Mar De Fogo
13 Escolhas
Notas iniciais
Toda a tripulação estava ali, alguns dependurados nos cordames do navio, outros criando um círculo no convés que se abria onde eu, Terrence, Jaima, Estevan e Katana estávamos, e a quantidade de olhares hostis, curiosos ou desconfiados em nossa direção fez meu estômago revirar. Mas a sensação se tornou ainda pior quando focalizei minha visão em Santiago. Ele parecia um deus da morte, esperando o início do julgamento. Seu rosto exalava uma frieza paradoxal, pois passava a impressão de queimar a pele como fogo frio, até as profundezas da carne, mesmo com o mais rápido dos deslumbres.
Senti minhas mãos serem libertadas com um movimento rápido da adaga de Terrence, o qual me pareceu um pouco branco quando o olhei de esguelha.
“Eu não gostaria de estar na pele daqueles dois.” Ele sussurrou para mim, engolindo em seco ao deixar aqueles olhos furtivos passearem rapidamente pelo convés. “Caminhe de queixo erguido e deixe ele perguntar o que aconteceu.” Terrence aconselhou e indicou que eu seguisse em frente.
Eu primeiro passei a manga da camisa pelo rosto, livrando-me daquele cuspe asqueroso e quente de Jaima. Ainda olhei para ele e o irmão retardado, percebendo a palidez do nanico e a falta de compreensão de Estevan, que olhava ao redor como se uma festa no convés o aguardasse.
“P-por favor...” Jaima crocitou, com os olhos miúdos tragados pelo pavor. Eu o ignorei e, voltando meu olhar para frente, caminhei até Santiago, parando apenas quando fiquei bem à sua frente. O silêncio era mortal enquanto eu atravessava o navio e o olhar do capitão cravava-se em mim a cada passo, lançando-me arrepios rasantes pela coluna. Jaima choramingava às minhas costas enquanto era arrastado por Terrence.
“Meu irmão, por favor... Não deixe que o matem...” Murmurava em falsete, a voz completamente desprovida da coragem e arrogância de antes. E sua agonia apenas aumentava meu mal-estar.
“O que aconteceu?” Santiago perguntou com a voz contida, mas ainda assim ela pareceu rasgar o ar e chocar-se com as ondas que sacudiam de leve o navio. O rosto ligeiramente abaixado para fitar o meu demonstrava nada além de autoridade, uma autoridade seca e cruel.
Então todos os olhares estavam voltados para mim de novo; Jaima soltou um guincho quando Terrence o chutou para que se ajoelhasse e ficasse quieto e Estevan resmungou um ‘Yo-Ho!’ em um tom de gigante idiota, ajoelhando-se também ao lado do irmão e o abraçando, enquanto eu respirava fundo, sentindo-me como um Imperador romano prestes a decidir o futuro de um gladiador na arena do coliseu.
“Eu fui encurralado, no caminho para a cozinha, por esses dois.” Apontei, girando o corpo em meia lua para tal. Para minha felicidade, minha voz estava firme e minha expressão era de uma indiferença calculada. “Ameaçaram cortar minha língua, minhas... bolas.” Abri uma careta sarcástica, pensando se deveria ter falado mesmo isso. Alguns no convés riram e, incrivelmente, minha tensão diminuiu. “Depois puxariam fora minhas tripas e então me jogariam ao mar.”
“N-não... foi apenas uma br-incadeira... Nós não íamos, realmente, não...” Jaima tentou, arrastando-se de joelhos como uma cachorro vadio com o rabo entre as pernas. Santiago o olhou tão friamente que ele se calou, apenas resmungando sem coerência.
“Eu o flagrei prestes a cortar a língua do nosso Imediato.” Terrence declarou, cruzando os braços sobre o peito. O vento bateu em seus cabelos castanhos mal cortados, fazendo-o ondular, e eu não pude deixar de pensar que ele ficava horrível de barba trançada.
