Se antes eles achavam que a Quest de Ludibrium era boa, as do Setor Ômega eram excelentes.

O lugar todo era um centro de pesquisas sobre alienígenas, onde eles analisavam, examinavam e anotavam tudo sobre seres de outros planetas. A idéia não era tão estranha naquele jogo, pois eles existiam e apareciam no mundo de vez em quando. E correspondiam às expectativas gerais sobre aliens: polvos com tentáculos, capacetes de vidro com pontas e armas de raio, alguns humanóides com olhos grandes e cabeções. Rockfield tinha razão: eles tinham bastante HP e eram resistentes, e Davien estava achando o máximo.

–Eles só podiam ter feito eles menos clichês — ele teve que soltar pelo menos uma reclamação.

Eles passaram três dias completando as Quests, que quase sempre eram pesquisas sobre os Cinzões, os aliens que ficavam por lá. Havia até uma tropa especial de combate, os Meso Rangers. Depois de três dias de trabalho, todos os quatro foram declarados Ranger Laranja. Thugles reclamou que eles manchavam o nome "Rangers". Vampiritico concordava com ele.

Haviam upado bastante só nesses três dias. Davien e Vampiritico já estavam no nível 65 e os dois bruxos, 62. Agora eles entendiam por que Donnie — consequentemente, Rockfield — passara de nível tão rapidamente. Se soubessem quais Quests fazer, no nível certo, a EXP compensava a de matar monstros.

–Raramente upamos em monstros — Rockfield havia dito — O Donnie e os betas donaram várias Quests durante os testes. Tenho certeza que ele sabe o bastante pra se virar até mais uns bons níveis.

Depois de completarem todas — todas — as Quests do Setor Ômega, decidiram que era hora de ir para El Nath. A viagem levaria cerca de quatro dias, passando por Ludibrium, tomando o navio para Orbis e então descendo a torre para chegar ao continente.

Rockfield queria partir imediatamente, mas Davien reclamara muito de dores nas juntas e nos músculos. E os outros não estavam em melhores condições. Atirar shurikens com um simples movimento do pulso não custava muita energia, ao contrário de manejar uma adaga pra lá e pra cá enquanto pula e se esquiva, sacudir cajados e girar foices do tamanho da pessoa.

Por fim, eles acamparam num pequeno terreno gramado que ficava entre o Setor Ômega e a entrada para a Torre de Eos. A estrada que ligava os dois lugares passava pela grama curta com algumas árvores, e a terra ali era ligeiramente elevada em alguns pontos. Escolheram um outeiro e montaram a cabana entre as árvores.

Rockfield, cuidadoso, inicialmente não se sentia à vontade dormindo num acampamento como aquele. Se estivesse sozinho, seria fácil se jogar no chão e confiar que a armadura preta o esconderia completamente. Mas um acampamento, com duas barracas e algumas pessoas, aumentava o risco de serem vistos.

–Eu fico de guarda — disse antes de se deitarem — Vocês podem ir dormir.

Davien não viu motivos para desobedecer e foi o primeiro a deitar. Mas mesmo Rockfield era um ser humano e precisava de descanso. E pra falar a verdade, o membro mais forte do grupo era o próprio Rockfield. Não seria bom se ele estivesse cansado e querendo dormir quando uma gangue ou algum outro perigo surgisse.

Ele acabou aceitando que Vampiritico cuidasse da vigília por ele, e foi se deitar agradecido. O garoto era Gatuno, portanto sabia bem ficar escondido. Subiu numa árvore e ali ficou vigiando a entrada da Torre de Eos, à esquerda, e o Setor Ômega à direita.

O rapaz suspirou, cansado. Fazia pouco mais de um mês que estavam naquele jogo, e ele realmente sentia saudades de casa. Do MinarForest, do seu bairro, do seu quarto... E até mesmo das intermináveis obrigações que a escola lhe oferecia. Mesmo assim, estava adorando o jogo. Ele achou que, se eles tivessem a opção de sair do jogo, MapleStory Online seria seu jogo favorito.

–Perdendo minha vida para um jogo — ele resmungou com ironia.

Mas logo se arrependeu de tê-lo feito, pois alguém acabara de se mover para fora da Torre de Eos. E estava indo justamente na direção do acampamento.

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"Uma Gatuna, com certeza" — Vampiritico adivinhou.

A menina que saíra apressada da Torre de Eos estava ao lado da estrada, bem na frente do acampamento. Se ela andasse mais um pouco, se seguisse os instintos, encontraria as duas barracas e o grupo de pessoas que dormia ali.

