Notas iniciais
Obrigada pelos reviews amáveis no primeiro capítulo! Espero que gostem desse! :D

Quando acordei, senti o chão gelado e desconfortável. Eu estava deitado numa posição torta, com os pulsos presos às minhas costas, e todo meu corpo reclamava, dolorido e cansado. Consegui me sentar desajeitado e pisquei, meus olhos incomodados pela luminosidade que entrava pelas janelas da cabine.

Entrei em desespero outra vez, perguntando o que eu havia feito de tão errado na vida para acabar num navio pirata no mar do Caribe. Por que meu pai me trouxera nessa viagem idiota? Por que eu não alertara os guardas da fuga de Santiago? Por que eu saí correndo feito um boi para o abate naquele ataque? As perguntas minaram minha mente até que eu conseguisse respirar fundo diversas vezes, acalmando-me, e olhasse em volta, analisando meu cárcere.

Okay, aquilo não se parecia nem um pouco com um cárcere. Era um aposento amplo — que deveria estar logo abaixo da proa do navio, pois havia uma grande janela côncava de vidro que mostrava o mar — com uma cama espaçosa, alguns baús de roupa, uma mesa com papéis, mapas e bússolas espalhados, umas cordas enroladas jogadas em um canto e até mesmo um canhão em miniatura como decoração.

Eu tentei livrar minhas mãos, que já estavam dormentes, enquanto meus pulsos ardiam raspando na corda, quando a porta do aposento se abriu. Eu congelei, tentado a fingir que ainda dormia, porém achei que isso não mudaria muita coisa. Se me quisessem acordado, simplesmente me chutariam até que eu desse algum sinal de vida.

Ahoy, você acordou!” Exclamou uma garota.

Eu deixei meu queixo cair. Uma garota? Por mil demônios, o que uma garota estava fazendo num navio pirata? Então reparei nas vestes dela: uma calça marrom larga, presa na cintura por um cinto de couro também marrom, botas de couro preto e uma camiseta de botões e manga comprida dobrada até os cotovelos.

“Antes que você me pergunte, sim, eu sou uma bucaneira.” Reparei na adaga e no florete presos à cintura dela. “E você pode me chamar de Madalena, ou só Nena, como preferir.”

“Mas... Você é uma mulher!” Exclamei, estupefato. Talvez fosse a falta de água e comida no estômago, mas as informações estavam demorando a fazer sentido em minha mente. Ela suspirou, como se já houvesse escutado aquilo milhares de vezes.

“Grande dedução, boneca. Qual foi sua dica, os cabelos compridos ou os peitos?” Ela revirou os olhos. “Por Njord, você está um trapo!”

Ela se aproximou e se agachou à minha frente, tirando a adaga da cintura e, por um momento, pensei que ela iria me esfaquear. Santo Cristo, eu agora estava com medo de uma garota. Deprimente.

“Calma lá, boneca, só vou cortar as cordas.” Ela avisou e só então eu percebi que ela estava me chamando de boneca. Qual o problema desses piratas?

“Boneca? Eu que deveria estar lhe chamando de boneca, não o contrário!” Exclamei, indignado. Admito que nunca usaria um apelido desses com uma garota. Parecia-me brega demais.

Ela riu divertida.

“Se você me chamasse de boneca, eu cortaria fora os seus bagos antes que você sequer pensasse em usá-los comigo.” Ela falou, ao mesmo tempo em que cortava as cordas com um único movimento. “Já fiz isso, acredite.” Nena piscou.

Acariciei meus pulsos enquanto tentava mexer meus dedos inertes. Olhei para a garota. Era baixinha, com não mais de 1,65m de altura, cabelos castanhos da mesma cor dos olhos e pele bronzeada, como qualquer ‘homem’ do mar. Era bonita, mas nada muito impressionante.

“Quero saber por que todo mundo me chama de boneca nessa merda de Caribe!” Exclamei, exaltado. Meu humor não estava bom. Eu estava faminto, com sede, cheio de dores no corpo e com um gosto amargo na boca. Ela riu, ignorando minha pergunta.