“O que você tem a dizer em sua defesa, Jaima?” Santiago perguntou e esperou um pouco pela resposta que não veio. Então ele continuou. “Devo dizer que não esperava isso. Não de você, que conheço desde que eu tinha apenas oito anos, e você já era um pirata experiente, feio como o diabo, como continua sendo. Onde foi parar sua lealdade?” Santiago perguntou, com a voz firme, mas captei certa tristeza e decepção em seu timbre grave.
“E-eu ainda sou fiel, capitão... O que eu fiz foi por acreditar que está cego por esse rapaz... Como esteve com aquele francês, Giulio... o traidor.” Jaima falou com dificuldade, engasgava-se, parecendo mais ferido pelas palavras de Santiago do que poderia ficar pelo corte de uma espada.
A expressão de Santiago perdeu qualquer traço de humanidade e, no segundo seguinte, ele havia dado um passo à frente, tirando-me de seu caminho, e estendido a espada contra Jaima, que ofegou de olhos arregalados ao experimentar a ponta da lâmina contra sua papa gorda.
“Não fale do que não sabe.” Santiago vociferou, rouco, e eu arrepiei novamente com o tom, prendendo a respiração junto com todos naquele convés. Santiago parecia-se com um demônio dos mares quando estava verdadeiramente irritado e, eu percebia apenas agora, era a primeira vez que o via dessa maneira. “Você desobedeceu a ordens diretas, Jaima, conspirando contra mim junto com seu irmão. Tentou matar seu Imediato e nem tente mentir que foi apenas uma brincadeira. Você sabe quais as consequências disso?” Perguntou e Estevan soltou um urro, abraçando-se ao nanico e apoiando o rosto nas costas dele.
“Santiago, por favor... Mate-me, mas poupe meu irmão. Você sabe que ele não tem maldade, apenas faz o que eu mando.” Jaima voltou a implorar. O suor escorria por sua testa oleosa e eu olhei para Santiago, esperando que ele aceitasse o pedido. Noel estava logo atrás, observando o irmão em silêncio, e Garuda estava ao seu lado, ambos apenas esperando assim como o resto da tripulação.
“As regras são iguais para todos, Jaima.” Santiago repetiu a frase de Terrence. “Você e seu irmão sofrerão o mesmo que tentaram causar em meu Imediato. Terão as línguas cortadas, as bolas arrancadas e as tripas retiradas antes de serem jogados ao mar.” Ele declarou e então arredou a lâmina, afastando-se alguns passos de Jaima e Estevan, passando por Terrence e Katana como se não os visse e então lançando um olhar tétrico para o resto dos marujos. “Alguém tem algo contra isso? Se tiver, fale agora e o ouviremos. Eu não quero mais ninguém cochichando pelas minhas costas nesse navio. Se querem reclamar de algo, se se sentem injustiçados, falem agora, na minha frente e não ajam pelas minhas costas. Eu fui escolhido democraticamente para o posto de capitão, há dez longos anos. Se agora se sentem insatisfeitos, falem. Se estão insatisfeitos pelos bolsos cheios de ouro e prata, pela ideia de tomar Chagres e serem lembrados mesmo após a morte por esse feito, falem!”
Os homens se entreolharam, outros cochicharam, mas ninguém parecia disposto a salvar a pele de Jaima e Estevan, mesmo que alguns aparentassem contrariedade. Temiam e respeitavam Santiago, mas eu podia sentir na pele a animosidade que emanavam em minha direção, escutava-os sussurrar meu nome, mirando-me pelo canto dos olhos como se desejassem que Jaima houvesse sucedido em seus planos. Odiavam-me e, depois de tudo aquilo, eu conseguia compreendê-los. Eu era o prisioneiro inglês, metido à besta, como gostavam de me chamar, que havia matado um dos seus na primeira oportunidade, sem sofrer nada em retaliação; que atentara contra seu capitão, e fora mantido vivo; que havia sido nomeado como Imediato, mesmo na ausência de merecimento. E eles tentariam se livrar de mim, até as últimas consequências.
