Notas iniciais
Obrigada de coração a quem recomendou!!! Helo Unleashed, Kao e Demetria Blackwell! ADOREI! ♥ Vocês são lindas ;*

Mas o que diabos James está fazendo nesse pedaço do oceano?

Minha cabeça girou, deixando-me zonzo e com a visão desfocada por alguns segundos, ainda mais com a ajuda das ondas do mar sacudindo o Labareda enquanto avançávamos para águas mais profundas. Não podia ser o James. Eu havia visto errado! Voltei a erguer a luneta e observei novamente. Mas era impossível fingir que não reconhecia o Tigre Imperial. Eu já havia subido a bordo dele algumas vezes, James amava aquele navio...

Na verdade, o navio era de seu pai, Jared Hawkesworth, mas James havia me dito antes de deixar Londres que o pai dera-lhe o navio de presente por toda a sua dedicação em álgebra, geometria, trigonometria, navegação e astronomia. Meu melhor amigo estava destinado a ser um grande navegador; porém esse futuro brilhante era ameaçado pelo navio pirata que agora avançava através das ondas, rasgando as águas para destruí-lo rapidamente em surpresa.

Eu não podia deixar isso acontecer, decidi, baixando a luneta e guardando-a em um bolso seguro. Me virei para o timão e caminhei até o Santiago com a determinação de manter James vivo vibrando em cada um de meus olhos azuis. Se Santiago o matasse... Eu jamais poderia perdoá-lo. E num ataque pirata, qualquer um poderia morrer – havia tiros, lutas, choques de espadas que enchiam o ar com suas canções de morte.

“Não pode atacar aquele navio, Santiago!” Minha voz, felizmente, saiu tão vigorosa quanto meu olhar. Santiago olhou-me como se eu fosse um inseto, mas não havia tempo para me irritar com suas provocações. Havia coisas mais importantes em jogo.

“Por que é um navio de alguém que você conhece?” A voz dele saiu debochada. Ainda continuava irritado comigo, e provavelmente instável por ter visto Anita. Ou melhor, Parténope com a aparência de sua irmã brutalmente assassinada. “É o navio do teu pai?”

“É o navio de um amigo. Santiago... Se algo acontecer com ele... Eu não vou conseguir te perdoar.” Dei ênfase às palavras. Talvez fosse prepotência achar que Santiago importava-se ou não com meu perdão; mas essa possibilidade era tudo que eu tinha para convencê-lo. E eu estava acostumado a soar prepotente. “Deixe-o ir.”

“Não sei se você reparou, Dominic. Mas ele está virando para cá. Ele nos viu e quer brigar. Não iremos fugir, nem podemos. Você acha que os marujos me respeitam porque fujo ou deixo bons saques partirem para não quebrar o coração de alguém? Não quebrar o teu coração?” Santiago perguntou afiado, como a lâmina prateada de sua espada. Depois puxou-me pelo braço, mantendo uma das mãos firmes no timão. “Vá para o convés e se prepare. Entraremos em uma disputa de canhões em poucos minutos.”

“Não, Santiago!” Segurei a gola de sua camisa, mirando-o em desespero. Meus batimentos cardíacos aceleraram de vez ao entender que não havia volta. Santiago manteve-se irredutível. “Santiago...” Toquei-lhe o rosto de expressão rígida. Seu semblante não suavizou, mas tampouco ele desviou do toque.

Encaramo-nos por alguns segundos, presos em nosso embate visual. Até que Santiago quebrou o silêncio de supetão:

“Droga, Dominic, não me olhe com essa cara! Eu não um sou maldito cavaleiro honrado da távola redonda desses teus contos ingleses. Sou a droga de um pirata. Minha reputação é tudo que tenho.” Disse, irritado e consternado, como se brigasse internamente com ele mesmo. Eu arregalei os olhos, surpreso pela maneira perdida com que ele me encarou, esperando que eu, talvez, o compreendesse.

Acabei por abrir um sorrisinho torto.

“Estou surpreso que você ao menos saiba sobre Arthur e os cavaleiros da távola redonda.”

“Não sou tão iletrado quanto você pensa.” Ele rebateu, revirando os olhos em irritação porque eu estava fugindo do ponto. Suspirei, enquanto minha mão descia para seu pescoço e ombro.

“Ao menos prometa que manterá o capitão daquele navio vivo, assim como manteve meu pai... É tudo que peço.”

