Mar De Fogo
19 Acordo
Notas iniciais
“Eu não sei o que aconteceu aqui, Dominic, mas sei que esse não é o seu lugar, irmão. Volte comigo e com o James!”
Eu olhei para alguns rostos naquele convés. De Santiago, com sua expressão endurecida e olhos de avelã queimada, passei para Terrence. Estava barbudo e seus cabelos como sempre eram compridos e desgrenhados; ele me encarava com uma sobrancelha erguida, como que em dúvida do que eu diria. Já Katana pareceu-me ansioso, uma criança a espera do desfecho de uma história. Jaima parecia prestes a implorar para que eu continuasse no navio, e Estevan nos olhava com uma expressão de quem não entendia uma palavra do que falávamos, o que era apenas esperado. Pantoja, o gordo cozinheiro engordurado, estava ali, massageando a papa que tinha abaixo do pescoço, enquanto mantinha uma mão pesada sobre o ombro de Renoir, este deixando claro em sua expressão que eu deveria partir o quanto antes. Garuda olhava principalmente para Helena; como qualquer pirata ali, parecia encantado por ela.
Helena tinha o magnetismo das sereias e a doçura das donzelas, e até mesmo Noel, cuja mulher o esperava grávida em Tortuga, parecia admirá-la bobamente.
Meu olhar por fim recaiu em Reno depois de passar por mais alguns rostos conhecidos, homens que haviam aprendido a, relutantemente, respeitar-me e com quem eu havia compartilhado histórias, carne e rum junto ao calor de uma fogueira nas noites em que permanecemos na ilha. Reno balançou a cabeça, e de alguma forma seu olhar sereno me trouxe novamente à mente nossa conversa na cabana. Meu coração se contraiu, e então olhei para o rosto aflito de minha irmã. Irmã! Ainda era difícil acreditar, porém agora era como se eu pudesse perceber todos os traços que nos aproximavam, como a cor idêntica dos cabelos, rubro-escuros, os lábios de uma grossura intermediária, sendo o inferior mais saliente, e seus olhos eram de um azul-claro como mar, tão límpidos, que eu podia ver-me refletido em suas íris chorosas, mas decididas.
“Não posso voltar com vocês, Helena. Não agora.” Lamentei. E lamentei principalmente por meu pai, mas talvez ele se sentisse melhor quando Helena e James voltassem e lhe contassem que eu estava vivo, e era agora um pirata. Ou talvez isso terminasse de matá-lo. Era melhor omitir a parte em que eu era o Imediato do navio de meu raptor, o homem que o humilhara e destruíra sua carreira como navegador, e apenas dizer que eu estava vivo e bem.
“Mas, Dominic...!” Helena tentou me repreender, quem sabe até dar-me um sermão agora que sabia que dividíamos o mesmo sangue – eu sabia que ela me daria um sermão mesmo se fôssemos tão diferentes quanto uma barata e um ornitorrinco.
“Já chega! Garuda, leve essa mulher para a cabine e prenda-a lá por enquanto.” Santiago demandou. “E você, Dominic, venha comigo.”
“Não pode tratar minha irmã assim!” Tirei minha espada da bainha e apontei para a garganta de Garuda. “Largue a minha irmã, agora.” Eu sabia que provavelmente perderia para Garuda em um duelo de espadas, mas eu não iria deixar ele tocar em Helena daquela maneira. Os piratas voltaram a cochichar naquele momento, já discutindo e fazendo apostas quanto ao desfecho de uma luta que sequer começara. Se há algo a que um pirata não resiste é a uma boa aposta valendo alguns guinéus.
“Pare com isso. Ele não fará nada com a tua irmã.” Santiago me segurou por trás e livrou-se rapidamente de minha espada. Eu lembrei que havia prometido a mim mesmo que treinaria esgrima com maior afinco caso eu sobrevivesse à noite de meu rapto. Obviamente eu havia me esquecido disso completamente, mas agora lembrava que seria necessário caso eu não quisesse continuar a ser desarmado pelo Santiago com tanta facilidade. “Venha comigo, nós vamos ir buscar aquele teu amiguinho.” Me arrastou com ele feito a boneca que os marujos diziam que eu era. “E vocês preparem o navio, amenizem os estragos e fiquem atentos para as próximas ordens!” Santiago dirigiu-se a toda a tripulação, no tom autoritário que lhe era tão natural.
