Mar De Fogo
8 Morte
“Você planejou tudo! Fez de propósito!” Exclamei ofendido, virando-me ainda dentro do abraço do Santiago e o encarando diretamente nos olhos. Tenho certeza de que estava quase espumando de ódio. Ele lentamente ergueu uma sobrancelha, fingindo-se de desentendido.
“O quê?” Perguntou, retribuindo meu olhar. Não me intimidei, de modo que as palavras jorraram de minha boca como água escorrendo em uma cascata.
“Fez com que eu me deitasse com uma mulher e depois deixou a porta do quarto, onde você fodia aquele infeliz escandaloso, propositalmente aberta para que eu visse e... e...” Me engasguei, só então percebendo que estava falando demais. O que eu iria fazer? Admitir que, depois de dois orgasmos, eu quase havia tido uma ereção ao vê-lo fodendo aquela gralha gemente em forma de homem?
Santiago sorria enquanto me encarava, quase como se pudesse ler toda a culpa e perplexidade que me assolavam. Respirei profundamente, recobrando a calma, tentando pensar friamente em busca de uma explicação para os acontecimentos recentes, mas era incrivelmente difícil. Tudo no Santiago me fazia perder o bom-senso e pôr meu sangue para ferver. Em todos os sentidos. E não, isso não é algo bom.
Só me fazia odiá-lo ainda mais.
“Estava me espionando?” Ele perguntou justamente quando eu havia conseguido regularizar minha respiração e de imediato meu coração voltou a bombear com força enquanto meu rosto queimava de vergonha. Era o cúmulo, me senti tentado a não responder, mas o Santiago se inclinou, descendo as mãos pelas laterais das minhas coxas e sussurrando ao meu ouvido. “Gostou do que viu? Poderia ser você ali, se quisesse. Eu adoraria te provar mais a fundo...” Ignorei solenemente o arrepio que desceu pela minha espinha por culpa do timbre rouco e o afastei o melhor que pude.
“Eu não espionei! Olhei apenas o suficiente para me sentir enojado.” Cruzei os braços sobre o peito. “E não há nada para testar. Minha teoria não precisa ser comprovada, porque não é uma teoria, mas um fato.” Menti com convicção, escondendo perfeitamente todo meu nervosismo. Sempre fui bom em esconder minhas emoções, apesar do Santiago conseguir arrancá-las de dentro de mim com uma facilidade perturbadora.
“Dizem que uma vida não questionada não merece ser vivida. O fato é...” Santiago voltou a praticamente me prensar contra o balcão, ao qual eu me apoiei, inclinando meu tronco para trás para tentar me afastar de seus lábios em meu pescoço. “Que eu não acredito em você.” Sussurrou, divertido.
E ele seria estúpido em acreditar, já que meu baixo ventre voltara a formigar e eu fechei parcialmente os olhos, com as pálpebras tremulando, quando a ponta áspera da língua dele começou a percorrer a minha pele. Senti-me tonto de novo conforme a cena de sexo que eu havia presenciado enchia as minhas retinas claras com uma nitidez exasperante.
“Não faça isso aqui...” Consegui murmurar em um tom odiosamente débil ao perceber que estávamos à vista de qualquer pessoa dentro do ‘Pétalas de Fogo’ e que alguns, inclusive, observavam a minha decadência com olhares furtivos de troça e volúpia.
“Então você prefere num lugar mais reservado?” Santiago carregou a frase de malícia e, antes que eu conseguisse protestar, me puxou com ele para o mesmo lugar mais particular do estabelecimento onde Alóis havia me levado para me interrogar.
Só que não era um interrogatório o que o Santiago tinha em mente. Ele foi até um sofá em um canto afastado e se sentou nele, levando-me junto para seu colo, de frente para ele, meus joelhos aos lados de seu quadril. Eu gostaria de dizer que dei um jeito de fugir, que meu orgulho foi mais forte e me levou a pular para longe como pedia o bom-senso; mas não tive tempo de pensar muito antes que as mãos largas dele se encaixassem em meus glúteos e me puxasse para me esfregar em sua ereção nascente.
