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6 A Gangue do Cara de Cavalo
Frio, úmido, árvores altas e espessas, de troncos escuros e cinzentos, grama molhada e folhas chovendo a todo momento, zumbidos e chiados misteriosos que pareciam vir de todos os lugares e, ao mesmo tempo, de lugar nenhum. Assim era o clima na Selva do Sono, onde Davien e seus três amigos caminhavam tensos, as armas na mão como se alguma criatura fosse sair das árvores a qualquer momento.
A caminhada até lá não tinha sido tão difícil quanto imaginavam. Com Davien como Lanceiro nível 33, os Javalis já não eram mais um problema. Mas desde que chegaram na entrada, um buraco no meio de um monte de árvores agrupadas juntas, ninguém havia dito uma palavra sequer naquela selva. Quem a visse de fora enxergaria um círculo meio ovalado, formado por árvores altas e escuras, que funcionavam como uma parede impedindo a entrada através delas. A entrada por Perion era uma pequena abertura sem o menor esforço para ficar escondida, e a escuridão que havia dentro dela era aterradora.
A visão de um guarda, um homem usando uma armadura completa de aço e elmo cobrindo o rosto, foi algo que deu um certo alívio aos quatro companheiros. Esperavam encontrar a entrada em um lugar isolado de tudo, mas ali havia um NPC, vestido para a batalha. Só quando se aproximaram dele descobriram que ele dormia profundamente, apoiado na espada larga fincada no chão. Decidindo que era melhor não incomodá-lo(Davien alegara que talvez fosse necessária uma quest pra poder entrar) eles passaram direto e pisaram no único lugar que nenhum deles havia visitado.
A Selva do Sono era estranha, para dizer o mínimo. De dentro dela, eles podiam ver as árvores que formavam as paredes internas do domo, mas a floresta não era fechada de modo a impedir que se andasse por ela. As árvores, entretanto, curvavam-se para dentro de modo que as copas se encontravam, criando um teto tão compacto que nem o mais tênue raio de sol escapava por entre as folhas escuras.
Mesmo assim, a Selva não era escura como imaginavam ser. Por toda parte, esferas que pareciam bolinhas felpudas flutuavam e se moviam no ar, algumas do tamanho de bolas de golfe e outras tão grandes quanto caixas d'água. Estavam sortidas em várias cores — verde, amarelo, vermelho, azul, todas elas num tom ou escuro ou claro o bastante para não serem cores quentes, proporcionando luzes sob a eterna sombra das árvores, criando um efeito tranquilo e bem agradável. Talvez fosse um dos motivos pelo qual o lugar tinha aquele nome.
Mas essa tranquilidade estava longe de ser absoluta. A cada passo que avançavam, cada nova olhada que davam às árvores sombrias e misteriosas, a tensão aumentava, os zumbidos se intensificavam, a sensação de estarem sendo observados se tornava mais e mais real. Não havia nenhum inimigo à vista, mas era como se algo estranho estivesse ali, algo poderoso, perigoso e ameaçador. Talvez, eles pensaram em silêncio, fosse outro motivo pelo qual o lugar era chamado de Selva do Sono.
-BUUUEEEEEEEEEAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Davien estacou no chão onde estava, ficando ereto como uma rocha.
-Quê isso, o grande Davien, famoso Lanceiro das legiões de Perion, assustado por um gritinho bobo? — Vampiritico riu, batendo na mão estendida de Thugles.
-Não teve graça nenhuma, Thugles! — ele vociferou, quase pensando em correr atrás do rapaz que recuara alguns passos, rindo.
-Três contra um, teve graça sim! — argumentou Nick, depois de se recuperar.
Não houve mais conversa por mais alguns minutos, mas o efeito da leve distração havia sido mágico. De repente, foi como se toda a tensão tivesse desaparecido, como se todo o medo e receio que estava guardado dentro deles tivesse escapado em um só susto. Porque, verdade seja dita, Nick e Vampiritico também não exatamente olharam tranquilamente para o rapaz e começaram a rir. Nick quase se encolheu, e e gatuno chegou mesmo a puxar a adaga e a virar-se na direção do som, o coração a mil. E não foi por acaso. O brincalhão estava esperando aquele momento fazia bastante tempo, quando todos estivessem concentrados demais na floresta ao redor, para então pôs as mãos nos ombros de Davien e gritar sem aviso. Quando descoberto o motivo, entretanto, Nick e Vampiritico não tiveram a menor vontade de demonstrar que também caíram na pegadinha.