Nós descemos ao deque inferior e, uma vez apenas nós dois, Santiago me olhou com enfado.
“Tire esse bico dos lábios, antes que eu acabe por dar um jeito nele. E de uma maneira que você certamente não irá gostar.” Minha expressão mudou por reflexo, e eu estremeci suavemente. Era frustrante o que ele conseguia me causar com uma simples indireta. Minha sorte que eu estava começando a me acostumar com tal fato. Ao menos um pouco.
“Vai me deixar conversar com James?” Perguntei, seguindo-o em direção às escadas que nos levariam até o porão onde os prisioneiros eram mantidos atrás das grades, em gaiolas gigantes, de metal enferrujado.
“Já percebi que você não vai parar de me importunar enquanto não te deixar falar com aquele inglesinho de merda.” Santiago começou a dizer, e eu soltei um “Hei!” indignado, porque eu também era um inglês e era bom que ele não se esquecesse disso antes de sair falando mal de meus conterrâneos. “Mas eu juro... Se ele te tocar outra vez...”
“Jura o quê? Que irá matá-lo? Que irá matar-me? Quem é você para ficar me cobrando fidelidade, quando somos dois homens solteiros e desimpedidos? Eu-“
Eu ainda iria dizer muitas coisas, falar sobre o tal Giulio, quem sabe, para que assim ele visse que não tinha nenhum direito de me cobrar nem mesmo um pence. Mas todo meu discurso acabou no fundo do mar quando fui bruscamente prensado contra a parede de madeira e os lábios do Santiago caíram ferozes sobre os meus. As mãos dele assaltaram cada uma das minhas nádegas, e eu soltei um gemido estrangulado que apenas abriu passagem para que ele afundasse a língua em minha boca. Minha ideia ao levar as mãos aos cabelos dele era segurá-los pelas raízes e afastá-lo, mas o que fiz ao sentir os fios em meus dedos foi puxá-lo mais contra mim. Eu havia me tornado um fraco. Não. Eu sempre fui fraco. Essa é a cruel verdade.
Santiago se afastou tão abruptamente quanto se aproximara, de modo que eu oscilei para frente como um pêndulo antes de me aprumar, o corpo queimando por culpa de um contato tão breve. Santiago apoiou as mãos de cada lado de meu rosto e me olhou duramente, um olhar negro que me excitou ainda mais e deixou-me com o rosto afogueado.
“Eu já disse, há um bom tempo agora, que ninguém tem permissão de tocar em você. Isso inclui esse teu amantezinho que você deixou na Inglaterra.” Santiago segurou meu queixo e o ergueu. “Porque você é meu.”
“Ele não é nenhum amante, quantas vezes eu vou ter que falar isso? Mas que inferno você também! A porra que eu sou... Que eu sou...” Minha voz perdeu toda a ênfase já que o Santiago atacou meu pescoço e colocou a mão entre minhas pernas, apertando em cheio meu ponto fraco. Algo assim deveria ser proibido em meio a uma discussão.
“Ele não teria te beijado daquele jeito se nunca houvesse acontecido nada entre vocês.” Santiago sussurrou em meu ouvido com uma certeza absoluta, de dar nos nervos. “Admita.” Ordenou, ao voltar a deixar nossos rostos frente a frente.
“Eu... Nós...” Era difícil mentir quando os olhos do Santiago perfuravam os meus, sem me dar nenhuma chance de escapatória. E ele não descansaria até saber a verdade, então, remexendo-me por culpa do que ele fazia entre minhas pernas, resolvi falar: “Nós nos beijamos uma vez antes.” Admiti. “Mas foi apenas uma vez! Estávamos bêbados e aconteceu há mais de um ano atrás!” Complementei rápido quando seu rosto obscureceu.
