente no peito. Caído de bunda no chão e, ofegante, percebi que o raio era feito apenas de brumas, tendo se dissolvido ao me atingir. Quando me levantei, Raiska não estava mais ali.
“Vadia mal-comida.” Resmunguei irritado, limpando os fundilhos da calça. Um dia eu ainda iria aprender a não me deixar assustar pelas pegadinhas dela.
E, tão logo Raiska partiu, o navio saltou para longe das brumas e o mundo descortinou-se em um céu límpido, iluminado por um sol forte que se refletia nas águas azul-escuras. Eu suspirei, apoiando-me no timão, mas minha paz não durou muito. Alguém segurou meu braço e me puxou, sem qualquer gentileza. Eu bufei internamente ao reconhecer Garuda, o pavão exibido. Ou algo do gênero.
“Santiago mandou avisar que suas férias acabaram.” Ele disse seriamente. Não fazia o tipo simpático. “Está na hora de começar a trabalhar como o Imediato que diz ser.”
“Não sou eu quem diz alguma coisa, mas o capitão.” Provoquei, com um sorriso de desprezo. Não era uma boa ideia aumentar a antipatia que aquele pirata musculoso nutria por mim, mas era algo inevitável. Eu não podia manter a língua presa a todo o momento, ia contra minha natureza. Se eu acabasse jogado ao mar, ao menos teria me divertido um pouco. E ver a expressão irritada de Garuda apenas fez aumentar o sorrisinho irônico no canto de meus lábios.
“O capitão parece não ter muita paciência para lidar com você, já que me incumbiu de lhe ensinar as tarefas que deve começar a realizar. Eu não o julgo, sempre achei os ingleses criaturas irritantes.” Garuda praticamente cuspia em meu rosto enquanto falava e minha vontade de carinhosamente estrangulá-lo aumentava vertiginosamente a cada palavra pronunciada. Ele, como um bom pirata, tinha um bafo terrível.
“Fantástico. Parece que temos algo em comum, afinal. Você me considera irritante, eu te considero irritante. Mais um pouco, e poderemos nos chamar de melhores amigos!” Retruquei cheio de deboche. Bufei. “Vamos logo com isso, quanto mais rápido você me mostrar o que devo fazer, mais rápido me livro de você.” Falei, soltando-me dele e caminhando em direção ao convés.
“Na verdade, isso não será possível, amigo. Eu sou o contramestre, ou seja, trabalho com você no convés. Parece que nos tornaremos bastante íntimos nos próximos meses.” Ele avisou, devolvendo minha aferroada. Eu passei a mão pelo meu rosto, pedindo por paciência. Já não bastava o Santiago, agora eu teria outro ser intragável para me infernizar.
Ao menos esse não parecia querer me agarrar como o idiota do Santiago. Apenas me cortar em pedacinhos e me dar de comida para os peixes. Isso, ao menos, era bem mais fácil de lidar, consolei-me. Naquele momento, pensei em meu verdadeiro melhor amigo, James, que deveria estar na Inglaterra, esforçando-se nos estudos para ser um bom navegador.
Vou me esforçar também, James. Espero que você esteja bem e tenha conseguido conquistar aquela bailarina que queria levar para a cama, antes que eu partisse com meu pai para o Caribe. Pensei, abrindo um sorriso nostálgico, enquanto descia o lance de escadas que levava ao convés.
Sinto sua falta.
XxX
“Por delegação do capitão, você exerce a chefia do serviço de convés. Suas duas principais responsabilidades são a gestão da carga e coordenação da segurança do navio. Você faz a gestão dos recursos, como água e comida e também distribui os eventuais saques com justiça a cada tripulante.” Garuda explicava-me com impaciência, e eu o escutava de má-vontade.
Me perguntei por que o Santiago não viera me explicar e depois me recriminei por querer que estivesse ali comigo. Que ridículo, Dominic! Minha mente gritou. Você deveria estar feliz por ele tê-lo deixado em paz ao menos por algumas horas!