“Vamos lá, boneca, tem comida e água te esperando na cozinha.” Nena me segurou pelo braço e meu puxou para fora da cabine; a saída dando direto para o convés do navio. Imaginei que os outros dormitórios ficavam nos andares de baixo.

Os piratas trabalhando no convés me encararam de forma nada amistosa enquanto Nena me guiava por ele, e me encolhi instintivamente para mais perto dela.

“Hei, bucaneira, está levando a carne para o nosso almoço de hoje?” Gritou um dos homens, pendurado num dos cordames do navio, arrancando algumas risadas pelo convés. Crispei meus lábios com desgosto.

“Tire o olho, Paco, esse aqui é propriedade do capitão!” Ela gritou de volta, e sua voz tinha um aviso implícito: ‘não o matem sem ordens do capitão’. Estremeci. Até quando eu continuaria vivo naquele navio?

Ela me olhou de esguelha quando alcançamos as escadas que levavam ao compartimento inferior do navio.

“Hei, não fique tão tenso. O capitão é um bom homem, não vai matá-lo a não ser que você lhe dê motivos para tanto.” Ela ajeitou a bandana vermelha que usava para manter os cabelos longe do rosto e desceu as escadas.

Restou-me segui-la e, visto que ela parecia ser a pessoa mais amistosa naquele lugar, tentei arrancar-lhe algumas informações.

“Você sabe se ele pretende... Me libertar, ou coisa parecida?” Arrisquei. Ela mordeu o lábio inferior, coçou a bochecha e então suspirou, abaixando a mão e segurando o cabo de seu florete.

“Não faço idéia. Mas, entenda, boneca, se nós o libertarmos, você fará o quê? Não podemos levá-lo até Hispaniola, o inimigo está lá. Poderíamos deixá-lo em Tortuga, mas você não tem dinheiro e, mesmo se lhe déssemos algum, que respeito um viajante magrelo e com cara de fruta como você transmitiria? Provavelmente o matariam e roubariam sua prata assim que você virasse as costas, antes de levá-lo até Hispaniola. Acredite, é mais seguro para você aqui, nesse navio, do que solto sozinho em terra firme.”

“Com cara de fruta?” Eu me indignei outra vez. E eu que sempre tive um charme irresistível com mulheres, agora era feito de idiota por uma. Porém não acho que meu aspecto no momento era dos mais sedutores. Deveria estar fedido, amarrotado, desgrenhado e com cara de cachorro sem dono.

Nena deu tapinhas de consolo em minhas costas um pouco antes de alcançarmos a cozinha do navio. O lugar fedia à carne, sangue, cerveja e alguma coisa estragada e queimada. Era nauseante.

“Não fique assim, você não parece feminino. É sério.” Ela enfatizou, quando olhei para ela com um sorriso torcido e debochado. Também não era como se eu já não soubesse disso. “É só que as pessoas por aqui estão acostumadas com homens com barba por fazer, fortes, com rosto queimado de sol e mãos calejadas pelo trato do mar. Admita, você é uma boneca de porcelana para os nossos padrões.” Ela pulou num banco perto de um balcão e pegou um pão mofado e duro sobre ele, jogando-o na minha direção.

“Não vou admitir porcaria nenhuma!” Exclamei, olhando enojado para o pão que mais parecia uma pedra com musgo.

“Está vendo? Até frescura com comida tem, tsk,” Nena crispou os lábios e pulou do banco, contornando o balcão. “Tem água naqueles barris perto da parede.” Ela apontou, procurando por alguma coisa mais comestível nos armários e gavetas.

“Está mofado e duro, ninguém comeria uma coisa dessas.” Falei, com uma careta, colocando o pão sobre o balcão novamente e indo pegar um pouco de água. “Como você acabou nesse navio?”

