Mar De Fogo
17 Luneta
Notas iniciais
O Labareda estava ancorado em uma baía na extremidade oposta da ilha. O sol parecia ainda mais forte naquelas primeiras horas da tarde, e os homens trabalhavam arduamente, dezenas deles, manchando as areias e as pedras, enquanto consertavam os estragos do navio.
Havia homens que serviam especialmente para isso, carpinteiros conhecedores do que precisavam fazer para restaurar os estragos da tempestade; porém todos pareciam ajudar como podiam. Alguns homens estendiam as velas danificadas, outros as costuravam, já alguns esticavam as cordas em busca de danos, enquanto muitos reparavam o mastro principal que havia quebrado.
Os feridos provavelmente estavam sendo tratados em uma pequena cabana montada na areia. Era onde Reno deveria estar.
“Ele se feriu também.” Santiago falou. “Quebrou o pé durante a tempestade e por isso não foi conosco te procurar.”
“Eu posso curá-lo.” Falei, cansado. A caminhada não ajudara em nada para que eu recuperasse minhas forças, é claro, e neguei qualquer ajuda que Santiago me oferecesse durante o percurso traiçoeiro através da mata.
Agora estávamos numa altura mais elevada à da baía, sobre uma pedra grandiosa que se erguia entre as árvores da mata e formava um observatório para o mar. Como eu havia usado minha camisa para estancar o ferimento de Terrence, Santiago havia me entregado a dele, e era ele agora sem camisa, exibindo sua musculatura avantajada. Eu aceitei porque minha pele já estava ardida, e eu não queria pegar mais tanto sol. Seria bom ir para a cabana e fugir dos impiedosos raios solares. Não iria suportar novas sardas entupindo meu nariz e bochechas.
“Você pode curá-lo depois de descansar. Não há nenhum ferido entre a vida e a morte.” Santiago decretou.
Torci o nariz para sua mania de falar como se mandasse em todos os seres que caminham sobre a terra, porém estava esgotado demais para uma discussão, e tudo que havia acontecido no lago ainda me perturbava. Não apenas pelo contato físico – eu teria bastante tempo para me envergonhar de minha falta de controle e de minha boca engolindo o falo do Santiago mais tarde –, mas também pela revelação quanto ao passado dele. Havíamos voltado em silêncio, porque eu não conseguia encontrar o que dizer, via-me preso em uma intimidade que eu jamais esperaria entre eu e ele no início de toda a loucura que era minha vida agora, e já não conseguia mirar-lhe o rosto, temendo a maneira como meu coração dispararia quando recaísse sobre mim o peso de seu olhar castanho.
Você está agindo feito uma garotinha ingênua e tola. Era o que minha mente me dizia, insistente. Santiago havia dito que não queria a minha pena. Eu não sentia. Eu odiaria que sentissem tal emoção por mim e ele jamais teria se transformado num capitão famoso e temido de um navio pirata se fosse digno de pena. Ele e os irmãos queriam vingar a família, e Nena queria resgatar a irmã. Eu não sou nenhum homem santo para impedi-los e vir com tagarelices hipócritas sobre vinganças não curarem a alma, ou não trazerem de volta o que se perdeu. Eu não conhecia nada sobre esse tipo de sentimento, ou sofrimento; eles não eram meus para que eu me intrometesse.
“Eu ainda não estou morto, Santiago.” Falei, antes de começar a descer as pedras.
“Ainda. Mas se continuar a tentar agir feito uma boneca suicida...” Santiago murmurou e, quando o olhei por cima do ombro com os olhos estreitados, ele sorriu debochado. “É como alguns marujos andaram te chamando.”
“Oh, vão para o inferno todos vocês.” Ladrei, estafado.
Segui direto para a cabana alta, de tendas brancas, montada na praia. Lá dentro encontrei Reno, sentando em uma cadeira, enquanto costurava o braço de um rapaz que reconheci como Renoir, o ajudante de cozinha de Pantoja. Um rapazinho loiro e magrela de expressão antipática, olhos claros e nariz empinado. Não devia ter mais do que quatorze anos, ficava sempre junto com Pantoja e raramente se envolvia com os outros piratas. Eu havia tido algum contato com ele nos primeiros dias. Ele não havia se comunicado muito, mas tampouco me olhado com o ódio com o qual me fitava agora, ao ver-me entrando.