Se eu não tentasse mudar isso.
“Eu tenho.” Dei um passo para o centro do círculo. Santiago se virou e me encarou surpreso, assim como todos ali. Olhei para Jaima e Estevan, percebendo que meu mal-estar devia-se a incapacidade de permitir que morressem. A compaixão fez um líquido amargo subir pela minha garganta, mas eu o engoli, escondendo todo meu desconforto e hesitação. Era um sentimento que eu desprezava, a compaixão, mas que insistia em me assolar nos momentos mais inesperados, como quando Reno contou-me sobre parte da história de Santiago e os irmãos, e eu permiti que isso me atingisse, levando-me a onde eu estava agora, navegando em direção à provável morte que me esperava em Chagres, ou rondava-me nas sombras do Labareda.
“Eles atentaram contra mim e acho que eu devo decidir qual será o destino deles.” Falei, erguendo o queixo. Eu não queria fazer um discurso, mas acabei olhando para os rostos dos piratas, reconhecendo alguns e percebendo que a maioria ali me era tão familiar quanto a terra firme é para um peixe. Olhei então para Jaima e Estevan. “Vocês me odeiam e eu consigo entender isso, eu provavelmente me odiaria também, no lugar de vocês.” Falei, sorrindo irônico. “Porque vou pedir agora que vocês e todo o resto me deem um tempo para provar o porquê de eu estar aqui, no posto onde fui colocado e seguindo atrás dos mesmos objetivos que vocês, vou garantir-lhes esse tempo e poupá-los da morte, ou de línguas arrancadas e tripas cortadas.”
Olhei então para Santiago, desafiando-o a contrariar minha sentença. As sobrancelhas dele estavam erguidas, em uma surpresa disfarçada, mas que nem por isso era falsa. Os cochichos aumentaram até tornarem-se uma confusão de vozes, palavras, frases desconexas que se misturavam entre os murmúrios do vento.
“Silêncio.” Santiago falou e de algum modo seu comando atingiu a todos que, aos poucos, silenciaram. “Alguém discorda dessa decisão?” Ele perguntou, com os olhos ainda cravados em mim, parecendo querer arrancar-me toda a força das pernas. E conseguindo, o bastardo. “Levante o braço quem concorda com isso.”
Primeiramente, ninguém se manifestou, o que deixou Jaima ainda mais pálido, com os lábios tremendo ao ver sua única chance se esvair. Mas então Reno deu um passo à frente, a expressão plácida, como de costume.
“Eu acho uma ótima ideia.” Ele falou, sorrindo com algo como orgulho para mim, e um sorriso brotou no meu rosto e alargou-se na mesma proporção em que os braços subiam, e alguns soltavam exclamações de concordância.
“Eu bem que falei que ele não podia ser tão ruim...”
“É o mais justo... Matar um pirata experiente agora seria burrice... Precisamos de todos para tomar Chagres...”
“O inglesinho cagado até que sabe falar bonito.”
“Boa escolha, Dominic.” Terrence sussurrou no meu ouvido, ao inclinar-se para perto, e eu experimentei uma sensação de amizade por ele maior do que poderia imaginar sentir algum dia, quando o conheci. Era uma das únicas pessoas que não havia me destratado desde o início, e ainda me salvara a vida. Eu sabia que lhe devia uma. Devia-lhe grandemente.
Só percebi que Jaima se debulhava em agradecimentos e lágrimas silenciosas quando ele agarrou a barra de minha calça, tentando beijar meus pés.
Arregalei os olhos e o empurrei com a ponta da bota.
