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7 Chapter Six ― Beirando ao Ódio
Notas iniciais
Chapter Six
Beirando ao ódio.

Estas foram de longe as reencarnações de Elsa e Jack que mais me assustaram. Nunca em toda minha eternidade havia visto dois seres, que outrora foram tão bons e puros, se tornarem pessoas cheias de rancor, malícia, ódio e todos os sentimentos impuros que os humanos são capazes de sentir.
Não fora muito difícil encontra-los. Na realidade, estes dois seres tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, me apareceu bem antes do que eu pudesse imaginar.
Elsa Romanov e Jack Metel Frost se mostraram pra mim, antes de eu os encontrar na França em 1952, quando dançaram no gelo. Decidi mostrá-los a vocês somente agora, pois são os mais diferentes de toda a história de amor em que viveram seus antepassados e sucessores.
É difícil imaginar que uma bela e simples camponesa das províncias holandesas se tornara uma mulher tão pecaminosa, cheia de malícia. Tanto quanto imaginar que um inocente camponês, vitima da escravidão se transformara em um homem maligno, corrompido pela sede de vingança e dominado pela promiscuidade.
Mas foi exatamente o que aconteceu. E fico de certa forma, contente, por tê-los encontrado depois dessa etapa temível de sua encarnação.
• • •
Bergen, Noruega ― Século XIX (1905).
O frio daquela região montanhosa era absurdo, mesmo que os ponteiros do relógio marcassem apenas seis da tarde. O sol poente, embora mantivesse a cor alaranjada dos céus digna de um final de tarde, parecia estar ali apenas como enfeite, pois de nada aquecia as poucas casas que se despunham no terreno íngreme daquela região.
Algumas pessoas se arriscavam a sair de suas casas, emboladas em roupas extremamente grossas, para irem às vendinhas mais próximas, comprar os componentes para a janta.
Apesar de nunca sentir emoções como os humanos, eu sempre adorei fantasiar como seria estar com fome, frio; sentir o calor de um abraço ou a euforia de um beijo; até mesmo a dor de um coração partido, ou de um machucado na ponta dos dedos.
Qualquer coisa para me sentir mais real, mais verdadeira; mais humana. Naquele dia, decidi descer em terra, por nenhum motivo específico. Não foram muitas às vezes em que deixei o cosmo para acompanhar mais de perto os humanos.
Apesar de tomar forma e tamanho humanos quando descia, ainda era um espectro; não podia ser vista por ninguém exceto por algumas crianças puras e cheias de imaginação. Não podia tocar ou ser tocada.
Eu me tornava o que os humanos chamavam de Poltergaist ou “fantasma”; apenas uma presença, que podia ser sentida por aqueles de alma mais pura. Não que eu seja realmente um espectro fantasmagórico, eu sou uma Deusa. Fantasmas são seres que desencarnaram e não conseguiram encontrar seu rumo; eu, pelo contrário, nunca desencarnei. Sequer possui um corpo físico em toda minha existência.
Às vezes sentia certo incomodo ao notar que a Deusa Mão do Destino, Erínia, estava em terra também. Ao contrário de mim, ela podia alterar sua forma, sua composição e se tornar uma humana pelo tempo que desejasse. Sentia fisicamente tudo que um humano normal sentia, embora estivesse isenta de qualquer sentimento.
Por ser um espectro que controla o rumo da vida dos humanos, Erínia devia muitas vezes tomar a forma de uma mulher ou até mesmo de um homem para alterar conforme quisesse o destino das pessoas; mais um de seus belos e inacreditáveis poderes.
Acabei desviando um pouco do assunto, peço-lhes desculpa.
Eu estava passando por uma pequena venda, observando uma jovem loira de cabelos compridos (que me pareceu bastante a Rapunzel, a jovem argentina) quando um estrondo fora ouvido do lado de fora.
Um alvoroço havia começado e eu saí da pequena venda, acompanhando Rapunzel e notei que todos que se dispunham na rua naquele momento olhavam para um ponto em especifico. No alto de uma montanha, ao leste, era possível ver luzes azuis escuras se chocando umas contra as outras e subindo aos céus.
Murmúrios e lamentações eram ouvidos por toda parte. Foquei-me em Rapunzel, que estava ao lado do jovem Eugene o também argentino, amigo estúpido de Jack estúpido.
A loira suspirou.
― Eles estão lutando outra vez. ― Disse baixo, apertando com a mão direita a barra de sua blusa grossa de lã.
Eugene cerrou os punhos, com um semblante raivoso.
― De idiotene!* Pensam que são os donos de Bergen! Não podem sair por ai brincando de destruir a cidade, desse jeito vão acabar matando alguém!
Rapunzel tentou o acalmar, contudo um vento forte e congelante passou pelo lugar arrastando alguns objetos soltos por ali. Poucos segundos depois, uma neve fina começou a cair, o que pareceu preocupar ainda mais todos e irritar ainda mais Eugene que gritava com os quatro ventos.
A raiva era evidente na voz do homem, tanto que me adiantei para subir até a montanha e descobrir os culpados de tamanha confusão. Não tardei a encontrar dois seres, bem no alto da montanha, um na frente do outro.