Reno sorriu, seu sorriso abatido e simpático, quando eu atravessei o tecido solto da entrada da tenda. A perna dele estava esticada e presa a uma tipoia que a mantinha reta e imóvel. Já Renoir fungou, virando o rosto.
“Que bom que está vivo, Dominic. Terrence trouxe a notícia com os outros.” Reno comentou serenamente e voltou a olhar para o ferimento de Renoir, costurando-o com gentileza. O garoto mordeu os lábios, impedindo-se de soltar alguma lamúria de dor. “Espalhou para todos como você o carregou nas costas e depois o curou com o poder que carrega nas mãos.”
Imediatamente percebi que Terrence não era tão estúpido quanto parecia. Ou Noel talvez houvesse feito algumas ameaças para que não falasse nada sobre o anel que eu carregava no dedo (talvez fosse esse o significado da troca de olhares entre ele e Santiago lá no lago). Quanto menos gente soubesse sobre os anéis, melhor. Segredos assim são perigosos demais para deixarem de ser segredos, e agora Reno fingia que também não sabia de nada na companhia de Renoir. Eu entrei mais na tenda e sentei-se numa das cadeiras que ali havia.
“Fico impressionado que tenham acreditado.”
“Katana, Jaima e Noel reafirmaram a história. E aposto que agora muitos vão querer uma demonstração de sua nova habilidade.” Reno piscou-me. “Imagino que não terá problemas em realizar uma apresentação ou duas e acabar com as dúvidas dos marujos.”
“Eu sentiria prazer em fazê-los engolir suas línguas viperinas.” Admiti, apoiando-me à mesa e esticando as pernas. Eu deveria ter subido no navio e caído na cama do Santiago, enquanto deixava os outros trabalharem. Também estava faminto. “Renoir, depois que Reno terminar de costurá-lo, você poderia trazer algo da cozinha para cá?”
O loiro mordeu as bochechas e não pareceu contente.
“Você poderia buscar por si próprio.” Rezingou.
Pivete insolente.
“Eu sou seu Imediato. Estou mandando buscar comida, então você vai e busca comida, sem reclamar ou fazer cara feia.” Ordenei. Uma nuvem de ódio brotou entre os cabelos dele. Não conseguia entender por que me odiaria tanto e me surpreendi quando lágrimas começaram a cair por suas bochechas. Reno também pareceu surpreso, e parou um pouco a costura para afagar-lhe os cabelos loiros desgrenhados.
“Fique calmo, Renoir. Você viveu, é isso que importa. Logo tudo ficará bem e você estará junto de seu irmão novamente.” Reno deixou que o garoto encostasse a testa em seu peito e passou um braço ao redor dos ombros magros para consolá-lo.
Fiquei olhando atônito para a cena.
“Eu o odeio.” Renoir soluçou. “Ele está roubando o capitão do meu irmão! Eu sinto tanto falta dele, Reno. Por que ele não volta? Por que não volta antes que esse inglês termine de enfeitiçar o capitão com seus poderes malignos?” Soluçou ainda mais, enquanto meu queixo caía mais um pouco.
“Isso é assunto entre eles, Renoir. Você não deveria se preocupar ou se abalar tanto com os assuntos do seu irmão.” Reno falou, apaziguador.
“Meu irmão não é um traidor!” Renoir ergueu o rosto e olhou para Reno em desespero. Depois se voltou para mim. “Ele não é!” Rosnou como se fosse eu quem acusasse seu irmão de traidor pelos cantos.
“Você é irmão do Giulio.” Falei, compreendendo o óbvio.
“Meu irmão é muito melhor do que você! Ele é mais bonito, é inteligente e esperto, também é corajoso e os piratas o respeitavam. Você não sabe de nada, inglês.” Ao que parecia, Renoir pensava que inglês era um grande insulto, enquanto para mim era motivo de orgulho.
“Ora, case-se com o seu irmão, então, se o acha tão maravilhoso. Eu não dou a mínima.” Dispensei, experimentando princípios de dor de cabeça. Renoir tinha uma voz aguda e, quando gritava, era como experimentar milhares de agulhas perfurando as têmporas. Os lábios do pequeno francês tremeram.
“Aquela tempestade devia ter te engolido!” Renoir gritou e, levantando-se, correu para fora da tenda. Reno chamou por ele, pois ainda não havia terminado de costurar seu machucado. Com um suspiro, o cirurgião ajeitou os óculos no nariz.
