Notas iniciais
Obrigada de coração aos amores que recomendaram: lucky-lucy, M_Blue_Rose e Meliare! Amei demais cada palavra! Cada recomendação é uma alegria imensa, obrigada! ♥IMPORTANTE! Música do capítulo: http://letras.mus.br/matanza/812226/ (indicação da Nishan!)

“Sou amante do capitão.”

O ar pareceu se tornar mais denso, e as respirações ficaram em suspenso. Ao menos a minha ficou. O queixo de James havia se espatifado no chão, tal era sua expressão de incredulidade, e a de Helena não ficava para trás. Eu tentei falar mais alguma coisa, mas nada saiu. Olhei para Santiago e vi que ele abrira um sorrisinho torto no rosto, desafiador, para James.

No segundo seguinte, um furacão pareceu atravessar a cabine, e eu fui jogado para o lado para que James pudesse dar um soco nas fuças de Santiago, um soco que saiu certeiro, e eu me impressionei com a velocidade do meu amigo. Mas nem tive tempo de aplaudi-lo – eu provavelmente apanharia se o fizesse –, pois Santiago revidou também com uma habilidade digna de exclamações de admiração, e logo os dois caíam no pau causando uma grande balbúrdia.

Eu na verdade estava longe de aplaudir. Meus olhos estavam arregalados e demorei a me meter na briga para separá-los.

“Desgraçado!” James gritou, tentando alcançar Santiago enquanto eu e Helena tentávamos segurá-lo. Santiago era detido por Noel e Reno, e era uma sorte que Noel estivesse ali, pois era muito provavelmente o único capaz de segurar o capitão. Santiago parecia um demônio enfurecido, mas James também não estava longe disso; eu estava tendo sérios problemas em segurá-lo. “O que você fez com ele?” Gritou. “O ameaçou de morte? O obrigou a deitar contigo em troca da vida?”

Eu poderia ficar indignado por James achar que eu me venderia assim. Mas então lembrei que, primeiro, ele me conhecia muito bem; segundo, eu quase havia me vendido para o governador de Tortuga, com quem teria me deitado se o Santiago não houvesse se intrometido e me impedido. Me envergonhei de minhas atitudes, mas mesmo assim disse:

“Cale a boa, James. Não é nada disso!” Tentei sacudi-lo para que ele prestasse atenção em mim, e não em Santiago.

“Não preciso desses artifícios, se você não conseguiu em vários anos o que queria, não é problema meu. O único que precisaria ameaçar o Dominic de morte para levá-lo para cama seria você.” Santiago rebateu, já mais calmo, parecendo satisfeito com o filete de sangue que escorria do nariz de James, enquanto ele tinha apenas o lábio superior inchado. Mandei um olhar de aviso para o Santiago para que ele calasse a boca, pois sua provocação enfureceu ainda mais James, e foi difícil contê-lo.

“Dominic, fale a verdade. Ele te coagiu?” James voltou-se para mim e segurou meu rosto, olhando profundamente no interior de minhas íris. “Disse que te levaria de volta se você se deitasse com ele? Te ameaçou de alguma forma?”

“James... Se alterar não vai ajudar em nada.” Foi Helena quem falou, tentando acalmar os ânimos. James parecia desesperado, e eu estava meio apalermado. Às vezes consigo ser tão lento quanto um burro empacado, e esse era um dos momentos. Ainda estava envergonhado com a minha confissão, mas sabia que era necessária, ainda mais depois da declaração de James. Se ele descobrisse posteriormente sobre isso, os planos em Chagres poderiam ir por água abaixo, era preciso esclarecer tudo antes de voltarmos a navegar.

“Como eu não vou me alterar?!” James gritou, voltando o olhar para ela e descendo as mãos para meus braços. “Dominic enlouqueceu! Ele está se deitando com um pirata, o homem que quase matou seu pai, que o raptou! Isso não faz nenhum sentido.”

“O que não faz sentido é eu ter de escutar toda essa ladainha. Deveria matá-lo e me livrar de mais um problema.” Santiago replicou, entediado.

“James não é um problema, ele é a solução, se pudermos colocar o plano do Dominic em prática. Então acalmem-se, todos vocês.” Reno nos interrompeu num tom firme, ainda que calmo. Pela primeira vez o via falar com tamanha autoridade, capaz de calar a todos, e me impressionei enquanto Noel assentia pomposamente.

“Melhor deixarmos eles conversarem um pouco...” Noel disse a Santiago, que não pareceu contente com a ideia, mas acabou se dando por vencido quando Reno indicou que eles saíssem, piscando para mim por cima do ombro. Eu pareci acordar do meu transe quando a porta da cabine fechou, e restou ali dentro eu, uma Helena de braços cruzados e um James que respirava ruidosamente, querendo arrancar de mim alguma confissão sobre como fui torturado, ameaçado e mal-tratado até aceitar dividir os lençóis com o capitão.

“Ele não me forçou a nada.” Falei, mas depois fiquei meio em dúvida. “Ou a quase nada.”

“Como isso aconteceu, Dominic?” Helena perguntou.

Deus, e como eu iria explicar? Nem mesmo eu sabia como havia me envolvido tanto com o filho da puta arrogante que atendia pelo nome de Santiago! Se até um tempo atrás eu fosse a uma daquelas cartomantes que diziam ler o futuro, e ela narrasse o exato ponto onde agora eu me encontrava, eu não só riria, como provavelmente a levaria até o manicômio mais próximo e diria para que a colocassem no quarto de segurança máxima.

