Mar De Fogo
25 Fracasso
Notas iniciais
Quando acordei, a noite já ia alta, e a janela aberta manchava-se do céu negro e estrelado. Pisquei sentindo as pálpebras pesadas e dormentes e demorei um pouco a entender onde eu estava. Soltei um grito abafado ao perceber que havia alguém no quarto escuro, em pé próximo da cama, olhando-me fixa e curiosamente. O intruso apenas arregalou os olhos enquanto eu levava minha mão a meu peito, tentando acalmar as batidas de meu coração, pois se tratava apenas de uma criança.
Suja e feia, mas uma criança.
“O que quer?” Perguntei baixo, sem o mínimo tato. Eu não levava jeito com crianças, estava acostumado a simplesmente dar-lhes algumas moedas para que me deixassem em paz, mas agora eu não possuía nenhum dinheiro comigo. A criança, um menino de cabelos castanho repicados e olhos de cor similar, pelo pouco que eu conseguia perceber à luz da lua, ergueu um tablado com comida, depositando-o sobre a cama; depois acendeu a lamparina nova que havia trazido com ele, colocando-a na cômoda onde estivera a outra.
Envergonhei-me ao lembrar meu acesso de raiva.
“Trouxe seu jantar, mas não sabia se podia acordá-lo. O homem grande mandou trazer.” Ele murmurou nervoso, mordendo fervorosamente os lábios. Perguntei-me se o ‘homem grande’ seria o Santiago, apesar de tal denominação fazer-me pensar mais em Noel. “Você é pirata também?” Ele perguntou quando puxei o tablado para perto, sentindo minhas narinas dilatarem pelo cheiro da comida simples. Em outra situação, eu jamais comeria nada daquilo, de odores fortes de gordura e alho, porém meu estômago rapidamente começou a resmungar insatisfeito pelo tempo sem alimento.
A pergunta do garoto me fez parar por um momento. Eu era um pirata? Ou apenas um raptado com quem Santiago se divertia, e que supostamente o ajudaria? Um babaca com um anel, que estava aceitando tudo tão facilmente por achar que era seu destino? Talvez fosse por causa de James e Helena, talvez pela proximidade do ataque a Chagres, ou mesmo devido à doença de Katana, mas eu me sentia confuso e amedrontado, duvidando de minhas decisões, visto que estas nunca haviam sido as mais acertadas, ou sensatas desde que posso recordar.
E eu havia tido pesadelos outra maldita vez, com muito fogo e palavras desconexas, ameaças e desculpas misturando-se num frenesi sem sentido. Percebi que havia banhado minhas roupas em suor e desejei por um banho quente, mas, por hora, apenas me limitei a colocar alguma comida no estômago. Estava quente, e não era de tão ruim. Sentia-me mais disposto apenas com o cheiro inebriantemente forte e pastoso. O garoto, de braços franzinos e pequeno nariz sardento, aguardava pacientemente por alguma resposta.
“Qual o seu nome?” Perguntei-lhe, no lugar de responder. Ajeitei-me na cama e enchi bem minha boca de comida, evitando falar muito. Cheguei a suspeitar que o garoto fosse um enviado do Santiago, e que depois iria contar ao capitão qual fora minha resposta sobre ser ou não um pirata. Eu devo estar ficando paranoico, suprimi um sorriso repuxado pelo desgosto.
“É Carlisle! Eu não gosto, dizem que parece de menina, mas minha mãe sempre quis colocar esse nome no primeiro filho, fosse menino, ou menina.” Ele declarou com pesar, e ajoelhou-se no chão para apoiar os antebraços no colchão, o queixo descansado entre eles. “Você tem cabelos estranhos.”
“Já ouvi isso algumas vezes.” Revirei os olhos. “Por que quer saber se sou mesmo um pirata?”
Carlisle hesitou, olhando para os lados e por cima do ombro, como se com medo que alguém o escutasse, apesar de estarmos apenas nós dois ali. Ele se debruçou um pouco mais sobre a cama, conspiratório, e eu por reflexo aproximei-me também dele. Seus lábios mal pareceram se mover quando disse:
“Porque também quero ser um.” Seu tom soou-me tanto nervoso, quanto excitado, como seria o de qualquer criança esperando iniciar uma grande aventura. Eu suprimi uma gargalhada, e ele me encarou com ares de ofensa enquanto erguia a cabeça e suas bochechas tornavam-se avermelhadas. “O que há de engraçado?”