“Não se irrite com ele, Dominic. É apenas um garoto, e sofre por ouvir todos o chamando de filhote de traidor. Santiago deu ordens expressas para que não o maltratem, e Pantoja é grande o suficiente para meter medo nos mais atrevidos... Renoir ama o irmão e sente falta dele.” Reno limpou a agulha e a guardou junto com a linha numa pequena maleta. “Giulio, entretanto, nunca levou muito jeito com crianças, e não era nada paciente. Largou o garoto no Labareda, mas acredito que também temia pela segurança dele caso Aguirre descobrisse que ele é um espião, e não um aliado.”
“Não estou irritado com ele. Como você mesmo disse, é apenas um pirralho que late demais.” Dei de ombros e cruzei os braços frente ao corpo. Reno me lançou um olhar afiado, como quem pergunta o que eu seria, então. Pigarreei, virando o rosto para a fenda entre as cortinas da entrada, vendo alguns homens passarem pelo meu campo de visão, com o Labareda como pano de fundo. “O que havia entre Giulio e Santiago, afinal?”
“Preocupado?” Reno sorriu, divertido, atraindo meu olhar afrontado. Ele riu, suave. “Ele e Santiago eram amantes, Dominic. Imagino que você também teve alguns amantes antes de acabar metido nos assuntos de um capitão pirata.”
“Amantes mulheres, sim. Nunca me envolvi com nenhum homem antes.” Achei melhor enfatizar. Reno encarou-me por um momento e eu lembrei do romance que ele havia tido com o falecido capitão do Labareda. “Desculpe, não é que... Eu... Eu condene...”
“Está tudo bem, Dominic. Sei como na Inglaterra é complicado expor esse tipo de relação. Já morei lá na minha juventude.” Contou-me, fazendo minhas sobrancelhas subirem. “Foi onde estudei medicina.”
“Oh,” Foi tudo que falei, debilmente.
“Deixe-me contar um pouco sobre minha história com Catriel, Dominic.” Reno pediu, aprumando-se na cadeira e entrelaçando os dedos sobre o colo. Olhou-me significativamente, como se quisesse falar tanto em palavras, quanto através do brilho claro de suas íris. “Nós nos conhecíamos desde muito novos, éramos melhores amigos e Catriel sempre me protegia, mesmo que eu só viesse a perceber isso anos mais tarde, quando parei para analisar nossos momentos juntos... Quando me apaixonei por ele, eu fugi. Era jovem, queria conhecer o mundo e tinha medo de meus sentimentos. Perdi oito anos em que poderia estar com ele na Inglaterra, estudando... Até criar coragem para voltar. Levou semanas até que nós nos acertássemos, Dominic, e até foi mais rápido do que eu esperava. Ele sentia o mesmo por mim, e eu sequer desconfiava. Às vezes não somos capazes de ler os sentimentos daqueles que nos são mais próximos, o que dirá os daqueles que conhecemos há pouco tempo?” Reno balançou a cabeça. “Tive onze anos para viver ao lado de Catriel. Onze anos que jamais irei esquecer. Onze anos que nutriram minha alma e meu coração de uma forma que todos deveriam sentir e experimentar.” Reno afastou os óculos e disfarçadamente livrou-se de uma lágrima. “Mas são onze anos que não foram o suficiente, Dominic. Nem uma eternidade de tempo seria. Eu sinto falta dele todos os dias e, mesmo que eu saiba que nada pode mudar o passado, ainda me recrimino por ter perdido aqueles oito anos.”
Eu sentia meu coração apertado ao ver Reno daquela forma. Seu rosto parecia ganhar viço ao falar de Catriel, mas a tristeza por perdê-lo destacava as rugas que marcavam seu rosto sereno. Ele sorriu para mim ao notar meu desconforto e mal-estar.
“O que quero dizer com isso, Dominic, antes que você ache que sou apenas um velho tagarela que gosta de rememorar o passado, é que não devemos deixar de viver por receios. Não há tempo a perder, mesmo que a vida pareça longa quando somos jovens. Você é um pirata agora, e a vida de um pirata é curta. Catriel morreu aos quarenta anos. Santiago já tem vinte e sete.” Reno deixou clara toda a intenção daquela conversa.
Eu corei de leve e raspei minhas unhas nas palmas das mãos.