Quando ela se aproximou um pouco mais, o rapaz ficou surpreso ao constatar que se tratava de uma garotinha muito nova, provavelmente entre dez e doze anos de idade. Ela poderia estar apenas andando no meio da noite, mas se esse fosse o caso, não estaria parada exatamente naquele lugar, olhando para as árvores como se procurasse alguma coisa.

"Procurando alguém pra roubar", ele pensou com tristeza.

Não era raro que crianças fingissem estar procurando ajuda e, quando algum coração amolecido a acolhia, um bando aparecia repentinamente e anunciava o assalto. Ele cerrou os dentes, enojado. Geralmente, essas crianças eram forçadas a fazer isso. Se não agissem como se estivessem feridas e procurando ajuda, um arqueiro ou um pistoleiro fariam com que fingir não fosse mais necessário.

E isso era um verdadeiro problema. Acontece que, às vezes, apareciam crianças realmente feridas procurando ajuda, e as pessoas que viam as evitavam de propósito.

Vampiritico estava indeciso. Ele sabia bem que ela talvez não fosse o que parecia, mas não conseguiu imaginar que tivesse alguma emboscada por trás disso. "Nunca parece", pensou. Por outro lado, ele não pressentia nada na estrada. Desde que virara Gatuno, havia adquirido um senso de percepção incrível, e sua audição melhorara incrivelmente. Se bem que, se ela fosse mesmo uma isca, os autores da emboscada saberiam como se esconder e evitar serem detectados.

Isso dividia o garoto sobre o que ele devia ou não fazer. Se fosse Thugles ou Nick, a menina já estaria ao lado deles, enrolada em um cobertor enquando recebia alimento.

"Ou todos nós estaríamos na mira de flechas", ele lembrou.

Mas ele achou que deveria ajudar a garota. Se algo desse errado, poderia fugir e deixá-la se ver com os emboscadores. Ele conseguiria fazer isso. Naquela noite sem luar, dificilmente alguém o veria fugindo. Ninguém teria motivos para pensar que Vampiritico não estava sozinho e que havia mais pessoas ali nas árvores.

Ele estava para se decidir quando ouviu passos leves. Também vinham da torre, correndo silenciosamente pela terra. O menino observou, curioso. Talvez não tivesse sido má idéia relutar e ficar nas árvores.

Mas ele se arrependeu no mesmo instante. Assim que se aproximou da garota, uma figura maior colou-se às costas dela, uma mão atrás e outra tampando a boca que se abrira num grito de dor e surpresa. O assassino a empurrou e ela caiu com uma boneca de trapos no chão.

Vampiritico observou a figura vasculhar o corpo por alguns instantes e então seguir a estrada para o Setor Ômega. Ele respirava com dificuldade agora. Não foi difícil imaginar o que tinha acontecido: a menina, provavelmente uma gatuna, estava fugindo quando sentiu a presença de alguém. E pôs-se a procurar, esperançosa, parando e dando tempo para que alguém chegasse e terminasse o serviço. Tinha tido um bom tempo entre o momento em que havia visto a garota e quando o assassino apareceu. Poderia tê-la salvado, mas ao mesmo tempo, o assassino o veria. E descobriria a posição deles. Mesmo assim, ele estava ali, poderia ter feito alguma coisa...

Esses pensamentos os distraíram por vários momentos. Por esse motivo, não percebeu a figura silenciosa que subia pela árvore até que algo bateu em sua cabeça e ele caiu de barriga no chão.

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El Nath estava fria e selvagem, como sempre. A pequena vila, aninhada no meio de um agrupamento de colinas menores, ainda estava longe. Eles levariam pelo menos mais duas horas para chegar lá. Suspirando, Kiara simplesmente parou e se jogou no chão.

–Definitivamente, essas viagens estão me cansando.

Gatts não disse nada enquanto ela selecionava a grande pedra azul do inventário e sentava-se nela, sem se importar com o rapaz em pé ao lado dela. Carregando um peitoral de bronze com botas, tornozeleiras, protetores de ombro e uma cota de malha por baixo da armadura — sem falar na espada de lâmina longa que ele carregava no lado direito da cintura — ele estava com a maior carga física. Mas ele não a culpava. Sabia que nem o aço mais pesado do mundo seria mais difícil de carregar do que o coração pesado da amiga.