Agora que a tensão havia passado, eles conseguiram até relaxar um pouco e até contemplar a exótica beleza daquela Selva. Eles ainda não entendiam o porquê de ela ser considerada tão perigosa, mas pensavam que os monstros estariam mais pra frente.
-Ali — Davien apontou, sem necessidade. Quando viraram uma curva por entre as árvores, encontraram um grupo de Drakes movimentando-se mas à frente. Ele não pensou duas vezes — correu na direção do grupo e os atacou.
-Fácil.
-Tão fácil quanto segurar as calças quando escuta um grito?
-Humpf.
Depois dos Drakes, só o que encontraram foi alguns Cogumelos Verdes e os constantes cipós que às vezes lhes caíam na cara. Finalmente eles chegaram num lugar onde um homem moreno meditava com os olhos fechados. Havia nele um certo clima de místico, mas não eram suas poucas roupas de faquir: era o fato que ele flutuava no ar.
-Ah... Sim, um grande guerreiro, sem dúvida!
Davien olhou para ele, mas era evidente que o homem se dirigia a Thugles — seu rosto estava virado na direção dele. Ele tinha uma expressão amena e cordial, como um pacífico homem que medita.
-Eu, senhor? Não quero ser grosso nem nada mas, hã, se o senhor abrisse os olhos ia ver que é o Dave quem...
-Ah não, meu rapaz, certamente me refiro a você. Você leu meus avisos e acabou com todos aqueles Cogumelos, não foi?
-Cogumelos... Ah, sim, foi sim! O senhor é o Lembrador?
O homem sorriu.
-Me chamam assim por aqui, e não é à toa. Posso ver uma multidão de Cogumelos Verdes, Laranjas, Azuis e Espinhosos pairando acima de você! Agradeço-lhe muito, meu jovem. Você ajudou a tornar essa terra mais segura para nós.
-De nada, quê isso — Thugles respondeu com um sorriso, então lançou um olhar significativo aos amigos, tentando ver se lembravam de quando ele completava as Quests das placas que encontrava pelos arredores. Depois de matar o número pedido de Cogumelos, ele deveria encontrar um homem chamado "O Lembrador", mas a placa não dava informação alguma sobre onde ele estaria. Agora ele tinha descoberto.
Mas agora Nick, Vampiritico e até mesmo Davien soltaram uma ligeira exclamação ao ver a EXP que o amigo ganhara, suficiente para subí-lo ao nível 35. E ele também havia recebido uma grande variedade de poções: pelo menos 300 Laranjas, 250 Brancas e 50 Elixires de Mana e mais um punhado de Vermelhas e Azuis. Alegre, ele as repartiu entre o grupo de acordo com as necessidades, ele e Nick ficando com a maior parte das de MP e Davien levando todas as Brancas.
Após andar mais um pouco, viram que estavam na pequena vila no centro da Selva do Sono. Era um lugar com uma pequena colina onde no topo havia uma sauna, onde eles tiveram um bom relaxamento. Abaixo da colina estava o zelador do depósito, algumas pequenas construções de madeira, um pesquisador, uma estátua estranha e as pessoas que viviam ali. Não eram muitas e nem havia Quest alguma para pegar, se não contar o Lembrador para entregar as das placas. Encontraram também um táxi que levava ao Túnel das Formigas, mas o preço era bem alto e o guia de Donnie não lhes dizia para ir até lá.
Na verdade, ele acabava na parte que dizia para irem até a Selva do Sono.
-Eu que não gostaria de morar aqui — Nick comentou observando as poucas casas com fachada de madeira escavadas na colina. Thugles pôs a mão no queixo.
-Sei não, aqui até que é bem bacana. Tranquilo e tudo, acho que os monstros fortes devem estar só pro lado de lá — ele apontava para a estrada que, depois de passar pela vila, conduzia a mais desconhecido.
-Bom, o Donnie não diz pra gente ir pra lá, deve ter alguma razão — falou Vampiritico — Sei lá, acho que devemos voltar.
Davien se enrijeceu.
-Voltar? Pra quê? E a caminhada que a gente fez, viemos aqui pra nada? Acho que é pra gente seguir naquela direção, ver os monstros que tem lá!
-Não sei... — Nick começou, a voz um pouco mais baixa que o normal — Seguindo a estrada tem menos daquelas bolinhas coloridas com luzes, ou seja, o lugar é mais escuro...
-Sim, quando fica escuro num mapa de jogo é porque fica mais perigoso — Thugles concordou.
-Pois eu não ligo se ficar mais perigoso — ele disse, embora com menos convicção.
Fez-se um breve silêncio.
-Então... Vamos voltar?