“Está dizendo que Santiago vai morrer aos quarenta?” Perguntei.
“Estou dizendo que a morte não escolhe datas ou idades, Dominic. Eu espero que Santiago viva até os cabelos embranquecerem e todos os dentes caírem, ainda que eu saiba que ele gostaria de morrer antes que isso acontecesse. Mas não há certezas para ninguém, e menores ainda para nós piratas. Pense nisso, pense em como quer viver essa vida.” Reno sorriu quando Renoir reapareceu. Ele trouxe a comida. Colocou-a em cima da mesa e, ignorando-me, voltou a sentar ao lado de Reno.
“Meu machucado voltou a sangrar. Pantoja mandou-me de volta.” Ele disse, a contragosto.
“Sim, é bom que tenha voltado. Vamos fechar isso antes que acabe sem sangue nesse corpo.” Reno voltou a pegar a agulha e a linha e, pacientemente, costurou o braço de Renoir.
Eu comi em silêncio, sem prestar atenção na troca de palavras eventual entre os dois. Assim que terminei, saí da cabana, desejoso de um lugar onde pudesse descansar confortavelmente. No caminho até o Labareda, alguns piratas volviam a cabeça para olhar-me. Alguns cumprimentavam com um aceno de cabeça, outros pareciam esperar que eu os enfeitiçasse.
Ignorei quase todos e andei rápido até os aposentos do Santiago.
“Não irá ajudar em nada, boneca inglesa?” Garuda surgiu à minha frente antes que eu conseguisse alcançar a porta da cabine.
“Deixarei o trabalho pesado para os burros de carga.” Referia-me a ele, e Garuda entendeu isto bastante depressa. Fez uma careta, mas quando tentei ultrapassá-lo, segurou meu braço.
“O que fez foi corajoso... Lá na tempestade. Estúpido. Mas corajoso.” Ele concedeu. Franzi a testa quando ele me soltou e se afastou, sem esperar resposta.
“Será que a muñeca peligrosa andou conquistando outro pirata, Katana?” Ouvi a voz de Terrence. Ergui o olhar e os vi na balaustrada da proa, com as pernas pendendo para o convés onde eu estava. Terrence parecia bem disposto, ninguém diria que estava à beira da morte até algumas horas atrás. Por minha causa estava saudável, era bom que ele se lembrasse.
“Talvez. Eu sempre suspeitei do Garuda.” Katana ponderou, levando a mão ao queixo.
“É melhor cuidarem a boca.” Gritei para ele. “Eu agora posso arrancar a energia de vocês até que murchem e sobrem apenas os ossos.” Os olhei demoniacamente, e os dois se entreolharam, antes de caírem na gargalhada.
“Muñeca peligrosa.” Terrence e Katana falaram ao mesmo tempo, concordando mutuamente com o novo apelido. Eu suspirei, deixando-os com suas gargalhas, e entrei na cabine sob a proa, onde ficava o quarto. Caminhei direto para a cama e, assim que deitei, acabei adormecendo profundamente.
XxX
Demorou mais três dias até o Labareda estar novamente pronto para zarpar. Nesses dias eu curei alguns feridos como Reno e, inclusive, Jaima que passou a me idolatrar ainda mais. Meu ‘poder’ assustou muitos dos marujos, e agora eles me chamavam de boneca apenas quando tinham certeza de que eu não estava por perto. Ou raramente chamavam, e nenhum deles parecia querer me matar agora.
Os mais atrevidos continuavam sendo Santiago, Garuda, Terrence e Katana.
Eu acabei conhecendo um pouco melhor a população nas noites antes de me recolher. Os piratas acendiam fogueiras e bebiam, cantavam e contavam histórias sob proezas de outros piratas famosos, ou comentavam sobre lendas do mar enquanto assavam algum animal que haviam capturado na mata. Havia alguns ali com nomes – ou melhor, apelidos – bastante estranhos. Havia Pedro Espinhento, Ted Dentadura (ele já não possuía nenhum dente), o Jack Barbatana, Federico Caolho, entre outros nomes e codinomes curiosos. A maioria eram homens de armas; a artilharia do Labareda era pesada e até mesmo os criados de bordo e os rapazes de pólvora sabiam atirar bem.
Por isso nesses dias na ilha também comecei a treinar pontaria. Enquanto os outros trabalhavam, buscavam provisões e enchiam os barris do navio com a água que buscavam no lago de água doce, eu me embrenhava na mata e começava a atirar com uma arma que Noel havia me cedido.
