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13 Rayko, o Pequeno Salvador
A escuridão dominava o mapa, mas não era a escuridão fria e dominadora como um breu. O lugar era bem iluminado, mas por onde olhassem, havia aquele mar negro e sem fim.Davien, seus amigos e Rockfield haviam acabado de entrar na Torre do Relógio. Por que o lugar tinha esse nome, ninguém sabia dizer, já que não havia sinal de torre por ali — apesar de que a pequena plataforma onde estavam era tão alta quanto uma.Depois de derrotarem Alishar e passar pela porta, o grupo da Quest de Ludibrium havia recebido, além da EXP de derrotarem o chefe, a EXP de recompensa do estágio. Pelo menos dez níveis haviam sido aumentados no total, e a porta levara a outra parte da torre, cheia de caixas e polvos como o que controlava os Rombots. Mas eles eram fáceis de se matar, e ao caírem, derrubavam uma chuva de moedas de ouro, poções e até equipamentos, que eles conseguiram um bom dinheiro ao vender para outros jogadores em Ludibrium.
Rabisco havia se despedido deles ao chegarem na cidade. Eles sentiram o ocorrido — o gatuno era uma boa pessoa e os tinha salvado pelo menos em uma ocasião, mas ele alegara precisar fazer uma quest importante no Setor Ômega, a estranha base de pesquisas que era de onde a Torre de Eos se erguia. Ele os tinha convidado para ir com ele, mas foi a vez de eles recusarem. Também precisavam fazer algo importante: encontrar Donnie e, principalmente, o velho amigo que não viam desde o começo do jogo.Encontraram Rockfield assim que saíram da busca, de volta ao centésimo primeiro andar da Torre de Eos. O portal para a Torre do Relógio estava finalmente liberado, e eles foram assim que recarregaram as poções na cidade.O lugar parecia não ter fim. O céu era sempre negro e com engrenagens, relógios, peças de reposição e uma infinidade de mecanismos flutuando como se fossem estrelas. Para chegar até lá, entrava-se por um portal numa parte abaixo da fábrica de brinquedos de Ludibrium, e era o lar das criaturas que Alishar invocava(Rockfield dissera que se chamavam "Cronos").–Faz sentido — Nick dissera ao ouvir o nome — "Cronos" é o titã relacionado ao tempo, na mitologia grega. O nome dele tem algo a ver, mas não consigo me lembrar bem o que era...A tarefa de lembrar o significado ficou ainda mais difícil quando entraram no mapa da torre.O portal os deixava em um quadrado azul brilhante que flutuava no ar, a várias dezenas de metros do chão, que não era mais do que um retângulo ridiculamente pequeno no meio do nada. Nick achou que, se caísse dali, poderia cair fora do chão e ir para o infinito abaixo dele. Ele desejou que MapleStory Online tivesse paredes invisíveis como nos outros jogos.–Talvez seja como naquele jogo, o Bastion caía mas logo voltava do céu.–E então caía de barriga no chão — Thugles completou, olhando para o guerreiro — E o nome dele não é Bastion.Mesmo assim, eles desceram pela única coisa que ligava a plataforma ao chão: uma comprida corda presa pela ponta por um gancho firme. No início, eles hesitaram — e se soltassem de repente e caíssem no chão? — até que Rockfield, com um sorriso orgulhoso, salto diretamente da borda, caindo a toda velocidade em direção ao vazio.Eles gritaram surpresos, mas o rapaz simplesmente se segurou na corda quando estava a poucos metros do chão. Suas luvas deviam ser extremamente resistentes e aderentes, porque a mão dele não queimou com o atrito da corda e a queda parou instantaneamente. Lá de cima, os amigos viram o aceno do alto rapaz e desceram também. Embora eles tivessem sido inegavelmente mais lentos do que ele durante o percurso.Vampiritico foi o primeiro a chegar, sem demonstrar nenhum medo da desconcertante altura que havia acabado de descer.–Onde você acha que eles estão?Rockfield deu de ombros.