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7 A Terra do Gelo e as Cavernas de Fogo


A vila de El Nath, apesar do que se ouvia, não era tão perigosa e assustadora assim. Pelo menos, não a cidade em si. Lobos, pinguíns assassinos, monstros da neve... Tudo isso cercava os arredores do vilarejo. Mas dentro da cidade, havia segurança.

Uma vez que se acostumasse com o clima incrivelmente frio, era possível apreciar a beleza selvagem da região. A vila de El Nath ficava bem no meio de uma cadeia de montanhas, imensas e com os picos cobertos de neve, em uma visão que tinha sua própria beleza intocada e perigosa. As lojas e casas eram todas feitas de madeira, e todas as pessoas usavam grossos casacos e capas de pele para se proteger do vento, até mesmo os que já estavam acostumados a viver ali. Mas também, eles eram todos NPCs. Se estavam numa cidade congelda, fazia sentido que estivessem usando roupas de frio.

Eles, porém, não eram capazes de sentir o que Gatts sentia. Mesmo que as armaduras do jogo tivessem um revestimento especial por dentro(justamente para evitar isso), elas ainda esfriavam muito e de nada serviam para reter o calor, tampouco seu capacete. As botas novas de bronze estavam no inventário: A neve que se acumulava no chão era muito escorregadia, e ele teve que comprar um par de sapatos especiais para a neve em uma loja. O que mais lhe proporcionava conforto era a capa que conseguira numa demorada quest com Scadur, um caçador local.

Apesar de tudo, ele podia ver pessoas conversando nos bancos, andando pelas lojas, chaminés acesas e portas se abrindo. Triste, ele olhou para um dos chalés. Era pequeno, mas tinha dois andares e parecia bem confortável. Em todas as cidades do jogo, era possível se comprar uma casa, mas custava bem caro, e não fazia sentido para alguém como ele. Gatts não era um jogador que pudesse se dar ao luxo de ter um lar para se estabelecer. Ele era um nômade, focado em completar sua árdua e complicada busca.

Parando apenas para comprar poções e dar uma olhada desanimada nas caríssimas armas da cidade, ele puxou o mapa apesar de não precisar dele. Já o tinha memorizado depois de tantas vezes que olhara, como fizera com os anteriores. Suspirando, ele começou a caminhar na direção da Mina dos Mortos.

Desde que começara sua viagem, havia praticamente rodado o mundo. Achara o NPC em El Nath e então ele o mandara para Ariant, depois Mu Lung, Ellinia, Ludibrium, Perion e agora de volta a El Nath. Ele ia o tempo todo da Ilha Victoria para o continente de Ossyria, indo e voltando. Não seria mais fácil mandá-lo resolver tudo o que tinha num lugar antes de enviá-lo para outro? Estava em Ludibrium, depois fora a Perion, e agora estava de volta ao continente. Mas também, se fosse fácil, não seria a grande busca ao qual ele havia se dedicado, não seria a árdua tarefa que ele se esforçava tanto para completar.

Estava prestes a sair de El Nath quando viu o táxi. Um carro preto, grande e confortável, que ele logo descobriu que deixava na entrada para o caminho até a mina. Mas desistiu quando o táxi disse o preço: 45.000 mesos. Era mais caro do que sua espada e sua armadura juntas. O paladino balançou a cabeça, frustrado. Tinha dinheiro para pagar até três viagens dessa, mas não queria gastar.

–Uma caminhada faz bem — ele resmungou para si mesmo, pisando determinado na neve que ficava mais densa à medida que ele saía da cidade.

Os primeiros monstros que encontrara foram os lobos. Grandes, achatados e com presas bem maiores que um lobo real, eles não hesitavam em atacar ao ver alguém se aproximando. Não era como os Cogumelos e Drakes da Ilha Victoria, que podiam deixar a pessoa em paz se ela também o fizesse. Ali, os inimigos atacavam quem quer que chegasse.

E, naquele caso, se arrependiam logo depois.

A Experiência que os lobos davam a Gatts era mínima, apesar do nível elevado daqueles monstros. Ele seguiu seu caminho sem problemas. A maioria dos lobos que via eram brancos como a neve, e à medida que se afastada de El Nath eles iam ganhando um tom cinzento, que eram os mais perigosos.

Mesmo que os monstros não fossem problema, o caminho representava um desafio por si só. Os primeiros passos eram no chão nevado, mas depois de algumas centenas de metros começavam a surgir montanhas, tão íngremes e desoladas que ele era obrigado a usar as cordas que ficavam lá penduradas por ganchos de metal. Na sua escola, ele jamais fora bom em subí-las, mas ali no MapleStory, ele percebeu que conseguia subir usando elas com facilidade. Não sabia explicar, era como se ele sempre soubesse como subir numa corda. Como se estivesse sonhando.

E o jogo lhe dava algumas habilidades básicas bem legais além disso. Houve um momento em que ele precisou fazer uma curva na montanha, e o que tinha era um grupo de cordas dispostas a alguns metros das outras. Ele precisava saltá-las, como um macaco se balançando de um cipó a outro. Gatts chegou mesmo a sorrir com aquilo. Era uma sensação inédita e muito divertida.

O surgimento de monstros começava a diminuir à medida que os penhascos e as cordas aumentavam, e logo ele viu o que parecia ser o fim da parede de pedra que escalava. Ele subiu os últimos metros com determinação, içou-se para cima, levantou...

E quase caiu pra trás. O que imaginava ser o fim da escalada era, na verdade, apenas um ponto onde a parede realmente acabava e dava espaço para várias dezenas de metros de chão firme, mas além disso, a montanha continuava a subir, elevando-se a uma altura tamanha que ele percebeu que não estava nem na metade da subida. E era como se ela tivesse sido aberta em duas, como se o machado de um gigante tivesse cortado-a ao meio e alguém tivesse separado um pouco as duas metades.

Perto da parede da montanha havia um pequeno posto, duas colunas de madeira erguidas no chão, separadas a vários metros uma da outra, com uma larga ponte retangular entre elas. Um dos lados maiores da ponte era sustentado pelas duas colunas, o outro estava firmemente apoiado na montanha. Acima da ponte e um pouco à esquerda, havia uma outra ponte menor, mas essa não estava sustentada por nenhuma coluna, parecendo estar grudada na rocha. Não parecia muito seguro, mas a julgar pelo tamanho da coisa, devia ser um objeto imortal: construções que faziam parte do cenário do jogo e que, por mais frágeis que pudessem parecer, não podiam ser destruídos pelos monstros ou pelos jogadores. Em jogos, apesar de buscarem aproximar-se o máximo possível da realidade, os criadores não eram necessariamente obrigados a se prender às leis da física.

Uma escada de madeira permitia que ele subisse à ponte maior, e foi o que ele fez. Gatts regustrou dois NPCs ali: um homem com aquela expressão que parecia o Brock do Pokémon que os olhos estavam sempre fechados, carregando uma bandeja de madeira presa a uma corda que ele passara pelo pescoço, como um vendedor de limonada. Mas ele não usava nada para se proteger do frio, além da túnica fina e do chapéu que era mais pra decoração do que pra qualquer outra coisa.