Minha mira não era tão ruim, pois os ingleses têm mania de caçar nas florestas que cercam suas propriedades de campo, e eu costumava caçar com meu pai e os amigos de meu pai até certa idade. Eu só precisava recuperar a prática. Enquanto atirava, eu pensava nas palavras de Reno, e remoía a ideia de que eu poderia ter morrido naquela tempestade, não fossem as sereias. Nós sequer havíamos chegado a Chagres, e eu já estivera perto da morte por duas vezes. Era mais fácil eu morrer a qualquer momento, do que o Santiago.
Render-me? Era isso a que Reno se referia? Mas render-me a quê? Eu já havia me rendido! Atirei com raiva ao pensar nisso, mas acertei o pedaço de pau que havia pendurado em um cipó e deixado balançando a alguns metros de distância. Quando eu lembrava da cachoeira, meu corpo ebulia e eu ficava confuso novamente. Queria encontrar uma sereia outra vez apenas para me sentir atraído e parar de ouvir aquela frase do Santiago em minha mente... Eu estava muito ocupado preocupado com o anel e a morte de Terrence quando elas surgiram, por isso não tive tempo de sentir-me atraído por elas. Não era nada sobre paixão.
Mas eu havia dado prazer ao Santiago com a boca e... Ele havia confiado seu passado a mim. Uma troca interessante — sintam a ironia. Toda vez que eu me lembrava da história, minha garganta se contraía em um nó doloroso.
Errei o outro tiro, passando longe do alvo, ao pensar nisso tudo.
“Não sabia que era tão ruim.”
Eu sequer me assustei com a presença do capitão.
“Errar um tiro não me faz ruim.” Retruquei, voltando a mirar, e dessa vez acertei o alvo, destruindo o que restava da madeira. Caminhei até o cipó que ainda balançava e atei outro pedaço de pau nele. Empurrei-o para o lado e voltei para o lugar de onde eu atirava. “O que quer?” Perguntei ao Santiago, ao recarregar a armar e voltar a erguer o braço para mirar.
“Iremos voltar ao mar em uma hora. Irá junto, suponho, a não ser que tenha se afeiçoado à ilha.” Santiago se aproximou e meu corpo involuntariamente arrepiou e tremeu quando ele parou bem às minhas costas. “Está me ignorando novamente nos últimos dias.”
“Nas últimas noites, você quer dizer. É só quando nos vemos.” Rebati, seco. Santiago estava ocupado com os reparos do navio, e eu vinha treinando tiro praticamente toda a manhã e tarde. Gastava munição em galhos e pássaros que levava para cozinhar, mas tínhamos tanta munição que ela chegava a transbordar pelas escotilhas do navio.
“Então é isso?” Santiago passou um braço pela minha cintura. “Está irritado por que não te dou atenção durante o dia?”
“Pelo contrário, estou agradecido.” Mirei e acertei uma das pontas do galho, fazendo-o girar enquanto se balançava. Santiago, no lugar de se ofender, soltou uma risada contra o meu pescoço, depois de afundar o rosto entre meus cabelos soltos.
“Podemos aproveitar esse tempo antes de precisarmos voltar.” Sua mão áspera adentrou por baixo de minha camisa, erguendo-a.
“Santiago, é bom que lembre que eu tenho uma arma nesse momento.” Avisei por entre os dentes e atirei novamente, para quem sabe o barulho do tiro alertá-lo mais do que palavras.
“Eu sempre estou armado e você nunca reclamou.” Sussurrou malicioso contra meu ouvido. Entendi bem a que arma ele se referia.
“Nunca reclamei?!?” Me virei para ele e o cutuquei com a arma. Ele ergueu os antebraços, parecendo assustado com a probabilidade de eu atirar e matá-lo ali mesmo, voltar para o Labareda e me tornar o novo capitão. Não seria má ideia, mas a arma já estava descarregada. “Você é surdo? Iletrado e incapaz de entender as palavras? O que eu mais fiz até hoje foi reclamar! Principalmente da sua... arma. Ela é grande demais e eu deveria cortar um pedaço antes de deixar você enfiar isso em mim.” Eu me virei, recarreguei a arma tirando as balas do bolso de meu colete e voltei a atirar, dessa vez acertando no centro do graveto. Santiago estava segurando a risada, e eu estava constrangido e irritado por ter falado que a arma dele era muito grande.
