Notas iniciais
Um obrigada especial para Sawada Stefanny pela linda, linda, linda recomendação! Obrigada! Boa leitura, people!

Meu coração retumbava.

O Forte de Chagres era tão imponente quanto eu havia imaginado, com altas muralhas e um aspecto inexpugnável que, certamente, mantivera longe os inimigos por todos os anos de sua existência desafiadora entre as ondas selvagens do mar. E isso não me agradava. Eu preferia mil vezes um forte frágil e facilmente conquistável; porém, se este fosse o caso, sequer estaríamos aqui, para início de conversa.

Felizmente fomos aceitos na baía de Chagres como um navio amigo. O chefe do lugar reconheceu a bandeira da Inglaterra e, ainda que nos recebessem fortemente armados, nos mantiveram vivos enquanto nos escoltavam até o líder. Todos eram extremamente antipáticos e eu não esperava nada diferente de homens que viviam enfurnados num forte isolado como aquele. Bando de infelizes.

Os outros navios piratas esperavam escondidos, como em uma tocaia, em uma baía rochosa não muito distante. Se aproximariam à noite, encobertos pelas sombras do mar, e parte de seus homens entrariam escondidos pela entrada oculta de Chagres, a qual Nena revelara durante a reunião, enquanto outros esperariam estrategicamente pela abertura dos portões frontais.

Nossa comitiva era formada por James, à frente, junto com Dario e outros três ingleses – Perec, Frederic e Dannis. Da comitiva de Santiago, havia eu, Nena, Terrence, Fradique e Garuda. Reno, no fim, ficaria no Labareda pronto para ajudar os feridos quando o momento chegasse. Isso era ruim para nós, porque ele era ótimo conciliador, mas nós daríamos um jeito. Eu também estava impressionadíssimo em o quanto Nena estava bela, pela primeira vez arrumada como uma dama. Seus cabelos penteados e sua pele milagrosamente limpa, um vestido adornando seu corpo, ressaltando-lhe o decote. Era evidente o quanto Fradique não conseguia tirar os olhos dela, que parecia extremamente rabugenta por vestir-se de tal maneira. Já da comitiva de Emanuel havia homens que eu não conhecia, tampouco lembraria os nomes, e de Fajardo, o único que eu reconhecia era Charles, o imediato.

Eu poderia gargalhar ao olhar para nós. Um banco de piratas sem nenhuma etiqueta ou cortesia, vestidos como perfeitos cavalheiros ingleses. Incrivelmente todos se portavam razoavelmente bem, de modo que seria possível enganar o líder de Chagres por, ao menos, um dia. Os capitães haviam escolhido seus atores a dedo, e então talvez tivéssemos uma maneira de fazer aquilo funcionar.

“Helena está furiosa com você. Por mantê-la com os ingleses, sem mais explicações.” James sussurrou para mim, que caminhava ao seu lado enquanto avançávamos pelas ruas internas de Chagres, escoltados por alguns soldados. Lembrava uma pequena cidade no coração de um castelo fortificado, com a diferença de que havia mar e não planícies para além das muralhas.

“Eu sei.” Lamentei, porém sem real arrependimento. “Ela poderia arrancar todos os fios de meu amado cabelo antes de eu permitir que viesse conosco.” Falei, olhando de esguelha para Garuda. Ele me retribuiu com um olhar que parecia mais letal do que a espada longa que estaria em sua cintura, caso os soldados não houvessem tirado de nós todas as nossas armas.

Precisei esforçar-me para não mostrar-lhe o dedo do meio. O filho da puta ainda aprenderia a não mexer com minha irmã. Eu confiava nele tanto quanto confiava em Santiago. Ou seja, eu não confiava nada. Meu plano era mantê-los o mais distante possível um do outro até que Helena estivesse novamente em Londres.

“Você não deveria tê-la trazido.”

“Sua irmã não sabe tomar um não como resposta, quando está determinada.” James lembrou-me o que eu já sabia bem até demais.