A outra era uma menina sentada em uma cadeira azul, profundamente adormecida. A maneira como estava largada sugeria que não estava ali há dez minutos. Ela usava uma túnica que lhe cobria o corpo dos pés ao pescoço, os óculos ainda no rosto, o cabelo azul claro conferindo uma proteção adicional contra o frio, caindo sobre seu corpo com delicadeza ao redor de uma argola dourada em sua testa. As roupas pareciam finas, mas ela estava bem agasalhada: um gato dormia em cima dela, com o corpo no colo e a cabeça torta sobre os ombros da menina. Era uma visão engraçada e fofa, e para estar ali, o Gatts imaginou que talvez fosse filho do homem que estava ali ou coisa assim. Ele o cumprimentou com um aceno de cabeça quando o viu.

–Olá, viajante. Meu nome é Gibber — a voz dele era tranquila e tinha um certo tom oriental que Gatts aprovava.

–Olá Gibber. Eu sou Gatts. Um viajante procurando um caminho para a Mina dos Mortos.

O vendedor piscou, se é que isso era possível de perceber naqueles olhos.

–Você não é o primeiro, e tenho certeza que não será o último. De qualquer forma, é por isso que estou aqui. Sou o vendedor geral, e sinceramente recomendo que você perca uns minutinhos comigo antes de seguir viagem — ele deu um sorriso divertido — Não só porque quero vender minhas coisas, mas porque sou o último vendedor que você vai encontrar no caminho pra Mina.

Ele disse a frase, mas num tom como se a parte "no caminho pra Mina" pudesse ser excluída da frase sem alterar o que ele queria dizer. Gatts apenas sorriu.

–Não me surpreendo. E isso é bom, quero estar preparado para o que vou enfrentar. Então, Gibber, estou um pouco necessitado, você aceita equipamentos além de dinheiro?

O rapaz tinha uma boa lábia e sabia como pechinchar um preço, mas Gibber parecia ser excelente negociante. Ele não queria gastar muito dinheiro, mas também, as coisas que o homem vendia não eram assim tão caras. Ele era generoso com os fregueses, e Gatts não conseguiu abaixar muito os preços que já não eram tão desagradáveis. Mas ele até conseguiu um bom lucro: vendeu boa parte dos itens e equipamentes que tinha no inventário, tendo que pagar apenas uma pequena quantia para interar o preço. Comprou muitas poções, principalmente de HP, e também alguns Elixires que ele não encontrara em loja nenhuma, exceto por outros jogadores. Como estava comprando de um NPC, era óbvio que o preço era mais alto que o vendido nas lojas de jogadores, mas eles eram raros de se encontrar em quest, e recarregavam metade do HP e do MP. Por causa do preço, ele não pretendia usá-los como poção padrão. Mas era sempre bom ter um último recurso — nunca se sabe o que poderia aparecer no caminh, ou quando ele talvez precisasse recuperar uma grande quantidade de vida no tempo mais curto possível.

–Obrigado — disse depois de concluir as negociações. Gibber inclinou a cabeça.

–O prazer foi meu. Boa sorte em seu caminho, viajante.

–Obrigado. Por falar no caminho, o senhor sab...

Ele recuou e ergueu a espada instintivamente ao sentir algo macio roçando suas botas de neve. Pensou nos Leattys — as bolinhas felpudas com olhinhos que pareciam inofensivas, mas que poderiam ser mortais quando atacavam em grupo. Mas o rosnado de protesto que ouviu não podia ser daquelas criaturas. Gibber deu uma risada solidária quando Gatts relaxou os músculos, mirando a espada para longe do corpo do pequeno animal e ficando imóvel.

Era o gato que estava dormindo junto à menina. Certamente ele não estivera tão adormecido quanto parecia. Agora ele andava ao redor das pernas de Gatts, cheirando-o, o focinho elevado enquanto se concentrava. Ele tinha os pelos levemente arrepiados como que para parecer maior, uma forma de aviso para que o guerreiro continuasse imóvel onde estava ou sofreria terríveis consequências. Então ele se sentou, a longa cauda balançando de um lado pro outro, os grandes olhos escuros fixos nos do guerreiro, então miou.

Nem mesmo uma pessoa rígida como Gatts pôde resistir àquilo.

–É muito bonitinho — disse em tom monótono, sentindo a leve vibração do gatinho que ronronava — Ele é seu? — acrescentou, os olhos erguidos para Gibber, que negou.

–Não, é da garota — disse, o que fez o guerreiro estalar os lábios e inclinar a cabeça. "Dââ"

Como que escutando a conversa — ou talvez tenha notado que seu casaco de pêlo vivo havia desaparecido — a menina no banco espreguiçou-se enquanto soltava um enorme bocejo, torcendo a cabeça e girando os ombros com o prazes de quem espanta a preguiça. Então ela abriu os olhos e vislumbrou a cena, sonolenta.

–Ah, oi. Aqui, seu gato — ele sorriu um tanto sem jeito, e o gato, ao ver a dona acordada, correu de volta a ela. A menina deu um sorriso cansado.

–Você tá aí, né seu safado? Tá querendo me deixar passar frio? Quer que eu fique congelado? Own, vem cá, sua coisinha linda!

Gatts sorriu para a cena. O gato andava pelo colo dela e se esfregava pela mão delicada da garota, com os olhos fechados e ronronando de prazer. Então ela notou o guerreiro. Seu olhar ganhou um tom confuso, que o guerreiro retribuiu com um aceno de cabeça.

–Desculpe acordá-la, já estou saindo. Tenham um bom dia.

–Espere — ela o interrompeu enquanto ele se virava, e Gatts voltou a encará-la com olhar inquisidor. A menina se levantou e o gato pulou do colo dela, indignado. Ela precisou dar mais uma espreguiçada antes de continuar.

–Aaaah, puxa, que sono gostoso que eu tive — ela disse com a voz um pouco pastosa. Agora que estava de pé, ele podia ver que ela usava uma túnica branca, sendo que a parte que lhe cobria da coxa pra baixo tinha um leve toque avermelhado cheio de estrelas — Enfim, você... Está indo para a Mina dos Mortos?

Gatts se animou.

–Sim, isso mesmo. Pretendo ir só até a entrada, na verdade. Mas vou cobrir um bom território, por quê?

Mas ele já sabia o que ela ia dizer antes mesmo que ela falasse. Achara estranho não ter encontrado nenhuma Quest que o fizesse ir até a Mina dos Mortos, e agora a tinha encontrado. Apesar de estar envolvido em sua própria Quest que já tinha desafios demais, ele sempre achava bom realizar outras pelo caminho. Com isso ele ganhava Experiência, poções e até equipamentos(como a capa que usava agora). E como teria que ir pela Mina dos Mortos de qualquer maneira, não lhe custaria nada.

O que ela disse, porém, era algo totalmente inesperado.

–Eu estou indo pra lá também, mas é perigoso e nunca pisei lá. Não quero ir sozinha, se a gente for junto, seria mais seguro, que tal?

–Ah... Bem... — Gatts hesitou. Ele sempre poderia recusar, mas não achava certo isso ainda mais com uma garota. Para ele, não importava se era pessoa real ou NPC, era alguém, e merecia ajuda. Mas como ele poderia acompanhá-la? Ela provavelmente não o ajudaria. Ou se ajudasse, seria como nos outros jogos, ela teria algumas habilidades aqui e ali, mas nada muito bom, e ele é quem acabaria com o trabalho pesado. E não queria deixá-la morrer, então fez o que achou mais sensato.

–Sinto muito, mas é perigoso demais. Eu também nunca fui lá, acho que seria melhor você ficar aqui, onde é seguro.

Ela pareceu ofendida, e muito. Mas suspirou e revirou os olhos para ele.

–É, geralmente pensam isso de mim. Mas não pense isso de mim, viu? Eu sei me cuidar, e posso te ajudar também. Por favor, eu preciso mesmo de umas coisinhas lá na Mina — suplicou.