-Sei lá... A gente devia ver o que o Donnie recomendou pra cá antes, não?
-Acho que já vimos isso — Thugles disse e todos olharam para ele. A certeza se espalhou pelo rosto do rapaz enquanto ele assentia, compreendendo — É, agora já sei. Acabei de lembrar do Lembrador. Lembram? Por todo o caminho a gente viu placas com aqueles avisos, e a primeira coisa que encontramos aqui na vila foi o NPC pra entregar a Quest. Acho que ele queria que a gente viesse aqui entregá-la, pra ganhar EXP boa e poções. Vocês viram a quantidade que eu ganhei.
-E se todo mundo tivesse feito a quest, teríamos quatro vezes mais poções — Nick acrescentou — Seriam mais de mil poções ganhas de bandeja, e ainda por cima uma grande quantidade de Experiência. Acho que é isso que ele queria que a gente fizesse.
-Tá vendo só, cabeção, você e sua mania de não fazer Quest! — Thugles deu um soco em Davien. Sem ter como responder àquilo, ele apenas deu de ombros.
-Vai me dizer que aquela quest de matar cinquenta Lesmas foi importante?
O caminho para a saída da Selva do Sono foi marcado pela discussão entre o bruxo e o guerreiro, cheia de argumentos como "tá, mas a gente não tinha como saber qual era a recompensa"... "mas e aquela outra dos Porcos que deu conchas de Lesma?"... "é, mas teve aquela outra"... "sim mas e aquela outra?"... "e teve tal quest que..."
-Parem.
Os amigos obedeceram, mesmo que sem querer e por impulso. Estavam no meio da estrada, cercada dos dois lados pelas árvores(e com as esferas iluminantes flutuando), perfeitas para esconder um inimigo. A voz era firme e clara, vinda de algum ponto nas árvores que os rodeavam. Vampiritico mantinha os ouvidos bem alertas, tentando ouvir algum som que indicasse a presença de alguém naquela selva escura e aparentemente desprovida de outras pessoas. Como Gatuno, tinha habilidades que davam bônus extras a atributos como Detecção, e ele mesmo se impressionava com a maneira que seus ouvidos realmente ficavam mais apurados ao aprendê-las.
Ela ainda lhe seria muito útil no futuro, mas naquele momento não serviu pra muita coisa. Depois da ordem repentina, tudo o que se ouvia era o onipresente som do silêncio da floresta, mas era como se a ordem tivesse quebrado até isso. Parecia que a própria Selva do Sono estava prendendo a respiração, esperando, ansiosa, o conflito que ninguém duvidava que estava prestes a acontecer.
Não que isso fosse necessariamente o sinal de um conflito. Impaciente, Davien recomeçou a andar, pronto para gritar de volta.
E então ele recuou, surpreso, quase derrubando seus amigos que encontravam-se muito juntos com a tensão. No chão à sua frente, a milímetros de onde seu pé direito estava para dar o passo, era possível ver o brilho metálico do aço, cheio de pontas e semi-enterrado no chão.
-Uma shuriken — Vampiritico sussurrou, reconhecendo a arma que desaparecera poucos momentos depois de a fitarem. Então alteou a voz: — Escuta, vocês vão fazer a gente ficar aquin o dia todo? Apareçam logo e vamos acabar com a palhaçada.
Ouviu-se um leve riso seguido do farfalhar das folhas, enquanto os desconhecidos saíam de das árvores de ambos os lados da estrada.
O primeiro deles usava roupas leves que sugeriam um Gatuno: calça jeans, camisa preta de lá e tênis escuros, além de uma pequena adaga embainhada. Como todo bom Gatuno, ele deveria ter um gorro ou uma touca, mas não usava nada na cabeça — porque no lugar de uma cabeça humana, o que ele tinha acima do pescoço era uma grande e convincente cabeça de cavalo, com a boca aberta e os dentes à mostra em uma expressão meio abobada. Seu corpo era pequeno e delicado — ao contrário do homem que surgia ao seu lado. Gordo, atarracado e grande como um urso, seus músculos salientes podiam ser notados mesmo dentro da armadura prateada que usava. Seu rosto era fechado e abrutalhado, embora sua expressão não fosse exatamente hostil ou mesmo a de um valentão.
Do outro lado da estrada, saiu a mulher que obviamente atirara a shuriken, por causa da grande luva preta e dourada que ia até o cotovelo de sua mão direita que, segundo Vampiritico lhes mostrara horas atrás, servia para atirar as afiadas estrelas de aço dos Gatunos. Ela usava uma roupa escura com detalhes roxos que cobria praticamente todo o seu corpo, exceto as mãos, pés e cabeça, e ela parecia feita de material liso e colante, como o de uma espiã de filme de ação. Ao seu lado, vinha um jovem alto de cabelos brancos espetados meio que em triângulo, com um curativo esquisito na ponte do nariz.