Nossa conversa morreu quando chegamos à entrada daquilo que realmente lembrou-me um castelo, arcaico e frio, de paredes cinzentas, ásperas e grossas como o próprio rochedo. À frente dele, havia outra pequena comitiva. Um homem alto e esbelto, de cabelos curtos e grisalhos sobressaía-se em meio aos outros. Parecia ter idade próxima dos quarenta anos e seu rosto era de alguém confiante e, eu suspeitava, falsamente simpático. O sorriso que lhe adornava o rosto de barba curta convenceu-me tanto quanto o rosnado de um lobo me convenceria de sua docilidade. Ao lado dele, havia uma mulher mais jovem, de cabelos dourado-cacheados, seios fartos e rosto delicado, como o da mais perfeita boneca. Ela sorria também, olhando encantada para James, e eu supus que, ou era mulher, ou filha do líder.

Caso a primeira opção fosse verdadeira, concluí que faríamos negócios com um corno. Ah, os hábitos londrinos da fofoca e joça jamais me abandonariam, e eu também sorri em retorno, um sorriso de canto de lábios cheio de malícias, que combinava com aquele dia ensolarado, de temperatura amena, e abarrotado das falsidades que encenaríamos.

“James Hawkesworth, eu presumo. Recebi notícias de que receberíamos uma visita de representantes de nossos superiores ingleses.” O homem falou, estendendo a mão quando James estava suficientemente perto. “Acredito que temos negócios importantes a discutir.”

“Acredito o mesmo.” James disse, nenhum borrão de hesitação manchando-lhe a voz. “E o senhor, se não houve mudanças inesperadas por aqui, é Edmond Du Blanc Seigner.”

“De fato, nada extraordinário ocorreu por aqui nos últimos tempos. Mas teremos oportunidade para compartilhar algumas histórias mais tarde, ao jantar. Por hora, imagino que devem estar exaustos da viagem.” Edmond sorriu e algo em seu jeito pomposo chamou-me a atenção, como se não fosse a primeira vez que eu o via.

O terei visto em meus sonhos? Perguntei-me, tentando recordar com mais clareza dos pesadelos que havia tido em relação ao Forte de Chagres, porém tudo era um grande borrão, depois de tantos dias desde a noite em que eu os tive.

Olhei ao redor, perdendo o resto da conversa diplomática e chata entre Edmond e James. Em meus sonhos, Chagres estava em chamas, então era difícil reconhecer alguma coisa. O lugar parecia ter um soldado a cada metro quadrado, o que me deixou apreensivo. Eu esperava que a maior parte deles caísse no sono após determinada hora da noite.

Nós fomos guiados para dentro. Não havia nada de surpreendente no interior, era igualmente feio e desagradável devido à estrutura antiga e fortificada do castelo, mas, considerando todos os lugares em que estive nos últimos tempos, aquele era um dos melhores. Minha missão, naquele dia, era manter um olho sobre a comitiva de Fajardo. Cada um de nós devia manter o olho em um grupo de pessoas. Todos nós nos encarávamos com desconfiança e ironia, não havia confiança entre aqueles piratas.

Uma coisa, no entanto, eu não poderia negar. O tal Edmond tinha etiqueta. Muitos nos levariam direto para negociação, mas ele estava seguindo as formalidades, deixando-nos descansar, convidando-nos para um jantar e, após conversas fúteis e risadas débeis, levaria James para um canto mais reservado e discutiria os reais motivos de estarmos ali. James poderia cumprir sua missão e dar o recado da Inglaterra ao homem, o que seria de qualquer forma um desperdício, visto que iríamos retirá-lo do poder em breve.

O quarto que ofereceram a mim e James tinha uma bela vista sobre todo o Forte e para o mar. Algumas gaivotas voavam próximas, soltando aquele som pavoroso que chamavam de canto. Eu apoiei meus cotovelos no parapeito da janela, sentindo o vento em meu rosto trazendo o já amigo cheiro forte de maresia em minhas narinas que me causava uma sensação tímida de paz.