“Isso é ridículo.” James interpelou, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. “Isso tudo é ridículo. Além de eu ter de ajudar um maldito pirata, porque você não pôde manter a língua dentro da boca e teve de enchê-lo de promessas, ainda que eu ache que uma promessa a um pirata é o mesmo que bosta de cachorro, eu ainda tenho de tolerar a ideia de você virando a vadia daquele capitãozinho irritante e esnobe. Um assassino, Dominic, um ladrão oportunista, sujo e baixo, como você pôde se deitar com ele?” As palavras afiadas de James machucaram. Era difícil ser julgado, era difícil ser julgado por ele.

Olhei perdido para Helena, e ela segurou minha mão e a levou até os lábios, beijando-a docemente, como que para me incentivar a falar junto a um sorriso fraco, de quem desejava me compreender. Parecia mais uma mãe do que uma irmã, mas eu nunca havia tido nenhuma das duas para saber a diferença. Mantive o olhar sobre ela quando falei:

“Vocês não o conhecem... Não como eu o conheço. Ele é irritante, arrogante e prepotente, pode ser um ladrão e um assassino também. Droga! Ele pode ser muitas coisas, mas há qualidades também. Só que eu não tenho como explicar como aconteceu, só aconteceu, e eu não posso voltar atrás. Não posso controlar mais nada disso, estou envolvido até a alma e irei até o fim.” Determinei e então encontrei coragem em minhas próprias palavras para olhar para James. “Me julgue, então. Me julgue porque eu sei que também julgaria se estivesse no seu lugar... Não estou pedindo para que vocês entendam, isso seria ridículo considerando todas as circunstâncias. Estou pedindo que me ajudem, mesmo que seja perigoso. Eu preferiria mil vezes pensar que vocês estão seguros na Inglaterra, mas já que vieram até aqui e falaram que não voltam sem mim, então o que me resta é pedir que me acompanhem. Agora que sabem de tudo, o que farão?”

“Somos irmãos...” Helena começou a dizer, repetindo-se; o rosto franzido pelo sol que adentrava na cabine pelas escotilhas.

“Pare de usar isso como desculpa para concordar com as loucuras dele, Helena!” James exclamou, ainda não convencido, e lembrou-se de limpar na manga do fardo o sangue que escorria pelo nariz. “Eu deveria te jogar no ombro e te levar de arrasto de volta pra Inglaterra, Dominic, era isso que eu deveria fazer, e não colocar em risco a vida de mais ingleses para ajudar aquele homem.” Ele se dirigiu a mim.

“Mas não pode. Então irá voltar?” Perguntei, com um aperto no peito, mas não podia reclamar se essa fosse a decisão dele. O preço que eu pedia era alto, e eu já me sentia mal pelo que ele havia dito quando estava na prisão. Mas em que universo eu poderia imaginar que ele se sentia daquela forma em relação a mim? O máximo que havíamos trocado havia sido um beijo numa noite de bebedeira, e nunca tocáramos no assunto.

James suspirou pesadamente, passando a mão bruscamente pelos cabelos castanho-escuros, bagunçando-os na mesma medida de sua frustração. Depois olhou-me, como que derrotado, mas havia ali o ar de melhor amigo que eu conhecia tão bem.

“E quando foi que eu te deixei pra trás, Dominic? Mesmo com todas as suas loucuras, eu sempre te apoiei, não é? Não seria diferente dessa vez... Mesmo que eu não concorde com nada disso, infelizmente eu sei o quanto você pode ser teimoso.” Revirou os olhos, fatigado, e me puxou para um abraço apertado quando eu não me contive e sorri largamente. “Mas não pense que vou desistir tão fácil de você...” Sussurrou em meio ouvido antes de soltar-me.

Abri um sorriso amarelo, sem saber o que responder àquilo.

“Nunca mais me chame de vadia, ou quebro todos os dentes da sua cara.” Falei em retorno apenas; era algo que eu não podia deixar passar.

E então volvi minha atenção para minha irmã, até para fugir do olhar de James, de quem iria me roubar a qualquer momento. Helena me encarava como quem contempla uma instigante obra de arte que tenta compreender, buscando todos os mínimos detalhes escondidos na pintura. Havia algo no olhar dela, um entendimento que cheguei a estranhar.

“Sabe...” Ela murmurou apenas para mim. “Há piratas de não se jogar fora nesse navio.”

“O quê?!” Perguntei pasmo, mas já sabia há algum tempo que minha ditosa – agora – irmã não era nenhuma santa, ainda que continuasse virgem aos dezoito anos, esperando o homem rico que a mãe e o padrasto escolheriam para que ela casasse e, assim, engordasse os bolsos da família.

“Só estou dizendo...” Deu de ombros, corando sutilmente. “Somos gêmeos, Dominic, eu consigo captar algumas coisas sobre você que os outros não conseguem, assim como você sempre conseguiu captar também outras coisas em mim.”

“Sim, eu sei. Faz sentido agora...”

Não tivemos muito mais tempo para conversas. Santiago retornou a cabine, junto com o irmão e Reno, e eles receberam a confirmação da ajuda. Helena e James voltaram para o Tigre Imperial e seguiram viagem à nossa frente, sendo cuidados de perto pelo Labareda, que se comportava com lobo marinho espreitando sua caça. Garuda e alguns piratas também foram com eles. Avançamos rápido, querendo chegar logo a Laguna, pois já estávamos para além do conceito do atraso.

Me apoiei à borda do navio, espreitando os arredores das águas tranquilas com a luneta que eu havia ganhado de Parténope. Não vi nenhuma sereia, e me perguntava se elas realmente viriam em busca de ajuda. Ainda era estranho me imaginar como alguma espécie de curandeiro mágico, mas eu gostaria de ajudá-las novamente; era contraditório usar o anel que as machucara para salvá-las, mas dava algum valor digno àquela pavorosa caveira à qual eu me acostumara.