“Contenha-se homem e ouça sua sentença.” Falei alto, para que todos me escutassem e calassem a boca. “Você e seu irmão terão de limpar o navio até chegarmos a Chagres, assim como esvaziar as latrinas e costurar as velas quando necessário. Acima de tudo, estão proibidos de beber e participar de jogos de azar.”
“Não! Os jogos de azar não!” Jaima exclamou, agoniado. Mas quando lhe lancei um olhar atravessado, erguendo uma sobrancelha, ele se calou e assentiu. “Obrigado. Obrigado!” Rastejou até mim e tentou beijar meus pés novamente, mas voltei a me afastar dele, olhando-o com nojo.
“Recomponha-se, homem.” Sussurrei irritado. “Eu fiz isso mais por mim do que por você.” Avisei e fugi quando Estevan tentou imitar o irmão e beijar meu pé também. Acabei parando perto de Garuda, que me encarou com o mesmo olhar de desprezo de sempre.
“Você fez bem, Dominic.” Foi Noel quem falou. “Estou surpreso. Geralmente era Nena que trazia algum juízo para Santiago, mas acho que você vai substituir bem o posto dela.”
Olhei para Garuda, esperando com arrogância que ele dissesse alguma coisa, mas ele apenas passou por mim, falando:
“Preferia aquele lambe-botas do Jaima morto. Faça bom proveito, ele é seu capacho agora.”
“O que ele quis dizer?” Perguntei a Noel quando Garuda estava longe.
“Você vai acabar entendendo.” Noel falou e também seguiu atrás do contramestre.
“Estão dispensados!” Santiago avisou a todos. “Vão para suas camas e não esperem pelo jantar essa noite. Esse é o pagamento coletivo por quererem manter esses dois vivos.”
Os piratas exclamaram em indignação e um deles deu um tapa na parte de trás da cabeça de Jaima.
“Quero todos fora do convés! Desçam e descansem, amanhã será um dia cheio.” Santiago avisou.
Eu me apoiei à parede ao lado da porta dos aposentos de Santiago, vendo os piratas debandarem, descendo para o deque. Fiquei surpreso quando alguns me olharam e fizeram um cumprimento respeitoso, ainda que esses fossem a minoria. Mesmo assim, um sorrisinho petulante ficou brincando nos meus lábios até que todos sumissem e apenas Santiago permanecesse ali no convés. Vi que ele havia falado rapidamente com Jaima, que assentiu nervoso e praticamente correu empurrando o irmão para as escadas.
Havia escurecido. Mais alguns minutos e estaríamos completamente envoltos pela escuridão. Ainda assim, eu pude ver perfeitamente os olhos castanhos de Santiago cravarem-se em mim assim que o último pirata desceu. Ele caminhou rápido até onde eu estava, como uma sombra de noite, e eu cheguei a pensar que estava em encrencas, mas, para minha surpresa, Santiago segurou meu rosto e o ergueu, obrigando-me a encará-lo.
“Você está bem?” Perguntou e eu arregalei os olhos, com a sensação de que corava por culpa de seu tom preocupado. “Tem certeza que ele não fez mais nada com você?”
“N-não.” Gaguejei, atarantado. “Eu estou bem.”
“Mandei Garuda, Noel, Katana e Terrence manterem um olho em Jaima e Estevan, mas duvido que eles voltem a tentar algo contra você. Jaima sempre temeu demais a morte, ainda que seja um bom pirata em batalha. Me surpreende que ele tenha tentado algo, sempre foi um dos mais fiéis.” Santiago comentou com um suspiro, e provavelmente pensava o mesmo que eu: nem mesmo pelos mais fiéis deveríamos colocar a mão no fogo. “Estava chorando antes.” Ele disse, de repente.
“É claro que não!” Dessa vez tive a certeza de que havia corado e tentei desviar o rosto, entre a vergonha e a raiva que ele houvesse percebido isso. “Não jogue isso na minha cara.”