–Olha... Não, sério, é muito perigoso. Por que você não me diz o que quer e eu pego pra você? Eu posso te trazer os itens que você precisar lá.

A garota inclinou a cabeça para um lado, parecendo confusa.

–Itens? Que itens? Eu não falei nada de... — sua expressão ficou ainda mais clara quando ela compreendeu o que estava acontecendo — Seu idiota, BURRO, eu não sou uma NPC! Sou Eliesta, Clériga nível 54, estudante da United Asteroids of Venusian Merthiolate, HUMANA, jogadora!

–Tá bom, desculpa, desculpa!

Ela batia nele, enfurecida, ao passo que Gatts apenas erguia as mãos, constrangido e desorientado. E cortes de espada não eram sentidos como na realidade, eram apenas uma sobra da dor real, mas os socos da garota eram bem doloridos. Ela levou alguns segundos para respirar e se acalmar.

–Tá bom, mas cara, como assim você me confundiu com uma NPC? Por que eu estaria dormindo ali se fosse? Está dizendo que eu não tenho inteligência suficiente pra isso né, menino?

–Ei, não é nada disso! — ele se desculpou novamente, mas a garota já sorria e exibia um olhar alegre e nada ressentido.

–Tudo bem, deixa pra lá. Isso me deixou puta mesmo, mas acontece. Por falar nisso, meu nome é Kiara, eu disse Eliesta porque é meu sobrenome e eu estava com raiva. Como você se chama?

–Gatts, muito prazer. Mas então... Você está indo para a Mina dos Mortos?

–Pra dentro dela, na verdade. Você tá indo só pra entrada dela, mas se for comigo até lá já é bom. E eu posso ajudar sim, tá? — ela deu um beliscão na bochecha do rapaz — Como eu disse, sou Clériga. Só parei aqui pra descansar um pouco e comprar umas poções, mas sabe, o clima de frio tava tão bom que eu dormi.

–Quase não deu pra notar — Gatts riu.

Ele abriu o menu, criou um grupo e convidou a garota. Grupos podiam ser criados a qualquer momento do jogo, e o líder poderia desfazê-lo, recrutar novos membros ou passar a liderança quando bem entendesse. Cada grupo permitia até seis jogadores, e sempre que havia mais de um nele, a experiência que adquiriam ao matar um monstro era dividida. Em uma dupla, por exemplo, quem matasse um monstro ganhava 60% da EXP, enquanto o parceiro ganhava 40%. Se ambos matassem o monstro juntos, as porcentagens seriam calculadas de acordo com a porcentagem de dano que cada um inflingira. E sempre que um monstro era morto, todos os membros recebiam um bônus fixo, uma pequena porcentagem da EXP total do monstro. No final das contas, compensava bastante e aumentava as chances de sobrevivência.

Depois de se certificarem que tinham todas as poções — e de Kiara brigar porque Gatts sugerira que deixassem o gato com o vendedor — eles subiram a escada que levava para a segunda ponte, e a inocente maga simplesmente não entendeu quando o honrado guerreiro lhe dissera "nada de primeiro as damas, eu subo primeiro".

Jeff, o careca grandalhão com uma das pupilas faltando e segurando uma grossa espada, não ficou surpreso quando eles anunciaram que queria entrar. Ele os alertou do básico dizendo que enfrentariam lobos, Yetis e lobisomens, e para terem cuidado. Depois disso, simplesmente se afastou para deixá-los passar, e eles entraram no portal escuro.

Pelo menos eles pensavam ser um portal. Se fosse, eles estariam na mais completa escuridão, exceto pelo fato de que ainda conseguiriam ver a si mesmos, o que não era o caso ali. A escuridão era total, um breu completo, claustrofóbico e com cheio de construção velha. Eles ouviram alguma coisa ranger, em seguida sentiram-se mais pesados... Era como estar num elevador. Um elevador escuro e fechado, que subia cada vez mais na montanha.

Com um solavanco, ele parou. Gatts abriu a porta e o pequeno elevador foi inundado pela luz, e eles descobriram que estavam no meio na fenda. Atrás deles havia uma rocha que não os permitia enxergar o lugar onde estavam Jeff e Gibber, mas o guerreiro sabia bem onde estava.

Um pouco à frente deles, as duas gigantescas colunas de rocha erguiam-se a uma altura muito elevada, com o espaço entre elas sendo maior do que imaginavam. E agora eles podiam ver o que antes não conseguiam: pontes de madeira, largas mas tão finas que contrastava com o fato de que o estado delas indicava que estavam resistindo ali havia séculos.

–Tem uma escada ali — Kiara apontou para a direita, e Gatts assentiu. Eles correram pela neve escorregadia e subiram.

Gatts ficou feliz por Kiara estar atrás dele. Mal acabara de subir a escada e sua espada já se movia na direção dos lobos famintos que não hesitaram em atacar. Eles corriam rapidamente, o que só fez com que alcançassem a morte mais depressa.

–Rá, é bom ter alguém pra matar tudo enquanto eu fico só olhando — ela disse, mas sem deboche algum na voz, estava apenas fazendo um pequeno comentário divertido — Sabe que eu concordo com você? Nunca entendi esse papo de "primeiro as damas". Pode ir na frente... Ou melhor, esqueça o que eu disse — acrescentou, tendo outra idéia — Primeiro as damas, acho melhor.

Mas ela continuou parada esperando que ele subisse. Gatts ergueu as sombrancelhas. Seu cérebro rodopiava enquanto ele pensava em uma resposta à altura, mas não conseguiu encontrar nenhuma. Sem opções, decidiu agir como o homem maduro que não liga pra brincadeiras. Subiu a escada na frente, e recebeu risadas e alguns comentários nada honrosos da garota.

Os lobos não eram problema para Gatts e sua espada. Eles escalavam a montanha pela corda que sempre estava convenientemente colocada ali até chegar onde podiam andar. E era onde tinha uma ponte cheia de lobos. Depois, achavam outra corda na parede e subiam, matavam lobos e assim por diante. Até que ele não teve escolha senão parar.

A quinta ponte que estavam escalando não estava só cheia de lobos. Havia também dois animais, peludos e parecendo como que parentes dos lobos, mas muito maiores. Mediam duas vezes o tamanho de um ser humano — e ao pensarem nisso, um deles realmente ficou de pé, exatamente como uma pessoa normal faria, apesar de ele andar com as pernas um pouco flexionadas. Pensativo, Gatts analisou as criaturas.

Eles eram grandes, peludos e feios. O pêlo parecia áspero e sujo, marrom cheio de manchas de sujeira e umidade. As garras negras eram imensas, quase do tamanho do dedo(que era imenso). Os braços e pernas eram musculosos e mais cabeludos. O rosto era a parte mais horrível. Cabeça grande, olhos escuros penetrantes, focinho molhado sacudindo enquanto ele processava os cheiros, orelhas grandes e, claro, uma boca cheia de dentes, que ele pôde examinar com mais detalhes quando o que estava em pé deu um rosnado sem motivo.

–O que é? — a garota perguntou baixinho, ao ver que Gatts estava parado acima dela. Ele não desviou o olhar.

–Lobisomens. São dois, e estão com alguns lobos. Não sei se podemos com eles...

–Não tem um jeito de passar sem enfrentá-los?

Ele olhou para a direita e se animou.

–Sim, tem uma corda aqui. É só não fazer muito barulho.

–Que não fazer barulho o quê, são Lobisomens! Eles vão escutar assim que a gente pisar, e já devem ter sentido o nosso cheiro!