–Por aqui em algum lugar, tenho certeza. Você pode me ajudar a procurar pelas plataformas.Ele apontou para um conjunto de retângulos flutuantes que eles não haviam notado de cima. Havia pelo menos centenas deles, parados por toda a extensão do lugar, e pareciam nunca acabar. Com habilidade, o rapaz de roupas pretas saltou para um deles, depois para outro, então tomou impulso e pulou para um terceiro. Estava a alguns metros de altura agora, e parou para analisar o local. Não tendo encontrado nada, começou a procurar uma posição mais elevada.–Melhor eu ajudar — disse Vampiritico — Divirtam-se aí.Ele foi para um lado mais distante de Rockfield para procurar por ali. Sem hesitar, saltou para o retângulo mais próximo ignorando o imenso vazio abaixo dele, embora ele não conseguisse saltar de um para outro com a mesma rapidez e leveza do rapaz mais velho.Davien olhou ao redor, distraído.–Vamos ver o que tem por aí — sugeriu — Talvez a gente encontre algo legal.–Como uma quest? — Thugles perguntou esperançoso, recebendo o conhecido revirar de olhos do amigo.–Sinceramente, eu espero que não.Não havia muito para ver naquele lugar. O chão todo, como visto de cima, era uma faixa estreita feita de luz azul, mas que parecia oscilar entre outros tons próximos, e havia pontos onde a faixa era quebrada, mas eram cortes retos e uniformes, como se fosse um imenso quebra-cabeça com algumas peças faltando. Ao caminhar pela faixa, perceberam que ela era ais longa do que imaginavam, mas havia apenas dois NPCs por todo o caminho, um em cada ponta da faixa. Exatamente no centro da faixa, havia uma saliência que a alargava de um dos lados, onde havia um pequeno balcão e uma cabana feita de peças que pareciam ter sido tiradas do céu, mas que parecia bem resistente. Havia poções ali, mas eram caras, de modo que só o que eles compraram foi um pouco de Água Benta. Não era mais barata do que dez poções normais que usavam, mas eles haviam descoberto o quanto elas podiam ser valiosas.
Quanto aos NPCs, estavam parados nos lados opostos da faixa, ambos ao lado de um portal. Os dois se aproximaram com expressões de aviso no rosto quando os amigos chegaram perto deles.–Vocês não vão querer entrar aí ainda, acreditem — havia dito o primeiro deles.–Não, não, vocês ainda não são fortes o bastante! — disse o segundo, quando chegaram até aquela ponta. Davien bufou e sacudiu a cabeça.–O que tem ali? — Nick perguntou, curioso. O NPC, Sr. Bufão, olhou para ele demoradamente.–O tempo, meu caro. Distorcido e arrepiado, essa é a verdade. E mais além, a morte. E além dela, uma coisa pior que a morte, distorcida, arrepiada e tão mortal quanto a própria morte pode ser.Diante dessas palavras animadoras, os três deram meia-volta e foram se encontrar com Vampiritico, que aparentemente desistira de explorar o local.–Descobriram alguma coisa? — ele perguntou, alongando o corpo.–Sim, o tempo arrepia e compramos Água Benta. Nunca se sabe quando pode precisar.–Bem que você podia ter uma habilidade dessas aí com você, já que é a classe de suporte e tudo mais — Nick disse para ele com um sorriso desanimado. Thugles inclinou a cabeça.–É verdade... Mas não faria muito sentido, tipo, se eu estivesse com as habilidades bloqueadas, como poderia usar uma habilidade que desbloqueia habilidades bloqueadas?–Retiro o que eu disse, então. Mas cê podia ter, pelo menos, um desconto na hora de comprar, afinal, você é Clérigo!Davien e Vampiritico se olharam, um sorriso aparecendo nos lábios. Não importava se estavam na escola ou num jogo onde o menor erro poderia representar a morte, sempre havia discussões como aquela entre o grupo.Minutos depois, Rockfield voltou, e não parecia muito feliz. Mas ele estava com o capuz e a máscara cobrindo o rosto, de modo que era estranho como eles conseguiram deduzir sem ver a expressão do rapaz.–O que foi? — Vampiritico perguntou.–Recebi uma mensagem do Donnie. Ele disse que foi pra El Nath — ele resmungou irritado — Ele acha que é legal ficar indo pra lá e pra cá o tempo todo enquanto a gente procura ele.