“Dominic.” James aproximou-se de mim, parando às minhas costas e colocando as mãos sobre as minhas. Um arrepio percorreu meu corpo pela proximidade. “Espero que saiba que não irei te trair, por mais que meu desejo fosse acabar com a felicidade daqueles piratas.” Falou ao meu ouvido, antes de descansar a testa em um de meus ombros. “Nunca faria você me odiar. Eu preciso tanto de você...”

Sua voz pareceu-me mais sofrida que o normal, como se algo o atormentasse além do que ele poderia suportar.

“James-“ Eu tentei me virar, mas ele apertou-me em seus braços, escondendo o rosto em meu pescoço, entre meus cabelos.

“Não me importo que me veja como irmão. Eu cometerei incesto então, pois não vou desistir de você. Eu não vim até aqui para desistir em favor de alguém tão podre quanto o Santiago, ou qualquer um desses piratas.” A paixão necessitada no tom de James me afetou.

Alguém tão podre quanto o Santiago. Ele falou, e eu novamente me lembrei do que Santiago havia me contado após a morte de Katana. Meus olhos se encheram de lágrimas, junto com uma sensação de sufoco, e eu talvez tivesse derramado a água presa em minhas íris, caso Nena não entrasse galopante no quarto, flagrando-nos naquela posição.

James afastou-se e eu me virei, enquanto ela nos encarava surpresa, olhando mais para mim do que para James. Naquele momento, eu soube. Um pouco da confiança dela se quebrava, pois eu poderia estar traindo alguém que ela considerava um irmão mais velho. Após o momento de desconfiança, Nena balançou a cabeça e voltou a ser ela mesma.

Entonces foi aqui que te colocaram, Dominic, seu bosta!” Exclamou com uma mão na cintura, como sempre causando uma grande impressão como a dama que não era. “Aproveite que não está preso nesse monstrengo chamado vestido de armação e use sua sorte por ter nascido com um pau para investigar o melhor caminho para sairmos do castelo à noite-“

“Oh,” A pequena exclamação de espanto a interrompeu, assustando a nós todos.

Oh, não, o plano não podia dar errado tão cedo. A moça que estava antes ao lado de Edmond apareceu atrás de Nena quando esta deu um passo para o lado, virando-se. A garota olhou-nos, cheia de uma surpresa desconfiada e, com um leve ofego, ela tentou dar meia volta e correr. Eu dei um passo em direção à porta, mas James foi muito mais rápido. Quando dei por mim, ele já havia sumido porta afora.

“Nena!” Chamei quando ela tentou segui-los.

Ela parou, olhando-me aflita.

“É minha culpa.” Ela murmurou verdadeiramente assustada. Nossas vidas dependiam daquele plano, assim como tantas outras questões, e eu acho que era a primeira vez que eu via Nena insegura e assustada.

“Ele vai dar um jeito. Apenas tente não falar tão alto daqui para frente.” Eu sussurrei e me aproximei dela, puxando-a para dentro e fechando a porta. “Agora, conte-me novamente o que lembra exatamente sobre aquela saída nos rochedos.”

Nena contou-me, o que a ajudou a se acalmar. Nós, então, decidimos tentar passear pelo castelo, fingindo sermos apenas dois ingleses desocupados e curiosos. Eu disse a Nena para deixar a fala por minha conta. O inglês dela tinha um sotaque muito forte e não queríamos atrair a atenção. Descobrimos onde era a cozinha e, com uma conversa amigável com a cozinheira e alguns flertes, de minha parte, para as ajudantes de cozinha, conseguimos descobrir que havia um passadiço ao norte que levava exatamente aonde queríamos – o portão nos rochedos.

Fazia sentido que os serviçais conhecessem esse portão, visto que eram eles que o utilizavam.

“Há outro lugar, aqui no castelo, que você deveria conhecer. Eu poderia levá-lo.” A rapariga com que flertei e que parecia mais assanhada falou-me, sorrindo-me enquanto segurava a lapela de meu casaco inglês. “Talvez você queira abrir outros portões.” Sugeriu brincalhona.