“Quantos anos você tem?” Eu o olhei tentando adivinhar, mas também nunca reparei em crianças e suas respectivas idades. Eu lhe daria uns sete anos, tão mirrado era, mas ele me surpreendeu.
“Tenho onze anos!” Ergueu-se, talvez querendo mostrar que não era tão pequeno, o que não lhe ajudou muito. Ele e uma pulga poderiam habitar o mesmo cachorro. Meu olhar descrente fez com que ele se empertigasse ainda mais. “É verdade!” Exclamou e imediatamente se encolheu todo, olhando novamente para a porta.
“Do que tem tanto medo?” Perguntei com curiosidade, colocando mais uma colherada da sopa graúda em minha boca enquanto meus olhos perscrutavam também a porta, antes de voltar para ele. Suas roupas eram marrons e cinzentas, basicamente uma camiseta suja e encardida, e uma calça já um tanto rasgada. Ele esfregou uma das mãos na bochecha magra.
“Se meu tio escutar... Ele vai me bater de novo. Ele sempre se irrita por qualquer coisa... E-Eu fico com medo. Queria ir embora para não sentir mais medo.” Abaixou o olhar, voltando a se ajoelhar. De repente estava tão acuado que eu senti meu peito apertar. Não aguentava pessoas que batiam em crianças; xingá-las, repreendê-las, isso não me afetava, porém surrá-las era desumano.
“E você acha que não irá sentir mais medo se for um pirata?” Perguntei erguendo uma sobrancelha e batendo uma mão no colchão, indicando que ele subisse ali. Um largo e inocente sorriso iluminou o rosto de Carlisle, e ele pulou para o colchão, acomodando-se abusadamente a mim. Olhou-me cheio de convicção em seus olhos castanhos.
“Sim! Piratas são corajosos e destemidos, enfrentam os sete mares e suas sereias comedoras de gente, suas serpentes marinhas e polvos gigantes, e ainda ganham das tempestades e suas ondas enormes!” Ele anunciou aumentando paulatinamente o tom, deixando-se levar pela imaginação. Eu não podia discordar de todo, ainda que eu preferisse não encontrar serpentes marinhas ou polvos gigantes, e tampouco descobrir que algumas das sereias que eu salvava poderiam me devorar no jantar.
“Ser corajoso e destemido não necessariamente quer dizer que não exista medo. Pelo contrário, é preciso sentir medo para ser verdadeiramente corajoso.” Eu expliquei, era algo que eu havia entendido desde aquela tempestade. Ela me ensinara apenas uma coisa: eu jamais iria tentar ser corajoso novamente. Mas Carlisle me encarou sem entender, os lábios entreabertos, trêmulos, antes de concordar freneticamente com a cabeça.
“Entendi!” Ele assegurou inocente. Eu tinha certeza de que ele não entendia um pingo do que eu estava falando. Suspirei e comi um pouco mais de minha sopa. “Então, você me levará junto?”
Eu praticamente me engasguei com o líquido espesso e quente, e tossi aturdido. Eu gostaria de saber da onde crianças tiravam tais ideias. Até mesmo polvos gigantes seriam mais verossímeis que tal sandice. Eu o encarei, pronto para lhe negar veementemente, mas seu olhar brilhoso e expectante, repleto de esperanças, me impediu. Maldição, por que eu tinha de ser tão coração mole? Se eu tivesse dinheiro, apenas daria um punhado a ele e me sentiria melhor comigo mesmo.
“Carl-“ Comecei a falar, mas a porta escancarou naquele exatamente momento, sobressaltando a nós dois. Não sei como Carlisle fez, mas, no segundo seguinte, ele já havia escapulido para fora do quarto, sem que o Santiago sequer houvesse prestado muita atenção à sua presença.
“O que houve?” Eu perguntei acidamente, não querendo dar-lhe papo, mas notei que havia algo de errado quando ele caminhou a passos largos e pesados até mim. Larguei meu prato de sopa antes que ele me segurasse pelo antebraço e me arrancasse da cama sem cerimônias.
“Melhor você vir. Katana está vomitando sangue... Reno e o outro médico dizem que ele provavelmente não aguentará muito mais.”
Eu não precisei de nenhuma outra palavra.
Descemos para encontrar um clima ainda pior do que aquele que eu lembrava. Um ar fúnebre enchia o ambiente, como um tóxico, dilatando as narinas e contaminando os pulmões. Minha boca amargou e eu desejei, mais do que nunca, não estar envolvido nem nada disso.