Santiago se afastou, livrando-me de qualquer contato, e eu cambaleei para frente de novo. Agora eu tinha uma ereção despontando em minhas calças e deveria ir conversar com James. Perfeito! Eu deveria pedir para James dar um jeito em meu problema, enquanto o Santiago assistia. Isso quem sabe aplacasse o maldito ciúmes dele.
“Eu deveria imaginar que, depois de você quase se vender para o Alóis, já teria se relacionado com outros homens”. Santiago disse, irritado, e eu percebi que ele parecia sentir mais ciúmes do fato de eu já ter beijado um homem, do que transado com várias mulheres. Não havia como entender a lógica dele. “Talvez até já tenha se deitado com um, e esteja apenas me enrolando.” Ele voltou a me esmagar contra a parede com aquele olhar acusatório.
“Não seja ridículo. Por que diabos eu te enrolaria, se eu já tivesse me deitado com algum homem? Também sou homem, e tenho minhas malditas necessidades. Você acha que eu não gosto de sexo?” Perguntei já me alterando. “Isso tudo é novo para mim e... Difícil... Por toda a minha vida eu fugi do fato que... Também sentia atração por homens.” Virei o rosto, envergonhado por finalmente admitir aquilo. “James não foi o único homem que beijei. Houve um antes dele, e três posteriores, mas eu sempre estava bêbado demais, e nunca permitia que fosse algo além de um, ou dois beijos escondidos.” Eu sentia vontade de me atirar aos tubarões; era difícil admitir tudo aquilo, e eu não sabia exatamente por que o fazia, mas era algo que eu de repente sentia-me cansado de guardar apenas para mim. “Você foi o primeiro que eu conscientemente beijei, sem nenhum efeito do álcool. No início eu te odiava por me forçar a sentir coisas que eu não queria sentir e arrancar-me reações indesejadas. Mas agora eu... Eu finalmente me sinto livre para sentir o que eu quiser, e ser quem eu quero ser.” Voltei a olhar para o Santiago.
A expressão dele havia mudado por completo: não parecia prestes a explodir o próprio navio por algum acesso de raiva. No lugar disso sorriu de canto, inevitavelmente debochado, porém havia algo a mais ali – algo como satisfação. Ele se aproximou e voltou a erguer meu queixo, inclinando-se para deixar nossos lábios bem próximos.
“Eu ainda vou te fazer sentir muito mais do tudo isso.” Ele avisou, parecendo o mesmo Santiago de sempre: arrogante e prepotente, e dono do sorriso mais irritante do mundo.
Bufei e o afastei.
“Estamos perdendo tempo. Vamos logo até James.” Determinei e avancei à frente dele, tentando manter uma pose digna. “E deixe que eu falo com ele.” Disse; a última coisa que eu precisava era de dois marmanjos ladrando um com o outro no porão do Labareda.
Santiago e James já nutriam um ódio mútuo suficiente para toda uma vida.
XxX
As celas estavam repletas de ingleses, e todos pareceram mover-se em um único movimento contra as grades quando me perceberam descendo as escadas até o nível em que eles estavam. Eles começaram a falar todos ao mesmo tempo, porém as vozes aumentaram e se tornaram mais agressivas quando Santiago surgiu logo atrás de mim.
“Pirata imundo! Se tem alguma honra, mate-nos, ou deixe-nos ir!” Um deles gritou.
Santiago já estava tirando a pistola do coldre quando eu o impedi com um olhar duro. Ignorando os xingamentos e olhares que choviam em nossa direção, me dirigi rapidamente até James, preso em uma cela única aos fundos do porão.
“Traidor! Se fosse mesmo inglês, não estaria do lado daqueles que te raptaram! Teu pai padecerá de vergonha quando souber!” Olhei para o homem e notei que era um dos tripulantes do navio de meu pai, que estivera conosco no Granada de Água Marinha, ou apenas Granada. Fiquei surpreso por vê-lo, mas não parei para falar-lhe, ainda mais quando ele parecia odiar-me com todas as suas forças; por ter vindo também a minha procura e me encontrado tão confortável em roupas piratas.