Segurando-me para não rir da ousadia, eu me aproximei dela para sussurrar em seu ouvido alguma dispensa charmosa, para não chateá-la, porém meu olhar captou James chamando-me ao fundo. O que eu mais estivera tentando fazer era me distrair da ideia de que a moça que nos ouvira havia contado tudo para Edmond, a despeito das tentativas de James para impedi-la. Vê-lo fez todo meu nervosismo subir à flor da pele, e eu apenas avancei em direção a ele, deixando a rapariga para trás, provavelmente decepcionada.

“O que aconteceu?” Eu notei os cabelos desarrumados e a pele corada das bochechas de James. “Você transou com ela.” Eu concluí, secamente.

James suspirou, passando a mão pelos cabelos para tentar aprumá-los.

“Foi a razão de ela ter buscado meu quarto. Não tive escolha, ela ouviu pouco, mas foi a única maneira de calá-la.” Ele disse, sequer tentando negar apesar de suas bochechas se tornarem mais vermelhas. Seria inútil se negasse, eu conhecia seu estado após o sexo. Não por termos feitos! Mas porque várias vezes já fui eu a ajudá-lo a escapar do local do crime.

“Se Edmond descobrir, você é um homem morto!” Eu falei com exaltação, porém meu tom não passou de um sussurro.

“Ela é filha dele.”

“Isso não te faz menos morto, pelo contrário.” Objetei e o puxei comigo, fazendo um sinal para que Nena nos seguisse quando ela nos notou, ainda empanturrando-se com alguns pães e doces da cozinheira. “Vamos, já recolhemos as informações de que precisávamos.” Sussurrei para ela.

No caminho, James tentou desculpar-se pelo que havia feito, mas eu o interrompi. Ele não me devia nenhumas desculpas.

Mais tarde, praticamente fugindo de James e seu olhar arrependido em minha direção, eu saí do castelo desejando dar uma conferida nas redondezas. Vi o Tigre Imperial na baía e pensei nos piratas que estavam lá dentro, mantendo parte dos ingleses prisioneiros. Seria bom que não déssemos motivos para que Edmond decidisse revistar nossa carga. Aí sim, estaríamos muito próximos do ‘caixão de Davy’. Porém, de minha perspectiva, tudo parecia tranquilo e correndo de acordo com o plano.

Apenas precisávamos passar sem suspeitas pelo jantar e, à noite, chegar silenciosamente até os portões.

“Hei, rapaz!” Meu coração gelou. Achei que em seguida ouviria um grito de ‘traidores!’ e então seríamos todos mortos antes de sequer piscarmos, mas, quando me virei, vi Edmond aproximando-se.

Se você acha que isso me tranquilizou, pelo contrário, eu quase vomitei minha honra e corri para o navio, gritando que tudo havia dado errado. O que me impediu foi o sorriso que ele abriu. Não que fosse um sorriso agradável, mas tampouco era um que gritava por minha morte. Um arrepio estranho me percorreu, como um sexto sentido de alerta, mas eu não corri. Pelo contrário, sorri-lhe de volta, o mais falso que pude.

“Ainda não tivemos o prazer de conversarmos.” Edmond falou com certa dose de ironia. De novo tive a sensação de que já o conhecia de algum lugar, o que me gelou. Da onde? De Londres? Há quanto tempo ele vivia em Chagres? “Me acompanharia numa caminhada, Dominic D’Anjou?”

“Com prazer, Sr. Seigner.” Disse calmo, sujando meus lábios com um motejo polido.

Nós caminhamos, a princípio em silêncio, até as muralhas da baía do forte. Subimos até o passadiço de onde se podia admirar o mar sem nenhum obstáculo à frente. Era belo e selvagem, mas, de uma maneira que me incomodava, eu me havia me afeiçoado àquelas águas tormentosas, mesmo que essas mesmas águas já houvessem tentado me matar naquela tempestade. O Terceiro é Zain, o seu anel, e este possui o segredo da ressurreição dos mortos, a cura de doentes perante o toque e o controle das tempestades. Diane falara, relembrei, enquanto acariciava meu anel com o polegar, em busca de conforto. Antes da próxima tempestade, eu precisava já ter aprendido a como controlar todos os seus poderes.