Os lábios do Santiago se comprimiram por alguns segundos, mas então, com um esgar de impaciência, ele aquiesceu: “Verei o que posso fazer.” Disse em um resmungo. “Agora vá para lá e cuide-se. Consiga uma espada e espere até que os navios estejam próximos o suficiente. Iremos saltar para o navio deles quando emparelharmos proa com popa.”

Assenti também, aliviado por ao menos arrancar aquilo dele. Estava para obedecer a seus comandos; porém, de súbito, as palavras de Reno vieram-me à mente. A morte não escolhia datas, idades ou perseguia apenas vilões. Se bem que Santiago até se encaixava um pouco na categoria vilão. Ou ao menos era isso o que eu pensava quando o vi pela primeira vez. Agora não conseguia vê-lo somente sob essa definição. Eu o conhecia há pouco tempo, não nego, mas já conseguia perceber que ele não era o tipo de pessoa que se podia definir em uma única palavra – havia camadas ali, e várias delas eu ainda precisava desvendar.

E o fato de eu querer desvendá-las causava-me um arrepio. Eu queria ter tempo para isso. Percebi que não voltaria para Londres naquele dia, caso tivesse a chance. Havia promessas, e um homem que não cumpre suas promessas e honra seus compromissos não pode se considerar um homem de verdade. Ao menos isso meu pai havia me ensinado bem ainda que, na época em que me dissera tais palavras, eu estivesse muito ocupado divertindo-me para me importar.

O fato era... Que eu não queria que Santiago recebesse um tiro perdido, ou uma facada traiçoeira nas entranhas naquele dia. Toquei-lhe o rosto e o beijei rapidamente nos lábios, surpreendendo-o, mas não me surpreendendo. Eu queria beijá-lo e também mandar que se mantivesse vivo, mas esperava que apenas um beijo bastasse, por hora, para que ele entendesse isso.

E corri para o convés.

Porque estávamos perto do Tigre Imperial, e eu temia o resultado daquele embate.

XxX

Tudo aconteceu rápido demais para que eu pudesse observar todos os detalhes. Acho que em situações como essa, inclusive, é impossível reparar em expressões, nas cores do céu, ou no exato número de segundos que compõe os crucias instantes de um único minuto.

Alguém entregou-me uma espada assim que cheguei ao convés, e desconfio que tenha sido Noel. Eu recarreguei minha arma e praticamente derrubei uma bala ao ouvir o primeiro estrondo dos canhões. O Labareda avançava tão rápido que o Tigre Imperial praticamente não teve tempo de retribuir o favor. Porém meu corpo se sacudiu quando um dos canhões inimigos atingiu o bico de proa do Labareda.

“Fique atento, Dominic! Agarre uma das cordas!” Noel jogou-me uma, e então os navios se chocaram. O Labareda parou com um tranco assim que a âncora foi atirada, mas a manobra do navio e o choque também fizeram seu trabalho para pará-lo.

Gritos encheram o ar e homens pularam agilmente para o convés do Tigre Imperial, enchendo também a atmosfera com os tiros das armas. Eu fiquei estático por um momento, observando os piratas avançarem brutalmente para o navio, enquanto eu apenas segurava a corda e a arma e praticamente esperava que uma bala perdida me atravessasse devido à minha inércia.

“Vai ficar aí parado?! Mexa-se antes que o matem!” Alguém berrou antes de voar para o navio inimigo. Parecia literalmente voar, utilizando-se das cordas do Labareda e do Tigre Imperial para atacar os inimigos numa dança letal vinda dos ares. Entendi por que o apelido de Garuda era 'o pássaro'.

Forcei minha coragem e pulei também, por breves instantes sentindo sob os meus pés a estreita faixa de mar entre os navios. Caí no convés e olhei ao redor. Aquilo era ridículo. Havia pouquíssimas pessoas a bordo do Tigre Imperial, e agora praticamente cinquenta piratas jogavam-se como praga contra metade desse número. Tentei andar, porém de imediato precisei erguer a espada para amparar um golpe de um homem que usava a roupa da marinha inglesa. Eu o olhei embasbacado, vendo a aflição do medo brilhando em seus olhos enquanto lutava contra mim.