James já segurava as grades com ambas as mãos no momento em que parei em frente à sua cela. Ele fez um gesto que pedia silêncio de sua pequena tripulação encarcerada e, lentamente, os homens se calaram, ficando apenas aos cochichos. James olhou de esguelha para o lado, onde Santiago se apoiara contra o casco do navio, os braços cruzados sobre o peito e o olhar duro como ferro.
Os olhos amendoados de James tentavam disfarçar sua confusão e dúvidas quando os volveu para mim. Ele tinha apenas 21 anos e havia conseguido uma tripulação para segui-lo até aqui. Eu o admirava por suas conquistas, mas sabia que não teria chance de dizer-lhe isso agora.
“James,” Suspirei. “seria possível que você me explicasse como diabos pôde ser tão estúpido ao vir até aqui atrás de mim?”
James soltou uma risada incrédula pelo nariz e aproximou mais o corpo da grade.
“E o que eu faria, Dominic? Continuaria a curtir a vida sabendo que meu melhor amigo podia estar morto no Caribe?” Perguntou, apertando mais as grades. “E havia também Helena... Quando ela soube que vocês eram irmãos... Você não imagina o quanto ela se esforçou para me ajudar a conseguir uma tripulação. Ela contou-te? Acharam-na no Tigre?”
“Sim, a encontramos, e eu já conversei rapidamente com ela. E espero que ela não tenha dormido com ninguém como forma de barganha.” Vociferei em um sussurro. Eu rapidamente havia tomado o posto de irmão zeloso. James revirou os olhos e passou a mão pelos cabelos negros.
“Você sabe que não.” Ele olhou-me de cima abaixo, reparando em minhas vestes e, quem sabe, em minhas terríveis sardas nas bochechas avermelhadas pelo sol. Soltou outra risada baixa, dessa vez com certa diversão. “Eu sequer consigo me surpreender ao vê-lo dessa maneira, junto ao inimigo. Você sempre teve uma facilidade absurda para adaptar-se e ascender em qualquer meio.”
“Você me conhece melhor do que qualquer um...” Murmurei. “Mas há muito mais por trás dessa história.”
“Irá contar-me?”
“Assim que eu tiver a oportunidade.” Prometi. “Mas primeiro preciso dar um jeito de mandar todos vocês embora sãos e salvos no Tigre Imperial-“
“Agora é você quem está louco!” James interpelou. “Eu não volto para a Inglaterra sem você.”
“James...” Eu suspirei, segurando uma das grades. Não havia espaço para sentimentalismo, e ele deveria saber disso, afinal era ele quem estava preso atrás de barras de ferro cobertas de ferrugem e sujeira.
“Dominic... Por que você acha que eu te beijei antes, na frente de todos?” Ele colocou a mão sobre a minha e a acariciou suavemente. Meu coração acelerou algumas batidas ao olhar para nossas mãos, e era uma sorte que minhas bochechas já estivessem queimadas do sol, pois não haveria diferença quando corassem, como agora. James segurou também meu rosto, aproximando-o das grades. “Eu te amo, está entendendo? Eu devia ter dito isso antes, mas eu só passei a entender isso a partir daquele beijo que trocamos há pouco mais de um ano... Eu havia prometido a mim mesmo que me declararia quando você voltasse do Caribe, mas você não voltou e, Dominic... Você não imagina o quanto eu-“
James foi interrompido pela ponta de uma espada, que o obrigou a se afastar alguns passos para trás, quebrando completamente nosso contato. Eu quase havia esquecido da presença do Santiago naquele porão. Quase.
“Não toque nele, se quiser continuar vivo.” Santiago avisou, e eu levei minha mão à testa.
“Por que se importa?” James estreitou os olhos. “Não vou machucá-lo, é meu melhor amigo. Vim até aqui por ele, e volto apenas com ele.”