Ela tirou um pedaço estranho de comida compactada de um dos armários e colocou o prato de madeira sobre o balcão, com o peito estufado por ter encontrado algo diferente de pão estragado. Depois se apoiou no balcão, mordiscou o dito pão e olhou para mim, pensativa.

Tomei um gole de água, minha garganta gritando em agradecimento, enquanto esperava por uma resposta. Confesso que estava genuinamente curioso.

“Minha irmã.” Ela falou simplesmente e eu franzi o cenho, confuso.

“O quê?”

A la putcha! Eu não gostava da vida que levava em terra firme.” Ela desconversou, arrancando um bom naco de pão dessa vez, depois de me dar um susto com a interjeição que soltara repentinamente. Não consegui não torcer os lábios com nojo. Como alguém conseguia comer uma coisa daquelas e continuar vivo? “E quando vi a oportunidade, agarrei-a unhas e dentes.” Ela largou o pão mordido na mesa e me empurrou o prato com aquele alimento não identificado. Percebi que ela estava fugindo do assunto. Havia muito mais do que querer levar uma vida em alto mar naquela história. “É torresmo. Vai colocar um pouco de sustância nesse seu corpo magrelo.”

“Torresmo?” Perguntei, abismado. Eu nunca ao menos ouvira falar em algo com esse nome. Ela olhou-me como se eu tivesse duas cabeças.

“Você nunca comeu... Ah, mas que fracasso. Vamos lá, boneca, refestele-se com um bom pedaço de banha de porco torrada.” Ela brindou, olhando-me sem-vergonha. Banha de porco! Eu estava prestes a me negar a sequer chegar perto daquele negócio, quando meu estômago se contraiu, protestando com um rugido. Resignado, sentei-me em frente ao balcão e comi o bendito torresmo. E o pior era que o negócio não era assim tão ruim.

Nena riu de mim quando comecei a comer com mais voracidade.

“Eu não deveria estar aqui.” Falei, já de barriga cheia de banha de porco (argh!) e água. “Eu sou um nobre inglês! Sou rico, estou acostumado com o luxo, com...”

“Ah, cala-te, criatura insuportável!” Ela exclamou impaciente, e eu torci os lábios. Era nesses momentos que eu preferia não ter perdido meu tempo aprendendo o espanhol. Eu havia percebido que a tripulação falava espanhol, inglês e umas misturas difíceis de compreender. “Você está na fase da negação.”

Torci os lábios.

“Você não entende.”

“Ah, entendo sim. Você é um nobre esnobe que acabou num navio pirata como prisioneiro e agora fica se lamentando por seu destino cruel. Vá, é melhor que chegue à fase da aceitação antes de começar o seu trabalho. Eu não tenho o dia inteiro.” Ela disse, balançando a mão em descaso.

“Trabalho?” Perguntei, hesitante. Eu teria que trabalhar? Quando, meu Deus, eu havia trabalhado na vida?

“Sí, você não achou que viveria aqui de graça, comendo de nossa comida, sem oferecer nada em troca, não é?” Ela perguntou, seus olhos cintilando com a minha ingenuidade.

“Mas... eu nunca trabalhei antes.” Confessei e então levantei, tão rápido que o banco caiu no chão com um estrondo. “Eu me recuso a trabalhar! Vocês me trouxeram para cá, eu nunca pedi por isso. E sou um nobre! Nobres não trabalham para piratas! E essa porcaria de comida que vocês têm a bordo não vale nem mesmo uma mísera moeda de bronze!” Exclamei, num jorro confuso e ultrajado. Era só o que me faltava, além de prisioneiro, além de comer mal, além de toda a humilhação, eu teria que trabalhar. “Meus serviços valem muito mais do que isso.” Falei, arrogante, esperando que meus quase 1,80m de altura intimidassem Nena de alguma forma, mas ela apenas ergueu uma sobrancelha, como se prestes a cair na gargalhada, e depois olhou para um ponto às minhas costas, assentindo respeitosamente.