Eu era um pirata naquele momento. Não vestia roupas inglesas, mas os trajes habituais dos marujos; meus cabelos estavam presos em uma faixa negra, e uma vermelha enrolava-se em minha cintura sobre a camisa esbranquiçada. Minhas botas estalaram no chão quando avancei sobre ele, usando seu medo em meu favor, porque nunca havia sido um aluno assíduo de esgrima. O homem tinha claríssimos olhos verdes e o nariz era saliente em seu rosto, uma marca caricata de sua aparência.

E eu sabia que não podia matá-lo.

Já havia matado dois homens desde que saíra de Londres. Eu não saberia dizer se me arrependia de tais mortes, mas sempre que pensava nelas, algo se revirava de maneira desagradável em meu estômago. Eu não gostava de matar.

Nossas espadas chocaram-se no ar e eu projetei meu corpo, deixando as lâminas cruzadas entre nós. Mirei-o olho no olho ao segurar a espada com a mão direita e, com a esquerda, erguer a arma e apontar diretamente para sua testa.

“Quem é o capitão desse navio? É James Hawkesworth?” Gritei para me fazer ouvir. O homem ficou momentaneamente obtuso, como se houvesse levado uma paulada na cabeça. Franzi as sobrancelhas, percebendo que ele perdia a força no braço e deixava a espada cair. Eu poderia pensar que ele havia levado um tiro pelas costas, mas não era o caso, pois no instante seguinte, ele também falou:

“É você! É Dominic D’Anjou!” Exclamou, deixando-me perplexo. Então James estava realmente a minha procura? Com um navio com metade da tripulação necessária para uma viagem daquele porte e duração? Qual era o problema daquele adubo humano? A mão de minha espada também perdeu a força e eu me engasguei antes de conseguir encontrar as palavras.

“Onde ele está?”

“Ele veio atrás de você! Achou que seria prisioneiro no navio...! Mas está aqui lutando-“

“Eu já entendi que ele veio atrás de mim, mas agora me diga onde ele está!” Agarrei a gola do gibão do homem e o arrastei até o convés do passadiço. Diferentemente do Labareda, o Tigre Imperial possuía uma superestrutura central, o que o deixava com dois conveses entre o tombadilho e o castelo de popa.

“Ele... Eu não sei. Deve estar perdido nessa confusão e-“ O homem olhou para os lados, como que em busca de James.

“Grite aos homens que se rendam! Ninguém mais morre se isso acontecer.” Falei.

Algo tomou conta de mim naquele momento. Senti-me soltar as rédeas, enquanto cavalgava um garanhão feroz e veloz, e meus olhos ardiam pela necessidade de impedir algum desastre. Atropelei ingleses e piratas, meti-me entre brigas e empurrei alguns homens para que parassem de brigar. Não me importei com os ferimentos que recebi, curava-os tão logo os sentia arder, usando a energia que inundava o ar ao redor para fechá-los.

“Rendam-se! Rendam-se, ingleses! Eu sou Dominic D’Anjou e estou aqui por James! Rendam-se e ninguém mais irá morrer! Eu sou Dominic D’Anjou!” Gritei até minha garganta arder enquanto me metia entre todas aquelas espadas e pistolas. Roubei armas de braços estendidos e as joguei longe, bati minha espada contra qualquer um que erguesse a sua contra mim e continuei a gritar.

E eles pararam.

Aos poucos, os ingleses iam parando, e até os próprios piratas em um efeito dominó que se espalhava por todo o convés e onde quer que os homens lutassem, descansando os ouvidos dos homens, pois os sons foram cedendo. No momento em que tudo pareceu parar, piratas e marujos confusos, esperando o próximo passo – eu caminhei em passos pesados em direção ao castelo de popa e, quando os últimos homens abriram caminho para mim, eu vi James rendido a Santiago.

Foi como acordar de uma realidade que você vê acontecer de longe. Seu corpo está ali, mas há um furor e energia tão grandes te controlando, que você apenas age por instinto, impulso. Tudo se esvaiu quando vi aquela cena e meu peito palpitou com outra espécie de emoção. James estava ajoelhado, tal qual meu pai quando Santiago o subjugou, e Santiago o tinha sob a mira da espada comprida, brilhando em prata e tons de laranja como chama.