–Não falta muito — informou — E não estamos indo pra El Nath. É uma fenda no meio das montanhas que dá pra um campo largo onde o próximo item está enterrado, fica antes da cidade. Eu queria chegar lá antes que anoitecesse, vai ficar difícil procurar.

–Ah, desculpe se estou te atrasando — ela rosnou para ele.

Gatts não respondeu. Brigar com Kiara era a última coisa que ele gostaria que acontecesse naquele momento. Era a única amiga que tinha desde... Bem, desde muitos anos. Já se passaram muitos anos desde a época em ele fora um rapaz animado e extrovertido.

Além disso, ele ainda se sentia culpado pela morte do gato de Kiara. Se ele tivesse entregado a espada... Talvez, ele pudesse tê-los seguido e a recuperado, mas sabia que seria impossível. Se tinha uma coisa em que bandidos eram especialistas, essa era fugir para longe do perseguidor. Mas isso não mudava em nada...

–Kiara — ele chamou bruscamente, e ela olhou para ele. Gatts corou. Não sabia bem por que a tinha chamado, mas agora que o tinha feito, precisava dizer alguma coisa — Hã, bem, é... Me desculpe — ele decidiu dizer, derrotado. Sabia que ela não queria ouvir desculpas, mas não tinha algo melhor para dizer.

–Pelo quê?

Ela o olhava verdadeiramente sem entender. Gatts pigarreou e continuou.

–Sabe, é que... Olha, me desculpa. Se eu tivesse dado logo a espada, não teria tido nenhuma luta. Eles teriam ido embora e eu estaria sem uma arma. Poderia comprar outra, não seria a mesma coisa mas... Poderia substituí-la. E você não pode substituir o Rayko.

No fundo, ele sabia que ela não ia explodir e começar a enchê-lo de tapas. Ela o olhou, e ele se perguntou o motivo de estar tão tranquilo sobre como ela reagiria.

–Não foi culpa sua. Rayko morreu tentando me salvar. E...

–Salvando você — Gatts a interrompeu. Ela inclinou a cabeça.

–Sim, salvando minha vida. Mas foi você quem pôs o líder pra correr. Você também me salvou, e eu sou grata por isso.

Ele sacudiu a cabeça, resignado.

–Sim, mas...

–Gatts — ela o interrompeu, os olhos fixos nele — Não acho que tenha sido culpa sua por ele ter morrido. Nunca achei. Se você tivesse feito o que aquele nojento pediu, seria eu quem estaria lamentando agora. Eu iria pensar que, se você estivesse sozinho, teria lutado contra eles, mas como eu estava lá com você, você não quis arriscar e entregou o equipamento mais importante da Quest que você faz desde o começo do jogo. Você e ele me salvaram. Isso é o que importa.

Ela continuou a sustentar o olhar dele, firme, determinada. Mas por trás disso, havia a dor. A dor de perder um amigo. Então Gatts se lembrou de que não gostava de falar sobre o fato de que ele mesmo não tinha amigos, e imaginou que a situação estivesse sendo ruim para ela da mesma maneira. Talvez ela não quisesse falar sobre Rayko...

Ele sacudiu a cabeça. "Estou tentando entender as pessoas demais ultimamente", pensou.

–Por que você sempre senta nessa pedra? — ele perguntou, mesmo que ela já tivesse lhe contado, querendo mudar de assunto. Dessa vez, contudo, a resposta foi mais detalhada.

–Ela recarrega meu MP — disse, a voz mais tranquila — Além disso, me traz uma sensação de paz e de serenidade que não sei explicar. E ela também é fresquinha, acho que poderia ficar sentada horas a fio pensando na vida. Não que eu vá ficar horas aqui — acrescentou, com um sorriso.

Gatts olhou para baixo, sorrindo também. Ela parecia estar recuperando seus modos alegres e agradáveis, e isso era bom. Ele já havia perdido um animal de estimação antes do jogo, e conhecia o sentimento. Mas depois de um tempo, a pessoa conseguia atenuar a perda, mesmo que, no caso, ele tenha levado várias semanas. Não pela primeira vez, constatou que Kiara era mais forte do que parecia.

Depois de alguns instantes, ela se levantou, decidida.

–Vamos embora. Não vamos chegar na sua armadura se ficarmos parados aqui, não é?

–Não sei se é uma parte da armadura — ele a corrigiu — Pode ser um fragmento, é verdade, mas também podem ser as luvas, ou pulseiras, ou protetores de joelho...

–Que são partes de uma armadura — ela insistiu. Gatts ergueu as mãos, derrotado.