–Hã...

E realmente, como que num presságio, o segundo Lobisomem levantou-se, o focinho em atividade. Foi quando o rapaz percebeu que o rosnado não havia sido sem motivo, afinal. Era um aviso para o companheiro...

–Rápido, corre! — disse, ao mesmo tempo que erguia-se e corria a toda velocidade na direção da corda. Satisfeito, viu que a garota o imitava, mas os Lobisomens também o fizeram. Gritavam e bufavam enquanto corriam, mas estavam longe demais para alcançá-los. Chegaram à corda, e o bom senso de subir o máximo possível os salvara. Os Lobisomens eram altos, mas mesmo assim a altura do seu salto era impressionante. Se Kiara estivesse meio metro mais abaixo na corda, seu pé teria sido pego pela garra.

–Não é bom ficar remoendo o que poderia acontecer depois que o perigo passa — ela observou — Mas eu fico imaginando... E se eles soubessem subir essa corda?

–Eu pularia e arrancaria a cabeça dele no ar, depois a do outro, e então me arrebentaria no chão. Você usaria umas habilidades e me curaria, e a gente seguiria viagem. Simples.

–Simples — ela repetiu casualmente.

Gatts olhou para baixo por um instante, mas só conseguiu ver a raiz dos cabelos azuis. E percebeu o quão idiota ele fora a respeito do gato. Ele encontrava-se confortavelmente enrolado nos ombros da menina, sem a menor indicação de que acabara de escapar de um perigo. Talvez fosse como aqueles animais de estimação de jogos, invulneráveis a qualquer dano. Ele não achou educado perguntar, mas fazia sentido. Não era como se tivesse a chance de que aquele fosse seu gatinho de estimação da vida real, que entrara no jogo com ela por uma máquina em sua escola.

–Vamos ter que lutar agora — avisou, espiando com cuidado o chão logo acima dele. Três Lobisomens andavam casualmente por ali. Ele ouviu a garota resmungar em concordância e esperou. Quando os Lobisomens saíram de perto da corda, ele subiu.

O primeiro deles nem teve tempo de se virar, já estava sofrendo pela espada do guerreiro. Só que ele levou quatro golpes para morrer. E ainda haviam dois deles. Felizmente, eles não atacaram, só ergueram as cabeças e bateram no peito em um rugido...

O rapaz não poderia querer uma oportunidade mais perfeita. Atacou um deles logo na barriga e conjurou uma parede de aço entre ele e o terceiro Lobisomem. Assim, impediria que ele o atacasse. Ela não duraria muito, e o animal ou a contornaria ou a destruiria — em segundos, que era o tempo que ele preciava para finalizar o Lobisomem.

Mas o animal não morreu no quarto golpe. E nem no quinto. Recebeu o sexto e ainda estava de pé. O sétimo estava a caminho...

A parede foi destruída por uma mão enorme, como se fosse feita de papelão. O golpe atingiu o guerreiro em cheio, e imediatamente ele sentiu uma ardência que lhe deu certeza que aquelas garras eram untadas com Merthiolate 1983.

Ele recuou, num movimento que aproveitou o braço estendido para dar um golpe com a espada, dessa vez, num movimento de frente pra trás. Atingiu o Lobisomem que o atacara. Seu braço direito, o que segurava a espada, ardia muito... A dor era muito grande, mas ele não suportaria cair pra se lamentar dela. Precisava usá-lo para mais alguns swings de espada primeiro.

Uma aura verde surgiu em torno dele, e imediatamente a dor cessou. O machucado ainda estava lá(alguns monstros conseguiam abrir feridas reais nos jogadores), mas doía bem menos agora. Uma rápida olhada para trás lhe mostrou Kiara erguida em posição de alerta, erguendo o cajado à frente dela e uma mão aberta na direção do guerreiro. Era a famosa magia de cura dos Clérigos. Impressionado, sentiu seu HP ser restaurado por completo, mais rapidamente do que qualquer poção que bebera.

Ele, entretanto, não ficou admirando os efeitos da magia curativa. Usou um Golpe Fulminante, fazendo a lâmina de sua espada brilhar como se um fogo de artifício feito de luz tivesse estourado nela sem barulho. Os Lobisomens eram rápidos, até mesmo para ele, mas a magia curativa da garota o protegia.

Então aconteceu algo estranho. Gatts sentiu uma sensação nova, uma espécie de ânimo renovado, e partiu para um golpe em arco horizontal. O HP deles estava na metade, sendo que dessa vez o monstro perdera uma quantidad emuito maior do que antes. O mesmo aconteceu com o outro Lobisomem. Por que estavam morrendo tão rápido? Não que ele estivesse reclamando. Com mais dois golpes de espada na barriga, os animais caíram ao chão.

–Unha do Pé de Lobisomem — Gatts fez uma careta ao analisar o item que eles droparam — Não sei bem pra que pode servir, mas é sempre bom guardar. E obrigado — acrescentou para a garota — Essa magia curativa é mesmo excelente.

–Só fiz meu trabalho — ela disse com um sorriso.

–Mas sabe... Tinha algo estranho — ele começou enquanto subiam para a próxima corda, depois de passar um pouco de pomada no ferimento que desapareceu num instante — Quando comecei a atacar, eles perdiam vida, mas depois foi como se a defesa deles tivesse aumentado. E depois, no final, eles começaram a perder vida mais fácil...

–Ah, isso fui eu — ela contou logo abaixo dele — Menos a parte do começo, você não viu? Quando eles deram aquele rugido, apareceu uma luzinha neles, que nem um holograma, no formato de uma espada e, do lado, um escudo. Acho que aumentava a defesa e o ataque deles. Depois no final eu usei Bênção, que aumenta suas defesas bem como sua esquiva, precisão e ataque.

Gatts assobiou. Então isso explicava por que eles gritaram antes de atacá-lo e também o repentino êxtase de batalha que sentira. Enquanto subiam, pensou que realmente tinha sido uma boa idéia trazê-la, afinal. Poderia ter cuidado dos monstros sozinho, mas teria tido muito mais trabalho e gastaria várias poções de HP.

O fim da corda, porém, tinha um perigo um pouco diferente. Havia Lobisomens, só que agora eram seis deles, sem contar os lobos e os outros dois monstros novos que tinham lá.

Eram muito parecidos com os Lobisomens, só que tinham a pele prateada e o corpo mais alongado. Pareciam agir com mais inteligência, visto que um deles estava sentado com as pernas cruzadas quase parecendo conversar normalmente com o outro. Era evidente que eram os líderes, ou que, no mínimo, eram mais fortes.

–Licantropos — disse Kiara, quando Gatts descreveu os dois animais — São mais fortes e perigosos, claro.

–Não é a mesma coisa, um lobisomem e um licantropo? — ele perguntou. A garota daria de ombros se não estivesse agarrada a uma corda.

–Teoricamente sim, mas não aqui no jogo. Mas eles estarem aí é boa coisa, significa que falta pouco pra acabar o Território dos Lobos. A parte ruim é que depois disso vem os Yetis. Gibber me contou antes de eu dormir — acrescentou à guisa de explicação.

–Acho que dá pra evitar a luta. Eles estão lá no meio da ponte. Vamos, um, dois... Três!

Ele subiu e deu dois passos na direção da corda quando seu braço esquerdo explodiu de dor.

Só teve tempo de puxar a espada para evitar a patada seguinte, mas foi atingido novamente no braço por outra. Os Lobisomens ainda corriam, mas os dois Licantropos já estavam do lado dele. Como puderam chegar ali tão rápido? Não importava.