–Não é tão ruim assim — Davien disse, para surpresa geral — Depois dessa Quest ridícula, a última coisa que eu quero é ver blocos coloridos na minha frente.–Eu também não gostei muito de Ludibrium — ajuntou Thugles — E gosto de El Nath, lá é frio. E tem montanhas, e tem neve! Então, a gente vai pra lá agora?–Pois é, eu estive pensando... O nível de vocês ainda está baixo, vocês podiam...Mas Davien o interrompeu antes que ele pudesse continuar.–Ah não, nem vem com essa de sugerir Quest pra gente! Eu quero enfrentar um monstro de verdade, alguma coisa que me ataque e com o que eu possa enfrentar, alguma coisa que revide meus ataques! Aquela bola de tédio, puta que pariu, que saco que foi aquilo...–Mas você upou cinco níveis — Nick lembrou. Davien estreitou os olhos.–Eu não faço aquilo de novo nem que upe dez níveis — ele disse, finalmente.Rockfield ergueu as mãos num gesto de conciliação.–Calma aí, eu não disse que era a Quest de Grupo! Não dá pra fazer ela de novo até passar o cooldown, e além disso vocês com certeza vão alcançar nível 51 dentro dela, e não sei o que acontece se acontecer isso — ele coçou o queixo, pensativo — E a Quest nem é em Ludibrium. É lá no Setor Ômega, e acreditem, é melhor que a que vocês fizeram. São várias tarefas que vocês fazem, e ganha muita EXP. A gente fez elas semana passada, e foi o melhor conjunto de Quests na minha opiniã.–O Rabisco tava indo pra lá, não tava? — Nick falou de repente. Thugles assentiu algumas vezes.–É, e ele disse que ia fazer umas Quests... Devem ser essas. Talvez a gente até encontre com ele por lá.–Mas e o Donnie? A gente não devia ir pra lá agora? — questionou Vampiritico.–Por quê? — Rockfield quis saber — Não existe um motivo real pra estarmos indo encontrá-lo, além de juntar nossas forças e se encontrar de novo. Com mais gente, poderíamos upar mais rápido e com mais segurança, e é justamente isso que vocês podem fazer no Setor Ômega. E dessa vez eu vou poder ajudar, além de que eles foram pra El Nath porque o Sheddeer encontrou uma nova pista. Eles vão investigar antes de descansarem, até lá, vocês podem ir treinando aqui.–Parece uma boa idéia — Vampiritico disse depois de pensar um pouco — Não sei se quero ficar cavando gelo pra procurar um lugar com turbo energia do Max Steel que me permita voltar pra casa. E eu quero aumentar meu Ataque Selvagem, diz aqui que no próximo nível eu posso atacar sete vezes com aquela rapidez mágica que o jogo me dá.–Tem monstros fortes lá? — Davien quis saber, desconfiado. Rockfield sorriu por trás da máscara.–Muitos, Davien, muitos. Não muita variedade, mas eles têm bastante HP... E não costumam ficar parados deixando você atacar.O rapaz assentiu, satisfeito. A expectativa de uma boa luta o deixava mais animado.–Ouviu isso, Myth? Vamos lutar contra monstros de verdade. E você vai ficar mais forte, eu prometo.Ele disse isso olhando para a foice. E fazendo carinho nela.–Awn, você deu nome pra ela! — Thugles bradou com animação — Que legal! Myth, eu sou o Thugles, vou ficar atrás curando seu dono enquanto ele mata tudo e me dá EXP. E se ele não me tratar bem, vou me recusar a curá-lo, e ele vai morrer. Legal, né!–Não ligue pra ele, Myth, ele é assim mesmo — Davien falou baixinho, olhando de lado para Thugles. Ele, Nick e Vampiritico deram uma grande risada.Agora que já haviam descido, a subida para o portal que levava para fora dali não parecia tão assustadora. Por algum motivo, Pergaminhos de Retorno não funcionavam naquele mapa, mas eles não reclamaram. Thugles gostava de lugares altos como aquele, e subir cordas naquele jogo não era algo difícil, não havia risco de a tarefa cansá-los e eles caírem. E mesmo ali, Rockfield tratou de humilhá-los um pouquinho subindo a toda velocidade como um ninja de desenho animado.Além da habilidade de se mover rapidamente, ele sabia como se esconder e, por outro lado, detectar pessoas escondidas. Mas talvez a Torre do Relógio, com seu céu escuro e sem fim, e as luzes oscilantes da plataforma principal em forma de retângulo, tornasse a tarefa de se esconder mais fácil. Ou talvez, a habilidade da pessoa simplesmente fosse alta o suficiente para passar despercebida. Seja como for, nem ele nem os outros notaram a figura encolhida em uma das plataformas flutantes, observando-os com cuidado enquanto subiam para Ludibrium.