Estremeci suavemente quando senti a presença de Santiago às minhas costas. Era ridículo, mas eu sabia que era ele sem nem mesmo olhar; havia me acostumado com seu cheiro, e era fácil também reconhecê-lo pelas reações de meu corpo. Mas eu jamais admitiria isso, já havia admitido demais para um único dia, e ainda tinha um orgulho a manter — mesmo prendendo a respiração ao sentir os braços de Santiago me envolvendo para apoiá-los também no bordo, e os lábios roçando em meu ouvido.

“Foi esse o presente da sereia?” Ele perguntou, mas pegou a luneta e a levou ao olho sem nem ao menor pedir permissão. Bufei enquanto ele matava a curiosidade. “Ela tem um alcance incrível.”

“É, mas é minha!” Tentei pegar de volta, virando-me para ele, mas Santiago ergueu a mão para o alto e sorriu de lado. Eu me senti feito uma criança nanica – e irritada. Santiago estava me fazendo de bobo; mas onde estava a novidade? Voltei a bufar. “Você é mesmo irritante.”

“Se a quer de volta, vai ter de pagar.” Santiago sussurrou rouco, e os pelos de minha nuca arrepiaram.

“Com o quê?” Perguntei, desconfiado, estreitando os olhos.

“Você sabe com o quê. Então por que não toma a iniciativa de novo? Eu estou quase me acostumando com você me beijando por vontade própria, mas ainda preciso que o amante do capitão demonstre um pouco mais de carinho.” Disse, debochado e divertido, inclinando-se para perto, de modo que precisei projetar minhas costas para fora do navio, com a sensação de que cairia a qualquer momento.

“O carinho que você merecia era um chute no saco.” Rosnei, mas isso não diminuiu o sorriso dele, e eu segurei seus ombros. Eu queria minha luneta, afinal.

Aproximei meu rosto, mantendo-o parcialmente virado para não ter de encarar os olhos repletos de malícia do Santiago, e só voltei meus lábios para os dele quando estava bem perto. Ele segurou minha nuca e puxou-me para sua boca logo que minha língua tocou a dele, colocando a outra mão em minha cintura e me prensando contra a borda do navio. Meus braços subiram por seus ombros, e eu o abracei, gemendo pelo calor que o beijo jorrava. Diabos, eu odiava gemer feito uma vadia, como James havia me chamado, revoltante; mas soltei outro gemido quando Santiago me segurou com mais força, apertando forte minha cintura e agarrando meus cabelos, puxando-os para devorar ferozmente a minha boca.

Senti meu corpo excitando e me contorci, tentando escapar, porque não queria ficar duro em plena proa. Santiago ainda terminou com todas as réstias de ar dos meus pulmões antes de se afastar, mantendo-me bem colado a seu corpo. Abaixei o rosto, tentando controlar a respiração, e de novo ele sussurrou em meu ouvido:

“Você lembra o que eu falei antes, que se renderia a mim antes de chegarmos a Chagres?” Perguntou baixo, roçando os lábios na minha orelha. Eu ainda estava abraçado a ele, e resmunguei qualquer coisa, apoiando minha testa em seu ombro. “Eu ainda vou cumprir essa promessa.” Garantiu. “E o prazo está esgotando.”

“Você pode se achar no controle, mas nós dois sabemos que só vai acontecer quando eu quiser.” Repliquei, curtindo a brisa e o conforto de me apoiar a ele para sentir seu peitoral musculoso e ombros largos. Aproveitei para recuperar a luneta com um movimento rápido e preciso de mão, e sorri para seu silêncio.

Porque ambos sabíamos que eu estava certo.

XxX

Laguna era uma cidade portuária pequena e perdida naquele final de mundo, mas aparentemente servia de parada para viajantes, principalmente para piratas. As casinhas de madeira e telhados de sapé se amontoavam próximas à baía e ao redor da pequena igreja de pedra de vigas escurecidas, a construção mais alta e rica dali. Havia um rio caudaloso próximo que corria para o mar atravessando uma praia de cascalho e, Pedro Espinhento falou-me, aquela era uma vila de barcos, peixe, sal e gado, com colinas verdes atrás, habitada por pessoas ignorantes e simplórias. Havia barcos pesqueiros trabalhando nas proximidades, e eles abriram caminho para os dois novos navios imponentes que chegavam, pois o Rosa Negra e mais cinco navios que eu não conhecia já ocupavam os melhores lugares do atracadouro.

“Mas há garotas que sonham em ser raptadas por piratas, e cerveja suficiente para um batalhão. É onde eu nasci.” Falou Pedro Espinhento, depois coçou o braço e cutucou com a língua o buraco que tinha entre os dentes, pela perda de um deles, talvez lembrando que, se eu era amante do capitão, não teria interesse em mulheres.

De alguma forma, todos naquele navio já sabiam sobre minha adorável confissão, e alguns riam baixinho quando achavam que eu não estava olhando. Se divertiam com a ideia de que a muñeca peligrosa havia sido ‘domada’ – ela bem isso que falavam, os bastardos, e Terrence e Katana não tinham medo de cuspir tais idiotices na minha cara. Jaima e Estevan tentavam brigar com os que tiravam muito sarro, servindo como meus guardas-costas, mas isso não impedia que eles fizessem apostas de quando o capitão finalmente conseguiria me ‘desvirginar’ – até saber que Santiago e eu ainda não havíamos ido às vias de fato eles sabiam. E depois dizem que as mulheres são as fofoqueiras.