Engoli em seco. Ela assentiu como se estivesse se dirigindo ao... Capitão. Olhei em direção à entrada da cozinha e mordi o lábio inferior. Santiago estava encostado à batente da porta, com os braços cruzados sobre o peito e uma expressão tão ou mais descrente e irônica que a de Nena. Tive vontade de pegar uma das facas enferrujadas de um dos suportes sobre o balcão e cortar minha língua fora, mas era tarde demais. Então ergui o queixo e encarei o pirata em desafio. Isso pareceu diverti-lo ainda mais.

Ele manteve os olhos castanhos pregados em mim por alguns segundos. Seu olhar era tão intenso que era como se uma força física me empurrasse para trás, enquanto ele lia a minha alma; mas mantive-me impassível, esperando que ele reagisse primeiro. Então ele desviou lentamente seus olhos de mim, focando-os em Nena.

“Algum problema por aqui, bucaneira?” Ele perguntou, ignorando-me completamente enquanto entrava na cozinha. Senti raiva disso. Os homens geralmente ignoram seus inferiores, e era justamente isso que ele estava me dizendo. Que eu era mais insignificante do que um cachorro vira-latas naquele navio.

Nena deu de ombros, limpando a boca suja de farelo de pão com as costas da mão.

“Apenas explicando ao nosso convidado as regras do navio.”

“Claro.” Disse Santiago, sereno, e pegou uma das facas no balcão, admirando o brilho da lâmina por alguns instantes. Eu engoli em seco outra vez, ciente de que ele poderia acabar com a minha vida com apenas um movimento rápido e preciso.

E foi o que ele fez. Não, não, ele não acabou com a minha vida, mas fez um movimento inesperado e então eu estava preso entre a parede e a ponta da faca de cozinha.

“Você é prisioneiro aqui, garoto, e seus serviços não valem nem a comida que você tanto despreza. As regras são simples, Nena já lhe disse uma delas: você come, você trabalha. A outra é: você mantém a boca fechada e obedece, você vive. Estamos entendidos?”

Eu acho que murmurei algo parecido com um “sim, senhor”, ou “vai à merda”, não tenho certeza, mas por sorte Santiago preferiu aceitar aquilo como uma afirmação e me largou, toda sua pose ameaçadora sumindo como num passe de mágica. Olhei para ele, minha respiração normalizando.

Ele era bem mais alto que eu, talvez uns dez centímetros, seu peitoral e braços eram, no mínimo, duas vezes mais fortes que os meus (do apelido magrelo, eu não poderia discordar inteiramente), os cabelos castanhos dele eram curtos, escuros, e ligeiramente arrepiados. Se não fosse pela atitude e pela voz cheia de autoridade, ninguém diria que ele era capitão de um navio pirata. Não deveria ter chegado aos trinta anos. Admito que a imagem de um chefe pirata que eu tinha era a de homem barbudo e caolho, com uma perna de pau, um gancho no lugar de uma das mãos, um papagaio no ombro e um sorriso de dentes podres. Santiago destruía por completo o estereótipo em minha mente.

“Nena vai ficar de olho em você.” Ele avisou, fincando a faca no balcão.

Yo no creo!” Ela resmungou desgostosa, apoiando os cotovelos na mesa com uma expressão emburrada.

“Se ele sair da linha, você tem minha permissão para matá-lo.” Santiago concedeu, num tom alegre. Deixei meu queixo cair e olhei para minha mais nova carcereira.

“Alguma vantagem eu tinha que ter nessa história.” Ela deu de ombros, olhou para mim e piscou. Ao menos ela parecia estar só de sacanagem. Não queria parecer convencido, mas achei que ela simpatizara comigo. Talvez se eu conquistasse a amizade dela, ela poderia me ajudar a escapar, ou então convencer Santiago a me libertar. Eles pareciam ser bem amigos, como se compartilhassem um segredo ou um objetivo, ou...

“Espero que saiba como lavar um convés, garoto, aquele lá está imundo.” Santiago disse maldoso, antes de deixar a cozinha.