Eles caminharam um pouco mais leves do que antes, às vezes fazendo comentários sobre a paisagem, sobre a busca e soube o que fariam depois dela. Mas o ânimo que sentiam foi levemente prejudicado quando perceberam que haviam julgado mal a distância até a cidade. Esperavam chegar em menos de duas horas, mas o caminho era cheio de colinas que subiam e desciam, e pontos onde haviam penhascos relativamente altos que os obrigavam a dar a volta, atrasando ainda mais. De fato, já estava escuro quando eles finalmente se aproximaram das montanhas onde o próximo artefato da busca estaria escondido.

–Vai ser difícil procurar nessa luz — Gatts disse baixinho — Quer dormir e esperar até de manhã?

Kiara sorriu para ele.

–E atrasar ainda mais essa sua busca chata? Nada disso. Vamos começar a procurar. Talvez a gente encontre alguma coisa, não estou com sono mesmo.

Gatts concordou. Agora que estava perto do item, não achava que fosse conseguir dormir enquanto esperava amanhecer.

Eles se puseram a procurar, apalpando as montanhas e parando ao menor sinal de uma fenda. Ali, as montanhas se erguiam e se juntavam, e segundo o cartão de madeira no estojo da espada, eles deveria apssar por uma fenda estreita e quase imperceptível, que logo se abria para um terreno mais amplo. Eles acharam que não seria tão difícil: bastaria passar pelas rachaduras até achar uma larga o bastante.

Descobriram da maneira mais rústica que a coisa não era bem assim. Afinal, o ferreiro havia sido exilado e tinha escondido as armaduras para ninguém encontrar. E o que mais tinha nas montanhas de El Nath eram fendas na rocha. Havia algumas que davam lugar a passagens, mas elas terminavam tão rápido e eram tão estreitas que era fácil constatar que não havia nada ali. Houve uma vez em que o corpulento Gatts ficara preso em uma delas, custando vários minutos para tirá-lo dali.

Sem a luz do sol para ajudá-los, eles tinham que entrar em cada uma das fendas, que na escuridão eram rasgos negros e misteriosos, todos parecendo ser o lugar que ele procurava. Não iriam se arriscar a acender alguma luz, principalmente naquele lugar. Eles nunca sabiam quando poderiam aparecer bandidos — na verdade, o pensamento de que Dark Corpse fosse esquecer o que tinha acontecido jamais havia passado pela cabeça do guerreiro.

A busca durou horas, sem nenhum resultado além de alguns arranhões e a descoberta de que o jogo ficava mais real a cada dia. Cortes superficiais eram facilmente curados por Kiara, mas ardiam como arderiam na realidade. Ele tentou não pensar em seu corpo, preso numa máquina, e no que estaria acontecendo com ele. Afinal, organismos precisavam de alimento. E precisavam eliminar dejetos produzidos, e se ficassem muito tempo parados sem se mover, os músculos se enrijeciam e atrofiavam. Como o jogo cuidava disso, era um assunto que ele não estava disposto a discutir. Mesmo assim, ele pensou no assunto mais uma vez quando a ponta de uma rocha abriu um doloroso corte no braço esquerdo.

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Ele encontrou o que estava procurando cerca de três horas depois de começar.

Kiara ainda apalpava e abraçava as rochas, parando com um gesto do guerreiro. Depois de horas tateando na escuridão, ele passara a um estado automático e procurava as fendas quase sem perceber o que fazia. Ele sentiu, mais do que viu, quando encontrou o lugar que procurava.

Era uma ligeira abertura à sua esquerda, larga o bastante para uma pessoa passar. Mas a maneira como ela estava localizada na rocha não dava a impressão de que havia algo além dela. Entretanto, Gatts sabia que havia. Não sabia como nem por quê, mas tinha certeza do que seu instinto lhe dizia.

Havia alguém ali.

–Achou? — ela perguntou, e ele imediatamente ergueu a mão pedindo silêncio.

–Eu gostaria que pudéssemos conversar — Gatts disse bem alto, a voz batendo nas paredes da rocha e ecoando fundo lá dentro. Pelo barulho, Kiara soube que havia alguma abertura maior lá dentro. Mas não sabia dizer por que ele falara naquela altura.

Ele tinha recuado alguns passos para trás e, com um gesto, indicando que a garota deveria permanecer encostada à parede, numa saliência da rocha. A escuridão a ocultaria perfeitamente, já que qualquer pessoa olharia diretamente para Gatts. Para garantir ainda mais, ele acendeu uma tocha para que a escuridão, por contraste, protegesse a garota do olhar de qualquer pessoa que estivesse na luz.