Agarrei os ombros largos dele e engoli um gemido que quis escapar, enquanto um filete de suor escorria pela minha nuca e o pau dele roçava entre minhas nádegas.
“Não entendo por que reluta tanto, Dominic.”
Por alguma razão, ouvir meu nome saindo da boca do Santiago, enquanto ele movia meu quadril contra o corpo dele, me obrigou a abafar outro gemido.
Isso já estava passando dos limites.
“Consigo ver e sentir o quanto gosta disso.” Santiago sorriu sacana.
E tentou capturar meus lábios. Tentou porque, num relampejo de sanidade, eu virei o rosto. Santiago soltou um suspiro aborrecido e, no lugar de reclamar, ergueu subitamente meu corpo, deixando meu abdômen na mesma altura que sua boca.
“Vou provar para você a verdade.” Ele falou, já impaciente.
“Você... não-“ Tentei dizer, mas, ignorando-me, ele ergueu minha camiseta e mergulhou os lábios quentes em minha pele. O ar escapou dos meus pulmões de uma maneira muito mais rápida do que o recomendável e eu perdi toda a linha de raciocínio. “Oh, Cristo...” Gemi ao sentir boca e língua descendo, e agarrei seus cabelos escuros, ofegando baixinho e apoiando uma mão sobre a parede à minha frente.
Experimentei uma espécie de vergonha e frustração por não ter um corpo tão ‘másculo’ quanto o dele; meu corpo era marcado por músculos firmes, de constituição magra, apesar de definida, mas perto do Santiago, e enquanto eu era mantido firme no lugar com tanta facilidade, eu me sentia como um frangote esquálido.
Santiago me ergueu ainda mais e seus lábios percorreram o volume sob minha calça, atestando com a boca a maneira como eu estava endurecendo em resposta aos seus toques. Apesar da barreira do tecido, praticamente ronronei quando seus lábios envolveram meu pênis e senti meu orgulho despencar completamente com o fato. A vontade insana que trespassou meu corpo trêmulo era de abaixar minhas calças e deixar que ele colocasse tudo na boca, sem nenhum impedimento, mas me mantive parado, a despeito dos tremores que desciam pela minha espinha e da respiração ruidosa.
Sem aviso, Santiago segurou a barra da minha calça e me puxou para baixo, de modo que minhas pernas dobraram bruscamente e voltei a estar colado contra seu corpo. Ele estava pronto para tentar me beijar novamente – e, dessa vez, eu duvido que alguma lucidez fizesse o favor de dar o ar da graça em meus pensamentos inebriados –, quando Noel apareceu.
Eu acho que poderia canonizá-lo, mesmo. Era a segunda vez que eu era salvo por uma interrupção dele, e logo decidi que o Noel era o cara que eu mais gostava em todo o Caribe.
“Santiago.” Ele chamou, sem dar a mínima importância para toda a intimidade constrangedora em que eu e o irmão dele estávamos mergulhados. Santiago soltou um palavrão e, sem desviar os olhos do meu rosto, perguntou:
“O que foi agora, Noel?” A irritação era palpável em seu tom ríspido.
“Eu não vou.”
A expressão do Santiago tornou-se, se possível, ainda pior, e ele me empurrou para o lado e se levantou, parando em frente ao irmão. Eles tinham algumas semelhanças, como o maxilar forte e o nariz proporcional, porém Noel tinha os cabelos compridos e não curtos, amarrados em um rabo desgrenhado, usava barba e conseguia ter os músculos mais gigantescos que eu já havia visto na vida, além da altura assustadora. Ele também era repleto de tatuagens, enquanto o Santiago usava apenas uma no braço esquerdo.
“Achei que já havíamos discutido sobre isso. Você falou que ia ir!” Santiago exclamou fuzilando o irmão que aparentava ser um pouco mais velho.
“Eu não posso, Santi!” Quase ri discretamente do apelido, mas me contive a tempo. “A Esmeralda está grávida de um filho meu, mais três meses e ele vai nascer. Não posso deixá-la aqui sozinha!”
“Mas que merda, Noel! É óbvio que essa merda de criança não é tua. Aquela prostituta dá a porcaria daquela boceta todos os dias e tu vai acreditar nessa história de que uma foda de meses atrás faz de você o pai?” Santiago parecia prestes a assassinar o próprio irmão na tentativa de colocar algum juízo na cabeça dele.