“Este forte não era mais do que um amontoado de pedregulhos quando tomei para mim a tarefa de reerguê-lo e fornecer abrigo aos viajantes ingleses que usam essa rota comercial.” Edmond comentou com nostalgia, olhando para o horizonte. Era possível ver a terra firme a longa distância, quase invisível aos olhos. O Forte, no entanto, certamente era muito mais seguro do que a dita terra firme.

Ou era isso que eu queria que ele continuasse acreditando, até a noite.

“Deve ter sido difícil, no início.” Eu retruquei, apenas para não deixar a conversa morrer. Entendia que Edmond provavelmente queria chegar a algum ponto com aquele papinho banal.

Edmond sorriu de lado, um brilho satisfeito no olhar cinzento. Seus olhos também me eram familiares.

“Ah, foi, foi muito difícil. Mas há muito que a Inglaterra não é mais minha casa.” Ele apoiou-se à amurada. “Eu e minha família éramos da França, mas mudamos para a Inglaterra muito cedo. Imagino que meu nome denuncie este fato.”

“De fato... Mas por que não retornou para a França, em vez de isolar-se no mar?” A curiosidade começava a aflorar em mim. O ar melancólico de Edmond dizia-me que sua história não era tão simples quanto ele próprio gostaria.

“Eu não encontraria nada na França. Minha família estava despedaçada quando em vim para cá. Meu pai morto, minha mãe louca, disposta a machucar seus próprios filhos, e meu irmão... Eu me pergunto, todos os dias, o que aconteceu com ele.” Edmond sorriu de maneira condoída, os antebraços apoiados à amurada. “A verdade é que, nesses últimos dez anos, eu transformei este lugar em meu lar. Como pode ver, é próspero, há famílias morando aqui, não apenas soldados.” Ele virou e ergueu o braço em direção à pequena cidade, como se a apresentasse a um grande público. “Não pouparei esforços para proteger aquilo que construí.”

“Certamente.” Eu falei com certa fraqueza na voz. Em parte por achar que ele estava desconfiando de alguma coisa e, indiretamente, ameaçando-me. Em parte porque a culpa enfim apareceu, machucando minha consciência. Havia pessoas inocentes vivendo ali, pessoas que seriam assassinadas, mulheres que poderiam vir a ser estupradas, crianças levadas para se tornarem piratas. Isso sem contar todos os soldados pai de família cujas vidas seriam arrancadas.

Uma tontura se abateu sobre mim, enjoando-me, e eu me apoiei à amurada, fechando os olhos por um breve segundo. No que eu estava me tornando? Quando reabri os olhos, prendi a respiração, porque Edmond estava muito perto, encarando-me seriamente, nenhum sorriso falso em seu rosto inquietantemente familiar.

“Sei que não é James quem comanda essa comitiva, Dominic D’Anjou.” Ele falou, e eu usei de todas as minhas forças para me manter impassível, ainda que por dentro meu coração houvesse ido de encontro ao meu estômago e, por pouco, eu não precisasse me virar para puxar profundamente o ar. Explodi em nervosismo por dentro, mas mantive minha máscara.

“Eu não sei o que o levou a pensar-“

Edmond pegou minha mão e a ergueu, colocando o anel Zain a altura de nossos olhos.

“Acha que não reconheço um dos anéis quando vejo um, Dominic?” Ele perguntou abrindo um sorriso muito mais tenebroso do que todos os anteriores, e olhe que eu não chamaria essa de uma tarefa fácil. Dessa vez eu não pude manter minha impassibilidade, cheguei a olhar para os lados, tentando pensar em minhas opções, mas ele segurou meu queixo e obrigou-me a encará-lo.