Então nós finalmente chegamos e começamos a desembarcar. Os homens se espichavam e os ingleses do Tigre Imperial desciam desconfiados para a praia, os poucos que restavam sendo cuidados de perto por outros piratas, entre eles Jack Barbatana, chamado assim por ter – segundo as histórias – arrancado a barbatana de um tubarão com os dentes. Agora a usava nos cabelos volumosos, negros e desgrenhados, e isso pareceria ridículo em qualquer um, mas Jack era assustador, não por ser algum tipo de gigante como Noel ou Estevan; em bem verdade era alto e magrelo, mas algo no rosto encovado, mãos descarnadas e olhar afiado deixava os ingleses bastante comportados.

“Temos de encontrar com os outros. Quanto antes planejarmos como atacaremos Chagres, melhor.” Santiago disse, acompanhando-me. “Teremos de convencer Fajardo e Emanuel do teu plano, mas teremos de pensar em todos os detalhes antes de dizermos alguma coisa. Emanuel já trabalhou em Chagres antes de virar pirata, ele conhece toda a estrutura do lugar, os pontos fracos e os fortes. Há muito para se levar em conta.” Tanto eu, quanto ele apertávamos os olhos para o sol forte.

Eu assenti para o que ele falava, pois não tínhamos mais do que ideias no ar.

Vi Helena descendo com James, ambos acompanhados por Garuda, que havia ‘comandado’ o Tigre Imperial junto com James, até ali. De novo ele olhava com demasiado interesse para minha irmã, e eu decidi que precisava aprender rápido a duelar com espadas como Santiago, caso precisasse depenar certo pássaro. Eles alcançaram as primeiras casas da vila primeiro, e foi quando foram abordados por outro grupo de pessoas. Reconheci entre elas, Nena, Fradique e Fajardo, e me aproximei ao lado de Santiago, podendo observar a expressão de perplexidade de Nena.

“Más Barbaridad! Dominic, você virou mesmo uma boneca!” Escutei a exclamação da bucaneira. Revirei os olhos, ultrapassando com Santiago aqueles que se interpunham entre nós, e parei ao lado de Helena com um sorriso torto no rosto.

“Eu estou aqui Nena, esta é Helena, minha irmã.” Expliquei.

Nena piscou aturdida.

“Mas o que foi que eu perdi?” Ela espichou o pescoço para olhar para os outros ingleses. “Por Njord! Vocês ingleses são como pragas!” Balançou a cabeça e veio abraçar-me. Fradique riu e trocou um abraço com os irmãos e Reno, que chegava em seguida. James e Helena se mantiveram calados, lado a lado, esperando e observando atentamente aquelas interações.

Já Fajardo tinha uma expressão ruim, e suas veias saltavam da testa, mas isso parecia apenas natural, já que elas saltavam por todo o corpo. Ele cumprimentou Santiago apenas, e disse que os dois precisavam conversar, de modo que Santiago o acompanhou depois de mandar os homens se acomodarem nas pensões da cidade.

Eles iriam se acomodar é nos bares, e encheriam as caras barbadas com álcool.

“Fajardo não parece contente...” Comentei para Nena, assim que vi Santiago afastando-se com ele.

“Ele...” Nena começou a falar, incerta.

“Ele está com ciúmes! Porque eu e Nena finalmente estamos juntos!” Fradique exclamou alegremente e agarrou Nena pela cintura, puxando-a para perto como quem quer dizer: ela é minha agora. A atitude lembrou-me do irmão dele, e quase pude me ver no lugar de Nena quando ela pisou em cima do pé de Fradique e se livrou do abraço.

“Por mil demônios do mar, pare de ficar me agarrando a cada segundo, ou corto tuas mãos e as dou de comida para os peixes. Odeio homem grudento.” Ela suspirou, colocando as mãos na cintura, sobre o cinto que a apertava e segurava as calças largas, enquanto Fradique abria uma careta emburrada. “Agora, me apresente teus amigos, Dominic, e esta tua irmã embonecada. Deus que me perdoe, mas eu estava errada, achei que você era a boneca, mas o mundo vive de me surpreender.”

“Melhor ser uma boneca, do que uma mulher que se fantasia de homem.” Helena cruzou os braços abaixo dos seios, empinando o nariz, já olhando para Nena com antipatia. Também não gostava de ser chamada de boneca, aparentemente. “Eu me chamo Helena e este é James Hawkesworth. Viemos até aqui atrás do Dominic, já que ele foi sequestrado por vocês piratas, mas tínhamos poucos homens e perdemos em combate, no mar. Dominic convenceu-nos a ajudá-los a tomar Chagres.”

“Vocês, ajudando?” Fradique perguntou, matreiro, olhando-os a diversão de quem não acredita nas potencialidades do inimigo. “Ora vamos, sem chances do Santiago ter concordado com isso!”

“O que você está insinuando? Que não valemos nada?” James perguntou sério, avançando um passo para perto de Fradique. O ânimo de James ainda não estava dos melhores, ele não costumava ser tão carrancudo na Inglaterra, mas ficar carrancudo em meio a festas, mulheres e álcool seria algo difícil, diferentemente de agora, preso entre vários piratas debochados...

“Não se exalte, brigar não vai ajudar em nada...” Sussurrei para James, tocando-lhe o braço. “Leve seus homens para as pensões, ou bares. Todos precisamos descansar e comer algo que preste.” Me voltei para Garuda e Jack. “Podem acompanhá-los, mas não se preocupem, eles não irão causar nenhum problema.” Depois olhei para minha irmã. “Você também, Helena, vá descansar. Depois vou conversar com você.”