Noel não pareceu abalado. Apesar do tamanho, ele tinha um jeito meio pateta, calmo demais, e devia estar acostumado com o palavreado grosseiro do Santiago.
“Eu não posso deixar essa criança sozinha, mesmo que você acredite que ela não seja minha. Eu confio na Esmeralda, e a Lurdes me garantiu que ela não trabalhou mais desde que eu deixei a ilha.” Noel falou serenamente.
“Eu não acredito que você vai nos deixar justamente agora! Agora que as visões da Nena estão de fato acontecendo, agora que eu tenho o anel,” Santiago mostrou o anel de pedra vermelha brilhante em seu dedo, que reluziu como que para dar ênfase às suas palavras. Em seguida ele segurou o meu pulso e, só pra variar, me puxou para perto como se eu fosse uma boneca de pano. “Agora que temos dois dos quatro anéis e o ruivo que nos ajudará a concretizar a nossa vingança. Como você pode pensar em desistir depois de tudo? Você se esqueceu...” A voz do Santiago falhou por um instante – tão ínfimo – que jurei ter imaginado seu fraquejo. “Esqueceu do que fizeram com todos eles?” Completou num sussurro duro.
Noel suspirou pesadamente, com os olhos brilhando cheios de compreensão.
“É justamente por tudo que eles fizeram por nós e por tudo que passamos vivendo por nós mesmos desde cedo, que eu não posso deixar meu filho justo agora. Ainda mais que... Nós não sabemos quanto tempo demorará para voltarmos dessa vez, nem se vamos mesmo voltar. Santiago, irmão, por favor, você tem que entender-“
“Pro inferno que eu entendo!” Santiago disse alterado, com uma voz de trovão, apertando meu pulso a ponto de arrancar-me um muxoxo dolorido. “Você está traindo tudo – TUDO – pelo que lutamos desde aquela noite. Tudo que juramos conquistar para vingá-los. Teu filho, se for mesmo teu filho, teria a mãe para cuidar dele, não estaria sozinho.”
“Santi-“ Noel tentou dizer, mas Santiago o empurrou e saindo pisando duro, arrastando-me junto com a mão ainda engatada como uma garra em meu pulso machucado.
“Você já disse tudo que tinha para dizer.” Santiago terminou rispidamente a conversa. Tropecei nos meus próprios pés, olhando por cima do ombro para a careta desolada do Noel.
Nós saímos para as ruas de Tortuga e andávamos tão rápido, que em questão de minutos estávamos de volta à casa do Santiago. Os ‘vigias’ na entrada se afastaram rapidamente para deixar o capitão passar e, assim que chegamos à sala, Santiago me empurrou para frente, soltando-me, e começou a andar de um lado para o outro, bufando de raiva.
Fiquei alguns segundos o observando, sem saber o que fazer. Santiago estava tão emputecido, que qualquer pequeno movimento poderia fazê-lo explodir. Eu deveria ficar calado, subir para o quarto e me trancar lá enquanto havia a chance, mas nunca fui conhecido por fechar a boca na hora certa; justamente pelo contrário.
“Eu vou te ajudar com uma vingança?” Soltei abruptamente. “Que vingança é essa? O que a Nena viu?”
“Agora não, Dominic.” Diferente de antes, meu nome pareceu odioso vindo da boca dele. Apertei os punhos e respirei fundo, em busca de calma. Minha cabeça parecia que iria explodir. Eu estava dentro de um redemoinho e minha vida tomava rumos cada vez mais insanos em espaços de tempo muito curtos para que eu conseguisse assimilar plenamente as mudanças.
“Se você quer que eu te ajude com alguma coisa, não deveria me deixar completamente no escuro. Eu não faço ideia de nada do que você falou. Essa história sobre os anéis-“
“Mas será que você não consegue calar a boca por um segundo sequer?” Santiago parou de zanzar pela casa e parou bem à minha frente. Mordi o lábio inferior com a proximidade, mas dei um passo para trás ao ver o olhar dele descer para minha boca. Imediatamente larguei meu lábio e soltei um grunhido quando ele agarrou em cheio meus cabelos. “Você quer parar de me provocar e depois fingir que não quer?”