Os dois animais estavam lado a lado, atacando-o com as mãos rápidas e as garras afiadas. O da esquerda disparou um arranhão por cima da cabeça dele, o guerreiro bloqueou com a espada, o outro Licantropo já vinha com suas garras, mas também foi bloqueado. Ofegante, ele recuou um pouco, e pela primeira vez quis muito ter um escudo. Tentou conjurar a parede de aço, mas sua mão esquerda doía muito, e nem a magia curativa de Kiara ajudou a acalmá-la.

Os Lobisomens estavam do outro lado da ponte, de modo que ainda demorariam alguns segundos antes de chegar. Outro golpe vinha para abrir sua testa, e ele teve que levantar a espada desesperadamente para bloqueá-lo. O da direita também atacou e ele rolou, mas a garra conseguiu pegá-lo na coxa direita.

Gatts levantou-se, tentava recuar, mas era impossível. E a parede de pedra assomava às costas dele. Teria como descer pela corda? Não. Ela estava atrás dos Licantropos agora. Só lhe restava ficar e lutar...

Seu próximo golpe foi uma parábola da esquerda pra direita, que atingiu o Licantropo da direita no ombro. A Bênção de Kiara era, realmente, uma bênção. Com a esquiva extra, ele se sentia mais inclinado a desviar, e estava dando certo. Atacava o da direita com a espada, depois pulava para trás para evitar o golpe do da esquerda. Mas sabia que não seria suficiente. Logo sentiria a parede da montanha às suas costas, onde estaria encurralado e teria que pensar em outro plano. Só que antes que isso acontecesse, Eliesta fez isso por ele.

De repente ela se jogou na frente do guerreiro, as Garras Arcanas disparando no peito do Licantropo da direita com uma velocidade assustadora. Ela estava sendo retalhada por ambos os monstros agora, não fazia esforço algum para desviar...

–A corda, sobe na corda agora!

Seu tom de voz era tão insistente e determinado que ele obedeceu, confiando que ela tinha um plano e não estava apenas se sacrificando para que escapasse. Recuou os últimos metros e subiu a corda que levava para a ponte superior, dezenas de metros acima. A garota também recuou. Estava encurralada agora, mas levara os monstros para bem debaixo de onde estava...

Foi quando os Lobisomens chegaram, e ele entendeu por que ela escolhera exatamente aquele momento para agir. Subiu a corda mais um pouco, e com um grito, saltou da corda, a espada erguida pronta para cair em cima do Licantropo da direita...

Rápida, Kiara pulou e se agarrou à corda para evitar ser atingida. Quando se dava um golpe por cima como aquele, caindo em cima do monstro, o dano era maior. Era como uma facada nas costas que dava dano crítico. O Licantropo da direita, enfraquecido pelos golpes anteriores do guerreiro e pelas Garras da clériga, não resistiu àquele ataque tremendo. E não era só isso: ele aproveitou para usar a habilidade que usara nos Golens de Brinquedo. Quando a espada atingiu o chão logo depois de acertar o Licantropo, raios explodiram do local e a terra perto dali tremeu.

Aqueles animais não eram tão resistentes e massivos quanto os Golens, então caíram no chão, a maioria com cogumelos girando ao redor da cabeça em uma argola, o que indicava atordoamento. E agora ele decidira usar outro truque. Antes que pudessem se levantar, ele atacou com a espada longa, agora em chamas. Um golpe na barriga, outros dois numa perna, uma estocada mortal no peito de um que começava a se levantar. Quanto acabou a matança, viu alguns pelos dropados no chão, e só então se lembrou vagamente que havia alguns lobos entre os inimigos.

–Legal esse seu fogo, mas por que não usou antes?

–Ainda está no nível 3 — explicou — E gasta muito MP quando em níveis mais baixos, além de não ajudar muito. Mas então eu achei que teria dano extra neles, por serem monstros que vivem no gelo e tal. Aliás, belo plano — ele disse para a garota que analisava seus ferimentos com cuidado — Como foi que você aguentou todos aqueles golpes?

–Foi a Proteção Arcana, ela transfere a maior parte do dano ao HP pro MP, que eu tenho bastante. Ela também me protegeu do ferimento...

Gatts também olhou para seu braço. A armadura protegera sua coxa, mas o braço desprotegido agora brilhava com quatro riscos vermelhos e profundos. Ardia muito, e o salto fez com que ele quase parasse de sentí-lo. E agora que estava parado e se acalmava, a dor aumentava ainda mais.

–A cura não funciona... Espera, sei como curar isso. Pingar um pouco de antídoto aqui, nada de pomada, uma gaze...

Ele tentou não gritar quando o líquido verde foi como álcool aumentando o fogo. Mas deixou-a colocar a gaze encharcada do líquido e depois apertá-lo com uma atadura firme. Ela recuou, analisando seu trabalho, satisfeita.

–É veneno de arranhão. Alguns monstros têm isso, embora Grendel não tivesse me dito quais. Se não aplicar antídoto, ele infecciona. Não acontece nada de grave e depois ele cura sozinho, mas você fica uma boa semana sem conseguir usar o braço, e dá febre também.

–E eu queria vir aqui sozinho — resmungou, mas logo a dor começou a diminuir um pouco — Obrigado mesmo — acrescentou.

–Ah, que isso, eu que agradeço. Imagina se fosse eu sozinha aqui? Acha que consegue subir na corda?

–Acho que vou esperar um pouco — disse, mas então mudou de idéia: dois Lobisomens apareceram do nada na ponte, e lançaram aquele olhar para eles... Já estavam no meio da subida quando os animaispensaram em analisá-los melhor.

A próxima plataforma tinha apenas um Licantropo e três Lobisomens, mas Gatts não estava com paciência para batalhas. Esperou dez minutos até eles ficarem bem longe, então correu para a corda. Fizeram isso até que finalmente chegaram no topo da coluna.

–Nossa — ela exclamou. Gatts não ficou menos impressionado.

O topo da montanha dividida em duas encontrava-se em uma posição muito elevada, de modo que eles podiam ver toda a terra abaixo deles. Montanhas que lhe pareceram enormes quando estavam lá embaixo tinham seus cumes a dezenas de metros abaixo deles, e era possível ver como El Nath era pequena e isolada no meio de todos aqueles penhascos. Mais adiante, era até possível ver uma pontinha de Orbis, minúscula no horizonte.

Eles ficaram felizes por estarem seguindo pela coluna da direita, porque era lá que o desfiladeiro se encontrava. Era um caminho que se erguia como uma cordilheira, criando uma estrada impressionante que seguia reta até onde os olhos alcançavam. Em algum ponto adiante ela se alargava e dava início a uma grande floresta de árvores sem folhas.

–Está pronta? — Gatts perguntou ao mesmo tempo que deixava claro que continuaria, apesar dos ferimentos. Kiara assentiu, animada. O gato desceu dos ombros dela e foi na frente.

–Tem algo bem mais perigoso aqui — ela disse baixinho ao ver seu gato andando, farejando e escutando.

Depois dos lobos, eles pensaram que encontrariam algo ainda pior, mas o que viram foi um conjunto de bolinhas de pêlo, uma versão maior e mais grosseira dos Leattys — para Kiara, igulmente fofos. Embora isso não tenha impedido que ela lançasse uma Garra Arcana em um deles.

Ao ver que perdiam bastante HP, Gatts atacou e o matou. Depois o segundo. Ele só se aproximava e os cortava com alguns golpes de espada. Fácil demais — como os Leattys quee ram mortais, ele temia que aqueles monstros também fossem.