–-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------O sol não era mais visível no horizonte, mas os últimos resquícios de sua luz ainda eram visíveis no céu, como se as nuvens estivesse retendo aquela luz brilhante para criar o espetáculo dourado que todos em Mu Lung podiam ver.–O pôr do sol é lindo aqui, não é?–Muito.Gatts olhou para a menina com uma ponta de tristeza no olhar, embora soubesse que não era nada comparado ao que a garota sentia. Sentada na pedra oval azul que havia ganho em Ellinia, ela nem olhava para a maravilha que se encontrava a apenas um movimento de cabeça da garota.Ele ficou parado, sem saber o que dizer ou fazer. Estava, pra dizer a verdade, confuso, triste, resignado e desapontado. Desapontado consigo mesmo por não conseguir consolar a companheira que o havia salvado várias vezes com suas magias curativas. Tinha salvado seu dinheiro poupando-o da necessidade de comprar poções de HP também, mas pensar nisso não seria muito poético. Ele desejou, com todas as suas forças, que pudesse trocar a imensa espada que segurava pelo conhecimento de como fazer para consolar a amiga. Afinal, ela o tinha salvado, curado e lhe dado suporte tantas vezes antes. Mas não conseguira fazer isso com seu melhor amigo.Ele ainda se lembrava de quando Rayko, o estimado gato de estimação de Kiara, explodira no ar, as fagulhas marrons espalhando-se ao redor da grama macia bem cuidada, estraçalhando-se como o coração da garota logo depois...A missão de Gatts o tinha levado ao Dojo de Mu Lung, um templo de vários andares por onde ele e Kiara tiveram que enfrentar diversos monstros, um por andar. Eram vinte no total, e cada monstro era um clone de outros chefes que eles encontravam pelo mundo. Segundo o papel que recebera, encontraria mais um item por ali, mas não precisaria passar pelos vinte. De qualquer maneira, ele não conseguiria.
Um dos andares tinha um Balrog Rubro, a imensa criatura alada que às vezes atacava os navios que faziam a viagem entre Orbis e Ellinia. Não bastasse seu imenso poder, ele invocava Balrogs Jr, que conjuravam Taurolanças e Tauromacis. Tinha sido uma luta penosa e difícil, mas no final a força de Gatts, suportada pela garota, levou a melhor.Ao final da luta, ele viu um leve brilho numa saliência do andar e pegou uma pequena cápsula de metal com um pedaço de papel dentro. Era um pequeno mapa da grama ao redor do templo, com um "x" marcado na terra logo na borda do piso dos fundos do templo. O mapa era inconfundível: havia algo enterrado ali.Compraram uma pá e foram até o local. Ali, havia uma rocha redonda não diferente de todas as outras, mas quando eles a retiraram, puderam ver o local onde a terra havia sido escavada e o buraco novamente preenchido com terra. Animado, ele começou a cavar, assistido pela companheira que observava com ar de expectativa quando ele tirou um grande estojo de metal do buraco.E não havia sido para menos. Desta vez, ele não encontrou um par de botas, ou luvas marotas, ou um fragmento de armadura(e nem um pedaço de papel indicando a localização do próximo). Dentro do estojo, repousava uma magnífica e imponente espada de folha larga, avermelhada e tão reluzente quanto no dia em que fora fabricada, tão brilhante quanto os olhos do rapaz que a segurava com ansiedade.Mas a ansiedade diminiu, e Kiara riu, quando ele descobriu que ainda não poderia usá-la. Era pesada demais, e tinha um requerimento: ele precisava da armadura, a que ele vinha juntando fragmentos durante toda a busca. Embora isso só tenha servido