-Ladrões de estrada. Tenho certeza.
-Não, Thug, primeiro que isso aqui nem devia ser chamado de estrada. Parecem mais um grupo de ladrões da Selva.
-Nossa, Vampy, como você é genial! Vem cá, já que você é tão bom assim, por que não dá um jeito nesse pessoal, hein?
O rapaz de cabelo pra frente fez uma careta.
-Epa, o que você quer dizer com isso? Ninguém falou nada sobre ladrões, não é, pessoal?
Quem falou foi o rapaz alto, o que dera a ordem para parassem. Eles se agruparam à frente deles, como que bloqueando o caminho. Estavam lado a lado, o gigante grosseiro e o alto e magro atrás, a espiã e o companheiro na frente. Pareciam estar fazendo pose pra uma foto.
-Só falta ser algum tipo de grupo impondo pedágio — Thugles resmungou. Davien apertou a mão em torno da foice.
-Pois eu espero que seja.
-Hue — saudou o rapaz-cavalo, com uma voz jovial um tantinho abafada — Tudo bem com vocês?
-Tudo.
-E aí, beleza?
-Ah, tudo bem. Vou ser direto, a gente estava ali escondido ali nas árvores, e... Bem... — o rapaz hesitou, coçando a cabeça pensativo — Ér... Esqueci o que a gente faz depois de encontrar o pessoal. O que fazemos mesmo, Dark Corpse?
-Estávamos procurando pessoas com dinheiro, pra gente trocar — disse o mais alto — Temos uma coisa bem valiosa aqui, que achamos que vocês poderiam se interessar.
Vampiritico riu.
-Bem, não estamos muito na época de poder comprar luxos valiosos e interessantes, mesmo porque a gente não tem tanto dinheiro assim. Mas dependendo do que seja...
-Ah, não se preocupem, é algo que vocês vão querer de verdade — disse a mulher.
-E que tenho certeza que terão como pagar — completou o urso.
Thugles assentiu.
-Uma coisa que a gente quer muito, e que temos como pagar. Puxa, que negócio fácil! Fechamos antes de sabermos o que é... Por falar nisso, o que é que vocês têm aí, e quanto custa?
-As vidas de vocês — disse a mulher com um sorriso.
-Valioso, muito valioso — riu o cavalo.
-E vocês têm como pagar, custa só todo o dinheiro de vocês — acrescentou o grandalhão.
Eles hesitaram um momento, o rosto de Nick parecendo explodir com a idéia, mais ainda, com a casualidade com que eles faziam a proposta.
Davien se voltou para os amigos.
-Tinha que ser, tava demorando aparecer alguém com essas viadagens.
-Ouçam — Dark Corpse começou, dando um passo a frente — É muito simples. Vocês nos dão dinheiro, muito dinheiro, não temos como saber quanto vocês têm mas, se tiverem bom senso, vão saber o quanto nos dar para ficarmos satisfeitos. Se não quiserem, lutamos aqui mesmo e pronto. Podemos matá-los agora mesmo, de qualquer maneira.
Davien fez uma careta.
-Cara, olha bem pra mim. Agora olha pra essa foice. Acha mesmo que alguém que conseguiu uma arma dessas ia entregar os pontos fácil assim?
A mulher olhou para o lado em uma risadinha. O urso abriu um sorriso perverso, mas o rapaz apenas suspirou.
-É, você é o que eu achei que daria mais problema. Mas sabe, a gente pode...
Sem qualquer hesitação ou alteração na voz, ele atacou. Thugles gemeu e pulou para trás, assustado, as duas pistolas de volta à cintura do rapaz antes mesmo que eles pudessem registrar o movimento, antes mesmo que o som dos disparos morresse encoberto pelo silêncio da selva.
As balas não eram fortes o bastante para empurrá-lo, mas o susto certamente era. Thugles caiu sentado no chão, e teve que beber uma Poção Branca para recuperar o dano que, por sinal, havia sido alto. Vampiritico lhe lançou um breve olhar de indagação, mas logo voltou a olhar os invasores, compreendendo. Ele poderia ter se curado com a habilidade, mas achou que não seria sensato demonstrarem suas classes e habilidades tão cedo. Mas ele e Nick convocaram suas Proteções Arcanas, já que não havia como esconderem que eram bruxos.