Eu corri e, empurrando a espada de Santiago para o lado, deixei-me cair de joelhos para abraçar meu amigo. James mal percebeu minha aproximação e demorou alguns segundos até compreender o que acontecia. Até perceber que era mesmo eu ajoelhado à sua frente, abraçando-o com força. Era a primeira pessoa de uma vida que não parecia mais minha, tão distante era do agora, que eu vivia. A emoção esmagava-me os pulmões e foi até mesmo doloroso enchê-los de ar.

“D-Dominic?” James perguntou, afastando-me pelos ombros para poder ver meu rosto. Assim que viu, suas pálpebras abriram-se ao limite e ele começou a apalpar meu rosto, checando se eu era real, ou talvez se estava inteiro e saudável. “Dominic... Ah, Dominic, deus! É você mesmo! E vivo!” O alívio era evidente no rosto de James, porém sua expressão ainda carregava o transtorno da procura e da preocupação. Eu sorri antes de tentar falar, para acalmá-lo, mas minha intenção perdeu-se por completo antes mesmo que eu pudesse sequer mover os lábios.

James puxou meu rosto com ambas as mãos e me beijou.

O choque geral foi evidente pelas exclamações que ouvi enquanto sentia a boca de James pressionar-se contra a minha. Estava tão assombrado que arfei pelo susto, mas isso apenas serviu para que ele enfiasse a língua dentro de minha boca, e a chocasse bruscamente contra a minha. Eu já deveria ter aprendido a apartar um beijo de maneira decente, principalmente depois de todas as investidas do Santiago. Mas meu espanto era tamanho, que eu apenas me encolhi quando ele abraçou minha cintura e segurou firmemente a minha nuca.

Mas não durou. Eu pude jurar escutar um rosnado, antes de sentir um aperto forte no braço criado pela mão que o agarrou e me puxou para longe de James. Por um instante pensei que meu braço seria arrancado de meu corpo, mas para meu alívio eu continuava inteiro quando cambaleei desajeitado para trás e vi Santiago voltando a erguer a espada contra o pescoço de James. Com o puxão, James caíra sentado no chão de madeira e agora olhava aturdido para o capitão do Labareda.

Não dava para acreditar naquilo. Um beijo?

Por que, senhor, as forças do universo parecem conspirar contra mim? Algum deus, santo ou demônio deve estar rindo da minha cara agora, vibrando por desastres e pelo cheiro férrico de sangue.

Com um gemido de frustração, corri de novo e segurei o braço de Santiago, mas seria como tentar impedir uma rocha de cem quilos de cair quando ela já está na metade da queda.

“Você disse que não iria matá-lo!” Exclamei e a ponta da espada parou a milímetros do pescoço de James. Suor escorria pelo rosto de meu amigo, pingando de seus cabelos negros e mais compridos do que eu me lembrava, longos até abaixo da orelha. Santiago também transpirava, e sua respiração era audível e alterada.

Num movimento rápido, Santiago me puxou e me colocou à frente do corpo dele, minhas costas pressionadas contra seu peitoral e abdômen, e sua espada impedindo meu pescoço de se movimentar mais do que alguns poucos centímetros. Franzi a testa, não comprando aquilo, mesmo que ele estivesse furioso com a cena que presenciara; porém James não sabia de nada e o desespero alastrou-se como tinta em quadro por seu rosto.

Ele se levantou rápido depois de caçar a espada jogada no chão do convés.

“Deixe-o ir!” Ele exigiu, mas sua ordem era risível. Os ingleses estavam todos praticamente rendidos, em menor número, e os piratas ainda tinham sede de sangue e prata. Até eu riria dele, como costumava fazer em Londres, caso a situação não me deixasse tão nervoso. Santiago deveria odiá-lo agora, tal era a maneira como apertava minha cintura, praticamente deixando-me sem ar.

“Foi por isso que o queria vivo? É teu amante de Londres?” Santiago perguntou ao pé de meu ouvido, alto o suficiente para que apenas eu o escutasse.

“É um amigo!” Retruquei asperamente. Se havia alguém ali com direito a reclamar de ex-amantes, esse alguém era... Bem, talvez Santiago também tivesse algum direito. Se estivéssemos em algum tipo de relação monogâmica, o que não era o maldito caso. Mas James era apenas um amigo. “É apenas um amigo.” Voltei a falar, reforçando a afirmação.

Santiago ignorou-me.