“Argh, voz irritante.” Resmunguei para minha própria mente. Olhei para Garuda quando ele estreitou o olhar verde-musgo para mim, com uma vontade palpável de me socar. Eu quase ri de sua indignação, ele se irritava com qualquer coisa. Ao menos qualquer coisa relacionada a mim.
“Está ouvindo o que estou falando?” Ele perguntou, ríspido.
“Claro.” Abanei a mão, com descaso, um tom tranquilo na voz. “Continue.”
Fechando os olhos por um momento para se acalmar, Garuda continuou, andando pelo convés comigo em seu encalço. Inclinando-se sobre a amurada, ele apontou para o que pareciam grandes bolsas repletas de areia, penduras na linha d’água do navio.
“São lastros. Servem para manter a estabilidade, balanço e integridade estrutural do navio. É sua função cuidar da manutenção deles. Quando estamos carregados, deve livrar o navio de alguns.” Ele voltou a andar pelo convés, passando por outros piratas que realizavam suas tarefas diárias, em alguns momentos até me dizendo os nomes de cada um deles, e quais eram suas ocupações. Não guardei o nome de todos, mas eram nomes comuns, tais como Valgor, Angus, Aguilar, Dideron, Iago, Garret, Earl, Rico, entre outros.
O navio comportava uma tripulação de 65 pessoas. Eu nunca aprenderia o nome de todos.
“Também lhe compete supervisionar as tarefas de carregamento e descarregamento, estiva, planejar a localização e compatibilidade de carga e manter a navegabilidade do navio. Você também coordena e controla qualquer ação relativa à parte técnica e operacional do navio, com a ajuda do contramestre, ou seja, a minha.” Garuda parou e olhou para mim, cruzando os braços cheios de tatuagens sobre o peito. “Alguma dúvida até agora?”
“Todas. Você falou, falou, falou e eu continuo sem a mínima ideia do que vou ter de fazer, ou como.” Revirei os olhos, tirando os cabelos do rosto. “O que é estiva?”
Garuda suspirou.
“Terei trabalho com você.” Murmurou e só aí eu realmente entendi por que o Santiago passou a tarefa de me ensinar tudo sobre um navio para outro.
Aquela seria uma tarde longa.
XxX
Já estava quase escurecendo quando eu mandei Garuda ir comer ostras estragadas e me neguei a tentar decorar mais nomes de partes do navio, de pessoas, ou ficar andando de um lado para o outro aprendendo o que fazer. Quase desejei voltar a limpar o convés, sem ter de me preocupar com tantos detalhes e obrigações. Quando conheci a Nena, achei que tudo que ela fazia era distribuir ordens, mas estava enganado. Me sentia exausto e, ao entrar nos aposentos do Santiago, me atirei na cama para, quem sabe, um cochilo de 24 horas.
Mas o mundo conspirava contra mim naquele dia, pois Santiago entrou logo depois. Ele havia aparecido em alguns momentos durante à tarde, também dando alguns conselhos de como eu deveria fazer meu trabalho, mas não falava muito e logo sumia de vista. Ele parecia estar tendo o trabalho de sua vida acalmando os ânimos de todos no navio. O clima estava melhor, porém qualquer um ainda me encarava com raiva mal-disfarçada. Era cansativo.
Eu prendi a respiração quando senti a cama afundar perto de mim e Santiago apoiar um cotovelo de cada lado do meu corpo. Sua respiração bateu em minha nuca, causando um revirar estúpido em meu estômago. Tentei fingir que estava dormindo, mas quando ele roçou os lábios em meu pescoço, me virei rapidamente e espalmei as mãos em seu peito, empurrando-o e o encarando com raiva.
“O que pensa que está fazendo?” Perguntei. Trabalhar a tarde toda havia elevado meu mau-humor à décima potência. Santiago sorriu, pegando minhas mãos e as prendendo contra a cama, acima da minha cabeça. Eu arregalei os olhos, mas logo me recuperei e comecei a tentar me soltar, debatendo-me.
“Me larga, idiota!”
“Será que você sempre precisa fazer tanto escândalo por tão pouco?” Ele perguntou, suspirando cansado, antes de, subitamente, inclinar-se e tomar-me a boca. Tomei um susto tão grande que acabei entreabrindo os lábios, o que permitiu a ele invadir-me a boca com a língua quente. Como ele conseguia ser tão ridiculamente irritante?