“Então é disso que você tem medo.” Santiago me puxou, arrancou a arma de minha mão e, mirando rapidamente, atirou no cipó, fazendo-o cair e se enrolar em um pequeno monte no chão. Depois guardou a arma em meu coldre e colocou as duas mãos em minha cintura. “Tamanho não é um empecilho, Dominic. Ninguém nunca reclamou, e eu posso te dar muito prazer sem nenhuma complicação.”
Era incrível a capacidade do Santiago em me deixar pronto para me enterrar embaixo da terra, ou me jogar do navio em outra tempestade. Ele se inclinou para me beijar ao puxar mais minha cintura e batê-la contra seu corpo, porém eu virei o rosto, atraído por dois homens que se aproximavam através das árvores e arbustos. Eram Valgor, um homem de armas com idade aparentemente próxima à de Reno, e Rigo, um marujo mais novo de cabelos compridos tais quais os meus, porém em tom marrom sob uma boina de mesma cor.
“Ahoy! Capitán.” Valgor ofegava e era possível sentir o cheiro azedo de seu suor à distância. “Precisam vir logo. Há um navio passando a certa distância da ilha. Noel e Garuda acharam que seria uma boa chance de saque.”
“Eles parecem...” Rigo olhou-me por um momento, hesitante. Era ele quem me vigiava em Tortuga, para que não fugisse da casa de Santiago. Também havia sido ele quem vislumbrara algo sobre o momento em que curei Santiago, e desde então ele parecia nutrir certo receio quando próximo a mim. “Eles parecem ingleses...” Disse, finalmente.
“Um navio inglês?” Meu coração retumbou e eu imediatamente coloquei minhas pernas em movimento, querendo chegar à praia para ver o tal navio. Milhares de possibilidades passaram velozes pela minha mente, antes que eu conseguisse filtrar meus pensamentos e lembrar de minhas promessas. Poderia ser Leroy, vindo me procurar, ou o navio inglês de algum conhecido de meu pai ou nobre capaz de me reconhecer, que poderia levar-me de volta.
Assim que dei o primeiro passo, Santiago avançou e novamente enlaçou minha cintura. Inclinou-se para sussurrar em meu ouvido.
“Não se iluda, Dominic.” Falou, o tom completamente diferente do de segundos atrás. Agora era sério, rouco, ele novamente era o capitão do Labareda. “Iremos pilhar e queimar esse navio.” Santiago quebrou minhas esperanças com aquela frase. “Não é hoje que você voltará para casa.”
Soltou-me, irritado, enquanto os outros o encaravam, esperando por uma decisão. Ele parecia ter lido em meu rosto e atitudes os meus pensamentos sobre voltar para casa mais cedo, e me envergonhei deles, pois havia dito que queria ajudá-lo não apenas para retornar à Inglaterra, e agora tentara correr como se estivesse livre de uma maldição.
“Vamos para o Labareda, marujos. Temos um navio para pilhar e dar um início de verdade a essa viagem.” Avançou com os dois piratas, a postura de quem estava determinado a arrancar todas as riquezas de mais um navio, mas eu corri e me coloquei à frente do Santiago.
“E se for meu pai?” Perguntei seriamente, o queixo erguido para fitá-lo nos olhos.
“Eu avisei teu pai que, se eu visse o navio dele perseguindo-me no horizonte, eu iria matá-lo, Dominic.” Santiago encarou-me em retorno, ainda mais sério e sombrio.
“Matar meu pai?”
“Não, matar você.” Meu coração falhou algumas batidas.
“Faria isso?” Perguntei, mas era uma pergunta tola a fazer a um capitão pirata. Santiago havia dito, certa vez, que sempre cumpria suas promessas, e eu engoli em seco ao escutar novamente essa declaração estremecer meus tímpanos.
Ele não me respondeu de imediato. Agarrou meu braço e arrastou-me com ele de volta à baía onde o Labareda nos aguardava, novamente glorioso e imponente, pronto para avançar sobre as ondas e rasgar os mares com sua fúria implacável.
“Você é tolo se acha que eu em algum momento falei aquilo a sério.” Santiago respondeu então, raivoso. “Mas não poderei deixar teu pai impune se ele não cumpriu com nosso acordo.”