“Mande que teus homens se rendam e entreguem tudo que tenham de valor. Faça isso, ou eu o mato.” Santiago se referia a mim. Suspirei e revirei os olhos; porém, não disse nada. Eu preferia que James se rendesse a dar uma de herói e tentar matar o Santiago (já não bastava ele ter vindo atrás de mim). James era um ótimo esgrimista, mas meu pai também era, e Santiago o havia derrotado sem qualquer dificuldade.

O melhor era evitar alguma catástrofe.

“Faça isso, James.” Pedi olhando para meu amigo. “Depois poderemos conversar...”

A mandíbula de James contraiu-se e as veias de seu pescoço pulsaram; eu conseguia ver toda sua tensão. A mão se apertou no cabo da espada, mas, ao final de alguns segundos em que seu lábio superior tremia, ele abaixou a espada e deixou-a cair no chão.

“Façam como ele diz.” Dirigiu-se aos ingleses e, relutantes, todos jogaram as armas e espadas ao chão. Não havia como ganhar, eles já haviam entendido aquilo, entendido a loucura de toda aquela empreitada. Me perguntava como James havia convencido aqueles homens a segui-lo.

Era um grande e tolo idiota, e eu queria limpar bem as orelhas dele antes de gritar isso em seus ouvidos.

Porque agora eu precisava apaziguar o ciúmes do Santiago – me parecia evidente que ele estava com ciúmes, considerando a maneira com que fuzilava James com o olhar enegrecido – e ainda pensar em uma maneira de mandar James e sua tripulação de volta para casa com o navio parcialmente destruído e um número ainda menor de homens para colocar o Tigre Imperial em movimento.

XxX

O Tigre Imperial estava rendido e, seus homens, os que restavam vivos, feitos prisioneiros. A situação era delicada. Se nenhum pirata houvesse morrido, seria mais fácil convencer a todos a simplesmente deixá-los ir; porém o Labareda também tivera baixas – havíamos perdido alguns homens, e um dos tiros havia atingido Terrence, de modo que, mesmo depois de eu curá-lo, ele continuava mancando ao caminhar, mais do que antes. Talvez minhas habilidades de cura ainda precisassem de alguns ajustes.

E agora estávamos em uma das cabines do castelo de popa que se resumia simplesmente a um espaço para discussões. Estávamos eu, Santiago, Noel e Reno ali dentro, e Santiago era como um animal enjaulado incapaz de escutar o que os outros tinham a dizer. Eu olhava através das janelas de vidro da cabine e pensava em inúmeras maneiras de atirar o Santiago através delas, e me perguntava se havia tubarões por aquelas águas.

“Você não pode falar com ele!” Santiago demandou, batendo o punho na mesa ao centro da cabine. A discussão era mais nossa do que qualquer outro ali, e eu respirei fundo em busca de calma. Era um ótimo momento para usar minha famosa lábia, mas eu só conseguia tal feito quando não estava prestes a cometer algum assassinato e mostrar como eu poderia ser mesmo uma muñeca peligrosa.

“Ele é meu amigo, Santiago! Preciso falar com ele! O que você irá fazer? Deixá-los amarrados e jogá-los naquela ilha? Ou ao mar, depois de afundar o navio deles? Eu posso discutir um acordo-“ Tentei usar da diplomacia.

“Imagino que acordo irá fazer, Dominic. Pude ler em teu rosto a alegria ao ouvir que se tratava de um navio inglês. Se você pensa que irá voltar com ele-“ Santiago conseguia ser estressante quando burro.

“Em algum momento eu falei que ir embora com ele faria parte do acordo? Pare de agir feito um burro de carga só por causa de um estúpido beijo. James só estava emocionado.” Eu sabia que aquele papinho de ‘emoção pelo reencontro’ não ajudava em nada. “É ridículo sentir ciúmes daquilo.”

“Eu não estou com ciúmes.” Santiago borbulhou de ódio. Talvez eu viesse a ser jogado pelas janelas se não ficasse atento. Me afastei um passo da mesa apenas por precaução. Noel, mais corajoso, aproximou-se do irmão e tocou-lhe o ombro.

“Santiago... O melhor é deixar que Dominic converse com o amigo dele. Já perdemos tempo demais naquela ilha. Emanuel e Fajardo já devem estar chegando a Laguna.” Disse em seu tom apaziguador.

“Eu deveria atirar os canhões dele ao mar, chutá-los de volta para aquele navio e partir. Por que acha que eu tenho algum dever com eles, Dominic?” Santiago cravou seus olhos em mim.