“Eu não sei do que você está falando.” Falei a primeira e mais estúpida frase que me veio à mente.

Edmond riu antes de me empurrar contra a parede de uma das guaritas das muralhas.

“Será mesmo que não sabe?” Uma atmosfera zombeteira mudou-lhe a expressão. “Talvez eu devesse colocar meu anel para conseguir desvendá-lo um pouquinho melhor, Dominic.” Ele se afastou abruptamente e, ainda sorrindo, puxou um colar escondido sob as vestes. Nele, um dos anéis de caveira encontrava-se pendurado.

Meus lábios se partiram.

“Este é Caph. Talvez já tenha escutado alguma coisa sobre ele.” Edmond sugeriu com divertimento, e, como se ela estivesse sussurrando em meu ouvido, a voz de Diane novamente ecoou em minhas lembranças. Caph é talvez o mais mesquinho dos anéis. Seu poder é mudar em ouro não só os metais, mas a própria terra, e até as imundices da terra. Porém, ele também é capaz de dar a seu portador a habilidade de conhecer à primeira vista o fundo da alma dos homens.

O fundo da alma dos homens. Oh, Cristo, por que sempre havia algo para foder com todos os meus planos?

“Eu não o uso o tempo todo.” Edmond falou, admirando o próprio anel. Diferentemente do meu, Caph tinha os olhos de rubi verdes. “Do contrário, transformaria tudo que eu toco em ouro, até mesmo pessoas. Ainda não sei controlar completamente seus poderes. Porém já consigo usá-lo para vislumbrar as intenções de meus amigos...” Ele olhou-me profundamente. “E inimigos.”

Minha boca secou e nunca minha língua pesou tanto quanto naquele momento.

“Irei usá-lo hoje à noite, quando eu e James tivermos nossa... Conversinha diplomática.” Ele guardou o anel por trás das vestes novamente. “Quanto a você.” Ele se aproximou, segurando novamente meu queixo. “Eu poderia fazer bom uso de você. Outro anel em meu controle seria bastante proveitoso, eu não nego.” Ele me olhou de cima abaixo, seus olhos adquirindo um brilho diferente, de luxúria. “Eu poderia fazer vários usos de você, Dominic D’Anjou.”

“Seu-“ Eu o teria xingado, suas intenções maliciosas não me passando despercebidas, mas ele riu antes que eu tivesse tempo para dar-lhe o que merecia – um pontapé nos bagos, para começar –, e afastou-se com facilidade.

“Guardas!” Ele gritou e rapidamente alguns homens surgiram, armados e, novamente, nada simpáticos. Onde estava o bom humor dessa gentalha? Meus braços foram contidos. “Levem-no para meus aposentos. O mantenham lá e não permitam que se comunique com ninguém. Não o deixem sair, não importa o motivo.” Ordenou friamente, seus olhos em mim. Não havia nada de amistoso em sua expressão.

“Edmond!” Gritei enquanto já era levado. “O que fará com os outros?” Perguntei sem aguentar a preocupação, meu coração a galope, pronto para arrebentar em meu peito.

“Por hora, nada. Hoje à noite conversarei com James e decidirei o destino de todos. Por enquanto, ainda são meus convidados.” Edmond comentou, quase alegremente. “Ainda que meus guardas estejam mantendo um olho e uma arma engatilhada para cada um de vocês.”

“Os outros não sabem nada sobre esse anel!” Eu exclamei, xingando-me profundamente por não ter escondido Zain antes de entrarmos em Chagres. “Edmond! Eu dou-lhe o anel, mas não-“ Tive minha boca tapada quando ele fez sinal para os guardas. Continuei me debatendo, mas isso apenas os levou a dar uma coronhada em minha cabeça.

E eu desmaiei antes que pudesse pensar em um novo plano.

Notas finais
Fazia tempo que eu não postava dois caps. em um intervalo tão curto! IASUIAJSIA milagre! Bem, feliz 2015 a todos, galera! Obrigada a quem continua acompanhando firmemente, e mais especialmente, a quem vem comentando!