XxX
Garuda e Noel haviam preparado tudo e, quando alcançamos o Labareda, bastava subirmos e zarpamos, avançando rapidamente para chegar até o navio. Não era possível vê-lo a olho nu, talvez apenas com uma luneta e, provavelmente, ele já havia se distanciado o suficiente desde o momento em que algum dos piratas o havia visto.
Desejei ardentemente que não fosse Leroy, pois ele não iria suportar outra humilhação vinda do mesmo pirata. Porém, avançando pelas areias e depois pelas pedras que levavam até o Labareda, eu pensei que meu pai não seria tão estúpido. Não viria me procurar com apenas um navio. Mas o que um navio inglês fazia passeando por aqueles mares distantes?
Uma cintilação avermelhada atraiu minha atenção enquanto caminhávamos para o navio. Vinha de minha visão periférica e, quando virei o rosto, vi que era Parténope, parcialmente escondida entre as rochas mergulhadas nas águas da baía. Forcei meus pés contra o chão e puxei meu braço.
“Santiago, espera.” Falei, fazendo-o parar e olhar para mim sem paciência. “Uma sereia.”
Ele seguiu meu olhar e... Sua expressão modificou-se completamente. Uma careta de dor, incredulidade e surpresa tomou conta de seu rosto, enquanto me largava desconcertado.
“Ela é...”
“Não, ela não é.” Disse. Eu via Helena quando olhava para Parténope, mas não havia tempo de perguntar quem Santiago via. Avancei pelas pedras, deixando Santiago para trás, e me ajoelhei na rocha atrás da qual Parténope se escondia.
“O que aconteceu? Não se sente bem?” A semelhança com Helena era tanta, que chegava a ser dolorosa. Parténope, porém, não possuía o olhar gentil de minha amiga. A cintilação azulada de seus orbes era ferina, a ponto de beirar a selvageria, como se ela tivesse em mãos a capacidade de destruir a vida dos homens. E, de certa forma, ela tinha.
Mas ela não parecia direcionar sua ferocidade a mim. Era algo inato dela, parte do que era.
“Outras sereias virão atrás de você, curandeiro.” Ela avisou. “Dione, Eudora e as outras estão espalhando a notícia. Mas elas precisam de um guia para chegar até você.” Tirou a mão da água e, ao abrir os dedos, revelou uma pequena luneta.
Era minúscula, sumindo numa mão fechada, mas bela. Era feita de ouro, num dourado intenso, e uma das partes, a mais próxima da lente, era de madeira escura incrustada com minúsculos diamantes amarelos.
“Pegue.” Ela demandou, e eu aceitei o presente, um tanto boquiaberto. Ela continuou a falar enquanto eu analisava o objeto. “Com essa luneta poderá ver tudo que procura, desde que não esteja a um oceano de distância. Poderá ver as sereias que precisam de você, e elas poderão sentir a energia dos diamantes. Saberão então onde encontrá-lo, e saberão que já ajudou-me.”
“Eu... Eu as ajudarei. Você pode confiar em mim.” Desviei o olhar para ela. Olhei para seus seios, esperando sentir-me excitado; porém nada aconteceu e a direção de minha mirada pareceu irritar a sereia.
“Eu não confio em nenhum homem.” Parténope retrucou asperamente. “Mas lhe darei o benefício da dúvida.” Ela mergulhou na água e desapareceu rapidamente, deixando-me com meu presente. Guardei-o no bolso e corri de volta até Santiago. Ele continuava perturbado, olhando para onde antes estivera a sereia, e agora havia apenas rocha e água.
“Ela... Ela lembrou-me Anita.” Santiago balbuciou.
“Vamos.” Dessa vez fui eu a puxá-lo comigo para o navio.
Assim que subimos, os piratas se agitaram, a âncora foi puxada e as velas içadas. Com a ajuda do vento e do leme, voltamos para o mar na caça do navio inglês. Eu corri para a proa, chegando até a extremidade dela. Santiago perguntou-me, com o vento batendo contra suas costas quando se posicionou no timão, o que a sereia havia conversado comigo, mas eu o ignorei. Ergui a luneta e vasculhei o horizonte até ver o que queria.
O navio inglês. Era realmente inglês.
Logo descobri que Santiago não teria nenhuma promessa a cumprir, ou ninguém para punir naquele dia.
Porque o navio não era de Leroy.
O navio era de James.
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