“O quê?! Eu nunca-“
Santiago me beijou antes que eu conseguisse falar. Tomei um susto ao sentir seu gosto me atingindo em cheio, de modo brutal. Percebi que antes ele estava apenas brincando comigo, pois agora suas mãos estavam agressivas e imediatamente começaram a trabalhar em me livrar das minhas roupas, enquanto sua língua rudemente violava minha boca.
Meu coração começou a pulsar e logo percebi que aquilo não levaria a nada bom. Comecei a me debater e consegui afastar o rosto dele, recuperando o que restava dos meus sentidos danificados enquanto ele me arrastava para o quarto mais próximo.
“O que está pensando em fazer?” Perguntei estupidamente.
“Estou pensando que vou transar com você. Essa brincadeira perdeu a graça.” Ele respondeu, seco.
“Me larga, Santiago!” Exigi. “Pelo amor de Deus, eu não quero isso!”
E não queria mesmo. Eu podia ter entendido que sentia mesmo alguma espécie bizarra de tesão por ele, mas nem por isso me sentia preparado para transar com o homem que havia arruinado a minha vida. Ou melhor, eu não me sentia preparado para transar com homem algum! E nem me lembre do Alóis, aquilo foi um lapso de raciocínio causado pelo meu ódio pelo Santiago.
“Fique calado e não piore as coisas.” Santiago me prensou contra a parede ao lado da entrada para o quarto e começou a beijar meu pescoço. Eu fechei os olhos, querendo fugir dali. Ele não iria parar, eu iria continuar me debatendo e lutando contra aquilo e acabaria estuprado. Comecei a hiperventilar pelo esforço para me libertar, mas era impossível com seu corpo forte como minha prisão e, por mais que eu pedisse, ele não parava. Parecia possuído por alguma força maligna desde a discussão com o Noel, e agora estava sobrando para mim.
“Você disse que ia esperar... Que eu fosse até sua cama por vontade própria.” Apelei, fazendo malabarismos para escapar de seus toques agressivos, vazios de qualquer espécie de cuidado ou vontade de me fazer gostar também daquilo. Mais do que nunca ele parecia querer me humilhar e depreciar. Santiago voltou a segurar meus cabelos em um aperto doloroso e eu gemi fraco, olhando para cima, para seu rosto sério.
“Eu costumo mudar de ideia com facilidade.” Declarou, em uma ironia sem humor.
Foi quando eu me lembrei da adaga escondida entre minhas vestes. Surpreendi-me por ele não o ter encontrado ainda, já que havia passado a mão por praticamente todo o meu corpo – mas eu o havia escondido bem, e me orgulhei de mim mesmo por isso.
Seu rosto se aproximou do meu novamente, pronto para voltar a devorar minha boca, mas parou no meio do caminho. Foi uma visão assustadora. Os segundos de espera. A expectativa e o silêncio. Ele soltou uma risada fraca, como se risse da adaga que eu havia enfiado em seu abdômen, e o sangue escorreu do seu nariz. Assim que ele caiu de costas, eu já estava trêmulo e completamente arrependido do que havia feito.
“Santiago!” Exclamei caindo de joelhos ao lado de seu corpo estendido no chão de pedra. Não sabia como eu havia conseguido essa proeza, mas o canivete parecia ter atingido algo fundamental dentro dele, pois o sangue jorrava em abundância pela lesão. Tirei o canivete do caminho e tentei pressionar o ferimento, mas minhas mãos apenas se encheram de sangue. “Santo Cristo... Santiago...”
“Você é mais indomável do que eu imaginava.” Ele falou rindo e se engasgando no próprio sangue, que escorria de seu nariz e começou a sair pela boca após uma tosse. Eu o encarei apavorado, sentindo um transtorno enorme no peito ao imaginá-lo morto – por minha causa. Meus olhos se encheram de água e eu pisquei repetidas vezes para disfarçar o fato.