“Por favor, Dominic, me diga que irá salvá-lo. Você é minha última esperança, não o deixe morrer. Não o deixe...” Foi o que Terrence me implorou assim que entramos na casa abafada. Ele caiu de joelhos, repleto de lágrimas, segurando as laterais de minhas pernas para se impedir de ir completamente ao chão.
Minha garganta travou. O que eu poderia prometer? O que eu poderia fazer? Por que aquele anel filho da puta me escolhera, se não me ajudava a fazê-lo funcionar? Um medo desolador me tomou os músculos, e eu por pouco não caí assim como ele. Coloquei uma mão em seu ombro, não sei se para confortá-lo, ou para me equilibrar. Provavelmente ambos.
“Não vou deixar.” Eu disse estupidamente, com uma confiança que não era real, nascida da tolice da esperança e reforçada na arrogância de que a morte jamais alcançará aqueles próximos de nós; aqueles que não desejamos perder.
Tentei parecer forte, porém mais do que nunca eu me sentia uma piada.
XxxX
Não havia nada que pudesse descrever aquilo – os últimos minutos de um moribundo. Pois era com isso que Katana parecia. Pálido, trêmulo, ganindo e vomitando sangue, eu não tive dúvidas que ele não sobreviveria à próxima hora. Minhas mãos estavam sujas daquele vermelho apático, de aspecto doente e fedorento, enquanto eu tentava concentrar-me para curar o que ele tinha. Mas ninguém sabia, ninguém entendia. Tanto Reno quanto Perec pareciam chocados, todas suas experiências como médicos não explicavam aquele quadro súbito e irreversível que evoluía para um fim tão rápido...
O fim.
Eu também tremia, não tanto quanto Katana, mas percebi que chorava como uma criança quando Santiago me afastou do corpo.
O corpo.
Porque Katana já havia morrido há alguns minutos, mas eu continuara tentando ajudá-lo. Eu havia lhe trazido algum alívio? Algum consolo? Por que eu sentia a energia em mim, mas não conseguia entregá-la a ele? Era minha culpa? Eu não pude ajudá-lo. Simplesmente não pude. Eu queria, mas ele estava morto, e eu não conseguia refrear os soluços. Aquilo estava errado. Por que eu tinha de falhar? Por que Terrence tinha de perder seu amado primo?
Por quê?
Por quê?
Santiago apertou-me gentilmente contra seu corpo.
“Eu sei. Nós sabemos.” Ele sussurrou. Eu estava murmurando meus pensamentos em voz alta. Algo estava errado comigo, pois eu me sentia num sonho – pesadelo? – e não conseguia acordar, mesmo sabendo o quanto aquilo era ferrado e podre. Minha cabeça estava leve e extremamente pesada ao mesmo tempo, e eu já não sabia identificar meu próprio corpo, minhas reações, como se minha alma estivesse longe e perdida nas brumas brancas do mar.
Eu sabia apenas de uma coisa: nem todos sabiam.
Quando encontrei forças para erguer meus olhos embasados pelas lágrimas, encontrei os de Terrence, muito mais inchados e sofridos que os meus. Ele olhou-me, repleto de ressentimento e milhares de outros sentimentos que eu, no estado em que me encontrava, jamais poderia decifrar. Terrence deu às costas a todos nós e seguiu para a rua, talvez buscando o ar livre. A atmosfera era intolerável ali dentro – o cheiro de sangue, vômito, doença e morte nauseariam qualquer um, mesmo o mais forte dos homens.
Santiago segurou meus cabelos quando me dobrei em direção ao chão e vomitei toda a sopa que havia tomado não havia muito. Eu não sabia lidar com aquilo, não sabia lidar com a morte. Por Deus, até pouquíssimo tempo atrás Terrence e Katana estavam juntos rindo e debochando de mim, para depois dar-me tapinhas nas costas amenizando as brincadeiras. Terrence e Katana haviam me salvado de perder a língua e ser jogado ao mar. Já perdi a conta de quantas vezes me xingaram e eu os xinguei de volta, irritado, ainda que internamente satisfeito por ter aquele tipo torto de amigos entre a tripulação.
Isso era passado agora, lembranças que nunca se repetiriam, e entender isso doía como uma boa surra.
Apertando meu peito para aliviar a dor, fui levado para fora; todos queriam um pouco de ar.