Olhei para Nena, que brincava de rodear sua adaga entre os dedos.

“Vocês são amantes!” Declarei, num tom quase acusatório. Ela levou um susto tão grande que deixou a adaga cair, ganhando um corte no dedo no processo. Pensei que ela iria soltar uma exclamação de dor, ou um impropério, mas ela apenas olhou para mim, incrédula, e então começou a gargalhar.

“Amantes? Eu e o capitão Santiago?” Ela riu ainda mais. ¡Qué barbaridad! Não seja ridículo.”

“Por que não? Você é a única mulher a bordo e um homem precisa se divertir.” Bem, eu não sabia se ela era mesmo a única mulher no navio. Não era como se eu tivesse conhecido toda a tribulação naquele meio tempo — ou sentisse alguma vontade de conhecer. Ela riu um pouco mais, limpando uma lágrima no canto do olho.

¡Qué vá! Santiago é como um irmão mais velho para mim. Ele estendeu a mão quando mais precisei e na época eu era apenas uma criança...” A voz dela morreu aos poucos e um brilho de dor e saudades alcançou os olhos castanhos. Franzi o cenho, curioso por ouvir mais e entender o que se passava pela cabeça dela naquele momento.

“Nena?” Instiguei, mas ela apenas contornou o balcão, já recomposta, e me pegou pelo antebraço.

“Vamos lá, boneca, sua vida como marinheiro começa agora.”

“Seu capitão não me chama de boneca.” Resmunguei, sendo arrastado de volta para o convés, não sem que antes, em um depósito de limpeza, ela pegasse um balde, um esfregão velho e um sabão e os empurrasse para mim.

“Sorte sua, boneca, porque é assim que o resto da tripulação irá chamá-lo, pode ter certeza.” Ela avisou, sorrindo de orelha a orelha. Ah, claro, eu seria o mais novo alvo de piadas e deboches da tripulação. Minha vida não parava de melhorar.

“Ótimo.” Resmunguei, comprimindo os lábios. Quando chegamos ao convés, pensei que ele nunca me parecera tão estupidamente enorme. “Ótimo.” Repeti, ainda mais amargo.

XxX

Foi a coisa mais cansativa que eu já fiz em toda a minha vida. Não sei quanto tempo eu fiquei limpando o maldito convés, resmungando e xingando todo os nomes santos que me vinham à mente, enquanto os homens riam da minha cara e faziam piadinha sobre como eu parecia uma garotinha delicada fazendo a limpeza. Desgraçados.

Eu sentia vontade de partir para cima deles todos e socá-los até que minhas mãos gritassem de dor, mas seria estúpido. Quem sairia quebrado seria eu, e provavelmente ou eles me matariam, ou me prenderiam sem comida nem água. Nenhuma das opções muito tentadora. Eu queimava de raiva por dentro, ainda na fase da negação, como dissera Nena. Não podia estar acontecendo. Não comigo. Era tão injusto.

Larguei o esfregão dentro do balde com água e me encostei, sentado e exausto, na borda do navio, meus braços descansando apoiados nos meus joelhos. Minha pele ardia pelo tempo gasto embaixo do sol forte e minha garganta estava seca outra vez. Mas ao menos o convés estava limpo. Eu esperava que isso me rendesse mais do que nacos de banha de porco torrada.

“Aqui, boneca, beba um pouco.” Nena entregou-me um copo de madeira com água. Eu já estava conformado com o apelido. Não era como se eu parecesse com uma garota, mas, depois de dar uma boa olhada nos homens a bordo daquele navio, vi que eu realmente destoava perto deles. Todos me lembravam variações do dono do bordel em Hispaniola.

“Obrigado.” Murmurei, tomando o conteúdo no copo em apenas um gole. Nena sentou-se ao meu lado.

“Você fez um bom trabalho, estou surpresa.” Ela falou, soando verdadeira. Grunhi alguma coisa em resposta e ela riu do meu desgosto.