“Só vou porque estou mesmo exausta, mas não quero perder nada. Preciso que me inteire de todos os fatos, ou irei enlouquecer pela curiosidade.” Helena já avisou e beijou-me o rosto, antes de partir com James, que acabou por acatar minha sugestão depois de trocarmos um olhar de compressão, algo possível apenas entre amigos de longa data.

“Olhe só, alguém aprendeu a dar ordens.” Nena brincou e ficou comigo enquanto o resto se dispersava. Terrence e Katana passaram por nós, juntos, como sempre. Cumprimentaram Nena e Fradique e falaram algo sobre irem beber até cair naquela noite. Já Jaima apareceu com o irmão, perguntando se eu precisava de alguma coisa.

“Estou bem, vá se divertir também.” Falei e ele obedeceu como um cão, seguindo os mesmos rastros dos primos. Nena e Fradique pareceram ambos perplexos com tal cena.

“Vejo que perdemos muita coisa, já que até o imbecil do Jaima passou a gostar de você.” Ela falou, fungando e depois cuspindo no chão. “Também quero ser inteirada de tudo. Vamos, também sou filha de Deus e louca por uma cerveja.”

Segui Nena para o bar da vila, sob o olhar curioso de algumas pessoas pela rua de pedra e areia e nas janelas casas casas simplórias que nos cercavam. A vila nunca deveria ter estado tão movimentada, mas eles não demonstravam medo. Saqueá-los não era nosso objetivo, e os moradores pareciam saber disso.

“Eu preciso te agradecer.” Fradique sussurrou para mim. “Foi por causa do que você falou que fui para o Rosa Negra, e agora estou com a Nena... Eu... Eu sempre gostei dela, desce que a resgatei em Port Royal. Ela era só uma menina na época, e eu um pivete babaca, mas, tudo que eu quis desde aquele momento foi protegê-la.”

Eu sorri.

“Ela não faz o tipo que gosta de proteção.” Ponderei.

“Não. Mas eu posso me iludir, não posso?” Fradique suspirou e passou um braço por meus ombros, abrindo um sorriso leve que mostrava muitos dentes. “Ela é uma garota difícil e independente, e nada romântica, mas é exatamente assim que eu gosto dela, sem tirar nem pôr. Então, obrigado.”

Era bom ter a simpatia de Fradique, ele tinha um jeito leve e descontraído, muito mais ingênuo e maroto que Santiago. Também passei a vê-lo como boa pessoa e, só agora que já sabia da história e ainda o tinha apoiado nos ombros, reparei que ele mancava discretamente a cada passo. Se tornava cada vez mais difícil desgostar daqueles piratas, e só Deus sabia aonde esses apegos iriam me levar.

“Foi sua conquista, eu não tive nada a ver com isso. Talvez apenas com um leve empurrão.” Falei com alguns tapas em um de seus ombros.

“O que vocês estão de cochichos aí atrás? Não fiquem agindo feito duas madames fofoqueiras sem me incluir no assunto.” Nena reclamou, parando no meio do caminho para voltar-se para nós, com as mãos na cintura e a expressão desconfiada. Nesse momento, percebi que havia sentido muitas saudades dela.

Eu e Fradique rimos juntos, o que a deixou ainda mais suspeitada, estreitando os olhos e batendo o pé contra a areia.

XxX

A noite desceu rápida e logo todos os homens pareciam bêbados e alegres, confraternizando – alguns se estranhando – no maior bar da vila, que conseguia acomodar parte dos homens. E não eram poucos. Eu não havia visto Santiago desde que ele saíra com Fajardo, e me desgostava pensar que ele estava aos planos com os outros dois capitães piratas e eu fora deixado de lado, porém todos os outros – Nena, Fradique, Noel e Reno também estavam no bar.

Quando fui encontrar-me com Helena e James, depois de tomar um longo banho na estalagem mais limpa de Laguna, eles insistiram em vir também, e agora eu precisava manter um olho atento em minha irmã, que conversava com Garuda, enquanto James bebia no bar na companhia de alguns ingleses. Eu não gostava nada da maneira com aquele pavão se inclinava para sussurrar no ouvido de Helena.

“Se você está tentando matá-lo com o olhar, Dominic, desista, esse não é o poder do teu anel.” Nena gracejou, emborcando uma grande caneca de cerveja escura.

“Irmão ciumento, e sequer sabe brandir direito uma espada!” Fradique riu, acompanhado dos outros. Reno colocou uma mão sobre meu ombro. Eu bebia minha cerveja sentindo-a descer fervilhando pela garganta, porque era eu que queimava estreitando os olhos quando Helena soltou uma risadinha. Antes, quando tentei separá-los, minha irmã praticamente me chutou de volta para a Inglaterra; era inútil, eu jamais conseguiria controlá-la. Mas talvez se eu matasse aquele pavão...

“Garuda é um bom rapaz, Dominic.” Reno falou, sorrindo.

“Reno, pra vocês todos são bons rapazes!” Noel exclamou, passando um enorme braço pelos ombros do médico, equilibrando-se, pois já estava mais bêbado que um gambá cego. “Reno sempre cuidou bem de nós... Nos mantivemos como boas pessoas por causa dele, ou quase boas pessoas... Ah, que saudades da minha mulher e filho.” Noel soluçou e então fungou, emborcando mais do que deveria – e deveria ser algo forte.

“Você nem ao menos conhece teu filho, ele ainda ‘tá no bucho da tua mulher.” Fradique rebateu, dando um tapa na parte de trás da cabeça do irmão. Noel era praticamente o dobro de Fradique que, empoleirado sobre uma mesa redonda, fazia-a de assento e mantinha Nena entre as pernas. Apesar de não gostar de muitos agarramentos, Nena o usava como encosto, mas dava tapas no braço dele quando ele tentava enlaçá-la pela cintura.