Estavam dentro do que parecia um enorme buraco criado no chão. À sua volta, montes grandes de neve se emparelhavam. A tempestade gelada se concentrava mais forte naquele único ponto.
Aproximei-me com cautela, embora nenhum dos dois pudessem me ver.
Eram Elsa e Jack. Diferentes de qualquer vez que já havia os visto.
Elsa, embora mantivesse os cabelos dourados como sempre, estava com os fios desorganizados, no que parecia ter sido em algum momento uma trança lateral. Seus olhos, apesar de manterem o azul, não eram mais tão cristalinos. Uma mancha negra enevoava os orbes claros, tornando-a misteriosamente perigosa.
Usava um vestido longo e negro, extremamente justo na cintura e no busto e solto dos quadris para baixo. Uma fenda na lateral esquerda deixava exposta sua perna alva e torneada. Aquele vestido de mangas longas demarcava toda a sua feminilidade, expondo todas as suas curvas para quem bem quisesse ver.
Ela encarava com os olhos cerrados e a expressão fechada o homem a sua frente.
Jack, embora não tivesse com os olhos negros, tinha o seu cabelo escuro. De um preto forte que se destacava em maio a brancura do lugar. Usava uma roupa simples, consistindo em um casaco preto de capuz, e calças marrons. Não usava sapatos ao contrário de Elsa que tinha os pés tampados por um salto que afundava na neve.
Embora ela o fuzilasse com os olhos ele mantinha um semblante debochado. Um sorrisinho de lado enfeitava os lábios. Em suas mãos estava um cajado, que eu nunca vira antes.
― Não fique irritada, Elsinha. ― A voz embora grave, estava baixa, provocativa. ― Não acha bobo lutar comigo apenas para saber quem é o mais forte? Digo, muitas cidades podem ser destruídas...
Elsa franziu as sobrancelhas as mãos na cintura. Assumiu uma postura desafiadora.
― Desde quando se importa com algo além da sua própria existência, Frost? O fato de eu querer te destruir, não é bobo. ― Passou a mão direita nos os cabelos tirando os fios rebeldes dos olhos e jogando-os para trás. O gesto fora extremamente sensual aos olhos do homem a sua frente, tendo em vista que lambeu os lábios em antecipação. ― E não me chame de Elsinha. Sabe que apenas Anna tem o direito de me chamar assim.
Ela crispou os lábios. Jack deu uma risadinha debochada.
― Hadde. Tinha. ― Ele disse com a voz firme. ― Anna tinha o direito de te chamar assim. Infelizmente, ela não pode mais usar esse apelido tão carinhoso. Ou qualquer outro.
O fogo que crepitou no olhar de Elsa seria suficiente para derreter toda a neve daquela montanha.
― Você a matou. A culpa é sua. ― Ela disse com a voz esganiçada.
― Ikke, Elsa. Você a matou. Se não fosse por essa sua necessidade tola de querer ser melhor que eu, não teríamos lutado aquela noite e consequentemente Anna não teria sido atingida pelos meus poderes.
Elsa em um movimento brusco moveu suas mãos de encontro uma à outra e apontou-as para Jack. Um jato brilhante de neve seguiu rápido em direção ao albino, que se defendeu erguendo do chão uma parede média de gelo.
Tudo ficou mais claro em minha mente. Eram seres mágicos, portavam os mesmos poderes. Tinham o controle sobre a neve.
Elsa rugiu, correndo na direção de Jack, em perfeito equilíbrio embora usasse saltos. Era como se fizesse parte da neve. Ela criou diversas estacas de gelo com as mãos, lançando todos na direção de Jack que para meu espanto levantou vôo e desviou de todos como se nada tivesse acontecido.
Uma nova batalha se iniciou. Cristais de gelo eram lançados para todo lado e se chocavam uns contra os outros numa dança gelada que se não fosse mortal, consideraria a coisa mais bela que já havia visto.
Elsa cortou o ar com as mãos e em um giro firme no chão, criou uma estaca de gelo lançando-a com precisão em direção ao peito de Jack. Este por sua vez, apontou seu cajado na direção do objeto pontiagudo e com um movimento preciso, a estaca se dissolveu no ar.
Ele voou na direção dela, assustando-a, mas ao contrário do que ela pensou, ele não a atingiu com seus poderes. Pelo contrário, a agarrou pela cintura, levantando voo novamente, e subiu aos céus.
Assustada, eu voltei ao cosmo e comecei a procura-los. Não foram muito longe. Acabei os encontrando dentro de uma caverna, algumas montanhas a trás da que outrora lutavam. Jack pousou Elsa que se debateu em seus braços.
― Din idiot! Quantas vezes já lhe disse para não voar comigo?! ― Ralhou furiosa. Ela comprimiu os lábios por alguns segundos para logo abri-los e proferir uma frase que me partiu o coração.
― Jeg hater deg. Eu te odeio.