Eu mordi-lhe o lábio tão forte, que ele não teve outra opção que não se afastar. Sorri sádico ao vê-lo levar a mão ao lábio e sangue sujar-lhe o dedo. Ele me encarou nada satisfeito, mas eu apenas ergui uma sobrancelha, desafiando-o a reclamar. Quem tinha o direito de reclamar ali era eu!
“Isso vai ter troco.” Santiago avisou, num tom rouco que me fez estremecer de leve. “Mas agora você precisa descer até a cozinha e verificar o jantar, Pantoja tem a péssima mania de cozinhar mais do que deve e distribuir comida como se tivéssemos suprimentos infinitos.”
Ele estava levantando da cama, mas eu o segurei pelo antebraço.
“Eu vi Raiska hoje.” Falei, mordendo o lábio. Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso.
“Aqui no navio?”
“Não, Santiago, em Hispaniola, quando eu fui visitar Aguirre lá, hoje à tarde.” Revirei os olhos e acabei gargalhando da expressão tétrica que o rosto anguloso dele adquiriu. Ele esperou pacientemente até que eu parasse de rir.
“Você está bastante alegrinho hoje. Se já terminou de rir, poderia contar o que ela falou.”
“Além de quase me matar jogando um raio em mim, quando perguntei como se usava o anel,” Exagerei. “Ela só disse que eu irei enfrentar grandes desafios antes de chegarmos a Chagres.”
“Como aprender a deixar de ser um peso morto e começar a trabalhar feito um homem de verdade, e não como uma boneca inglesa.” Santiago debochou, fazendo meus dentes rangerem. Deveria ter rido da cara dele por mais tempo.
“Vá à merda.”
“Você me manda para lá com frequência. Depois não reclame por eu estar fedendo quando estiver na cama comigo.” Avisou, relaxado, caindo de costas no colchão com as mãos cruzadas atrás da cabeça. Eu o encarei deixando bem claro o quanto o achava estúpido e prepotente.
“Você já fede naturalmente.” Eu repliquei, levantando-me da cama. “Depois não ache ruim se acabar sem ter o que comer no jantar...” Achei melhor avisar.
“Tudo bem. Eu tenho outra coisa para comer hoje à noite.”
Santiago abriu aquele sorriso sarcástico, enquanto eu sentia meu rosto queimar pela insinuação. Soltei uma espécie de rosnado e caminhei a passos pesados para fora do aposento. Se eu continuasse mais um segundo com o Santiago, iria dar um jeito de quebrar-lhe todos os dentes, para que nunca mais pudesse abrir aquele sorrisinho odioso.
“Maldito Santiago. Como consegue me tirar tanto do sério?” Resmunguei enquanto atravessava o convés e então descia para o deque, ignorando todos os olhares que recebia. Estava tão indignado, bufando e soltando fogo pelas ventas, que mal percebi que sombras me seguiam na escuridão do corredor que me levaria à cozinha. Quando percebi, já era tarde, pois minha boca era tapada e meus braços presos dolorosamente às minhas costas.
“Hora de livrar o navio de certo peso morto.” Ouvi a voz nada simpática, ainda que ela fosse meio agudizada. Tentei me debater, fazer algum som, mas o homem que me segurava era maior do que eu e tinha muito mais força. O que estava com ele e me chamara de peso morto era um baixinho barrigudo, com um olho maior do que o outro e bochechas gordas e caídas.
Fui arrastado até uma parte do navio que parecia um porão/prisão. Havia gaiolas gradeadas ali e eu cheguei a achar que eles me prenderiam e deixariam para apodrecer, mas o que tinham em mente era bem pior. Após colocar um pano grosso e enrolado em minha boca e prender meus pulsos, o grandalhão me jogou contra as grades, fazendo minhas costas se chocarem com força contra o metal e um gemido engasgado se desprender da minha garganta.
Teria escorregado até o chão, mas o nanico me segurou pela gola da camisa.