“Você faz o que eu disser para fazer, cão. Se eu chutá-los de volta para aquela merda flutuante que vocês chamam de navio e mandar que voltem ganindo para a Inglaterra, o farão, do contrário, uso meus canhões para afundá-los e depois atiro em cada um dos vira-latas que tentarem nadar até terra firme.” Santiago avisou, e James sabia que ele tinha todos os meios para cumprir com suas promessas. James trincou os dedos e, ao fazê-lo, a covinha em seu queixo parece se acentuar pela raiva.
“James,” Parei a troca de olhares fúnebres entre eles. A declaração de James certamente me atormentava, mas isso teria de esperar. “Helena falou algo sobre Chagres.” Lembrei. “Vocês estavam indo para lá?”
James olhou-me sem compreender a relevância da pergunta.
“Meu pai teria assuntos para tratar em Chagres. É um ponto da rota marítima do comércio inglês, mas o dono do forte vem ganhando mais poder do que deveria e dificultando algumas transações inglesas. Eu tomei o lugar de meu pai sem o consentimento dele; porém isso era apenas um pretexto para deixar o porto.” James falava com impaciência. O forte não lhe parecia importante. “Cacei esse navio por dias, até conseguir informações com uma fragata mercante na altura do Equador. Então segui a rota para Chagres e, quando dei por mim, já éramos atacados...”
Negócios diplomáticos em Chagres... O lugar que teríamos de abater para dar seguimento a busca dos anéis.
Minha mente processou tudo em uma velocidade estonteante. Eu fechei o punho da mão do anel e o toquei, parecendo senti-lo vibrar, como se houvesse um entendimento mútuo entre nós para o plano que se desenhava em minha mente. Talvez por isso eu fosse importante na vingança de Santiago, ou talvez isso fosse apenas a ponta do iceberg. Havia um motivo para eu estar ali; meu rapto havia desencadeado uma série de eventos, como um leve empurrão em uma fileira de dominós, e agora eu conseguia vislumbrar uma razão mais concreta do porquê de Nena ter-me visto em uma de suas visões.
Meu coração estava em frenesi quando toquei o braço do Santiago.
“Eu tive uma ideia...”
Porém primeiro eu precisava convencer a todos que poderia dar certo. E não seria uma tarefa fácil.
XxX
Chagres era uma ilha na altura de Santa Catarina. O forte, também chamado de Fortaleza de San Lorenzo, era o que poderia se chamar de inexpugnável, dada as descrições que Santiago e os próprios marujos haviam me dado ao longo daqueles dias em alto-mar e noites na ilha. A guarnição era composta por mais de três mil soldados, e não seria uma tarefa fácil dobrar os joelhos do homem que governava o lugar.
A cada descrição, eu entendia o quanto aquilo era suicida. Precisávamos de um plano, mas primeiro teríamos de nos juntar com Fajardo e Emanuel em Laguna para discutir os meios de ataque. Não teríamos mais do que quinhentos homens para tomar o forte e, mesmo se sucedêssemos a empreitada, ainda haveria muitas mortes, para ambos os lados, e eu provavelmente não conseguiria curar todos os feridos.
Era o que eu tentava explicar para Santiago. Já o havia convencido a levar James até a cabine, junto com Helena. Se James não voltaria para a Inglaterra na minha ausência, então ele teria de me ajudar a cumprir com a minha palavra.
“Cumprir com a sua palavra?” James interpelou. “Que se dane a sua palavra, Dominic! Você não deve nada para esse pirata!” James bateu as mãos algemadas sobre a mesa. Helena colocou uma mão sobre o ombro dele, impedindo-o de se exaltar. Ela parecia mais calma agora, com uma placidez que rivalizava com a de Reno.
“Não precisamos da ajuda dos teus amigos ingleses.” Santiago ladrou. “Seja qual for o plano que você tiver nessa tua cabeça oca e ruiva.” O olhei ofendido, mas logo voltei minha atenção para James.
“Você sabe que eu sempre cumpro com a minha palavra... Prometi a esse pirata–“ Apontei para Santiago. “Que o ajudaria. Então vou ajudá-lo.”