“O que você faz no navio?” Perguntei, depois de alguns segundos de silêncio.

“Sou imediata do navio,” Ela falou, estufando o peito, mas ao ver minha expressão de quem não fazia ideia do que isso significava, apesar de já ter escutado o nome, ela começou a explicar todo o funcionamento em um navio pirata. “Sou responsável por repartir de tudo, desde refeições até os castigos, e também distribuo os saques feitos em outros navios para a tripulação. Santiago é o capitão, como você bem sabe, e foi escolhido democraticamente, por suas ótimas qualidades em combate e liderança. Depois nós temos os mestres de navio, são oficiais inferiores, que vigiam a vela, o cordame e mantêm o convés em ordem. Há também os homens de arma, que têm boa pontaria e sabem mexer nos canhões. Há o carpinteiro, para substituir peças de madeira danificadas do navio, tapar buracos e emendar as velas rasgadas. Os rapazes de pólvora, responsáveis por limpar e carregar armas e, por fim, os criados de bordo, que, obviamente, trabalham como criados e são encarregados de limpar o camarote do capitão, lavar o convés e os dormitórios, manobrar canhões, ajudar o cozinheiro e fazer outras tarefas de pouca importância. Você se encaixa nessas duas últimas designações, elas se misturam, na verdade. A maioria dos rapazes de pólvora também faz o trabalho de criado. Ah, e claro, temos um cozinheiro e um cirurgião a bordo também. ”

Crispei os lábios ao me descobrir como um criado, mas não falei nada. Já havia percebido que ficar me lamentando para Nena, ou qualquer outro naquele lugar, não me ajudaria em nada. Eu precisava provar que tinha algum valor ali dentro, para começar a ser respeitado, isso era óbvio. O problema era como eu faria isso.

“Ah, e por falar nisso, você precisa ir limpar a cabine do capitão.” Ela falou, levantando-se e, ao ver minha expressão desolada, inclinou-se, apoiando as mãos nos joelhos e olhou-me nos olhos. “Sei que sua vida virou de ponta cabeça de uma hora para a outra, mas, se você não for um desistente desgraçado, as coisas podem melhorar. Já trabalhei nesse navio como criada de bordo.” Nena piscou. “Se uma garota sobreviveu, uma boneca também consegue, não é mesmo?”

Revirei os olhos, ignorando o sorriso infame que ela me lançou antes de se afastar. Suspirei – de fato nem um pouco inclinado a me sair pior do que uma garota naquele serviço –, levantei-me e renovei a água do balde, seguindo então para a cabine do capitão, a qual, eu supunha, fora o local onde eu dormira.

“Hei, boneca, meu quarto está precisando de uma faxina também! Por que você não deixa eu mostrar para você onde ele fica, depois?” Falou um dos piratas assim que passei por ele. Minha pele se eriçou com repulsa.

“Vá sonhando, idiota.” Murmurei, cheio de ódio ao ouvir a risadinha pervertida dele, e segui adiante, até alcançar o final do convés. Havia uma parede de madeira, com uma porta no centro e, em cada lateral, uma escada que levava para a proa.

Assim que abri a porta, vi Santiago sentado na cadeira em frente à mesa ainda cheia de papéis, suas pernas apoiadas na mesa, enquanto ele, inclinado para trás, observava distraído um anel com uma pedra vermelha tão brilhante que me senti hipnotizado por ela. Ele desviou o olhar lentamente para mim e encarou-me como se eu fosse um inseto, antes de recolocar o anel num dos dedos e descansar as mãos atrás da cabeça, em uma pose relaxada.

“O chão não vai se limpar sozinho, garoto.” Ele zombou, erguendo uma sobrancelha. Torci meus lábios e entrei, fechando a porta às minhas costas.

O bastardo parecia fazer questão de me ver de joelhos esfregando seu chão.

Notas finais
Todos os comentários são bem vindos! Beijinhos! :*