“É o seguinte, inglesinho de bosta, aqui o que vamos fazer: primeiro vou cortar fora sua língua, para que não possa gritar quando eu cortar fora suas bolas e fazer delas sua última refeição. Depois vou mandar meu irmãozinho aqui abrir seu abdômen e puxar fora suas tripas.” Ele disse, balançando uma faca suja na direção de meu pescoço. Arregalei os olhos, olhando de um para outro. Tentei falar alguma coisa, mas articulei apenas resmungos ininteligíveis por culpa do lenço. O que consegui, foi ganhar um soco do grandalhão, que teria de novo me levado ao chão se o nanico não me segurasse.
“Você deve ter tentado perguntar por que estou fazendo isso. Bem, é fácil. Primeiro você mata o Paco e nada acontece com você. Depois ouvimos boatos de que teria tentado matar o capitão, e nós ainda temos de ficar em terra por mais tempo porque você ficou doentinho.” Usou a palavra com um escárnio atlântico e então cuspiu no meu rosto. Fiquei nauseado ao sentir o cuspe viscoso escorrer por minha bochecha. “E depois de tudo isso, ainda ganha o cargo de Imediato! Não que eu achasse que eu merecia o cargo, longe disso, estou feliz como homem de armas, tenho boa pontaria desde menino e sempre gostei de manipular os canhões. Eles cometem estragos que nenhuma outra arma consegue causar.” Achei que ele iria cuspir novamente na minha cara, mas apenas puxou o catarro pelo nariz de batata. “Mas você não merecia o cargo e está na hora de acabar com essa palhaçada. Eu e Estevan vamos te matar e jogar ao mar, Santiago nunca vai descobrir e logo se esquecerá, como aconteceu com aquele outro puto do Giulio, que se bandeou para o lado do inimigo... Eu farejei o cheiro de um traidor quando coloquei os olhos sobre aquele francesinho arrogante, e farejo o mesmo cheiro ruim em você. Santiago talvez até devesse me agradecer por livrar o Labareda de outra escória.” Ele soltou uma risadinha que mais parecia o ronco de um filhote de porco.
Eu dei uma cabeçada nele antes que falasse mais daquelas idiotices. O nanico soltou um guincho e levou as mãos à testa lustrosa. Tinha poucos cabelos, eram esbranquiçados, caindo até metade do pescoço, e deixavam boa parte da careca rosada à mostra. Eu tentei fugir no segundo em que fui solto, mas o nanico gritou para que o outro me segurasse, e eu fui abraçado por trás pelo grandalhão, que praticamente me sufocou, tão forte estreitou os braços musculosos ao meu redor.
Eu chutei o ar e voltei a tentar gritar, mas novamente só consegui produzir sons abafados. Eu não queria morrer justo no porão fétido do Labareda, pelas mãos de um pirata barrigudo e feio. Se for para eu morrer, que seja ao menos de maneira mais digna! Mas o que estou dizendo...? Eu não queria morrer de maneira alguma! Queria voltar para Inglaterra, rever meus amigos, rever Leroy e ser capaz de realizar tudo que eu ainda não havia realizado nesses meus dezoito anos de vida.
“O nobrezinho até que consegue lutar por sua vida miserável. Agora vamos ver, como eu vou arrancar essa linguinha fora...” O nanico abriu um sorriso cruel, e eu arregalei os olhos ao perceber alguns inchaços purulentos em suas gengivas¹, o que denunciava que sofria do Mal de Angola e poderia morrer em poucas semanas. Ainda mais essa. Eu iria morrer pelas mãos de um futuro defunto! “Tire o pano e segure a mandíbula dele, Estevan.”
O tal Estevan soltou um ganido estranho, que deveria ser alguma espécie de assentimento, e então arrancou o pano que prendia minha boca e apertou minha mandíbula a ponto de ela estalar, podendo quebrar a qualquer momento. Movendo-se rápido no pequeno intervalo de tempo entre estas ações, o nanico puxou minha língua para fora, espalhando sobre ela o gosto ruim de seus dedos sujos de pólvora. Eu voltei a soltar sons débeis, na tentativa de que alguém, qualquer pessoa! Me escutasse.