“Não estava jogando nada na sua cara. Só... Eu teria gostado de ao menos arrancar a língua do filho da puta, mesmo eu o conhecendo há anos.” Disse irritado, soltando-me e caminhando alguns passos para longe. “Se ele houvesse te matado, eu perderia a chance de me vingar...”
Eu apertei os punhos.
“É só isso?” Perguntei e não tentei ou quis entender o aperto que sufocou meu peito. “Se eu morresse, você só ficaria sentido porque sua vingança iria para o brejo?”
Santiago soltou uma risada baixa e sarcástica.
“E o que você esperava?” Perguntou, de costas para mim. Meu estômago revirou, mas de uma maneira diferente da de antes. Eu poderia chamar de raiva, mas não era apenas isso.
“Eu não esperava nada. Não de você.” Falei ríspido e avancei em direção as escadas, decidido a não passar a noite novamente nos aposentos dele, mesmo que para isso tivesse de me arriscar a dormir mais perto dos outros piratas. Porém Santiago me segurou o braço, frustrando minha tentativa de fuga, e me virou com um puxão forte, chocando meu corpo contra o dele.
“Eu não sou uma pessoa boa, Dominic. E tampouco sei dizer coisas bonitas. Não me obrigue a dizer o que realmente sentiria se você morresse.” Santiago falou baixo, austero. Eu pensei em retrucar, mas não consegui, pela primeira vez não consegui falar nada e ele aproveitou a oportunidade (afinal, um pirata nunca perde uma) e, segurando minha nuca, aproximou o rosto e capturou meus lábios.
Meu sangue ferveu, alcançando cada milímetro de meu corpo, e eu gostaria de dizer que fervera de raiva, mas minha boca entreabrindo, o gemido baixo que se pronunciou em minha garganta e minha mão indo de encontro aos cabelos curtos de Santiago denunciavam a verdade. Deixei que ele deslizasse a língua para dentro da minha boca e fechei os olhos, perdendo o ar, me segurando a ele como se a morte fosse voltar a me assombrar caso eu o soltasse.
A mão de Santiago que segurava meu braço desceu e segurou com firmeza minha cintura, trazendo-me para mais perto dele. Eu não queria ceder, mas meus pensamentos eram uma grande confusão; eu quase havia morrido e isso poderia acontecer de novo, em breve, e o que eu poderia temer mais do que isso? Era como andar sobre a borda-falsa do navio durante uma tempestade, equilibrando-me enquanto as ondas batiam no costado e a chuva castigava severamente meu corpo.
Estremeci, numa mistura de calor e frio, enquanto Santiago colocava-nos em movimento, fazendo-me andar de ré até que eu sentisse a amurada de encontro às minhas costas. O corpo dele se pressionou contra o meu e sua coxa grossa foi parar entre minhas pernas, de modo que perdi o ar, virando e abaixando o rosto porque não conseguia mais retribuir ao beijo. Meu corpo inteiro começou a tremer e eu me senti ridiculamente vulnerável, agarrado a ele com medo de perder o equilíbrio e cair nas águas profundas e geladas do Atlântico.
“Não fuja mais de mim.” Ele sussurrou com os lábios roçando em meu ouvido antes de morder meu pescoço, e eu tremi mais, deixando a cabeça pender para o lado. Mas quando seus lábios procuraram novamente os meus, eu coloquei as mãos sobre seu peito e o empurrei de leve, impedindo-o.
“Pare.” Encarei-o e ele não suprimiu um resmungo de estafo. “Fale-me sobre Giulio.”
Santiago franziu as sobrancelhas negras, ficando sério.
“Por que quer saber dele?”
“Porque não foi a primeira vez que ouço o nome dele, e estou cansado de ouvir coisas sobre você dos outros!” Falei. “É terrível deixar você fazer isso comigo sem que eu conheça nem mesmo metade de você, de sua vida...”