“Eu nunca vi algo assim.” Reno sussurrou, mais para si mesmo. “Ele parecia amaldiçoado.”
“Não seja ridículo.” Perec cuspiu com raiva. Não parecia contente de ter perdido um paciente, seu ego estava dolorosamente ferido. Eu o xinguei internamente, com uma raiva que surgia mais pela situação do que por causa dele. “Maldições não existem. E foi um erro perder tempo deixando esse menino tentar salvá-lo. Poder de cura? Bobagens! Eu não vi nada, porque não havia nada. Um médico não pode entregar um problema a magias e superstições...” Ele falou como o dono da verdade que achava que era.
“Você viveu muito tempo no velho mundo. Aqui, nesses lugares distantes e perdidos, as coisas funcionam de maneira diferente.” Reno explicou suavemente. Estava visivelmente abatido, mas continuaria a não perder a calma. “É melhor entender isso logo.”
“Vou levar o Dominic para o quarto. Ele não está bem...” Santiago suspirou cansado, e eu tive vontade de xingá-lo por falar como se eu não estivesse ali. Por mais que meu olhar estivesse vidrado no porto, onde Terrence agora gritava para o mar, xingando todos os deuses que pudesse lembrar, eu ainda conseguia escutar o que diziam. Também percebia os olhares de algumas pessoas das janelas, alguns pelas ruas, os cochichos do vento, a passagem fria da morte.
Estremeci fracamente.
Em breve, a notícia da morte misteriosa de Katana se espalharia e a ideia de que uma maldição se abatera sobre ele não seria tão facilmente rejeitada assim como Perec a havia rejeitado. Eu empurrei Santiago para longe de mim quando ele tentou dar-me apoio, ou pegar-me no colo, eu não tinha certeza. Caminhei de volta para dentro da casa, encontrando o corpo pálido e inerte de Katana sobre o mesmo catre ensanguentado. Ajoelhei-me ao lado dele e o olhei, por alguns minutos.
“Desculpe-me.” Pedi e coloquei uma mão sobre sua testa. Quase todo o calor já se esvaíra, e aqueles olhos não mais abririam. Ele estava livre da dor que sentira em seus últimos momentos. “E-Eu sinto tanto...” Gaguejei com um novo soluço de choro. “Eu prometo que irei descobrir por que não pude te ajudar. P-Prometo que nunca mais deixarei ninguém morrer porque fui incapaz de entender como o poder desse anel funciona.” Fechei os olhos, suspirando para tentar me acalmar. “Terrence sentirá sua falta...”
Não tardei a desmaiar pelo esgotamento de todas as minhas forças, mas pude sentir o calor dos braços do Santiago antes que eu alcançasse o chão. Já no quarto, alguma consciência retornou a mim quando senti as mãos ásperas dele trocando minhas roupas e limpando com um pano úmido o sangue em minhas mãos e braços. Senti uma necessidade irrefreável de que ele deitasse ali comigo e me abraçasse noite adentro.
“Irá sentir falta dele?” Perguntei em um sussurro.
Santiago não demonstrou surpresa por eu estar acordado.
“Sim. Era um garoto confiável e corajoso, nunca o vi reclamar ou arranjar brigas desnecessárias.” Santiago admitiu, ainda limpando minhas mãos. A cada vez ele me surpreendia em como conseguia ser gentil em alguns momentos... Para se tornar um completo ogro idiota em outros. Isso me deixava completamente sem ideia de como deveria agir perto dele dali em diante.
Antes era fácil rejeitá-lo e dizer que o odiava, parecer forte e destemido, irritado e superior, próximo dele. Mas e agora?
Nossa relação havia mudado, não havia mais volta. Mas eu não sabia o que fazer quanto a isso. Talvez jamais viesse a entender o que éramos, o que compartilhávamos e o que nos esperava.
“E por que não se importou quando matei Paco?”
“É como eu disse... Paco tinha um passado negro. Ele também me fazia recordar um dos erros que cometi no passado. Nena o queria fora do navio há muito tempo... Não era alguém que faria falta.” Ele explicou pacientemente, seus olhos longe dos meus.
“O erro que fez Nena sair do Labareda por dois anos.” Eu mais afirmei do que perguntei, e demorou algum tempo até que Santiago concordasse com um leve movimento da cabeça. “Nunca irá me contar sobre isso?”