-Isso em um golpe, sem habilidades, sem nada — o rapaz tornou a falar, a expressão inalterada — Agora imagine nós quatro em cima de vocês. Não subestimo sua força, mas podem apostar que contaremos algumas mortes no seu grupo. Mesmo que consigam nos derrotar, o que acho improvável, vocês se arriscariam a perder um de vocês?
Era um argumento forte, pesado e, acima de tudo, verdadeiro. Até para Davien, que mal podia controlar a fúria, estava sendo uma decisão difícil. Ansiava por dar uma lição naqueles quatro, mas será que valeria a pena? Poderiam facilmente perder um deles, e os mais óbvios eram Nick e Thugles. E, mesmo que esse pensamento não passasse pela sua cabeça, certamente se passava na dos demais: havia alguma garantia de que eles poderiam vencer aquela batalha? Como que para reforçar esse pensamento, o homem mudou a espada de posição e o rapaz-cavalo puxou um arco das costas, uma flecha preparada.
Thugles analisou o quarteto com cuidado. Dark Corpse, o mais alto, era incrivelmente rápido e poderoso. A mulher demonstrara uma excelente precisão com aquela shuriken, o grandalhão parecia bem à vontade com sua espada(e também em uma boa briga). Quanto ao rapaz com a cabeça de cavalo, a falta de um rosto visível dava uma certa impressão sobre ele, e mesmo assim ele não parecia nada indefeso. Mas, mais ainda, era a segurança e a simplicidade com que eles falavam. Os sorrisos, as expressões tranquilas e o tom casual deixava claro que não era a primeira vez que faziam aquilo, o que só podia significar que já tinham obtido sucesso em roubar outros jogadores antes... E que haviam lidado bem com pessoas que tivessem se recusado a dar dinheiro a eles. Não havia o tom arrogante e superior presente em assaltantes comuns de jogos e filmes. Aquele era um grupo experiente, que sabia muito bem como agir e que não hesitaria em matar os quatro, se eles se demorassem muito mais.
-Davien — Vampiritico suplicou para o amigo — Eu... Acho que eles têm razão. Vamos entregar parte do que temos, pelo menos saímos vivos.
-Não se preocupem, prometemos que vamos deixá-los em paz depois disso — falou o rapaz-cavalo — Podem confiar... Mas vocês não têm muita opção senão confiar, né? HUE
-Vamos ficar um do lado do outro pra parecermos fodões — Thugles acenou pra Nick, e ambos encostaram os ombros, formando uma parede com Vampiritico atrás deles. Davien avançou, mas a mulher ergueu a mão.
-Pare aí! Não tem necessidade de chegar perto. Só manda pra gente o dinheiro e pronto.
Ele suspirou e fechou as mãos, confirmando as suspeitas da gatuna. Ele iria tentar alguma coisa, talvez atacá-los com a foice quando estivesse muito perto. Isso ficou claro com a careta que ele fez, mas obecedeu. Abriu o menu com uma das mãos, batendo nas teclas com força demais.
O rapaz alto abriu o próprio menu e ergueu as sombrancelhas.
-Pedido de troca? Tem um sistema pra enviar itens, era só você ter mandado o dinheiro, não precisa pedir troca.
Davien resmungou.
-Aceita logo a porra da troca, caralho.
-Noob idiota — a gatuna sacudiu a cabeça em um sorriso de desaprovação.
-Bom, vou mandar cem mil mesos... E mais uns equips toscos aí, serve? Tá bom pra vocês — o guerreiro rosnou, com o desprezo escapando sem que ele se controlasse. Dark Corpse pareceu pensativo.
-Hm... É, acho que tá bom. Também não queremos deixar vocês sem nada pra morrer aí na selva, afinal vocês cooperaram, não é mesmo?
Ele colocou dez mesos no pedido de troca, porque não era permitido que apenas um dos lados entregasse o item. Ele apertou o botão de aceitar, só faltava Davien aceitar do outro lado. A janela de troca, porém, fechou-se, com a mensagem de que o outro jogador a cancelara. Corpse olhou para ele, a janela de cancelamento ainda aberta...
O grito da mulher foi longo, surpreso e sofrido, a cabeça jogada pra trás acima das costas arqueadas de dor, os olhos arregalados numa careta paralisada com a espetada excruciante no meio das costas. E sem hesitar, sem a menor compaixão pelo que havia acabado de fazer, o pequeno Gatuno puxava a adaga e preparava um segundo golpe...
Corpse, porém, foi mais rápido. Bem mais rápido. Mal Vampiritico reaparecera e as pistolas já estavam novamente nas mãos magras, dessa vez descarregando suas balas com toda a rapidez que seu dono podia oferecer.