“Você fala como se odiasse o que eu faço com você.” Ele voltou a pressionar-se contra mim e moveu minha cintura, erguendo meu corpo e fazendo meu membro deslizar pela extensão de sua coxa. Ofeguei baixo e mordi o lábio, impedindo-me de soltar qualquer outro som, e o fitei irritado.
“Eu odeio. Você é terrivelmente debochado, arrogante, folgado e seguro de si, age como um Deus dominador e ainda espera que eu ceda a você por completo sem que me mostre um lado diferente seu, um lado mais sincero ou real. É você que foge e não confia em mim, e em algum momento só tesão não vai ser o suficiente para eu continuar a permitir que me use como você faz!” Declarei agressivo, porém com o queixo erguido e os olhos faiscando. Sentia que me livrava de uma rolha presa na garganta e agora podia respirar mais facilmente.
Santiago soltou um suspiro pesado e silenciou. Senti suas mãos acariciarem distraidamente minha cintura. Fiquei exasperado com a excitação que isso voltou a me causar, uma necessidade de me esfregar novamente contra a coxa dele, mas ignorei peremptoriamente a sensação inapropriada. A voz dele era baixa quando voltou a falar:
“Giulio foi tripulante nesse navio até pouco mais de um ano atrás. Fomos amantes por quatro anos, desde que o conheci em Tortuga na primeira noite, até o momento em que ele esteve no Labareda, por dois anos. As pessoas acham que ele me traiu, mas apenas eu, Nena, Noel e Fradique sabemos que ele não mudou de lado.” Santiago me encarou e seus olhos diziam silenciosamente que aquilo que me contaria deveria me acompanhar na morte sem jamais deixar os meus lábios. “Ele é meu espião. Fingiu mudar de lado, pois sua procedência é a nobreza francesa e conquistar a confiança de outros nobres seria fácil para ele. Agora ele mora em Hispaniola trabalhando para Aguirre. Ele é o amigo de quem recebi ajuda para roubar o anel de Aguirre e conseguir escapar do Víbora do Mar.”
Meu queixo pendeu para o chão e eu encarei Santiago impressionado.
“Mas ninguém pode saber sobre isso, porque piratas não são conhecidos por saber manter segredos. Aliás, são conhecidos justamente pelo contrário.” Santiago finalizou. “Satisfeito agora?”
Fechei a boca e me endireitei, cruzando os braços sobre o peito e virando o rosto, enquanto o vento brincava de embaraçar meus cabelos, jogando-os desordenadamente para o lado. Uma irritação sutil borbulhou em mim, querendo estourar na superfície, mas eu a segurei firme dentro de mim.
“Seu amante. Interessante... Sim, estou satisfeito, acho que vou ir dormir agora.” Eu tentei sair do enlaço dele, mas as mãos do Santiago pareceram virar pedras segurando minha cintura no lugar. Eu bufei.
“Está com ciúmes?” Ele sorriu, divertido. “Preferia que ele houvesse mesmo me traído e eu o odiasse com todas as minhas forças?” Voltou a se aproximar enquanto eu rangia os dentes.
“Ninguém está com ciúmes, não venha com sua prepotência para cima de mim de novo. Estou apenas cansado. Se não se lembra, eu quase fui assassinado hoje.” Declarei irônico, erguendo uma sobrancelha e torcendo o lábio.
“Isso aqui não parece estar tão cansado, entretanto.” Santiago colocou a mão entre minhas pernas e eu perdi toda a compostura, afundando os dedos nas roupas dele ao soltar um gemido abafado. Deplorável, talvez eu devesse realmente colocar uma rolha em minha garganta para evitar esses sons constrangedores...
“Pare com isso.” Exigi quando ele começou a massagear meu falo sob o tecido, porém minha voz era débil demais para ser levada a sério.