Santiago suspirou e manteve-se calado, sentando-se de costas para mim. Eu não tinha ânimo para insistir, pelo contrário, depois de um tempo considerei que ele jamais me contaria e comecei a me deixar levar pelo sono. Foi quando ele retomou a palavra, quebrando o silêncio com sua voz grave e forte que sempre roubava toda minha atenção. Seus ombros pareciam os de um homem derrotado.
“Há alguns anos, nós fomos capazes de interceptar um dos navios de Aguirre. Achávamos que o encontraríamos ali, mas estávamos errados. Quem encontramos foi a irmã dele, uma moça de 25 anos chamada Mallory. Era uma moça muito bonita e ainda assim de uma aura extremamente deprimente e... perversa. Na época, os rumores sobre o amor incestuoso e obsessivo de Aguirre por Mallory rondavam todas as pequenas cidades pelas quais passávamos.” Desejei poder ver o rosto de Santiago enquanto me contava, mas de certa maneira eu sabia que devia estar sendo difícil para ele me contar, o que dirá olhar-me nos olhos. “Nena viu em Mallory a oportunidade perfeita para uma troca. A amada irmã de Aguirre, por sua própria irmã, que detém a posse do anel das previsões. Teria sido um bom plano, se eu não estivesse cego pelo meu desejo de vingança. Aguirre havia estuprado e torturado minha irmã, e a entregado para que outros fizessem o mesmo, enquanto eu e meus irmãos assistíamos.” Um breve silêncio aumentou o peso do relato, enquanto todo o corpo de Santiago parecia tornar-se a fonte da tensão expectante do quarto.
E sua frase subsequente foi tão impactante quanto eu já esperava, com minha respiração em suspenso.
“Eu dei à irmã dele o mesmo destino.”
Engoli a saliva pastosa de gosto desagradável em minha boca antes mesmo que Santiago continuasse, entendendo perfeitamente onde aquilo terminava. Meu estômago revirou novamente, mas não havia mais nada que eu pudesse vomitar. O tom de Santiago tornou-se negro, numa mistura insólita de arrependimento, e a certeza de que não poderia ter sido diferente, de que Aguirre merecera aquela punição. Mesmo que às custas de um inocente.
“Eu... tentei estuprá-la, Dominic, mesmo que isso não me desse nenhum prazer; eu a machuquei e depois a entreguei para os marujos. Mallory ficou em posse de Paco por semanas. Eu pretendia entregá-la de volta a Aguirre naquele estado deplorável, para que ele visse e sentisse tudo que eu havia sentido. Não havia piedade em mim, nem mesmo com as atrocidades que todos sabiam que Paco a fazia passar... Os berros e súplicas dela tornaram-se parte do navio naqueles dias, e as noites eram duras para encontrar o sono.”
Meu olhar estava pregado no teto quando Santiago se calou. Eu havia voltado a chorar, mas as lágrimas eram silenciosas. Eu não conseguia encará-lo, havia repulsa em mim, enquanto uma voz irônica me perguntava o que diabos eu esperava de piratas? Eles matavam e torturavam, e não havia dúvida que muitos deles já haviam estuprado moças inocentes. Eram bandidos, ladrões do mar, muitos não tinham escrúpulos e viam a morte como uma parceira de longa data, um acontecimento corriqueiro.
“Antes que eu a entregasse de volta, com a troca que Nena insistia para que fizéssemos, Mallory atirou-se do navio, já louca... Berrava amaldiçoando a todos nós. Nunca encontramos seu corpo. Depois disso, Nena deixou o navio, magoada por ter perdido a chance de salvar a irmã, e enojada com a forma com que Mallory fora tratada.”
Virei-me para o lado da janela, apertando minha barriga, e pude ouvir a cama ranger quando Santiago moveu-se sobre ela.
“Dominic-“ Tentou tocar-me os cabelos.
“Saia, por favor.” Eu pedi, simplesmente apático.
Santiago não insistiu, e logo escutei seus passos e o barulho de porta fechando.
XxxX
O dia parecia perfeito para voltar ao mar. Os homens andavam de um lado para o outro, arrumando a carga. A maioria parecia feliz por deixar Laguna. Muitos haviam culpado o lugar, chamando-o de amaldiçoado depois que souberam sobre Katana, e temiam que, se continuássemos ali por muito mais tempo, outros começariam a sofrer e morrer do mesmo mal. Os berros pelo cais, anunciando a partida, eram vibrantes e misturavam-se aos sons das gaivotas.