O garoto recuou e correu para longe da mulher, assustado. Tinha a vantagem de contar com toda a velocidade e agilidade de um Gatuno, mas a precisão do rapaz alto era incrível. Não importava por onde ele corria, as balas pareciam seguí-lo, uma após a outra em intervalos menores que um segundo, decrescendo sua barra de HP a uma velociade assustadora...
Havia sido uma jogada rápida, arriscada e iluminada. Eles não haviam se comunicado entre si ou discutido qualquer plano: a faísca que desencadeara tudo aquilo tinha sido o momento em que Vampiritico sugerira que entregassem seus mesos. Porque se havia alguém mais teimoso do que Davien em relação a ser dominado, esse alguém era o Gatuno que agora corria na tentativa de escapar das balas que o perseguiam. Os três sabiam que ele jamais concordaria em ser assaltado daquela maneira, que faria de tudo para escapar, fugir ou, pelo menos, perder lutando. Poderia até concordar, mas nunca de maneira tão fácil quanto fizera. E ele ter agido daquela maneira era algo tão absurso, tão estranho no comportamente do amigo, que eles só puderam supor que estava planejando algo.
Ele então puxara as mangas dos robes de Thugles e Nick para que ficassem na frente dele. Então usara sua Visão Noturna que, somada com seus níveis consideráveis de Camuflagem e Indetecção, permitira que ele desse a volta pela Selva e chegasse até as costas da mulher.
Ela provavelmente seria capaz de identificá-lo, sendo que era Gatuna, mas as habilidades de Vampiritico eram bem altas. Além disso, na eterna falta de luz solar da Selva do Sono, onde a única iluminação vinha de bolas coloridas que flutuavam e lançavam suas luzes tranquilas pela paisagem, era mais difícil identificar alguém. Mesmo estando bem iluminada, a selva ainda era escura o bastante no chão, de modo que o rapaz não teve trabalho para chegar atrás dela. Estocadas por trás com armas curtas como a adaga causavam dano extra se o alvo fosse pego de surpresa.
Ele pretendia matá-la. Não via nenhuma outra chance, preferia fazer aquilo do que arriscar-se a perder Nick ou Thugles ou mesmo Davien. Só que sua habilidade tinha uma desvantagem: quando atacasse, a invisibilidade sumiria[s](invisibilidade que some é ótimo)[s], permitindo o contra-ataque do pistoleiro. O garoto não teve escolha senão fugir para evitar a rajada de balas, mas o dano que causara a mulher, pelo fato de ela ter sido pega de surpresa e pelas costas, causara-lhe uma dor tão grande que a derrubara.
Com reflexos um pouco mais lentos, o grandalhão foi para frente ajudar a companheira, mas foi impedido por uma Garra Gélida de Nick, paralisando-o instantaneamente. O outro integrante do grupo ergueu sua arma, mas Davien já estava em cima dele, e logo estavam ambos os quartetos envolvidos na briga.
Os trios, na verdade. Vampiritico ainda corria pela floresta, com Corpse no seu encalço sem parar de atirar por um momento sequer. A gatuna, ágil, recuperara-se do golpe e escapara por um triz da fúria implacável de Davien, mas ele mal prestava atenção nela. Seu instinto briguento lhe apontava o oponente mais "enfrentável": o urso com a espada.
Os ataques com a foice eram rápidos, e o homem mal conseguia desviar. Fora atingido pelo primeiro antes de se recuperar do gelo, e agora disparava uma série de golpes desesperados e improvisados na tentativa de bloquear a estranha lâmina que o ameaçava continuamente, mas não era uma luta justa. O cabo da foice era longo, e ele duvidava que conseguiria atingir o rapaz com sua espada impropriamente curta para aquela batalha antes de ser feito em pedaços pela foice. Se fosse uma luta comum, foice contra espada, realmente esse era o resultado mais provável.
Como estavam em um jogo, ele achou que poderia tratar de usar as habilidades. Erguendo a espada à frente e a outraa mão fazendo uma curva no ar, uma parede de aço surgiu no momento em que a lâmina curva se preparava para tirar mais um pouco de HP. A surpresa e o desequilíbrio de Davien ao encontrar uma resistência sólida e inesperada foi o suficiente para que o adversário o flanqueasse.