para deixá-lo ainda mais animado para completar a armadura. De agora em diante, ele ficaria muitíssimo excitado sempre que o resultado fosse um fragmento. Ele já estava lendo o pequeno cartão de madeira que certamente indicava o local do próximo item quando ouviu a ordem pra parar.Um grupo de jogadores estava parado ao redor deles, aproximando-se lentamente. Rayko chiou e arqueou as costas, com um gesto de aviso para os recém-chegados. Quem havia falado era um homem alto, com casaco marrom por cima de uma camida branca, um par de pistolas na cintura. Com ele estavam meia dúzia de Bruxos, Gatunos e espadachins, destacando-se, entre eles, um arqueiro com cabeça de cavalo e um garoto loiro de olhos azuis surpreendentemente jovem armado com uma espada.–Gostei dessa arma aí — tornou a falar o mais alto — Eu sou o Dark Corpse. Esses são meus amigos, estão aqui pra garantir que você me entregue ela sem cacarejos.–Hue pra vocês, entreguem logo — trotou o com cabeça de cavalo.Gatts olhou para a amiga com frustração.–Cara, essa seria a oportunidade perfeita pra eu testar essa espada e desintegrar os inimigos em dois segundos. Seria que nem num filme, mas nããão, eu tenho que ter a armadura primeiro. Esses criadores de jogos não assistem filmes clichês, não?É claro que Gatts não entregou a espada. E lógico que Dark Corpse atirou, mostrando sua desconcertante rapidez com as pistolas mais uma vez. Cara de Cavalo também atirava, e os espadachins, bruxos e gatunos, sem misericórdia, avançaram para eles.Foi uma carnificina. A espada de Gatts(a nova rapidamente fechada no estojo e recolocada no buraco) não só pegou fogo, como pareceu dobrar de tamanho, as chamas criando uma extensão brilhante e flexível como se um chicote tivesse sido amarrado à ponta. Com um simples giro da espada, o fogo pegou o Gatuno mais próximo pelo pescoço puxando-o para perto do guerreiro que o finalizou com a lâmina da espada. Ele a agitou fazendo arcos horizontais pelo ar de um lado a outro, o fogo pegando em cinco dos invasores, grudando e queimando, os gritos morrendo no ar ao mesmo tempo que seus donos.Cara de Cavalo havia decidido atacar a garota, mas ela se esquivava com habilidade e disparava Garras Arcanas no arqueiro, que perdia o equilíbrio. Ela também curava Gatts, e assim que viu a magia verde surgindo ao redor do inimigo, gritou furioso e mudou a direção do ataque.Ela gritou de dor e surpresa quando as balas a atingiram, uma atrás da outra, impedindo-a de atacar e fazer qualquer coisa. A mesma raiva que o pistoleiro sentia, agora também surgira em Gatts, que colocou-se entre ele e Kiara e correu para atacar o rapaz.Dark Corpse voltou a atirar em Gatts, mas ele simplesmente ignorou os tiros, correndo a toda velocidade, os cabelos pretos sem corte esvoaçando enquanto ele agitava a espada em chamas, criando sombras na escuridão que se formava à medida que o sol começava a se retirar para iluminar o outro lado do mundo. Pela primeira vez, ele sentiu medo ao enfrentar um guerreiro. Havia atacado jogadores inúmeras vezes, mas suas balas sempre haviam matado quem quer que o enfrentasse antes mesmo que a pessoa chegasse a dar dois passos(exceto na luta contra Davien e os amigos, mas nas duas ocasiões havia sido "por sorte"). Balas doíam e tiravam HP, e isso geralmente servia para impedir que a vítima tentasse alguma coisa, mas era evidente que isso não acontecia com aquele guerreiro de armadura de bronze. De repente, ele se sentiu como um garotinho atacando um touro selvagem com um estilingue. Não havia como parar aquela investida.Esperando o touro se aproximar o suficiente — mas não tanto que pudesse atingí-lo com as chamas — ele pulou para o lado repentinamente, sabendo que Gatts não teria como parar a investida a tempo. Estava erguendo as pistolas pronto para acertar-lhe as costas, mas parou surpreso ao sentir um calor ardido no peito. De olhos arregados, viu que o guerreiro havia