“Eu contei o que você queria ouvir, não acha que mereço uma recompensa?” Ele perguntou, rouco e pilhérico, segundos antes de voltar a me beijar. Gemi, feito as putas dos bordéis de Londres, e me envergonhei disso até a alma, porém meu corpo havia aprendido a controlar minha mente quando Santiago me tocava e por isso abri o botão de minhas calças e puxei a mão dele para dentro delas, colocando-a em contato direto com meu pênis.
Eu o abracei, retribuindo ao beijo violador dele, sendo atingido em cheio por seu cheiro de suor e maresia enquanto movia o quadril para ajudá-lo a me masturbar. Por vontade própria, minha mão desceu e eu também o toquei, arrancando-lhe um gemido abafado, e me surpreendi ao encontrá-lo tão duro, de modo que baixei o rosto para tentar ver o volume em sua calça, mesmo que a noite já fosse alta e apenas as estrelas trouxessem alguma luz entre as nuvens negras.
“Dominic...” Ele sussurrou contra meu ouvido, fazendo toda a região ao redor da minha orelha formigar e esquentar. “Vamos para o quarto.” Pediu, segurando minha cintura a ponto de doer.
E a frase me atingiu em cheio, como um tiro de pistola no peito.
“Não!” Exclamei, empurrando-o, mas não com força o suficiente para afastá-lo por completo. Ele me olhou, sem entender e eu virei o rosto, envergonhado de mim mesmo. “Não estou preparado para isso...” Me senti tal qual uma moça virgem e, tirando a parte da moça, eu era mesmo um virgem. Ao menos no sexo entre dois homens. E eu ainda não tinha a coragem para mudar isso.
Achei que Santiago iria debochar, rir ou reclamar, mas com um suspiro baixo, ele abotoou minha calça e ergueu meu queixo.
“Eu prometi que não iria fazer mais nada contra tua vontade.” Ele disse. “E costumo cumprir com a palavra dada. Só não espere que eu seja muito paciente, pois nunca o fui. Não me obrigue a quebrar uma promessa.”
“Você não deveria fazer promessas que não pode cumprir.” Retruquei, sentindo ânsias de ser tocado novamente, mas também receio de que aquilo saísse do controle. Santiago sorriu de lado.
“E você deveria parar de me provocar com esses gemidos indecentes.”
Eu corei, sentindo-me como a gralha gemente que Santiago havia fodido no Pétalas de Fogo, mas mantive o olhar esnobe ao encará-lo. Voltei a lembrar de Giulio e minha raiva voltou, renovando meu espírito e acabando com a vontade de que ele voltasse a me envolver com os braços musculosos, ou tomar minha boca com aquela sede de homem do deserto.
“Eu fico com a cama hoje.” Falei, conseguindo me afastar dele, e rumei em direção a seus aposentos.
Santiago soltou uma gargalhada e me seguiu, acompanhando meus passos.
“Me diverte pensar que você por um momento acreditou que eu dormiria no chão, quando há uma boneca para me esquentar na cama.” Ele falou, debochado e malicioso. Eu parei abruptamente e me virei, bem perto da porta. Santiago parou também e me encarou com curiosidade e diversão.
“Eu tentei, Santiago. Dei-lhe uma chance, mas você insiste em ser intragável. Então, eu só posso lhe desejar uma boa noite sob a luz das estrelas.” Falei calmamente, ao passo que Santiago franzia a testa para minhas palavras. Assim que terminei, corri para dentro do cômodo e tranquei a porta, afastando-me dela assim que o primeiro murro a atingiu.
“Dominic! Dominic, abra a maldita porta!” Santiago bateu três vezes contra a madeira, enquanto o riso começava a irromper de minha garganta e meu corpo se curvava pela hilaridade daquilo. “Dominic! Abra agora ou vai ser pior para você depois!”
“Acho que Reno está com uma cama livre no quarto dele, Santiago, se você odeia tanto a ideia de dormir ao ar livre!” Retruquei e, ignorando todos seus protestos e esmurradas contra a porta, eu fui me deitar, com um sorriso no rosto.
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