–WOW, olha isso!

Gatts se virou para a garota. Os monstros que ele matara, que imaginara estarem se desintegrado, ainda estavam lá... E alguma coisa acontecia com eles. Se curvavam em torno de si mesmos, a coluna crescia, braços surgiam da bola de pêlos, pernas apareciam... Até ele estar olhando para um grupo de Abomináveis Monstros da Neve. Só que esses não serviam sorvete de lima nem gritavam "Bem-Vindos ao Himalaia!".

A espada de Gatts voltou a pegar fogo. Enfrentar aquelas criaturas não era muito diferente do que derrubar Golens. Eram grandes e lentos, embora não tanto quanto os de brinquedo. Mais fáceis que os Lobisomens, até. Mas como seu braço doía(e a EXP não era lá das maiores), ele resolveu evitar os monstros ao máximo.

Pelo caminho, encontraram mais deles, os Yetis Jr. Também viram monstros já crescidos. Cumprimentaram um gatuno que caçava por ali, disse que tentava dropar uma shuriken nova. Também encontraram Pepes, os grandes pinguins azuis, a versão senior dos pequenos Pepes Jr. da torre de Orbis. E também acharam Yetis com Pepes montados, Yetis Negros, Pepes Negros, Yetis Negros com Pepes, Yetis Negros com Pepes negros, e assim por diante.

Quando chegaram na floresta, porém, eles pararam de surgir. As àrvores estavam todas mortas, e dessa vez os inimigos eram apenas de um tipo.

De longe, poderiam ser confundidos com humanos. De perto, não havia como ter essa impressão. Estatura mediana, mãos descobertas e botas rotas e sujas, caminas brancas e calças marrons rasgadas. A pele estava apodrecida, os ossos do braço direito eram visíveis em uma parte, a cabeça deixava aparecer parte do crânio. Os olhos ainda estavam lá, embora fossem animalescos e destituídos de consciência. Seu nome já dizia tudo: Zumbi Operário.

Eram muitos, de forma que Gatts não teve escolha senão atacar... E então, o mundo pareceu girar ao ser redor. As árvores se moviam, ele estava girando, mas seu corpo estava parado, e ele não sentia falta de equilíbrio, então o quê...

Quando parou, encarava a garota que o o observava, pensativa.

–Foi esse gêiser — ela apontou para o chão, e imediatamente ele saiu de cima de um pequeno buraco em forma de vulcão no chão — Jogou uma fumacinha verde e você ficou atordoado.

Ele tentou imaginar como parecia com cogumelos girando em torno de sua testa.

–Agora eu sei a sensação.

–Espera, deixa comigo — Kiara ergueu a mão pra ele quando viu o que ele planejava fazer — Os ataques deles envenenam, o antídoto resolve na hora mas mesmo assim é bom não gastar. E quero testar uma coisa.

Era impressionante como ela conseguia se mostrar animada e sorrir mesmo ali.

O gato já subia de volta em seus ombros, agora que já identificava o perigo e podia deixar sua dona cuidar ele. Ela ergueu o cajado ortogonalmente ao chão, a cabeça apontada para o céu, e com a mão direita imitou o movimento de puxar uma corda... E realmente, a corda de um arco surgiu, branca como uma luz etérea, junto com uma flecha afiada.

Ela a soltou, e a flecha atingiu o Zumbi mais próximo. Seu grito foi alto e sofrido, e agora ele e uns amigos zumbis foram na direção dela.

Mas flechas voaram pelo ar, e em segundos o três deles desapareciam. Mais três chegavam perto, e ela mudou o cajado de posição para usar a Cura. Não havia sentido já que eles estavam com vida cheia, mas ele viu que a intenção era outra.

A aura verde a cobriu, uns pontinhos esverdeados surgiram por cima de Gatts, mas o Zumbi também fora atingido. E o dano que sofrera fora maior que o da flecha. Kiara continuou curando e inflingindo dano nos zumbis que, a cada cura recebida, gritavam e recuavam. O dano era instável, às vezes era grande, às vezes reduzido, mas em seis curas todos eles já estavam mortos.

–Clérigos são mortais contra mortos vivos. Não é legal? — ela perguntou com o sorriso mais animado que já dera, e Gatts sorriu de volta.

–Muito legal. Agora vou poder ver como é ficar só olhando enquanto você cuida deles.

Eles não sofreram um arranhão sequer enquanto atravessavam a floresta e evitavam os gêiseres que cuspiam fumaça atordoante. Depois de uma longa caminhada e de uma EXP tão boa que eles consideraram upar ali mesmo depois, alcançaram a mina.

No fim do desfiladeiro, uma montanha se erguia, sem meios visíveis para ser escalada. O que tinha no fim da estrada era um túnel escavado na montanha, com entrada quadrada e feita de madeira meio apodrecida, mas resistente. Gatts sentiu a excitação crescer.

–Você disse que queria chegar até a entrada — lembrou Kiara — O que tem de importante aqui?

–Vou descobrir agora.

Segundo seu mapa, ele deveria procurar por uma fenda na moldura da entrada, entre a madeira e a rocha. Não era fácil e estava bem escondida. Mas ele finalmente encontrou: um pequeno pedaço de papel dobrado que despertou tanto a curiosidade dele quanto a da alegre menina.

–O que é isso, algum mapa de Quest? — ela quis saber, e Gatts sorriu diante da cena.

–São as minhas instruções. Elas dizem que... — ele franziu a testa — Puxa, que legal, eu tinha recebido um papel dizendo pra eu ir na entrada da Mina dos Mortos, só pra encontrar um outro papel que me manda ir pra dentro da Mina dos Mortos!

–Ah, que bom, quer dizer que você vem pra Mina comigo? Por que essa cara, foi alguma coisa que eu fiz? Não esquece que sou eu quem tá matando os monstros tudo, hein? — brincou.

–É que eu não esperava isso, mas é bom. Você é a especialista em mortos vivos. Primeiro as damas, sim?

Ela riu e entrou na mina, seguido pelo companheiro.

O interior da Mina dos Mortos era quente, úmido e desolador. Havia máquinas de perfuração, plataformas de madeira e postos de descanso. Mas estava tudo em um estado deplorável, como se ela estivesse abandonada havia décadas, apesar de ela estav bem populada.

Por onde quer que se olhava, os zumbis apareciam. Idênticos aos que viram na floresta, só que esses usavam um capacete amarelo de mineiro. Eles se divertiram com o fato de que os da floresta se chamavam "Zumbi Operário", enquanto os mineiros eram apenas "Zumbi".

O capacete tinha aquela lanterna na frente, mas não parecia servir pra proteção. Kiara acabou com eles em seis flechadas, e curava quando eles se aproximavam demais. Eles logo reviram a decisão de upar ali. Aqueles monstros tinham bastante HP, e era evidente que eram fortes demais para alguém no nível dela. Ela só os matava por causa do bônus contra mortos vivos, mas mesmo assim, se eles fossem mais rápidos, juntariam em cima deles de modo que ela não seria capaz de lidar com eles.

Estavam na parte mais alta da mina, de modo que eles tinham que descer sempre mais, passando por mais elevadores escuros que levavam a outra seção da mina. Depois de passar por quatro seções, eles chegaram a um ponto onde não poderiam continuar.

Ao saírem do último elevador, o terreno mudava. Rocha vermelha endurecida substituía a pedra comum, e o calor era um pouco mais intenso agora. O chão onde estavam era sólido e firme, mas alguns passos adiante, havia um largo e profundo abismo que caía indefinidamente, não sendo possível ver o fundo na luz incerta da lava que ficava presa entre as rochas.