“Você só cumpre com a sua palavra porque raramente a dá e, quando dá, é para assuntos tolos e fáceis!” James lembrou-me. Acho que essa é a função de melhores amigos, eles esfregam verdades doloridas em nossas fuças. “Não sei o que deu em você para se juntar a esses bárbaros, ladrões, assassinos e foras da lei!”
Quando colocavam as coisas dessa forma, parecia pior do que realmente era.
“Mesmo que seja assim, eu cumpro minhas promessas, e dessa vez não a dei por algum motivo tolo.” Rebati. Mantenha a calma, mantenha a calma. Minha mente alertava. “Ou você me ajuda, ou volta para a Inglaterra. Eu não irei antes de resolver meus assuntos pendentes.”
“Você é sempre tão teimoso...” James esfregou os olhos.
“Que plano é esse que você tem, irmão, que requer a nossa ajuda?” Helena tomou a palavra, enquanto James se lamentava em resmungos de minha cabeça-dura. “Sou sua irmã... Eu ajudarei em tudo que puder, e tomo como minhas as palavras de James: não voltarei à Inglaterra sem você.”
Eu sorri para ela, minha irmã, minha melhor amiga. Aqueles eram meus dois melhores amigos, e eu talvez não devesse colocá-los em risco. O mais certo seria enxotá-los de volta, em segurança; porém, tudo parecia tão perfeitamente desenhado em minha mente, como se destino realmente existisse e houvesse planejado em detalhes os caminhos que nos levariam àquele momento.
Além disso, eu não era o único teimoso ali.
“Vocês teriam permissão para entrar no forte pela porta da frente.” Falei. “Seriam bem recebidos, sentariam à mesa do comandante da ilha, beberiam e ririam com ele para depois discutir negócios e formalidades...” Lembrei-me de quantas vezes meu pai havia orquestrado encontros como esse. “E se entrássemos em uma comitiva metade inglesa, metade pirata, e abríssemos os portões de Chagres na calada da noite? Nossos quinhentos homens avançariam protegidos pelas sombras diretamente para o coração do forte e subjugariam o lugar em um ataque surpresa! A fortaleza cairia de dentro para fora.” Olhei para Santiago, observando-lhe a expressão taciturna. Ele digeria meu plano, ao menos, antes de jogá-lo fora e cuspir em cima em desprezo.
“Uma traição.” Helena sussurrou.
“Parece que virou mesmo um pirata.” James fincou seus olhos em mim. Não parecia confortável com a ideia de sentar-se à mesa de seu anfitrião e depois traí-lo assim que ele descansasse o rosto em um travesseiro confortável.
“É um bom plano.” Reno tomou a palavra pela primeira vez. “Haverá menos mortes, de ambos os lados. É uma maneira de poupar vidas, com uma grande chance de sucesso.”
“Eu concordo. É uma ideia que deveríamos levar para Fajardo e Emanuel.” Noel assentiu. “Mantemos alguns ingleses de prisioneiros, para garantir que nenhum deles nos traia quando entrarem em Chagres, e os libertamos depois de conquistarmos o controle do forte.”
“Não podemos confiar nos ingleses, mesmo mantendo alguns reféns.” Santiago negou, arrancando-me um grunhido de insatisfação. Caminhei o curto espaço entre nós e coloquei a mão em seu ombro, virando-o para mim.
“Mas você confia em mim, não?” Perguntei, observando-o profundamente. Ele suspirou ao colocar uma mão em minha cintura, puxando-me para mais perto. Eu corei, pois James e Helena nos observavam com demasiada atenção.
“Você sabe que sim.” Ele sussurrou, arrepiando cada pelo de meu corpo. Era a primeira vez que afirmava aquilo com todas as letras, e não com gestos, ou olhares. E eu não podia negar: era algo bom de escutar. Queria manter-me digno daquela confiança.
“Então pode confiar em meus amigos também.” Garanti e me voltei para Helena e James. “Isso é... Se vocês aceitarem nos ajudar.” Olhei firme para ambos. Aquela era minha decisão; eu não cobrava nada deles, e agora cabia inteiramente aos dois.