“Puta merda, use esse seu porte enorme para alguma coisa. Como que uma mísera laminazinha ia te derrubar assim?” Perguntei sem entender, minha voz alterada, aguda e vacilante enquanto ele tossia mais sangue. Me debrucei sobre ele e encarei os olhos castanhos calorosos a cada segundo mais opacos. “Não morre, idiota.”
“Essa adaga... Eu havia esquecido dela. É amaldiçoada.” Ele sorriu debochado, talvez pela ironia de morrer de uma forma tão estúpida, por culpa de uma boneca, depois de já ter sobrevivido a coisas muito piores. “Por Deus...” Ele riu um pouco mais, cuspindo novas golfadas de sangue; tive vontade de bater nele para que parasse de rir e vomitar sangue como se não fosse nada. “Eu arruinei a tua vida, estava para te estuprar e você ainda chora porque eu estou morrendo?”
“Vão me matar se te encontrarem morto.” Expliquei, apesar de saber que não era apenas isso. Eu não o queria morto, não realmente. Não era como se eu fosse um sádico que achava interessante sair matando as pessoas que eu odiava. Ainda sentia mal-estar ao lembrar o momento em que havia matado um pirata durante ao ataque ao navio de Leroy, ou da sensação da espada atravessando carne e vísceras quando assassinei o tal Paco.
Segurei o rosto do Santiago, ainda pressionando o ferimento com uma mão, sentindo-a cada vez mais viscosa e quente pelo sangue abundante.
“O que eu faço para te ajudar?” Perguntei em um murmúrio típico de um tom choroso. “Por favor, eu não quero ser o culpado da tua morte. Que você morra numa batalha pirata ou algo do tipo, mas não porque eu não quis que você me comesse.”
Santiago riu.
“Para de rir, merda!”
“É melhor você fugir, porque, você está certo, vão te matar assim que entrarem aqui.” Virou o rosto e cuspiu o sangue que lhe enchia a boca. “Talvez o Alóis te proteja, ele gostou de ti. Não vai se importar de te ajudar em troca dos favores que você está disposto a oferecer a ele.” Sorriu irônico com os dentes manchados de vermelho e, com um suspiro cansado, acabou fechando os olhos.
“Santiago! Santiago! Pelo amor de Deus, seu idiota, estúpido, maldito, não fecha esses olhos!” O sacudi, mas... Ele parecia mesmo... Morto. Ainda o sacudi algumas vezes e o chamei, mas em vão, ele estava inerte estirado no chão, sobre uma poça enorme feita do próprio sangue, e eu estava tão sujo e manchando quanto ele. “Não, não, não, volta, volta, volta... Porcaria... Volta!”
Me afastei um pouco, com a mão sobre seu ferimento, e percebi que seu tórax não se movia mais.
Morto.
Santiago estava morto.
O desespero me assombrou. Eu não podia tê-lo matado, não alguém que eu conhecia e com quem eu havia conversado, e brigado e... Beijado. Não o irmão de Noel e Fradique; o amigo de Nena e Reno; o capitão estimado de tantos outros.
Não o Santiago.
“Eu faço qualquer coisa para você acordar, desgraçado. Eu transo com você, te ajudo com a tua maldita vingança. Mas ACORDA!”
E então aconteceu. Uma sensação agonizante passou por meu corpo, quase como se houvesse sido eu a ter uma adaga enfiada no abdômen. Olhei para o anel em meu dedo e ele parecia brilhar ainda mais forte através de seus olhos de rubi, sugando todas as minhas energias, como se garras se cravassem dentro do meu corpo e roubassem algo vital para a minha sobrevivência. Porém, de alguma forma, eu sabia que não podia me opor a isso, precisava deixar que aquela parte de mim fosse arrancada.
Mas isso não me impediu de gritar. Gritar o mais alto que eu já havia gritado na vida, até que mais lágrimas enchessem meus olhos e escorressem por minhas bochechas, abundantes. Meu olhar embaralhou-se e senti que estava caindo de joelhos para frente. Meus olhos pesaram, fechando, mas ainda tive tempo de soltar uma exclamação abafada de perplexidade ao ver aquele corpo que eu havia dado como morto se erguer do chão, agindo rápido para me amparar em seus braços musculosos.
Porque o Santiago estava vivo. E eu estava morrendo.
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