Eu estreitei os meus.

“Eu não acho que você tem algum dever com eles, Santiago. Mas lembre-se de que, por algum motivo fodido e irônico do destino, você depende de mim para obter a sua vingança. E eu quero te ajudar, não menti lá na cachoeira. Mas se você-“ Minha fala foi interrompida quando bateram à porta da cabine e, sem esperar resposta, a escancararam aos empurrões.

“Capitán.” Eram Valgor, Terrence e Katana; este se espichando por cima do ombro de Terrence para poder olhar-nos. “Desculpe interromper, mas-“

“Mas o quê, Valgor? Não sabe que não deve atrapalhar quando teus superiores estão resolvendo a porra de futuro desse navio?” Santiago perguntou asperamente, sem nenhum traço de paciência. Seu tom foi tão cruel e rude que o pirata hesitou e gaguejou, enquanto Katana parava de se espichar e se escondia atrás de Terrence.

“É-É q-que... U-Uma m-mujer...” Valgor balbuciou dando um passo para trás.

“Pare de gaguejar e fale de uma vez!” Santiago trovejou, e até eu me arrepiei sentindo minha nuca formigar por alguns segundos.

Valgor respirou fundo e despejou:

“Uma mujer ruiva. A encontramos num dos quartos do castelo de popa do navio inglês. Estava presa e escondida nele e agora exige falar com o capitão. E-Eu não sei qual capitão ela quer ver, mas-“

“E há algum maldito capitão além de mim neste navio, Valgor?” Santiago não parecia disposto a acalmar os nervos do homem.

“N-Não, capitán.” Valgor levou a mão ao peito, parecendo à beira de uma parada cardíaca. Eu estava até me divertindo ao vê-lo tão nervoso, transpirando e guinchando feito um porco assustado, mas então minha ficha caiu e eu arregalei os olhos.

“Uma mulher ruiva?”

Não esperei resposta. Disparei para fora da cabine, empurrando Valgor e Terrence no processo, e corri pelo corredor do deque inferior até chegar às escadas que me levariam para o convés. O sol forte atingiu meus olhos e eu os estreitei por reflexo, mas ainda fiquei alguns instantes com a visão disforme. Porém, assim que me acostumei à claridade intensa, reparei na balbúrdia que se passava no convés. Havia uma roda de homens, e precisei empurrar alguns até conseguir chegar ao centro dela.

Meu queixo caiu ao ver a mulher que Garuda segurava e se debatia, xingando os piratas e exigindo que eles libertassem todos os ingleses. Usava um vestido simples, mas suas curvas e os seios fartos eram evidentes. Seus cabelos rubros cintilavam perfeitamente alinhados e macios, muito melhor cuidados do que os meus, e seu decote volumoso parecia hipnotizar muito dos piratas, fazendo-os lamber os beiços. Eles já cochichavam sacanagens e perversões, ou até as gritavam, provocando a ruiva, mas paravam cada vez que Garuda os olhava em aviso para que silenciassem.

Nada disso importava. Era Helena quem estava ali, e eu sentia uma vontade forte de sacudi-la e enchê-la de xingamentos por ter participado da loucura de James. Mas o que fiz foi aproximar-me. Quando ela me viu, silenciou e pôs-se a chorar, estendendo os braços para mim. A abracei no minuto em que a alcancei, afastando dela a mão suja de Garuda.

“Estúpida.” Rosnei. “Como pôde vir também? Qual o problema de vocês dois? James não deveria-“

“Fui eu quem o convenci.” Helena falou. Era praticamente da minha altura, uma mulher alta e extremamente bela. Uma das poucas mulheres de Londres que eu tinha como amiga e com quem nunca havia me deitado. “O pai dele tinha um assunto diplomático para resolver em um tal Forte de Chagres, e eu-“

“O quê?!” Me afastei dela, encarando-a boquiaberto. “Você falou Chagres?”

Antes que Helena pudesse responder, porém, Santiago, Noel e Reno nos alcançaram, e ela entreabriu os lábios, talvez assustada com a expressão carregada do capitão. Santiago sabia parecer ameaçador quando queria, ainda mais ao ver meus braços ao redor da cintura de Helena.

“Quem é ela, Dominic? Mais uma amante?” Ele perguntou, debochado.