“Mas eu já amo o Pablito!” Noel garantiu, emocionado. Ele era o típico bêbado sentimental; algo bizarro, considerando seu porte de touro.

“Pablito? Mas que porra de nome é esse?” Fradique perguntou, e os dois começaram uma discussão quanto ao nome da futura criança. “Eu sou o tio! Tenho direito a opinar! E minha opinião é que esse nome é lixo!” O mais novo dos irmãos empurrou o nariz de Noel com a ponta do indicador, fazendo Noel tropeçar para trás.

“A la putcha! Eu estava com saudades de tudo isso!” Nena ergueu sua caneca e nós brindamos.

Havia um piano naquele bar, e um dos piratas o tocava horrivelmente. Os homens cantavam canções de bêbados, e alguns dançavam com as mulheres do vilarejo, as quais já pareciam acostumadas aos piratas, algumas com evidente jeito de que se deitariam com vários deles mais tarde.

Helena se aproximou de mim com as bochechas afogueadas.

“Dominic! Por que não toca no piano? Você toca tão bem, irá animar muito mais a festa e... AAAH!” Ela se sobressaltou e gritou de repente, assustando-me também. Gritou tão alto que vários piratas pararam a cantoria apenas para observá-la. Ela subiu na cadeira mais próxima, e foi então que vi uma ratazana no chão. “Esse bicho asqueroso tentou subir pela minha perna!” Exclamou, histérica. Até eu fiz careta de nojo para a grande ratazana, de pelos marrons e focinho longo como o rabo, que agora tentava subir pelas pernas da cadeira até minha irmã. “Dominic, faça alguma coisa!!!” Os piratas riam da cena, e eu – um péssimo irmão – levei uma mão à boca, tentando disfarçar uma risadinha.

“Díos!” Nena falou, enfadada, e se aproximou. Para choque de Helena – mas de mais ninguém naquele bar – agarrou a ratazana pelo pescoço, erguendo-a do chão. “Não diga que está com medo dessa pequena e adorável criaturinha? Veja, ela gostou de você!” A bucaneira exclamou, sacudindo a ratazana no ar perto do rosto de minha irmã, o bicho soltando inúmeros ‘hic, hic, hic!’.

Helena empalideceu junto com outro grito e caiu para trás.

Eu me aproximei, para segurá-la, mas Garuda foi mais rápido e a amparou antes que ela fosse ao chão. Helena na verdade pareceu bastante satisfeita ao, de olhos entreabertos, passar um braço pelos ombros do contramestre. Nena gargalhava junto com outros. Achei que seria o momento ideal para matar Garuda, e o encarei de tal maneira, que ele chegou a parecer desconfortável, antes de abrir um sorrisinho amarelo.

"Não se preocupe, cuidarei bem dela." Disse, com o sutil ar debochado que me fazia lembrar que era primo de Santiago.

"Ora, seu..." Tentei avançar, mas meu plano de matá-lo se perdeu quando pulei de susto ao sentir o nariz da ratazana roçar em meu rosto. Uma exclamação de nojo escapou de minha garganta e eu tentei limpar rapidamente minha bochecha.

“Mas tu é mesmo irmão da tua irmã, Dominic!” Nena exclamou, ainda tentando fazer aquele animalzinho fedido dar-me um beijo. Eu me afastei, enjoado. Nena ria tanto que acabou vermelha, e a situação de muitos piratas não era diferente. A bebida os deixava com risadas fáceis.

“O que você quer dizer com isso?” Perguntei, irritado. “E solte esse bicho longe daqui, por Deus!”

Nena deu de ombros e seguiu para fora do bar, para soltar a ratazana. Eu teria voltado minha atenção novamente para Helena, mas Noel segurou meus ombros e me virou, empurrando-me em direção ao piano, fazendo-nos quase atropelar vários piratas pelo curto caminho até o instrumento.

“Toque, Dominic! Toque uma canção; eu e Fradique iremos cantar!” Ele garantiu. Noel agarrou a gola do homem que tocava e ergueu-o do banco facilmente, tirando-o dali como se se livrasse de um saco de piolhos, e forçou-me a sentar no banquinho agora vazio.

Eu não sabia o que diabos tocar, então peguei um caneco com rum que me foi oferecido por Jaima, bebi-o inteiro sob o som de aplausos e, com a cabeça girando pela súbita quantidade de álcool juntando-se ao que já circulava por meu corpo, comecei a tocar a música mais animada que conhecia.

Fradique correu para o lado do irmão, e eles passaram um braço pelos ombros um do outro. E realmente começaram a cantar:

Nós estamos todos bêbados
Bêbados de cair
E todos que não estiverem bêbados
Dêem o fora daqui

Olhei para cima do ombro e comecei a rir. Aqueles dois diabos até que cantavam bem para uma dupla de bêbados, e outros piratas ainda começaram a acompanhar, enquanto meus dedos moviam-se pelo piano, procurando o melhor ritmo para aquelas palavras. Havia alguns homens com gaitas de fole ou não, bandolins e sanfonas, o que criava uma cacofonia estranhamente sincronizada e animada.

Lançava-se ao mar,
o comandante Nobrum
Passava o dia no barco pescando
mas nunca nos trouxe um atum
Tanta sabedoria e prática além do comum
Dizem que se atribuía
a várias garrafas de rum

Vi Nena voltando para dentro do bar e correndo até Fradique. Tive de rir ao vê-la começar a dançar risonha com o novo amante, e Fradique foi até mesmo capaz de roubar-lhe um beijo, sem receber um safanão em retorno. Reno batia palmas, observando de longe, com uma suave alegria, mesmo que a melancolia, sua constante companheira, ainda não o deixasse de todo. Terrence dançava com uma moça do vilarejo, e Katana apenas observava, sorrindo e batendo palmas também em companhia de outros piratas do Labareda.