Rodeando o abismo, dezenas de criaturas marrons voavam acima deles, como moscas acima de um buraco.Se corpo redondo, um pouco maior que uma cabeça humana, era ao mesmo tempo a órbita do seu único olho, gigante em comparação a um olho normal.

–São os olhos da quest de Henesys — Kiara disse — Não devem ser muito fortes. Eu matava um monte deles no nível 10, então...

Ela deixou a frase no ar com um leve dar de ombros. Gatts assentiu. Nunca havia participado da Quest de grupo de Henesys, por isso a informação o acalmou um pouco.

–Não tem cordas aqui — anunciou na borda do abismo, inclinando a cabeça para enxergar a parede interna. Então se voltou para a companheira — Não tem mesmo jeito da gente prosseguir. Acho que vamos ter que escalar.

–Ah não, por favor, de novo não — ela suplicou.

Gatts deu de ombros.

–É o único jeito que eu vejo, a menos que a gente tenha perdido alguma Quest que nos dissesse como passar. Tinha uma NPC lá na entrada, perto do vendedor de materiais, mas ela estava dormindo quando a vi...

Ele riu quando ela ergueu as sombrancelhas, nada feliz com o comentário. Mas logo ela deixou aquilo de lado.

–Vamos descansar um pouco primeiro — sugeriu depois de uma pausa — Tô cansada, a gente pensa melhor depois de uma pausa.

–Tudo bem — ele respondeu educadamente. Não estava cansado e poderia muito bem continuar planejando algo, mas não queria fazer a menina se sentir mal.

Eles se sentaram depois de se certificar que os olhos voadores eram os únicos monstros ali. Kiara puxou um pequeno peixe seco e molhou na água do cantil, entregando-o para seu gato.

–Você ainda não me disse o nome dele — Gatts comentou, vendo o animalzinho fungar um pouco ao examinar o peixe antes de devorá-lo. A menina franziu a testa para ele.

–Não? — indagou. Gatts negou com a cabeça — É mesmo... Puxa, que estranho. Eu adoro falar do Rayko, não acredito que não te contei. Aquilo de me confundir com uma NPC realmente me tirou todo o resto da cabeça.

–É, desculpa — ele disse e ambos sorriram — Mas então, onde foi que você conseguiu o Rayko? É a primeira pessoa que vejo com um gato...

Imediatamente a expressão dela se iluminou, como ele esperava.

–Foi com a fada Mar, de Ellinia. Ela fica num lugar meio isolado da floresta, eu tive sorte em achar ela na verdade. Ela me falou sobre as experiências com o Cloy, um cara lá em Henesys: eles tentavam dar vida a bonecos de pano, e recentemente conseguiram. Mas não pensa mal do meu Rayko não, ele é igualzinho a um gato normal! Você não acha?

–Claro, ué — ele respondeu, talvez um pouquinho rápido demais. Realmente, ao ver o pequeno animal marrom lambendo o que restara do peixe, não tinha como alguém pensar que ele era um boneco de pano. E ao esticar a mão para fazer um leve carinho, sentiu um pêlo tão real quanto o de um gato. E ele também arqueou as costas e se esfregou na mão do rapaz, ronronando alegremente — Se você não tivesse dito, eu nunca ia suspeitar — acrescentou.

–Então, ela me pediu um monte de Quests, um monte de coisas pra fazer, e eu fui fazendo tudo como boa menina. Passei uns três níveis só fazendo coisas pra Fada Mar, ganhei até essa rocha, olha só — ela tirou uma pedra da mochila, uma grande lisa e ovalada rocha azul-clara e, a julgar pelo modo que ela a segurava, era muito pesada — Disse que era mágica, e realmente é, porque meu MP recarrega bem mais rápido desde que eu ganhei ela.

–Aí depois disso, ela me pediu pra pegar mais materias em El Nath. Eu fui e procurei bastante, aí quando voltei, ela sorriu e me agradeceu, e disse que eu poderia escolher um animalzinho! — o sorriso dela quase não cabia no rosto — Não imagina a alegria que eu fiquei quando ela disse isso...

–Eu posso imaginar, sim — Gatts riu. Kiara continuou.

–Ela me mostrou três bonecos, um cachorro, um gato e um coelhinho branco. Na hora eu escolhi o Rayko, eu nunca abro mão de gatinhos fofinhos! E ele ficou comigo desde então, né sua coisinha linda aidihsusgaa auioigdsaiyiluiohdsiaidbs aiisiayvdiiyauiisigvibiiausojiips!

Gatts olhava aquilo tudo com um sorriso, que logo se derreteu em seu rosto. Sem perceber, viu-se imaginando como era a vida daquela garota fora daquele jogo, como ela deveria ser na vida real. É verdade que muitos jogadores mudavam de personalidade em jogos — ele próprio não era um exemplo? — mas geralmente essas mudanças eram pra uma personalidade mais "determinada, segura", como se estivesse no controle de tudo. Kiara não demonstrava ser assim. Encarava a tudo com calma e animação, sempre sorrindo e nunca reclamando de nada. Mas ela também era determinada. Havia saltado na frente de um rapaz que mal conhecia para salvá-lo, quando poderia ter simplesmente escalado a corda e usado um Pergaminho de Retorno para sair dali. Mas ele não conseguiu imaginá-la abandonando-o. Pensando um pouco, Gatts se deu conta de que ali estava uma pessoa totalmente boa e de bom coração, e também percebeu que era a primeira vez que confiava inteiramente em alguém logo de cara. E não ficou surpreso. Podia apostar que até o maior dos vilões amoleceria um pouco com os modos gentis da garota.

Ele se permitiu alegrar-se novamente — somente para ter o sorriso apagado ao ver a expressão no rosto da menina.

–Eu tenho um gato chamado Rayko — ela continuou, olhando o gato com olhar vago — Toda vez que eu volto da escola ela mia pra mim, pedindo que eu coloque comida pra ela. Depois eu deito no sofá e ela pula em cima de mim, e dorme nas minhas pernas enquanto eu faço carinho. Quando eu demoro, ela fica no tapete da porta da sala me esperando, sabe. Nunca fiquei fora de casa por muito tempo. Só posso imaginar como ela deve estar se sentindo... Como meus pais devem estar se sentindo.

–Você tem um gatinho, pelo menos — Gatts comentou, e ela olhou para ele — Bem, quer dizer... — seu coração martelou no peito, aquela sensação desagradável que sentia todos os dias na escola... Ele havia superado isso completamente no jogo, mas a inibição voltava, o sentimento que às vezes lhe dava vontade de simplesmente se jogar da janela em meio a dor... — Deixa pra lá, esquece. Não sei como é isso.

Ele sacudiu a cabeça, recusando-se a encarar a menina. Estava prestes a contar sobre a vida fora do jogo, a vida dele. O fato de ela ter um amigo esperando-a sempre que chegava em casa lembrou-lhe de si mesmo, de como ele desejaria isso. Tinha seus pais, é claro, mas mesmo assim... Nunca havia se sentido seguro a contar isso a alguém, e pensava que conseguiria com aquela menina. Duvidava que ela iria rir, e mesmo se risse, já havia superado esse medo. Mas ao começar a contar, ao se preparar, ele se deu conta de que estava errado. Queria muito contar a alguém, e aquela garota parecia a pessoa certa, sendo gentil e amigável como era. Entretanto, ele não conseguiu.