Houve cochichos, burburinhos, os piratas me olharam com inveja e um deles sussurrou que eu era um homem de sorte. Não pareciam acreditar que uma mulher como Helena se deitaria com a boneca do Labareda. Eu até gostaria de dizer que sim, ela era minha amante, mas seria mentiria, e nenhum benefício viria de irritar ainda mais o Santiago em momentos críticos como aquele.

E a tensão pairava no ar quando Helena soltou-se de meus braços e avançou um passo em direção ao Santiago, com o queixo erguido em coragem e autoconfiança.

Sempre fora uma mulher de fibra.

“Não.” Helena disse. “Ele é meu irmão.”

Nesse momento eu engasguei.

“O que está falando? Não somos irmãos!” Falei de testa franzida. Helena virou-se para mim, perdendo parte da determinação no rosto, e buscou minhas mãos para segurá-las.

“Nós somos.” Ela disse. “Somos irmãos gêmeos, Dominic! Depois que seu pai voltou para Inglaterra, ele entrou num estado deplorável... Ele não pôde se perdoar por ter te deixado para trás... Então ele veio até mim e contou-me sobre o caso que ele teve há dezenove anos com a minha mãe e como eles nos separaram no nascimento.” Helena apertou ainda mais minhas mãos, deixando algumas lágrimas caírem. “Como eu poderia continuar vivendo normalmente sabendo que você havia sido raptado, Dom? Além de amigo, somos também irmãos. Eu não podia te deixar para trás.”

Pisquei aturdido. Meu pai teve um caso? Ele? Eu poderia rir, até mesmo gargalhar naquele momento. Meu tão honrado pai que sempre exaltava os valores de honra, família, dever e compromisso. Acabei sorrindo, entre sarcástico e contente. Era bom ter uma irmã. Era bom ter uma irmã como Helena. E era bom saber que meu pai não era perfeito. Fazia com que eu me sentisse menos imperfeito. E, além disso, sim, Leroy sentia minha falta.

“Como ele está?”

“Devastado, Dominic. O rei ficou furioso com o fracasso dele. Ele não é mais navegador e está encarcerado na própria mansão...” Helena abaixou um pouco o rosto, abafando o pranto, antes de voltar a olhar-me. “Você precisa voltar com a gente, Dominic.”

“Mas-“ Eu olhei para o Santiago que, como os outros, observava tudo em silêncio, com seus olhos pregados em mim. Um arrepio voltou a me atingir e minha garganta travou.

“Esse pirata me contou que você não é prisioneiro, mas Imediato desse navio, Dominic!” Helena apontou para Garuda, mas eu apenas pisquei, como se apenas agora sentisse o peso do cargo de Imediato. “Eu não sei o que aconteceu aqui, Dominic, mas sei que esse não é o seu lugar, irmão. Volte comigo e com o James!”

Eu desviei os olhos de Santiago, e os pus no rosto choroso de Helena. Era raro vê-la chorar e isso sem dúvida me comoveu, pois não conhecia garota mais forte do que ela; ela era provavelmente muito mais destemida do que eu, e sempre me oferecera seu ombro amigo quando precisei. Um intenso sentimento fraternal tomou meu corpo ao vê-la tão frágil.

Mas isso não mudaria minha decisão.

Notas finais
Oi, galera! Dessa vez em vez de agradecer por aqui, eu fiz uma gravação para agradecer aos meus leitores aqui de Mar de Fogo! Tive de fazer duas, porque depois de fazer a primeira, mais gente apareceu e comentou! Mas a segunda é bem curtinha... (relevem a parte que eu falo ploblemas U_U) . http://s1.vocaroo.com/media/download_temp/Vocaroo_s1HkttodwyUu.mp3 http://s1.vocaroo.com/media/download_temp/Vocaroo_s1lQ6HjMiAy0.mp3 . Enfim, acho que já falei tudo que precisava por hora na gravação! xD~ Mas reforço que adoro muito todos vocês! Obrigada pelo acompanhamento! . E aqui vai mais duas fotinhos: Santiago (Mas ele tem olhos mais escuros e tem a tatuagem no ombro. Não é o mesmo da capa, mas MUITO igual a como eu o imagino!): http://farm9.staticflickr.com/8522/8512200146_9c4052bb54.jpg James (mas ele tem olhos amendoados, não azuis): http://farm9.staticflickr.com/8109/8512199578_13014854c4.jpg Por enquanto é isso! Beijos, gente linda! ;*