Esperou alguns momentos, e finalmente alguém saiu de dentro da rocha. Gatts teve o cuidado de não ficar diretamente na frente da abertura — não queria que uma flecha ou uma shuriken o atingisse de surpresa. Todavia, o jovem que saíra da fresta não usava garra ou arco. Vestia um casaco azul e calça jeans com tênis, e estava armado apenas com um cajado de madeira. Ele era alto, negro e de cabelos curtos.

O olhar dele era firme, o que despertou algo na mente de Gatts. Sair da segurando de um abrigo para encarar um estranho era uma ação totalmente imprudente, pois Gatts poderia ter arqueiros escondidos na escuridão atrás dele, por exemplo. Aquele homem, contudo, tinha uma expressão que mostrava que sabia exatamente o que estava fazendo. Ele podia apostar que ele sabia como se defender. E também que havia mais pessoas no fundo da fenda na rocha, prontas para agir se o estranho fosse uma pessoa com más intenções.

–Olá, amigo — Gatts cumprimentou com um movimento de cabeça. O olhar do outro rapaz não mudou.

–Olá — ele disse numa voz levemente arrastada e levemente vaga e firme ao mesmo tempo. E não falou mais nada. Respirando fundo, Gatts tornou a falar.

–Estou fazendo uma Quest por aqui, e ela me manda pra essa fenda. Gostaria de entrar e terminar.

Um sorriso sarcástico apareceu na mente do rapaz, e Gatts soube no mesmo instante qual seria a resposta.

–Não entendo por que uma Quest te levaria pra onde estou dormindo — ele disse no meso tom de voz, desta vez com um leve toque que insinuava que ele não queria discussões.

–Eu também não, acredite — Gatts disse num sorriso, sincero e diferente do esgar sarcástico do rapaz à sua frente — Escute, só vou entrar e pegar alguma coisa que não sei o que é. Depois disso, vou embora e não vou mais perturbá-los.

O uso do plural deixava claro que ele sabia que o rapaz não estava sozinho. O mago olhou para o guerreiro de armadura à sua frente. Parecia confiável. Se fosse em outro lugar, estaria disposto a acreditar e a deixar que ele entrasse. Mas naquele exato lugar? Não. Era suspeito demais. Ele simplesmente ergueu uma sobrancelha e disse com a voz firme.

–Receio que não — ele disse em um tom definitivo — Mas sairemos daqui a alguns dias. Você pode voltar e procurar à vontade depois disso.

Por algum motivo, ele não esperava que Gatts dissesse "tudo bem, vou sair e quando vocês saírem, eu volto. Boa noite". Como previsto, o grande guerreiro balançou a cabeça com impaciência.

–Ah, nada disso. Não vim aqui e fiquei horas me cortando nessas rochas pra me enrolar na neve e esperar você. Eu juro, só vou entrar e pegar, não vai levar mais do que dois minutos.

–Como eu disse, receio de vou ter que te impedir — o outro disse com um sorriso frio.

–Então vou lutar com você — Gatts falou, e na mesma hora o rapaz de cajado estreitou os olhos. Eles se encararam, sem medo, prontos para começar o que parecia ser o inevitável.

–Parem!

[s]Das sombras, um rapaz magro e alto surgiu e[/s]

Uma garota apareceu na luz da tocha, e o mago ergueu o cajado levemente. Relaxou ao ver a menina de cabelos azuis e túnicas brancas. Já a tinha visto em El Nath, quando ela fora para a Mina dos Mortos. E ela havia sido muito gentil com um de seus amigos. Isso deveria ser suficiente para que ele confiasse no rapaz, mas ainda assim, não estava disposto a ceder.

Aquele poderia muito bem ser um dos hackers disfarçado. Ele não pensaria isso se estivessem em outro lugar, mas ali, naquela fenda em El Nath...

–Não há necessidade de lutar — ela gritou com voz aguda — Pelo amor de Deus, vocês não podem entrar num acordo tranquilo sem usar violência?

–É o que estou tentando fazer — disse o bruxo, mas ela balançou a cabeça.

–Não é o que parece. Aqui, eu vou entrar. Você não acha que eu vou tentar alguma coisa, acha?

–Não — o rapaz concordou — Mas eu tenho motivos pra desconfiar de vocês, acredite.