Somos amigos em terra
Somos amigos no mar
Juntos fomos à guerra
Juntos estamos no bar

Nós estamos todos bêbados
Bêbados de cair
E todos que não estiverem bêbados
Dêem o fora daqui

Bem neste momento, vi Santiago entrando no bar junto com dois outros homens. Os três tinham expressões sérias, e a letra da canção parecia mandá-los embora, pois não estavam bêbados. A cantoria não parou pela entrada deles, e tampouco eles pareciam interessados em chamar atenção. Um dos homens com Santiago era Fajardo, outro touro que conseguia ser ainda mais musculoso que Noel, porém mais baixo e entroncado. Já o outro eu não conhecia – era um rapaz novo, o que me surpreendeu. Tinha cabelos que desciam abaixo dos ombros, cinzentos, mas estavam amarrados frouxamente, restando a franja para tapar-lhe a testa. Era de estatura mediana, feições miúdas, e usava um tapa-olho no lado direito. Não passava de um rapazote de um único olho azul, mas caminhava com confiança e seu olhar não possuía nada de infantil, ou ingênuo. Sua expressão era de alguém capaz de matar com grande facilidade; alguém que não guardaria remorso, pena ou compaixão.

Este deveria ser Emanuel.

O açougueiro sem dedo
que trabalhava no cais
Passava o dia fazendo piada
da falta que o dedo lhe faz
Dizia com riso amarelo: "Ouça bem meu rapaz,
Ao trabalhar com o cutelo nunca beba demais"

Somos amigos em terra
Somos amigos no mar
Juntos fomos à guerra
Juntos estamos no bar

Nós
Estamos todos bêbados
Bêbados de cair
E todos que não estiverem bêbados
Dêem o fora daqui

Continuei tocando, a despeito da estranha vontade de me levantar e ir até Santiago. Minha cabeça girava, pois sempre que podia bebia mais um gole de rum, e sentia que poderia caminhar em nuvens se tentasse. A música entrava por meus ouvidos e parecia vibrar meus tímpanos a ponto de estremecer meu cérebro. Eu ria junto com aqueles piratas bêbados, tinha vontade de erguer-me e dançar também, e meus dedos moviam-se por vontade própria, criando as notas da música de forma inconsciente, pois eu já nem sabia muito bem o que fazia; porém, por sorte não errava nenhuma tecla. O meu lado ainda não afetado pelo álcool pensou que eu deveria ter comido mais do que três pequenos pedaços de queijo antes de me entupir de cerveja e rum.

Marquade alimentava as caldeiras do velho vapor
A despeito do vento, sufocava o calor
O teto de ferro fundido, sol direto na chapa
Tudo já resolvido com duas garrafas de grapa.

Somos amigos em terra
Somos amigos no mar
Juntos fomos à guerra
Juntos estamos no bar

Senti alguém se aproximar de mim, inclinando-se para falar:

“Você deveria ir descansar, Dominic. Você sabe como fica quando bebe demais, torna-se pior do que uma criança.” Era a voz de James, mas eu mal a compreendia. Balancei teimosamente a cabeça e continuei tocando, tocando mais lentamente para acompanhar o ritmo preguiçoso dos bandolins quando a música parou e apenas Noel cantou roucamente.

Nós
Estamos todos bêbados
Bêbados de cair
E todos que não estiverem bêbados
Dêem o fora daqui

Bêbados de cair
E todos que não estiverem bêbados
Dêem o fora daqui

O final retornou animado e eu toquei até explodir em gargalhadas junto com os outros. Queria tocar mais, gostava de tocar, e estendi a mão para pegar o caneco sobre o piano, mas James me impediu, com um suspiro.

“Dominic, você já bebeu demais.” Ele tentou dizer, mas então foi afastado de súbito. Olhei para trás, e vi que agora era Santiago que estava ali.

“Pode deixar que eu cuido dele.” Falou, empurrando James. Meu amigo teria avançado para cima dele feito uma fera selvagem, mas eu me ergui, tentando impedir. O que consegui foi sentir uma tontura horrível, e precisei ser amparado por Santiago.

“Vou ficar bem, James. Vá se divertir também.” Falei debilmente; porém não me sentia mal a ponto de vomitar, ou algo que o valha. Só era um perigo levantar-se rápido demais, de resto eu estava bem, apenas mais alegre. Ao menos eu assim achava.

“Está me mandando embora?” James perguntou, ressentindo. Pisquei, não compreendendo sua expressão magoada. Era verdade que ele sempre havia sido a pessoa a cuidar-me quando eu bebia demais, mas eu ainda estava bem! Não queria ir descansar, dormir... Queria tocar mais, ou dançar.

“Eu-“ Tentei falar, mas ele deu-me as costas e saiu daquele lugar com passos impacientes, e uma aura negra pairando ao seu redor. Tentei segui-lo, mas Santiago impediu-me.

“Deixe-o. Ele precisa entender que você tem outra vida agora. E... Outra pessoa.” Abraçou-me por trás.

“Mas-“

“Você toca muito bem, estou impressionado. Mas agora irei te monopolizar um pouco.” Santiago não me deu ouvidos e foi até o bar, levando-me junto. Sentou-se num dos banquinhos altos e conseguiu também um caneco com rum. Muito daquele rum era proveniente dos próprios navios. Nenhum pirata viajava sem seus preciosos barris de rum, líquido mais sagrado do que a água.