Ao seu lado, Nick e Thugles enfrentavam a gatuna e rapaz-cavalo. O feiticeiro disparava Garras Gélidas contra ela, mas a mulher esquivava-se para o lado e para trás, até ele conseguir pegá-la com uma tempestade de raios. O rapaz com a cabeça de cavalo estava eprto demais para poder usar o arco, mas puxou um par de espadas curvas e curtas para tentar atingir Thugles. O Clérigo apenas recuava disparando Garras Arcanas, tentando impedir a aproximação dele ao máximo.
Quando ele abriu os dois braços para saltar e atacar com as espadas, Thugles deu um grito de aviso e Nick imediatamente trocou de oponente. A Garra Gélida, quando atacada de surpresa, podia paralisar o inimigo dependendo de como atingisse. Rapaz-cavalo tinha os braços abertos de modo a receber o golpe em cheio no peito. Antes que chegasse ao chão, estava sendo cortado pelas Garras.
A gatuna recuou ágil como uma gata e começou uma enxurrada de shurikens. Não era tão rápida quanto Corpse, mas ainda assim as estrelas de aço eram poderosas e causavam uma leve dor ao atingir a pele, uma sombra da dor real mas, ainda assim, muito perceptível. Agora Thugles usava a Cura, impedindo que ele e Nick morressem.
Ela puxou uma adaga e correu para atacá-los enquanto se curavam, mas foi bloqueada por Davien. Ele literalmente a segurou pelo colarinho e a jogou no chão, depois desceu a foice com toda a força no seu peito desprotegido. Ela gritou e rolou para o lado. Davien ergueu a arma novamente, mas sentiu alguma coisa muito forte em seu peito que quase o derrubou.
Ele se virou e viu Corpse correndo em sua direção, e um jorro de pânico atingiu os três companheiros. Se ele tinha parado de seguir Vampiritico, só podia significar duas coisas: ou ele havia escapado ou estava morto. E eles viram o que atingira o guerreiro: o rapaz mais alto erguia as duas pistolas uma junto da outra enquanto corria, então dava um tiro duplo que saía como um só. A habilidade fazia com que seus braços recuassem com a força, tornando os disparos mais lentos. Mas o HP que Davien havia perdido era assustador, e ele se aproximava...
A gatuna pegou uma shuriken, mas caiu no chão novamente, surpresa. Rapaz-cavalo também foi ao chão. Dark Corpse, ao perceber o que acontecia, pulou para um lado, e todos viram o pequeno objeto que passava zunindo pelo lugar onde ele estava um segundo atrás. Provavelmente, uma shuriken, mas quem havia atirado? A gatuna se levantava, parecendo tão atônita quanto eles, e ninguém queria discutir isso naquele momento. Vendo que só teriam uma saída, Thugles correu para o lado oposto da direção que vinham tomando. Nick o imitou e Davien, sem querer ficar sozinho, foi atrás, embora gritasse para que parassem e voltassem.
-Vampy! — Thugles gritou de repente, mas ninguém lhe respondeu. Olharam para trás rapidamente e viram apenas Dark Corpse seguindo-os. A gatuna certamente estaria escondida atrás deles, e Rapaz-cavalo talvez não fosse tão rápido.
Então, alguma coisa aterrissou no chão com um leve ruído. Era uma figura curvada, de roupas pretas e indefiníveis, e agora atirara uma shuriken para Dark Corpse, deixando-o ocupado. Os três amigos nem quiseram saber quem era seu salvador naquele instante — apenas correram ainda mais rápido. Em questão de minutos, o lugar do assalto ficou pra trás. Mas só pararam para respirar, ofegantes, quando chegaram numa casinha de cogumelos abandonada que indicava o começo de Henesys.
-Ufa — Nick disse ainda com dificuldade de respirar — Não acredito...
-Vocês viram aquele cara que apareceu depois? Jogou umas shurikens neles e depois apareceu ali... Vocês viram? Quem será que era?
-Não sei, Thugles, tá perguntando pra mim?
-Não, tô só perguntando pro nada, sei que ninguém aqui sabe quem é!
Levou mais alguns segundos até eles se recuperarem para discutir direito o que acabar de ocorrer.
-Mas eu vi você lutando contra aquele espadachim gordão — Nick lembrou, franzindo a testa — Depois atacou a mulher, por que...
-Ele já era — o rapaz disse em tom displicente. Não fazia diferença para ele. Na verdade, tanto melhor que conseguira levar um.
-Vocês acham que o Vampy tá bem? — Thugles finalmente perguntou, e eles inclinaram a cabeça sem resposta. Não duvidavam das habilidades do amigo, mas todos eles tinham visto a incrível rapidez do pistoleiro que se dizia Dark Corpse.