Senti toda a minha boca ficar seca e fechei os olhos, choramingando, quando o nanico aproximou a faca da raiz de minha língua, procurando a altura exata para cortá-la fora. Não pude evitar deixar algumas lágrimas escorrerem pelo canto dos olhos bem cerrados, sentindo a língua formigar em antecipação.
“Jaima, o que diabos você está fazendo?!? Solte-o agora!” Ouvi a voz e senti que poderia chorar ainda mais pelo alívio. Abri os olhos e vi Terrence na entrada sem porta do porão, com outro rapaz, ao seu lado: alto, magrelo e de curtos cabelos negros, estilo rastafári, presos por uma bandana vermelha. Pelo susto, o nanico, Jaima (mas agora eu sempre o chamaria de nanico), deixou a faca cair e soltou outro guincho.
Terrence e o outro entraram rapidamente no porão e os afastaram de mim, no que eu imediatamente cuspi para tirar o gosto ruim da boca.
“O capitão vai saber sobre isso!” Avisou Terrence, ao empurrar Estevan e puxar-me para seu lado. “Ficaram malucos? Esse inglês pode ser um inglesinho cagado com cara de boneca, mas ainda assim, se é decisão do capitão tê-lo nesse navio, como Imediato, devemos respeitar. Vocês vão ser acusados de insubordinação!” Terrence ladrou, apontando uma arma para o nanico. Estevan soltou um lamento, mas, mesmo com todo aquele tamanho, não se dignou a revidar ou falar qualquer coisa. Eu estava seriamente suspeitando que ele tivesse alguma espécie de retardo.
“Obrigado, Terrence.” Falei com sarcasmo. Filho da puta aproveitando a situação para me xingar e me chamar de boneca! “Algum dia ainda vou cortar sua garganta por me chamar de inglesinho cagado.” Sussurrei.
“Cale a boca, estou salvando a sua vida aqui!” Ele retrucou. “Mexa-se, Jaima. E Katana, traga o Estevan.” Terrence me arrastou com ele para fora do porão, suspirando. “Droga, eu bem que estranhei quando não vi Jaima e o irmão idiota dele em lugar nenhum no navio. Fui até a cozinha e Pantoja disse que você não havia aparecido também... Vim para cá o mais rápido que pude.” Ele sussurrou. “Você me deve grande por isso.”
“Eu sei.” Eu estava realmente grato. “Por muito pouco eu não perdi a língua.”
“Então eu deveria ter aparecido alguns segundos mais tarde.” Terrence cacarejou feito um imbecil, ainda mantendo a arma apontada para Jaima, que caminhava à nossa frente, parecendo, agora, um rato assustado.
“Vai se fuder, você está falando com o seu Imediato.” Avisei por entre os dentes, mas estava quase rindo junto. “E será que poderia soltar meus pulsos? Eu ainda tenho um cuspe nojento na minha cara.”
“Não, isso é a prova do crime!” Ele estava tirando com a minha cara.
“A prova do crime o caralho!” Exclamei.
“Terrence, por favor, se nós pudermos resolver isso apenas entre nós. Meu irmão... Ele não teve culpa alguma.” O nanico se virou e implorou. “Não deixem fazer nada de mal com ele...”
“Cale a boca e segue andando, Jaima. As regras do navio são iguais para todos, até para o retardado do teu irmão!” Terrence retrucou, mortalmente sério e chegou a engatilhar a arma. O nanico deu um pulo e voltou a andar. Fiquei impressionado com esse lado rígido do Terrence, e me perguntei se eu era muito idiota por me penalizar de Estevan, que seguia quase alegremente ao lado de Katana.
Pelo caminho, sempre que passávamos por alguém, Terrence gritava ‘Assembleia, no convés! Assembleia!”, e as pessoas corriam ou para avisar aos outros, ou para não perder a festa. E então chegamos ao convés, onde Santiago já havia escutado que haveria uma assembleia, e esperava em frente à proa com os braços cruzados sobre o peitoral, e um olhar mortal que arrepiou cada pelinho da minha nuca.
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