Kiara suspirou e ergueu os olhos para cima, sussurrando alguma coisa sobre meninos não saberem resolver uma situação adequadamente. Ela abriu seu menu e tirou a pesada rocha azul do inventário. No mesmo instante, o bruxo arregalou os olhos.

–Onde conseguiu isso?

–Espere eu pegar... seja lá o que for... E eu conto a você — propôs — É a segunda coisa mais valiosa que tenho aqui. Vou deixar com você como garantia.

–Hm...

–Donnie, deixa de bobeira! Eu dou conta se eles tentarem alguma coisa. Deixa ela entrar.

A voz parecia vir da própria rocha, e Gats confirmou estar certo ao supor que havia mais alguém com eles. Ainda com os olhou fixos nele, Donnie deu um passo para o lado e a garota entrou. Por um momento, o olhar dele foi para a grande rocha no chão perto dele. Era evidente que sabia das propriedades da pedra. A mão dele se adiantou para tocá-la, mas parou ao ouvir o inconfundível sibilar de uma espada sendo tirada da bainha.

–Você ouviu a menina. Quando ela voltar.

Donnie deu de ombros, afastando-se casualmente para mostrar que não tentaria roubá-la. Foram alguns minutos desconfortáveis, e finalmente Kiara saiu de lá com um pequeno artefato cor de bronze. Gatts pousou os olhos nele e instanteamente se alegrou. Era um fragmento da armadura! Se fosse o último, ele a completaria agora... Ainda faltariam as luvas e algumas partes, mas pelo menos o peitoral estaria completo...

–Opa, devagar aí! O que é isso?

Kiara mostrou o item a Donnie, que analisou com olhar crítico. Uma coisa pequena de metal, e que parecia... Poderosa. De alguma maneira. E isso era o bastante. Suas suspeitas sobre quem era aquele rapaz voltaram. Ele não precisou perguntar a Sheddeer para constatar que a pequena bússola agora apontava para aquele pedacinho de metal.

–É o item da minha Quest, como eu disse — Gatts falou, tentando ao máximo controlr a excitação que o dominava. O olhar de Donnie endureceu.

–Você não vai sair daqui com isso. É nosso. Estávamos procurando por isso. Sinto muito, mas não posso deixar você levar.

Kiara soltou um grito de advertência, mas era tarde demais. As mãos rápidas de Donnie retiraram o artefato de suas mãos, e ela foi jogada para trás. Gatts interveio, a espada mirando o coração do mago, mas foi impedida pela barreira amarelada e transparente de Kiara.

Ou melhor, idêntica à de Kiara. Donnie tinha o cajado erguido, a barreira de energia impedindo que Gatts entrasse. O movimento tampou sua visão por um breve segundo, e quando tornou a olhar, viu o segundo golpe do guerreiro.

O escudo de energia se desfez com um barulho, deixando o rapaz surpreso. A espada de Gatts agora estava coberta de chamas, a tocha apagada jogada no chão ao lado dele.

O olhar do guerreiro estava firme e lívido de fúria, a raiva de alguém que batalhara tanto por um objetivo e agora estava diante do último obstáculo que o impedia de concluí-lo.

–Como eu disse, vou lutar por ele — Gatts falou.

Donnie assentiu, o cajado pronto na mão direita. Com a outra, guardou o pedaço de metal no inventário. Quando falou, sua voz estava calma como antes, sem o menor sinal de medo da figura grande e flamejante.

–Uma luta, sem clérigos, sem poções de HP. Com as armas que temos aqui. Quem perder...

Ele deixou a frase no ar. Um sorriso sombrio surgiu no rosto do guerreiro.

–Feito.

O sorriso de Donnie se alargou ainda mais. Ele deu uma rápida olhada na direção da garota. Estava claro que não aprovava a luta, mas não havia o que pudesse fazer.

Subitamente, ele voltou os olhos para o guerreiro, e bateu o cajado com força no chão antes que ele pudesse reagir.

Gatts foi jogado para longe quando o ar pareceu explodir perto dele, lançando-o alguns metros das montanhas. Ouviu o "tzim" do teleporte de Donnie quando o mago se aproximou. Rosnando, levantou-se rapidamente, dando-se conta de que a manobra tinha sido uma forma de levá-los para um campo de batalha mais aberto — afinal, Donnie estava encurralado entre Gatts e as imensas montanhas atrás dele.

–Então vamos começar! — gritou o rapaz, erguendo o cajado pronto para a batalha.