E aconteceu bem de repente. Enquanto pensavam no assunto, deram-se conta do que realmente havia acontecido. Que Vampiritico poderia mesmo ter morrido, explodido em um milhão de pedaços como Davien fizera com o grandalhão, ou como o Firstkeeper havia feito com Kevin...
-Ah quê isso, não acredito. Já estão chorando?
Eles se viraram surpresos e encontraram um Vampiritico meio sorridente, meio indignado. Usava as mesmas roupas de antes mas, fora um olhar cansado, parecia muito bem.
-Vocês acharam mesmo que eu não conseguia fugir daquele cara? Não foi fácil, mas no final eu consegui despistar n... Uuuuuf!
-ahvampyeunacreditovcvoltouaidigidiginaocrediseveipqpaaaaavolaeholecalageuakarkaragh
Eles riram, Vampiritico nem tanto, quando Thugles o apertou com toda a força que tinha e soltou uma enxurrada de palavras incompreensíveis rapidamente em um tom de quem fala com um gatinho fofinho. Ele era assim mesmo, estava apenas fazendo uma doidice boba para variar.
-Bom, a gente foi até a Selva do Sono — Nick disse, voltando ao tema principal — Pra onde a gente vai agora?
-Eu sugiro uns Drakes — Davien respondeu, embora sem muita convicção. Já sentira que a EXP dos lagartos não era mais tão boa assim, e isso fora a uns cinco níveis atrás. Durante toda a jornada, tinham sido guiados por Donnie e seu guia, mas agora eles estavm sozinhos, sem saber pra onde ir.
Houveram mais algumas sugestões vagas, até a quest de grupo de Henesys foi considerada, quando Thugles ergueu a mão para que parassem.
-Uma mensagem — exclamou, surpreso — É de um tal de Anônimo... Alguém aí conhece?
-Conheço, é o irmão do Próprio — disse Vampiritico — Mas eu tô mais interessado na mensagem, o que diz aí?
-Hm... É pra gente ficar fora da Selva do Sono. Só isso. Puxa, que cara legal! Agora que a gente sabe disso, não vamos entrar lá, vai que aparece alguma gangue tipo Gangue do Cadáver e resolve assaltar a gente?
-É, eles podem até matar o Vampy, já pensou? — Nick respondeu rindo.
-O Vampy esperava que fosse um aviso do Donnie dizendo mastigadinho aonde a gente tem que ir — o gatuno comentou com certo pesar, trazendo-os de volta às questões importantes.
-Não, eu acho que já sei pra onde a gente vai...
-É, aham.
-Claro, Thug. Qual Quest você está pensando, mesmo?
-Ei, eu não penso só em quest! — o rapaz retrucou indignado — Não, eu tive uma outra idéia... A gente vai pra... Pra... — ele fez uma careta enquanto se concentrava — Pra Henesys, pra eu perguntar pro táxi qual é o nome da cidade onde faz isso que eu quero. Come on!
E sem mais, correu na direção da trilha que leva a Henesys. Vampiritico olhou para Nick, um sorriso plantado nos lábios.
-Aposto que chego até lá primeiro que você.
Nick devolveu o sorriso.
-Eu digo o mesmo. Conta aí, Dave.
-Eu não, que bobeira, façam vocês mesmo a sua...
-Anda logo caralho, só contar de um a já, cacete! Lembra de P.A. com razão 1? De um a três, ou então se for muito difícil...
-Tá tá, um dois e já!
-HA!
-Ei, não vale, é trapaça!
O bruxo correu o máximo que podia, mas Vampiritico disparara na frente com seus bônus de Gatuno. Não eram só os bônus passivos, mas também seu sapato Gomushin e uma habilidade, Haste, que aumentava sua velocidade e altura que ele pulava, o que lhe dava uma vantagem avassaladora sobre o rapaz(sem contar que, mesmo na escola, Vampiritico sempre fora o mais rápido). Estava mais na metade do caminho — não era do tipo que ficava correndo devagar logo na frente só pra zoar, ele corria sempre o máximo que podia, logo alcançaria Thugles e enfim, Henesys.
Corria o mais que podia, olhando para a estrada que se aproximava cada vez mais. E de repente, algo desviou sua atenção, alguma coisa ao lado dele: as costas de Nick.
O menino corria, mas erguia o braço a intervalos regulares, então sumia numa leve luz azul que fazia um "tzim" antes de enviá-lo para um ponto a alguns metros à frente: estava teletransportando-se até a cidade, alguns metros por vez.
-Ladrão, vigarista, trapaceiro duma figa, roubador do caralho! — gritou para um Nick que não parava de gargalhar nos portões de Henesys.
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