Santiago bebeu e me enlaçou pela cintura, olhando dentro de meus olhos.

“Conversei com Fajardo e Emanuel. Amanhã discutiremos o teu plano, e planejaremos todos os detalhes. Foi difícil convencê-los a cogitar a hipótese de usar ingleses, eles não acreditam que ingleses trairiam ingleses, e eu espero que eu não esteja errado em confiar nos teus amigos.” Falou seriamente, e eu desejei não estar tão bêbado, pois o que prendeu mais minha atenção foi o movimento de seus lábios.

“Mas vai dar certo... Eu vi naquele sonho, lembra? Foi o que me deu a ideia pro plano. No sonho estávamos em Chagres e havia oficiais ingleses nos ajudando. Você acha que foi uma premonição?” Perguntei me apoiando mais a ele, com os braços ao redor de seus ombros. Minha cabeça latejava ligeiramente, deixando-me leve como uma pluma.

“É Nena quem tem as visões por aqui, não é?” Ele perguntou, retórico. “Não seria bom se fosse uma premonição, já que no sonho Chagres estavam em chamas, e tudo era uma grande confusão. Não quero que Chagres queime. Emanuel quer tomar o forte para si, e o lugar acabar destruído não iria agradá-lo.”

“Emanuel era aquele pivete cabeludo?” Perguntei, sem me importar de estar nos braços dele na frente de tantos. Algo me dizia que eu estava esquecendo algo importante, algo relativo a um certo pavão, mas não conseguia lembrar com exatidão.

Santiago riu, abraçando-me com mais força com um dos braços.

“Olha quem fala. Um pivete de dezoito anos, com cabelos que quase alcançam a cintura.” Disse antes de terminar o rum e pedir por mais. “Aquele era Emanuel, sim. Ele tem minha idade, apesar de aparentar ter menos que você.”

“Isso é ridículo, ele é um boneca. Eu não. Ele é mais boneca do que eu. Por que não chamam a ele de boneca?” Falei, engrolando as palavras. Precisava falar alto para ouvir minha própria voz, pois uma nova música reiniciara, e os piratas continuavam com as gargalhadas, conversas e berros.

“Porque ele já matou mais homens do que você pode contar; encheu o fundo do mar com tantos navios quanto há conchas nas praias, e além de tudo é sádico, aprecia a morte e a tortura. Chamam-no de Víbora Cinzenta, pelos cabelos, ou Demônio Branco, pois gosta de matar com armas brancas. É bom que não se aproxime demais dele, e tente não irritá-lo amanhã. Não é hora de cultivar inimigos.” Santiago alertou, acariciando a lateral de minha cintura. Eu me inclinei para perto dele com um sorriso sarcástico, podendo notar a barba que lhe escurecia o rosto atraente e amorenado.

“Tem medo dele?” Provoquei. “O grande capitão Santiago com medo de um homem com cara de menino... Ele deve ser melhor que você, pois não lembro de você ter algum nome especial. O que seria, Santiago, o prepotente? Ou Santiago, o arrogante? Santi, o Lobo do Mar?” Impliquei. "Ah, sim, é o Terror dos Mares!" Fingi um som de medo.

Santiago não deu atenção para minhas provocações emborrachadas.

“Não tenho medo dele, mas não preciso de mais inimigos, ainda mais um inimigo forte. Preciso de aliados, se algum dia eu quiser destruir Aguirre, precisarei de muitos. E vencer Chagres ao lado de Fajardo e Emanuel é um começo. Lutar e ter vitórias ao lado de alguém cria um vínculo, e depois-“ Santiago calou-se quando coloquei dois dedos sobre seus lábios, e depois o troquei pelos meus lábios, roçando-os suavemente nos dele.

“Está se preocupando demais, e não é momento para isso.” Falei numa espécie de sussurro, mas sabia que ele conseguia me escutar. “Está mais cheiroso...” Percebi, satisfeito.

“Tomei um banho.”

“Você?” Eu ri. Era difícil manter a higiene quando se vivia tantos dias em um navio, e eu já quase começava a me acostumar com aquele cheiro fétido e suado, junto à maresia, que permeava os deques do Labareda. Ninguém conseguia ficar exatamente cheiroso com o passar dos dias, mas agora Santiago cheirava a sabonete e um aroma natural de couro, depois de banhar-se.

“Sei que gosta de coisas limpas...” Ele admitiu, tentando beijar-me, mas eu me afastei ligeiramente, apenas para impedi-lo de tomar-me a boca.

“Vamos sair daqui. Vamos para o Labareda.” Decidi, de repente querendo estar a sós com ele.

Santiago ergueu as sobrancelhas, abrindo um sorriso curioso.

“Para o Labareda?” Perguntou agora usando as duas mãos para acariciar minha cintura, seu rosto adquirindo um aspecto malicioso. Me abracei mais forte a ele, ronronando, e deixei meus lábios roçarem de seus lábios até sua orelha, para sussurrar:

“Quero transar com você hoje.”

Notas finais
Eu sei me mereço uns tapas, mas achei que ficaria ruim um capítulo ginorme (com mais de dez mil palavras, destoando dos outros da história), cansativo, mesmo com o lemon. Aí resolvi dedicar o próximo cap. exclusivamente para os momentos de amor e sexo entre Dominic e Santiago. Perdão? *apanha*Obrigada a todos que comentaram! Não vou colocar todos os nomes aqui, porque, deus, tenho de ir logo continuar a escrever minha monografia. :( Adoro-os! E até o próximo! (tentarei escrever no feriado). Beijão! ;*