–É difícil falar da vida antes daqui, eu entendo — ela o consolou — Mas nós vamos voltar, eu sei disso. Já percorri mais de um quarto do caminho pra chegar ao 200 em menos de duas semanas, e você acho que mais ainda. E...

–Fica mais difícil a cada nível que aumenta.

–Eu sei bem disso, mas mesmo assim, a gente consegue...

–Eu sei — ele a interrompeu, finalmente encarando-a — Eu sei que se eu lutar, nós vamos voltar. É só que... Às vezes eu fico imaginando minha família. Saudade deles, e como devem estar se sentindo...

Repentinamente, ele se levantou.

–Vamos, precisamos passar por esses monstros.

Ele deu as costas a ela, voltando a encarar o abismo. Oculto da garota, seu rosto suava enquanto ele começava a superar a breve recaída que tivera. Quem sabe, um dia conseguiria contar a alguém.

Mas aquele dia não havia chegado. Agora, ele tinha que se preocupar com outros problemas, como atravessar aquele abismo onde não havia cordas, escadas ou fendas para se escalar.

–Você não vai conseguir achar a solução desse jeito — Kiara se aproximou, vendo que ele olhava as paredes do abismo com frequência — Não tem nada nas paredes, então não tem como.

–E o que você sugere, então?

–Esses Olhos Flutuantes — ela respondeu de imediato — Se não precisássemos deles, por que estariam aí? Não é pra nos atacar, já que não fizeram nada até agora. Talvez seja uma pista, quer dizer, eles voam, se a gente pudesse...

Seus olhos se arregalaram quando ela teve uma idéia. Sem esperar para contar ao companheiro, ela correu e pulou no abismo.

–O quê... Não, Kiara, espera! — Gatts gritou surpreso, o coração acelerado. Ela simplesmente se jogara no abismo escuro! Ele já não podia vê-la... Por alguns segundos, ele temeu que...

–Pula e segura num deles! — ele ouviu o grito dela lá de baixo, e então encarou as criaturas com novos olhos. Como ele não era do tipo que ficava parado criando coragem — porque já tinha de sobra — ele pulou.

Seus braços se agitavam no ar enquanto ele tentava agarrar um Olho Voador, qualquer um que fosse. Quando conseguiu, a criatura chiou em protesto e bateu as asas com muito mais força do que antes. Não conseguia sustentar todo aquele peso, por isso ambos caíram, mas foi uma descia gradual e lenta, como num pára-quedas. Segundos depois ele já podia ver o chão de rochas e a ansiosa menina que o aguardava.

Então ele calculou mal a altura e soltou o monstro uns cinco metros antes, aterrissando de costas no chão. A garota, como Clériga bem treinada e com um natural senso de imensa preocupação com seus companheiros, riu dele.

–Boa idéia — Gatts elogiou, ignorando a dor nas suas costas, mas isso só foi possível de verdade depois que a garota lhe aplicou um pouco de Cura.

O abismo era circular, e a única saída era uma pequena caverna que se alargava no caminho, até dar origem a um lugar comum em fases de videogame. Um rio de lava cercava toda a caverna, com algumas plataformas de magma endurecido e rocha vulcânica para servir de passagem. Os poços de lava estavam em todo lugar, mas não era difícil passar. O problema eram os monstros: cachorros, um pouco maiores que um Poodle, que a garota adorara. O mesmo não se podia dizer de Rayko, entretanto.

Aquele era apenas o primeiro mapa das Cavernas da Provação. Quando chegaram ao segundo(atravessando uma outra pequena caverna na parede que depois de alargava formando uma caverna grande parecida), os cachorros já não eram mais tão bonitinhos. Agora eram grandes e musculosos, do tamanho de um ser humano e com presas tão grandes quanto espadas. Assim que viram os dois, correram para atacá-los, e até Gatts teve que admitir que não foram fáceis. Felizmente, eram poucos e eles não precisavam se demorar muito, de modo que não deu tempo para eles reaparecerem.

O terceiro mapa era parecido com os outros, só que menor e com cachorros um pouco maiores, dessa vez, de cor beje manchada de rosa em vez de cinza. Como Gatts suspeitara, eram muito mais fortes, mas Kiara estava segura em sua Proteção Arcana e protegendo o companheiro com Cura. Era uma luta difícil, visto que ele não tinha a vantagem de os monstros serem de gelo para que ele pudesse usar sua Carga de Fogo, a única de que dispunha no momento, e dos cães serem fortes e incrivelmente resistentes. Quando faltavam dois cães, eles pegaram-o de surpresa: um deles recuou para tomar impulso e deu uma tremenda cabeçada em Gatts, que vacilou.

Ele cambaleou um pouco, deu um golpe improvisado com a espada e em seguida recuou, antes do cão voltar a atacar. Ele levou a espada à cabeça do inimigo, o que não o matou, então ele resolveu dar um pequeno salto para o lado — mas, por algum motivo que ele jamais saberia explicar, se confundira e acertara uma bela ombrada em cima de Kiara.

Foi seus reflexos que salvaram a garota naquele dia. Quando ela gritou, seu corpo já havia se movido, seu braço involuntariamente esticado para segurar o dela, interrompendo a queda na direção do rio de lava. Ele a havia empurrado para a beirada...

O cão voltou para dar a investida, mas Gatts colocou a garota no chão e pulou para o lado. O cão não foi idiota a ponto de passar direto e cair da lava, mas o rapaz deu um grito bem animalesco e o empurrou com toda a força. O animal latiu e gritou em protesto — apenas para calar-se para sempre.

–Me desculpa, que idiotice, desculpa! — o peito de Gatts chegava a doer. Não estava acostumado com companheiros, e quase matara a garota... Mas ele se surpreendeu com a serenidade e o sorriso no rosto um tanto abalado dela.

–Tudo bem, relaxa, isso acontece. Você não me deixou morrer, é o que importa — ela disse, e eles voltaram a andar. Estavam perto da próxima caverna agora.

Dessa vez, a caverna se alargava em outra caverna de teto alto, mas não havia mais poços de lava. Em vez disso, havia um monumento feito de magma resfriado e obsidiana, em um grande pedestal onde um homem estava de pé. Kiara deu um gritinho de felicidade, e ambos quase correram até ele.

–Aqueles que desejarem se aproximar do Altar de Zakum, deverão passar pelas Quatro Provações — disse o homem, quando falaram com eles. Gatts parou um momento, lembrando-se vagamente de ter ouvido tal nome no beta, mas a garota falou por ele.

–Estamos prontos para realizá-las! Vamos lá, qual é a primeira?

–Um momento — o homem ergueu a mão e olhou severamente para ela — Lamento, mas um de vocês não tem permissão para vir aqui. Vocês precisam ter a permissão dos seus instrutores, provando que eles os consideram capazes de se aventurar nessas minas profundas.

–O quê? Mas a gente tem, nós fomos lá com os... — então ela se vira, lentamente, para o companheiro.

–Espera, como assim? Tinha que pegar permissão com Instrutor?

Kiara o encarou lentamente por alguns momentos. Rayko, alerta, saiu dos seus ombros e foi ao chão.

–Idiota, BURRO, IDIOTA, RETARDADO, COMO ASSIM NÃO PEGOU PERMISSÃO COM O 3º JOB? RETARDADO, JUMENTO, MONSTRO, ANIMAL BUGADO DOS INFERNOS!!!!!!! — ela gritava socando-o com toda a força dos seus punhos, sua expressão deixando claro que ela não sabia se ria ou se sentia raiva.