“Voltará conosco depois de Chagres?” James perguntou.
“Eu...” Hesitei, mirando Santiago de esguelha. “Não posso garantir isso. A palavra que dei é que ajudaria o capitão a conquistar certos objetivos... E Chagres é apenas o início.”
James suspirou frustrado, abaixando o rosto, mas Helena caminhou até mim, contornando a mesa da cabine, e abraçou-me com força, enchendo minhas narinas com um perfume agradável que dificilmente era possível sentir quando se vivia em um navio pirata, repleto de marujos sujos, fedorentos e avessos ao banho. O cheiro mais agradável por ali seria o de maresia, sal e mar. Já o aroma de minha irmã parecia pertencer a uma outra vida.
“Eu vim até aqui para te ajudar, Dominic. Minha ideia era ajudá-lo levando-o de volta, mas se isso não é possível, então ao menos te ajudarei a conquistar Chagres. Não me importo em trair um anfitrião... Pois a maior traição seria deixar-te quando tenho alguma chance de ajudá-lo a voltar mais rápido para casa.” Garantiu, acariciando meus cabelos compridos. “Essa é minha palavra e, como você, também a cumpro até as últimas consequências.”
“Eu também dou minha palavra.” James se ergueu. “Porém exijo chegar a Laguna em meu próprio navio, com minha tripulação. Podem jogar ao mar meus canhões, se quiserem, mas não submeterei meus homens a mais um dia naquele porão fétido se serão eles que irão ajudar vocês piratas.” Cuspiu as palavras.
“Sinto que podemos confiar neles, Santiago. Assim como podemos confiar no Dominic.” Reno falou, calmo, ao capitão.
“Os canhões já foram retirados. Acha que eu seria burro em deixá-lo com algum poder de fogo?” Santiago abriu o sorrisinho debochado que obviamente ferveu o sangue de James. Era o poder daquele sorriso. “Vocês seguem para Laguna à nossa frente, porém alguns de seus homens ficarão no Labareda, por garantia. Quero-os sob minha vista e minha mira; se tentarem desviar da rota, terão de se preocupar com alguns tiros de canhão.”
James ergueu as mãos.
“Então acho que já posso ter as mãos livres dessas algemas.” Falou, e Noel se aproximou para soltá-lo. James massageou os pulsos, os olhos erguidos para mim. “É bom que saiba o que está fazendo, Dominic...”
“Ele sabe.” Helena garantiu por mim.
A mim, restava torcer para que minha caríssima irmã estivesse certa. Porque era evidente que Santiago e James continuariam se odiando até o final dos tempos. Aquele acordo era inflamável, e eu teria de me esforçar para que as faíscas não causassem uma explosão. Porém Santiago não facilitou meu intento, ao me puxar pela cintura e envolvê-la com o braço forte, olhando diretamente para James.
“É bom que fique ciente também, cão, que Dominic é meu, e te estripo se tentar se aproximar dele com segundas intenções.” Santiago declarou audaz, mirando James com desprezo evidente. Dessa vez, nem mesmo as marcas do sol em meu rosto disfarçaram o rubor que me tomou por inteiro.
James e Helena me encararam perplexos, os queixos caído e os olhos espantados.
“O que está dizendo?” James perguntou. “O que ele está dizendo, Dominic?” Dirigiu-se diretamente a mim.
“Diga a ele, Dominic.” Santiago demandou.
Abri e fechei a boca, sentindo-me encurralado entre a ponta de uma espada e a beirada de um abismo. Eu sinceramente queria esmagar a cabeça do Santiago contra a mesa por me obrigar a contar aquilo daquela forma abrupta e deslocada; mas não poderia mentir para meu amigo e minha irmã.
Demorei alguns segundos até conseguir dizer:
“Somos amantes.” Confessei num sussurro, com as batidas de meu peito retumbando em meus ouvidos, tornando-me surdo para o som das ondas batendo ritmadamente contra o casco do Labareda, ou das gaivotas berrando à distância. “Sou amante do capitão.”
Até meus cabelos devem ter ficado mais vermelhos.
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