Elsa pareceu ter se arrependido do que disse no instante seguinte. Esperou uma reação agressiva de Jack, entretanto ele estava calado. O capuz da jaqueta estava sobre sua cabeça, e os cabelos negros cobriam-lhe os olhos. Ele se aproximou dela lentamente, com os olhos baixos. Elsa embora nunca fosse do tipo de se recuar, andou dois passos para trás, encontrando a parede gelada da caverna.
Em um só movimento, ele a agarrou pela cintura com força, levando a outra mão à nuca da garota e a puxando para um beijo lascivo e intenso.
Ela embora um tanto assustada, sem demora avançou as mãos nos fios negros do rapaz o puxando para perto. O ósculo era tão profundo, que mesmo a temperatura da caverna estivesse congelando e os dois fossem seres frios, o lugar de repente se tornou quente.
Jack soltou os lábios da loira, descendo os beijos por seu maxilar, até o pescoço, onde comprimiu os lábios e sugou a pele sensível e alva da mulher, que deixou um leve gemido escapar-lhe.
― Jack... ― Sussurrou em seu ouvido, sentindo o desejo consumir seu corpo. Fazia tanto tempo que não estava assim...
O gemido pareceu instigar ainda mais o homem, que a pressionou com força tremenda contra a parede mais próxima, como se quisesse aumentar o contato entre os dois corpos. Jack passeava suas mãos por todo o corpo de Elsa, enquanto esta se limitava a arfar e gemer em seu ouvido.
Ele levou a mão direita até a coxa bem torneada, exposta pela abertura do vestido e puxou-a com força para cima.
Elsa perdeu o fôlego quando sentiu a outra mão descer o vestido que cobria seu ombro direito e os lábios gelados tocar-lhe aquela região que der repente se tornara extremamente sensível.
Ele a apertava com força em seus braços, fazendo a mulher perder a noção. Suas bochechas estavam levemente coradas, seus olhos enevoados e as pupilas dilatadas mostrando o desejo que todos os simples toques dele em sua pele leitosa despertavam.
Jack embora estivesse de olhos fechados, sorria brevemente contra a pele de Elsa a cada suspiro que a loira deixava escapar. Ele não estava diferente dela. Certa região de seu corpo se avantajava sobre a calça bege que usava, deixando a mostra para ela o desejo que sentia por ter seu corpo nas mãos.
O clima estava ficando cada vez mais quente, contudo Jack parou abruptamente. Desceu a perna da loira e se afastou olhando-a firme nos olhos, que demonstravam raiva por ele ter interrompido as carícias. Ele sorriu com malícia.
Ainda próximo a ela, ameaçou beija-la, mas apenas mordiscou seu lábio inferior, vendo a expressão dela sair rapidamente da irritação e voltar para o prazer lascivo. Ela fechou os olhos, soltando um gemido sôfrego, como um pedido sem palavras para que ele não a torturasse daquela forma.
Ela precisava dele. Intensamente.
― Deve ser difícil pra você me odiar tanto e ao mesmo tempo nutrir o oposto por mim. ― Ele falou sério. Elsa abriu os olhos de repente.
― Do que é que você-
― Não precisa negar Elsa. ― Ele a interrompeu. ― Esse calor que queima no seu peito toda vez que estamos pertos um do outro, eu conheço bem. Sei o que sente por mim.
Elsa estava calada, os lábios juntos em uma linha fina. Não se atrevia a fazer movimento algum, apenas observava os olhos azuis de Jack. Ele não podia estar falando sério... Podia?
― É horrível, não é? Eu também o sinto. Apesar de não querer. A gente não pode. ― Continuou. ― E mesmo que eu o sinta, irei negar pro resto de minha vida. E creio que você também irá.
― Talvez um dia a gente consiga mudar. ― Ele olhou para cima como se imaginasse algo. ― Em outra encarnação, talvez.
Sorriu brevemente. Elsa se permitiu acompanha-lo
― Men selv der... Mas até lá... ― Ele colou seus corpos, roubando-lhe outro beijo cheio de malícia, levando a mão até suas nádegas e apertando com força. Elsa gemeu em seus lábios. ― A gente pode ir disfarçando nosso amor com ódio.
Sorrindo brevemente para Elsa que o encarava estupefata, ele saiu da caverna e levantou voo novamente, sumindo na escuridão que já havia tomado o céu. Ela olhou irritada para a entrada da caverna. Seu corpo estava quente, ansiando por mais toques promíscuos do homem. Só ele a deixava daquela maneira. E ela o odiava por aquilo, mais que tudo no mundo.
Aproximou-se da beirada da caverna, e num único movimento, se jogou para fora. Desceu a pequena montanha, deslizando os pés na neve, criando uma camada de gelo firme por onde seus pés tocavam. Gelo firme sobre neve fofa.
Ao chegar ao chão firme, ajeitou o vestido e passou a mão nos cabelos, no mesmo movimento que outrora excitara Jack. Sorriu maliciosa, mordendo o lábio inferior, ainda vermelho devido aos beijos provocativos que há pouco recebera.
Iria procurar Jack. Ele não a deixaria com tamanha vontade para em seguida deixa-la sem satisfazê-la. Ela sabia bem onde podia o encontrar.
E quando o fizesse, eles terminariam o que começaram.
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