simplesmente erguido a mão para o lado, acompanhando o movimento de esquiva do pistoleiro.Gatts puxou a espada, disparando mais uma chicotada flamejante contra ele. Dark Corpse pulou para trás, mas conseguiu apenas evitar a lâmina. As chamas o pegaram , atravessando sua cabeça e atingindo seu corpo, queimando e latejando, cegando-o por alguns instantes, parando apenas bem depois que ele recuou a espada.Gatts recuou o braço, o fogo da espada apagando e rapidamente substituído por uma cobertura de gelo cheia de pontas, que parecia emanar um frio gélido tão intenso que penetrava e paralisava os músculos, e Dark Corpse soube instintivamente que não poderia vencer aquele homem. Assustado, ele percebeu que, apesar de ser um exímio e perigoso pistoleiro, sua única forma de luta encontrava-se no par de pistolas, e percebeu o quanto ficava vulnerável sem elas. Praguejando baixinho, ele tomou nota mentalmente de que precisaria fazer alguma coisa a respeito. Mas ele teria que sair dali antes, se quisesse ao menos pensar em fazer qualquer coisa.Como pirata, ele devia estar preparado para uma saída suja se algo desse errado. Apesar de que ele esperava nunca ter que usá-las. Foi com uma careta, silenciosamente prometendo uma vingança à altura ao guerreiro da espada em chamas, que ele atirou uma bomba de fumaça brilhante e atordoante no chão.A bomba confundia os sentidos e fazia estalar a cabeça por alguns segundos e a arma de gelo acabou sendo uma vantagem para o rapaz: o frio desacelerava as moléculas do gás, condensando-o e evitando que a fumaça se espalhasse, ficando mais tempo em cima do guerreiro. Mas ela também confundia os de Dark Corpse, de modo que a fumaça podia ser usada para fugas, mas não para atacar.–Vamos embora! Recuem, todos vocês!Mas ele se surpreendeu mais uma vez ao vez que não havia muito "vocês" para recuar. Dos oito jogadores sem contar ele próprio, apenas três ainda estavam de pé. Ele se enrijeceu ao constatar que haviam morrido com dois ou três golpes do rapaz e soube que, assim que se recuperasse, iria atrás deles.Nesse ponto, Dark Corpse estaria com a vantagem de ser mais rápido, poderia correr para longe e escapar. Cara de Cavalo o olhou, suas flechas não fazendo muito efeito contra a Proteção Arcana de Kiara. E ela também conjurara um escudo de energia, um semicírculo que saía do chão e que era totalmente eficaz contra flechas. O gatuno, ao lado dele, se debatia ainda tentando apagar o fogo que queimava sua calça. Quanto ao espadachim loiro, ele estava em um combate contra a garota.–CORPSE! RECUAR AGORA!Ele lançou um olhar rápido ao superior e o viu correndo como nunca correra antes, atrás dele, Gatts sacudia a cabeça, livre dos efeitos da fumaça atordoante. Era uma questão de tempo até que chegassem a ele.Assim, eles fugiram, Gatts correndo para ver se a amiga estava bem. Mas ela não estava. Em seu corpo, havia sofrido apenas alguns arranhões de espada, salva pelas Garras Arcanas que podiam ser usadas como força para bloquear golpes.O que a machucava era seu coração. Houve um momento onde a garota, completamente despreparada para enfrentar um guerreiro, quase fora alvo de uma estocada direta no peito, que a teria paralisado de dor e, muito provavelmente, sucedida por flechas e mais golpes do garoto loiro. Teria morrido. Mas em vez disso, um vulto surgiu à frente dela, recebendo a força total da estocada.O atacante ficou tão surpreso quanto a garota. Rayko, com um miado agudíssimo, virou uma explosão de faíscas que tinham a mesma cor de seu pêlo marrom-claro, brilhante e sedoso.Ela não teve tempo de gritar a morte do amigo. Só o que teve depois disso foram poucos segundos de luta até Dark Corpse anunciar a retirada. Quando Gatts chegou, ela estava ajoelhada olhando a grama onde seu amigo havia caído, abaixo de onde a espada o tinha atingido.Tinha sido doloroso para ela contar o que Gatts, ocupado com a ameaça principa, não tinha