“Então é isso.” James parou ao meu lado, colocando uma mão sobre meu ombro. “Espero que não esqueça a conversa que tivemos ontem.”
Não fui capaz de responder. Katana morrera há três dias. No dia seguinte, eu fiquei todo o tempo na cama, recuperando as forças e me alimentando o máximo que podia. Cheguei a tomar um banho, a melhor decisão de minha vida. Já no dia anterior, eu e James caminhamos juntos até o rio próximo do vilarejo, onde eu havia flagrado Garuda e Helena aos chamegos. Onde Terrence me interceptara. O lugar continuava bonito, a natureza inabalável frente as desgraças humanas.
Contei tudo a James. Desde o princípio e em detalhes, como ele merecia. Não um recorde mal explicado de como havia acabado ali, daquele jeito. James demorou a acreditar, mas quando cortei meu braço e o curei com o anel, ele arregalou os olhos e compreendeu que eu não mentia, que as coisas que escutara de outras pessoas não eram ladainhas de gente ignorante e supersticiosa. Isso apenas o deixou com um desejo ainda maior de me levar embora do Caribe, para longe de tudo que era inexplicável e inacreditável, como a magia que eu carregava.
Sua conclusão ao final do relato foi simplória, como esperado de alguém tão leal como ele.
“Não importa quanto tempo dure. Eu vou te tirar daqui e te entregar em segurança para seu pai em Londres. Nós vamos esquecer esse lugar.” Ele se aproximou de mim, segurando meu rosto para desviar minha visão do rio. “Não vou aguentar se alguma coisa ruim acontecer com você.”
“James, eu não-“
Ele me beijou. Era um beijo com gosto de desespero e medo, perturbação e desejo. Onde estavam minhas forças para resistir? Era ridículo o quanto tê-lo perto de mim me fazia sentir mais seguro, sempre havia sido assim, sempre seria, não importava se estávamos em Londres ou perdidos no fim do mundo. Eu não pude encontrar forças para impedi-lo de aplacar suas frustrações naquele beijo. James merecia isso e tanto mais... Não outras rejeições.
Ele se afastou quando escutamos uma risada forçada e mordaz.
“Então essa é sua lealdade ao Santiago?” Era Terrence, sentado sobre uma pedra do outro lado do rio. “Outro Giulio... Outro traidor. Um traidor que deixa alguém que o salvou morrer! Que não usa a porra do poder que tem para salvar-“ Terrence se engasgou e, incapaz de continuar antes que caísse em prantos à nossa frente, ele pulou da pedra e sumiu na mata do outro lado.
Meus olhos estavam arregalados. Eu era o traidor?
“Desculpe-me, James. Agora você sabe de tudo. Apenas... É melhor não contar para a Helena por enquanto. Temos de pensar em como a mandaremos de volta assim que conquistarmos Chagres.” Eu falei com um fio de voz, perturbado pela fala de Terrence.
E nossa conversa terminou por ali.
Eu balancei a cabeça, retornando ao presente. Mirei o Tigre Imperial, reformado e elegante. Era com aquele navio que chegaríamos a Chagres, fingindo ser quem não éramos e oferecendo intenções que não eram verdadeiras. Nossa tripulação era diversa, pertencente a quatro grupos diferentes: Labareda, Rosa Negra, Caveira Cinzenta e Tigre Imperial. Nosso sucesso e nossas vidas dependiam de nosso entrosamento e falsidade.
Eu vi Terrence conversando com Fajardo, seus olhos avermelhados e os bolsões sobre eles mais negros do que nunca. O rosto de um homem derrotado. Ele me olhou, mas eu não pude compreender o que tinha em mente, sua expressão era ilegível, apenas o sofrimento era palpável e duro. Ele entrou no Tigre Imperial, pois havia pedido a Santiago para ser o último homem de nossa comitiva, e Santiago, incapaz de negar-lhe depois do que acontecera com Katana, concordara.
Eu respirei fundo, deixando a maresia encher meus pulmões.
“Obrigado, meu amigo.” Peguei a mão de James e a beijei, antes de seguir em frente.
Nena emparelhou do meu lado, sem dizer palavra. Estávamos todos nervosos.
Nossas opções eram escassas: ou venceríamos, ou morreríamos. Dali em diante, não havia mais volta.
E eu em breve descobria se o traidor seria James, ou eu, como muitos acreditavam.
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