testemunhado. E agora eles estavam descansando enquanto o sol se punha no horizonte, ela sentada na rocha azul e ele a encarando com o coração apertado. Queria saber o que dizer. Queria poder consolá-la, mas não sabia como. Como na escola, ele sempre recuava perto de garotas. Ele lutaria com prazer contra cem Dark Corpses, se isso o livrasse daquela situação.Entretanto, ele não podia fazer isso. Ele teria que fazer alguma coisa. Se não fizesse nada, se ficasse ali parado esperando ela ter forças para continuar a viagem, jamais se perdoaria. Tomando uma decisão, decidindo que o que quer que ele sentisse não seria pior do que a tristeza que a amiga sentia naquele momento, ele sentou ao lado dela.–Sabe, ele salvou sua vida — disse, lutando para manter a voz firme — Se ele estivesse vivo, você não estaria. E se matariam você, não sei por que deixariam Rayko vivo.Mal acabara de dizer as palavras, ele se arrependeu. O pensamento era bom, mas temia não ter expressado da maneira correta e só ter piorado as coisas. A garota soltou um longo e profundo suspiro.–Eu prometi pra ele que cuidaria dele, que ele podia se sentir seguro quando estivesse comigo. Disse que não deixaria nada acontecer com ele, que... Eu disse que...Ela não conseguiu mais continuar. Virou o rosto para que o companheiro não visse. Ele também suspirou, mas por um motivo totalmente diferente.–Ele miava pra você — começou, e acrescentou antes da frase parecer idiota — Você já pensou que ele estava te prometendo a mesma coisa? Que iria cuidar de você... que não deixaria nada acontecer com você. E foi o que ele fez, não foi? Se ele não tivesse morrido...–Eu estaria morta, Gatts. Eu sei — ela o interrompeu, virando o rosto para ele — Mas ao mesmo tempo, e se não fosse assim? E se você tivesse vindo pra cá na hora, ou eu tivesse conseguido sobreviver ao golpe? E se ele tivesse tido piedade do meu gato e não tivesse atacado? E se... E se...–Os dois estivessem vivos? — Gatts terminou por ela — Nunca vamos saber, não é mesmo? E você sabe que aquele garoto não teria nenhuma piedade. Vieram aqui pra nos roubar, Kiara, e se não entregássemos a espada por bem, entregaríamos por mal. E eles quase...Mas ele se calou ao se dar conta do que tinha acabado de dizer. Um pensamento repentino lhe ocorreu e uma vozinha no fundo de sua mente falou com ele: "Se você tivesse entregado a espada..."A garota, imersa em sua tristeza, não percebeu a culpa que o atingira como uma estocada no peito.–Tem outra coisa — ele disse de repente, e ela se virou para encará-lo — Você vai sair daqui um dia. Uma hora... Você teria que se despedir dele. Você sabe disso.Se é que era possível, o rosto dela se contorceu de dor ainda mais.–É, mas... Até lá...Ela balançava a cabeça vagamente, sem saber bem como continuar. Havia pensado nessa possibilidade, mas também pensara que, até lá, teria muito tempo para ficar com Rayko. Não esperava ter que se separar dele tão rápido, e mesmo quando isso acontecesse... Não queria vê-lo morto. Mesmo que ele fosse um animal criado por um computador, era real o suficiente para ela. E fora uma companhia inestimável durante várias semanas.
E salvara a vida dela, também.–Pra onde vamos agora? — ela se levantou em um salto, encarando Gatts determinada — Onde fica o próximo lugar da sua Quest?–Kiara...–Não tem sentido ficarmos aqui. E esse lugar... Já me traz lembranças. Nunca mais vou esquecer disso. Eu... Quero sair daqui. Por favor.As últimas palavras foram ditas num tom de súplica, e finalmente seus ombros sacolejaram, sem forças para evitar as lágrimas que há muito lutavam para sair. Seus olhos se estreitaram enquanto ela soluçava. E agindo por instinto, o rapaz soube o que devia fazer. Desta vez, ao se levantar para abraçar a amiga um segundo antes de ela começar a chorar tudo o que seu coração achava que o pequeno amigo merecia, ele não sentiu vergonha.
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